domingo, abril 26, 2015

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"Só pra exercitar..." A igreja que nada contra a corrente




Por Hermes C. Fernandes


Dois meses antes de casar-me, resolvi fazer uma viagem para conhecer o Pantanal matogrossense. Seria a minha despedida de solteiro. Fiquei hospedado na casa de um presbítero de uma igreja de Cuiabá chamado Severino. Em um de nossos passeios, visitamos uma região de muitas cachoeiras. Conheci um rio caudaloso, de correntezas muito fortes, e com várias quedas acentuadas. Meu amigo desafiou-me a atravessar o rio a nado. Nem deu tempo para que argumentasse com ele. Quando vi, ele já estava dentro d’água. Fiquei observando, temeroso, porque a poucos metros havia uma grande cascata. Sem muita dificuldade, ele chegou ao outro lado e fez sinal para que eu fizesse o mesmo. – Bem, pensei comigo - se ele pode, também posso. Mergulhei e comecei a nadar. A correnteza me empurrava, e comecei a me desesperar ao perceber que estava cada vez mais próximo da cachoeira. Vendo meu desespero, meu amigo mergulhou e saiu em meu socorro. Em vez de levar-me direto para o lado onde havíamos estacionado o carro, Severino nadou na direção oposta. Depois do susto, ele me disse: – Agora vamos ter que voltar para o outro lado. – Mas como? perguntei. – Você quer me matar? Calmamente, Severino me explicou o ‘macete’ para atravessar a correnteza. Eu teria que nadar numa reta diagonal oposta à correnteza, de maneira que, mesmo me empurrando, não conseguiria me arrastar até a altura da cachoeira. Tomei coragem e fôlego e resolvi encarar.

Este episódio me ensinou uma importante lição que serve como analogia do papel da igreja inserida no mundo.

Qualquer pai gostaria de proteger seus filhos, colocando-os numa redoma. Porém isso não contribuiria para o seu amadurecimento, nem para o cumprimento de sua vocação. Nossos filhos devem ser preparados para o mundo.

Em Sua oração sacerdotal, Jesus pede ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo.17:15-18).

Se Jesus rogasse para que o Pai nos removesse do mundo, em vez de santificados, seríamos alienados. Não podemos ficar à margem do rio, apreciando suas correntezas, enquanto nos mantemos enxutos. Temos que mergulhar de cabeça, na certeza de que, se nos virmos em apuros, o Pai virá em nosso socorro.

Porém, para sobrevivermos ao ambiente hostil deste mundo, temos que aprender a nadar contra a correnteza. Um exemplo clássico encontrado nas Escrituras é o de Daniel e seus companheiros exilados na Babilônia. Eles foram inseridos dentro daquela cultura, mas não foram assimilados por ela. Embora vivendo dentro dos palácios, não comeram do manjar do rei.

Deixe-me usar uma analogia para compreendermos a diferença entre inserção e assimilação.

Se você preparar um copo de suco daqueles em pó, perceberá que ele se diluirá na água. É claro que a água será alterada, tanto no sabor, quanto na cor e na textura. Mas o pó se perderá. Não há como recuperá-lo, pois foi assimilado pela água. Já o processo usado para fazer chá é diferente. Mergulha-se a trouxinha de chá na xícara de água quente, de maneira que suas propriedades são absorvidas pela água, alterando igualmente seu sabor, cor e textura. Porém, as folhas do chá não se dissolvem na água. Elas estão guardadas dentro da trouxinha. A este processo chamamos de inserção. O chá foi inserido, mas não assimilado.

Não fomos tirados do mundo, mas enviados a ele com a missão de transformá-lo. Porém, ao nos inserirmos nele, entramos numa rota de colisão com seus interesses, valores e princípios. Somos enviados na contra-mão das tendências que nele predominam. Somos considerados corpos estranhos que devem ser combatidos por anti-corpos hostis. Jesus deixou claro aos Seus discípulos: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas como não sois do mundo, antes, dele vos escolhi, é por isso que o mundo vos odeia” (Jo.15:18-19). Tornamo-nos uma ameaça ao status quo, pois somos portadores de uma mensagem subversiva e revolucionária proveniente de outro mundo, a saber, o mundo porvir. Esta mensagem vem na direção oposta aos interesses deste mundo, por isso, eventuais colisões são inevitáveis.

Repare no que Paulo diz:

“Ele vos vivificou, estando vós mortos nossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo…” (Ef.2:1-2a).

Antes estávamos sendo arrastados na direção do abismo, e por estarmos espiritualmente mortos, não tínhamos condição de reagir. Mas agora que fomos vivificados, somos impulsionados pelo Espírito, não para deixarmos o mundo, mas para encararmos suas correntezas.

Tal qual Jesus, não pertencemos ao mundo. Porém, somos enviados a ele. Não se trata, portanto, de pertencimento, mas de engajamento.

Posso imaginar o tom grave da voz de Jesus ao declarar aos Seus discípulos: “Ide. Eu vos envio como cordeiros ao meio de lobos” (Lc.10:3).

Isso significa que o risco de serem devorados era real. O terreno para o qual Jesus os estava enviando era minado. Portanto, eles não deveriam ser ingênuos, e sim “prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt.10:16b). Num certo sentido, estar no centro da vontade de Deus é expor-se ao perigo constante. No dizer de Paulo, “estamos sempre entregues à morte por amo de Jesus” (2 Co.4:11a). Sem a prudência das serpentes, estaríamos vulneráveis aos constantes imprevistos. Sem a simplicidade das pombas, assimilaríamos a maldade do mundo, tornando-nos semelhantes a ele. Há que se cultivar essas duas virtudes para que mantenhamos o equilíbrio, sem perder a essência. Prudência sem simplicidade nos faz maliciosos. Simplicidade sem prudência nos faz ingênuos, portanto, presas fáceis.

Cabe aqui a advertência de Paulo: “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento” (1 Co.14:20). O problema é quando invertemos a ordem, tornando-nos meninos no entendimento, e adultos na malícia. É como querer boiar na correnteza… Somos açoitados por sua impetuosidade, e levados na direção oposta a que deveríamos seguir. O mesmo apóstolo nos admoesta a que “não sejamos mais meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia induzem ao erro” (Ef.4:14).

Jamais nos esqueçamos de que não pertencemos a este mundo, mas ao mundo do futuro. Por isso, o ambiente do mundo nos parece hostil. O nadador sabe que não é um ser aquático. Ele não é peixe. Não pode respirar dentro d’água. Por isso, tem que voltar à superfície com regularidade para recobrar o fôlego. Ele sequer precisa deixar a água para respirar. Basta posicionar suas narinas de maneira tal que possa encontrar o ar de que necessita pra viver.

Igualmente, vivemos na fronteira entre este mundo e o mundo porvir, de onde provém nosso fôlego espiritual. Nossa sobrevivência depende de nossa constante comunhão com o Espírito Santo. “Enchei-vos do Espírito!”, exclamaria Paulo (Ef.5:18). Não se trata de algo opcional. Não manter o ritmo da respiração enquanto se enfrenta as correntezas, poderá ser fatal.

E como se dá esse enchimento? Quando nos congregamos para ouvir e compartilhar daquilo que Deus nos tem provido. É na congregação que aprendemos o caminho da convivência, sendo desafiados a superar nossas diferenças, sujeitando-nos uns aos outros (Ef.5:18-21). É lá que aprendemos a nos considerar uns aos outros, “para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb.10:24b).

A vida acontece lá fora, dentro do contexto social nos qual estamos inseridos. Porém, o fôlego espiritual do qual dependemos para sobreviver recebemos na comunhão com os santos, na dinâmica dos relacionamentos entre os irmãos.

quinta-feira, abril 23, 2015

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Os índios e um novo paradigma missionário



Por Hermes C. Fernandes

Quando as caravelas comandadas por Pedro Álvares Cabral aportaram no Brasil, estima-se que aqui vivessem entre 3 e 4 milhões de índios.  Quinhentos anos depois, quando a população brasileira beira 200 milhões, a população indígena gira em torno de míseros 550 mil, divididos em 225 povos e 180 línguas. Uma lástima. Praticamente dizimamos povos que habitaram as Américas por séculos, talvez milênios, antes de chegada dos europeus. 

Inicialmente, nós os enganamos com nossos apetrechos. Eles até acreditaram que éramos deuses. Depois, tentamos escravizá-los, mas eles, heroicamente, não cederam.  Sem saber, trouxemos doenças para as quais eles não tinham anticorpos para resistir. Tachamos sua cultura de demoníaca. Impusemos nossa fé pela catequese e pela espada. Incendiamos suas aldeias. Estupramos suas mulheres. Tomamos suas terras. Apropriamo-nos de suas riquezas naturais. E os poucos que restaram sofrem constante pressão para sejam assimilados por nossa sociedade consumista. 

O que se poderia esperar?

Somos os invasores. Os usurpadores. Se ao menos os respeitássemos, talvez a história fosse diferente.

A minha geração foi doutrinada ideologicamente pela sessão da tarde. Cresci assistindo a filmes de bang-bang em que, invariavelmente, os índios eram apresentados como vilões.

Nasci e cresci na igreja, e confesso que nunca ouvi um único sermão acerca deles. Para a igreja, eles não passavam de um campo missionário. Nosso dever, portanto, era levar-lhes, não apenas o evangelho, mas também os valores da civilização. Sentíamo-nos realizados ao receber a visita de algum índio convertido trajando terno e gravata.

Quem me ensinou a respeitar sua cultura foi um célebre ateu: Darcy Ribeiro. Um antropólogo que deixou o conforto dos centros urbanos para viver entre eles. Em vez de tentar mudá-los, Darcy procurou compreender seus costumes e explicá-los aos ‘civilizados’ da selva de pedra.

Já me deparei com pastores e missionários levantando campanhas para distribuir bíblias e ‘roupas decentes’ às comunidades indígenas, mas nunca encontrei entre eles quem defendesse seus direitos.  Parece que, para isso, Deus conta mesmo é com os ateus.

Será que as Escrituras nos oferecem alguma base que respalde uma relação respeitosa com os índios?

Em Atos 28, lemos sobre o episódio em que Paulo e os tripulantes de um navio sobreviveram a um naufrágio à caminho de Roma. Lucas, o autor do relato, diz que estando já salvos, souberam que estavam numa ilha chamada Malta. “Os indígenas usaram conosco de não pouca humanidade”, relata, “pois acenderam uma fogueira e nos recolheram a todos por causa da chuva que caía, e por causa do frio”(Atos 28:2).

É claro que os tais “indígenas” nada tinham a ver com os nossos índios. Algumas traduções trazem “nativos” em vez de “indígenas”. Mas, o fato é que aquela era uma população que vivia às margens do restante da civilização. Em vez de demonstrarem hostilidade, eles usaram de humanidade para com os forasteiros. Portanto, não eram animais desprovidos de alma, como alguns religiosos alegavam acerca dos índios, e posteriormente acerca dos negros. Tal alegação tinha como objetivo justificar sua eventual conquista e escravização.

Os tais indígenas de Malta acenderam uma fogueira para aquecer os náufragos. Concluímos daí que não eram selvagens. Dominar o fogo requer certa sofisticação. Aliás, de acordo com alguns antropólogos, a cultura humana se desenvolveu a partir do momento em que o homem aprendeu a fazer fogueiras. Proponho que tratemos a fogueira acesa pelos habitantes de Malta como uma analogia da cultura humana.

Para que serve a cultura? (Refiro-me a qualquer cultura, inclusive a indígena). Para tornar menos traumática a estada humana na terra.

Desde que o mundo se revelou hostil à presença humana, temos buscado meios de tornar o ambiente mais acolhedor. Já que os espinhos e cardos são inevitáveis, é melhor que estejamos preparados para enfrentá-los. Para tal, nada melhor do que estarmos juntos. Surge aí a necessidade da linguagem. O acúmulo de experiências precisaria ser repassado às próximas gerações. Surge, então, os desenhos rupestres, que mais tarde dariam lugar à escrita. Para nos defender de espécies mais fortes, criamos armas. Para nos proteger do frio, inventamos roupas e acendemos fogueiras. Para garantir que a comida não se estragasse, aprendemos a salgá-la e cozinhá-la. E na busca de um sentido para tudo, desenvolvemos a espiritualidade.

Cada grupo humano seguiu seu próprio caminho no desenvolvimento de sua cultura. Não há culturas superiores às outras. Cada uma tem sua beleza, seus valores, suas idiossincrasias e vicissitudes.

Qualquer abordagem intercultural deve partir desta premissa.

Voltando ao texto bíblico, quando Paulo percebeu que aquela fogueira fora acesa para prover-lhes algum conforto, levantou-se do lugar, embrenhou-se pela mata em busca de gravetos para alimentar suas chamas (v.3).

Infelizmente, não foi esta a abordagem dos europeus com os índios das Américas. Em vez de alimentar sua chama cultural, preferiram extingui-la. Impérios como o dos incas e astecas foram pilhados. Uma incomensurável riqueza cultural foi reduzida a nada. Algo parecido com o que o Estado Islâmico está fazendo com os sítios arqueológicos do Oriente Médio em nossos dias. Estátuas e edifícios de cinco mil anos estão sendo destruídos ante o olhar escandalizado do mundo ocidental, como se nós não houvéssemos feito o mesmo com as culturas pré-colombianas.

É claro que não podemos fazer vista grossa à malignidade encontrada em qualquer cultura. Nenhuma delas está isenta disso.

O relato de Lucas afirma que enquanto Paulo alimentava aquela chama, “uma víbora, fugindo do calor, apegou-se-lhe à mão”. Ora, qualquer abordagem cultural que tenha o respeito como ponto de partida enfrenta riscos iminentes.  Mas, repare que aquela víbora não o atacou enquanto ele se embrenhava na mata, e sim quando se pôs a lançar os gravetos no fogo. É provável que ela tenha vindo entre os próprios gravetos. Paulo simplesmente ignorou sua presença. Bastou que os feixes fossem lançados na fogueira para que a víbora saltasse fugindo do calor e se apegasse à sua mão.

Assim como mordeu a Paulo, poderia ter mordido a qualquer outro. Mas certamente o mordeu devido à sua proximidade da fogueira. Quanto mais próximos da cultura, mais expostos estamos aos perigos que ela representa.

Nem sempre o mal é oriundo da cultura para a qual nos propusemos ministrar. Às vezes, nós mesmos somos seus portadores, os responsáveis por introduzi-lo, mesmo que nossa motivação seja a mais louvável possível. Aqueles gravetos eram a contribuição particular que Paulo estava dando à manutenção do fogo. Ele não podia supor que entre eles havia uma víbora. Infelizmente, com os gravetos trazidos pela pregação do evangelho, também trouxemos nosso moralismo que por vezes beira ao legalismo fanático, além de nossos preconceitos e pressupostos.

Não bastasse estar exposto ao veneno da víbora, Paulo teve que lidar com o julgamento precipitado daquele povo. Lucas nos conta que “quando os indígenas viram o réptil pendente da mão dele, diziam uns aos outros: Certamente este homem é homicida, pois, embora salvo do mar, a Justiça não o deixa viver” (v.4).

Semelhantemente, quem quer que busque interagir com uma cultura diferente da sua poderá ser censurado, tanto por seus pares, quanto pelos componentes daquele grupo. Nossas motivações serão postas em xeque. Nossa abordagem será questionada. Principalmente se, em algum momento, nossa fragilidade for exposta.

Paulo não se preocupou em se defender ante a acusação de que seria um homicida foragido da justiça. Ele simplesmente sacudiu a víbora, devolvendo-a ao fogo. Todos ficaram na expectativa de que a qualquer momento ele caísse morto, pois sabiam que aquela víbora tinha veneno mortífero. O tempo passou sem que ele apresentasse qualquer sintoma. Os mesmos que o julgaram digno de morte passaram a acreditar que ele fosse um deus. Se Paulo quisesse se aproveitar disso, se tornaria o rei daquela ilha.

Muitos europeus se aproveitaram da superstição dos índios para se assenhorear deles como se fossem deuses. Paulo tomou a direção inversa. Em vez disso, foi convidado a hospedar-se na casa de Públio, o principal homem da ilha. Diferente dos europeus que aportaram nas Américas, o apóstolo não requisitou as terras descobertas para alguma coroa. Mas reconheceu em seu anfitrião o direito à propriedade de boa parte delas.

O que nossos índios têm reivindicado não é algum privilégio, mas o direito às terras de seus ancestrais.  “Não é a terra que nos pertence! Nós que pertencemos a terra”, teria dito um deles. Tirar-lhes isso é o mesmo que privar-lhes da vida. Desempossá-los de suas terras é cometer genocídio.

Reconhecer o seu direito a terra não é uma questão de caridade, mas de justiça. Não estamos fazendo nenhum favor, mas tão-somente devolvendo-lhes o que sempre lhes pertenceu. Nós somos os invasores aqui. Eles são, por assim dizer, os verdadeiros brasileiros.

O texto sagrado diz que Paulo foi visitar o pai de Públio que estava enfermo com febre e disenteria.  Não seria impróprio imaginar que aquela enfermidade tenha sido trazida pelos próprios náufragos. Basta ler os versos que se sucedem para ver que ela se espalhou rapidamente entre os moradores. Naquela época, ninguém imaginava que algo assim poderia acontecer. Hoje, porém, sabemos que os europeus trouxeram consigo doenças que ajudaram a dizimar a população indígena. O fato é que eles não possuíam anticorpos para combater tais enfermidades. Mesmo desconhecendo tais fatos, Paulo toma para si a responsabilidade e ministra sobre todos os enfermos da ilha, curando-os em nome de Jesus.

O relato termina dizendo que os nativos abasteceram o navio em que prosseguiriam viagem com todas as coisas que lhes seriam necessárias.

Se Paulo e os demais se houvessem aproveitado na ingenuidade daquela gente, talvez a história não tivesse este desfecho.

O que impede certa interação entre culturas é o fato de umas se acharem superiores às outras. Missionários deveriam ater-se a levar a boa nova, sem bagagem cultural extra.

Em vez de ir a eles no afã de levar-lhes o que não têm, que tal se fôssemos a eles em busca de algo que Deus confiou-lhes na edificação do reino de Deus na terra? Trata-se, portanto, da quebra de um paradigma missionário que têm se mantido por quase quinhentos anos.  Não partimos do pressuposto de que nossa cultura é superior à do outro e sim de que nossa cultura, por mais rica que seja, não está completa. Por isso, recorremos ao outro na busca por sua contribuição. Em cada cultura, Deus tem depositado uma riqueza única que deverá ser introduzida na Sociedade Definitiva, aquela que se apresenta nas Escrituras como a Nova Jerusalém, cumprindo assim a profecia que diz: As tuas portas estarão abertas de contínuo; nem de dia nem de noite se fecharão; para que te sejam trazidas as riquezas das nações(Is.60:11; Ap.21:24-26).

Quanta coisa poderíamos ter aprendido com os astecas e incas se não os houvéssemos dizimado? Quanta coisa poderíamos aprender com os tupis-guaranis se tão-somente descêssemos de nosso pedestal cultural? Quanta riqueza Deus tem depositado entre esses povos e tantos outros ao redor do globo, como esquimós no Ártico, os aborígenes no outback australiano, os africanos, os ciganos espalhados pela Europa, etc.?

Semelhante a Paulo, nossa jornada ainda não está completa. Talvez Deus até nos permita amargar o naufrágio de nossa civilização para que nos abramos a acolher a contribuição de tais culturas.

Abaixo, um poema que compus tempos atrás que aborda o paradigma colonialista que tem caracterizado muitas das investidas missionárias dos últimos quatro séculos.

CatequesePor Hermes C. Fernandes


Quanta pretensão a minha!
Achar que detinha
o monopólio da raça

Que estupidez a minha!
Pensar que eu vinha
com o portfólio da graça

Eu com catequese
Tu com hospitalidade
Um rio que não se represe
desafia minha vaidade

Eu, civilizado
Tu, selvagem
Eu, educado
Tu, à margem

Teu sorriso fez calar o meu sermão
Onde piso não há lama, não há chão
O meu siso já nasceu, dói mais não
Meu juízo se perdeu na razão

O que pensava te levar
Tu trouxeste a mim
O Deus que fui te apresentar
Surpreendeu-me enfim

Minhas roupas, meus costumes
Não parecem te atrair
Tu me poupas de queixumes
Te contentas com o que vir

Não bastasse a pretensão
de impor as minhas crenças
Além da religião
Também trago-lhe doenças

Pela fé no deus do império
Te escravizo, te anulo
Roubo todo teu minério
Te ironizo, te rotulo

Quem levaria a sério
interesse travestido de amor
Se em nome do Mistério
se explora até a dor?

Com a cruz que se estampa
tanto escudos e brasões
Se conquista, se acampa
tantos mundos e rincões

Se déssemos ouvidos
ao que diz nosso Senhor
Em vez de oprimidos,
gente livre em amor

Que vergonha, que vexame
Deus não está nas catedrais
E quem sonha, busque ou ame,
Vai encontrá-lo nos quintais

Sob pontes, a relento
Em barracos de sapê
Na favela, assentamento
onde ninguém pode ver
Não te afrontes, te apresento
Nosso Rei e bem-querer




quarta-feira, abril 22, 2015

16

Nada que provar a ninguém!



Por Hermes C. Fernandes

Desde pequenos, somos acostumados a buscar cativar a atenção dos nossos pais através de nossas estripulias. Queremos atenção! Não aceitamos outro lugar que não seja o “centro do Universo”. Todos os olhares têm que se estar voltados para nós. Porém, descobrimos que não somos os únicos a disputar esse lugar de primazia. Surge, então, o espírito competitivo.

A criança grita, esperneia, vira cambalhota, põe fogo no colchão, tudo para roubar a atenção que os pais estão dando a seu irmão menor. Este espírito competitivo vai nos seguir a vida inteira. Seja no ambiente profissional, familiar, acadêmico, e, por incrível que pareça, até no ambiente da igreja.

Uns acreditam que a maneira mais eficiente de chamar a atenção é despertando pena nos demais. Esses estão sempre se queixando da vida. Alimentam sua carência com os olhares complacentes dos outros. Sua sina é ser vítima.

Outros acreditam que seja mais eficiente chamar a atenção se envolvendo em peripécias. Esses alimentam sua carência através dos conselhos inúteis e das críticas incessantes ao seu estilo de vida. O que lhes satisfaz é ser vilão.

Há os que tentam chamar a atenção para si através de suas boas obras. E o ambiente eclesiástico é muito propício a isso. Jesus denunciou os fariseus que pagavam alguém para tocar a trombeta enquanto davam esmolas. Queriam que todos notassem o quanto eram bons. Esses são os que almejam o papel de herói. Não pelo heroísmo em si, mas pelo glamour que só os protagonistas experimentam.

Nos círculos mais místicos, como os pentecostais, muitos buscam chamar a atenção para si através de uma hiper-espiritualidade. Nesses ambientes, geralmente se mede a espiritualidade das pessoas pelo volume da voz enquanto falam em línguas ou glorificam a Deus.

A graça rompe com tudo isso!

O que alimenta a competitividade é o fato de acharmos que só seremos aceitos se fizermos por onde, se nos adequarmos às expectativas das pessoas do grupo. Mas quando descobrimos que Deus nos aceita a despeito de nosso merecimento, tal ciclo é rompido.

Já não temos que provar nada pra ninguém.

Somos livres para sermos aquilo para o qual fomos criados, sem nos preocupar em dar explicações.

Nosso objetivo já não é impressionar quem quer que seja, mas simplesmente servir e amar despretensiosamente.

E quanto mais nos livramos do jugo das expectativas humanas, mas deixamos livres as pessoas ao nosso redor.

Encerram-se as disputas e as comparações. Ninguém mais faz questão de ter a razão em tudo. Somos livres para amar e acolher, e sermos amados e acolhidos.

Só a graça promove um ambiente saudável onde os indivíduos possam crescer espiritual e emocionalmente.

Por não termos mais o que provar a ninguém, preferimos a discrição. Em vez de pagar um trombeteiro para chamar a atenção para nossas boas obras, preferimos praticar o que Jesus recomendou: Dar com a mão direita, sem que a esquerda saiba.

terça-feira, abril 21, 2015

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Um Deus de Surpresas em um Mundo de Certezas



Por Hermes C. Fernandes


Houve tempo em que o ser humano enxergava a vida como algo sagrado, e o futuro como algo inusitado, repleto de mistério. Aí residia a beleza da vida. Tudo podia acontecer. Por isso, o homem se agarrava à divindade, em busca de alguma garantia.

Não havia planejamento familiar. De repente...pimba! a mulher se engravidava. E por nove meses, ninguém sabia o sexo da criança. Até que... surpresa!

Com o advento da ciência, o homem se viu capaz de fazer certas previsões.

Baseados em dados estatísticos adquiridos em pesquisas pré-liminares, pode-se prever quem será o candidato eleito. Com um aparelho de ultra-som, pode-se saber o sexo do nenê. Satélites meteorológicos dizem com certa precisão se vai chover ou fazer sol nos próximos dias. Finalmente, o homem parece ter se tornado senhor do seu próprio destino. Nada mais o apanharia de surpresa.


Tudo ia bem, até que se descobriu a mecânica quântica. As postulações newtonianas de que pela ciência as leis da natureza poderiam ser decodificadas, tornando-a previsível e domesticável caíram por terra. No mundo subatômico nada é previsível. Não há como determinar a posição exata de uma partícula. Aliás, o que é partícula em uma primeira olhada, pode ser onda na segunda verificação. Até a ordem temporal é subvertida.


Surpresa! As descobertas da física quântica foram permitidas por Deus para que a presunção humana fosse desbancada, e o homem redescobrisse o valor da surpresa.

Enquanto a física clássica, defendida por Newton, se atreve a falar da realidade, a física quântica, mais humilde, fala de probabilidades. A realidade não é o que parece ser. O que existe são ondas de probabilidades ou ondas de matéria. Todas as leis da física quântica são expressas em termos dessas probabilidades. O próprio fundamento da visão mecanicista - o conceito de realidade da matéria - foi posto abaixo, pois no nível subatômico os materiais sólidos dissolvem-se em padrões de probabilidades semelhantes a ondas.

Suscito aqui uma questão: nossa ralação com Deus e com o futuro se baseia em certezas ou em surpresas?

Ora, sabemos pela Bíblia que a relação do homem com Deus só é possível mediante a fé. E qual seria a definição bíblica de fé?

“Ora, a fé é a certeza das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem.”Hebreus 11:1

A princípio, fica claro que nossa relação com Deus deve ser pautada na certeza. Mas certeza de quê? Será que tal certeza suprimiria qualquer possibilidade de surpresa? Basta avançarmos no famoso texto conhecido como galeria dos heróis da fé, pra nos darmos conta de que a certeza da fé não descarta uma caminhada com Deus repleta de surpresas.

“Pela fé Abraão, sendo chamado para um lugar que havia de receber por herança, obedeceu e saiu, sem saber para onde ia” (Hb.11:8). A fé do patriarca fez com ele se dispusesse a deixar sua zona de conforto, para sair ao encontro do desconhecido. A vida pela fé é uma vida de aventura radical.

Somos informados que Abraão “esperava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor”(v.10). Então, ele esperava por algo, e tinha certeza de que se concretizaria, fosse em seu tempo de vida, ou das próximas gerações. Esta era a sua certeza. Quando se fala de surpresas, fala-se de incertezas.

A vida de fé também é uma vida de incertezas. Não sabemos o que nos aguarda na próxima curva da estrada. Temos um vislumbre do que nos espera no final, mas não do que nos espera no caminho.

Vivemos a dialética entre certezas e surpresas. A síntese resultante desta dialética é a fé. Fé é a confiança absoluta n’Aquele que nos guia pela estrada da existência. Não é simplesmente crer em fatos, mas crer em uma Pessoa. É arriscar tudo em Seu caráter fidedigno. Como fez Sara, que“teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa” (v.11b). E não apenas crer no caráter divino, como também em Sua capacidade em cumprir o que prometera. Paulo diz que Abraão“não duvidou da promessa de Deus, deixando-se levar pela incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus, estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para cumprir” (Rm.4:20-21).

Às vezes Deus nos revela o “quê”, mas não nos revela os pormenores, o “como”, ou o “quando”. E isso para que não percamos o prazer proporcionado pela surpresa. Tudo indica que Deus Se alegra em nos surpreender. Ele não quer que nosso relacionamento com Ele caia na mesmice, na monotonia, e assim, se torne entediante. Antes o estresse da expectativa do inesperado, do que o tédio produzido pelo previsível. Por isso, Deus não cabe dentro de padrões. Ele é absolutamente imprevisível! Querer prever Suas ações baseado em episódios anteriores é, no mínimo, uma completa idiotice.

Ele não costuma ser repetitivo, redundante. Quantas vezes Ele abriu o Mar? Apenas uma. De outra feita, Ele preferiu andar por cima das águas. Ele sempre surpreende. Impossível prever Seus movimento!

Tal como o marido, que para manter acesa a chama da paixão, procura surpreender sua amada de tempo em tempo. Não há veneno mais prejudicial para o casamento do que a monotonia. E não há antídoto mais poderoso do que a surpresa. Pergunte a uma esposa que foi surpreendida com um bouquet de flores em uma data qualquer.

A vida com Cristo é sempre repleta de surpresas. Durante Sua trajetória neste mundo, Ele sempre surpreendeu Seus seguidores, e até Seus opositores. Ele nunca dava a resposta que as pessoas esperavam receber. Suas parábolas eram cheias de suspense.


Será que o filho pródigo esperava ser recebido com festa pelo seu pai? Será que o homem moribundo esperava ser socorrido logo por um samaritano?

Os apóstolos também aprenderam desde cedo que Deus é um Deus de surpresas. Ou será que Pedro esperava que Cornélio fosse repentinamente cheio do Espírito enquanto ele ainda pregava?

Até piada, se contarmos o final, perde a graça!

Deus usualmente mantém certo suspense para não estragar a surpresa. E não falo apenas de surpresas agradáveis. A vida também nos reserva surpresas desagradáveis. E quando Deus mantém o segredo referente a isso, Ele deseja nos poupar de um sofrimento antecipado.

Em sua despedida dos efésios, Paulo declarou:

“E agora, compelido pelo Espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer. Somente sei o que o Espírito Santo de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações” (At.20:22-23).

Paulo não tinha ideia dos pormenores daquilo que o esperava. Ele não podia supor que seria confundido com um terrorista egípcio em Jerusalém, e que isso lhe renderia uma prisão injusta (At.21:38). Ele não podia imaginar que seria alvo da conspiração de judeus que se dispuseram a jejuar até que sua vida fosse ceifada (At.23:12). Ele jamais preveria passar por um naufrágio (At.27:13-44). Tudo isso é apenas um resumo do que Paulo teve que passar depois de despedir-se dos anciãos de Éfeso. Será que Deus foi injusto em lhe poupar de saber dos detalhes de tudo quanto sofreria por amor à causa de Cristo? Absolutamente, não.

Já que Jesus é a nossa vida, posso parafrasear o Zeca Pagodinho, dizendo: “Deixo Cristo me levar, Cristo leva eu...”

Sejam quais forem as surpresas desagradáveis que nos aconteçam, temos a certeza de que após essas acentuadas curvas na estrada da vida, surpresas maravilhosas estão a nos aguardar.

Minha única certeza é que no final teremos surpresa.

“As coisas que o olho não viu...”, surpresa!

“...e o ouvido não ouviu...”, surpresa!

“...e não subiram ao coração do homem...”, surpresa!

“...são as que Deus preparou para os que o amam” (1 Co.2:9).

Você tem idéia do que nos espera no final da estrada? Não? Nem eu! Você imagina, por exemplo, quem você vai encontrar do outro lado? Não? Nem eu! E não me arrisco a dar qualquer palpite.

Será que Estêvão, o primeiro mártir cristão, esperava encontrar Paulo na eternidade? Por isso, não temos o direito de apontar quem é ou não escolhido por Deus à salvação.

Pode ter certeza... teremos surpresas.

Onde está o Espírito do Senhor, aí há surpresas. Ele nos conduz de surpresa em surpresa, até a Surpresa Final.


Publicado originalmente em 18/02/2010

segunda-feira, abril 20, 2015

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Você já teve um Déjà vu?



Por Hermes C. Fernandes

Déjà vu é uma reação psicológica em que o indivíduo tem a impressão de já ter estado no mesmo lugar antes, ou já ter visto alguém com quem acaba de encontrar, ou ainda, já ter vivido uma situação. O termo é uma expressão da língua francesa que significa, literalmente, já visto.

Quem nunca foi invadido por esta sensação súbita? Quem nunca se pegou pensando: 'eu já passei por isso"?

E por que passamos por isso? Por que somos levados a viver a mesma experiência repetidas vezes? Creio que a vida se assemelha a uma escola. Estamos aqui pra aprender. Assim como um aluno é obrigado a revisar toda a matéria já estudada ao ser reprovado, só avançamos em nossa jornada existencial depois de haver aprendido as lições ministradas em cada etapa. Portanto, se sentimo-nos como os hebreus andando em círculo pelo deserto do Sinai, é possível que ainda não tenhamos avançado em nossa compreensão dos propósitos de Deus. 

Acredito que foi esta a sensação que Pedro teve em um de seus últimos encontros com Jesus. Três anos e meio se passaram, desde que se encontrara pela primeira vez com o Filho de Deus. O cenário era o mesmo: o mar de Tiberíades (também conhecido como Mar da Galiléia). A situação, idem. Depois de uma noite inteira de redes vazias, Pedro já estava desanimado. Toda sua experiência como pescador não fora suficiente para garantir-lhe uma boa pesca. Parecia que o mar não estava pra peixe. 

"Eu já vi este filme antes", pensaria Pedro se vivesse em nossos dias. Só falta aparecer Jesus! 

De repente, ouve-se uma voz:

- Filhos, tendes alguma coisa de comer?

A voz soou familiar, mas ninguém se atrevia a arriscar um palpite. 

A resposta era óbvia: NÃO!

Pelo que Jesus ordenou: 

- Lançai a rede à direita do barco e achareis.

Até aquele momento tudo os remetia àquele primero encontro. Porém, a ordem dada à época diferia daquela dada então. Da primeira vez, Jesus ordenara que lançassem a rede em alto mar. Porém, agora, ordenou-lhes lançá-la do lado direito do barco.

Mesmo que Ele nos permita viver situações semelhantes, Ele tem liberdade para dar-nos instruções diferentes em cada uma delas. Por isso, parece-me inútil acreditar que se possa decorar Seu modus operandi. Seus movimentos são imprevisíveis. 

Ainda que a lição a ser aprendida seja a mesma, Ele sempre inclui algum elemento novo. 

Imagine se Pedro dissesse: Ok, Senhor. Já sei o que fazer. Basta lançar a rede em alto mar como da outra vez, certo? Ele ouviria um sonoro 'não!'.

- Desta vez você vai lançá-la do lado direito do barco. 

Embora a circunstância o remetesse a um Déjà vu ("já visto"), a orientação recebida não poderia ser considerada um "Déjà entendu" ("já ouvido"). Uma expressão desconhecida por muitos é Jamais vu, do francês "nunca visto", e significa explicitamente não recordar de ter visto algo antes. É o oposto de Déjà vu. Eu diria que a sensação de Pedro naquele instante não foi nem de Déjà vu nem de Jamais vu, mas de Presque vu, que significa "quase visto". Frequentemente, alguém que experimente um presque vu dirá que está à beira de uma epifania (revelação). 

Tudo o que Deus nos permite viver sempre trará um elemento novo, inédito, jamais visto, ou jamais ouvido. Caso já tenhamos visto, devemos redobrar nossa atenção ao que será ouvido, pois poderá ser uma instrução completamente nova. Se nossos olhos já viram isso antes, nossos ouvidos jamais ouviram, ou vice-versa. Portanto, jamais será um Déjá vu completo, mas quando muito, um Presque vu

Por quarenta anos, os filhos de Israel viram o mesmo cenário, e tiveram experiências aparentemente repetitivas. Porém, a orientação dada por Deus era sempre nova.

Por mais competentes que sejamos naquilo que fazemos, precisamos submeter-nos à instrução do Mestre. Ele sabe onde estão os peixes. Ele é quem coloca as pessoas certas em nosso caminho; quem nos abre portas de oportunidade; quem nos faz enxergar a situação de outra perspectiva, etc.

Viver sob a orientação de Deus é, de fato, uma aventura. Jamais nos acostumaremos com Ele. Nossa retina sempre surpreendida, nossa rotina sempre rompida.  

E quanto aos resultados?

Na primeira pesca maravilhosa, as redes se romperam, de maneira que muitos peixes retornaram ao mar. Mas na segunda, as redes se mantiveram intactas. Nenhum peixe se perdeu. Por isso, foi possível contabilizar o resultado: 153 grandes peixes. O resultado foi além de qualquer expectativa, tanto do ponto de vista quantitativo, quanto qualitativo. Eram muitos e eram bons. 

Não basta um bom resultado se este não for permanente. Talvez Pedro tenha reforçado sua rede ao perceber que ordem partia de Jesus. Por que correria o risco de ver metade dos peixes voltarem para o mar? 

Mas a história não termina aqui. Prepare-se para o Grand Finale!

Quando Pedro e seus colegas voltaram para a praia, tiveram uma surpresa: Havia uma fogueira com peixe e pão assado. Isso lembra aquele adágio popular que diz: Quando você vinha com o milho, eu já vinha com o fubá. 

Onde Jesus teria conseguido aquilo? Se já havia pão e peixe pra eles, por que dar-lhes o trabalho de pescar? Que mensagem Jesus intencionava transmitir-lhes? 

Mesmo já tendo providenciado comida por conta própria, Jesus lhes diz: "Trazei alguns dos peixes que apanhastes".

O que isso nos sugere?

Primeiro: Deus não precisa de ajuda de quem quer que seja. Ele é auto-suficiente. Ele sabe Se virar sem nós. Entretanto, somos nós que precisamos desesperadamente d'Ele. Ele, sem nós, segue sendo Deus. Nós, sem Ele, somos nada. 

Segundo: Apesar disso, Ele graciosamente nos propõe uma parceria. Simplesmente para dar-nos o privilégio de sermos participantes em Suas realizações. Com isso, a glória segue sendo exclusivamente d'Ele, mas a alegria é nossa. Enquanto Jesus conseguiu aquele peixe sozinho, eles não teriam pego peixe algum sem Ele. 

Não foi necessário Jesus apresentar-Se. Àquela altura, todos já O haviam reconhecido. E mesmo sendo o Senhor, Jesus fez questão de, uma vez mais, servir aos Seus discípulos, sendo aquela a terceira vez que Se manifestava após a ressurreição. 





* Esta reflexão tem como base S. João 21:1-14.



sexta-feira, abril 17, 2015

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Cristo e o labirinto da condição existencial humana




Por Hermes C. Fernandes

Havia um labirinto na antiga Grécia, na ilha de Creta, criado com o intuito de abrigar umas das mais temidas feras do mundo antigo chamada Minotauro: uma criatura com corpo de homem, cabeça de touro e dentes de leão, usados para devorar todos que se aproximam.

A figura do labirinto serve-nos como analogia da condição existencial humana. A proposta religiosa nos oferece uma rota para nos tirar deste emaranhado e nos reencaminhar na direção da fonte onde encontraríamos a resposta para as nossas mais inquietantes indagações. Porém, é ao homem que devemos creditar tal façanha, não a Deus. Toda religião seria iniciativa meramente humana, diferindo da proposta do evangelho que seria uma iniciativa estritamente divina.

Veja o que Deus diz sobre nossas vãs tentativas de nos reaproximar d’Ele em nossos próprios termos:

“O caminho da paz eles não o conhecem, nem há justiça nos seus passos; fizeram para si veredas tortas; todo aquele que anda por elas não tem conhecimento da paz. Pelo que a justiça está longe de nós, e a retidão não nos alcança; esperamos pela luz, e eis que só há trevas; pelo resplendor, mas andamos em escuridão. Apalpamos as paredes como cegos; sim, como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como no crepúsculo, e entre os vivos somos como mortos.” Isaías 59:8-10

Veredas tortas, escuridão que nos força a andar apalpando as paredes, reforçam a imagem do labirinto que proponho aqui como análoga à religião. Devido à nossa total incompetência em escapar dele, Deus teve que intervir.

A Lei entregue por Deus a Moisés serviu-nos como um mapa dentro desse labirinto, porém, não nos livrou da presença do mal. A cada curva corríamos o risco de nos depararmos com a besta, metade homem, metade fera. Mas por estarmos na escuridão, apenas ouvíamos o seu rugido, como que de um leão buscando a quem pudesse tragar.

A segunda medida tomada por Deus foi enviar-nos profetas cuja luz serviu-nos como lanterna, possibilitando-nos enxergar o que estava logo à nossa frente (2 Pe. 1:19). Foi a partir daí que descobrimos que as paredes desse labirinto eram feitas de espelho, de sorte que o monstro que vimos nada mais era do que nosso próprio reflexo. Estávamos todos encurralados, não importando que direção tomássemos. A cada curva, o monstro reaparecia. Fugir dele era fugir de nós mesmos. Metade humanos, metade monstros. Tal era nossa condição. Sabíamos o bem que tínhamos de fazer, mas a fera em nós era indomável. Talvez a Lei até pudesse nos conduzir ao destino glorioso que se propunha. O problema não estava nela, mas em nós, nas pulsões que habitam nosso ser bipartido. “Miserável homem que sou!”, exclamaria Paulo, “quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm.7:24). 

Não foi Teseu, o filho de Egeu quem liquidou o monstro, como na mitologia grega. Foi Jesus, o Filho do Deus vivo quem entrou nesse labirinto e derrotou a besta-fera. Por isso, o mesmo Paulo responde imediatamente à sua pergunta: Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor” (v.25).

Através de Sua cruz, Jesus não apenas liquidou o minotauro que nos assombrava, como também nos abriu um novo e vivo caminho pelo qual temos amplo acesso ao Pai. As paredes do labirinto vieram ao chão. É disso que Paulo fala em sua carta aos Efésios:

“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto; porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.Efésios 2:13-18

Chega de curvas oblíquas e de caminhos interditados! Chega de ouvir o eco dos rugidos da besta! Estamos agora percorrendo um caminho reto. A complexidade do labirinto cedeu lugar à simplicidade do Caminho. Sequer precisamos de um mapa para transitá-lo. Basta seguir sempre reto, sem desviar-se nem para a esquerda, nem para a direita. Sua simplicidade é tão evidente que o profeta diz que “até mesmo os loucos, não errarão” (Is.35:8). Imagine soltar um louco num labirinto! Solte-o no caminho, ele certamente encontrará seu destino.

Tal verdade é desconcertante para os que se arrogam o papel de especialistas da religião. Aqueles que se apresentam como portadores do mapa. Que dizem possuir a única arma capaz de liquidar o minotauro.

Apesar do alto custo envolvido na demolição do labirinto, a obstinação humana é tamanha que logo se pôs a reconstruí-lo. São os reconstrutores do labirinto religioso os responsáveis por esta nova Babel que vivemos em nossos dias. Diferente da primeira que se erguia verticalmente, a nova Babel é caracterizada por sua complexidade. Não foi em vão que Paulo declarou temer que “assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia”, tenhamos nosso entendimento corrompido, apartando-nos “da simplicidade e da pureza que há em Cristo” (2 Co.11:3).

Nada mais simples do que um caminho reto, sem curvas, esquinas e interdições. Nada mais complexo do que um labirinto insinuoso como uma serpente enroscada em torno de si. O que pode, à primeira mão, parecer um atalho ingênuo, na verdade é uma armadilha.

Nenhuma parede sequer deve ser poupada. Nada há que se aproveitar do que só serviu para promover alienação e escravidão. Seria como transformar Auschwitz num Jardim de Infância. Que pai se sentiria confortável ao deixar seus filhos estudarem nos mesmos edifícios usados pelos nazistas para torturar e matar os judeus durante a Segunda Guerra Mundial?

Por isso, Jesus foi categórico ao profetizar a demolição completa do templo de Jerusalém. “Não ficará pedra sobre pedra!” O rasgar do véu do templo no momento em que rendeu Seu espírito ao Pai foi o prenúncio do que aconteceria cerca de quarenta anos depois sob a espada romana.

Aquele templo havia se tornado num monumento à religiosidade farisaica e hipócrita que se instalara entre os judeus contemporâneos de Cristo. Sua santidade original houvera sido profanada. E a partir do momento em que o sacrifício de Jesus fora aceito pelo Pai, todo e qualquer sacrifício, bem como todo e qualquer culto que se oferecesse ali seriam nulos. Portanto, o templo se tornara obsoleto.

Uma nova aliança passara a vigorar, em que já não haveria geografias sagradas, nem lugar para a burocracia sacerdotal, mas tão somente o culto racional, aquele oferecido ao Pai “em Espírito e em Verdade”, conforme Jesus.

A Antiga Aliança oferecia um caminho em meio ao labirinto. Mas a Nova Aliança oferece o Caminho sem qualquer labirinto. Com o labirinto implodido, que utilidade teria o velho caminho proposto pelo pacto anterior?

Nossa comunhão com Deus foi reatada. O Minotauro foi liquidado.  Nosso velho homem foi crucificado juntamente com Cristo. Os sacrifícios exigidos pela Lei foram totalmente inutilizados e ofuscados ante o sacrifício vicário de Jesus. Portanto, insistir neles é um insulto ao Espírito da Graça.

Por isso, tenhamos ousadia para entrarmos no santíssimo lugar, pelo sangue de Jesus, pelo caminho que ele nos inaugurou, caminho novo e vivo, através do véu, isto é, da sua carne” (Hb.10:19).