sexta-feira, fevereiro 05, 2016

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Deus perdeu o juízo!



Por Hermes C. Fernandes

Nada tem sido mais subestimado do que a graça, apesar de figurar entre as mais queridas doutrinas cristãs.  Talvez justamente por isso. Nós a reduzimos a uma doutrina. Conseguimos a proeza de dissecá-la e sistematizá-la (como se isso fosse possível!)

Graça é a disposição divina em querer comunicar-se com Suas criaturas, transpondo todos os abismos que porventura os separe, arcando com todos os custos envolvidos. Mesmo esta definição, como qualquer outra, não dá conta de esgotar todos os seus significados. Simplesmente não cabe na lógica humana. Por isso mesmo, Paulo a chama de “loucura de Deus”.

Como se não bastasse reduzir seu significado, atrevemo-nos a fixar os limites do seu alcance. Pura perda de tempo. A graça extrapola todas as bordas, desrespeita todas as convenções, subverte todas tentativas de codificá-la. Nenhuma combinação de consoantes e vogais consegue expressar a vastidão de sentidos que ela encerra. Nenhum número possível pode quantificá-la. 

Não se trata de algo contingencial. Não é um plano tapa-buraco para pôr ordem na bagunça que o nosso pecado provocou. Nada disso! Onde quer que o pecado haja abundado, a graça superabundará. Desde que há Deus, há graça. Portanto, ela é anterior ao pecado. E quando já não houver nem resquício do pecado, ela seguirá suprema por todas as eras. Ela não é apenas o contraponto ao pecado. Longe disso. Ela é o fundamento da existência.

Graça é o idioma divino. Um Deus que é essencialmente amor só poderia expressar-se através da graça. E é aí que Ele difere de todas as divindades frutos da imaginação humana.

A graça se revela majestosa no fato de um Deus que não cabe no universo se apequenar a ponto de se aconchegar no ventre de uma jovem. O Pai da Eternidade assumiu corporeidade dentro do tempo e do espaço. O Verbo em quem todos os códigos da existência estão contidos fez ecoar Sua voz nos subúrbios da Galileia na mais eloquente declaração de amor. Deus não apenas se agachou, mas desceu até nós, atribuindo-nos um valor incalculável. Paulo, o apóstolo, refere-se a este fato como kenósis, o esvaziamento de Deus. Tal processo não começou na concepção do Cristo. Degraus anteriores tiveram que ser descidos até que Deus se achasse em forma humana. Sua kenósis, por assim dizer, começou no momento da criação. O Deus Trino decidiu que deveria existir algo para além de Si mesmo. Para tanto, o primeiro passo seria a retração do Criador, cuja finalidade seria ceder espaço para que outros existissem. Esse movimento de retrair-se pode ser entendido como um movimento uterino de Deus, uma contração visceral, assim como a mãe que gera dentro de si para depois dar à luz o que foi gerado. Seus órgãos internos devem se acomodar, retraindo-se para dar lugar ao novo ente. Analogamente, Deus abriu espaço em Si mesmo para acomodar um universo inteiro.

Como uma mãe que sabe o quão arriscado é pôr um filho no mundo, Deus sabia de todos os riscos envolvidos na criação, principalmente a partir do momento em que a consciência emergisse no cosmos. Creio que a retração divina foi ainda maior ao criar seres dotados de consciência. Seres livres, capazes de refletir por si mesmos, certamente lhe daria muita dor de cabeça. Aliás, Ele mesmo se queixou disso pelos lábios do profeta: “Deste-me trabalho com os teus pecados, e me cansaste com as tuas iniquidades.”[1] Mas somente um Deus absolutamente soberano não se sentiria ameaçado pela liberdade conferida às Suas criaturas.

Acredito que o tipo de relação que a graça exerce sobre nós tem muito mais a ver com cuidado do que com controle. Como a mãe de Moisés, que o colocou recém-nascido num cesto confiando-o às águas do Nilo, Deus entregou Sua criação ao fluxo natural. Mas tal qual Miriam que acompanhou a trajetória do cesto até que fosse resgatado pela filha de Faraó, em momento algum Deus nos perdeu de vista. Ele sempre soube que, eventualmente, terminaríamos em Seus braços novamente. 

Por eras, fomos açoitados pelas correntezas dos processos naturais, ameaçados pela presença de predadores, porém, guardados num cesto impermeável, carinhosamente preparado para nos embalar e sob o olhar atento do Unigênito de Deus. Toda vez que nosso cesto se agarrava a algum junco, era Ele que vinha nos desencalhar. Se algum crocodilo se nos aproximava, era Ele quem o espantava, fazendo-o recuar.

Que cesto seria esse? Um cesto de junco! Nada mais frágil. O que nos favoreceu ao longo das eras no processo natural foi justamente a nossa fragilidade. Não fosse por ela, não teríamos sobrevivido. Aprendemos a tirar força da fraqueza como os heróis descritos na epístola aos Hebreus.[2] Devemos a ela nossa inventividade. Descobrimos o fogo porque precisávamos nos proteger do frio, razão pela qual também costuramos nossas roupas. Inventamos ferramentas para driblar a fraqueza de nossos músculos e as nossas limitações anatômicas. Refugiamo-nos em cavernas para nos proteger de predadores e da fúria das tempestades. Em vez de simplesmente nos render às imposições da natureza, nós a sobrepujamos. Tudo isso por causa de nossa fraqueza. Eis o cesto que nos tem protegido por eras.

Como Moisés, escapamos da extinção. Somos sobreviventes de um processo evolutivo cruel que fez desaparecer milhões de espécies ao longo dos tempos. Sobrevivemos num ambiente inóspito, hostil à nossa presença. Mas cá estamos. Tudo isso, fruto da inexplicável graça divina que nos brindou com o dom da fraqueza.

Paulo percebeu que graças a esta fraqueza o poder de Deus encontra seu encaixe perfeito em nós.[3] Ela se constitui, por assim dizer, na maior de nossas vantagens. No dizer do apóstolo, somos vasos de barro que têm como conteúdo um inestimável tesouro. [4]

Conhecedor de todas as coisas, inclusive do futuro, Deus sabia exatamente aonde nosso cesto de junco aportaria. Sua acolhida no palácio de Faraó seria passageira, assim como nossa absorção pelos sistemas deste mundo. Cristo, nossa “Mirian” trataria de nos reconduzir aos braços de nosso Pai/Mãe celestial, tão se comprovasse a inabilidade de tais sistemas em nos prover, não apenas meios de sobrevivência, mas, sobretudo, sentido para a nossa existência.

Mirian não poderia acompanhar o cesto sem molhar os pés e arriscar sua própria pele. Semelhantemente, Cristo não poderia nos reconduzir ao Pai se não sujasse Seus pés na poeira deste mundo. A diferença entre Mirian e Jesus é que a primeira passou incólume, só se manifestando diante da princesa para sugerir-lhe que se chamasse a mãe do menino para ser sua ama de leite. Jesus, não. O cosmos inteiro voltou sua atenção para Ele desde que pôs Seus pés neste mundo. Anjos celebraram. Demônios tiveram que abrir alas para que Ele passasse. Reis se sentiram ameaçados pela Sua presença. Sacerdotes conspiraram para matá-lo. Até dentre os Seus discípulos houve quem O traísse, quem O negasse e quem se recusasse a crer.

A filha de Faraó acatou sem resistência à sugestão de Mirian. Mas Cristo teve que despojar principados e potestades, arrancando-lhes das mãos o domínio que tinham sobre os homens.[5]

E como o fez? Demonstrando Seu poder? Não. Revelando Sua desconcertante vulnerabilidade. Foi em Sua completa rendição de amor que Ele desarticulou os poderes, ridicularizando sua presunção. A kenósis iniciada na criação, na retração divina, agora alcançava seu apogeu. O Onipotente revela Sua oni-debilidade. O Onisciente se faz momentaneamente ignorante, a ponto de desconhecer o dia de Sua vinda. O Onipresente agora está preso, totalmente imobilizado numa cruz. Aquele que enche todas as coisas, de repente, se esvaziou. O último degrau da kenósis foi descido. Aquele que era em forma de Deus, não usurpou ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo ao criar todas as coisas, tomou a forma de servo, fez-se semelhante aos homens, humilhou-se a si mesmo, e agora, por obediência à vontade do Pai, experimentou nossa morte.[6] Não de uma maneira convencional, natural. Não de “morte morrida”. Mas da maneira mais aviltante. Ele teve a morte destinada a todos os que se insurgem contra o sistema. Não morreu entre príncipes, mas entre ladrões comuns.

Jesus redefiniu os atributos divinos. De modo que, agora, onipotência tornou-se infinita capacidade do dom de si mesmo ao outro. Onipresença deixou de ser apenas estar presente para se tornar presente. Onisciência deixou de ser saber de tudo para ser o conhecimento por experiência própria. Misericórdia se tornou em compaixão. O Deus revelado em Jesus conhece o sofrimento, a dor, a humilhação, não pelo que contaram a Ele, mas pelo que Ele mesmo experimentou. Não há dor humana que Ele desconheça.

Os anjos devem ter achado que Deus perdera o juízo. Não é à toa que Paulo se refere à loucura de Deus, associando-a a Sua inebriante fraqueza.[7] Quão subversivo é o Deus revelado em Jesus! Ele Se esvazia para poder encher todas as coisas. Sua majestade resplandece na Sua humildade que beira à descompostura. Seu poder se revela na fraqueza, Sua presença na ausência provocada por Sua retração, Sua sabedoria em Seu desvario. Sua vida pulsa vibrantemente através de Sua morte. Sua soberania se sobressai ao conferir liberdade aos seres dotados de consciência. Sua justiça se impõe na exposição de Seu amor. 

Eis a graça! Tão graciosa que nos deixa absolutamente sem graça, desconcertantemente constrangidos. Nossos argumentos mais refinados vão para o lixo. Nossa sofisticação se torna obsoleta. A graça implode nossos castelos de areia. Ficamos sem chão. Entregues à vertigem da liberdade. Fiados exclusivamente em Seus propósitos, cuja equação inclui misteriosamente a Sua soberania e a nossa liberdade.

Assisti recentemente a um trecho de um sermão onde o pregador insistia que a porta da graça estaria prestes a se fechar. Para esta linha de pensamento, a graça é uma porta que se abriu na cruz e se fechará quando Cristo vier raptar o Seu povo. Ledo engano. A graça precede a existência do cosmos. Ela se firma na disposição amorosa de Deus em criar todas as coisas. Se a tal “porta da graça” se fechasse, o cosmos entraria em colapso.

Cada partícula subatômica é mantida pela mesma graça cujo guarda-chuva cobre o restante da criação.

E aqui, vale dizer que não há graça meia-boca, capaz de permitir a convivência entre os homens, mas incapaz de conduzi-los à consumação do propósito de suas existências. Quando falamos “graça comum”, referimo-nos a uma graça comungada por todos os seres.  Mas isso não a torna vulgar. Num certo sentido, a graça é absolutamente incomum. A mesma que conduz o elétron em sua órbita em torno do núcleo do átomo, conduz o homem à redenção de sua alma. A mesma que inspira o artista na elaboração de sua obra prima, inspira profetas a denunciar as injustiças e apontar o caminho da equidade.

Tal graça não cabe dentro de compêndios e esquemas doutrinários. Ninguém detém seu copyright, nem o monopólio de sua ação. Toda vez que nos apossamos dela, ela vaza por entre nossos dedos.

A graça é onipresente! Com os olhos iluminados, podemos detectar seus rastros na cultura, na ciência, na história e em todos os caminhos por onde temos transitado. Deixemo-nos, portanto, nos surpreender e encantar com o seu brilho e jamais ousemos novamente subestimá-la. 




[1] Isaías 43:24
[2] Hebreus 11:34
[3] 2 Coríntios 12:9
[4] 2 Coríntios 4:7
[5] Colossenses 2:15
[6] Filipenses 2:6-8
[7] 1 Coríntios 1:15

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

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Batistérios cheios de ratos num museu de grandes novidades



Por Hermes C. Fernandes


Recentemente, alguns comentários que fiz em um post meu no facebook renderam repercussão inesperada. Por isso, resolvi trabalhar um pouco mais o assunto, evitando assim, qualquer possibilidade de ambiguidade. O assunto começou com um comentário que fiz sobre a atitude de John Piper, teólogo e pastor americano no Congresso de Lausanne em 2010:

Deparei-me agora com uma informação que me deixou profundamente decepcionado. John Piper, pastor e teólogo americano que sempre admirei, teria se recusado a pregar no congresso de Lausanne em 2010, pelo simples fato de uma mulher ter sido convidada para conduzir um estudo bíblico, ocupando, assim, o púlpito da conferência. A mulher em questão é ninguém menos que Ruth Padilla (filha do René Padilla, um dos maiores teólogos latino-americanos), que sequer é pastora, mas apenas teóloga, sendo a única mulher entre os preletores. Piper teria dito que se ela subisse ao púlpito, ele não iria. Os organizadores do congresso disseram então que ele poderia ficar em casa, pois ela iria. Ele, então, teria voltado atrás e aceitado o convite. Quando ela subiu ao púlpito para ministrar o estudo, uma turma contrária de homens (pastores/líderes) se levantou e abandonou o recinto. Fico me indagando o que esses homens teriam feito quando aquela mulher de moral duvidosa invadiu o recinto onde estava Jesus e derramou sobre ele o perfume que lhe havia custado um ano de prostituição. Fico ainda imaginando se eles teriam aceitado o testemunho de Maria Madalena acerca da ressurreição de Jesus. Tudo isso me enoja e revela o quão distantes estamos da mensagem subversiva do Filho de Deus.
Não sei ao certo as razões que levaram Piper recusar-se a subir ao púlpito. Se foi por ter que dividi-lo com uma mulher (já que ele é contrário à ordenação feminina), ou por causa da teologia que ela defende, e da qual seu pai é um dos maiores representantes (Missão Integral). Por qualquer que tenha sido a razão, nada justifica a deselegância, ainda que transpareça certa coerência. E o pior é que houve reação em cadeia. Outros líderes se viram no direito de fazer o mesmo, boicotando o estudo bíblico que Ruth ministrou. Quando chegou a vez de Piper, ele a corrigiu publicamente, comentando um suposto erro de interpretação que ela teria feito.

Bastou que eu expressasse minha decepção para virem críticas de todos os lados, principalmente da ala mais conservadora dos reformados. Alguns chegaram a pedir que eu me retratasse, pois teria dado um falso testemunho sobre aquele santo homem de Deus.

Se quiser ter a sensação de ter mexido num vespeiro, critique algum baluarte da verdade numa rede social qualquer. Experimente criticar Calvino, Lutero, Spurgeon, ou alguns dos atuais como John Piper, R.C. Sproul ou Augusto Nicodemos. Protestantes que tanto criticaram o dogma da infalibilidade papal, agora o atribuem aos heróis da ortodoxia. Pelo menos os ídolos da veneração católica não fazem bem nem mal, posto que são apenas representações feitas em escultura de homens e mulheres que serviram a Deus em seu próprio tempo. Já os protestantes têm ídolos que, apesar de não terem sido oficialmente canonizados, parecem estar acima do bem e do mal. Alguns ainda vivem. São de carne e osso e não de gesso, e por isso, passíveis de erro e de acerto.

Apesar da dívida que temos com eles, devemos reconhecer que são filhos de seu próprio tempo. Cada qual pintou seu próprio quadro com as tintas que as Escrituras lhes deram. Porém, envolveram a tela numa moldura feita a partir de pressupostos culturais e sociais de sua época. Aliás, isso não depõe contra eles. Pelo contrário: os isenta de muita coisa. Como explicar, por exemplo, o fato de Calvino ter enviado Serveto para a fogueira? Ou o vício de tabagismo de Spurgeon? Ou o fato de Lutero, logo após ter afixado suas teses no castelo de Wittemberg, ter se dirigido a um bar para beber cerveja? Aliás, isso nem de perto poderia se comparar ao seu reconhecido antissemitismo. Não estou aqui fazendo juízo de valores, mas mostrando que eram seres humanos passíveis de erro. Algumas de suas atitudes nem sequer eram consideradas erros à época. Vários deles eram escravagistas, nem por isso sentiram-se culpados.

Deixando de lado os mortos, observemos o caminho dos que ainda transitam entre nós. No que eles acertarem, imitemo-los. Mas, no que errarem, repreendemo-los.

Muitos deles conquistaram sua fama em cima de uma defesa acirrada das verdades bíblicas que mais lhes são caras.

É admirável o zelo de alguns no cumprimento das instruções apostólicas à igreja primitiva. Razão pela qual são contrários à ordenação feminina. Sugiro que, por uma questão de coerência, impeçam que suas esposas cortem o cabelo e usem joias. Que tratem bem seus escravos e, para tal, terão que adquiri-los. E que, sobretudo, repartam todos os seus bens com os pobres. E aí... vamos radicalizar?

É muito conveniente defender qualquer instrução apostólica ou bíblica, mesmo que fora de contexto, desde que corrobore com nossa ideologia e práxis. Mas ninguém defende aquilo que está claro e que deveria ser aplicado em qualquer contexto, quando nossos interesses são contrariados. Por isso, tantos defenderam a escravidão tomando as Escrituras como base, mas jamais defenderam a partilha dos bens, conforme se vê na igreja primitiva. Quem se dignaria a vender sua Harley-Davidson para repartir com os necessitados?

Condenamos a luxúria com a mesma veemência com que abonamos a ganância. Mandamos as bruxas para a fogueira, ao passo que fomos subservientes com os poderosos. Vendemos nossa alma. Somos um completo fiasco!

Precisamos voltar ao projeto original do reino de Deus!

Parafraseando Cazuza, nossos batistérios estão cheios de ratos. Nossos seminários estão cheios de mofo. Nossos púlpitos cheiram a naftalina. Nossas ideias não correspondem aos fatos. Precisamos reciclar. O tempo não para!

Como cristãos, temos nos revelado capazes de acompanhar a evolução tecnológica, mas totalmente anacrônicos quando se trata de evolução sociológica, cultural e científica. Ainda estamos preocupados em responder questões de cinco séculos atrás. Combatemos as indulgências como se ainda estivessem sendo cobradas. E mantemos opiniões sobre certos assuntos como se o mundo não houvesse passado pelo Iluminismo. Ainda há quem defenda um sistema geocêntrico com a mesma veemência com que repudia outras teorias científicas. Para os tais, a era das trevas não terminou.  

Alisto abaixo algumas declarações supostamente respaldadas nas Escrituras, feitas por pessoas que defendiam com unhas e dentes a inerrância do texto sagrado, mas que, no fundo, queriam mesmo assegurar a inerrância de suas próprias interpretações na defesa do que lhes interessava.

"A Bíblia ensina claramente, do décimo capítulo de Gênesis e diante, que Deus estabeleceu diferenças entre as pessoas na terra para manter a terra dividida." - Bob Jones III, defendendo a política da Universidade Bob Jones que proibia namoros e casamentos inter-raciais em 1982. A política foi alterada em 2000. 
"O direito de manter escravos está claramente estabelecido pelas Sagradas Escrituras, tanto por preceito quanto por exemplo." - Rev. Richard Furman, primeiro presidente da Convenção Batista do Estado Carolina do Sul em 1823. 
"As pessoas deram ouvidos a um astrólogo novato que se esforçou para mostrar que é a Terra que gira, não os céus ou o firmamento, o sol e a lua. Este idiota ... quer reverter toda a ciência da astronomia, mas a Sagrada Escritura nos diz que Josué ordenou que o sol ficasse parado, e não a terra "- Martinho Lutero, o reformador protestante no século 16 em uma conversa de mesa sobre o sistema solar heliocêntrico. 
"Às vezes, a Escritura declara que mulheres e crianças deveriam perecer junto com os pais ... Nós temos luz suficiente da Palavra de Deus para os nossos trabalhos." - Capitão John Underhill, defendendo a dizimação da tribo Pequot promovida por puritanos em 1637. 
 "A evidência de que havia ambos, escravos e senhores de escravos em igrejas fundadas e dirigidas pelos apóstolos, não pode ser eliminada, sem recorrer a métodos de interpretação que porão tudo a perder." - Rev. Leonard Bacon, em defesa da escravidão na América em 1846. 
"A Bíblia é a vontade revelada de Deus, e declara a esfera atribuída por Deus à mulher. A Bíblia, então, é a nossa autoridade para dizer que a mulher deve contentar-se com esta esfera ... Quem exige o direito ao voto para a mulher ? Eles não são amigos de Deus , nem são crentes em Cristo. Pode haver exceções, mas a maioria prefere a alegria de um infiel ao favor de Deus e o amor da comunidade cristã .”  Rev. Justin Dewey Fulton em seu tratado contra o sufrágio feminino em 1869. 
"Onde quer que tenhamos raças misturadas em grande número, temos dificuldade... Estes liberais religiosos são os piores infiéis no país, e alguns deles estão enchendo os púlpitos no sul. Eles não acreditam mais na Bíblia (...)  e recorrem ao modernismo , para extraviarem tanto brancos quanto negros. Mas todo cristão ortodoxo bom e inteligente,  que crê na Bíblia, pode ler a Palavra de Deus e saber que o que está acontecendo no Sul agora não é de Deus ." - Bob Jones Sr., em seu tratado contra a integração de brancos e negros , intitulado  “A segregação é bíblica?” em 1960. 
“O Antigo Testamento considera o homossexualismo não somente como uma ofensa criminosa, mas também como uma ofensa capital, merecedora de morte. Eu concordo com esta categorização e com esta punição, e há pelo menos uns poucos outros teólogos que também concordam com isto. Isto é apenas dizer que estamos de acordo com a Bíblia sobre o assunto. Assim, os cristãos não deveriam discutir tão apressadamente o casamento e a união civil entre homossexuais. O que eu quero discutir com o incrédulo é, em primeiro lugar, o porquê o homossexualismo não é um crime (...) Novamente, minha posição não é apenas que os homossexuais não devem se casar, mas que o homossexualismo é um crime, assim como o assassinato ou roubo, de forma que mesmo antes de considerar a união civil, devemos considerar punir ou não aos homossexuais, com as possíveis punições, abrangendo desde a prisão à execução.” - Vicente Cheung , teólogo nascido em Hong Kong, radicado nos EUA, autor de mais de trinta livros e centenas de palestras sobre teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Sua influência é crescente entre teólogos e seminaristas brasileiros reformados e conservadores.
Poderíamos incluir mais textos de teólogos considerados profundos conhecedores da Bíblia, defendendo o regime da Apartheid, o nazismo, ou justificando lucros exorbitantes, o trabalho escravo, entre outras coisas, mas isso se tornaria exaustivo.

As próximas gerações julgarão nossos posicionamentos atuais. De que lado estaremos? Da justiça ou de algum interesse nem sempre claro, camuflado de piedade? Quanto daquilo que tem sido dito com amparo bíblico não esconde agendas inconfessáveis? Estaremos fadados a repetir os erros do passado? Ou como diria Cazuza, será que a igreja se tornou num museu de grandes novidades?

O problema começa quando a gente toma o que a Bíblia diz para justificar nossos preconceitos e afinidades ideológicas.

De fato, quase qualquer coisa pode encontrar um suposto ‘amparo’ bíblico. Seja através de mandamentos que deveriam ser cumpridos dentro de um contexto específico, ou ainda através do exemplo de alguns de seus mais proeminentes personagens. Além da escravidão, pode-se justificar o estupro, a poligamia, o genocídio e, pasmem, até a pedofilia.

Como bem disse Rachel Held Evans:É fácil olhar para os cristãos que vieram antes de nós, considerando-os ignorantes e desinformados. Mas para aceitar a tese de Galileu, os nossos antepassados ​​do século 17 tiveram que rejeitar 1600 anos de interpretações cristãs tradicionais de passagens como Salmo 93:1, Eclesiastes 1:5, e Josué 10:12-14. E para aceitar os argumentos abolicionistas, os nossos tataravós tiveram de enxergar para além do "significado claro" de textos usados como prova, tais como Efésios 6:1-5 , Colossenses 3:18-25 , 4:1 e I Timóteo 6 :1 -2; empreendendo uma varredura geral das Escrituras em busca de seu apoio à causa da justiça e liberdade. Nós gostamos de caracterizar as pessoas nas citações acima como tendo usado as Escrituras para sua própria vantagem. Mas acho que é ao mesmo tempo assustador e humilhante notar que, muitas vezes, a nossa forma de fazer a distinção entre aqueles que amaram Escritura e aqueles que usaram a Escritura é retrospectiva.”[1]

Portanto, devemos ler as Escrituras como quem garimpa ouro, deixando de lado nossos pressupostos e abraçando aquilo que esteja dentro do espírito do evangelho, ainda que contrarie nossos interesses. Qualquer coisa que não se coadune com este espírito, deve ser considerada sob a luz da advertência paulina: “A letra mata, o Espírito vivifica.”




[1] Texto de  Rachel Held Evans com o título “The Bible was ‘clear’...

Postado originalmente em 29/01/2014

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

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Salvação para além do calvinismo, arminianismo e universalismo




Por Hermes C. Fernandes

Para boa parte dos cristãos, salvação tem a ver com ir para o céu. De acordo com este pensamento, este mundo é apenas uma arena onde decidimos o lugar em que desejamos passar a eternidade, se no céu ou no inferno. Partindo desta premissa, construiu-se toda uma gama de raciocínios centrada no indivíduo. Calvinismo, arminianismo, ou mesmo universalismo, são linhas de raciocínio que partem desta mesma premissa.

Nossas abordagens evangelísticas caminham nesta direção. O calvinista crê que no final das contas, somente os eleitos serão salvos, significando com isso que terão seu lugar assegurado no céu. O arminiano se esforça para poder levar o máximo de pessoas, tendo em vista que a responsabilidade por sua salvação é do próprio indivíduo. Portanto, quantos mais ‘aceitarem’ a oferta de salvação, melhor. Seus esforços resultariam num saquear o inferno e povoar o céu. O universalista prefere apostar no amor de Deus que no final das contas vai liberar o céu para todo mundo.

Creio que todas essas linhas de raciocínio partem de uma premissa equivocada.

O propósito de Deus abarca a realidade como um todo. Uma vez que o pecado trouxe danos a toda criação, a redenção proposta em Jesus deve ter a mesma abrangência, conforme lemos em Paulo:

“Pois foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo TODAS AS COISAS, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus.” Colossenses 1:19-20

“E desvendou-nos o mistério da sua vontade, segundo o bom propósito que propusera em Cristo, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tmepos, tantos as que estão nos céus como as que estão na terra.” Efésios 1:9-10

O Criador almeja restaurar Sua obra por completo. A salvação do indivíduo é parte do processo e consiste em recrutá-lo como agente parceiro nesta obra de restauração. Por isso, na continuidade da passagem que citamos acima, Paulo diz que fomos “selados com o Espírito Santo da promessa, que é o penhor da nossa herança, para REDENÇÃO DA PROPRIEDADE DE DEUS, em louvor da sua glória” (VV.13b-14).

Que propriedade de Deus seria esta que Ele enseja redimir? A mesma a que se refere em 1 Coríntios 3:21-23:

 “...Tudo é vosso; seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro; tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus.

O que está realmente em jogo não é simplesmente o futuro do indivíduo (céu ou inferno), mas o futuro da criação (restauração ou aniquilação). Ser salvo é ter a vida integrada a este propósito de redenção de tudo. O contrário disso é desperdiçar a existência.

O inferno representa o depósito de lixo cósmico, onde toda existência desperdiçada será descartada. O céu, ao contrário, é a plenificação do propósito, o lugar de convergência, de reintegração, de conclusão. Não se trata de um espaço geográfico em alguma dimensão etérea. O céu não estaria acima de nós, mas à nossa frente. Tem mais a ver com um tempo do que com um espaço. Aquele tempo em que Deus será tudo em todos (1 Co.15:28); em que a harmonia perdida por causa do pecado será restaurada.

Para que a terra seja restaurada, o homem deve ser salvo de sua condição de predador insaciável e redescobrir seu papel original de cuidador, destinado a ser seu guardião, que tanto lavra quanto protege, tanto cuida quanto desenvolve (Gn.2:15). Era assim que Paulo se enxergava:  alguém que foi alcançado por Deus para trabalhar em Sua lavoura (2 Tm.2:6; 1 Co.3:6-9) e ser participante de Seu projeto redentor.

Uma vez salvo, o homem deixa de viver para si mesmo, errando o alvo de sua existência (tal é o peado essencial), e passa a viver em função da glória de Deus e das gerações futuras (2 Co.5:15; Ef.2:7). O que lhe interessa não é mais aproveitar ao máximo o que a terra lhe oferece, mas garantir que as próximas gerações não sejam privadas da vida abundante proporcionada no encontro entre céu e terra, entre espiritualidade e vocação.

Livre da alienação, o homem compreende que a vida continua após sua partida deste mundo. A vida prossegue naqueles que receberão seu DNA e que serão imbuídos do mesmo propósito. A tocha que houvermos carregado durante nossa carreira existencial será passada a outros que darão continuidade ao projeto de restauração do mundo, conscientes de que não poderão deixar que sua chama se apague (1 Sm.3:3).

E quanto à nossa alma? Para onde vamos ao morrer?

Seremos reintegrados à fonte primeva. Parafraseando o escritor sagrado, o corpo voltará para o pó, se dissolverá, de modo que nossas partículas passem a fazer parte de outras estruturas, mas o espírito, a essência, voltará para Deus, sua origem (Ec.12:7).  Com a essência, nossa consciência será preservada juntamente com nossa individualidade, e receberá um novo corpo, apto às condições da criação restaurada. Se nossa existência não houver sido desperdiçada, ela será absorvida por nossa essência. Nas palavras de Paulo, o mortal será absorvido pela imortalidade (2 Co.5:4). Porém, se a houvermos desperdiçado vivendo exclusivamente em função de nossos prazeres e interesses, então, nossa existência se perderá para sempre. Nossas obras se dissolverão no fogo do juízo divino. Todavia, nossa essência será preservada. Seremos, por assim dizer, “salvos como pelo fogo” (1 Co.3:15).

Por fim, toda a criação será restaurada. Nada ficará fora do escopo desta reconciliação.

Isso quer dizer que todos serão salvos? Depende do que chamamos de salvação. Se entendermos o ser humano como um ser histórico e metahistórico, compreendendo sua vida a partir do binômio existência/essência, podemos afirmar que a salvação num sentido restrito tem a ver com sua história, sua biografia, com a maneira como o homem aproveitou a oportunidade que a vida lhe ofereceu. Mas num sentido mais amplo, a salvação pode ser concebida como a redenção da essência, daquilo que precede e transcende a história (daí a expressão metahistória). Para fins didáticos, prefiro referir-me a esta salvação essencial como reconciliação final.

Distinguindo “salvação” de “reconciliação final” fica mais fácil compreender. Nem todos serão salvos. Porém, todos serão reconciliados.
 “Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra. E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” Filipenses 2:10-11
Mesmo os que estiverem “debaixo da terra” (alusão clara ao inferno), terão suas consciências reconciliadas com Deus, admitindo que suas más obras lhos fizeram merecedores de tal condenação. Sobre isso, Judas afirma que o Senhor executará juízo sobre todos e fará convictos todos os ímpios “de todas as obras de impiedade, que impiamente cometeram, e de todas as duras palavras que ímpios pecadores contra ele proferiram” (Jd.1:14-15).

E não apenas isso. Além de admitir seus pecadores e o senhorio de Cristo, eles O louvarão! O coral que aparece nas páginas do Apocalipse louvando ao Cordeiro é formado por seres de todas as esferas, tanto do céu, como da terra e debaixo da terra:

“E ouvi a toda a criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que estão no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre.”
Apocalipse 5:13

Ora, se todos serão integrantes deste coral, qual a vantagem de sermos salvos? Esta pergunta vem contaminada pela premissa que apresentei logo no início deste artigo. Não podemos pensar em termos de vantagens e desvantagens. Todavia, os que houverem sido alcançados pela salvação em sua existência serão aqueles cujas obras seguir-lhes-ão depois que partirem (Ap.14:13). Enquanto os demais terão suas obras dissolvidas pelo fogo do juízo divino.

Os salvos gozarão da companhia imediata de Cristo e se regozijarão por terem sido partícipes do projeto divino de restauração de todas as coisas. Suas obras não serão desperdiçadas, nem carcomidas pelo tempo. Seus tesouros terão sido ajuntados no céu. Tudo quanto houverem sofrido por amor à justiça terá valido a pena.

Não obstante, jamais nos esqueçamos de que fiel é esta palavra e digna de toda aceitação. Pois para isto é que trabalhamos e lutamos, porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem(1 Tm.4:9-10).

Em vez de ficarmos debatendo se Ele salvará a alguns que Ele mesmo houver escolhido, ou alguns que O escolherem ou simplesmente a todos, arregacemos as mangas e trabalhemos até que Ele mesmo desponte no céu em grande glória, pois “convém que o céu o contenha até a restauração de todas as coisas” (At.3:21). 

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

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A complicada relação da igreja com o carnaval



Por Hermes C. Fernandes

Duas igrejas. Duas posturas diferentes quanto às demandas do mundo. Posturas que se evidenciam durante a época da festa da carne. Encontramo-nas, de maneira metafórica, num episódio relatado por Lucas envolvendo duas multidões que vinham de lados opostos, mas que, eventualmente, se chocaram.

A primeira multidão era liderada por Jesus, e seguia euforicamente na direção da cidade de Naim. Pessoas que haviam deixado tudo para seguir o mestre da Galileia. Não se importavam com o calor escaldante da região. Nem em passarem  por alguma privação durante o cortejo. A razão de toda a sua alegria e esperança estava personificada naquele jovem carpinteiro.

A multidão que seguia na direção oposta era liderada por um defunto. Enquanto a primeira entrava na cidade, a segunda a deixava. Enquanto a primeira parecia celebrar, a segunda só fazia lamentar. E, de fato, havia motivo para isso. Ao lado do defunto ainda moço, estava sua mãe, inconsolável, que não fazia muito tempo perdera também o marido. Sem um arrimo para sustentá-la, só lhe restava chorar, chorar e chorar.

Imagine o 'choque térmico' provocado pelo encontro das duas multidões. Uns sorrindo, outros chorando. Se ao menos entendessem a razão uns dos outros... Quem chorava, ao deparar-se com quem sorria, devia pensar: quem é este idiota que não respeita a dor alheia? Quem celebrava, ao avistar os que choravam, provavelmente pensava:  será que não percebeu a presença de Jesus entre nós?

Quando Jesus se viu de frente com aquela viúva, seu coração se encheu de ternura e compaixão. Dirigindo-se a ela, disse: Não chores!

Como assim, “não chores”? Será que não viu o menino morto que era carregado? Será que não percebeu que a partir daquele dia, ela poderia ficar desamparada? Obviamente que a resposta a estas perguntas é um sonoro sim. O “não chores” não soou petulante. Não foi uma ordem. Bastava observar as feições de Jesus para perceber a doçura do seu olhar. Quase que concomitantemente, Jesus paralisa o cortejo fúnebre, toca o esquife e diz ao morto: “Jovem, a ti te digo: Levanta-te”.

Se o jovem não o tivesse atendido, Jesus teria sido considerado um louco varrido e talvez até fosse linchado pela multidão. Mas o fato é que ele atendeu, levantou-se vivo e foi entregue à sua mãe. Agora, já não havia duas multidões caminhando em direções opostas, mas uma única multidão que se mesclara. Os que antes choravam, agora tinham uma razão para celebrar. Os que já celebravam, agora tinham uma razão a mais para fazê-lo.

Durante esta época, muitas igrejas preferem deixar a cidade. A alegria do mundo parece incomodá-las, pois rivaliza com sua própria alegria. Talvez até preferissem vê-lo chorar. Elas se esquecem que essa alegria é fugaz, e que, invariavelmente, termina em cinzas. Por trás de cada máscara e fantasia há um ser fragilizado, que depois de trabalhar o ano inteiro, se entrega à folia para tentar driblar o vazio que há em sua alma. Todavia, a alegria provida pelo Carnaval pode ser tudo o que ele tem. Por isso, não acho que seja sábio desdenhá-la ou desrespeitá-la. Como também não acho prudente endossá-la. 

Não me atrevo a generalizar, porém, constato que muitas dessas igrejas parecem ser guiadas por um morto. Uma espiritualidade mórbida. Um cristianismo em estado de putrefação e decomposição. Essa igreja é viúva. Seu marido é um Cristo que não deixou o túmulo. Que fez da própria igreja o seu sepulcro. Por isso, não lhe resta alternativa senão enterrar agora os seus filhos. Enterrá-los a sete palmos de alienação para que se decomponham fora das vistas do mundo. Seus filhos parecem destinados a serem devorados pelos vermes da religiosidade apática e performática.

Todavia, há uma igreja que toma o caminho inverso. Que se volta para a cidade. Que se dispõe a acolher os que choram sem se importar em misturar-se a eles. Quem está à sua frente é ninguém menos que o Cristo de Deus, o porta-voz da vida, o única capaz de reverter o quadro caótico em que se encontra o mundo. Deixe que Ele toque o esquife! Para os doutores da Lei, tocar o esquife tornava-o imundo. Mas quem disse que Jesus se importa com a higiene religiosa? Quem toca num esquife, equivalente ao caixão dos nossos dias, também toca num carro alegórico, num trio elétrico, numa vida arruinada pelas drogas, num homossexual vítima de todo tipo de preconceito, numa mulata em trajes sumários na avenida.  O Jesus que está à frente desta multidão não se deixa domesticar por convenções sociais ou ditames religiosos. Ele toca em quem quiser, onde estiver, na data que lhe aprouver, sem ter que se desculpar com ninguém.


* Texto baseado em Lucas 7:11-16 

sábado, janeiro 30, 2016

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Entre Blocos e Retiros: Uma parábola do papel da igreja no Carnaval


Por Hermes C. Fernandes

Uma parábola sobre o papel da igreja durante o Carnaval

Epêneto era o presbítero responsável pela igreja em Roma, desde que Priscila e Áquila tiveram que deixar a cidade em busca de novos campos missionários. Epêneto foi um dos primeiros a se converterem através do trabalho realizado por Paulo nessa cidade.

Aquela igreja era muito ativa, sempre aberta a acolher as pessoas. Quando havia algum cataclismo, fome ou guerra, os cristãos se mobilizavam para socorrer as vítimas. Por causa de seu envolvimento com a dor humana, ganhou a simpatia de todos, inclusive de funcionários do palácio de César.

Num belo dia, ouviu-se o clangor do clarim. Todos se reuniram para ouvir o que o mensageiro do império tinha para anunciar. Em duas semanas, o exército romano estaria chegando de uma campanha militar bem-sucedida. O próprio César o receberia com uma Parada Triunfal, que seria seguida de um feriado prolongado dedicado aos deuses Marte e Saturno, também conhecidos como Apolo e Baco, divindades da guerra e do vinho, respectivamente. Seria uma grande festa, regada a bebidas alcoólicas e todo tipo de luxúria. A população sairia às ruas para assistir ao desfile das tropas romanas, dando-lhes boas-vindas, e assistiriam à execução de milhares de prisioneiros. Ninguém trabalharia naqueles dias.

Epêneto ficou preocupado com a notícia. Qual deveria ser o papel da igreja durante essa festa pagã? Ainda inexperiente como líder, reuniu alguns dos mais antigos membros da igreja para discutir o que fazer.

Um deles, chamado Narciso, pediu a palavra e deu sua sugestão:

- Amados no Senhor, por que não aproveitamos o ensejo para promover um desfile paralelo, onde demonstraremos ao mundo a nossa força, revelando a todos nossa lealdade ao Rei dos reis, Jesus Cristo? Podemos até copiar algumas de suas canções, adaptando-as à nossa fé. Em vez de exibirmos prisioneiros, exibiremos testemunhos daqueles que foram salvos. Vamos montar nosso próprio bloco, quer dizer, nossa própria parada triunfal. Pode ser uma grande oportunidade evangelística.

Epêneto, depois de algum tempo pensativo, respondeu: Caro Narciso, a idéia parece muito boa. Porém, quem ouviria nossa voz durante os momentos de folia? Nosso modesto bloco se perderia no meio de toda aquela devassidão. Ademais, a maioria das pessoas estará embriagada, incapaz de entender nossa mensagem. Também não estamos preocupados em dar uma demonstração de força. Jesus disse que nosso papel no mundo seria semelhante à de uma pitada de fermento, que de maneira discreta, sem chamar a atenção para si, vai levedando aos poucos toda a massa. Por isso, acho que sua idéia não é pertinente. Quem sabe em gerações futuras, haja quem a aproveite?


Levantou-se então Andrônico, que gozava de muito prestígio por ser parente de Paulo, e sugeriu:

- Amados, durante o Desfile Triunfal e as Saturnais, a situação espiritual da cidade ficará insuportável. Divindades pagãs serão invocadas, orgias serão promovidas em lugares públicos à luz do dia. Não convém que estejamos aqui durante essa festa da carne. A melhor coisa a fazer é nos retirarmos, buscarmos um refúgio fora da cidade, e aproveitamos esse tempo para nos congratularmos, sem nos expormos desnecessariamente às tentações da carne.

Todos acenaram com a cabeça, demonstrando terem gostado da idéia. Já que seria mesmo feriado, ninguém precisaria trabalhar. Um retiro parecia a melhor sugestão.

O velho presbítero ficou um tempo em silêncio, meditando. Todos estavam atônitos esperando sua palavra, quando mansamente respondeu:

- Irmãos, não nos esqueçamos de que somos o sal da terra e a luz do mundo. Se no momento de maior trevas nos retirarmos, o que será desta cidade? Por que a entregaríamos ao controle das hostes espirituais das trevas? Definitivamente, nosso lugar é aqui. Não Precisamos de exposição, como sugeriu nosso irmão Narciso, nem de fazer oposição à festa, retirando-nos da cidade, como sugeriu Andrônico. O que precisamos é estar à disposição para acolher aos necessitados, às vítimas da violência, aos desassistidos, aos marginalizados.

A propósito, não temos estado sempre disponíveis para atender as pessoas durante as tragédias que tem abatido o império? E o que seriam tais desfiles, senão tragédias morais e espirituais? Saiamos às ruas, mesmo sem participar da folia, e estendamo-los as mãos, em vez de apontar-lhes o dedo, oferecendo compaixão em vez de acusação, amor em vez de apatia. Que as casas que usamos para nos reunir estejam de portas abertas para receber quem quer que seja, e assim, revelaremos ao mundo Aquele a quem amamos e servimos. Afinal, o reino de Deus se manifesta sem alarde, sem confetes, sem barulho, mas perturbadoramente discreto.

Depois dessas sábias palavras, ninguém mais se atreveu a dar qualquer outra sugestão.


* Esta é apenas uma parábola que elaboramos para emitir nossa humilde opinião acerca do papel da igreja durante o período carnavalesco.

Postado originalmente em 11/02/2010

sexta-feira, janeiro 29, 2016

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Antes de decretar a falência do Carnaval...



Por Hermes C. Fernandes

Antes de decretar a falência do Carnaval… deveríamos, como cristãos que somos, trabalhar pelo fim da comercialização da fé, pois a mesma, além de entristecer o coração de Deus, compromete nosso testemunho perante o mundo. Como podemos julgar o mundo, se não somos capazes de julgar a nós mesmos?

Antes de decretar a falência do Carnaval... deveríamos julgar a nós mesmos, removendo de nossos rostos as máscaras da hipocrisia religiosa, expondo-nos, assim, à verdadeira transformação empreendida pelo Espírito Santo. Afinal, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Liberdade, sim. Não pra pecar. Mas pra ser transformado sem viver sob pressão de quem quer que seja. Liberdade de ser quem somos, sabendo que ninguém nos condenará. O Espírito só opera em nós quando temos o rosto descoberto...

Antes de decretar a falência do Carnaval... deveríamos tirar o chapéu para o trabalho social desempenhado por algumas escolas de samba em suas comunidades. Não fosse nosso corporativismo evangélico, poderíamos até aliar-nos a elas nesse esplêndido trabalho. O que não significa que endossemos tudo quanto é promovido por elas. Porém, não se pode jogar fora a criança com a água suja do banho.

Antes de decretar a falência do Carnaval... deveríamos corar de vergonha ante o nível de excelência alcançado nas apresentações das escolas, com samba-enredos bem elaborados, carros alegóricos exuberantes, organização impecável, etc. Enquanto nós, que nos achamos no direito de apontar-lhes o dedo, nos acomodamos à mediocridade. Basta ouvir as canções de louvor atuais para perceber a pobreza lírica e melódica, fruto de nossa preguiça e desleixo. Sem contar que nossa arte ‘gospel’ fica restrita à música, como se Deus tivesse alguma coisa contra outras expressões artísticas.

Antes de decretar a falência do Carnaval... deveríamos amar os foliões, compreendendo que aquela alegria ilusória é tudo o que eles possuem. Em vez de condená-los, que tal se compartilhássemos com eles a nossa alegria perene? Eles certamente perderiam qualquer interesse por algo que fosse menos que isso.  A maneira como nos referimos a eles e à sua festa, faz com que sejamos vistos como gente estraga-prazer. Duvido que no lugar de Jesus nos dispuséssemos a transformar água em vinho só pra que a festa não terminasse tão cedo.  Talvez entendêssemos melhor o que diz Provérbios 31:6-7, mas sem perder de vista o seu contexto imediato.

Antes de decretar a falência do Carnaval... decretemos a falência da nossa arrogância, de nossa presunção, de nossa religiosidade midiática, e de nosso egoísmo. Que prevaleça o amor, a humildade e o serviço ao nosso semelhante, mesmo quando este estiver atrás de uma fantasia, ou despudoradamente despido. 

quinta-feira, janeiro 28, 2016

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A dança como instrumento de sedução e alienação



Por Hermes C. Fernandes

Nos dois textos anteriores defendemos a dança como expressão de louvor e interação social. Demonstramos através de diversas passagens bíblicas que nada há que desabone sua prática. Entretanto, não podemos ignorar o estado pecaminoso em que se encontra a humanidade, corrompendo tudo à sua volta. Somos uma espécie de rei Midas ao inverso [1], tudo o que tocamos se deteriora, perdendo seu valor original.  Nenhuma manifestação cultural está imune à contaminação do pecado, e isso, naturalmente, inclui a dança.

A mesma faca usada para fatiar um pão pode ser usada para cometer um homicídio. Isso não a torna intrinsecamente má. Assim se dá com relação à dança e qualquer outra manifestação cultural. Cabe aqui a argumentação de Paulo de que “todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados” (Tt. 1:15).

Temos exemplos bíblicos de como a dança pode ser mal utilizada em propósitos funestos e destrutivos. Por exemplo, no episódio em que a enteada de Herodes, orientada por sua própria mãe, o seduz com sua dança sensual, a ponto do rei babão dizer: “Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino” (Mc. 6:23). Aliás, esta é uma das raras vezes em que encontramos nas páginas das Escrituras um exemplo de dança performática. Nas demais vezes, a dança é apenas uma manifestação espontânea de alegria de um povo. Isso, de maneira alguma, desabona as danças performáticas como, por exemplo, o ballet clássico ou o street dance. O problema não está na performance em si, mas no propósito por trás dela. 

A filha de Herodias sabia o potencial sedutor de seus movimentos corporais. Provavelmente estava vestindo roupas sumárias, provocando a imaginação do rei. No final das contas, o rei perdeu a cabeça em seus devaneios, enquanto o maior dos profetas perdeu-a literalmente numa bandeja de prata.

Quantos chefes de família têm perdido a cabeça em boates de strip-tease! Quantas meninas estão se perdendo nas mãos desta famigerada indústria de entretenimento! Menores são aliciadas. Mulheres contrabandeadas pelo mundo afora. Tudo para o aprazimento de homens desprovidos de qualquer escrúpulo.

O cristão que aprecia a dança artística deve cuidar para que seu corpo não se torne num instrumento de sedução barata, lembrando sempre que ele é templo do Espírito Santo (1 Co.6:19).  Nosso lema deve ser “não pecar e não fazer ninguém pecar”. Somos carne e, portanto, vulneráveis ao assédio de nossos apetites carnais. Então, pra quê cutucar a onça com vara curta?

Não precisa ir a uma casa noturna para deparar-se com certas cenas apelativas. Lamentavelmente, há casos em que dançarinas de grupos de coreografia de igrejas usam roupas tão colantes e transparentes, combinadas com certos movimentos que, a meu ver, são incompatíveis com o ambiente de culto, e que acabam alimentando a fértil imaginação da homarada. Quem não quiser ceder aos impulsos lascivos da carne tem que desviar os olhos...

Quem está envolvido com dança, quer seja na igreja ou como profissional, deve pautar pelo equilíbrio, evitando a vulgarização de algo tão precioso. Ademais, não é preciso dançar para ser vulgar. Observo na capa de muitos cd’s de cantoras evangélicas poses extremamente sensuais, com olhares convidativos e gestos ambíguos. Ora, se o objetivo é a adoração, dever-se-ia ter o cuidado de passar uma imagem que inspirasse reverência, ainda que descontraída. Não se trata de falso moralismo ou legalismo, mas de bom senso regado com temor a Deus e respeito ao semelhante.

A sensualidade também não é algo ruim em si mesmo. Todos temos uma medida de sensualidade. O que precisa ser evitado é a vulgarização. Não vejo qualquer erro numa mulher seduzir seu marido com uma dança provocativa. Aos olhos de Deus eles são uma só carne. Um relacionamento conjugal desprovido do elemento sedução está fadado ao naufrágio. O próprio intercurso sexual tem seu ritmo e movimento, análogo à dança. Errado seria usar seu poder de sedução para arrancar do outro o que quiser, como fez a enteada de Herodes.

O outro exemplo de dança performática encontrado nas Escrituras é a protagonizada por Sansão no templo de Dagom. O texto diz que os filisteus que o haviam prendido estavam tão eufóricos que exclamaram: “Mandai vir Sansão para nos divertir! Tiraram-no da prisão, e Sansão teve que dançar diante deles. Tendo sido colocado entre as colunas” (Jz. 16:25). Lemos ainda que “o templo estava repleto de homens e mulheres, e estavam ali todos os príncipes dos filisteus; havia cerca de três mil pessoas, homens e mulheres, que do teto olhavam o prisioneiro dançar” (v.27).

Todos se divertiam à custa de Sansão até que este faz um pedido inusitado ao seu Deus. Com as forças devolvidas, Sansão derruba as colunas do templo, matando de uma vez maior número de inimigos do que durante toda a sua trajetória.

Definitivamente aquele não era o lugar de Sansão. Seus cabelos haviam sido raspados, seus olhos vazados, sua honra ultrajada. Suas energias agora eram despendidas no trabalho forçada no moinho de Dagom. Como se não bastasse, o herói dos hebreus se transformara no bobo da corte.

O que estava sendo celebrado ali? A suposta vitória de Dagom, divindade filisteia sobre Yavé, Deus dos hebreus. 

Não é por gostarmos de dançar que devemos frequentar alguns lugares, onde o que se celebra é contrário a tudo em que cremos.  Como um cristão poderia participar de um desfile de escola de samba que estivesse promovendo o culto a outras divindades? Ainda que respeitemos a religiosidade alheia, não devemos violar nossa consciência. Nosso culto é direcionado exclusivamente ao Deus revelado em Jesus Cristo. Como um cristão se sentiria dentro de um baile funk onde os valores morais são pisoteados e o sexo é cultuado como se fosse um deus? Se somos habitados pelo Espírito Santo, sentiremos um enorme desconforto por estarmos sendo cúmplices das obras infrutuosas das trevas (Ef.5:11).

O povo de Israel achou que Moisés já estava morto depois de uma ausência de quarenta dias no monte. Pressionando Arão, fizeram um bezerro de ouro e festejaram-no como se fosse o deus que os tirara do Egito. Quando Moisés vinha descendo, encontrou-se com Josué que o esperava no pé da montanha, e disse: "Há gritos de guerra no acampamento!" "Não, respondeu Moisés, não são gritos de vitória, nem gritos de derrota: o que ouço são cantos." Aproximando-se do acampamento, viu o bezerro e as danças. Sua cólera se inflamou, arrojou de suas mãos as tábuas e quebrou-as ao pé da montanha. Em seguida, tomando o bezerro que tinham feito, queimou-o e esmagou-o até reduzi-lo a pó, que lançou na água e a deu de beber aos israelitas” (Êx. 32:17-20).

Suponho que muitos dos que ali dançavam em torno do bezerro não tinham a menor ideia do que estivesse acontecendo. Eram “Maria vai com as outras”. Apenas se deixaram embalar pela música e começaram a dançar alheios aos fatos. Que decepção para Moisés! Depois de tudo o que aquela gente assistira, como a abertura do Mar Vermelho e as pragas no Egito, bastaram alguns acordes para que se esquecessem de tudo e celebrassem perante o deus errado.

A música e a dança têm potencial entorpecente, capaz de fazer com que o cérebro produza efeitos semelhantes aos das drogas. Neste estado de consciência as pessoas podem fazer coisas de que se arrependerão pelo resto de suas vidas.

Preciso salientar que o problema não é a comida, mas a glutonaria. Nem a bebida, mas o alcoolismo. Nem o sono, mas a preguiça. Nem o sexo, mas a promiscuidade. Assim também, o problema não é a dança, mas seu uso desprovido de senso crítico.


* Caso não tenha lido os dois posts anteriores, recomendo que o faça para uma compreensão mais abrangente do tema. 




[1] Midas é um personagem da mitologia grega que transformava em ouro tudo o que tocava.