quarta-feira, julho 27, 2016

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Desce do pedestal, princesa!



Por Hermes C. Fernandes

Davi estava rindo à toa. Mical voltou para casa. Sua alegria parecia completa, até que, ao fazer um novo inventário, percebeu que ainda faltava algo em Jerusalém: a Arca da Aliança.

Muito mais do que uma mobília forrada de ouro, a Arca representava a própria presença de Deus entre o Seu povo.  Sua restituição a Jerusalém significaria a restauração do orgulho nacional. Para Davi, recuperá-la das mãos dos filisteus e trazê-la de volta ao seu povo era mais importante do que anexar novos territórios a Israel.

Finalmente, chegou o dia. A Arca era trazida em cortejo festivo, enquanto Davi vinha à frente dançando e saltando, completamente despudorado. Ninguém resistiu ao apelo festivo. Toda a população saiu às ruas para celebrar. Exceto... Mical! Davi estava tão envolvido que não percebeu a ausência de sua amada.

Do alto de sua torre, debruçada na mesma janela de onde teria dado fuga a Davi quando seu pai intentava matá-lo, Mical assistia ao espetáculo. A janela era seu camarote. Como membro da família real, ela não queria misturar-se com aquela gentalha. Além de esposa do rei, Mical era filha de Saul, o primeiro monarca de Israel.

Até aí, tudo bem. Ninguém era obrigado a juntar-se ao povo para celebrar a chegada da Arca. Porém, além de manter-se distante, Mical começou a desprezar a Davi.
- Onde já se viu? Aquilo não é papel de rei! Ele não tem compostura! Fica se exibindo para suas servas... Rei de verdade era meu pai. Aquele sim, sabia como um rei deve se portar diante do seu povo.
Lá embaixo, Davi seguia pulando e bailando, sem ter a menor ideia da censura que sofria. Enquanto o criticava, Mical se esqueceu do preço que Davi pagara por seu dote (200 prepúcios de filisteus!). A única coisa que lhe interessava era o fato de seu marido estar com sua genitália à mostra na frente de suas servas. Mical poderia imaginar que o fato de haver salvado Davi das mãos de seu pai, conferia-lhe o direito de criticá-lo e julgá-lo.

Muitas pessoas respaldam suas ações numa espécie de contabilidade, onde cada boa ação lhes dá o direito de cobrar da parte beneficiada. São motivadas sempre por interesses escusos. Quando agem como benfeitores, na verdade, estão agindo como credores.

Será que o fato de um dia haver ajudado a Davi, ou mesmo o fato de seu dote ter custado tão caro, davam-lhe o direito de desprezar e criticar seu marido? A janela era ao mesmo tempo, o cenário e a testemunha do que ela havia feito por Davi. A mesma janela usada para ajudar, agora era usada para criticar e emitir juízo.

Ao fim da festa, "voltando Davi para abençoar a sua casa, Mical, filha de Saul, saiu a encontrar-se com ele, e lhe disse: Quão honrado foi o rei de Israel, descobrindo-se hoje aos olhos das servas de seus servos, como sem pejo se descobre um vadio qualquer" (2 Sm.6:20).

Tudo que o rei almejava era abençoar a sua casa. Agora a alegria estaria completa. Além de trazer de volta a Mical, trouxera também a Arca do Senhor. Mas em vez de encontrar sua mulher contente, encontrou-a com uma tromba...
- Que vergonha! Não venha pro meu lado! Não me toque! Vai dormir no sofá! rs
O preço pago por Mical por esta conduta repleta de ciúme e juízo foi mais caro que o preço pago por Davi por seu dote. A resposta dada por Davi deveria servir-nos como um guia de conduta ante as críticas que recebemos:
- Pois fique sabendo, dona Mical, que se depender de mim, vou me humilhar e me rebaixar ainda mais diante do meu Deus. Em momento algum minha intenção era exibir-me. Era para o meu Deus que eu dançava e me alegrava. E enquanto você me despreza, minhas servas me honrarão.
Ficamos muito preocupados com o que os outros dirão, e por conta disso, privamo-nos do prazer de servir a Deus com alegria. Por que darmos ouvidos à quem concebe a vida como um picadeiro, em que nossa preocupação deve ser causar boa impressão ao público?

Deixe que falem... Nada temos a provar a ninguém. Sejamos autênticos. Nada de falsos escrúpulos. Nada de querer ficar bem na fita.

Este episódio se encerra com a seguinte sentença: "E Mical, filha de Saul, não teve filhos, até o dia da sua morte" (v.23). Tal qual Mical, muitos fazem o bem a espera do momento certo para cobrar. Outros se acham no direito de nos criticar e censurar, por um dia nos ter favorecido.  Por conta disto, muitos têm se tornado espiritualmente estéreis, infrutíferos.

Vai por mim... não vale a pena.

Saiamos da janela em direção às avenidas. Deixemos nossa torre, e juntemo-nos àqueles que festejam o que Deus está fazendo para além dos nossos muros. 

terça-feira, julho 26, 2016

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O inventário do amor - O que lhe falta para ser feliz?




Por Hermes C. Fernandes

Os pombinhos estavam em lua-de-mel. Sua felicidade parecia não ter fim. Pareciam feitos um para o outro. Mas perto dali, o pai da noiva não se conformava. A armadilha falhara. Os filisteus não deram conta de eliminar a Davi. Algo teria que ser feito. Não dava para conviver com aquele pastorzinho metido a herói debaixo do mesmo teto. Cruzar com ele pelos corredores do palácio era insuportável.

Saul estava decidido. Não passaria daquela noite. Soldados foram colocados de prontidão para vigiar o casalzinho. Enquanto dormissem, Davi deveria ser assassinado. A notícia vaza. Mical sabe da intenção do seu malévolo pai e está decidida a impedir o seu desatino.
- Davi, fuja daqui. Saia pela janela, antes que meu pai te mate.
Enquanto seu esposo busca um jeito de saltar da janela sem ser notado pelos soldados, Mical põe uma estátua deitada em seu lugar sob as cobertas. Quando os mensageiros do seu pai chegam, Davi já não estava ali. Mical diz que ele está doente. Mas Saul não aceita a desculpa e manda trazê-lo mesmo enfermo para que o mate com as próprias mãos.

Por que tanto ódio? Simplesmente porque Davi agora era amado não apenas pelo povo, mas por sua própria filha, e ainda por cima, pelo próprio Deus. Mais do que nunca, ele teria que ser eliminado.

Da segunda vez que os mensageiros entram nos aposentos de Mical, percebem que foram enganados. Davi não estava lá. Quando Saul soube, ficou profundamente desapontado com sua filha.
- Por que me enganaste? Você o prefere a mim? Não sabe que ele ameaça a estabilidade do meu reino?
Tentando consolar seu pai, Mical afirma ter sido coagida por Davi, sendo ameaçada de morte. Se ela demonstrasse estar a favor de Davi, correria risco de ser assassinada pelo próprio pai, tamanha era sua fúria.

Agora Mical estava quite com Davi. Se para desposá-la ele teve que expor sua vida como pagamento do dote, para salvá-lo, ela igualmente se expôs.

Durante o tempo em que esteve foragido, Davi casou-se com outras duas mulheres, a saber, com Aionã (cujo nome era o mesmo de sua sogra, esposa de Saul) e com Abigail, viúva de Nabal. Mical, por sua vez, foi entregue por seu pai como mulher de Palti, filho de Laís.

O destino parece tê-los separado para sempre. O mundo deu suas voltas, e em uma delas, as coisas se reverteram. Saul morreu e Davi foi declarado o novo rei de Israel. Entre sua família e a de Saul manteve-se um clima de animosidade que duraria vários anos. O povo parecia estar dividido. Alguns partidários de Davi, e outros partidários de Saul.

No auge da crise, Davi recebe uma visita inusitada. Abner, general de Saul, procurou-o para fazer-lhe uma proposta de trégua. Se Davi o aceitasse em suas fileiras, Abner o tornaria unanimidade em Israel. Era uma oportunidade única. Todos respeitavam muito àquele veterano. Sua palavra tinha peso. Sua popularidade era inquestionável. Bastava que Davi dissesse ‘ok’ para a sua proposta, e Israel se tornaria novamente numa nação unida, sob a égide de uma única coroa. Porém, para a surpresa de todos, Davi apresenta uma contraproposta.
“E disse Davi: Bem, eu farei aliança contigo, porém uma coisa te peço: não verás a minha face, se primeiro não me trouxeres a Mical, filha de Saul, quando vieres ver a minha face...” 2 Samuel 3:13 
O tempo vivido na caverna de Adulão não foi capaz de fazê-lo esquecer aquela que lhe havia custado tão precioso dote, e que salvou a sua vida quando seu pai intentava matá-lo. Nem mesmo Abigail, mulher sensata e formosa, pôde substituí-la.

Ao receber a notícia de que seu amado a esperava, Mical deixou seu marido e saiu ao seu encontro. Este, inconsolado, foi à espreita, chorando e implorando para que ela voltasse, porém Mical não lhe deu ouvidos. Foi necessário que Abner lhe desse um “chega pra lá” para que ele fosse dissuadido de tentar impedi-la.


O amor de Davi por Mical serve-nos como analogia do amor de Cristo por Sua igreja. Cada um é insubstituível. Assim como Abigail não substituiu a Mical, novos membros não substituem os antigos. Todos são igualmente importantes, e tendo-lhe custado o mesmo preço de sangue.

Foi este Cristo teimoso de amor que foi em busca de Pedro, mesmo depois de lhe ter negado. Encontrou-o nu, pescando como da primeira vez, abençoou novamente a sua pesca, e por fim, perguntou-lhe por três vezes: Você me ama? Então cuida das minhas ovelhinhas.

A melhor declaração de amor que podemos fazer a Cristo é cuidando daqueles que tanto lhe custaram. Em vez de prepúcios, o sangue do próprio Deus. Bem fariam os líderes do rebanho de Deus se lessem atentamente a admoestação apostólica:
“Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue.” Atos 20:28
O problema é que nos esquecemos que o rebanho é de Deus e não nosso. Por isso, pensamos que as pessoas são descartáveis ou substituíveis. Já ouvi pastores dizendo: Se vai um, vêm dois.

Não duvido que se Judas não houvesse se suicidado, Jesus fosse igualmente atrás dele (Por favor, não vamos entrar aqui em questões relacionadas à eleição e a soberania de Deus; a questão aqui é os cuidados de Deus).

Um dia teremos que prestar contas a Deus de cada ovelha que nos foi confiada. Pedro sabia disso desde o dia em que afirmou amar o Senhor.  Por isso, declarou com veemência:
“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente, não por torpe ganância, mas de boa vontade; não como dominadores, dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando se manifestar o sumo Pastor, recebereis a imperecível coroa de glória.”  1 Pedro 5:2-4
O escritor de Hebreus complementa:
“Obedecei aos seus pastores e submetei-vos a eles. Eles cuidam de vós, como quem há de prestar contas.” Hebreus 13:17a
Não importa onde estivesse Mical, ela era mulher de Davi e deveria ser-lhe restituída.
Imagino que antes do encontro com Abner, Davi tenha feito uma espécie de inventário de tudo quanto possuía.
- Coroa. Ok.- Cetro. Ok.- Trono. Ok.- Servos. Ok.- Palácio. Ok.
Foi aí que ele percebeu que faltava algo. Seu reino não estaria completo, enquanto não tivesse ao seu lado aquela a quem tomara como mulher. Semelhantemente, no inventário feito pelo Bom Pastor, Seu rebanho não estará completo enquanto faltar a centésima ovelha.

Se deseja expressar seu amor por Jesus, deixe-se usar como um cajado em Suas cuidadosas mãos, estendido para resgatar ovelhas que se extraviaram e deixaram o Seu redil.

segunda-feira, julho 25, 2016

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LOUCURA: O que você faria por um grande amor?




Por Hermes C. Fernandes

Ele estava tão concentrado naquele que seria um dos mais épicos duelos registrados, que não percebeu que havia prêmios em jogo. Em sua mente, o que estava realmente em jogo era a reputação do seu Deus. Foi esta a sua motivação ao derrotar o brutamonte que afrontava o exército de Israel.

Após aquela memorável vitória, o menino anônimo é aclamado herói nacional. Um mero pastorzinho rouba a cena, ofuscando a glória do seu rei. Enciumado, o velho monarca busca uma maneira de eliminá-lo, sem que isso atente contra sua popularidade já em vertiginosa decadência.

Para os israelitas, os créditos da vitória eram de Davi. Mas para os filisteus, eram de Saul. Como reverter isso? Saul preferia que o seu povo lhe atribuísse a glória, enquanto os filisteus elegessem a Davi como seu inimigo #1.

Enquanto buscava um jeito de livrar-se de Davi, Saul lembrou-se de que Davi não havia cobrado os prêmios  prometidos a quem derrotasse Golias: riquezas, isenção de impostos para toda a sua família, e... a mão da filha do rei. Era como ganhar na loteria e não ir descontar o bilhete. Como que por um lampejo, Saul imaginou que se Davi tomasse sua filha como esposa, aparentando-se com a casa real, isso o tornaria num alvo prioritário dos filisteus.

A quem ponto chega uma mente maquiavélica! Usar a própria filha como arapuca para destruir um desafeto.

A princípio, a filha prometida seria Merade, a primogênita. Porém, Davi não demonstrou qualquer interesse. Talvez Merade não possuísse atributos estéticos que o atraíssem. Sua desculpa foi não se achar merecedor de ser genro do rei. Afinal, seu duelo contra Golias não tinha mesmo este objetivo. Desprezada por Davi, Merade acabou se casando com outro.

Chegou aos ouvidos de Saul que sua filha caçula, Mical, estaria apaixonada por Davi. Esta seria a grande chance de liquidar de vez aquela fatura. Desta feita, Davi argumentou que por ser de família pobre, não teria condição de pagar o dote requerido por uma princesa. Pelo jeito, Davi não havia requerido nem mesmo as riquezas prometidas a quem derrotasse o gigante. Mas Saul percebeu que rolava um clima entre Davi e Mical. Pelo que insistiu e estipulou um dote simbólico: cem prepúcios de filisteus.

Para Saul, aquela era a armadilha perfeita. Como seu candidato a genro conseguiria tal proeza? Que filisteu se deixaria circuncidar? Se Davi aceitasse o desafio, ele certamente seria morto.

Mical parecia valer a pena. Por isso, Davi não titubeou. Se este era o preço estipulado pelo pai, ele estava disposto a pagar. Reunindo seus homens, partiu em direção dos inimigos.  Como nenhum deles estaria disposto a ceder gentilmente o seu prepúcio, Davi não teve escolha, senão... você já sabe.

Dias depois, Davi volta trazendo o dobro de prepúcios estipulados por Saul. Em vez de cem, duzentos. Era como se dissesse a Saul: Sua filha vale mais do que você avaliou.

Se Mical era apaixonada, depois desta, ficou enlouquecida de amor. Como não amar a quem lhe atribuiu valor maior do que seu próprio pai?

De igual modo, o apóstolo Paulo afirma que fomos “comprados por bom preço, razão pela qual deveríamos glorificar a Deus em nosso corpo e no nosso espírito, os quais pertencem a Deus (1 Coríntios 6:20). Não que valêssemos alguma coisa. O pecado destituiu-nos da glória de Deus, de maneira, que perdemos nosso valor original. Porém, ninguém jamais nos amou como Ele. Em vez de prepúcios, Ele pagou nosso dote com o Seu próprio sangue.

Imagine se Davi resolvesse pechinchar. Em vez de cem prepúcios, ele ofereceria cinquenta ou até menos. Mas ele toma o caminho inverso. Em vez de desdenhar o ‘produto’, ele o super valoriza. Seria como se puséssemos um carro à venda, pedindo, digamos, vinte mil reais, e alguém nos oferecesse quarenta mil.

Cristo não pechinchou conosco! Não ofereceu contraproposta. Em vez disso, pagou o mais alto preço que alguém poderia pagar: Sua própria vida. Talvez por isso, Paulo se refira a isso como a "loucura de Deus" (1 Co.1:15). Seria isto uma loucura de amor?

O Escritor de Hebreus diz que Ele tinha em vista a “alegria que lhe estava proposta” (Hb.12:2). Ele sabia que valeria a pena cada gota de sangue, cada açoite, cada ferida. Isaías profetiza que Ele viria o resultado de Seu sacrifício e ficaria satisfeito (Is.53:11). Em outras palavras, Ele olharia para nós e diria: Valeu!

De acordo com Paulo, o resultado de Sua entrega por nós, seria uma igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível (Ef.5:27).

Foi pela igreja, o embrião da nova humanidade, que Cristo pagou tão alto preço. Não merecíamos nem ao menos Sua atenção. Porém, Ele se apaixonou por nós. Foi amor à primeira vista. Aliás, amor antes mesmo da primeira vista. Antes da fundação do mundo!

Não bastaria derrotar Golias! Davi tinha pagar o dote. Mical não seria apenas um prêmio, mas uma conquista de amor. Igualmente, não bastaria o que Jesus fez durante Seu ministério, Seus ensinos, Seus milagres. Sem a Cruz, seríamos apenas um prêmio em reconhecimento por Seu desempenho aqui na terra. Pela Cruz, nosso valor foi excedido. Ele não apenas remediou o prejuízo que o pecado nos causara, mas atribuiu-nos valor que não possuiríamos ainda que não houvéssemos pecado.

Abaixo, um poema que compus recentemente, intitulado "Loucuras por amor".


Que loucura tu farias por amor?
Que aventura viverias?
O que tu arriscarias?
Quanto que permitirias?
Como te explicarias?

Até onde tu irias por amor?
Quantas voltas tu darias?
O que desperdiçarias?
Que pressão aguentarias?
Que vergonha passarias?

De quê abririas mão por amor?
O que renunciarias?
O que denunciarias?
Que promessas cumpririas?
Quantas que tu quebrarias?

A que ponto chegarias por amor?
Que lágrimas derramarias?
Quantas que enxugarias?
Que sorriso estamparias?
Que alegria provocarias?

Quanta dor suportarias por amor?
Que humildade expressarias?
Quanto orgulho engolirias?
O que tu revelarias?
O que tu esconderias?

Que salto tu darias por amor?
Que palavra tu dirias?
Que silêncio tu farias?
Que sonho sonharias?
De que sono acordarias?

Que dogma questionarias por amor?
Que teorias contestarias?
Que interesses feririas?
Que perigo enfrentarias?
Que coragem exibirias?

O que tu perdoarias por amor?
Que pecado confessarias?
Que vida levarias?
Que morte morrerias?
A que sobreviverias?

Que canção tu comporias por amor?
Que poema escreverias?
Que preço pagarias?
Que riqueza desprezarias?
Que ordem subverterias?

Em que mar navegarias por amor?
Que rincões desbravarias?
Quantos céus tu riscarias?
Que pedido negarias?
Que desejo atenderias?

O amor está acima de regras e códigos.
Dentre outros sentimentos, se destaca entre os pródigos.
Abre vias e caminhos, nos coloca além dos pórticos.
Como rosas entre espinhos, se esconde nos acrósticos.
Depõe deuses do Olimpo, sejam gregos, sejam nórdicos.
Feito ouro no garimpo, desafia os agnósticos.

O amor é indomável, quando quer insiste, teima
É capaz do improvável, tanto arde quanto queima
Nossa vida é um vapor, dura tanto quanto a chama,

Mas sua luz e seu calor eternizam o que se ama.

* Não deixe de ler a continuação desta postagem nos próximos dias.

sexta-feira, julho 22, 2016

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Se eu fosse você tomava mais cuidado...



Por Hermes C. Fernandes

A vocação primordial do ser humano é o cuidado. Antes mesmo de ser lançado no mundo, teve que fazer um estágio no Éden, jardim plantado pelo próprio Deus.[1] Sua missão ali era ser o seu guardião.[2]

Diferente da floresta, onde tudo cresce desordenadamente, um jardim é caracterizado pela simetria e harmonia. Seu trabalho consistia em guardar (preservar) e lavrar (desenvolver).

Nada passa despercebido ao olhar atento do jardineiro. Além de determinar o lugar onde cada espécie deve desenvolver-se, ele as poda, rega, e protege das pragas.  

Engana-se quem sustenta que o trabalho foi resultado da maldição proferida por Deus depois da queda do homem. Desde que fora criado, Adão não teve férias. Trabalhar, muito mais do que um dever, era seu prazer. Conferia-lhe propósito à existência.

A terra era-lhe favorável, correspondendo aos seus cuidados, fornecendo-lhe flores e frutos, odores e sabores, cores e texturas prodigamente variadas.

O pecado estragou tudo. Além de comprometer sua relação com o Criador, também complicou sua relação com o resto da criação. A terra já não produziria apenas frutos, mas também espinhos e cardos, resposta da criação à vaidade humana.[3]

Um novo fator seria acrescentado à equação da vida: a dor. A terra agora seria também regada pelo suor do homem. O que antes era por puro prazer passara a ser um encargo, um dever que se negligenciado apressaria a chegada da morte.

Desde então a criação geme submetida à vaidade da raça que fora criada para ser sua guardiã. Tornamo-nos seu pior pesadelo. Cataclismos como enchentes, furacões, tsunamis, estão entre os ‘cardos e espinhos’ produzidos pela terra como anticorpos para combater a praga humana que se alastra.

A queda transformou guardiões em predadores, anjos em monstros, humanos em demônios.

A história do Éden é recapitulada por cada um de nós. Tudo o que Deus nos tem confiado consiste em nosso jardim particular; isso inclui nossos amigos, familiares, igreja, finanças, e o nosso próprio coração.

Tal qual Adão, teremos que prestar contas do que fora colocado sob nossos cuidados. E não adianta acusar a mulher, os pais, o chefe, o vizinho, ou o próprio diabo. Aliás, se a serpente entrou em nosso paraíso, não foi por descuido de Deus, mas por termos falhado como guardiões. Talvez por isso Paulo tenha sido tão incisivo: “Não deis lugar ao diabo.”[4]

O cuidado deve começar pelo ambiente do nosso coração. É dali que “procedem as fontes da vida”.[5] Todo jardim que se preze tem uma fonte, da qual procede a água que irriga o seu solo. O chafariz que se exibe no centro do jardim não visa somente embelezá-lo, mas manter as águas em movimento, evitando assim a concentração de larvas de insetos.

Nosso coração é este chafariz no centro do jardim, que inspira cuidados especiais. O que afetá-lo certamente afetará todo o jardim. 

De acordo com outra passagem, devemos ter cuidado para que não nos privemos da graça de Deus, permitindo que alguma raiz de amargura brote em nosso coração, o que, além de perturbar-nos, certamente contaminaria o nosso círculo de relacionamentos.[6]

Temos que estar alertas ao menor sinal de amargura que surja em nossa alma. São essas raízes amargas que produzem espinhos e cardos que ferem a nós mesmos, e, por conseguinte, aos nossos amigos, afetando assim os nossos relacionamentos. Só deixemos brotar sentimentos que correspondam aos mesmos que houve em Cristo.[7]

E não basta cuidar do que sentimos. Devemos cuidar igualmente daquilo em que cremos. Por isso, Paulo admoesta a seu pupilo Timóteo a que tivesse cuidado de si mesmo e da doutrina, perseverando nisso para que salvasse a si mesmo e aos que lhe ouvissem.[8]  Somos todos formadores de opinião. Qualquer coisa que dissermos poderá influenciar a outros para o bem ou para o mal. Há que se ter redobrados cuidados.

Uma vez tendo dispensando os devidos cuidados ao coração (àquilo que se sente e que se crê), devemos voltar nossa atenção para o resto do jardim, a começar pela nossa família. Afinal, “se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o incrédulo”. Quem ama, cuida. Quem não cuida, perde.[9]  Toda nossa ortodoxia cai por terra se não for seguida de zelo por aqueles que nos foram confiados.

O cuidado que temos pelos familiares deve ser extensivo aos da família da fé. Como membros do Corpo Místico de Cristo, devemos ter “igual cuidado uns dos outros”.[10] Somos todos co-pastores na sagrada tarefa de apascentar o rebanho de Deus. E tal cuidado reflete o amor que temos para com o próprio Deus. Cuidar do que é d’Ele é a  melhor maneira de declarar-Lhe nosso amor. Ao responder à pergunta feita por Jesus, afirmando amar-Lhe, Pedro ouviu dos lábios do Mestre: “Apascenta os meus cordeiros”.[11] Ele não se impressiona com mãos erguidas aos céus se essas mesmas mãos não forem estendidas ao próximo em demonstração de cuidado e amor. Bom seria se todos os pastores e líderes ouvissem atentamente à admoestação de Pedro:

“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto.” 1 Pedro 5:2

O rebanho não é nosso. Portanto, ninguém tem o direito de dominá-lo a seu bel-prazer. O Supremo Pastor no-lo confiou para que o apascentássemos com amor e esmero.

Geralmente, pastores pensam que seu dever está circunscrito ao rebanho que lhe foi confiado. Por isso, muitos trabalham por seu império particular, e não pelo Reino de Deus. Raríssimos são os que se preocupam com ovelhas de outros redis. O lema dos tais é “cada um por si e Deus por todos.” Porém, Deus não poderá ser por quem pensa desta maneira. Em vez disso, deveríamos fazer coro com Paulo ao dizer: “Além dessas coisas exteriores, há o que diariamente pesa sobre mim, o cuidado de todas as igrejas.” [12] Se pertence ao Senhor, logo merece toda a nossa preocupação. Não devemos, portanto, “ser vagarosos no cuidado”, mas “fervorosos no espírito, servindo ao Senhor”.[13]

Ademais, o mesmo apóstolo diz que não devemos atentar apenas para o que é propriamente nosso, mas cada qual também para o que é dos outros. [14] Portanto, mesmo que não pertença ao Senhor, se pertence ao meu semelhante, devo torná-lo alvo de meus cuidados.

O cuidado que se requer de nós não tem prazo de validade. Não deve ser visto como um mandato político que termina tão logo tenhamos chegado ao seu fim. De acordo com o escritor sagrado, cada um de nós deve mostrar  “o mesmo cuidado até ao fim, para completa certeza da esperança.”[15]

Enquanto cuidamos com fervor do que nos tem sido confiado, o próprio Pai Celestial estende Seus cuidados especiais a nós. De modo que não sejamos consumidos pela ansiedade, mas sintamo-nos acolhidos, amados, protegidos pelo manto de Sua inefável graça.[16]

Este cuidado implica não somente que sejamos amparados, mas também aparados, não apenas confortados, como também confrontados. Para que cresçamos e frutifiquemos, nosso Jardineiro não nos poupará de sermos podados. Por mais dolorida que seja a poda, ela é necessária para que sejamos livres dos nós que impedem o fluxo da seiva da vida, responsável pelas flores e frutos que produzirmos.[17]



[1] Gênesis 2:8
[2] Gênesis 2:15
[3] Gênesis 3:17-19
[4] Efésios 4:27
[5] Provérbios 4:23
[6] Hebreus 12:15
[7] Filipenses 2:5
[8] 1 Timóteo 4:16
[9] 1 Timóteo 5:8
[10] 1 Coríntios 12:25
[11]  João 21:15
[12] 2 Coríntios 11:28
[13] Romanos 12:11
[14] Filipenses 2:4
[15] Hebreus 6:11
[16] 1 Pedro 5:7
[17] João 15:1-5