terça-feira, setembro 30, 2014

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Os gays, negros, deficientes e a maldição dos deuses



Por Hermes C. Fernandes

Em algumas sociedades antigas como a Grécia, crianças que nasciam portadoras de deficiências físicas eram sacrificadas. Havia uma razão prática para isso e uma justificativa religiosa. De acordo com a sua crença, Deus ou os deuses só teriam criado pessoas perfeitas, e, portanto, somente as tais mereciam viver.  

Acreditava-se que tais crianças eram aberrações, seres amaldiçoados.  Matá-las era prestar um serviço aos deuses. Pelo menos, era assim que eles apaziguavam sua consciência. Mas a razão verdadeira e nem sempre confessada era que deixá-las viver traria prejuízo à sociedade, já que não seriam produtivas, nem poderiam lutar numa guerra e ainda atrapalhar numa eventual fuga.  Assim, tais seres indefesos eram vistos como um peso extra do qual deveriam se livrar o quanto antes. Poupá-las colocaria em risco a sobrevivência da nação. Portanto, em nome do bem comum, da manutenção da ordem, eliminem-nas.

Durante séculos convivemos com a vergonha da escravidão. Certas etnias se achavam no direito de escravizar a outras, usando suas crenças como justificativas. Brancos afirmavam-se superiores aos negros e até questionavam se os mesmos tinham alma ou se eram apenas seres irracionais, semelhantes aos animais. Versos bíblicos foram pinçados para justificar o uso de mão-de-obra escrava. Deixá-los livres colocaria em risco a ordem social. Por isso, os abolicionistas eram acusados de progressistas, de subversivos, de inimigos da ordem que conspiravam contra o bem-estar e a prosperidade da nação.

Genocídios foram perpetrados e justificados por uma crença equivocada. Episódios bíblicos como o de Jericó e das cidades cananitas conquistadas por Israel eram evocados.  Sociedades inteiras como as pré-colombianas foram dizimadas.

Quem seriam hoje as vítimas de nossos preconceitos? As mulheres? Os gays? Que passagens bíblicas estaríamos usando para justificá-los? De que lado estaríamos se vivêssemos durante o tempo em que a escravidão era tida como um direito divino? Como nos posicionaríamos quanto à matança de crianças deficientes?

Deus não criou deficientes! Bradavam alguns.

Os negros são uma aberração! Não têm alma! Merecem ser escravizados.

Em nome deste mesmo fundamentalismo muitos bradam: Deus criou macho e fêmea! Não criou homossexuais, nem transexuais ou coisa parecida! Portanto, que direitos eles teriam?

Um pastor americano declarou em uma pregação que os homossexuais não têm direito sequer de existir. Segundo alguns, sua existência coloca em risco o modelo de família que tanto prezamos, assim como a existência de crianças deficientes colocava em risco a segurança da sociedade grega antiga, e a liberdade dos escravos implodiria a ordem social vigente à época.

De fato, Deus não criou gays, como também não criou negros, nem deficientes, nem hermafroditas.  Ele criou seres humanos, sujeitos a várias condições, circunstâncias, limitações. Nada mais complexo do que aquele a quem a Bíblia chama de “imagem e semelhança de Deus”.

Assisti a uma matéria jornalística sobre uma criança transexual e sua luta para poder usar o banheiro feminino de sua escola. Seu irmão gêmeo é um menino como outro qualquer. Ele, porém, desde que se entende por gente, percebe-se como pertencente a um gênero distinto de sua anatomia. Veste-se como menina. Fala, sente, pensa e age como tal. O que dizer a esta criança? Estaria possuída de demônio? Um exorcismo resolveria seu problema? Seria simples assim? Ou  seria a educação recebida em casa? Então, por que seu irmão gêmeo não apresentou a mesma tendência?

Senti-me tocado pela história desta criança. Imaginei como deve ser difícil para os pais ter que enfrentar uma sociedade hipócrita, que diz crer nos preceitos bíblicos, mas usam-nos para justificar um dos maiores pecados cometidos por membros de nossa raça: o preconceito.

Minha alma chorou. Este pequeno ser humano poderá ser condenado ao limbo da existência.

Nem a sociedade, muito menos as igrejas, estão preparadas para lidar com isso. Alguns países islâmicos fundamentalistas dão ao problema a mesma solução que os gregos davam às crianças deficientes: homossexuais e transexuais são condenados à morte.

Vale aqui distinguir entre uma coisa e outra. O homossexual geralmente não tem problema com sua anatomia. Ele busca reconciliar sua homoafetividade com o seu sexo biológico. Já o transexual vive uma crise, pois se sente uma mulher num corpo masculino ou vice-versa.  Muitos optam por submeter-se a uma cirurgia de troca de sexo.

Como reagiríamos se um transexual operado se convertesse ao evangelho? Aceitaríamos sua nova condição ou pressionaríamos a que revertesse sua operação? E como reimplantar um órgão masculino que fora removido?

Muitas outras questões surgem daí e demandam respostas honestas e francas. Entretanto, a primeira medida que precisa ser tomada é nos conscientizarmos que tais pessoas são seres humanos criados por Deus e que vivem numa crise interminável, tanto para lidar com suas pulsões quanto para lidar com os preconceitos da sociedade. Devemos acolhê-los ou discriminá-los? Seria ético impormos alguma condição para que fossem recebidos? Que condição impomos para recebermos outros tipos de pecadores? Como acolhemos um empresário desonesto que explora seus empregados sem dar-lhes os direitos trabalhistas e ainda sonega impostos emitindo notas frias? Somos condescendentes com eles? Por que somos tão radicais em se tratando de sexualidade, mas tão maleáveis em outras questões? De que temos medo, afinal? Será que homossexualidade é contagiosa? A sexualidade dos nossos filhos correria algum risco caso a igreja acolhesse tais indivíduos? Haveria dentre nós alguns mal resolvidos nesta questão?

A verdade é que já há homossexuais em nossas igrejas, todavia, mantêm-se velados, temerosos de serem descobertos, expostos e excluídos. Tenho a impressão de que prezamos mais a hipocrisia do que a sinceridade e transparência.

Tudo o que acontece sob a capa da clandestinidade só faz fomentar todo tipo de promiscuidade.  Há gente molestando e sendo molestada nas igrejas. Mas desde que isso não venha a público, tudo bem. O importante é evitar o escândalo, pensariam alguns.

Tomamos a contramão do que Paulo apresenta como sendo o ideal para o ambiente de culto. Segundo o apóstolo dos gentios, onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade. Num ambiente desprovido de preconceito, cada pessoa tem liberdade de ser exatamente o que é, apresentando-se a Deus “com o rosto descoberto” a fim de ser transformado segundo a imagem de Cristo. A transformação operada pelo Espírito tem como ponto de partida o que somos e não o que fingimos ser. Porém, um ambiente impregnado de legalismo e moralismo, as pessoas preferem lançar mão de máscaras religiosas, mantendo em sigilo seus conflitos interiores. O problema se agrava quando a igreja pressiona o indivíduo homossexual a se casar. O objetivo do matrimônio de fachada é provar que por trás dos trejeitos afeminados há um hétero. Conheço o caso de um “ex-gay” que se casou para provar sua conversão. Um ano depois, sua esposa procurou-nos para confessar que se mantinha intacta. Ele jamais a tocara. Adoraria acreditar que isso fosse uma exceção.

Casos de homossexualidade atingem até famílias pastorais. Há pouco soube de um pastor de renome que enviou seu filho de apenas 15 anos para fora do país, depois que o mesmo confessou ser homossexual. Pior que este foi o caso do filho de Oral Roberts, pregador norte-americano mundialmente conhecido, que depois de admitir sua homossexualidade, suicidou-se com um tiro no coração.

Devo esclarecer que em nenhum momento saio em defesa da prática homossexual. Há pelo menos seis passagens bíblicas que condenam atos libidinosos entre pessoas do mesmo sexo. Por outro lado, há mais de dois mil versículos que denunciam injustiças sociais e condenam o abuso do poder econômico. Parece que a Bíblia está mais preocupada com questões sociais do que com sexualidade. Nem Freud daria conta de explicar esta nossa obsessão por questões desta natureza.

Que tal sermos mais compassivos? Que tal soltarmos nossas pedras em vez de arremessá-las? Antes de nos arrogarmos detentores da cura para a homossexualidade, sugiro que busquemos em Cristo a cura para os nossos próprios preconceitos.  O remédio tem em sua fórmula dois componentes: graça e amor. Graça para perdoar. Amor para acolher. O resto, deixemos por conta do Espírito Santo. 

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LOUCURA: O que você faria por um grande amor?




Por Hermes C. Fernandes

Ele estava tão concentrado naquele que seria um dos mais épicos duelos registrados, que não percebeu que havia prêmios em jogo. Em sua mente, o que estava realmente em jogo era a reputação do seu Deus. Foi esta a sua motivação ao derrotar o brutamonte que afrontava o exército de Israel.

Após aquela memorável vitória, o menino anônimo é aclamado herói nacional. Um mero pastorzinho rouba a cena, ofuscando a glória do seu rei. Enciumado, o velho monarca busca uma maneira de eliminá-lo, sem que isso atente contra sua popularidade já em vertiginosa decadência.

Para os israelitas, os créditos da vitória eram de Davi. Mas para os filisteus, eram de Saul. Como reverter isso? Saul preferia que o seu povo lhe atribuísse a glória, enquanto os filisteus elegessem a Davi como seu inimigo #1.

Enquanto buscava um jeito de livrar-se de Davi, Saul lembrou-se de que Davi não havia cobrado os prêmios  prometidos a quem derrotasse Golias. Eram eles, riquezas, isenção de impostos para toda a sua família, e... a mão da filha do rei. Era como ganhar na loteria e não ir descontar o bilhete. Como que por um lampejo, Saul imaginou que se Davi tomasse sua filha como esposa, aparentando-se com a casa real, isso o tornaria num alvo prioritário dos filisteus.

A quem ponto chega uma mente maquiavélica! Usar a própria filha como arapuca para destruir um desafeto.

A princípio, a filha prometida seria Merade, a primogênita. Porém, Davi não demonstrou qualquer interesse. Talvez Merade não possuísse atributos estéticos que atraíssem a Davi. Sua desculpa foi que ele não se achava merecedor de aparentar-se com o rei. Afinal, seu duelo contra Golias não tinha este objetivo.  Merade acabou casando-se com outro.

Chega aos ouvidos de Saul que sua filha caçula, Mical, estaria apaixonada por Davi. Esta seria a grande chance de liquidar de vez aquela fatura. Desta feita, Davi argumenta que por ser de família pobre, não teria condição de pagar o dote requerido por uma princesa. Pelo jeito, Davi não havia requerido nem mesmo as riquezas prometidas a quem derrotasse o gigante. Mas Saul percebe que rolava um clima entre Davi e Mical. Pelo que insiste e estipula um dote simbólico: cem prepúcios de filisteus.

Para Saul, aquela era a armadilha perfeita. Como seu candidato a genro conseguiria tal proeza? Que filisteu se deixaria circuncidar? Se Davi aceitasse o desafio, ele seria morto.

Mical parecia valer a pena. Por isso, Davi não titubeou. Se este era o preço estipulado pelo pai, ele estava disposto a pagar. Reunindo seus homens, partiu em direção dos inimigos.  Como nenhum deles estaria disposto a ceder gentilmente o seu prepúcio, Davi não teve escolha, senão... você já sabe.

Dias depois, Davi volta com um saco cheio de prepúcios. Mas em vez de cem, ele trouxe duzentos. Como se dissesse a Saul: Sua filha vale mais do que você avaliou.

Se Mical era apaixonada, depois desta, ficou enlouquecida de amor. Como não amar a quem lhe atribuiu valor maior do que seu pai?

De igual modo, Paulo afirma que fomos “comprados por bom preço, e que, por isso, deveríamos glorificar a Deus em nosso corpo e no nosso espírito, os quais pertencem a Deus (1 Coríntios 6:20). Não que valêssemos alguma coisa. O pecado destituiu-nos da glória de Deus, de maneira, que perdemos nosso valor intrínseco. Porém, ninguém jamais nos amou como Ele. Em vez de prepúcios, Ele pagou nosso dote com o Seu próprio sangue.

Imagine se Davi resolvesse pechinchar. Em vez de cem prepúcios, ele ofereceria cinquenta. Mas ele toma o caminho inverso. Em vez de desdenhar o ‘produto’, ele o super valoriza. Seria como se puséssemos um carro à venda, pedindo, digamos, vinte mil reais, e alguém nos oferecesse quarenta mil.

Cristo não pechinchou conosco! Não ofereceu contraproposta. Em vez disso, pagou o mais alto preço que alguém poderia pagar: Sua própria vida. Talvez por isso, Paulo se refira a isso como a "loucura de Deus" (1 Co.1:15). Seria isto uma loucura de amor?

O Escritor de Hebreus diz que Ele tinha em vista a “alegria que lhe estava proposta” (Hb.12:2). Ele sabia que valeria a pena cada gota de sangue, cada açoite, cada ferida. Isaías profetiza que Ele viria o resultado de Seu sacrifício e ficaria satisfeito (Is.53:11). Em outras palavras, Ele olharia para nós e diria: Valeu!

De acordo com Paulo, o resultado de Sua entrega por nós, seria uma igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível (Ef.5:27).

Foi pela igreja, o embrião da nova humanidade, que Cristo pagou tão alto preço. Não merecíamos nem ao menos Sua atenção. Porém, Ele apaixonou-Se por nós. Foi amor à primeira vista. Aliás, amor antes mesmo da primeira vista. Antes da fundação do mundo!

Não bastaria derrotar Golias! Davi tinha pagar o dote. Mical não seria apenas um prêmio, mas uma conquista de amor. Igualmente, não bastaria o que Jesus fez durante Seu ministério, Seus ensinos, Seus milagres. Sem a Cruz, seríamos apenas um prêmio em reconhecimento por Seu desempenho aqui na terra. Pela Cruz, nosso valor foi excedido. Ele não apenas remediou o prejuízo que o pecado nos causara, mas atribuiu-nos valor que não possuiríamos ainda que não houvéssemos pecado.


* Não deixe de ler a continuação desta postagem nos próximos dias.

domingo, setembro 28, 2014

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HOMOSSEXUAIS: Seriam os eunucos da vez?


Por Hermes C. Fernandes

Nenhuma classe era tão menosprezada nos tempos bíblicos do que os eunucos. E a razão disso era muito simples: eles não podiam procriar. Fosse por razões orgânicas (costumavam ser castrados), ou por não sentirem-se atraídos pelo sexo oposto. Por conta disso, sofriam preconceito semelhante ao sofrido por mulheres estéreis. Na concepção judaica, a geração de filhos era a garantia da perpetuação da vida. A prole dava continuidade à saga da família. Na ausência destes, não haveria para quem deixar herança, que consistia não apenas em bens materiais, mas também no nome. 

A Lei era dura com relação aos eunucos. Eles nem sequer podiam entrar na congregação do Senhor (Dt.23:1). Neste mesmo capítulo, a Lei também exclui da comunidade israelita os filhos bastardos e os estrangeiros. 

Alguns pesquisadores propõem que esta exclusão pretendia apartar da assembleia da cidade os sacerdotes de deuses pagãos, dos quais muitos eram eunucos e bastardos (que por não terem direito a herança, eram entregues para o ofício sacerdotal). Enquanto Israel rejeitava completamente esses indivíduos, outras nações descobriram maneiras de aproveitá-los, envolvendo-os em atividades como o cuidado da rainha e do harém do rei.  

A primeira vez que encontramos eunucos em Israel é durante o reinado de Acabe (2 Reis 9:32). Provavelmente cuidavam de Jezabel, mulher extremamente vaidosa e malévola que introduziu vários costumes pagãos em Israel. Vemos também que havia eunucos em Judá nos dias em que Jerusalém caiu nas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia (Jer.29:2). É bem provável que tanto em Israel dos dias de Acabe, quanto em Judá dos dias de Jeremias, os eunucos fossem escravos estrangeiros adotados na corte real. 

Quando o rei Ezequias recebeu os embaixadores da Babilônia, mostrando-lhes todos os seus tesouros, Isaías o advertiu dizendo que um dia eles voltariam e levariam seus descendentes para serem eunucos no palácio do rei da Babilônia (Is.39:6-7). Mas Ezequias não percebeu a gravidade e as implicações daquela profecia. Em vez disso, concluiu que se houvesse paz durante o tempo de seu reinado, então, tudo bem. Não importava o que o futuro reservasse aos seus descendentes. Ora, se estes fossem castrados, quem herdaria o trono de Judá? 

Quando Ciro II, rei da Pérsia, em 537 a.C., invadiu a Babilônia, ele libertou o povo judeu, permitindo que retornasse a Jerusalém. Muitos dos que retornaram à cidade agora eram eunucos, e de acordo com a lei de Deuteronômio, estavam destituídos de sua cidadania e, com isso, da participação política e religiosa na cidade. Porém, em Isaías (livro escrito bem antes do cativeiro babilônico) há uma revisão desta regra. O mesmo profeta que anuncia a Ezequias o que aconteceria aos seus filhos ao serem levados cativos para a Babilônia, também diz: "O estrangeiro que por sua própria vontade se uniu ao Senhor, não deve dizer: Javé me excluirá de seu povo. Tampouco deve dizer o eunuco: Não sou mais que uma árvore seca. Porque assim disse o Senhor: Os eunucos que observem meus sábados, que escolhem o que me agrada e são fiéis ao meu pacto, concederei a eles ver gravado seu nome dentro do meu templo e de minha cidade; isso é melhor que ter filhos e filhas! Um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Isaías 56:3-6). A partir de Isaías, então, se cria um mecanismo que torna mais flexíveis as leis do Deuteronômio, adaptando-as a uma nova realidade existente na vida social judaica. 

Percebemos nitidamente que a graça está por trás desta “adaptação” à realidade. A Lei aponta para um mundo ideal, onde não haja homens incapazes de reproduzir. Porém, a graça lida com as demandas da realidade. A Lei acentua a distância entre o real e o ideal. A graça reverte este fluxo. Em vez de exclusão, inclusão. Em vez de distanciamento, aproximação. 

Creio que, como igreja de Cristo, temos muito que aprender com este episódio. O mundo não é o que deveria ser. Há demandas atuais que exigem posicionamento. Devemos apegar-nos às exigências da Lei ou ceder à concessão da graça? Se marcarmos a opção um, então, nossos filhos terão que ser apedrejados em caso de flagrante rebeldia. 

Nem mesmo no tempo de Jesus as pessoas sabiam lidar com a questão envolvendo os eunucos. Há conceitos que ainda hoje são difíceis de serem digeridos, principalmente pelos cristãos. Somos inflexíveis como a letra da Lei, esquecendo-nos de que a letra mata, e que somente o Espírito vivifica. Veja como Jesus lidou com o preconceito envolvendo os eunucos de sua época: 
“Ele, porém, lhes disse: Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido. Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.” Mateus 19:11-12 
Ora, se Jesus estivesse falando de algo simples, aceito pelo senso-comum, não teria dito: “Nem todos podem receber esta palavra...”

Jesus elenca três tipos de eunucos: 

• “Eunucos criados pelo homem”. Castrados. Esterilizados intencionalmente. Prática fartamente disseminada na antiguidade. Geralmente castravam-se os filhos de escravos capturados na guerra, para que, ao crescerem, pudessem servir nos haréns dos reis sem oferecer qualquer risco. 

 • “Eunucos por causa do reino dos céus”. Não castrados. Que optaram pelo celibato para que pudessem servir a Deus no ministério sem distração com esposa e filhos. Paulo, João Batista e o próprio Jesus poderiam ser contados entre esses. Alguns chegaram a se castrar, como no caso de Orígenes, para se livrar da tentação sexual.

 • “Eunucos desde o ventre materno”. São os que nasceram desprovidos de atração sexual pelo sexo oposto ou são hermafroditas. Muitos, por conta da pressão social para que tenham vida sexual ativa, acabam desenvolvendo atração por pessoas do mesmo sexo. Tais indivíduos possuem libido, porém esta é direcionada para outras atividades além do sexo. Geralmente, atividades ligadas à estética, às artes, que requerem certo grau de sensibilidade. Embora eu os tenha deixado por último em minha exposição, Jesus os coloca encabeçando a lista dos eunucos. 

Em outras palavras, uns são eunucos por imposição social, outros por razões psicológicas ou fisiológicas, e outros por decisão própria, geralmente motivados por idealismo.

O que faremos a esses indivíduos? Que rótulo lhes daremos? Qual será nossa sentença? Tomaremos Deuteronômio ou Isaías como base? E o que faremos com o que Jesus disse acerca deles? Será que estamos entre os que Jesus denunciou como não estando preparados para recebê-los? 

Não foi à toa que Filipe foi o discípulo escolhido por Deus para introduzir o Evangelho ao eunuco etíope. Logo no início de sua caminhada cristã, ele testemunhou a maneira como Jesus lidava com os preconceitos humanos. O mesmo Natanael que comentara com Filipe que da região de procedência de Jesus não poderia vir nada que prestasse, ouviu dos lábios do Mestre: Este sim é um verdadeiro israelita! Com este elogio, Jesus interrompeu o ciclo do preconceito. Em vez de rebater, Ele preferiu elogiar. Imagino a cara de Natanael diante de Filipe. O que este não podia supor era que aquela experiência o habilitaria para mais tarde ser tirado do meio das multidões em Samaria para pregar a um eunuco (que ainda por cima era negro!) no caminho de Gaza (At.8:27-39). 

Filipe não perde tempo apontando as eventuais falhas morais do eunuco. Em vez disso, fala-lhe de Cristo, tomando como base um trecho do mesmo livro que diz que Deus receberia eunucos e lhes daria um nome eterno. Convencido da disposição divina em recebê-lo como filho, o eunuco diz: “Eis a água, o que me impede de ser batizado?” Se fosse hoje, influenciado por pregadores modernos, talvez Filipe dissesse: Bem, acho que você precisaria tomar um banho de loja primeiro. Trocar essas roupas espalhafatosas por um terno e gravata. Mudar esses trejeitos efeminados. Arrumar uma namorada para comprovar que foi curado. E depois de batizado, gravar um DVD de testemunho para a gente divulgar. Se um eunuco me fizesse a mesma pergunta hoje (o que me impede de ser batizado?), eu responderia: o preconceito. Daí, ele procuraria outro eunuco para evangelizar, conduziria-o a Cristo e abriria uma igreja de eunucos. 

É... Jesus tinha razão. Não estávamos preparados à época, e provavelmente, muito menos hoje. Chegamos a Gaza, mas nos recusamos a aproximar-nos da carruagem em movimento. Talvez por amá-los na mesma proporção de que amamos os bandidos... Dizemos amá-los, mas optamos por manter distância. E assim, preferimos a inflexibilidade da Lei ao Espírito da Graça. E é justamente a Lei que nos oferece a chave com a qual trancamos o armário no qual muitos se escondem (alguns dos quais exercem cargos eclesiásticos, usando o púlpito como armário). Somente um ambiente impregnado de graça oferecerá acolhimento e compaixão. Afinal, somos todos humanos, desesperadamente carentes desta graça capaz de fazer-nos renunciar às próprias paixões e concupiscências (Tt.2:11-12). Graça que, igualmente, nos capacita a vencer nossos preconceitos e medos.

Respondendo à pergunta proposta no título deste post. O eunuco da vez é todo aquele que desprezamos, do qual queremos distância. Pelo menos assim, não seremos obrigados a amá-los, já que esta obrigação só diz respeito ao próximo... só que não!

sexta-feira, setembro 26, 2014

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A verdadeira história de Cosme e Damião




Por Hermes C. Fernandes

Filhos de uma nobre família de cristãos, os gêmeos árabes Cosme e Damião nasceram por volta do ano 260 d.C. Desde muito jovens manifestaram um enorme talento para a medicina, profissão a qual se dedicaram após estudarem e diplomarem-se na Síria. 

Amavam a Cristo com todo o fervor de suas almas, e decidiram dedicar suas vidas ao serviço do amor. Por isso, não cobravam pelas consultas e atendimentos que prestavam, o que lhes rendeu o apelido de "anárgiros", ou seja, “aqueles que são inimigos do dinheiro" ou "que não são comprados por dinheiro". A riqueza que almejavam era fazer de sua arte médica também o seu ministério para o bem de todos. Inspirados no amor de Cristo, usavam a fé aliada aos conhecimentos científicos para atenuar a dor dos enfermos e inválidos. Ao invocarem o nome de Jesus, muitos eram curados, alguns à beira da morte. Até animais eram sarados, pois entendiam que “toda a criação aguarda, com ardente expectativa, pela manifestação da glória de Deus em Seus filhos” (Rm. 8:18:19). 

Seu testemunho de amor produziu inúmeras conversões ao evangelho da graça, chamando a atenção das autoridades. Durante a perseguição promovida pelo Imperador romano Diocleciano, por volta do ano 300, Cosme e Damião foram presos, levados a tribunal e acusados de se entregarem à prática de feitiçarias e de usar meios diabólicos para disfarçar as curas que realizavam. Ao serem questionados quanto as suas atividades, eles responderam: "Nós curamos as doenças em nome de Jesus Cristo, pela força do Seu poder". 

Diocleciano odiava os cristãos porque eles eram fiéis a Jesus Cristo e se recusavam a adorar ídolos e esculturas consideradas sagradas pelo Império Romano.Eles conheceram os princípios da fé cristã desde sua infância, e por isso recusaram-se a adorar os deuses pagãos, apesar da imposição e das ameaças do império. Diante do governador Lísias, ousaram declarar que aqueles falsos deuses não tinham poder algum sobre eles, e que só adorariam o Deus Único, Criador do Céu e da Terra. Mantiveram a Palavra do testemunho de Cristo, impressionando a todos por seu Amor, fidelidade e entrega a Jesus. 

Por não renunciarem aos princípios de Deus, sofreram terríveis torturas. Mas mesmo torturados, jamais negaram a fé. Em 303, o Imperador decretou que fossem condenados à morte na Egéia. Os dois irmãos foram colocados no paredão para que quatro soldados os atravessassem com flechas, mas eles resistiram às pedradas e flechadas. Os militares foram obrigados a recorrer à espada para a decapitação, honra reservada só aos cidadãos romanos. E assim, Cosme e Damião foram martirizados. 

Ironicamente, cem anos depois de morrerem por não se render à idolatria, seus restos mortais começaram a ser alvo de veneração, bem como as imagens esculpidas em sua homenagem. Dois séculos após sua morte, por volta do ano 530, o Imperador Justiniano ficou gravemente doente e deu ordens para que se construísse, em Constantinopla, uma grandiosa igreja em honra de Cosme e Damião. A fama dos gêmeos também correu no Ocidente, a partir de Roma, por causa da basílica dedicada a eles, construída a pedido do papa Félix IV, entre 526 e 530. A solenidade de consagração da basílica ocorreu num dia 26 de setembro e assim, Cosme e Damião passaram a ser festejados pela igreja católica nesta data. 

Os nomes de Cosme e Damião são pronunciados inúmeras vezes, todos os dias, no mundo inteiro. Até hoje, os gêmeos são cultuados em toda a Europa, especialmente na Itália, França, Espanha e Portugal. Além disso, são venerados como padroeiros dos médicos e farmacêuticos, e por causa da sua simplicidade e inocência também são invocados como protetores das crianças. Por isso, na festa dedicada a eles, é costume distribuir balas e doces para as crianças. 

Aqui no Brasil, devido ao sincretismo, a devoção trazida pelos portugueses misturou-se com o culto aos orixás-meninos (Ibejis ou Erês) da tradição africana yorubá. Cosme e Damião, os santos gêmeos, são tão populares quanto Santo Antônio e São João. São amplamente festejados na Bahia e no Rio de Janeiro, onde sua festa ganha a rua e adentra aos barracões de candomblé e terreiros de umbanda, no dia 27 de setembro, quando crianças saem aos bandos, pedindo doces em nome dos santos. 

Uma característica marcante na Umbanda e no Candomblé em relação às representações de Cosme e Damião, é que junto aos dois santos católicos aparece uma criancinha vestida igual a eles. Essa criança é chamada de Doúm ou Idowu, que personifica as crianças com idade de até sete anos de idade, sendo considerado o protetor das crianças nessa faixa de idade. Na festa de tradição afro, enquanto as crianças se deliciam com as iguarias oferecidas às entidades, os adultos ficam em volta entoando cânticos aos orixás. 

Mesmo não compactuando com a devoção que lhes é prestada, não se deve ignorar ou desprezar o testemunho de Cosme e Damião, muito menos demonizá-los como fazem alguns. 

Os médicos gêmeos jamais se deram aos ídolos, tampouco praticaram magia ou ocultismo, embora tenham sido acusados de fazê-lo. Pelo contrário, foram cristãos fiéis até o fim, amando o Senhor sem medida e manifestando Seu amor no serviço ao próximo. Tal testemunho deve continuar a nos inspirar, como tem inspirado a tantas gerações.

P.S.:  Uma pergunta recorrente quando o assunto é "Cosme e Damião" é se um cristão pode comer balas e doces oferecidos a eles. Vou deixar que Paulo, o apóstolo dos gentios, nos responda através de uma paráfrase que fiz do texto em que trata do assunto "Comidas sacrificadas aos ídolos":

“Ora, no tocante aos doces oferecidos a Cosme e Damião, já temos conhecimento suficiente. Mas devo salientar que o conhecimento incha, enquanto o amor edifica. E, se alguém pensa que já sabe alguma coisa, ainda não sabe como convém saber. O importante é amar a Deus e ser conhecido por ele. Logo, quanto ao comer comidas oferecidas a qualquer entidade, sabemos que o ídolo em si nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só. Ainda que haja alguns que se apresentem como deuses (ou santos), sejam em igrejas ou religiões de quaisquer matizes, inclusive africanas ou orientais, todavia, para nós, há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por intermédio dele. Mas nem todos têm este conhecimento; porque alguns até agora comem coisas consagradas em homenagem aos ídolos, e por terem consciência fraca, ficam contaminados. Ora, comer ou deixar de comer não faz qualquer diferença em nossa relação com Deus. Mas devemos ter cuidado para que essa liberdade não sirva de escândalo para os de mente fraca. Porque, se alguém te flagrar correndo atrás de doces consagrados (visto que tens conhecimento da verdade), não será a consciência do que é fraco induzida a comer também (mas sem ter o mesmo conhecimento)? E assim, pelo teu conhecimento prejudicará o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo. Por isso, se comer tais doces escandalizar a meu irmão, nunca mais os comerei, para que meu irmão não se escandalize.” 1 Coríntios 8:1-13

quarta-feira, setembro 24, 2014

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Equilibrando-se na corda bamba da graça



Por Hermes C. Fernandes

Estou ciente de todos os riscos de se viver a graça até às últimas consequências. Não encontro melhor analogia disso do que andar na corda bamba. Não se pode fazer estripulias ali. Há que se tomar os devidos cuidados, vigiando cada passo, sem olhar nem para a direita, nem para esquerda, muito menos para trás ou para baixo. Nossos olhos devem ser mantidos na direção do alvo que se deseja alcançar. Olhar para qualquer outra direção poderá provocar vertigem e, eventualmente, nossa queda. 

Se pendermos para a esquerda, cairemos no fosso do legalismo, onde nossa liberdade é restringida por regras e tradições humanas. Se pendermos para a direita, cairemos no abismo do pecado, onde a liberdade é confundida com licenciosidade e libertinagem.


Geralmente, o equilibrista recorre ao uso de um bastão que o acompanha em sua caminhada sobre a corda bamba. Se quisermos alcançar o equilíbrio em nossa caminhada sob a graça, teremos que recorrer constantemente à cruz. Não é à toa que a cruz tem duas hastes, uma vertical e outra horizontal. Repare que a horizontal, sobre a qual os braços de Jesus foram estendidos, aparece numa posição reta, sem pender para nenhum dos lados.  Uma graça sem cruz não passa de desgraça em potencial.

A corda da graça é suspensa sobre o abismo. Qualquer desequilíbrio pode ser fatal e provocar uma queda livre. Dura coisa é cair da graça! Mas isso só ocorre quando nos separamos de Cristo, apelando à nossa justiça própria. Todos os que recorrem à prática da Lei para serem justificados por Deus acabam separando-se de Cristo e caindo da graça. Veja o que Paulo diz sobre este terrível risco:
“Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído.Gálatas 5:4

Não é possível caminhar por esta corda bamba sem depender inteiramente de Cristo. Para tal, nosso ‘eu’ tem que estar crucificado. Em outras palavras, nosso ‘eu’ é alguém com quem não podemos mais contar, pois está definitivamente morto. Paulo percebeu isso e, por isso, já não se atrevia a depender de si mesmo. Ele sabia que se retornasse às obras da Lei, Cristo de nada o aproveitaria (Gl.5:2). Estar firme na liberdade conferida pela graça não é algo facultativo (Gl.5:1). Negligenciar isso é o mesmo que separar-se de Cristo e de Sua cruz, caminhando sobre a corda bamba sem um bastão para dar equilíbrio.


Lembre-se de que não há rede protetora lá embaixo. A queda é livre! Por isso, resta-nos fazer coro com o apóstolo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. Não aniquilo a graça de Deus; porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu em vão” (Gl. 2:20-21).

Alguém se atreve a dizer que Cristo morreu em vão? Mas é justamente isso que dizemos quando teimamos em depender de nossos próprios esforços para nos manter de pé. Graça sem cruz é corda bamba sem bastão para equilibrar-se. Não arrisque! Fie-se na obra consumada na cruz e não em sua performance religiosa. Não vá meter-se a fazer malabarismo, misturando lei e graça num mesmo combo. Ou vivemos toda a liberdade que a graça dá ou voltamos para debaixo do jugo da Lei. 

terça-feira, setembro 23, 2014

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Graça rara, nossa pérola negra




Por Hermes C. Fernandes

Como atribuímos valor a algo? Que critérios usamos? Por que algo que tem valor incomensurável para um, não tem valor algum para outro?

Recentemente assistia a um programa no History Channel chamado “Trato feito” apresentado pelos donos de uma loja que compra e vende antiguidades. Alguns itens que lhe foram oferecidos me chamaram muita atenção. Dentre eles, um exemplar antigo do livro “Drácula” de 1897 (se não me falha a memória, da primeira edição) assinado por Bram Stoker, o homem responsável pelo mito moderno dos vampiros. O livro com a capa puída, as páginas amarelas (algumas comidas por traças), foi vendido por milhares de dólares pelo simples fato de ter a assinatura do autor. Um exemplar adquirido em qualquer livraria talvez saísse por menos de trinta reais. O que levaria alguém a pagar dez mil dólares por um livro velho soltando páginas? Vai entender...

Outro veio com um relógio de bolso que teria sido de Abraham Lincoln, o mais popular presidente dos EUA. Depois de atestada a veracidade da peça, ofereceram-lhe duzentos e cinquenta mil dólares. Quando o especialista lhe disse que seria possível conseguir até um milhão de dólares num leilão, o dono da peça agradeceu a oferta e partiu, esperançoso de vendê-la por quatro vezes o que lhe estava sendo oferecido. Tudo isso porque aquele relógio um dia esteve no bolso e na mão de um herói nacional americano.

Um caso muito interessante foi o de um rapaz que trouxe uma bandeja e uma cumbuca de prata que teriam sido roubados por seu avô da casa de veraneio de Hitler. Os itens traziam seu nome e a suástica, símbolo do partido nazista. De acordo com ele, seu avô teria sido soldado na segunda guerra mundial e durante a tomada da Alemanha pelos aliados, aproveitara para furtar a prataria pertencente ao Führer. Depois de ouvir que seu avô era um herói, achou que conseguiria uma ótima oferta pelos itens, mas ficou desapontado quando os apresentadores do programa se recusaram a comprá-los por estarem vinculados a um dos mais terríveis capítulos da história.

O último caso que me chamou atenção foi de uma mulher que queria vender uma boneca estilo Barbie vestida de enfermeira. Examinada por um especialista em brinquedos antigos, a boneca pertencia a uma linha de brinquedos para meninos lançada em 1964. Como era época de guerra, a fábrica de brinquedos lançou vários bonecos de soldados (ao estilo do Falcon, alguém se lembra?), dentre eles uma boneca enfermeira. Como se tratava de uma boneca, os meninos se recusaram a comprar e ela acabou empoeirada nas prateleiras das lojas de brinquedo. As meninas também não se interessaram porque a boneca era de uma linha de brinquedos de menino. Quase cinquenta anos depois, essa mesma boneca se tornou uma raridade disputada por colecionadores. A mulher conseguiu vendê-la por dois mil e quinhentos dólares. Ao sair da loja de antiguidades, o repórter perguntou se estava satisfeita com o negócio e ela respondeu: - Claro! Comprei-a por 50 e vendi por 2.500!

Usei estes quatro exemplos para buscar uma resposta à minha pergunta: como atribuímos valor a algo?

Penso que Jesus nos oferece uma resposta consistente em duas de suas parábolas:
"O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo.O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou". Mateus 13:44-46
A maior parte das parábolas contadas por Jesus tinha o objetivo de explicar o que era e como funcionava o reino de Deus. Diferente dos reinos deste mundo, o reino de Deus não pode ser localizado geograficamente. Ninguém pode apontá-lo num mapa. Ele é, por assim dizer, uma escala de valores proporcionalmente inversa àquela tão cara ao mundo. Ao nos convertermos somos introduzidos neste reino de modo que muito daquilo que antes tanto valorizávamos, já não representa coisa alguma para nós, enquanto o que antes desprezávamos, passa a ser aquilo a que mais atribuímos valor.

Daí a importância de passar pelo o que Jesus chamou de “novo nascimento”. Sem que sejamos regenerados (gerados novamente), nossos olhos não podem vislumbrar o reino de Deus, e consequentemente, não estamos aptos a integrá-lo.

As réguas pelas quais o mundo afere todas as coisas são a posse, o poder e o prazer. Algo só tem valor se nos proporciona uma dessas coisas. Já no reino de Deus, em contrapartida, valoriza-se o desapego, a humildade e o serviço, valores antagônicos àqueles. Em vez de perguntarmos que benefício aquilo nos proporcionará, perguntamos que bem aquilo resultará e quantos dele se beneficiarão.

Segundo Jesus, o reino de Deus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O que é um tesouro, afinal? Pode ser o que alguém com muito sacrifício amealhou durante toda a vida. Para aquele que o achou, nada custou. Mas para aquele que o escondeu ali, pode ter custado toda a sua vida. O que faz aquele homem que topou com ele acidentalmente? Ele sabe que o campo tem dono. Mas provavelmente o dono desconhece a existência do tesouro. Aproveitando-se disso, aquele homem vai, vende tudo quanto tem e lhe faz uma oferta. Talvez o dono do campo tenha se surpreendido com o valor oferecido. Ele jamais suporia que suas terras valessem tanto.  Mas o comprador sabe de algo que ele desconhece. Ele compra o campo mas o que realmente interessa é o que nele está escondido.

Aprendemos com isso que não se pode avaliar nada superficialmente. Abaixo das sucessivas camadas de poeira pode haver um tesouro. Por trás da aparência simples de uma criança pode haver um extraordinário potencial ainda latente. Mas quem se dispõe a cavar? No reino de Deus vale mais a vocação, isto é, aquilo a que se destina algo/alguém do que sua situação atual.

Aquele homem vende tudo o que tem para adquirir o campo. O valor que atribuímos a algo é proporcional àquilo de que estamos dispostos a abrir mão para adquiri-lo.

Na segunda parábola, Jesus diz que o reino de Deus é como um negociante que procura e acha uma pérola de grande valor. Ele faz exatamente como o da primeira parábola: vende tudo o que tem para adquiri-la.

Como alguém poderia dispor de toda uma vida por um único objeto? Ora, aquele homem já negociava pérolas. Aquela era a sua profissão. O que ele teria visto naquela pérola em particular que valeria toda uma vida de trabalho?

Na época, a cobiça pelas pérolas era tão grande que os registros históricos mostram que no apogeu do império Romano, o general Vitellius financiou um exército inteiro vendendo apenas um dos brincos de pérola de sua mãe. Todavia, Jesus usa o artigo definido para referir-se a tal pérola. Portanto, não se tratava de uma pérola comum, o que já seria sobremodo valiosa. Embora Jesus não especifique, acredito que se tratava de uma pérola negra, a mais rara dentre as pérolas.

Valorizamos algo de acordo com sua indisponibilidade. Quanto mais raro, maior valor lhe atribuiremos. Vale aqui a lei da oferta e da procura.

Uma pérola negra não é mais bela que uma pérola comum. Até seu brilho é inferior. No entanto, pérolas negras são raríssimas. Somente uma espécie de ostra encontrada no Taiti chamada pinctada margaritifera é capaz de produzi-la. Esta ostra possui uma listra negra em seu interior. Se a pérola se formar em contato com a listra, a pérola resultante será negra. Entretanto, mesmo entre essas ostras isso é um fenômeno raro – acontece uma vez em cada 10 mil.

Pérolas negras não são produzidas em série. Tudo quanto Deus faz é raro, é único, é especial. As coisas de Deus não são comuns. A própria graça de Deus é um fenômeno raro. Quantos bilhões de seres humanos já viveram neste planeta? Mas quantos deles poderiam arcar com o alto preço de nossa salvação? Quantos seriam aptos? Para tal teriam que ter vivido neste mundo sem ter praticado um único pecado. Alguém se habilitaria? Não foi à toa que João chorava desesperadamente em sua visão registrada em Apocalipse, “porque ninguém fora achado digno” (Ap.5:4a).

Jesus é a nossa pérola negra, aquele que “não tinha parecer nem formosura; e, olhando nós para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos” (Is.53:2). Desprovido de beleza, porém, raro, raríssimo, sui generis.

Se considerarmos o livro de Cânticos e o relacionamento de Salomão e Sulamita como uma alegoria do relacionamento entre nós e Cristo, faremos coro à resposta que ela dá às suas amigas:

“Que diferença há entre o seu amado e outro qualquer, ó você, das mulheres a mais linda? Que diferença há entre o seu amado e outro qualquer, para você nos obrigar a tal promessa? O meu amado tem a pele bronzeada; ele se destaca entre dez mil.” Cânticos 5:9-10

Estatisticamente, qual a probabilidade de surgirem na humanidade pessoas como Leonardo da Vinci, Mahatma Gandhi, Albert Eistein, Siddarta Gautama, Maomé e outros? Ínfimas, provavelmente. E qual a probabilidade de surgir alguém como Jesus Cristo, capaz de reatar nossa comunhão com Deus? Absolutamente, zero!

Portanto, tudo o que se refere a Ele é raro, raríssimo. Seu Reino é único. Sua graça é ímpar. Quem não entendeu isso certamente não teve seus olhos desvendados ainda, e, por isso, não pôde contemplar o esplendor do Seu reino, nem ter consciência da inefabilidade de Sua graça.

Se não percebermos o quão rara é a graça, não lhe atribuiremos o devido valor. Corremos o risco de a confundirmos com uma graça barata, expressão cunhada pelo teólogo alemão Bonhoeffer.

Apesar de a salvação nos ser oferecida gratuitamente, ela custou muito caro a Ele, da mesma maneira que a produção de uma pérola custa muito caro à ostra. O único trabalho que o negociante de pérolas tem é o de encontrar a ostra e abri-la. Devo admitir que não é nada fácil abrir uma ostra hermeticamente fechada. E não adianta tentar quebrá-la. Sua casca é duríssima. A melhor saída é esperar o momento em que a ostra se abre por si só, revelando assim o seu conteúdo.

Jesus diz que até os dias de João Batista o reino de Deus era tomado à força. Porém, até ali, ninguém havia obtido êxito em apossar-se de tão preciosa pérola. Mas, chegada a plenitude dos tempos, a ostra se abriu e a pérola tornou-se disponível aos homens.

Embora seja exteriormente resistente, a ostra é interiormente muito sensível. Talvez mais sensível que os olhos humanos. Se um cisco no olho é capaz de nos levar ao desatino, imagine o que significa para a ostra quando seu interior é invadido por um grão de areia. A dor é incalculável. Sua reação para tentar diminuir o desconforto é cobrir o grão de areia com camadas de carbonato de cálcio. A substância vai endurecendo até formar a pérola.

Pode-se dizer que pérola é a cicatriz da ferida causada pelo grão de areia invasor.

Da mesma maneira, para que o reino de Deus nos tornasse acessível, Jesus teve que ser ferido. Isaías profetizou cerca de setecentos anos antes, que Ele seria “desprezado e o mais indigno entre os homens; homem de dores e experimentado no sofrimento. Como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum” (Is.53:3).

Jesus recebeu em Seu corpo inocente feridas em todas as extremidades, nas mãos, nos pés, na cabeça, nas costas e no tronco. As feridas deixaram de sangrar. Mas as cicatrizes permanecem mesmo em Seu corpo glorificado. Elas são as testemunhas do preço pago pela nossa redenção e admissão no reino de Deus. Não é por coincidência que as doze portas da Nova Jerusalém, símbolo de sua igreja e do seu reino, são representadas por doze pérolas (Ap.21:21).

Será que temos atribuído o devido valor a esta graça? De que estaríamos dispostos a abrir mão por ela? Quanto vale o que custou a vida do único inocente a ter passado por esta terra? Pois o valor de Sua vida é proporcional ao valor da salvação que nos é oferecida gratuitamente. Não valorizar isso é pisar o Filho de Deus, profanar o sangue da aliança e insultar o Espírito da graça (Hb.10:29).


segunda-feira, setembro 22, 2014

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Jogue o legalismo no lixo!



Por Hermes C. Fernandes

Imagina uma criança que acaba de nascer. Ao ser retirada do ventre de sua mãe, a placenta que a protegeu por nove meses também é removida. Uma vez cumprido o seu papel, ela vai parar no lixo, junto com o cordão umbilical através do qual a criança se alimentava.  Depois de limpa do líquido amniótico, a criança é embalada numa manta e colocada num confortável berço. É claro que nada se compara ao ambiente acolhedor do ventre materno. Mas este tempo não voltará jamais. É hora de enfrentar o mundo externo e se preparar para crescer.

Digamos que algum desavisado resolva resgatar a placenta da lixeira para reaproveitá-la. Tal atitude poderia ser considerada sensata? Obviamente que não. Imagine, ainda, se esta pessoa resolvesse levar a placenta para casa e criá-la como se fosse a própria criança. Isso seria o cúmulo do absurdo, concorda?

E se esta pessoa começasse a criticar a mãe que depositou o recém-nascido no berço?
- Que vergonha! Desprezando a placenta que foi tão útil... Como ela poderia ser tão ingrata? Como pode trocar algo natural, acolhedor, protetor, por algo artificial? Essa mãe está muito moderninha para o meu gosto.
É claro que ninguém em sã consciência pensaria desta maneira. Todavia, tem sido assim que muitos têm se portado com relação às estruturas, estratégias e modelos eclesiásticos.

De um tempo para cá, tenho sido duramente criticado por posturas consideradas pós-modernas. Há até quem faça aquele comentário maldoso, do tipo, “já não se faz pastores como antigamente”. Tomando emprestada uma fala de Ed René Kivitz, não se faz pastores como antigamente, pelo simples fato de já não se fazer pastores PARA antigamente.  

Modelos servem como placentas. Depois de cumpridos o seu papel, devem ser descartados. Não devemos fidelidade a tais estruturas, mas a Deus somente e aos Seus propósitos.

A igreja dos Gálatas estava voltando à lixeira em busca de placenta e do cordão umbilical; trocaram a graça genuína pelos ritos ultrapassados exigidos pela Lei Mosaica.

Infelizmente, muitos pararam no tempo, tornando-se reféns de um saudosismo nada saudável. Tiraram o foco da criança recém-nascida para a placenta que já não serve para nada. Criam a placenta, enquanto lançam a criança no lixo.

Não se pode querer criar a criança juntamente com a placenta, assim como não se pode conciliar a liberdade da graça com as demandas da Lei. O máximo que a Lei oferece ao pássaro enjaulado é um passeio matinal, mas sem sair da gaiola. Isso, quando não corta as suas asas. A graça abre a gaiola e convida o pássaro a voar. Tenho percebido, por parte de algumas denominações, um empenho de conciliar uma coisa à outra. Algumas parecem tão descoladas no formato, na linguagem, mas escondem por trás disso o mesmo veneno legalista. Tudo não passa de uma passeio sem sair da gaiola. 

Depois de conhecer o gostinho da liberdade, nunca mais o pássaro quer saber de viver engaiolado. Não faria sentido armar um alçapão para tentar capturá-lo novamente. É isso que fazemos quando recorremos a expedientes que são contrários ao espírito da graça. É o mesmo que tentar misturar água e óleo. Se você experimentou a liberdade da graça, redobre os seus cuidados com os alçapões. Querem lhe recapturar! Fique esperto!

Paulo denuncia alguns que se infiltraram no meio da igreja para espionar a liberdade que os irmãos tinham em Cristo e os reduzir à escravidão. O apóstolo dos gentios declara que em momento algum submeteu-se a eles para que isso não comprometesse a integridade do evangelho (Gl.2:4-5).

Em sua epístola aos Colossenses, ele reage duramente ao assédio destes porta-vozes do legalismo:
"Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo (...) Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo. Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados (...) Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão (...) Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne." Colossenses 2:8, 14-16, 18, 20-23
Ou somos frios ou quentes. Ou vivemos sob a égide da graça ou nos rendemos à opressão da Lei. Deus não tolera mornidão.

Sempre estive ciente dos riscos envolvidos. Porém, prefiro corrê-los a viver aquém daquilo que me tem sido revelado.  Como disse Soren Kierkegaard, "ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se.”

Deixe a placenta na lixeira. Ela já não tem préstimo algum. Já, já, vai começar a cheirar mal. Esqueçamos das coisas que ficaram para trás e avancemos para as que estão diante de nós. Da mesma maneira como descartamos a placenta, vai chegar a hora de aposentarmos o berço, e pouco mais adiante, trocaremos a mamadeira por talheres, as fraudas por roupas cujos números serão alterados ano após ano, até que cheguemos à estatura de perfeita varonilidade.

Deixando de lado o rock, apelo a um conhecido enredo de samba:

"Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!" E que ninguém se atreva a querer cortá-las...

Prefiro a vertigem que a liberdade provoca ao insuportável jugo da Lei.