domingo, maio 29, 2016

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Sim, existe uma cultura do estupro no Brasil




Por Hermes C. Fernandes

O primeiro passo que precisa ser dado para se combater um mal é admiti-lo. Mas, infelizmente, há poucas semanas dos jogos olímpicos, quando o país espera receber milhares de turistas do mundo inteiro, dos quais uma parcela significativa é feminina, não é nada fácil admitir que exista uma cultura do estupro instalada em nossa sociedade.

A imprensa internacional está dando um destaque ao lamentável episódio do estupro coletivo a que foi submetido a jovem de apenas 16 anos, e critica com toda a razão o fato de a imprensa brasileira não dar a devida importância ao caso, tentando até desacreditar a vítima, levantando suspeitas de que houvesse participado de uma orgia consensual. Tratamento bem diferente foi dado ao episódio ocorrido na Índia em dezembro de 2012, quando a jovem Nirbahaya sofreu também um estupro coletivo. A grande mídia brasileira cobriu o episódio em detalhes, rotulando a Índia como um lugar perigoso para mulheres. Esta mesma mídia tendenciosa se cala sobre o caso ocorrido no Rio, e sobre outro estupro coletivo ocorrido no Piauí há apenas uma semana.

O caso ocorrido na Índia repercutiu de tal maneira que provocou mudanças na lei. Com isso em vista, o que devemos esperar de um país onde um deputado diz a uma colega de parlamento que só não a estupraria por ela não merecer? O que esperar de um país onde uma bancada parlamentar religiosa resolve criar um projeto de lei para boicotar a lei que garante o atendimento gratuito na rede pública de saúde para vítimas de estupro? O que esperar de um país onde a plateia de um programa de TV aplaude ensandecida a um ator que acaba de confessar haver estuprado uma mulher depois de deixá-la inconsciente? Este mesmo ator tem a petulância de encontrar-se com o ministro da educação para dar-lhe sugestões para a gestão de sua pasta. 

Daí, alguns patriotas de ocasião saem vociferando que não há uma cultura de estupro no país! Diga isso para cada mulher que é estuprada a cada 11 minutos no Brasil, de acordo com os dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Diga isso para as 47.646 vítimas somente no ano passado. Será que tais números seriam suficientemente convincentes para que admitamos que haja uma cultura do estupro devidamente instalada na sociedade brasileira?

Primeiro, vamos entender a origem do termo “cultura do estupro”.

Este termo foi cunhado na década de 70, quando feministas americanas se empenhavam numa campanha de conscientização da sociedade acerca da realidade do estupro. Segundo Alexandra Rutherford, doutora em ciência e psicologia, e especialista em feminismo e gênero, antes que o movimento feminista trouxesse à baila este assunto, pouco se falava sobre isso. E pior: acreditava-se que tanto o estupro, quanto a violência sexual doméstica e o incesto raramente aconteciam.

O número crescente de casos de estupros numa sociedade, bem como a típica reação de parte da população, evidencia a existência de uma cultura de estupro. Não significa que o estupro seja visto como algo normal, que deva ser praticado e incentivado, mas que a cultura produz um solo fértil para que ele ocorra com preocupante frequência.

Bem da verdade, a sociedade enxerga com certa condescendência o estupro, mesmo dizendo-se horrorizada. Esta condescendência se revela cada vez que se tenta culpabilizar a vítima e isentar o perpetrador como se isso fosse inerente à sua própria masculinidade.

Pais criam seus filhos meninos para serem predadores, verdadeiros garanhões. Mesmo que não admitam, mas sentem-se orgulhosos de saber que o filho está “passando o rodo geral". A mulher é vista como um objeto a ser conquistado, uma égua selvagem a ser dominada e amansada. Obviamente que isso não é dito abertamente, mas nas entrelinhas, na piadinhas, nas frases de efeito do tipo “prendam suas cabras que meu bode está solto.”

A mesma cultura que forja a figura do “macho alfa”, produz a ambiência propícia ao estupro. Meninos crescem ouvindo que quando a mulher diz não, na verdade está querendo dizer sim. O “não” é apenas um charminho. Ela quer se pega à força. Ser jogada contra a parede. Forçada. Mulher não gosta de homem molenga. Mostra pra ela quem é que manda! Toda mulher tem a fantasia de ser estuprada. Mulher gosta mesmo é de apanhar... E por aí vai... Alguém ainda ousa dizer que não há uma cultura de estupro?

Tentar embebedar a menina para depois se aproveitar dela não é estupro? É o quê, então? Mas tudo isso é visto como algo perfeitamente natural. Nada demais. Coisa de adolescente aloprado. 

Muitas mulheres já até se convenceram de que nasceram para ser presas fáceis nas mãos destes cafajestes. Há uma glamourização da cafajestice. Não que todo cafajeste seja um estuprador, mas certamente é um forte candidato, visto ser desprovido de qualquer escrúpulo ou freio moral. 

Se por um lado, busca-se naturalizar a postura do homem predador, por outro, busca-se culpabilizar a vítima. Alguma coisa ela fez para merecer isso!

No caso da  jovem de apenas 16 anos estuprada por 33 homens, as redes sociais ficaram abarrotadas de acusações que tentavam execrá-la e descreditar seu depoimento. Fotos foram postadas em que ela supostamente aparece com fuzis. Eu disse “supostamente”, porque foi comprovado que algumas destas fotos não eram dela. Surgiram depoimentos de supostas amigas que vazaram pelo whatsapp afirmando que ela estava acostumada a transar com vários homens de uma vez. De uma hora para outra, ela deixou de ser a vítima para ser a vagabunda, a descarada, que procurou por aquilo, que consome drogas pesadas, que vive em bailes funk, etc. Ainda que todas estas acusações fossem verdadeiras, não justificam o crime cometido. Ela poderia ser até uma prostituta que já transara com 50 de uma vez. Se ela disse não, tem que ser respeitada. E mais: mesmo que houvesse sido consensual, ela é menor de idade, e pelo que consta, estava dopada. Aliás, não foi o primeiro estupro que sofreu. Foi fartamente noticiado que ela é mãe de uma criança de três aninhos. Logo, foi mãe aos treze e possivelmente tenha se engravidado aos doze. O nome disso é estupro de vulnerável! Sexo com menores, sendo ou não consensual, segue sendo estupro.

Porém, nossa cultura está tão impregnada de machismo, que nem percebemos que ao aderir a este discurso, estamos reforçando-o, adubando assim o solo onde a cultura do estupro floresce. Não importa o tamanho do short que usava, nem os lugares que frequentava, ou as drogas que usava. Nada disso diminui a gravidade do crime.

Houve quem ponderasse sobre o fato de ela não haver procurado a polícia antes que o vídeo viralizasse. Ora, não sejamos cínicos. A razão é a mesma pela qual a maioria das vítimas prefere silenciar-se. Elas sabem do risco que correm de serem culpabilizadas. Por isso, a maioria sofre calada, sendo estuprada por anos a fio. E nem precisa de um ambiente promíscuo como um baile funk proibidão. A maioria é vítima dentre de sua própria casa, por membros da própria família. Outras, a caminho do trabalho ou durante o expediente. Há até quem tenha sido vítima em ambiente improváveis como igrejas.

Como combater a cultura do estupro? Não basta garantir a punição severa dos criminosos (castração química, por exemplo). Precisamos recorrer a medidas preventivas. E isso passa pela família e pela escola. E não será reprimindo ainda mais a mulher, tornando-a duplamente vítima. Aumentar o comprimento da saia, diminuir o tamanho do decote, ou coisa parecida, são medidas paliativas que só reforçam a cultura do estupro. É como dizer que o estuprador tem razão. Que qualquer mulher vestida de maneira mais atraente está pedindo para ser estuprada. Nada mais ridículo que isso, não?

Então, o que fazer? Ensinar os meninos a respeitar a mulher desde cedo. Prepará-los para ser homens de verdade, e não sex machines. Realçar neles o sentimento de empatia. Ensinar-lhes, por exemplo, que homem também chora. Que isso não é coisa de mulherzinha. Que a mulher não é um pedaço de carne pronto para ser devorado. Ela tem sentimentos.

Se o menino não tem contato com seus próprios sentimentos, ele não respeitará o sentimento de outros, nem mesmo de uma mulher.

Há que se tratar o problema em suas raízes e para isso, a educação é imprescindível. Tanto no lar, quanto na escola, as crianças precisam aprender a respeitar tanto o semelhante, quanto o diferente. Daí a importância da chamada “educação para a diversidade”, tão combatida por setores religiosos fundamentalistas, por acharem que se trate de apologia velada à homossexualidade.

Algo precisa ficar bem claro: estupro não tem nada a ver com sexo ou desejo sexual. Esta vergonhosa prática tem a ver com uma relação de poder, na qual os homens, através de um processo de intimidação, mantêm as mulheres em um estado de medo permanente.

Dizem que o maior receio de um homem ao ser preso é ser estuprado por seus colegas de cela. Quem dera soubessem que este é o maior receio da mulher o tempo inteiro. Até mesmo dentro de sua própria casa.

Como pais de duas filhas, desejo deixar-lhes um mundo menos hostil perigoso do que aquele no qual viveram suas avós. E que meu único filho homem seja o tipo de homem que toda sogra sonha ter como genro.

Diga não à cultura do estupro, recusando-se a ecoar discursos machistas que objetificam a mulher. Suas filhas e netas agradecerão. 

sexta-feira, maio 27, 2016

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Por que somos cúmplices do estupro coletivo daquela adolescente



Por Hermes C. Fernandes

Ao deparar-me com a triste notícia da adolescente estuprada por mais de trinta homens numa comunidade do Rio (bem próxima da minha casa), confesso que perdi o chão. Quis externar minha indignação (não sei se deveria chamá-la de santa), e usei as redes sociais para isso. Tive que me conter para não dizer uns impropérios. Não foi um post pensado como este que escrevo agora. Foi um desabafo. Eu tinha que expor meus sentimentos antes de embarcar no avião que me levaria para São Paulo, onde seria entrevistado por um programa de TV. Mas minhas palavras ecoaram internet afora causando reações totalmente antagônicas, e algumas extremadas. Até a imagem que usei no post se popularizou a ponto de muitos a colocarem no lugar de suas fotos de perfil.

Segue abaixo meu desabafo, e em seguida algumas das reações e minha resposta a elas.

“O que dizer do estupro coletivo de uma adolescente perpetrado por mais de 30 homens em pleno século XXI na cidade escolhida para sediar os Jogos Olímpicos? Os criminosos fizeram fotos e vídeos dela no chão, com a vagina e o anus sangrando enquanto eles gargalhavam, e ainda tiveram a ousadia de publicarem no Twitter!  Onde estão os defensores da moral e dos bons costumes? Por que se calam os que esbravejam pela família tradicional? E ainda têm coragem de combater qualquer política que vise proteger a mulher, bem como os homossexuais deste tipo de desumanidade! Quão hipócritas somos! Não merecemos ser chamados de cristãos! Somos cúmplices deste estupro! Conquanto nos calamos, consentindo vergonhosamente com o crime. Se ainda fosse um silêncio reverente ante a dor... mas, não! É o silêncio de quem não está nem aí, e com a maior cara de pau, sai às ruas em suas "marchas para Je$U$", celebrando nossa estupidez, apatia e falta de amor. A menina tinha apenas 16 aninhos! Foi dopada e estuprada por homens desprovidos de qualquer senso de humanidade. Se sua dor não for a nossa, então, teremos tomado parte desta monstruosidade. Que Deus tenha compaixão dela e todos nós.”

Talvez eu devesse ter sido mais comedido em minhas críticas à nossa letargia. Mas assim, eu não estaria sendo sincero. Minha crítica não se dirigiu a A ou B, mas a todos nós. Eu não disse “quão hipócritas eles são” e sim “quão hipócritas somos”. Isso, porque ainda me considero parte deste segmento, apesar da minha relutância. Tenho uma história que remonta várias gerações. Amo a igreja de Cristo, mas detesto aquilo no qual ela está se tornando, abraçando um discurso de ódio às minorias, entrincheirando-se contra aqueles a quem deveria defender.

Alguns entenderam que minha fala não passava de apologia a uma determinada ideologia. Longe disso! O que apontei foi a hipocrisia de quem vive a defender a família em seus moldes tradicionais, porém, não demonstra qualquer compaixão por alguém que sofra algo tão monstruoso quanto um estupro coletivo. Indignamo-nos com um comercial de TV onde homens e mulheres brincam de alternar suas roupas, ou com um beijo consentido entre dois adultos do mesmo sexo, mas não demonstramos a tal "santa indignação" num episódio desta gravidade.

Um dos comentaristas concluiu:

“Infelizmente o Bispo Hermes se aproveita de um caso tão triste para atacar os que pensam diferente dele... está ficando feio isso... Conservadores e os que defendem a "família tradicional" são os que defendem maior punição para esses bandidos, ao contrário da ideologia tão defendida pelo Hermes, que ainda irá tratar esses 33 homens como vítimas da sociedade...”

Não estou atacando ninguém. Estou cortando na própria carne. Os estupradores devem ser severamente punidos. Não são uns coitados. Porém, a sociedade tem uma considerável parcela de responsabilidade na degeneração de sua juventude.  Por trás da atrocidade cometida, há uma cultura de estupro, que diminui a mulher, que a torna mero objeto, um ser de segunda classe. A cultura do estupro é um efeito colateral extremado do machismo vigente em nossa sociedade.

Teve até quem conseguiu encontrar espaço para humor em sua crítica ao meu post. Repare no tom jocoso do comentário abaixo:

“Segundo ONGs da esquerda, e os direitos humanos, a menina estuprada será processada, por colocar as vítimas da sociedade, que vivem na favela e estavam armadas para se proteger da polícia opressora, por danos morais.”

Que falta de sensibilidade! Que sarcasmo impróprio para um momento de tamanha dor!

Outro comentário que me deixou pensativo:

“Tavez a dificuldade se dará quando estes 30 estupradores comecarem a frequentar a igreja e por falta de moralidade e conservadorismo, a igreja não oferecer referências éticas e morais biblicas para libertação, transformação de vidas... “(sic)

Seja quem foi que tenha escrito tal coisa, demonstrou não compreender que o que transforma o ser humano no âmbito da fé não é a moralidade ou o conservadorismo, mas a atuação do Espírito da graça que se revela na acolhida, no amor que constrange até o mais duro coração.


Outro comentarista conseguiu enxergar em meu post um incentivo à luta de classes:

Triste, uma barbárie desta e ainda ficarmos preocupado em que lado estamos direita ou esquerda. É mais triste ver a hipocrisia deste pastor aproveitando a desgraça alheia para usar em briga de classes. isso sim é estratégia de esquerda, que no fundo quer que todos se lasquem e o que importa no fundo é o lucro.”

Lucro? Estou aqui tentando entender de que maneira se pode extrair algum lucro de um episódio como este? Lucro a gente consegue quando propõe o boicote de uma marca para beneficiar outra que nos patrocina. Lucro a gente consegue quando usa uma manifestação como as marchas para Jesus com o objetivo de demonstrar capital político. Cada vez que um político sobe a um trio elétrico daqueles, verbas públicas são direcionadas para patrocinar os projetos megalomaníacos de líderes religiosos que não veem mal algum em negociar os votos do seu rebanho.

Houve um comentário que foi editado depois de receber sérias críticas. Mas, por sorte, outra comentarista fez questão de frisá-lo:

“Eu estou com seu primeiro comentário latejando dentro de mim, vi que depois vc editou, mas não posso deixar de comentar: ..... Triste a pessoa comentar que há adolescentes que se doam a esse tipo de orgia... sendo que pra essa pessoa talvez o erro não esteja nos homens ou rapazes que aceitam que uma adolescente se dê a esse tipo de orgia, mas no fato da garota se doar... e nem repara em que ele deveria se escandalizar em saber que há homens que ACEITEM esse tipo de coisa em que uma adolescente que não tem toda uma formação completa, que na verdade muitas vezes está procurando apenas ser aceita e se aproveitam da situação, já que são incapazes de conquistar mulheres pelos seus próprios predicados, (quem estupra tem uma péssima auto estima e um senso de valor muito abaixo do zero), antes as iludem, e as estupram, é lamentável. Ninguém em sã consciência vai pra um estupro de boa vontade, ainda que seja convidada pra uma orgia e aceite, isso não dá o direito ao grupo de estuprá-la... O ato em sim é nojento, é asqueroso, é inominável, é ultrajante, é bárbaro...” (sic)

Culpabilizar a vítima é o cúmulo do absurdo. Imaginar que cristãos se prestem a isso é preocupante. Que evangelho estão lendo, afinal? Em que cartilha estão rezando? Talvez até sigam um Messias que tenha sido batizado no Rio Jordão, mas certamente não é o que foi gerado no ventre da bendita virgem.

Soube por outro comentarista que alguns defensores da moral e dos bons costumes foram à página do G1 dizer que se estivesse em casa lavando louça, não teria sido violentada. Pelo amor de Deus! Ainda há mentes tão tacanhas assim? É justamente esta a mentalidade que os torna cúmplices daquele estupro coletivo, posto que reduz a mulher ao ambiente doméstico. Qualquer que se atreva a deixar o perímetro da cozinha, sabe dos riscos que corre e decide assumi-los, portanto, é candidata consciente ao estupro. Isso é ridículo! Machismo do mais descarado e nojento. Tenho ânsias de vômito só em pensar. Vão se converter a Cristo, seus machistas de merda! Tomem vergonha na cara!  Enquanto vocês insistirem com este discurso que estigmatiza e inferioriza as mulheres, ditando o que devem vestir, como devem se comportar e que espaço devem ocupar, privando-as de ter autonomia para decidir por si mesmas, vocês serão cúmplices de toda violência que se pratique contra a mulher.


Teve um ser humano que aproveitou para alfinetar a Dilma e o Lula, culpando-os por abrirem as fronteiras e permitirem que as drogas chegassem aos nossos jovens. Depois, a mesma comentarista complementou: “Chorem os petistas, o choro é livre!”  Quanta sensibilidade vindo de uma mãe! Ela ainda aproveita para defender o atual governo interino: “Agora o Temer já mandou resguardar e fiscalizar mais as fronteiras, pois estava escancaradas” (sic). Ela ainda teve a audácia de culpar os pais da menina. Não bastasse toda dor que os acomete, e ainda têm que aturar críticas idiotas de quem é desprovido de qualquer sentimento de solidariedade. Ela arremata: “Hermes tu perdeu a oportunidade de ficar calado!”(sic).

Ao menos não me chamou de falso profeta como outro comentarista que me acusou de trazer confusão e colocar os evangélicos uns contra os outros.

Os que esses comentários têm em comum é que não demonstraram qualquer respeito à dor alheia. Só fizeram reforçar tudo o que eu disse em meu texto.

Somos uma sociedade capaz de rir de piadas machistas e homofóbicas sem qualquer recato. Prova disso é a confissão que Alexandre Frota fez num programa de TV em rede nacional de ter praticado um estupro, sendo, então, aplaudido pela plateia. Agora, este mesmo ser tem a petulância de visitar o ministro da educação para lhe fazer sugestões para melhorar a qualidade da educação no país. Só mesmo a graça divina para que não percamos a esperança de que este mundo possa mudar. Não que ele seja ruim. Só está muito mal frequentado ultimamente. 

Aproveitando o post do meu mano Renato De Paulo, segue abaixo algumas verdades inconvenientes sobre quem insiste em culpabilizar a vítima de estupro:

Todos os dias 15 mulheres são estupradas por homens normais (carteiros, pastores, advogados, vizinhos, familiares...seus amigos). neste país.

"Se ela estivesse estudando isso não aconteceria!"
Menina estuprada em escola de São Paulo reconhece agressores:http://glo.bo/1TZ6Ej0


"Se ela estivesse na igreja isso não aconteceria!"
Jovem é estuprada dentro de secretaria de igreja em Brasília:http://bit.ly/1NQpoVc

"Se ela estivesse em casa isso não aconteceria!"
Morre jovem encontrada com sinais de estupro dentro de casa na Zona Norte: http://bit.ly/1qMl4Lu

"Se ela estivesse trabalhando isso não aconteceria!"
Jovem é atacada e estuprada a caminho do trabalho: http://bit.ly/1P19Wpq

"Se ela tivesse um namorado fixo isso não aconteceria!"
'Meu namorado me estuprou por um ano enquanto eu dormia':http://bbc.in/27UhJvG

"Se ela fosse mais família isso não aconteceria!"
Adolescente com deficiência física é estuprada pelo tio em RR:http://glo.bo/1THnB47

"Se ela fosse menos 'puta' isso não aconteceria!"
Menina (de 1 ano e meio) morta em igreja foi violentada:http://bit.ly/1Z3LEM4


"Se ela tivesse mais cuidado isso não aconteceria!"
Jovem é estuprada em estação do Metrô de São Paulo:http://bit.ly/1WnjCgw

P.S.: Como se não bastasse o silêncio ensurdecedor das lideranças evangélicas diante deste crime hediondo, os deputados Marco Feliciano e Jair Bolsonaro, em conluio com a bancada evangélica, estão tentando derrubar a Lei 12.845/13 que garante à vítima de estupro pleno atendimento hospitalar, policial e psicológico através da PL 6055/2013 de autoria de Feliciano e do deputado Pastor Eurico (PSB-PE). Talvez venha daí a ausência de qualquer manifestação solidária à menina vítima do estupro coletivo.

P.S.2: Tão logo publiquei a informação acima nas redes sociais, vieram os fãs do Bolsonaro postar banners dizendo que ele defende uma punição mais rigorosa dos estupradores, envolvendo castração química, etc. Mas de quê adianta exigir rigor na punição do criminoso e ao mesmo tempo sabotar o direito da vítima de receber o devido amparo médico, psicológico e policial?


quarta-feira, maio 25, 2016

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Os bastidores do mundo são o palco da eternidade



Por Hermes C. Fernandes


Um anjo se aproxima do trono de Deus para anunciar que alguns dos Seus súditos requeriam uma audiência imediata com Ele.

- Devo avisar ao Senhor que não se trata de gente comum, mas de verdadeiros heróis da fé. E pelo jeito, não estão nada contentes.

- O que poderia causar tal descontentamento?

- É melhor perguntar diretamente a eles.


- Mande-os entrar.

Em vez de um grupo, entrou apenas uma pessoa. Ninguém menos que Josué, o sucessor de Moisés, responsável por introduzir o povo de Israel na Terra Prometida.

- Onde estão os demais? - pergunta o Senhor.

- Pedi que ficassem lá fora um pouco e me permitissem falar em particular com o Senhor.

- Então, o que você pretende me dizer deve ser muito sério, não?

- É meio embaraçoso, Senhor.

- Diga logo. Desembucha.

- É que meu nome não consta da lista da galeira da fé em Hebreus 11.

- Como assim? Lembro-me perfeitamente de que o escritor inspirado pelo meu Espírito cita a queda dos muros de Jericó.

- É verdade. Mas em momento algum sou mencionado. E olha que o nome de meu antecessor aparece várias vezes, bem como o nome de outras figuras proeminentes como Noé, Abraão, Isaque e Jacó. 

- Não acho que você deveria se incomodar com isso. Afinal de contas, não foi bem você quem derrubou aquela muralha.

- Sim, mas fui eu que comandei o povo durante os setes dias em que rodearam Jericó. Fui eu quem teve aguentar os escárnios dos inimigos e a murmuração do meu povo.

- Sinceramente, não imaginei que você faria tanta questão disso.

- E o pior é que logo em seguida, o escritor cita Raabe, uma prostituta, que no mesmo episódio em que Jericó caiu, acolheu os espias que eu enviei. Chega a ser ultrajante. Meu nome suprimido, enquanto o dela foi exaltado. Como uma prostituta poderia receber maior honra do que um general? Eu acho que o escritor estava era de pinimba comigo. Aliás, se não se importar, gostaria que o Senhor me dissesse quem escreveu a tal epístola. Preciso checar com ele quais as suas razões e o que é que ele teria contra mim. 

- Você crê que todos os livros das Escrituras foram inspirados pelo meu Espírito?

- Claro que sim. 

- Então, não deveria estar questionando. O mesmo Espírito que impediu que este escritor citasse seu nome, também o impediu de assinar a própria carta. Não percebe que há uma mensagem aí? O que importa não é se o seu nome aparece ou deixa de aparecer, mas o fato de sua vida cumprir ao propósito para o qual veio à existência. No meu reino, quanto mais a pessoa faz questão de ser honrada, menos ela o será. Sinta-se honrado pelo simples fato de ter sua proeza citada ali. E não se incomode de uma meretriz receber a honra que lhe foi negada.  

Dirigindo-se ao anjo, disse:

- Que entrem os outros.

Entre eles, estava Davi, homem segundo o coração de Deus, além de Samuel, Gideão, Sansão, Baraque e Jefté.

- E vocês, o que querem?

- Senhor, temos uma reclamação a fazer.

- Vocês também? E o que é agora?

- Um escritor anônimo cometeu a gafe de citar nossos nomes em sua lista de heróis da fé, mas se esqueceu de citar nossas proezas - disse Davi.

- Não nos pareceu justo que outros heróis houvessem recebido um tratamento diferenciado. O tal escritor relatou o que fizeram Noé, Abraão, Moisés e outros, mas quando chegou a nossa vez, apenas se deu o trabalho de mencionar nossos nomes. Sentimo-nos desprestigiados - argumentou Samuel.

- Então, tudo que fizeram foi em busca de reconhecimento? Não bastou para vocês terem servido ao meu propósito?

- Sim. Tudo o que fizemos foi para Lhe agradar, Senhor. Mas pensávamos que receberíamos o mesmo reconhecimento que outros receberam. É uma questão de justiça. Se não deveríamos receber os créditos por nossas obras, então, ninguém mais deveria receber - reivindicou Sansão.

- Quer dizer que vocês acham que devo alguma satisfação a vocês? Ora, ora... o que faço ou deixo de fazer é única e exclusivamente pela minha graça. Nem vocês, nem eles mereceriam coisa alguma. Vocês foram meros instrumentos para a execução dos meus propósitos. Portanto, tratem de se contentar por terem sido usados para o bem de muitos. Alguns dos que tenho usado ao longo da história terão seus nomes lembrados, porém, não suas obras. Outros terão suas obras publicadas, porém, seus nomes serão mantidos em sigilo. Outros ainda terão tanto seus nomes, quanto suas obras reconhecidos. Enquanto outros serão relegados ao mais completo esquecimento. Somente a eternidade se encarregará de tornar conhecidos tantos os nomes quanto suas respectivas obras. Jamais se esqueçam de que os bastidores do mundo são o palco da eternidade, e a única plateia que realmente importa é a que ocupa o trono. Ou vocês ainda não entenderam o que significa "fazer com a direita sem que a esquerda saiba"? É no encontro da mão direita com a esquerda que surge o aplauso. Não é isso que buscam, é? 

- Mas, se o Senhor não se importar, gostaríamos que, ao menos, nos revelasse quem escreveu aquela epístola.

- Ora, ora... Já que insistem, o autor da epístola aos Hebreus é o Espírito Santo. Por isso, Ele não faz questão de aparecer. Como já havia avisado aos meus discípulos, Ele jamais falaria de Si mesmo, e sim d'Aquele que O enviou. Quanto às mãos usadas para segurar a caneta, não importa. Além de não assinar a autoria da carta, ele também não citou nenhuma de suas obras para que não servissem de pista de sua identidade. 

* Conversa fictícia baseada em Hebreus 11:30-32

terça-feira, maio 24, 2016

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Cristo e o labirinto da condição existencial humana




Por Hermes C. Fernandes

Havia um labirinto na antiga Grécia, na ilha de Creta, criado com o intuito de abrigar umas das mais temidas feras do mundo antigo chamada Minotauro: uma criatura com corpo de homem, cabeça de touro e dentes de leão, usados para devorar todos que se aproximam.

A figura do labirinto serve-nos como analogia da condição existencial humana. A proposta religiosa nos oferece uma rota para nos tirar deste emaranhado e nos reencaminhar na direção da fonte onde encontraríamos a resposta para as nossas mais inquietantes indagações. Porém, é ao homem que devemos creditar tal façanha, não a Deus. Toda religião seria iniciativa meramente humana, diferindo da proposta do evangelho que seria uma iniciativa estritamente divina.

Veja o que Deus diz sobre nossas vãs tentativas de nos reaproximar d’Ele em nossos próprios termos:

“O caminho da paz eles não o conhecem, nem há justiça nos seus passos; fizeram para si veredas tortas; todo aquele que anda por elas não tem conhecimento da paz. Pelo que a justiça está longe de nós, e a retidão não nos alcança; esperamos pela luz, e eis que só há trevas; pelo resplendor, mas andamos em escuridão. Apalpamos as paredes como cegos; sim, como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como no crepúsculo, e entre os vivos somos como mortos.” Isaías 59:8-10

Veredas tortas, escuridão que nos força a andar apalpando as paredes, reforçam a imagem do labirinto que proponho aqui como análoga à religião. Devido à nossa total incompetência em escapar dele, Deus teve que intervir.

A Lei entregue por Deus a Moisés serviu-nos como um mapa dentro desse labirinto, porém, não nos livrou da presença do mal. A cada curva corríamos o risco de nos depararmos com a besta, metade homem, metade fera. Mas por estarmos na escuridão, apenas ouvíamos o seu rugido, como que de um leão buscando a quem pudesse tragar.

A segunda medida tomada por Deus foi enviar-nos profetas cuja luz serviu-nos como lanterna, possibilitando-nos enxergar o que estava logo à nossa frente (2 Pe. 1:19). Foi a partir daí que descobrimos que as paredes desse labirinto eram feitas de espelho, de sorte que o monstro que vimos nada mais era do que nosso próprio reflexo. Estávamos todos encurralados, não importando que direção tomássemos. A cada curva, o monstro reaparecia. Fugir dele era fugir de nós mesmos. Metade humanos, metade monstros. Tal era nossa condição. Sabíamos o bem que tínhamos de fazer, mas a fera em nós era indomável. Talvez a Lei até pudesse nos conduzir ao destino glorioso que se propunha. O problema não estava nela, mas em nós, nas pulsões que habitam nosso ser bipartido. “Miserável homem que sou!”, exclamaria Paulo, “quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm.7:24). 

Não foi Teseu, o filho de Egeu quem liquidou o monstro, como na mitologia grega. Foi Jesus, o Filho do Deus vivo quem entrou nesse labirinto e derrotou a besta-fera. Por isso, o mesmo Paulo responde imediatamente à sua pergunta: Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor” (v.25).

Através de Sua cruz, Jesus não apenas liquidou o minotauro que nos assombrava, como também nos abriu um novo e vivo caminho pelo qual temos amplo acesso ao Pai. As paredes do labirinto vieram ao chão. É disso que Paulo fala em sua carta aos Efésios:

“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto; porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.Efésios 2:13-18

Chega de curvas oblíquas e de caminhos interditados! Chega de ouvir o eco dos rugidos da besta! Estamos agora percorrendo um caminho reto. A complexidade do labirinto cedeu lugar à simplicidade do Caminho. Sequer precisamos de um mapa para transitá-lo. Basta seguir sempre reto, sem desviar-se nem para a esquerda, nem para a direita. Sua simplicidade é tão evidente que o profeta diz que “até mesmo os loucos, não errarão” (Is.35:8). Imagine soltar um louco num labirinto! Solte-o no caminho, ele certamente encontrará seu destino.

Tal verdade é desconcertante para os que se arrogam o papel de especialistas da religião. Aqueles que se apresentam como portadores do mapa. Que dizem possuir a única arma capaz de liquidar o minotauro.

Apesar do alto custo envolvido na demolição do labirinto, a obstinação humana é tamanha que logo se pôs a reconstruí-lo. São os reconstrutores do labirinto religioso os responsáveis por esta nova Babel que vivemos em nossos dias. Diferente da primeira que se erguia verticalmente, a nova Babel é caracterizada por sua complexidade. Não foi em vão que Paulo declarou temer que “assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia”, tenhamos nosso entendimento corrompido, apartando-nos “da simplicidade e da pureza que há em Cristo” (2 Co.11:3).

Nada mais simples do que um caminho reto, sem curvas, esquinas e interdições. Nada mais complexo do que um labirinto insinuoso como uma serpente enroscada em torno de si. O que pode, à primeira mão, parecer um atalho ingênuo, na verdade é uma armadilha.

Nenhuma parede sequer deve ser poupada. Nada há que se aproveitar do que só serviu para promover alienação e escravidão. Seria como transformar Auschwitz num Jardim de Infância. Que pai se sentiria confortável ao deixar seus filhos estudarem nos mesmos edifícios usados pelos nazistas para torturar e matar os judeus durante a Segunda Guerra Mundial?

Por isso, Jesus foi categórico ao profetizar a demolição completa do templo de Jerusalém. “Não ficará pedra sobre pedra!” O rasgar do véu do templo no momento em que rendeu Seu espírito ao Pai foi o prenúncio do que aconteceria cerca de quarenta anos depois sob a espada romana.

Aquele templo havia se tornado num monumento à religiosidade farisaica e hipócrita que se instalara entre os judeus contemporâneos de Cristo. Sua santidade original houvera sido profanada. E a partir do momento em que o sacrifício de Jesus fora aceito pelo Pai, todo e qualquer sacrifício, bem como todo e qualquer culto que se oferecesse ali seriam nulos. Portanto, o templo se tornara obsoleto.

Uma nova aliança passara a vigorar, em que já não haveria geografias sagradas, nem lugar para a burocracia sacerdotal, mas tão somente o culto racional, aquele oferecido ao Pai “em Espírito e em Verdade”, conforme Jesus.

A Antiga Aliança oferecia um caminho em meio ao labirinto. Mas a Nova Aliança oferece o Caminho sem qualquer labirinto. Com o labirinto implodido, que utilidade teria o velho caminho proposto pelo pacto anterior?

Nossa comunhão com Deus foi reatada. O Minotauro foi liquidado.  Nosso velho homem foi crucificado juntamente com Cristo. Os sacrifícios exigidos pela Lei foram totalmente inutilizados e ofuscados ante o sacrifício vicário de Jesus. Portanto, insistir neles é um insulto ao Espírito da Graça.

Por isso, tenhamos ousadia para entrarmos no santíssimo lugar, pelo sangue de Jesus, pelo caminho que ele nos inaugurou, caminho novo e vivo, através do véu, isto é, da sua carne” (Hb.10:19).


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Para Silas Malafaia, Romero Jucá defende ideais e princípios cristãos



Por Hermes C. Fernandes

Aprendi desde cedo a não colocar a mão no fogo por ninguém. Não há ser humano que esteja acima de qualquer suspeita, ou mesmo acima do bem e do mal. Todos estamos suscetíveis ao erro. Portanto, prudência nunca é demais.

Devemos, sim, nos posicionar pela verdade, ainda que sejamos por ela expostos; pela justiça, mesmo que nos seja prejudicial. 

Posicionar-se pelo estado democrático de direito não significa ser fiador moral de quem quer que seja. Se alguém cometeu delito, que seja devidamente punido. Seja Chico, seja Francisco. Seja Aécio, seja Dilma. Seja Temer, seja Lula. Seja quem for!

Não pode haver "malvados favoritos", nem bandidos de estimação. Errou, pague por seu erro.

Tão logo estourou a bomba envolvendo o ministro Romero Jucá, um vídeo  em que o pastor Silas Malafaia aparece defendendo o político acabou viralizando. Obviamente que o tal vídeo não é recente. Todavia, sua fala não tem prazo de validade. Silas diz com todas as letras: "Jucá é um amigo da comunidade evangélica. É um homem que defende ideais e princípios cristãos. Então, ele tem o nosso apoio (...) como eu sou um pastor, eu desejo que Deus o ilumine e lhe dê sabedoria para continuar esta jornada."

Agora, o homem que defende "ideais e princípios cristãos" se vê no olho do furacão, conspirando para derrubar uma presidente democraticamente eleita para sabotar a Lava-jato, impedindo que ele mesmo e seus pares sejam pegos. Ele pode até ser "amigo da comunidade evangélica", mas revelou-se um inimigo do povo brasileiro. 

Percebendo a enrascada na qual se meteu, Silas recorreu ao twitter para postar sua "santa indignação".



Mas já era tarde. Como diz o sábio Salomão, "você caiu na armadilha das palavras que você mesmo disse, está prisioneiro do que falou" (Provérbios 6:2).

Com a experiência que tem, Silas já deveria ter aprendido a se conter, evitando vexames como este. E por ser reconhecido como um líder proeminente dentro da comunidade evangélica, deveria saber que suas palavras e atitudes repercutem e expõem os evangélicos desnecessariamente. Não é a primeira vez que isso acontece. 

Ele já havia hipotecado seu apoio a Eduardo Cunha, vindo a negar publicamente depois que o ex-presidente da Câmara foi afastado do cargo por seu envolvimento em escândalo de corrupção.

Salomão segue sendo atual, e manda mais dois recados para Silas e cia:
"O homem sem juízo, com um aperto de mãos se compromete e se torna fiador do seu próximo" (Provérbios 17:18).
"Decerto sofrerá prejuízo aquele que fica por fiador do estranho" (Provérbios 11:15a).
O mais delicado e perigoso tipo de fiança não é o financeiro, mas o moral. Ser fiador moral de alguém é atrelar sua própria honra à honra alheia. Quem assim age, mostra não ter juízo. E quem não tem juízo, sofre o prejuízo. Simples assim. Pode até não doer no bolso, mas vai macular sua honra e sua imagem, minando sua credibilidade. 

Seguem abaixo, dois vídeos em que Malafaia incorre no erro exposto acima:








domingo, maio 22, 2016

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O que penso sobre a Bancada Evangélica querer impedir que transexuais usem nome social



Por Hermes C. Fernandes

Recebi dos meus pais o nome de um deus grego, o mensageiro de Zeus. Apesar de evangélicos (meu pai tinha origem católica), duvido que tenham se sentido constrangidos por isso. O mais provável é que nem soubessem sua origem. O que queriam mesmo era homenagear a um irmão de meu pai que partira ainda na flor da idade.  Nos tempos bíblicos, dar nome a alguém era coisa séria. Não era como hoje, quando os pais procuram dar a seus filhos nomes que alcançaram alguma notoriedade, seja no mundo artístico ou esportivo. Àquela época, era comum esperar um tempo até que o filho revelasse algum traço de sua personalidade ou vivesse uma situação peculiar para, então, dar-lhe um nome. Moisés, por exemplo, significa “tirado da água”, e só recebeu este nome meses depois de ter nascido, após ser resgatado no rio Nilo pela filha de Faraó. Alguns receberam nomes que foram verdadeiros estigmas que tiveram que carregar a vida inteira. Jacó, por exemplo, foi chamado assim por causa de um gesto inusitado durante seu parto: nasceu segurando o calcanhar de seu irmão gêmeo Esaú. Ocorre que, de acordo com as tradições, no caso de serem gêmeos, o primeiro a nascer tinha direito à primogenitura, e, por conseguinte, herdava a metade dos bens de seu pai. O nome “Jacó” significa trapaceiro. Imagine ser chamado assim a vida inteira. E o pior é que ele acabou fazendo jus ao nome. Até que um dia, num encontro que teve com um anjo, teve seu nome alterado para Israel, "aquele que luta com Deus e prevalece". 

A Bíblia está repleta de casos em que pessoas tiveram seus nomes mudados, e nem sempre para melhor. O importante era que o nome expressasse sua personalidade ou determinada condição social. Nem sempre o nome dado pelos pais expressava com precisão tais aspectos. Daí, a necessidade de mudar. Veja, por exemplo, o caso de Daniel e seus amigos Hananias, Misael e Azarias. Ao serem levados cativos para a Babilônia, tiveram seus nomes alterados em honra às divindades assírias. Daniel passou a se chamar Beltessazar, que significa “Baal proteja o rei”. Imagine o constrangimento do profeta hebreu tendo que ser chamado por um nome que honrava uma divindade pagã (justamente Baal!). E como se não bastasse, ele ainda foi promovido a chefe dos magos da Babilônia (confira Daniel 1:7; 4:8-9). Seus amigos receberam, respectivamente, os nomes de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, todos em honra a deuses do panteão babilônico. Por que não houve qualquer protesto da parte deles? Eles entendiam que vivendo num contexto diferente do que estavam acostumados, teriam que se adaptar. Aqueles eram, por assim dizer, seus nomes sociais na Babilônia. Não sei se entre si, continuaram se chamando por seus nomes originais. 

O próprio Jesus tinha a mania de mudar o nome de seus discípulos. Pedro, que quer dizer rocha, chamava-se originalmente Simão, que entre outros significados, quer dizer “caniço”. O evangelho o transformou de um homem instável emocionalmente, numa rocha inabalável. 

Outro caso interessante é o de Paulo, o apóstolo dos gentios. Narra a lenda, que Deus teria mudado seu nome de Saulo para Paulo. Não há qualquer passagem bíblica que confirme isso. O que se sabe é que “Paulo” é o equivalente grego de “Saulo” (que por sua vez, é o mesmo que Saul, o nome do primeiro rei de Israel). Assim como Maria é o equivalente de Mirian. Tiago é o equivalente de Jacó. E, pasmem, Jesus é o equivalente de Josué. 

Diante disso, o que dizer da reação exacerbada por parte da bancada evangélica quanto ao direito que transexuais e travestis adquiriram de usar seus nomes sociais? 

Ao todo, vinte e oito integrantes da bancada evangélica, pertencentes a nove partidos diferentes, deram entrada numa proposta de revogação do decreto presidencial que permite o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de travestis e transexuais em toda a administração pública federal. Durante o ato de assinatura de Dilma, o então secretário de Direitos Humanos do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e Direitos Humanos (extinto pelo presidente interino) Rogério Sottili afirmou que a mudança garantiria aos transexuais e travestis o direito de usufruir de toda a máquina governamental, inclusive de políticas públicas de inclusão social, sendo tratadas pela identidade de gênero que a representam. A alteração só não valeria para registros oficiais, como a carteira de identidade, uma vez que dependeria de um projeto de lei. 

“Um pessoa que nasce João, e hoje tem sua identidade como Maria, ela não vai ter, no seu documento social, o nome Maria. Ela vai ser conhecida como João. Portanto, essa falta de possibilidade constrange, promove preconceito, promove violência”, disse o secretário. 

 Segundo Sottili, alguns órgãos do governo já haviam autorizado o uso do nome social, mas ainda não havia uma regra em nível federal, que passa a existir a partir da assinatura do decreto. “Tudo o que uma empresa quer é que a pessoa se sinta feliz, até porque isso promove um ambiente mais adequado e isso reflete na produção, na qualidade do trabalho e no ambiente do trabalho. Já está se construindo isso. O que o decreto pode promover é este novo momento de intensificar para que isso se alastre pelo Brasil”, afirmou. Para o secretário, o decreto é um instrumento de cidadania. “É de reconhecimento do outro, é de tirar da invisibilidade pessoas que querem ser reconhecidas pela sua identidade que elas escolheram viver pelo resto da vida e isso ainda não existia no poder público federal”, acrescentou. Ainda de acordo com o secretário, com a publicação do decreto, as pessoas já poderão solicitar aos órgãos para os quais trabalham as alterações no sistema de identificação delas, por meio de um formulário que deverá ser preenchido, no qual deverão constar o nome de registro da pessoa e o nome social, por meio do qual ela quer ser chamada no ambiente de trabalho. 

Os integrantes da bancada evangélica pretendem sustar os efeitos do Decreto 8.727, de 28 de abril de 2016, publicado pela presidente afastada Dilma Rousseff. Entre os deputados federais que subscrevem o projeto de decreto legislativo está o Pastor Marco Feliciano (que aliás, faz uso de seu nome social, como tantos outros. O acréscimo do título eclesiástico ao nome constitui-se em uso de nome social). Outros pastores conhecidos nacionalmente por suas posições conservadoras, também apoiam a iniciativa, dentre eles, os pastores Takayama e Sóstenes Cavalcante. 

Sinceramente, acho desumano privar um ser humano do direito de usar o nome que melhor condiz com sua personalidade. Os nobres legisladores estão na contramão dos países desenvolvidos, dos que pautam suas políticas pelo avanço dos direitos humanos. 

Quão constrangedor é a uma transexual ser chamada por seu nome de batismo. De quanto sofrimento ela seria poupada ao poder usar livremente seu nome social? Mas, infelizmente, preocupa-se muito mais com a moral alheia do que com o seu bem-estar. 

Pergunto aos nobres deputados: partindo de um ponto de vista fundamentalista, o que seria mais grave, usar um nome social de um gênero diferente de seu sexo biológico ou usar um nome social em honra a divindades pagãs? Ora, se Daniel e seus colegas souberam lidar bem com isso, por que os senhores não deixam os transexuais e travestis em paz para que usem os nomes que combinem com sua orientação sexual? 

Ademais, como bons seguidores das Escrituras, os senhores devem saber que os nomes que carregamos nesta vida são provisórios. De acordo com o livro de Apocalipse, ao adentrarmos os portões celestiais, receberemos novos nomes que expressarão com exatidão aquilo no que nos tornarmos graças à atuação do Espírito em nós. 

Senhores, não é por força da lei, tampouco pela violência do preconceito que imporemos ao mundo nossa moral cristã (vocês conhecem Zacarias 4:6, certo?). Mesmo porque, não creio que seja o plano de Deus impor nada a ninguém. Tudo o que Deus faz é pela via da consciência e não da imposição. Cada ser humano é um devir, alguém em processo de contínua transformação. Somos todos obra inacabada. Bem da verdade, alguns poucos já se encontram em fase de acabamento. E posso garantir aos senhores que, quanto mais parecidos com Cristo formos, menos preconceituosos seremos. Quanto mais próximos d'Ele, maior importância daremos às demandas do outro. Não envergonhem mais o evangelho com pautas moralistas, que só fazem abrir cada vez mais o abismo entre a igreja e a sociedade. Em vez disso, dediquem-se à prática da justiça; deem ouvidos aos clamores populares; defendam os direitos da minorias em vez de tentar sabotá-los.

sexta-feira, maio 20, 2016

33

A nada santa indignação seletiva de Ana Paula Valadão e o boicote à C&A



Por Hermes C. Fernandes

Depois que o Malafaia propôs que seus fiéis boicotassem os produtos da Boticário, o Feliciano sugeriu o boicote à Natura, chega a vez da pastora e cantora Ana Paula Valadão utilizar sua influência no mundo gospel para pedir que seus fãs boicotem as lojas C&A. De acordo com a pastora mineira, a última campanha publicitária da rede seria um acinte à família e aos valores cristãos, sugerindo que sua verdadeira intenção seria propagar o que ela chama de “ideologia de gênero”.

Do ponto de vista publicitário, a peça é belíssima. Locação e fotografia impecáveis. Fala-se, nas entrelinhas, da igualdade de gênero e de liberdade de escolha, valores cada vez mais caros à sociedade ocidental. Porém, Ana Paula não vê outra coisa que não seja a disseminação de tudo o que é contrário à sua fé. Ela sugere aos fiéis que promovam um boicote semelhante ao que os evangélicos americanos fizeram à rede de lojas de departamento Target, rendendo-lhe um histórico prejuízo.

De acordo com alguns sites dedicados ao público evangélico, o que teria motivado a cantora seria vingança, pois a C&A teria se recusado a contratá-la como garota propaganda, depois que ela pediu de cachê uma bagatela de três milhões de reais.

Interesses comerciais à parte, o que incomodou aos evangélicos mais conscientes foi o falso moralismo proposto pela campanha. O que deveria chocar e causar o que ela chamou de “santa indignação” não são homens usando roupas femininas ou vice-versa. Em momento algum, Ana Paula mencionou o recente escândalo em que a loja se envolveu relacionado ao uso de mão de obra de escrava. Em sua visão religiosa tacanha, deve-se boicotar a loja por estimular a permissividade, a sem-vergonhice, a nudez despudorada. Por que deveríamos nos importar com trabalho escravo? Por que ficar chocado com gente amontoada em oficinas clandestinas, incluindo imigrantes ilegais e até crianças? A julgar pelo perfil que os evangelhos traçam de Jesus, com o que ele realmente se importaria? Com um comercial que promove mais do que simplesmente consumismo ou com a exploração e a opressão a que são submetidas centenas e até milhares de pessoas em confecções que abastecem as grandes lojas de departamento como a Zara e a própria C&A? Isso sim é imoral. Isso que deveria nos causar indignação (não precisava nem ser santa!), independentemente de credo. Mas, pelo jeito, a indignação da cantora, além de não ser nada santa, também é seletiva. 

Enquanto prevalecer tal mentalidade pudica entre boa parte dos evangélicos, dar-se-á muito mais importância à sexualidade alheia do que ao sofrimento alheio. De que adianta ser bela, recatada e do lar e perder o bonde da história, mergulhada em alienação? 

De que adianta aparecer de avental e colher de pau nas redes sociais em apoio à primeira-dama interina do país, mas não ter senso crítico social? 

Já passou da hora de parar de coar mosquitos enquanto ficamos com dromedários atravessados na garganta. Menos falso moralismo e mais consciência social. Menos farisaísmo e mais solidariedade. Menos boicotes revanchistas e mais consumo consciente. Menos rancor e mais, bem mais amor.

Uma última sugestão para Ana Paula e seu séquito: Que tal nos preocuparmos menos com homens vestidos de mulher ou vice-versa e nos preocuparmos mais com lobos vestidos em pele de cordeiro?