segunda-feira, março 30, 2015

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18 Razões Contra a Redução da Maioridade Penal



A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Federal está discutindo a redução da maioridade penal e o tema é considerado prioritário pela Bancada da Bala.  A votação da Proposta de Emenda Constitucional PEC 171/93 foi adiada mas a discussão continua quente no congresso e também na sociedade civil. Separamos aqui 18 motivos que explicam porque reduzir a maioridade penal não resolve o problema na segurança pública.

1°. Porque já responsabilizamos adolescentes em ato infracional

A partir dos 12 anos, qualquer adolescente é responsabilizado pelo ato cometido contra a lei. Essa responsabilização, executada por meio de medidas socioeducativas previstas no ECA, têm o objetivo de ajudá-lo a  recomeçar e a prepará-lo para uma vida adulta de acordo com o socialmente estabelecido. É parte do seu processo de aprendizagem que ele não volte a repetir o ato infracional.

Por isso, não devemos confundir impunidade com imputabilidade. A imputabilidade, segundo o Código Penal, é a capacidade da pessoa entender que o fato é ilícito e agir de acordo com esse entendimento, fundamentando em sua maturidade psíquica.

2°. Porque a lei já existe, resta ser cumprida

O ECA prevê seis medidas educativas: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Recomenda que a medida seja aplicada de acordo com a capacidade de cumpri-la, as circunstâncias do fato e a gravidade da infração.

Muitos adolescentes, que são privados de sua liberdade, não ficam em instituições preparadas para sua reeducação, reproduzindo o ambiente de uma prisão comum. E mais: o adolescente pode ficar até 9 anos em medidas socioeducativas, sendo três anos interno, três em semiliberdade e três em liberdade assistida, com o Estado acompanhando e ajudando a se reinserir na sociedade.

Não adianta só endurecer as leis se o próprio Estado não as cumpre!

3°. Porque o índice de reincidência nas prisões é de 70%

Não há dados que comprovem que o rebaixamento da idade penal reduz os índices de criminalidade juvenil. Ao contrário, o ingresso antecipado no falido sistema penal brasileiro expõe as(os) adolescentes a mecanismos/comportamentos reprodutores da violência, como o aumento das chances de reincidência, uma vez que as taxas nas penitenciárias são de 70% enquanto no sistema socioeducativo estão abaixo de 20%.

A violência não será solucionada com a culpabilização e punição, mas pela ação da sociedade e governos nas instâncias psíquicas, sociais, políticas e econômicas que as reproduzem. Agir punindo e sem se preocupar em discutir quais os reais motivos que reproduzem e mantém a violência, só gera mais violência.

4°. Porque o sistema prisional brasileiro não suporta mais pessoas

O Brasil tem a 4° maior população carcerária do mundo e um sistema prisional superlotado com 500 mil presos. Só fica atrás em número de presos para os Estados Unidos (2,2 milhões), China (1,6 milhões) e Rússia (740 mil).

O sistema penitenciário brasileiro NÃO tem cumprido sua função social de controle, reinserção e reeducação dos agentes da violência. Ao contrário, tem demonstrado ser uma “escola do crime”.
Portanto, nenhum tipo de experiência na cadeia pode contribuir com o processo de reeducação e reintegração dos jovens na sociedade.

5°. Porque reduzir a maioridade penal não reduz a violência

Muitos estudos no campo da criminologia e das ciências sociais têm demonstrado que NÃO HÁ RELAÇÃO direta de causalidade entre a adoção de soluções punitivas e repressivas e a diminuição dos índices de violência.

No sentido contrário, no entanto, se observa que são as políticas e ações de natureza social que desempenham um papel importante na redução das taxas de criminalidade.

Dados do Unicef revelam a experiência mal sucedida dos EUA. O país, que assinou a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, aplicou em seus adolescentes, penas previstas para os adultos. Os jovens que cumpriram pena em penitenciárias voltaram a delinquir e de forma mais violenta. O resultado concreto para a sociedade foi o agravamento da violência.

6°. Porque fixar a maioridade penal em 18 anos é tendência mundial

Diferentemente do que alguns jornais, revistas ou veículos de comunicação em geral têm divulgado, a idade de responsabilidade penal no Brasil não se encontra em desequilíbrio se comparada à maioria dos países do mundo.

De uma lista de 54 países analisados, a maioria deles adota a idade de responsabilidade penal absoluta aos 18 anos de idade, como é o caso brasileiro.

Essa fixação majoritária decorre das recomendações internacionais que sugerem a existência de um sistema de justiça especializado para julgar, processar e responsabilizar autores de delitos abaixo dos 18 anos.

7°. Porque a fase de transição justifica o tratamento diferenciado

A Doutrina da Proteção Integral é o que caracteriza o tratamento jurídico dispensado pelo Direito Brasileiro às crianças e adolescentes, cujos fundamentos encontram-se no próprio texto constitucional, em documentos e tratados internacionais e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Tal doutrina exige que os direitos humanos de crianças e adolescentes sejam respeitados e garantidos de forma integral e integrada, mediando e operacionalização de políticas de natureza universal, protetiva e socioeducativa.

A definição do adolescente como a pessoa entre 12 e 18 anos incompletos implica a incidência de um sistema de justiça especializado para responder a infrações penais quando o autor trata-se de um adolescente.

A imposição de medidas socioeducativas e não das penas criminais relaciona-se justamente com a finalidade pedagógica que o sistema deve alcançar, e decorre do reconhecimento da condição peculiar de desenvolvimento na qual se encontra o adolescente.

8°. Porque as leis não podem se pautar na exceção

Até junho de 2011, o Cadastro Nacional de Adolescentes em Conflito com a Lei (CNACL), do Conselho Nacional de Justiça, registrou ocorrências de mais de 90 mil adolescentes. Desses, cerca de 30 mil cumprem medidas socioeducativas. O número, embora seja considerável, corresponde a 0,5% da população jovem do Brasil, que conta com 21 milhões de meninos e meninas entre 12 e 18 anos.
Sabemos que os jovens infratores são a minoria, no entanto, é pensando neles que surgem as propostas de redução da idade penal. Cabe lembrar que a exceção nunca pode pautar a definição da política criminal e muito menos a adoção de leis, que devem ser universais e valer para todos.

As causas da violência e da desigualdade social não se resolverão com a adoção de leis penais severas. O processo exige que sejam tomadas medidas capazes de romper com a banalização da violência e seu ciclo. Ações no campo da educação, por exemplo, demonstram-se positivas na diminuição da vulnerabilidade de centenas de adolescentes ao crime e à violência.

9°. Porque reduzir a maioridade penal é tratar o efeito,  não a causa

A constituição brasileira assegura nos artigos 5º e 6º direitos fundamentais como educação, saúde, moradia, etc. Com muitos desses direitos negados, a probabilidade  do envolvimento com o crime aumenta, sobretudo entre os jovens.

O adolescente marginalizado não surge ao acaso. Ele é fruto de um estado de injustiça social que gera e agrava a pobreza em que sobrevive grande parte da população.

A marginalidade torna-se uma prática moldada pelas condições sociais e históricas em que os homens vivem. O adolescente em conflito com a lei é considerado um ‘sintoma’ social, utilizado como uma forma de eximir a responsabilidade que a sociedade tem nessa construção.

Reduzir a maioridade é transferir o problema. Para o Estado é mais fácil prender do que educar.

10°. Porque educar é melhor e mais eficiente do que punir

A educação é fundamental para qualquer indivíduo se tornar um cidadão, mas é realidade que no Brasil muitos jovens pobres são excluídos deste processo. Puni-los com o encarceramento é tirar a chance de se tornarem cidadãos conscientes de direitos e deveres, é assumir a própria incompetência do Estado em lhes assegurar esse direito básico que é a educação.

As causas da violência e da desigualdade social não se resolverão com adoção de leis penais mais severas. O processo exige que sejam tomadas medidas capazes de romper com a banalização da violência e seu ciclo. Ações no campo da educação, por exemplo, demonstram-se positivas na diminuição da vulnerabilidade de centenas de adolescentes ao crime e à violência.

Precisamos valorizar o jovem, considerá-los como parceiros na caminhada para a construção de uma sociedade melhor. E não como os vilões que estão colocando toda uma nação em risco.

11°. Porque reduzir a maioridade penal isenta o estado do compromisso com a juventude

O Brasil não aplicou as políticas necessárias para garantir às crianças, aos adolescentes e jovens o pleno exercício de seus direitos e isso ajudou em muito a aumentar os índices de criminalidade da juventude.

O que estamos vendo é uma mudança de um tipo de Estado que deveria garantir direitos para um tipo de Estado Penal que administra a panela de pressão de uma sociedade tão desigual. Deve-se mencionar ainda a ineficiência do Estado para emplacar programas de prevenção da criminalidade e de assistência social eficazes, junto às comunidades mais pobres, além da deficiência generalizada em nosso sistema educacional.

12°. Porque os adolescentes são as maiores vitimas, e não os principais autores da violência

Até junho de 2011, cerca de 90 mil adolescentes cometeram atos infracionais. Destes, cerca de 30 mil cumprem medidas socioeducativas. O número, embora considerável, corresponde a 0,5% da população jovem do Brasil que conta com 21 milhões de meninos e meninas entre 12 e 18 anos.

Os homicídios de crianças e adolescentes brasileiros cresceram vertiginosamente nas últimas décadas: 346% entre 1980 e 2010. De 1981 a 2010, mais de 176 mil foram mortos e só em 2010, o número foi de 8.686 crianças e adolescentes assassinadas, ou seja, 24 POR DIA!

A Organização Mundial de Saúde diz que o Brasil ocupa a 4° posição entre 92 países do mundo analisados em pesquisa. Aqui são 13 homicídios para cada 100 mil crianças e adolescentes; de 50 a 150 vezes maior que países como Inglaterra, Portugal, Espanha, Irlanda, Itália, Egito cujas taxas mal chegam a 0,2 homicídios para a mesma quantidade de crianças e adolescentes.

13°. Porque, na prática, a pec 33/2012 é inviável

A Proposta de Emenda Constitucional quer alterar os artigos 129 e 228 da Constituição Federal, acrescentando um paragrafo que prevê a possibilidade de desconsiderar da inimputabilidade penal de maiores de 16 anos e menores de 18 anos.

E o que isso quer dizer? Que continuarão sendo julgados nas varas Especializadas Criminais da Infância e Juventude, mas se o Ministério Publico quiser poderá pedir para ‘desconsiderar inimputabilidade’, o juiz decidirá se o adolescente tem capacidade para responder por seus delitos. Seriam necessários laudos psicológicos e perícia psiquiátrica diante das infrações: crimes hediondos, tráfico de drogas, tortura e terrorismo ou reincidência na pratica de lesão corporal grave e roubo qualificado. Os laudos atrasariam os processos e congestionariam a rede pública de saúde.

A PEC apenas delega ao juiz a responsabilidade de dizer se o adolescente deve ou não ser punido como um adulto.

No Brasil, o gargalo da impunidade está na ineficiência da polícia investigativa e na lentidão dos julgamentos. Ao contrário do senso comum, muito divulgado pela mídia, aumentar as penas e para um número cada vez mais abrangente de pessoas não ajuda em nada a diminuir a criminalidade, pois, muitas vezes, elas não chegam a ser aplicadas.

14°. Porque reduzir a maioridade penal não afasta crianças e adolescentes do crime

Se reduzida a idade penal, estes serão recrutados cada vez mais cedo.

O problema da marginalidade é causado por uma série de fatores. Vivemos em um país onde há má gestão de programas sociais/educacionais, escassez das ações de planejamento familiar, pouca oferta de lazer nas periferias, lentidão de urbanização de favelas, pouco policiamento comunitário, e assim por diante.

A redução da maioridade penal não visa a resolver o problema da violência. Apenas fingir que há “justiça”. Um autoengano coletivo quando, na verdade, é apenas uma forma de massacrar quem já é massacrado.

Medidas como essa têm caráter de vingança, não de solução dos graves problemas do Brasil que são de fundo econômico, social, político. O debate sobre o aumento das punições a criminosos juvenis envolve um grave problema: a lei do menor esforço. Esta seduz políticos prontos para oferecer soluções fáceis e rápidas diante do clamor popular.

Nesse momento, diante de um crime odioso, é mais fácil mandar quebrar o termômetro do que falar em enfrentar com seriedade a infecção que gera a febre.

15°. Porque afronta leis brasileiras e acordos internacionais

Vai contra a Constituição Federal Brasileira que reconhece prioridade e proteção especial a crianças e adolescentes. A redução é inconstitucional.

Vai contra o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE) de princípios administrativos, políticos e pedagógicos que orientam os programas de medidas socioeducativas.

Vai contra a Doutrina da Proteção Integral do Direito Brasileiro que exige que os direitos humanos de crianças e adolescentes sejam respeitados e garantidos de forma integral e integrada às políticas de natureza universal, protetiva e socioeducativa.

Vai contra parâmetros internacionais de leis especiais para os casos que envolvem pessoas abaixo dos dezoito anos autoras de infrações penais.

Vai contra a Convenção sobre os Direitos da Criança e do Adolescente da Organização das Nações Unidas (ONU) e a Declaração Internacional dos Direitos da Criança compromissos assinados pelo Brasil.

16°. Porque poder votar não tem a ver com ser preso com adultos

O voto aos 16 anos é opcional e não obrigatório, direito adquirido pela juventude. O voto não é para a vida toda, e caso o adolescente se arrependa ou se decepcione com sua escolha, ele pode corrigir seu voto nas eleições seguintes. Ele pode votar aos 16, mas não pode ser votado.

Nesta idade ele tem maturidade sim para votar, compreender e responsabilizar-se por um ato infracional.

Em nosso país qualquer adolescente, a partir dos 12 anos, pode ser responsabilizado pelo cometimento de um ato contra a lei.

O tratamento é diferenciado não porque o adolescente não sabe o que está fazendo. Mas pela sua condição especial de pessoa em desenvolvimento e, neste sentido, o objetivo da medida socioeducativa não é fazê-lo sofrer pelos erros que cometeu, e sim prepará-lo para uma vida adulta e ajuda-lo a recomeçar.

17°. Porque o brasil está dentro dos padrões internacionais

São minoria os países que definem o adulto como pessoa menor de 18 anos. Das 57 legislações analisadas pela ONU, 17% adotam idade menor do que 18 anos como critério para a definição legal de adulto.

Alemanha e Espanha elevaram recentemente para 18 a idade penal e a primeira criou ainda um sistema especial para julgar os jovens na faixa de 18 a 21 anos.

Tomando 55 países de pesquisa da ONU, na média os jovens representam 11,6% do total de infratores, enquanto no Brasil está em torno de 10%. Portanto, o país está dentro dos padrões internacionais e abaixo mesmo do que se deveria esperar. No Japão, eles representam 42,6% e ainda assim a idade penal no país é de 20 anos.

Se o Brasil chama a atenção por algum motivo é pela enorme proporção de jovens vítimas de crimes e não pela de infratores.

18°. Porque importantes órgãos têm apontado que não é uma boa solução

O UNICEF expressa sua posição contrária à redução da idade penal, assim como à qualquer alteração desta natureza. Acredita que ela representa um enorme retrocesso no atual estágio de defesa, promoção e garantia dos direitos da criança e do adolescente no Brasil. A Organização dos Estados Americanos (OEA) comprovou que há mais jovens vítimas da criminalidade do que agentes dela.

O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) defende o debate ampliado para que o Brasil não conduza mudanças em sua legislação sob o impacto dos acontecimentos e das emoções. O CRP (Conselho Regional de Psicologia) lança a campanha Dez Razões da Psicologia contra a Redução da idade penal CNBB, OAB, Fundação Abrinq lamentam publicamente a redução da maioridade penal no país.

Mais de 50 entidades brasileiras aderem ao Movimento 18 Razões para a Não redução da maioridade penal.

Fonte: 18 Razões Contra a Redução da Maioridade Penal - Geledés 


Eu acrescentaria um décimo nono motivo: Jesus certamente não apoiaria a diminuição da maioridade penal. "Vinde a mim os pequeninos!" era o que se ouvia dos Seus lábios. "Deles é o reino dos céus!". Enviá-los para as cadeias públicas é o mesmo que matriculá-los na faculdade do crime. O que eles precisam é de educação, acolhimento, amor. Sinto constatar que mais uma vez a igreja cristã brasileira parece ir na contramão da proposta do reino, de mãos dadas com os setores mais retrógrados da sociedade brasileira.  

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Você já sentiu saudade do futuro?




Por Hermes C. Fernandes

“Saudade”. Sem dúvida uma das mais belas palavras de nossa língua. Uma das únicas que não podem ser traduzidas para nenhum outro idioma. Apesar disso, este sentimento é comum a todos os povos e culturas. Temos saudade do que passou, de pessoas que se foram, de experiências que vivemos, e até daquilo que fomos um dia.

Mas, sem embargo, a pior das saudades é a saudade do futuro.

Como é possível sentir saudade do que ainda não vivemos? Que sentimento é esse?

Imaginemos uma mulher grávida, que subitamente aborta o filho. Mesmo sem nunca tê-lo embalado em seu colo, nem tê-lo visto, o que ela sente é saudade. Não é saudade da barriga preponderante, mas de um futuro que jamais se concretizará. Saudade de toda expectativa investida. Saudade de um choro de criança que ela jamais ouvirá.

É uma sensação estranha, porém, real. Cada momento que vivemos está grávido do futuro. O futuro é fruto do casamento entre a eternidade e o agora.

Às vezes temos a sensação de que o futuro foi abortado. É esta sensação que produz em nós um tipo de nostalgia. Era disso que Carlos Drummond de Andrade falava em seu poema: “Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante.” E ninguém em minha geração externou isso de maneira tão poética do que Renato Russo. Em uma de suas canções, ele confessa: "Tenho saudades de tudo que ainda não vi." 

O sábio Salomão diz que Deus “pôs a eternidade no coração dos homens” (Ec.3:11). Em outras palavras, Deus fecundou nossa alma com a semente da eternidade. Nosso corpo está sujeito ao tempo, mas nossa alma nos conecta diretamente à eternidade. E é por isso que Paulo declarou: “Por isso não desfalecemos. Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (2 Co.4:16).

Se a fé nos conecta à eternidade, a esperança nos conecta ao futuro.

Há situações que enfrentamos em nosso dia a dia que parecem destruir nossa esperança. Aos poucos, a esperança vai cedendo lugar ao desespero. E quando isso acontece, não é apenas o corpo que se consome, mas também o homem interior.

Jó experimentou isso na pele e na alma:
“O meu espírito vai-se consumindo, os meus dias vão-se apagando, e só tenho perante mim a sepultura”. Jó 17:1
Isso me lembra uma cena do filme “De volta para o futuro”, em que o protagonista volta ao passado, e percebe que uma foto que ele trouxera do futuro está se apagando, pelo fato de seu passado estar sendo alterado, e seu futuro comprometido.

Não há como retornar ao passado para alterar o presente ou o futuro. Mas podemos viver o presente comprometidos com o futuro.

Quando vivemos sem qualquer perspectiva, nosso espírito vai se consumindo, quando a vontade de Deus é que ele se renove dia após dia. É nosso homem exterior que se corrompe com o tempo. Nosso espírito tem que ser constantemente renovado. A esperança é a fonte da juventude, onde nosso espírito deve mergulhar para manter-se sempre jovem e disposto. Se nosso espírito for consumido pela falta de perspectiva, nossos dias desbotarão, e a vida perderá sua cor. Então, só nos restará uma possibilidade: a sepultura.

Nossos dias se apagam, quando nosso futuro se desvanece. Quando já não temos expectativas, nem esperança.

Era assim que Jó se sentia.
“Os meus dias passaram, malograram-se os meus propósitos, e as aspirações do meu coração (...). Se a única casa pela qual espero for a sepultura, se nas trevas estender a minha cama, se à corrupção clamar: Tu és meu pai; e aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã, onde estará então a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?” Jó 17:11,13-15
Lembremo-nos que a fé que nos conecta à eternidade. Mas é a esperança que nos impulsiona para o futuro. Quando a esperança se esvai, temos que recorrer à fé. Paulo diz que não devemos atentar “nas coisas que se vêem, mas nas que não se vêem. Pois as que se vêem são temporais, e as que não se vêem são eternas (...). Andamos por fé, e não por vista” (2 Co. 4:18; 5:7). O futuro não pode ser abortado, mas a esperança sim. E se ela tem sido sabotada pelas circunstâncias adversas, somente a fé poderá restaurá-la.

Foi o que aconteceu a Abraão, que “em esperança, creu contra a esperança, que seria feito pai de muitas nações (...). E não enfraqueceu na fé, nem atentou para o seu próprio corpo amortecido” (Rm.4:18a,19a). Soa estranho para nós alguém crer contra a esperança. Mas o fato é que a fé deve ter primazia sobre a esperança. Ela nos faz acessar a eternidade, onde o futuro já é presente, um presente que ainda não foi desembrulhado.

Na definição do autor sagrado, “a fé é a certeza das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” (Hb.11:1). Nossa fé deve estar voltada para Aquele que “chama a existência as coisas que não são, como se já fossem” (Rm.4:17). O que ainda será na perspectiva do tempo, já o é na eternidade. Crer contra a esperança, é, ao mesmo tempo, crer aliado à esperança. É transcender o tempo e o espaço, e vislumbrar a eternidade.

Abaixo um poema de minha autoria sobre esta sensação estranha a que chamo de "saudade do futuro".


Saudade do Futuro

Cercado de todos os lados
por um espesso e alto muro
Com os meus pulmões sufocados
Só peço por ar puro!

Em nome da esperança
Quanta coisa eu aturo
Parecendo uma criança
com medo de escuro

Espio por uma brecha
ou por um pequeno furo
Uma porta que ninguém fecha
atravesso, me aventuro

Como colcha de retalho
Lembranças que costuro
Num mosaico em que trabalho
Um sentido eu procuro

Às vezes acerto, outras falho
Nem por isso me censuro
Mas não vou tomar atalho
O caminho é mais seguro

De uma coisa estou certo
Se o passado é um clausuro
Dele hoje me liberto
Que saudade do futuro!

Poema de Hermes C. Fernandes em 28/09/2011

sexta-feira, março 27, 2015

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Fora da BELEZA não há SALVAÇÃO!



“A beleza salvará o mundo.” Fiodor Dostoievski

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...” Tom Jobim e Vinícius de Moraes


Por Hermes C. Fernandes

“Pela beleza sois salvos, mediante a fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus” (Efésios 2:8). Soou estranho pra você, não? O correto não seria “pela graça sois salvos…”? Pois é, pois é, pois é…  Permita-me explicar: A palavra grega traduzida por “graça” no Novo Testamento é charis, equivalente ao vocábulo hebraico chen, encontrado no Antigo Testamento. O conceito por trás desta palavra é riquíssimo, e geralmente tem sido definido como “favor imerecido”. Apesar de correta, esta definição não dá conta de encerrar todo o seu sentido. Do ponto de vista ético, graça é sinônimo de gratuidade pura. Deus resolveu tratar-nos da maneira como não merecemos, sem exigir absolutamente nada em troca. Em resposta à Sua iniciativa, fazemos da gratidão nossa motivação e base de nosso relacionamento com Ele. Toda a ética cristã jorra daí. Qualquer bem que façamos não tem a pretensão de tornar-nos merecedores da salvação, mas tão-somente de demonstrar nossa gratidão por tão grande salvação. Em outras palavras, nossas boas obras não são a causa de nossa salvação, e sim a sua consequência natural. Evito pecar, não pra ser salvo, mas porque sou salvo. A salvação não é fruto dos esforços humanos. Não é conquista que se deva creditar aos homens. Ela é obra inteiramente de Deus. Ele entra com 100%. Isso não é belo? Percebe a poesia por trás desta preciosa doutrina?

Devo confessar que o que mais me atrai no Cristianismo é a sua poesia. Tudo soa tão belo, tão romântico, tão sedutor.  A etimologia da palavra "beleza" é Bet El za, que em hebraico quer dizer "Casa onde Deus se exibe" .Prescindir da beleza é tornar-se num religioso petrificado, feito mármore fria, desprovida de qualquer sinal de vida. Em vez de estética, nossa espiritualidade é estática, contrariando assim a célebre definição de Gotthold Lessing de que "a graça é a beleza em movimento".  Não se pode engessá-la, cristalizá-la, reduzi-la a um conceito teológico frio. Infelizmente, a teologia ocidental tornou-se tão racional, que perdemos de vista a beleza por trás de seus enunciados doutrinários. O aspecto ético deve fazer-se acompanhar do fator estético, sob pena de perder seu poder atrativo. O que é bom, também é belo. O profético também é poético.

Logo depois de afirmar que somos salvos pela graça, Paulo prossegue em seu raciocínio alegando que a salvação não poderia ser pelas obras, a fim de que não nos gloriássemos nisso. Se a salvação dependesse de nossas obras, logo teríamos razão para nos vangloriar, e isso retroalimentaria nosso orgulho, pai de todos  os pecados. Para que este ciclo fosse interrompido, a salvação teria que ser 0800. Em seguida, Paulo complementa: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10). Neste trecho, a palavra traduzida por “feitura” (que lembra feiura, rs) é poiēma, que significa poema. Portanto, na mesma passagem em que Paulo diz que fomos salvos pela beleza da graça, ele também afirma que nossa vida é um poema composto por Deus. Cada estrofe deste poema já foi escrito muito antes de nascermos. Nossa existência terrena é apenas a declamação deste poema. Quanta beleza nesta afirmação, não acha? Foi com isso em vista que Davi declarou que todos os nossos dias foram escritos no livro de Deus, sem que nenhum deles existisse (Salmos 139).

A vida não é um acidente de percurso. As coisas que nos sucedem não são aleatórias, frutos do acaso. Somos a declamação do poema de Deus.

Definitivamente, somos salvos pela beleza. A fé, que opera em conjunto com o amor, oferece-nos os óculos bifocais pelos quais enxergamos a vida em todo seu esplendor.

O pecado furou nossos olhos. Cegos, tornamo-nos insensíveis à beleza da criação, e, por conseguinte, à beleza do Criador nela expressada. Na ânsia por beleza, auxiliados pela graça comum, os homens criaram as artes, na tentativa de enxergar alguma ordem no caos, e encontrar sentido para a vida.

Em cada traço esboçado numa tela, em cada nota musical de uma canção, em cada cena de uma peça teatral, em cada passo de dança, tentamos convencer-nos de que a vida é bela, e que vale a pena retratá-la em nossa arte.

A visão e a audição são os dois sentidos usados nesta busca por beleza. E quando a encontramos, sentimo-nos atraídos, ávidos por devorá-la. Às vezes cedemos às lágrimas, arrepiamos os pelos dos braços, sentimos o coração acelerar. A beleza nos soa como um irrecusável convite, a cheguemo-nos à sua fonte, e saciemo-nos por completo. A fonte de toda beleza é, coincidentemente, a fonte de todo o bem e de toda a verdade: DEUS, o supremo artista.

Davi, o habilidoso salmista, viu-se seduzido pela suprema beleza, e confessou:
“Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e inquirir no seu templo.” Salmos 27:4
De todos os pedidos possíveis, Davi concentrou-se num único que verdadeiramente importava. Ele poderia ter pedido a derrota de seus inimigos, a prosperidade do seu reino, a estabilidade de sua coroa, mas em vez disso, ele pede para morar na casa do Senhor, lugar onde habita a beleza em sua plenitude. Um lugar de beleza encravado em um mundo repleto de feiura. Um lugar de harmonia num mundo onde impera o caos.

Onde seria esta “casa do Senhor” em que poderíamos embriagar-nos da Sua formosura? Qual o seu endereço? Seria algumas das suntuosas catedrais cujos endereços aparecem nos rodapés dos programas evangélicos que abundam em nossa TV? Absolutamente, não. Mesmo porque, Deus não habita em templos feitos por mãos. Será, então, que o google nos forneceria tal endereço? Tente e depois me diga. Certamente você se desapontará.

Se quisermos uma pista de onde podemos habita a beleza plena, devemos buscá-la nas Escrituras.
“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.”João 1:14
A Palavra Eterna, pela qual Deus fez todas as coisas, desceu de Sua glória e tornou-se carne e osso. A prosa divina fez-se poesia. Deus veio habitar conosco. Elegeu-nos como Seu novo endereço no Universo. Que os anjos atualizem os dados de sua agenda. Ele agora é um de nós, mora conosco, respira nosso ar, bebe nossa água, dorme nosso sono, e chega ao ponto de experimentar o auge da experiência humana: a morte. Pra isso, teve que esvaziar-Se das prerrogativas divinas, abdicar-Se do uso de Seus atributos, a fim de que Sua experiência humana fosse autêntica e não uma fraude. Apesar de vazio, apresentou-Se cheio de graça (beleza) e de verdade.

Cerca de 700 anos antes de Sua encarnação, Isaías anteviu Sua rejeição.
“Pois foi crescendo como renovo perante ele, e como raiz que sai duma terra seca; não tinha formosura nem beleza; e quando olhávamos para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e rejeitado dos homens; homem de dores, e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” Isaías 53:2-5
Mesmo cheio de “beleza e glória”(Is.4:2), fomos incapazes de enxergá-la N’Ele, e justamente por isso, não O desejamos. Nossa fome por beleza permanecia. Ele parecia incapaz de saciá-la. Nossos sentidos nos enganaram, pois o pecado os embotou. Rejeitamos a única esperança que nos restava. Desprezamos a última oferta feita pelos céus. Porém, Deus não desistiu de Sua obra. O poema composto na eternidade teria que ser declamado, nem que isso Lhe custasse a própria vida. E custou. Sua morte trouxe melodia ao Seu poema, tornando-o numa épica canção de amor.

Repare que em Apocalipse 4:11, os vinte quatro anciãos que cercavam o trono dizem “digno és, Senhor nosso Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, pois tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existem e foram criadas”. Já no capítulo seguinte, quando Cristo Se apresenta como Aquele que poderia romper os selos que impediam que o Livro de Deus fosse aberto, lemos que esses mesmos seres “cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos, porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo e nação” (Ap.5:9). Foi a Cruz que introduziu melodia ao poema. E há quem pense que a Cruz foi um improviso, uma espécie de plano B. A Criação é o poema. A Redenção é a canção. E o resultado final da obra é uma sinfonia. Duas peças musicais se fundem e formam o Grand Finalle. Foi isso que João viu e descreveu. Seres que tinham nas mãos as harpas de Deus, “cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são as tuas obras, ó Senhor Deus, todo-poderoso. Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos séculos. Quem não te temerá, ó Senhor, e não glorificará o teu nome? Pois só tu és santo. Todas as nações virão e se prostrarão diante de ti, pois os teus juízos são manifestos” (Ap.15:3-4).

Não há o que temer. A última estrofe da canção já foi composta. Todo joelho se dobrará. Toda consciência se renderá. Toda língua declarará seu amor ao Criador e Redentor de todas as coisas. A insinuante beleza revelada em Cristo prevalecerá. A injustiça, feiura e a mentira, serão vencidos pelo poder do bem, do belo e do verdadeiro. Preparado para o espetáculo?

quarta-feira, março 25, 2015

22

"Vai e não peques mais" é a única abordagem possível?



Por Hermes C. Fernandes

Sempre que escrevo sobre a maneira como deveríamos acolher homossexuais em nossas igrejas, sem discriminá-los, recebo comentários favoráveis, mas com a seguinte ressalva: devemos receber o pecador, mas exigindo que abandone o pecado.  Geralmente, tomam por base a abordagem usada por Jesus com a mulher pega em flagrante adultério, que graças à intervenção de Jesus não foi sumariamente executada em pleno pátio do templo.  Depois de afirmar que não a condenava, Jesus recomendou: “Vai-te,  e não peques mais” (Jo.8:11).

Será que isso deveria ser entendido como um padrão para abordarmos qualquer pecador? Se não dissermos “vai-te e não peques mais” nossa abordagem foi incompleta?

Interessante notar que ela estava cercada de religiosos igualmente pecadores. O fato de sermos cristãos não nos isenta de pecado. Sou tão pecador quanto qualquer outro ser humano. E só posso apontar o dedo e condenar o meu semelhante, se não tiver pecado. O único ali que poderia tê-la condenado era Jesus, e Ele não o fez. Ela sequer confessou ser pecadora, ou fez sua profissão de fé, mas ouviu de Jesus: “Nem eu também te condeno.”

Ao largarem suas pedras, aqueles religiosos admitiram que eram pecadores. Por que Jesus não disse a eles o mesmo que disse a ela? Por que devemos dizer ao homossexual ou à prostituta para que não peque mais, e não diríamos o mesmo àqueles que compartilham de nossa fé? Somos tão pecadores quanto os demais.

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós”. E pior: Se insistirmos que não somos pecadores, estaremos chamando Deus de mentiroso e “a sua palavra não está em nós” (1 João 1:8,10). Quando, então, perderemos a mania de olhar de cima para baixo para os que cometem pecados diferentes dos nossos? Quão cínicos somos, não?

Apenas duas vezes Jesus completou Sua abordagem com a recomendação “vai e não peques mais”. A outra vez foi com o paralítico no tanque de Betesda.  A este, Jesus não só recomendou a que não pecasse, como o alertou: “Para que não te suceda alguma coisa pior” (Jo.5:14). Fica subentendido que sua enfermidade decorria de algum estilo de vida pecaminoso, desenvolvido ainda em sua mocidade, uma vez que ele já estava há 38 anos enfermo.  O que será que ele andou aprontando antes disso? Jamais saberemos.

Se, de fato, esta devesse ser a abordagem padrão para todos os casos, alguém, por favor, me explique por que razão Jesus não a usou quando recebeu a oferta daquela prostituta na casa de Simão, o fariseu?

Simão, religioso fervoroso, sentiu-se aviltado por assistir àquela mulher da vida quebrando o protocolo e, sem a menor cerimônia, derramar aquele perfume caro em Jesus. De onde ela teria tirado dinheiro para comprá-lo. Obviamente, de seu ofício. Para o religioso, Jesus deveria censurá-la, ou, no mínimo, adverti-la a deixar aquela vida fácil (que de fácil não tem nada!). Mas para sua surpresa, quem foi repreendido foi ele, não ela. Jesus fez questão de declarar a ela em alto e bom som: “Os teus pecados te são perdoados”, e, em seguida, “a tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lc.7:48-50). 

Talvez Simão tenha pensado com os seus botões: O Senhor não se esqueceu de algo, Jesus? Faltou o “não peques mais”... Como é difícil para um religioso compreender que um gesto de amor é mais eloquente do que uma recomendação, ou mesmo, uma advertência. Segundo Paulo, é o amor de Cristo que nos constrange. Duvido muito que ela tenha prosseguido em seu estilo de vida. E caso tenha prosseguido por algum tempo, também duvido que Jesus tenha desistido de amá-la. 

E quanto à samaritana que já teria tido cinco maridos, e que agora vivia com outro que sequer era seu marido? Jesus prometeu-lhe dar da água da vida, saciando de tal maneira a sua sede existencial que, certamente, ela já não precisaria buscar suprir sua carência em múltiplos relacionamentos. O relato bíblico diz que os discípulos maldaram ao flagrar Jesus conversando a sós com aquela mulher de moral duvidosa. Jesus não deu a mínima para os seus escrúpulos religiosos. Tratou-a como uma dama, e por fim, despediu-se dela sem o famoso “vai-te e não peques mais”. Esse Jesus anda muito esquecido, não? Ele também não exigiu que ela abandonasse o atual para voltar ao marido original, como algumas igrejas fazem hoje em dia. Ele apenas a amou. Sua abordagem não foi moralista, mas existencial. Seu estilo de vida apenas revelava sua sede existencial, sua busca por sentido, sua ânsia por propósito. 

Definitivamente, precisamos rever nosso discurso. Mas antes de tudo, temos que rever nossa postura ante aquele que consideramos mais pecador do que nós. Todos somos igualmente carentes da graça de Deus, e, portanto, não temos o direito de apontar o dedo para ninguém. 

Que tal darmos ouvidos à recomendação apostólica?: “acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para promoverdes a glória de Deus” (Rm.15:7). E quando estes a quem acolhermos se sentirem amados da maneira como são, poderemos dizer: “Meus filhinhos, (...) não pequeis. Se, porém, alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo” (1 Jo.2:1).

Sinceramente, entendo este "filhinhos (...) não pequeis" como um apelo de amor, e não meramente uma exigência moral. A meu ver, só poderia dizer "vai e não peques mais" quem pudesse ser capaz de cumprir tal exigência, no caso, o próprio Filho de Deus. Como eu poderia exigir que alguém fizesse o que nem eu sou capaz de fazer? Como posso exigir que alguém pare de pecar, se eu mesmo não parei? Agindo assim, eu seria como aqueles fariseus que exigiam dos outros que carregassem fardos que eles mesmos não se dispunham a carregar. E se eu  me atrever a dizer que parei de pecar, estarei chamando Deus de mentiroso.  Portanto, só Jesus, o único justo, poderia dizer "vai-te e não peques mais", pois foi o único que jamais pecou. E nem sempre usou desta prerrogativa, isto é, nem sempre lançou mão desta abordagem. 

segunda-feira, março 23, 2015

24

Procura-se igreja saudável e liderança confiável


Por Hermes C. Fernandes

Em meio a tanta confusão nos arraiais evangélicos, muitos preferem servir a Cristo em seus próprios lares, engrossando assim a fileira da igreja que mais cresce no Brasil e no Mundo: a dos desigrejados. Seu desapontamento com a igreja instituída fez com que agissem como Elias, o profeta solitário que cansou-se de nadar contra maré de corrupção que abatera sobre Israel, planejando terminar seus dias confinado numa caverna. O que ele não sabia é que Deus havia preservado sete mil pares de joelhos que não haviam se dobrado a Baal.

Basta visitar alguns dos milhares de blogs que povoam a blogosfera cristã para certificar-se de que ainda há esperança. A blogosfera transformou-se numa enorme congregação virtual. Gente oriunda de todos os setores da igreja cristã tem a liberdade de expor seu descontentamento com o rumo que a igreja tem tomado.

Como pastor, preocupo-me com aqueles que simplesmente desistiram de congregar e se alimentam unicamente do que é postado em nossos blogs. Precisamos muito mais do que isso. Precisamos construir relacionamentos sólidos, submeter-nos a uma liderança madura e respaldada na Palavra, encaminhar nossos filhos a um ambiente saudável, sentir-nos pertencentes a uma família espiritual, e mesmo, contribuir financeiramente com projetos que visem a glória de Deus e o bem-comum.

Daí surgem algumas questões pertinentes:

Poderíamos congregar numa igreja que não fôssemos capazes de recomendar a outros? Sentir-nos-íamos constrangidos e desconfortáveis em trazer nossos amigos e parentes a um culto?

Que tipo de igreja proveria um ambiente seguro e saudável para os nossos filhos? Que igreja poderia ajudar-nos na formação do caráter deles sem intrometer-se em assuntos domésticos e particulares, e sem expor nossa autoridade como pais? Há igrejas onde o pastor se vê no direito de estabelecer regras nos lares de seus congregados. Filhos crescem sem saber se devem honrar a seus pais ou obedecer cegamente a seus líderes espirituais. Imagine um pastor que exija ser chamado de “pai”, ou ser tratado como tal. Ou ainda: o desconforto de um pai cuja autoridade é rivalizada pela autoridade pastoral.

A que tipo de liderança deveríamos nos submeter? Um pastor que não é respaldado por sua própria família (pais, irmãos, filhos, esposa, etc.), estaria apto a mentorear outras famílias? E quando todos percebem que entre ele e a esposa não há amor? Você se submeteria a um pastor cujo casamento não passasse de um embuste? Que tipo de tratamento ele dá aos filhos? A famíla pastoral deve ser referência. Não digo que deva ser perfeita, mas pelo menos saudável.

Seria sábio submeter-nos a uma liderança susceptível a todo tipo de modismo doutrinário? Hoje prega uma coisa, amanhã prega outra totalmente difirente? Seria correto submeter-nos a uma liderança emocionalmente desequilibrada? Como nossos pastores reagem ante a uma crise? Como reagem quando são elogiados? E quando são criticados? Costumam trazer problemas de casa para o púlpito, ou vice-versa? Gostam de apelar ao emocionalismo? Gostam de tornar as pessoas dependentes deles?

Seria sábio submeter-nos a uma liderança antiética? Quem suporta um pastor que só sabe falar mal dos que o antecederam? Você se submeteria a um pastor que sequer sabe ser grato a quem o instituiu? E mais: com quem ele anda? Quem são seus amigos? Quem freqüenta sua casa? Não me refiro a amizade com pessoas não cristãs, e sim a amizade com falsos cristãos, lobos infiltrados no meio do rebanho para causar-lhe dano.

Como acolhem as pessoas que chegam a igreja? Dão o mesmo tratamento independente da posição social? Desprezam os veteranos para dar maior atenção aos novatos? Como são tratados os anciãos? Lembre-se que um dia você será um.

E quanto às contribuições? Seria sábio contribuir numa igreja onde a liderança é pródiga? É correto o pastor fazer compromissos maiores do que os que a igreja possa arcar e depois escapelar os irmãos na hora das ofertas? Como as ofertas são pedidas? Há muita apelação, manipulação e pressão psicológica? E como elas são administradas? A quem o pastor presta contas? Há uma instância acima dele? O que entra na igreja é usado exclusivamente ali ou parte é destinada a trabalhos missionários? Há projetos sociais relevantes? Que resultado esses projetos têm alcançado?

É correto usar o dinheiro da igreja para pagar cachês a cantores e bandas convidadas?

E se o pastor eventualmente cometer um deslize grave, como adultério ou roubo, quem poderá admoestá-lo, ou mesmo puni-lo?

Como a igreja lida com questões políticas? É certo a liderança apontar em quem os membros devem votar? É correto levar candidatos para o púlpito e ceder-lhes a palavra? Há algum trabalho de conscientização para que as pessoas exerçam sua cidadania cabalmente, sem interferência?

Quais os critérios usados pelo pastor para ceder seu púlpito a outro pregador?

Olhe para as pessoas à sua volta, principalmente para as que chegaram antes de você e pergunte-se: Elas são hoje pessoas melhores do que eram anos atrás? As pessoas que congregam ali estão amadurecendo na fé? Lembre-se: elas podem ser você amanhã.

E quanto ao culto? Percebe-se a presença de Deus naquele lugar? Há reverência ou simplesmente oba-oba? As pessoas que freqüentam estão realmente interessadas na Palavra ou só aparecem quando há algum evento ou convidado especial?

Essas são apenas algumas questões que precisam ser consideradas. Se você tiver alguma outra questão igualmente relevante, por favor, poste em seu comentário.

O que não podemos é desistir da igreja de Cristo, seja reunida de maneira formal ou informal. Não basta criticar, urge encontrarmos saída para resgatá-la deste estado calamitoso em que chegou.

Originalmente postado em 27/04/2010

quinta-feira, março 19, 2015

6

Tudo o que não presta você vê por aqui...



Por Hermes C. Fernandes

Ambição, inveja, homicídio, promiscuidade, incesto, adultério... onde mais encontramos tais elementos além das novelas globais? A resposta é: na Bíblia!

Eu não confiaria num livro em que seus personagens fossem seres míticos, moralmente perfeitos, anjos travestidos de gente. Em vez disso, as Escrituras nos apresentam seres ambíguos, capazes de oscilar entre o heroísmo e a vilania, entre a pureza e a vileza. Nem Davi e sua família escapam. Digo Davi pelo fato de ele ser o único a receber a alcunha de “homem segundo o coração de Deus”.

Mas não confunda as coisas. Fazer alusão a fatos não é o mesmo que fazer apologia deles. A intenção dos escritores sagrados era expor a condição do coração humano e sua absoluta carência da graça divina.

O problema humano está para além dos ambientes externos. Há quem se mantenha fiel dentro dos palácios da Babilônia, como foi o caso de Daniel e seus amigos, ao passo que há quem se entregue a devaneios libidinosos nos palácios de Jerusalém. Nosso problema está diretamente relacionado aos ambientes do coração. Em cada esquina da alma há uma armadilha. Pouco importa se você está num mosteiro ou numa praia de nudismo, em Cafarnaum ou em Sodoma.

Quem poderia supor, por exemplo, que a família de Davi fosse tão disfuncional e problemática? E olha que ninguém ali assistia às novelas da Globo! rs

Um dos episódios mais dolorosos vividos envolvendo seus filhos está aquele em que seu filho Amnom se apaixona pela própria irmã. O texto sagrado diz que ele angustiou-se até adoecer. Teria sido pela culpa que carregava? Não! Sua depressão tinha outra razão: sua irmã era virgem, “e parecia impossível a Amnom fazer coisa alguma com ela”. Não bastasse ela ser sua irmã, o que em si já se constituía num enorme obstáculo, ela também era virgem. Se não o fosse, tudo seria mais fácil. Em momento algum ele se vê diante de um dilema moral. O sentimento de culpa passou longe.

Sua obsessão por sua irmã era tão grande que afetou sua saúde física. Jonadabe, seu primo e amigo confidente, perguntou-o sobre a razão de estar emagrecendo tão rapidamente. Sua resposta concisa foi: “Amo a Tamar, irmã de Absalão, meu irmão.”

Repare nisso: Ele não disse que amava sua própria irmã, e sim que amava a irmã de seu irmão. Não seria isto um mecanismo de fuga, uma maneira de atenuar sua culpa? Ele não a considerava sua irmã, mesmo porque, eles eram filhos do mesmo pai, mas não da mesma mãe.

Seremos humanos somos experts em driblar a consciência, nem que para isso tenhamos que apelar a um jogo de palavras. Palavras escondem mais que revelam. Pena que insistimos em ler apenas o que está escrito, perdendo o que jaz nas entrelinhas. Prestamos demasiada atenção ao que se é dito, mas não às pausas entre as palavras e à lógica circular que visa distrair o foco.

Sagaz, Jonadabe não poderia deixar o amigo sem uma palavra de incentivo, ainda que fosse para o mal.

– Você vai fazer o seguinte: Finja que está doente e quando seu pai vier lhe visitar, peça que libere sua irmãzinha para cuidar pessoalmente de você e lhe dar comidinha na boca. Aí, quando ela vier, você dá o bote, sacou?

A ideia parecia brilhante. Era tudo uma questão de tê-la ali ao alcance das mãos. Davi caiu direitinho e enviou sua filha Tamar para cuidar de um dos pretensos candidatos à sucessão do trono. Como ele poderia supor que seu filho estivesse tramando para possuir a própria irmã? Esta era uma possibilidade completamente fora de cogitação. Não condizia com a educação que havia dado a seus filhos.

Tamar fez o que lhe fora pedido. Preparou bolos, tentou dar-lhe de comer direto na boca, mas ele se recusou como uma criança mimada. Para que seu intento fosse alcançado, ele teria que estar sozinho com ela. Além da privacidade requerida, não poderia haver testemunhas do que ocorreria ali. Ele, então, ordena que todos os seus criados deixem o seu aposento. A ideia era não deixar rastro. Se não desse certo, tudo morria ali mesmo. Ninguém precisava saber.

O que nos inibe de fazer muitas coisas é a tal “nuvem de testemunhas” sempre a postos (Hb.12). Mas se obtivermos a privacidade necessária, nossos demônios veem à tona.

– Chega mais perto agora. Quero comer de suas mãos – convida Amnom à sua indefesa irmã.

Inocente, ela se aproxima sem imaginar o risco que corria.

– Agora vem cá, deita comigo!

– Você está louco? Não é assim que as coisas funcionam aqui em Israel!

Para a coitada da menina, tudo tinha a ver com o ambiente. Se estivessem na Babilônia, quem sabe... mas não ali em Jerusalém.

Mesmo em sua santa ingenuidade, Tamar ainda tenta chamá-lo à consciência.

– Se fizer comigo o que está desejando, como é que vou lidar com a minha vergonha?

Em outras palavras: - Alguém poderá deduzir que fui eu que o seduzi. Vão achar que facilitei, que me insinuei pra você.

Este tipo de argumento machista a gente vê por aqui... não na Globo ou no Brasil, mas em pleno palácio do grande rei Davi. Mulheres vítimas de estupro, além de carregar a dor de terem sido molestadas, ainda têm que suportar a acusação de terem provocado.

Tamar era mais que um rosto bonito e um corpo bem esculpido. Como ele não se importou com a vergonha que ela teria que carregar, apelou, então, para outro argumento:

– Vão comentar por aí que você está louco! Você não se importa? Sua reputação vai pro lixo junto com qualquer pretensão de um dia ser rei em Israel. Será que vale a pena pagar um preço tão grande por uma noite de volúpia com sua própria irmã?

Nem mesmo este argumento conseguiu dissuadi-lo de forçá-la. Ela, então, resolve lançar mão de um último argumento:

– Se quer mesmo fazer isso, por que não faz da maneira certa? Se você me pedir ao rei, tenho certeza de que ele não me negará a você.

É óbvio que Davi jamais atenderia a um pedido inusitado daqueles. Imagine, entregar a própria filha ao irmão... mas em seu desespero, foi o que ocorreu a Tamar. Ela inverteu a lógica maquiavélica. Não são apenas os fins que justificam os meios. Se é possível alcançar um objetivo nobre por meios errados, também é plausível alcançar um objetivo funesto por meios aparentemente mais decentes.

Obcecado, Amnom nem sequer considerou os argumentos de Tamar. “Sendo mais forte do que ela, forçou-a e se deitou com ela.”

Um estupro incestuoso! Onde? Em Sodoma ou Gomorra? Não! Na Babilônia? Também não. Em Jerusalém, a poucos metros dos aposentos reais.

Jonadabe tinha razão. O plano deu certo. Amnom conseguiu o que queria. Sua irmã não pôde resistir, não ao seu encanto, mas à sua força.

Sempre haverá por perto algum Jonadabe pronto a instigar o que há de pior em nossa natureza. Mas também sempre haverá quem busque suscitar nossa consciência, chamando-nos ao bom senso. Neste caso em particular, foi a própria Tamar. A eloquência das vítimas é sempre menosprezada por seus algozes. É mais fácil ouvir o canto de um galo do que dar ouvidos ao argumento daquele a quem pretendamos usar, explorar e oprimir.

Após consumar o ato, “sentiu Amnom grande aversão por ela, pois maior era a aversão que se sentiu por ela do que o amor que lhe tivera.”

Eis a diferença entre propósito e obsessão! Quando alcançamos um propósito, sentimo-nos realizados. A sensação que temos é de missão cumprida. Porém, quando somos tomados por uma obsessão, a sensação que se segue é de aversão, nojo e culpa.

Quem se guia por propósito sempre leva em conta os desdobramentos, “o dia depois de amanhã”, as consequências imediatas e as que virão a médio e longo prazo. Quem se deixa levar por uma obsessão só está preocupado com o prazer do momento. Ainda que seja uma “boa” obsessão, como por exemplo, o casamento, a formatura, a gravidez, etc. Depois de concluído a graduação, a pessoa se pergunta: O que foi que eu fiz da minha vida? E agora, o que vou fazer? O mesmo se aplica a outras áreas. A gente se põe a construir uma torre sem calcular seus custos e acaba deixando-a pela metade. O entusiasmo inicial cede a um sentimento de desânimo e, às vezes, de aversão. Provamos não ter cacife para custear a manutenção de sonhos alcançados com relativa facilidade. O difícil não é casar, mas manter-se casado. Não é formar-se, mas sentir-se realizado naquilo que faz. Não é conceber um filho, mas educá-lo.

O nojo que Amnom sentiu da própria irmã foi tão grande que ele ordenou que seu criado a pusesse para fora, sem dó nem piedade. Onde foi parar todo aquele amor que sentia por ela? Simplesmente, não era amor, mas obsessão. Entre o amor e o ódio há um enorme abismo, mas entre a paixão e a aversão há apenas uma linha tênue.

Tamar deixa o quarto de seu irmão completamente desolada. A virgindade ainda era um tabu. Perdê-la sem ter se casado significava ter que sair da casa dos pais. Mas espera aí... ninguém sabia. Não houve testemunhas! Se ela se calasse, tudo continuaria como antes.

Em vez disso, ela prefere tomar uma atitude inesperada. Era melhor enfrentar sua nova condição com honestidade do que passar o resto de seus anos sob o manto da hipocrisia.

Naquela época, as filhas dos reis se vestiam com túnicas que as identificam como donzelas. Se mantivesse tudo em segredo, ela poderia continuar a usar a mesma túnica. Quem jamais ousaria conferir?

Tamar, porém, ao ser enxotada do quarto de seu irmão, rasgou sua túnica e lançou cinza sobre sua cabeça para indicar o quão amargurada estava. Quem quer que a visse naquele estado saberia que ela já não era uma donzela.

Foi muito fácil Bartimeu lançar fora sua capa. Difícil foi Tamar rasgar sua túnica. É fácil lançar fora o que nos desonra, o que nos torna seres de segunda classe. Difícil é rasgar o que nos torna pessoas especiais aos olhos dos demais. Jesus disse que deveríamos nos desapegar tanto de túnicas quanto de capas (Mt.5:40). Portanto, temos que estar prontos a abrir mão tanto do que nos desfavorece, quanto do que nos favorece. O que não devemos é viver sob a capa da hipocrisia.

Entre os romanos havia um adágio que dizia que não basta ser mulher de César, tem que parecer mulher de César. Damos muito mais valor à aparência do que ao conteúdo. Por isso, a hipocrisia segue imperando, inclusive nas igrejas. Justamente num ambiente onde deveria prevalecer a transparência, somos bombardeados com mensagens que insistem em nos convencer a exibir uma fachada de falsa espiritualidade. A gente ri, quando no fundo quer chorar. A gente canta, quando no fundo preferia apenas orar. Parece que nos esquecemos da recomendação de Tiago: “Está alguém entre vós aflito? Ore. Está alguém contente? Cante louvores” (Tg.5:13).

A transformação operada pelo Espírito Santo em nós requer que estejamos com o rosto descoberto e não posando de santos imaculados.

O que impede muitos de aderirem a este espírito despojado de falsa espiritualidade é a falta de amor entre os irmãos. As pessoas estão sempre prontas a julgar, quase nunca prontas a acolher. Usam jogo de palavras para transformar vítimas em cúmplices de seus algozes. Em suma, sobra lei, falta graça.

Quando Absalão viu-a naquele estado, concluiu que alguma coisa havia acontecido e indagou:
“Esteve Amnom, teu irmão, contigo? Ora pois, minha irmã, cala-te; é teu irmão. Não se angustie o seu coração por isto. Assim ficou Tamar, desolada, em casa de Absalão, seu irmão.”
Já que não poderia mais morar no palácio, Tamar foi acolhida por seu irmão mais velho. Mas, de que adiantava oferecer-lhe um teto, mas negar-lhe os ombros? E que discurso mais machista foi aquele? Que estória é esta “deixa pra lá”? As coisas não se resolvem sendo varridas para debaixo do tapete. Nem mesmo na cabeça de Absalão a situação estava equacionada. O texto diz que ele preferiu não emitir qualquer opinião, nem sequer procurou Amnom para uma conversa franca. Mas, no fundo, nutria um ódio mortal pelo irmão por haver estuprado a Tamar.

A propósito, alguém viu Davi por aí?

Não perca as cenas dos próximos capítulos desta novela bíblica que se passa em Jerusalém, ou seria na Babilônia?

* Texto baseado em 2 Samuel 13:1-22