sexta-feira, outubro 31, 2014

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PASMEM! Halloween tem origem cristã





Tornou-se rotina em outubro para algumas escolas cristãs e igrejas, enviar cartas de advertência aos pais sobre os males do Halloween. "Halloween" é simplesmente uma contração de All Hallows 'Eve (Véspera de Todos os Santos). A palavra "Hallow" significa "santo", ("Hallowed Be Thy Name" = "Santificado seja o Teu Nome"). O Dia de Todos os Santos é comemorado em primeiro de novembro. É a celebração da vitória dos santos em união com Cristo. A observância de várias celebrações de Todos os Santos surgiu no ano 300, e estes foram unidos e fixados em primeiro de novembro 700 anos depois. A origem do Dia de Todos os Santos e de Véspera de Todos os Santos (Halloween) no Mediterrâneo não tem nada a ver com o druidismo celta ou com a luta da Igreja contra o druidismo (assumindo que não houve sequer qualquer coisa como druidismo, que na verdade é um mito inventado no século 19 por neo-pagãos.). 

Na Primeira Aliança, a guerra entre o povo de Deus e os inimigos de Deus foi travada no plano humano contra os egípcios, assírios, etc. Com o advento da Nova Aliança, no entanto, dizem-nos que a nossa batalha principal é contra os principados e potestades, contra anjos caídos que cativam os corações e as mentes dos homens na ignorância e e no medo. Estamos certos de que através da oração, fé, e obediência, os santos serão vitoriosos em nossa luta contra essas forças demoníacas. O Espírito nos assegura: "O Deus de paz esmagará Satanás debaixo dos vossos pés em breve" (Romanos 16:20). 

Não estou aqui defendendo a celebração de tal festa, mas apenas oferecendo uma versão diferente daquela que geralmente tem sido ensinado em nossas igrejas. Conhecer nunca é demais. 

Nos Estados Unidos, maior nação protestante do mundo, muitos cristãos celebram sem qualquer culpa. As próprias igrejas usam seus estacionamentos para venderem abóboras que são usadas durante a celebração. No primeiro ano nosso lá, tivemos muito receio de abrir as portas para as crianças que batiam pedindo doces. Mas depois, verificamos que tudo não passa de uma brincadeira ingênua, e passamos distribuir doces e balas para as crianças que lá chegavam dizendo "doce ou travessura". 

Quanto à celebração desta festa em solo brasileiro, não vejo com maus olhos, mas também não acho que seja necessário importar mais uma festa estrangeira, tendo em vista nossa riqueza cultural. Sem contar que para nós, protestantes, há uma celebração muito mais importante que não pode ser ofuscada por qualquer festa popular. 

A propósito, Feliz Dia da Reforma para todos! A Reforma Protestante foi a vitória de todos os santos, de todas as eras.

quinta-feira, outubro 30, 2014

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Deles só quero distância!



Por Hermes C. Fernandes

 "Para criar inimigos, não precisa declarar guerra... basta dizer o que pensa!" 
Martin Luther King, Jr.

Quando comecei meu ministério há 27 anos, não poderia imaginar que colecionaria desafetos. Como alguém poderia tornar-se meu inimigo se tudo quanto almejava era servir a Deus dedicando-me aos meus semelhantes? 

Porém, aos poucos, eles foram surgindo (ou, se revelando).

Os primeiros que tive eram de fora. Vizinhos que reclamavam do som da igreja. Teve um que entrou bêbado durante um culto portando uma arma, vociferando que queria me matar. Eu tinha acabado de subir ao púlpito. Fechei os olhos e comecei a orar. Uma de nossas assistentes avançou nele, tirou-lhe a arma e o colocou para fora. 

Cresci sabendo que sofreria hostilidade de alguns de fora. Foi assim com meu pai e certamente não seria diferente comigo. Quantas vezes tivemos nossa casa apedrejada enquanto dormíamos! Numa das vezes eu e meus irmãos acordamos com um paralelepípedo próximo da cabeça de um de nós. Outras vezes tivemos o carro apedrejado na rua vizinha à igreja. Até aí, tudo bem...

Mas jamais poderia supor que encontraria 'inimigos' dentro da própria igreja.

Alguns movidos por inveja, outros por discordância doutrinária ou administrativa. Achava que, como cristãos, poderíamos discordar numa ou noutra coisa, porém, mantendo o respeito recíproco. Nada de acusações levianas, suspeitas infundadas, ataques pessoais ou coisa parecida. 

Em vez disso, deparei-me com pessoas que mais pareciam agentes inimigos infiltrados, munidos de todo tipo de arma carnal, cujo propósito era minar nossa credibilidade e destruir o que com tanto sacrifício foi edificado.

Nesses casos, sempre preferi perdoar. Com isso, a hemorragia estancava, porém, a ferida mantinha-se aberta por muito tempo. Qualquer novo ataque abria-a novamente e a fazia sangrar. Para evitar isso, resolvi tomar outra medida além do perdão: distanciar-me. Com isso, impeço que a ferida volte a inflamar. Faço coro com Davi: os que usam de engano, quero-os longe de mim. 

Nunca saí em defesa própria. Não me atreveria a dispensar meu Advogado Fiel. A Ele confio todas as minhas causas. Porém, tenho me tornado cada vez mais criterioso na escolha daqueles que desfrutam de minha amizade. Acabo pagando um alto preço por isso, isolando-me, preferindo a solicitude à companhia. 

Sei que há amigos circunstanciais que a qualquer instante poderão nos abandonar ou mesmo se tornarem desafetos. Quando se ocupa uma posição de liderança que, em tese, nos confere poder de fazer o bem ou o mal a alguém (em outras palavras, promover ou rebaixar), somos cercados de pseudoamigos. Basta que não correspondamos às suas expectativas e logo saem atirando para todo lado, tentando nos denegrir.

Outros ficam à espreita, afoitos por flagrar-nos num único deslize para que justifiquem sua insurreição.

Devo confessar que muitas vezes me precipitei ao ordenar alguém ao ministério. Gente que só queria se locupletar, mas que, tão logo receberam 'autoridade', insurgiram-se e revelaram seu verdadeiro caráter.

Hoje, estou mais criterioso do que nunca. Não basta carisma. Tem que ter caráter. Não basta formação acadêmica. Tem que ser forjado no campo de batalha. 

Cansei de obreiros fraudulentos. Elogios e bajulações não vão comprar minha amizade e confiança. Quem lhe paga o almoço hoje vai querer cobrar favores amanhã. Toda cautela é necessária. 

Já vi casos de pastores que quando souberam que receberiam uma contribuição financeira significativa, trataram de romper imediatamente com a sua denominação a fim de não precisarem prestar contas dela. Os tais pensam que passaram incólume, porém, Deus conhece todas as coisas e faz com que venham à tona na hora certa. 

O que mais me incomoda nisso tudo são os efeitos colaterais. Uma pessoa honrada pode deixar nosso círculo sem qualquer alarde. Mas nem todos são honrados. Alguns querem prejudicar a obra e para tal, não poupam o rebanho. Gente inocente acaba por deixar-se seduzir pelos tais. Calúnias são engendradas. Insinuações são lançadas ao ar. E quem não conhece a verdade compra qualquer versão que lhes é apresentada.

O que me consola é saber que todos terão que prestar contas a Deus. Os fins não justificam os meios. Não vale mentir achando que isso resultará num bem maior. Não vale ser covarde. Mais cedo ou mais tarde, a verdade virá à tona. 

Quanto a mim, entrego-me Àquele que julga retamente e ao meu Advogado.

Nem precisam me pedir perdão. Já os perdoei. Peçam perdão a quem seguiu às suas dissoluções. Arrependam-se antes que venha o Senhor e lhes peça conta, tim-tim por tim-tim. Deus é amor! Mas não é condescendente com os erros de ninguém. 

Sei que sempre teremos inimigos por perto... E devemos estar prontos a convidá-los a tomar assento na mesa que o Senhor houver preparado para nós. Todavia, aqueles que se diziam amigos e se revelaram falsos, prefiro-os distantes. Talvez assim a ferida um dia cicatrize. Enquanto isso, proponho-me a enviar-lhes  'quentinhas' com o que Deus tem me concedido em Sua misericórdia. Aliás, acho que é isso que tenho feito aqui no blog... Alguns que antes sentavam-se à mesa comigo, hoje se alimentam por aqui.


terça-feira, outubro 28, 2014

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Jesus não combina com preconceito!




Por Hermes C. Fernandes

Já no começo Ele mostrou a que veio. Escolheu nascer numa família humilde e em circunstâncias que poderiam ser, no mínimo, consideradas suspeitas. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito.

Poderia ter nascido num palácio, mas preferiu nascer entre os animais, acolhido numa manjedoura em vez de num berço de ouro. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Ainda bebê, recebeu presentes de magos estrangeiros que não professavam a religião dos Seus pais (“magos” é um eufemismo para “bruxos”). Por que hoje Ele discriminaria quem O quisesse louvar, ainda que não pertencesse ao Seu povo? Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Já adulto, foi inusitadamente banhado pelo perfume de uma dama da noite, adquirido no exercício de sua atividade. Jamais Se incomodou por ser flagrado andando publicamente na companhia delas e de outros de moral duvidosa. Será que hoje Ele ficou mais seletivo? Definitivamente, Jesus não combina com preconceito.

Nunca usou termos pejorativos para tratar leprosos, mendigos, excluídos, eunucos. Por que alguns dos Seus seguidores insistem em usá-los. Não consigo imaginá-lo chamando alguém de “gay aidético”, ou de "leproso imundo". Ele sempre foi um gentleman. Tratava com dignidade a qualquer ser humano. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Ele foi capaz de elogiar publicamente a manifestação da fé de um oficial do exército do império que ocupava Sua terra. Mesmo sabendo que aquele homem provavelmente era devoto de muitos deuses, Ele não recriminou, mas admirou sua devoção ao criado enfermo. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Ele escandalizou Seus conterrâneos, ao usar uma figura por eles desprezada para ser o principal personagem de algumas de Suas parábolas. Para Ele, mesmo um samaritano era capaz de surpreender o mundo com atitudes dignas e motivadas por amor. Definitivamente, Jesus não combina com preconceito.

Foi flagrado aos papos com uma "nordestina" de sotaque estranho (Samaria ficava ao norte de Jerusalém) à beira de um poço, e mesmo sabendo de seu estilo de vida promíscuo, não a condenou, mas ofereceu-lhe saciar sua sede existencial. Você ainda acha que Jesus combine com preconceito?

Ao escolher Seus discípulos, não os censurou por suas ideologias. De fato, entre eles havia publicanos, zelotes e até fariseus, abrangendo todo o espectro ideológico da época. Por que alguns dos Seus seguidores apaixonam-se de tal maneira por certas ideologias, que acabam demonizando os que pensam diferente? Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Ao ressuscitar, Ele quebrou todos os protocolos ao aparecer antes às mulheres e enviá-las como portadoras da boa nova aos demais discípulos. Por incrível que pareça, ainda há quem se diga discípulo d'Ele e que pensa que a mulher não deve ter oportunidade no ministério. Parece que Jesus vivia bem à frente do Seu tempo e por isso, jamais combinou com preconceito.

Paulo, um dos Seus mais proeminentes discípulos, fez eco ao que aprendeu do seu mestre. Tanto que foi capaz de citar poetas seculares em seu discurso, revelando estar desprovido de qualquer espírito discriminatório. Haveria algum erro em citar poetas seculares atuais? Será que isso nos desqualificaria como pregadores? Definitivamente, Jesus não combina com preconceito. 

Jesus só demonstrou intolerância para com os intolerantes, aqueles que se achavam tão santos, que ao subirem ao templo para orar, ousavam declarar não serem tão pecadores como os outros. Estes não foram poupados de Suas duras e severas críticas. Com a mesma severidade com que julgaram, foram julgados. Para estes, Jesus tinha adjetivos muito especiais, tais como hipócritas, “raças de víboras” e “geração adúltera” (equivalente mais polido de um xingamento muito usado em nossos dias). Definitivamente, Jesus não combina com preconceito, muito menos com intolerância. 

Aos xerifes da vida alheia, uma linda canção do "gay aidético" (foi assim que um deles se referiu ao Renato Russo). Vocês envergonham o Evangelho com esta postura preconceituosa extremista. Que Deus tenha misericórdia de suas almas (refiro-me tanto ao que escreve, quanto aos que compactuam com suas ideias, ao Severo e aos severistas). 

Larga de ser severo, amigo! Ou seja severo consigo, porém compassivo com os demais. Imagine se Jesus resolvesse implicar com o cumprimento dos seus cabelos! Lembre-se: somente os misericordiosos alcançarão misericórdia. Os severos alcançarão severidade.

segunda-feira, outubro 27, 2014

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Uma nação partida ao meio pelo Muro da Discórdia



Por Hermes C. Fernandes

Adoraria poder comemorar o resultado das urnas. Independente dele, venceu a democracia brasileira que vem se consolidando desde o fim da ditadura militar. Em vez disso, sinto um profundo pesar. Não pelo resultado em si, mas pela reação de muitos. Jamais poderia imaginar que o povo brasileiro fosse capaz de tão grande demonstração de xenofobia. Entre as propostas ventiladas durante os ânimos alterados, o Coronel Paulo Telhada, vereador do PSDB por São Paulo, propôs que o Sul e o Sudeste se separassem do resto do Brasil, inclusive do Rio e de Minas Gerais, pois teriam contribuído decisivamente pela reeleição de Dilma Rousseff.  

O delegado Romeu Tuma Júnior, desafeto do PT, propôs que se construísse um muro que separasse o Brasil do Norte e do Nordeste, do país do Sul e do Sudeste. Vindo deles, eu até relevaria. Mas o que mais me causou estranheza foi ver manifestações semelhantes por parte da população, incluindo, muitos cristãos. Alguns chegaram a referir-se aos nordestinos como porcos e burros. E eu que sempre acreditei que o Brasil fosse um país livre deste tipo de preconceito. Até admitia algumas ocorrências pontuais, mas nunca poderia supor que a coisa alcançasse este patamar. Li gente que disse que 48% dos que trabalham terão que carregar nas costas os 51% dos vagabundos e preguiçosos do nordeste. Que lástima! Outra comentou que os nordestinos vêm para o Sudeste só para sujar nossas cidades. Argumentei com ela que sujeira é o que fazemos em suas praias paradisíacas quando passamos nossas férias lá. Ela em respondeu que era educada e prezava pelo meio-ambiente e que, portanto, jamais faria algo assim. Respondi-lhe que se ela é exceção, temos que considerar que haja inúmeras outras exceções, tanto lá, quanto cá. Não se pode generalizar. Resolvi, então, postar uma série de fotos das capitais nordestinas, para mostrar aos meus amigos nas redes sociais o quão próspera e desenvolvida é aquele região. Infelizmente, o povo brasileiro prefere viajar para Miami ou para o Caribe, e, por isso, desconhece seu próprio país. Lembrei-me de um texto que escrevi tempos atrás e que retrata esta nossa mania de construir muros e de como o Filho de Deus transitou por entre eles sem jamais respeitá-los. Ei-lo abaixo. Leia-o e se achá-lo edificante, envie-o para seus contatos. 
***

Gosto de observar a ordem em que os acontecimentos são relatados nos Evangelhos. Creio que desperdiçamos muitas mensagens quando nos atemos apenas aos acontecimentos em si, e não enxergamos suas entrelinhas. Deus Se revela nos flagrantes contrastes dessas passagens!

Lucas nos descortina um episódio em que Jesus Se dirige à Jericó (Lc.18:35-43). Antes de entrar na cidade, Ele Se depara com um cego “assentado à beira do caminho, mendigando”, cujo nome é Bartimeu [1]. Depois de clamar insistentemente pela misericórdia do Filho de Davi, Jesus manda chamá-lo e restitui sua visão. Bartimeu, um homem marginalizado, um excluído da sociedade de Jericó, é a primeira pessoa a quem Jesus direciona Sua atenção.

Mas ao atravessar os muros da cidade, Jesus Se depara com outro homem, pertencente à elite de Jericó. Enquanto Bartimeu vivia do lado de fora da cidade, Zaqueu, o chefe dos coletores de impostos, vivia luxuosamente na parte mais requintada de Jericó. Ambos eram cegos. Bartimeu sofria de cegueira física, enquanto Zaqueu de cegueira espiritual. Ambos deviam sua condição social à ganância. Um era vítima, o outro o algoz. Talvez jamais houvessem prestado atenção um ao outro, e sequer sabiam de sua existência. Porém ambos queriam muito ver Jesus. Lucas diz que  Zaqueu “procurava ver quem era Jesus, mas não podia” (Lc.19:3). Não por causa de alguma deficiência visual, mas porque era nanico. A fim de avistá-lO no meio da multidão, Zaqueu tratou de escalar uma árvore, meter-se entre sua folhagem, e ali, discretamente, sem almejar qualquer atenção, esperou até que Jesus passasse. Veja a diferença gritante entre Bartimeu e Zaqueu. Não apenas diferença social, ou cultural, mas também comportamental. Bartimeu queria a atenção de Cristo, e por isso não poupou sua voz. Esguelou-se ao ponto dos discípulos rogarem que se calasse. Já Zaqueu preferia a discrição, a camuflagem de uma árvore, a preservação de sua imagem pública. De lá, ele podia ver sem ser notado, espiar sem se expor, numa espécie de voyeurismo desprovido de culpa. Afinal, um homem importante como ele não podia correr este risco. Mas para a sua suspresa, Jesus não hesita em mirar por entre as folhas da árvore e dizer: Desce depressa, Zaqueu! Hoje vou me hospedar em sua casa.

O que desejo ressaltar aqui é que Jesus não se importou com qualquer convenção social. Ele simplesmente ignorou o muro que separava aquelas duas classes sociais. Ele deu atenção tanto ao que vivia de esmolas, quanto ao que vivia de explorar seus semelhantes. Entretanto, devemos realçar que primeiro Ele voltou Sua atenção para o explorado, e só depois para o explorador. Sua prioridade sempre foi os oprimidos, os marginalizados, os excluídos, aqueles que ficam "à beira do caminho". Porém jamais deixou de atender também ao opressor, acolhendo-o e convidando-o ao arrependimento. Bartimeu e Zaqueu são subprodutos de uma sociedade injusta, engrenagens da mesma máquina social. Uns com tanto, outros com tão pouco. Uns clamando por misericórdia, outros por privacidade. Uns sem ver, outros sem querer ser vistos. Uns se valendo a compaixão alheia, outros se valendo da ignorância das massas.

Mas há algo mais que não podemos deixar passar despercebido. Que cidade era aquela? Jericó. Isso te lembra alguma coisa? Trata-se da mesma Jericó, cujos muros foram derrubados por Deus na ocasião em que o povo de Israel, liderado por Josué, marchou por sete dias ao seu redor.

Ora, se Deus derrubou aquele muro, o que é que ele fazia de pé, dois mil anos depois?

Foi durante o reinado do perverso Acabe, que Jericó foi reconstruída. Os créditos por esta “façanha” entraram na conta de um tal Hiel, o betelita, que pagou um alto preço pela sua ousadia.
“Em seus dias Hiel, o betelita, reconstruiu a Jericó. Pelo preço de Abirão, seu primogênito, lançou-lhe os fundamentos e pelo preço de seu último filho, Segube, assentou-lhe as suas portas, conforme a palavra do Senhor, falada por intermédio de Josué, filho de Num” (1 Reis 16:34).
Aquela muralha representava a divisão dos povos. Pra isso servem os muros. Sejam muros de concreto, como os que estão sendo erguidos ao redor de algumas favelas cariocas, ou sejam muros ideológicos, religiosos, sociais, nacionalistas, etc.

Tão logo os muros de Jericó vieram a baixo, Josué, pelo Espírito de Deus, pronunciou uma maldição:
“Maldito diante do Senhor seja o homem que se levantar e reedificar esta cidade de Jericó: Com a perda do seu primogênito a fundará, e com a perda do seu filho mais novo lhe colocará as portas” (Js.6:26).
Séculos depois, com a chancela de Acabe, Hiel pôs a mão na massa, e reconstruiu Jericó. Conforme a palavra de Josué, Hiel perdeu seu primogênito assim que lançou os fundamentos da cidade, e perdeu seu caçula quando assentou suas portas.

Agora, Jesus, o Unigênito de Deus, resolve dirigir-Se àquela cidade cujos muros não deveriam jamais ser reconstruídos. Ao atender Bartimeu do lado de fora dos muros, e Zaqueu do lado de dentro, Jesus parece indicar que simplesmente ignora a nefasta obra creditada a Hiel. Para Jesus, aqueles muros não existem.

O Unigênito de Deus não reconhece qualquer separação entre os homens. Ele transita livremente entre todas as camadas. As fronteiras não passam de constructos humanos e políticos.

Talvez alguém diga que Deus pegou pesado com Hiel, ceifando a vida de seu primogênito e de seu caçula, só porque se atreveu a reconstruir as muralhas. Quem pensa assim não parou pra considerar o custo envolvido na demolição dos muros que separavam os homens de Deus e uns dos outros. Reconstruir aqueles muros custou a vida do primogênito e do caçula de Hiel. Mas derrubar os muros que nos separavam de Deus e de nossos semelhantes custou a vida do Unigênito de Deus.

Veja o que Paulo diz sobre isso:
“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um, e destruiu a parede de separação, a barreira de inimizade que estava no meio, desfazendo na sua carne a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um só corpo, matando com ela a inimizade” (Ef. 2: 13-16).
Resumindo: pela cruz de Cristo, todos os muros ruíram. Jericó representa uma sociedade construída sobre o preconceito racial, social, religioso, sexual, cultural. Compete aos cristãos como expressão do Corpo de Cristo transitar livremente entre os povos, ignorando qualquer que seja o muro que os separe. Em Cristo a humanidade foi reunificada. “Desta forma”, conclui Paulo, “não há judeu nem grego (acabou a distinção nacionalista e cultural), nem servo nem livre (distinção social), não há macho nem fêmea (distinção sexista), pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl.3:28). A Igreja é, por assim dizer, a nova sociedade humana em estado embrionário.

O problema é que em vez de investir pesado neste revolucionário e subversivo conceito, a igreja preferiu alienar-se da sociedade e investir seu tempo e recursos na construção de novos muros, e na reconstrução dos que já foram derrubados.

Serve-nos como advertência as sábias palavras do apóstolo dos gentios: “Se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor” (Gl. 2:18).

Cristo continua a fazer pouco caso dos muros que reconstruímos. Porém, não deixará impune aquele que se atrever a reconstruir o que Lhe custou tão caro destruir.

Não temos o direito de costurar o véu do templo! Mas é isso que fazemos quando objetivamos levantar igrejas que se ocupem exclusivamente com certas camadas sociais. Reconstruímos muros quando erguemos bandeiras e nos entrincheiramos contra qualquer seguimento da sociedade. Quando dividimos uma igreja por não aceitar nos submeter à autoridade que nos constituiu. Quando categorizamos os crentes em “primeira classe” (os que falam em línguas, ou os que vão ao “encontro”, ou participam das células, etc.) e os da “classe econômica” (que chamamos de “nominais”, por não participarem ativamente em nossos programas). Quando nos vemos no direito de dizer quem vai ou não para o céu. Quando privilegiamos uma nacionalidade (por exemplo, Israel), enquanto menosprezamos outra (exemplo: os palestinos). Quando contamos piadinhas envolvendo a diferença racial. Enfim, não falta material disponível para reconstruirmos o que Deus destruiu com Seu Cetro de Justiça.

Trabalhemos, não na reconstrução de velhos muros, mas na edificação de uma nova sociedade, cujo fundamento seja o amor revelado em Cristo Jesus. Amor que acolheu prostitutas no passado, e que pode acolher homossexuais hoje (ainda que não endossemos qualquer tipo de promiscuidade, inclusive a praticada por heterossexuais). Amor que acolheu os excluídos de então, e continua a fazê-lo hoje. Que une oprimidos e opressores de um mesmo lado, jogando por terra aquilo que os separava, reconciliando as classes sociais sob a égide da justiça, da verdade e do amor. Afinal, quem ama Bartimeu, também ama Zaqueu. E o desejo de Cristo é que se reencontrem numa Jericó sem muros, sem capas que sirvam para esmolar, ou árvores que sirvam para camuflar.

E não digam que pareço estar em cima do muro em se tratando de alguns temas polêmicos. Não! Absolutamente. Pelo simples fato de não haver mais muro. Sou pela verdade, seguida em amor.

sábado, outubro 25, 2014

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Não confunda voto com veto



Por Hermes C. Fernandes

Amanhã, dia 26 de Outubro, mais de cento e quarenta milhões de brasileiros são esperados nas urnas para eleger quem conduzirá o Brasil pelos próximos quatro anos.

Durante o primeiro turno, procurei manter-me totalmente isento. Só depois do pleito, expus publicamente minha preferência por Marina Silva, candidata derrotada pelo rolo compressor do PT e do PSDB.

Apesar de manter-me isento durante a campanha do segundo turno, tenho dirigido a maior parte de minhas críticas ao candidato Aécio Neves, o que, por sinal, tem me rendido a acusação de ser um petista enrustido. Os que assim dizem, alegam que para ser realmente neutro eu deveria me calar ou, pelo menos, dirigir o mesmo número de críticas a ambos os candidatos. Resultado: perdi alguns "amigos" nas redes sociais. Alguns até confessaram que me admiravam, mas que estavam decepcionados comigo.

Realmente é uma pena que deixemos nossas paixões ou preferências políticas interferirem em nossa comunhão com os irmãos. Não deveria ser assim. A política passa, mas nossa comunhão está fadada à eternidade. Não vou deixar de admirar Caio Fábio, por exemplo, por achar que ele esteja cometendo um equívoco em fazer campanha para Aécio e ainda por cima, fazer hang out com Olavo de Carvalho e Danilo Gentille. Devo me esforçar para não misturar as estações. Entre os discípulos de Jesus havia gente comprometida ideologicamente com segmentos distintos. Havia fariseus, publicanos (arquiinimigos!), e, pasmem, até zelotes (a ala mais esquerdista da época). Porém, isso não interferiu em sua comunhão entre si e com o Cristo, e tampouco impediu que Jesus tecesse as mais severas críticas aos fariseus. Será que Jesus estava sendo parcial? Será que, no fundo, Ele era pró-saduceus? Ou quem sabe, pró-essênios ou pró-zelotes?

Sei que minha posição é um pouco incômoda pois dirijo minhas críticas àqueles de quem mais divirjo, mas isso não significa que perderei o respeito, o carinho e a confiança por quem pense diferente de mim. Não julgo os eleitores de Aécio como se fossem idiotas alienados, nem os eleitores de Dilma como se fossem párias analfabetos. Quem vota neles, certamente tem boas razões para isso.

Se fosse levar para o campo pessoal, eu certamente estaria me ocupando em criticar muito mais a Dilma do que o Aécio. Devo a ela o fato de minha mudança estar presa a quase quatro anos no Porto de Paranaguá. Paguei todas as taxas. Fiz todos os documentos. Mas, por causa de uma operação decretada pela presidente, o contêiner vindo dos EUA ficou preso. Não será por isso que vou detoná-la aqui ou nas redes sociais. Minhas críticas a Aécio se devem a tudo o que ele e seu partido representam para o país. Estou muito mais preocupado com os pobres e miseráveis do meu país do que com minhas tralhas. 

Tenho ouvido e lido que muitos votarão no Aécio para tirar o PT do poder, mesmo não acreditando nas boas intenções do neto do Tancredo. Mesmo fazendo tanta oposição ao PSDB, nego-me a votar no PT somente para vetar o Aécio. Mesmo vendo nele todas as vicissitudes que deveriam ser evitadas por quem almeja servir à nação. E sinceramente, mesmo não votando na Dilma, torço para que ele não chegue ao Planalto. Permaneço exatamente onde sempre estive. Para mim, voto não é veto. Se ao menos a Dilma reunisse as virtudes que gostaria de encontrar num estadista, votaria nela sem pestanejar.

Só sinto ter perdido amigos por causa disso. Espero que ao lerem estas linhas, possam rever suas posturas, buscando manter a unidade no Espírito, pois a mesma custou o sangue de Cristo derramado no Calvário e não deve ser rompida por causa de uma opinião política.

sexta-feira, outubro 24, 2014

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Um Deus Miserável ou Deus dos Miseráveis?

quinta-feira, outubro 23, 2014

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Com o futuro não se brinca! Vote com seriedade



Por Hermes C. Fernandes

Mais uma eleição se avizinha e duas opiniões antagônicas e radicais têm sido adotadas por muitos cristãos. Dois extremos que precisam ser evitados para que a igreja não caia no fosso entre a alienação e o comprometimento.

De um lado estão os que se envolvem no processo, apoiando candidatos indicados pela liderança da igreja. Qualquer que ouse questionar é reputado por rebelde.

Do outro lado estão os que defendem o distanciamento da igreja do processo político eleitoral.

Há que se buscar o ponto de equilíbrio. A igreja, enquanto instituição, deve manter-se isenta, permitindo que seus membros exerçam cabalmente sua cidadania. Porém isso não lhe tira a responsabilidade de orientá-los quanto ao uso consciente do direito de votar.

Não confundamos isenção com alienação, nem engajamento com comprometimento.

Uma igreja pode engajar-se no processo de conscientização, desempenhando o papel de agente politizador. Mas jamais deve comprometer-se com qualquer que seja a ideologia, partido ou candidatura, sob pena do prejuízo de seu papel profético.

Cada membro deve ser estimulado a pensar por si mesmo, e fazer suas próprias escolhas. Portanto, a função da igreja é pedagógica, não ideológica.

A despeito disso, um número cada vez mais expressivo de cristãos tem se engajado em campanhas políticas. Uns até movidos por ideais (ainda que ingenuamente), outros por interesses pessoais.

Aproveitando-se disso, candidatos ávidos pelos votos dos fiéis assediam sistematicamente as igrejas durante a época de eleições.

O que para alguns líderes pode ser traduzido como provisão de Deus em tempo de crise, para outros menos ingênuos, tal assédio revela o caráter oportunista e desonesto de nossa classe política, e por isso, deve ser rechaçado.

Para fazer a ponte entre pastores e políticos surge a figura do pulpiteiro, geralmente alguém pertencente ao meio evangélico ou egresso dele, e que domina o evangeliquês. Num País de 46 milhões de evangélicos, o pulpiteiro pode pesar mais para uma candidatura do que o marketeiro profissional.

Mesmo alguns líderes tidos como referência ética no meio, acabam cedendo ao assédio do pulpiteiro. A lógica é simples: se a maioria se beneficia disso, por que ficar de fora? Que mal haveria em aceitar uma oferta generosa para apoiar publicamente um candidato?

Ademais, parece mais simples (e conveniente) apontar um candidato, do que ensinar o povo a votar com consciência.

Não é debalde que durante esta época muitas igrejas concluem suas obras, adquirem equipamento novo de som, ou aquela tão sonhada propriedade para a construção do novo templo. É também nesta época que muitos líderes eclesiásticos desfilam de carro novo, ou anunciam à igreja que depois de tanto tempo de trabalho ininterruptos, finalmente sairá em férias com a família logo após os festejos de fim de ano.

O que está em jogo, afinal?

Não é apenas a postura ética que escorre pelo ralo da conveniência. Um candidato capaz de oferecer propina (este é o nome correto) em troca de votos, do que será capaz depois de eleito?

E mais: de onde ele consegue tanto dinheiro para bancar esta compra de votos no atacado? Que grupos estariam por trás de sua candidatura? Que interesses têm?

Portanto, líderes que se rendem (ou se vendem) às propostas destes políticos estão cometendo traição. Traem seu povo, sua consciência, seus votos ministeriais, e o pior, seu Deus.

Deveriam ler atentamente a advertência proferida pelos lábios do profeta Isaías:
“Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes. Não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas.” Isaías 1:23
Está na hora de darmos um basta nesta famigerada prática. Púlpito não é palanque, e igreja não é curral eleitoral, mas aprisco das ovelhas de Cristo.

Pastores, preparem-se para prestar contas ao dono da Igreja. Deus não os terá por inocentes. Portanto, “apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente, não por torpe ganância, mas de boa vontade, não como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando se manifestar o sumo Pastor, recebereis a imarcescível coroa de glória” (1 Pe. 5:2-4).

Embora reconheçamos a postura antiética e vexatória de muitos líderes no que tange à política, não podemos nos afastar do processo político, mas nos engajar no afã de produzir entre as ovelhas de Cristo uma consciência política sadia e honrosa.

Cidadania celestial e cidadania terrena não são necessariamente excludentes. Como cristãos comprometidos com o futuro da humanidade, precisamos encarnar os valores e princípios do reino de Deus e expressá-los através de nossa conduta no processo político/eleitoral.

Movido exclusivamente por este interesse, resolvemos assumir a responsabilidade pela produção de uma pequena cartilha para os cristãos. Chamamo-la de Cartilha Reinista pelo Voto Consciente, pois não está vinculado a qualquer denominação, e sim aos ideais do Reino de Deus e a sua justiça.


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