quinta-feira, agosto 25, 2016

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Combatendo a raiz do desespero humano





"Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. 
E aventurar-se no sentido mais elevado é precisamente tomar consciência de si próprio." Soren Kierkegaard


Por Hermes C. Fernandes

Eis a genealogia do desespero humano: a morte gera o medo, o medo gera a ansiedade, e a ansiedade gera a depressão. Ao nos convertemos a Cristo, o pavor da morte é neutralizado, e a ansiedade fica órfã. E mesmo em sua orfandade, ela ainda é forte o bastante para gerar a depressão.

Como lidar com a ansiedade? Como livrar-se da inquietação da alma? O mesmo antídoto usado contra o medo da morte deve ser usado para tratar da ansiedade: o Amor.

Quando nos sentimos amados por Deus, sabemos que somos importantes para Ele. Deus Se importa com aqueles a quem ama. Foi para isso que Jesus chamou a atenção dos Seus discípulos: “Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu; não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, e, contudo, o vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? Qual de vós poderá, com as suas preocupações, acrescentar uma única hora ao curso da sua vida? Quanto ao vestuário, por que andais ansiosos? Observai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam. Eu, porém, vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vestirá muito mais a vós, homens de pequena fé? Portanto, não andeis ansiosos, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Pois os gentios procuram todas estas coisas. De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas elas. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não andeis ansiosos pelo dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal”.[1]

A ansiedade faz com que invertamos nossas prioridades. Passamos a atribuir maior valor àquilo que não tem tanto valor. Fazemos do meio, um fim em si mesmo. O alimento passa a ser mais importante do que a vida. A roupa tem mais valor do que o corpo. O sexo se torna mais importante do que o companheirismo. O salário mais importante do que a vocação profissional. E assim por diante.

Cristo nos conclama a observar o mundo à nossa volta, percebendo os cuidados que Ele dispensa à criação. Ele cuida dos pássaros, dos animais selvagens, dos insetos, dos peixes, e até das minúsculas bactérias. Se o homem é a coroa da criação, como Deus não Se importaria com ele?

Cristo nos convida a descansar em Seu Amor providencial. Não há nada a temer. O amanhã pertence a Ele. Pra quê sofrer por antecipação? Enquanto nos preocupamos em demasia com o futuro, deixamos de viver o dia chamado “Hoje”.

Atribui-se a John Lenon a seguinte frase: “A vida é o que se passa, enquanto nos ocupamos com outras coisas”. Quando enxergamos a vida com as lentes do amor, deixamos de priorizar nossas próprias necessidades, para priorizar o Reino de Deus e a sua justiça.

Quando descansamos nos cuidados d'Ele, nosso sono é tranqüilo e reparador. Mesmo quando fugia de seu filho Absalão, que intentava matá-lo, Davi foi capaz de declarar: “Eu me deito e durmo; acordo, porque o Senhor me sustenta”[2]. Em outro Salmo, ele diz: “Em paz me deitarei e dormirei, pois só tu, ó Senhor, me fazes habitar em segurança”.[3] O salmista sabia que “aos seus amados, Ele dá enquanto dormem”.[4]

A vida não é como um aparelho de vídeo-cassete, que basta apertar um botão pra fazer avançar o filme, ou um outro pra rebobinar a fita. A ansiedade faz com que percamos a paciência de esperar a conclusão de um processo. Queremos saber o final da história, enquanto ela ainda está em andamento.

Lembremo-nos de que “aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Cristo Jesus”.[5] Deus não abandonará Sua obra, antes que ela seja concluída. E nada, absolutamente nada, é capaz de fazer com que Ele altere Seu cronograma. Pois “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”.[6]

A melhor coisa a se fazer é confiar e descansar. De outra maneira, estaremos provocando o Senhor, e nos rebelando contra Ele. Cabe aqui a exortação do Espírito Santos, encontrada na epístola aos Hebreus:
“Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo. Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama HOJE, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado. Temo-nos tornado participantes de Cristo, se é que guardamos firme até o fim a confiança que desde o princípio tivemos. Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, com na provocação (...) Procuremos, portanto, entrar naquele descanso, para ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência”.[7]
Não há alternativa! Temos que confiar no amor e no zelo de Deus por Seu povo. Se deixarmos de confiar, estaremos desperdiçando o dia chamado “Hoje”, em favor de um amanhã incerto. Ele é responsável por nossa vida, e por todos os nossos amanhãs.

Nas palavras de Pedro, devemos lançar sobre Ele toda a nossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de nós.[8] E como podemos lançar sobre Ele nossa ansiedade? Vejamos a recomendação de Paulo:
“Não andeis ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e pela súplica, com ações de graças, sejam as vossas petições conhecidas diante de Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus”.[9]
A oração é o mecanismo através do qual nos livramos da ansiedade. Nossa confiança em Deus precisa ser verbalizada. Orando, externamos nossas inquietações. A oração não visa mudar Deus, e sim, mudar a maneira como vemos a vida. Os planos de Deus não são alterados quando oramos. Quem precisa ser transformado somos nós, e não Deus.

Orar é verbalizar. Suplicar é recorrer à misericórdia de Deus. Tudo isso precisa ser acompanhado de ações de graças. Não devemos deixar pra agradecer depois de recebermos a resposta de nossas orações. Se não formos capazes de agradecer, enquanto pedimos, sairemos da oração ainda tomados pela ansiedade. Será que Deus me ouviu? Será que Ele me responderá? São questões inquietantes, e que atentam contra a fé. Não podemos duvidar dos cuidados de Deus. Aquilo que pedimos está nos planos de Deus. Ele decidiu lhe abençoar, me antes de você nascer. Entretanto, para que isso redundasse em ações de graças, Ele decidiu que lhe abençoaria em resposta às suas orações. As ações de graças validam nossas orações. A oração com ações de graças é a válvula pela qual somos livres das pressões e inquietações da vida.

Diante do túmulo de Lázaro, antes mesmo de ordenar que ele voltasse à vida, Jesus orou: “Pai, graças te dou porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves”.[10] Este é o padrão de uma oração que nos livra das inquietações e angústias diante da morte e da vida.

Não basta declarar nosso amor a Deus. Devemos afirmar o quanto nos sentimos amados por Ele, e isso, o fazemos através de ações de graças.

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[1] Mateus 6:25-34[2] Salmo 3:5[3] Salmo 4:8[4] Salmo 127:2b[5] Filipenses 1:6b[6] Eclesiastes 3:1[7] Hebreus 3:12-15, 4:11[8] 1 Pedro 5:7[9] Colossenses 4:6-7[10] João 11:41b-42a

terça-feira, agosto 23, 2016

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A dança como instrumento de sedução e alienação



Por Hermes C. Fernandes

Nos dois textos anteriores defendemos a dança como expressão de louvor e interação social. Demonstramos através de diversas passagens bíblicas que nada há que desabone sua prática. Entretanto, não podemos ignorar o estado pecaminoso em que se encontra a humanidade, corrompendo tudo à sua volta. Somos uma espécie de rei Midas ao inverso [1], tudo o que tocamos se deteriora, perdendo seu valor original.  Nenhuma manifestação cultural está imune à contaminação do pecado, e isso, naturalmente, inclui a dança.

A mesma faca usada para fatiar um pão pode ser usada para cometer um homicídio. Isso não a torna intrinsecamente má. Assim se dá com relação à dança e qualquer outra manifestação cultural. Cabe aqui a argumentação de Paulo de que “todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados” (Tt. 1:15).

Temos exemplos bíblicos de como a dança pode ser mal utilizada em propósitos funestos e destrutivos. Por exemplo, no episódio em que a enteada de Herodes, orientada por sua própria mãe, o seduz com sua dança sensual, a ponto do rei babão dizer: “Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino” (Mc. 6:23). Aliás, esta é uma das raras vezes em que encontramos nas páginas das Escrituras um exemplo de dança performática. Nas demais vezes, a dança é apenas uma manifestação espontânea de alegria de um povo. Isso, de maneira alguma, desabona as danças performáticas como, por exemplo, o ballet clássico ou o street dance. O problema não está na performance em si, mas no propósito por trás dela. 

A filha de Herodias sabia o potencial sedutor de seus movimentos corporais. Provavelmente estava vestindo roupas sumárias, provocando a imaginação do rei. No final das contas, o rei perdeu a cabeça em seus devaneios, enquanto o maior dos profetas perdeu-a literalmente numa bandeja de prata.

Quantos chefes de família têm perdido a cabeça em boates de strip-tease! Quantas meninas estão se perdendo nas mãos desta famigerada indústria de entretenimento! Menores são aliciadas. Mulheres contrabandeadas pelo mundo afora. Tudo para o aprazimento de homens desprovidos de qualquer escrúpulo.

O cristão que aprecia a dança artística deve cuidar para que seu corpo não se torne num instrumento de sedução barata, lembrando sempre que ele é templo do Espírito Santo (1 Co.6:19).  Nosso lema deve ser “não pecar e não fazer ninguém pecar”. Somos carne e, portanto, vulneráveis ao assédio de nossos apetites carnais. Então, para quê cutucar a onça com vara curta?

Quem está envolvido com dança, quer seja na igreja ou como profissional, deve pautar pelo equilíbrio, evitando a vulgarização de algo tão precioso. 

A sensualidade também não é algo ruim em si mesmo. Todos temos uma medida de sensualidade. O que precisa ser evitado é a vulgarização. Não vejo qualquer erro numa mulher seduzir seu marido com uma dança provocativa. Aos olhos de Deus eles são uma só carne. Um relacionamento conjugal desprovido do elemento sedução está fadado ao naufrágio. O próprio intercurso sexual tem seu ritmo e movimento, análogo à dança. Errado seria usar seu poder de sedução para arrancar do outro o que quiser, como fez a enteada de Herodes.

O outro exemplo de dança performática encontrado nas Escrituras é a protagonizada por Sansão no templo de Dagom. O texto diz que os filisteus que o haviam prendido estavam tão eufóricos que exclamaram: “Mandai vir Sansão para nos divertir! Tiraram-no da prisão, e Sansão teve que dançar diante deles. Tendo sido colocado entre as colunas” (Jz. 16:25). Lemos ainda que “o templo estava repleto de homens e mulheres, e estavam ali todos os príncipes dos filisteus; havia cerca de três mil pessoas, homens e mulheres, que do teto olhavam o prisioneiro dançar” (v.27).

Todos se divertiam à custa de Sansão até que este faz um pedido inusitado ao seu Deus. Com as forças devolvidas, Sansão derruba as colunas do templo, matando de uma vez maior número de inimigos do que durante toda a sua trajetória.

Definitivamente aquele não era o lugar de Sansão. Seus cabelos haviam sido raspados, seus olhos vazados, sua honra ultrajada. Suas energias agora eram despendidas no trabalho forçada no moinho de Dagom. Como se não bastasse, o herói dos hebreus se transformara no bobo da corte.

O que estava sendo celebrado ali? A suposta vitória de Dagom, divindade filisteia sobre Iavé, Deus dos hebreus. 

Não é por gostarmos de dançar que devemos frequentar certos lugares, onde o que se celebra é contrário a tudo em que cremos.  Como um cristão poderia participar de um desfile de escola de samba que estivesse promovendo o culto a outras divindades? Ainda que respeitemos a religiosidade alheia, não devemos violar nossa consciência. Nosso culto é direcionado exclusivamente ao Deus revelado em Jesus Cristo. Como um cristão se sentiria dentro de um baile funk onde os valores morais são pisoteados e o sexo é cultuado como se fosse um deus? Se somos habitados pelo Espírito Santo, sentiremos um enorme desconforto por estarmos sendo cúmplices das obras infrutuosas das trevas (Ef.5:11).

O povo de Israel achou que Moisés já estava morto depois de uma ausência de quarenta dias no monte. Pressionando Arão, fizeram um bezerro de ouro e festejaram-no como se fosse o deus que os tirara do Egito. Quando Moisés vinha descendo, encontrou-se com Josué que o esperava no pé da montanha, e disse: "Há gritos de guerra no acampamento!" "Não, respondeu Moisés, não são gritos de vitória, nem gritos de derrota: o que ouço são cantos." Aproximando-se do acampamento, viu o bezerro e as danças. Sua cólera se inflamou, arrojou de suas mãos as tábuas e quebrou-as ao pé da montanha. Em seguida, tomando o bezerro que tinham feito, queimou-o e esmagou-o até reduzi-lo a pó, que lançou na água e a deu de beber aos israelitas” (Êx. 32:17-20).

Suponho que muitos dos que ali dançavam em torno do bezerro não tinham a menor ideia do que estivesse acontecendo. Eram “Maria vai com as outras”. Apenas se deixaram embalar pela música e começaram a dançar alheios aos fatos. Que decepção para Moisés! Depois de tudo o que aquela gente assistira, como a abertura do Mar Vermelho e as pragas no Egito, bastaram alguns acordes para que se esquecessem de tudo e celebrassem perante o deus errado.

A música e a dança têm potencial entorpecente, capaz de fazer com que o cérebro produza efeitos semelhantes aos das drogas. Neste estado de consciência as pessoas podem fazer coisas de que se arrependerão pelo resto de suas vidas.

Preciso salientar que o problema não é a comida, mas a glutonaria. Nem a bebida, mas o alcoolismo. Nem o sono, mas a preguiça. Nem o sexo, mas a promiscuidade. Assim também, o problema não é a dança, mas seu uso desprovido de senso crítico.


* Caso não tenha lido os dois posts anteriores, recomendo que o faça para uma compreensão mais abrangente do tema. 




[1] Midas é um personagem da mitologia grega que transformava em ouro tudo o que tocava.

segunda-feira, agosto 22, 2016

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O cristão pode dançar em ocasiões festivas?


dança como instrumento de interação social


Por Hermes C. Fernandes

“Mas, a quem assemelharei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.” Mateus 11:16-17

Supondo que a questão da dança como expressão de louvor esteja superada, passemos adiante e reflitamos sobre a dança em seu aspecto social. Haveria alguma base bíblica que respaldasse o boicote dos cristãos à dança? Seria errado que um pai de família dançasse a valsa na celebração dos quinze anos de sua filhinha? Ocasiões como casamentos, aniversários e formaturas não poderiam ser festejadas com danças? O marido que num rompante romântico tirasse a esposa para dançar estaria cometendo algum sacrilégio? Sugiro que deixemos de lado nossos preconceitos e investiguemos o que dizem as Escrituras sobre isso. O sábio Salomão salienta que “tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar (Ecl.3:1-4).

Certamente que ele não estava referindo-se à dança litúrgica, mas a celebração que fosse o contraponto do pranto e do luto.  Se num funeral, pranteava-se, num casamento era comum que os convivas acompanhassem os nubentes na dança.  No Israel dos tempos bíblicos, não havia bodas sem baile. Seria como um casamento sem bolo em nossos dias.  Duvido muito que o próprio Jesus não tenha dançando durante as bodas de Caná da Galileia. Teria sido uma desfeita, pra não dizer uma afronta.


Muitos cristãos preferem não frequentar festas porque se sentem deslocados quando a turma começa a dançar. Uns, simplesmente se levantam, e saem à francesa. Outros se sentem afrontados por acharem que sua presença deveria impor algum respeito.  Ora, se somos orientados a “chorar com os que choram e alegrar-nos com os que se alegram”, logo, deveríamos, no mínimo, sentir-nos contentes de vê-los celebrar.  Jamais deveríamos portar-nos como “estraga-prazeres”.

Lemos em Juízes 21 que a tribo de Benjamim se via ameaçada de extinção e que, por isso, seus homens foram a uma espécie de baile à procura de moças para se casarem.  “Quando as moças estavam dançando, cada homem tomou uma para fazer dela sua mulher. Depois voltaram para a sua herança, reconstruíram as cidades e se estabeleceram nelas” (Juízes 21:23). Aquela tribo foi salva por um baile.

É claro que não estamos aqui fazendo apologia aos bailes onde prevalece a imoralidade. A própria igreja ou as famílias poderiam promover celebrações onde os jovens pudessem se alegrar e bailar de maneira decente, saudável e divertida. Quantos anciãos poderiam aproveitar um baile da terceira idade para fazer amigos e até encontrar alguém com quem pudessem compartilhar o restante de sua vida!

Além de espirituais, também somos seres sociais.

Também não estou defendendo que se façam bailes como estratégia evangelística, mas como celebrações legítimas para o próprio povo de Deus, onde possamos dar boas gargalhadas, brincar entre amigos, cantar, dançar e festejar sem nos preocupar com críticas dos que se consideram super-espirituais.

A ausência de dança representava juízo de Deus sobre o Seu povo

Na Antiga Aliança, a falta de dança era resultado do juízo de Deus sobre o Seu povo.

“Cessou a alegria de nosso coração”, desabafa Jeremias,  “converteu-se em lamentação a nossa dança” (Lm. 5:15). Se o coração de Deus não estava alegre, isso acabava refletindo na vida social do Seu povo. Cria-se que a alegria do Senhor era força do Seu povo. Se Deus estava satisfeito, logo, todos festejavam. 

A propósito, o Deus que se revelou aos patriarcas e profetas é um Deus festeiro. Não foi à toa que Ele estabeleceu quatro festas anuais em Israel, e todas elas regadas a muita dança.  Ora, se a ausência de dança indicava juízo, sua volta marcava a restauração da alegria do povo.

O mesmo profeta prediz:
“Então as moças dançarão de alegria, como também os jovens e os velhos. Transformarei o lamento deles em júbilo; eu lhes darei consolo e alegria em vez de tristeza.” Jeremias 31:13
O salmista também testifica: “Mudaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste de alegria” (Sl. 30:11). Restauração é a palavra-chave. Onde quer que ela ocorra, sobram motivos para festejar.

Foi o que aconteceu no retorno do filho pródigo. Aquele momento precisava ser celebrado. Por isso, o pai mandou anunciar que naquela noite haveria baile na fazenda.  Não era um culto, mas um baile. Porém, aos ouvidos de Deus aquele baile soaria como um autêntico culto de ação de graça. Enquanto todos se divertiam, o filho mais velho que passara o dia no campo trabalhando chegou perto de casa, e “ouviu a música e as danças” (Lc. 15:25). Aquela foi a gota d’água. Ofendido, ele recusou-se a entrar na festa. Foi preciso que o pai saísse ao seu encontro e o convencesse de que aquela era uma ocasião propícia para celebrar. O filho que estava morto havia revivido.

Quantos de nós temos reagido exatamente como o filho mais velho da parábola? Não admitimos que outros celebrem. Questionamos suas motivações. Achamos que a única razão de celebrarmos é o fato de sermos salvos. Ok.  Esta é a mais forte razão, mas não é a única. Por que não festejarmos o nascimento de um filho? Por que não sair pra dançar com a esposa no aniversário de casamento? Por que não tirá-la pra dançar na sala de estar ao som de uma música romântica? Será que o Espírito Santo se sentiria ofendido ao ver um casal abraçado dançando romanticamente? Creio que não. Aborrecido ficaria ao vê-los brigar, discutir, se agredir verbalmente.

Sempre haverá ocasiões especiais para serem celebradas com danças. Lemos que “quando os soldados voltavam para casa, depois de Davi ter matado o filisteu, as mulheres saíram de todas as cidades de Israel ao encontro do rei Saul com cânticos e danças, com tamborins, com músicas alegres e instrumentos de três cordas.” (1 Sm. 18:6). E não eram propriamente louvores a Deus que entoavam.

Há quem pense que só podemos dançar canções que exaltem o nome do Senhor. Porém, há canções que, ainda que não mencionem o nome “Deus”, exaltam valores que nos são caros, tais como família, amizade, amor, etc.

Confesso que não me sentiria confortável dançando com a minha esposa ao som de louvores. A ocasião não é própria para isso. O que não falta é oportunidade de louvar ao meu Deus, e acho que Ele não se sente enciumado quando tiro minha esposa para dançar ao som de uma canção romântica secular. Desde que sua letra não afronte minha fé e meus valores, nada impede que eu a curta ao lado de quem amo.

No próximo post quero abordar o outro lado da moeda, mostrando como a dança tem sido usada como instrumento de sedução e alienação. 

sábado, agosto 20, 2016

15

É legítimo usar a dança como expressão de louvor a Deus?




Por Hermes C. Fernandes

Não é de hoje que a dança é um tabu entre os cristãos de diversas tradições. Há quem a admita apenas como expressão cultural ou de interação social, mas jamais como instrumento de louvor a Deus. E há quem faça o caminho inverso, usando e abusando da dança no ambiente de culto, porém, desprezando-a fora dali.

Pesquisando pela internet encontrei várias advertências quanto ao seu uso pelos cristãos. De acordo com o site Jesus Voltará, a igreja metodista condena a dança, alegando que ela é "prejudicial à vida cristã. O mesmo site afirma que para a igreja congregacional, "a prática da dança por parte dos membros de nossa igreja não condiz com a profissão religiosa, devendo ser tornada objeto de disciplina. A igreja presbiteriana consideraria "a prática de dança por parte dos membros da igreja como pasmosa incoerência", e alerta aos pais que enviarem seus filhos a escolas de dança de estarem cometendo um grave erro na disciplina da família. Para o bispo A. C. Coxe da igreja episcopal, "a dança é lascívia". O mesmo bispo advertiu aos dançadores a não participarem da mesa da comunhão. O bispo Hopkins, também da igreja episcopal, acrescenta: “A dança é responsável pela dissipação de tempo, a condescendência para com a vaidade pessoal e o incitamento prematuro das paixões, e artifício nenhum pode torná-la condizente com o pacto do batismo.” Nem mesmo a igreja católica romana se posicionou favorável à dança. O Concílio Pleno de Baltimore diz:“Consideramos ser nosso dever advertir nosso povo contra os divertimentos que possam facilmente tornar-se para eles ocasião de pecado, contra as modalidades de danças que, como praticadas presentemente, repugnam a todo sentimento de delicadeza e decoro, e se fazem acompanhar dos maiores perigos para a moral.”[1]

Apesar de todos estes posicionamentos contrários à dança, ela nunca esteve tão presente na vida eclesiástica quanto atualmente.  Deixando de lado as opiniões denominacionais, verifiquemos o que dizem as Escrituras acerca desta prática que acompanha a humanidade desde os seus primórdios.

# Dança como expressão de louvor a Deus nas Escrituras

Não faz muito tempo que algumas igrejas resolveram adotar a dança em seus cultos. Porém, no afã de evitar escândalo, principalmente por parte dos mais conservadores, adotou-se a nomenclatura “coreografia” em vez de “dança”.  A princípio, os grupos de coreografia apresentavam perfomances comedidas, com passos e gestos bem sóbrios. 

Com o passar do tempo, alguns grupos aderiram ao mover conhecido como dança profética.  O termo ‘dança’ em conexão com o termo ‘profética’ tornou a prática mais palatável entre os considerados mais espirituais, despindo-a de sua conotação mundana. Segundo os expoentes do movimento, a dança profética teria o objetivo de trazer mensagens à congregação, levando-a a uma adoração mais profunda.  Deste mover, desenvolveu-se a adoração extravagante, em que os participantes expressam seu louvor a Deus com canções e danças improvisadas.

Já entre os pentecostais clássicos surgiu o movimento conhecido como re-te-té, em que as pessoas são tomadas por uma espécie de êxtase, rodopiando ou marchando pelo salão da igreja. Tais manifestações exóticas são consideradas por estes grupos como danças espirituais, embaladas pelo som de pandeiros e corinhos de fogo cujo ritmo e harmonia lembram pontos cantados em terreiros de religiões afro-brasileiras.

Apesar de nossas reservas devido aos abusos cometidos em alguns movimentos, não podemos negar que haja fundamentação bíblica para o uso da dança como expressão de louvor a Deus.

Lemos no relato do Êxodo dos hebreus, que após atravessarem o Mar Vermelho, “Miriã, a profetiza, a irmã de Arão, tomou o tamboril na sua mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças” (Êx. 15:20).

Alguns poderão alegar que Miriã provavelmente estava sob influência cultural egípcia, e que àquela altura o povo de Israel ainda não havia desenvolvido sua própria maneira de cultuar a Deus.  Entretanto, encontramos outro episódio ocorrido vários séculos depois, quando Israel já estava devidamente estabelecido como nação, e o culto a Deus já havia sido normatizado. Trata-se da passagem em que Davi trouxe de volta a Jerusalém a Arca da Aliança. O texto diz que “Davi, vestindo o colete sacerdotal de linho, foi dançando com todas as suas forças perante o Senhor, enquanto ele e todos os israelitas levavam a arca do Senhor ao som de gritos de alegria e de trombetas” (2 Sm. 6:14-15). Censurado por sua própria esposa que o acusou de querer exibir-se perante suas servas, Davi se justificou: foi perante Senhor que dancei; e perante ele ainda hei de dançar” (2 Sm 6:21). Aos que insistem em associar a dança com irreverência, pergunto: Estaria Mical com a razão? Teria Davi cometido algum excesso? 

Não bastassem esses dois casos, encontramos uma orientação clara no livro dos Salmos, que, diga-se de passagem, foi fartamente usado pela igreja primitiva como base do seu culto a Deus:

“Louvai-o com o tamborim e a dança, louvai-o com instrumentos de cordas e com órgãos. Salmos 150:4

A maioria que discorda do uso da dança como elemento de culto alega não haver no Novo Testamento qualquer orientação acerca disso. Porém, sabemos pelo próprio Paulo, que a igreja deveria usar os Salmos em seu culto a Deus. Confira:

“Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração.” Efésios 5:19

Teria Paulo e os demais apóstolos censurado o Salmo 150 que nos orienta a louvar a Deus com danças? Recuso-me a crer nesta possibilidade. Imagine a cena: todos estão declamando este salmo, quando, de repente, alguns começam a dançar. Paulo, então, interrompe a leitura e diz: “Parem com isso agora mesmo! Que irreverência! Vocês podem ler, mas não praticar!” Ora, isso não me parece razoável.

E o que dizer dos Salmos 87 e 149? Também deveriam ser censurados?

“Com danças e cânticos, dirão: "Em Sião estão as nossas origens!” 
Salmos 87:7

“Louvem eles o seu nome com danças; ofereçam-lhe música com tamborim e harpa.” Salmos 149:3

A exigência neotestamentária é que o culto deve ter ordem e decência (1 Co.14:40). Porém isso, de maneira alguma, exclui expressões corporais, desde que não sejam apelativas e sensuais. Ademais, por que numa aliança caracterizada pela liberdade faltaria um elemento como a dança tão apreciada sob a primeira aliança? Seria, no mínimo, um contrassenso acreditar que os que vivem sob a égide da graça seriam privados de um bem tão comum aos que viveram sob o peso da lei.

Que tem havido abuso quanto ao uso da dança no culto, não me atrevo a discordar. Só não vejo razão para jogar fora o bebê junto com a água suja do banho. Basta que eliminemos os exageros para que encontremos um equilíbrio.

Penso que haja lugar tanto para danças ensaiadas (performáticas) como para danças espontâneas e congregacionais.  Tudo dentro de um padrão descente e devidamente ordenado. Sem chocarrices. Sem histeria. Sem êxtases. Apenas corações tomados da alegria do Espírito, desejosos de expressar sua gratidão a Deus. 

Décadas atrás, a igreja debatia se deveria ou não usar instrumentos musicais em seus cultos. Hoje, esta temática parece estar ultrapassada. Tanto órgãos como guitarras elétricas e baterias são facilmente encontrados em igrejas de praticamente todas as denominações. Acredito que o mesmo se dará com o uso de dança nos cultos. 

Os pregadores podem ficar tranquilos que a dança jamais substituirá a pregação da Palavra, nem os louvores congregacionais. Se porventura isso ocorrer, compete ao ministro chamar a atenção de sua congregação para que reencontre o equilíbrio perdido. 

No próximo post abordaremos a dança como expressão cultural e de interação social. É lícito ao cristão praticar ballet, dança de salão, valsa de debutante, etc?



[1] http://www.jesusvoltara.com.br/atuais/dancar_danca.htm

quinta-feira, agosto 18, 2016

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Viagens no tempo e a Bíblia - Para além das suposições



“A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.”
Albert Einstein

Devo admitir minha surpresa com a repercussão do meu post sobre supostas alusões às viagens no tempo nas páginas da Bíblia Sagrada. O que seria apenas um exercício do que chamo de “ficção teológica” provocou reações diversas. Alguns leram-no como se fosse a explanação de uma nova doutrina ou revelação. Por conta disso, resolvi debruçar-me uma vez mais sobre o tema, e confesso que encontrei novos indícios de que o assunto não é estranho às Escrituras. Pus-me a perguntar: e se tais viagens fossem mais do que mera hipótese?

A prudência me levou a tratar os textos bíblicos que mencionei no artigo anterior como indícios, mas os que apresentarei aqui serão tratados como evidências. Nada do que aqui disser confrontará as doutrinas cardinais da fé cristã. Portanto, podem apagar a fogueira inquisitória. Não vai ser desta vez que serei condenado como herege. Então, que tal dar vasão à imaginação uma vez mais?

Para que consideremos a possibilidade de viajar no tempo, teremos que considerar que o futuro já exista e que o passado não deixou de ser. Passado, presente e futuro seriam facetas de uma mesma dimensão, a temporal, assim como altura, largura e profundida são as três dimensões espaciais. Foi Einstein que propôs que o tempo seria a quarta dimensão, desafiando e revolucionando a noção defendida pela física desde Newton. Muito antes físico alemão, Santo Agostinho percebeu a importância do tempo. Dentre suas assertivas, o bispo de Hipona diz que “o mundo não foi feito no tempo, mas sim com o tempo”, atribuindo ao tempo existência real. Apesar de toda sua intuição sobre o tema, Agostinho admite que se ninguém lhe perguntasse sobre o que é o tempo, ele saberia, mas se tivesse que explicá-lo, não saberia fazê-lo.[1]

Eclesiastes não é o único livro a tratar do tempo e de sua fugacidade (Ecl.3). Ouso afirmar que as Escrituras falem muito mais sobre o tema do que geralmente tem sido percebido. Sugiro que recorramos ao mais enigmático livro das Escrituras em busca de indícios da possibilidade de se viajar na malha temporal, tanto para frente, quanto para trás.

Segundo o testemunho de João, apesar de confinado a uma ilha no meio do Mediterrâneo, ele se achou em espírito no dia do Senhor, onde recebeu a ordem para que escrevesse sobre coisas que já haviam se passado, sobre outras que estavam ocorrendo naquele momento e ainda, sobre as que aconteceriam sem seguida.[2] De acordo com algumas traduções, João teria dito: “Eu fui arrebatado em espírito no dia do Senhor”[3]. Sem compreender o poder de Deus para transportar-nos pelo tempo e pelo espaço, muitos intérpretes dizem que a expressão “dia do Senhor” nada mais é do que uma alusão ao domingo, dia em que os crentes primitivos costumavam se reunir para adorar. Todavia, a expressão usada por João é kuriakos hēmera, cujo sentido é “Dia pertencente ao Senhor”. Expressão correlata é encontrada em I Tes. 5:2, I Co. 5:5, At.2:20, I Co. 1:8, II Co. 1:14, II Pe. 3:10. A diferença é que nestas passagens lê-se hēmera kyrius. O sentido é exatamente o mesmo. Enquanto hēmera kyrius poderia ser traduzido como “Dia do Imperador”, kuriakos hēmera seria traduzido como “Dia Imperial”. Porém, todas se referem ao Dia em que Cristo Se manifestará em glória e juízo sobre o mundo. Considerando que este dia esteja no futuro, logo, concluímos que João foi um viajante do tempo. Não sei por que da dificuldade de se entender isso. Ora, se Deus pôde arrebatar a Filipe, transportando-o de um lugar para o outro num piscar de olhos, por que não poderia igualmente arrebatar a João ou a quem quer que fosse de um tempo para o outro? Tempo e espaço são dimensões complementares, dois lados da mesma moeda. Se há a possibilidade de transporte espacial instantâneo (teletransporte), logo, também há devemos considerar a possibilidade de transporte temporal. É evidente que aqui se trata de uma viagem para o futuro. De certo modo, todos estamos viajando na mesma direção, seguindo a seta do passado para o futuro. Porém, João deu um salto do seu presente para o último dia da história. Todavia, ele não ficou por lá, mas voltou para o seu próprio tempo, fazendo o caminho inverso, isto é, uma viagem do futuro para o passado.

Alguns poderão argumentar que tal viagem tenha sido feita no espírito e não corporalmente. A palavra grega “pneuma” traduzida por espírito poderia ser identificada como “coração” ou “consciência”. Esta instância do ser é atemporal, conforme defende a psicanálise. Tal verdade ecoa nas páginas de Eclesiastes, onde lemos: “Tudo fez formoso em seu tempo. Também pôs a eternidade no coração dos homens” (Ec.3:11a). Em outras palavras, a eternidade habita a subjetividade. Penso ser perda de tempo e de recursos tentar construir uma máquina capaz de viajar no tempo. A ciência ainda se dará conta de que a tal máquina do tempo já existe. É item de fábrica com o qual já nascemos: Nossa consciência. Admitidamente, o maior mistério com o qual a ciência tem tido que lidar. Tudo o que sabemos sobre ela é uma mísera pontinha do iceberg.

Minha conclusão é que ser transportado “em espírito” para outro tempo não diminui em nada a importância do fenômeno. Não foi apenas um êxtase, um transe hipnótico ou coisa parecida.

Experiência semelhante é citada por Paulo:

“Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu. E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar.” 2 Coríntios 12:2-4

Alguns teólogos acreditam que o homem de quem Paulo fala seria ele mesmo. Segundo o relato, este homem teria sido arrebatado catorze anos antes. Portanto, foi uma experiência histórica, passível de ser datada. O que Paulo não soube dizer era se teria sido uma experiência corpórea ou extracorpórea. Possivelmente, a sensação era de que todo o seu ser teria sido transportado e não apenas o seu espírito. Para onde ele teria sido transportado? Paulo fala de terceiro céu e o identifica com o paraíso. Logo, a primeira impressão que temos é que foi um transporte espacial, isto é, de um lugar (terra) para outro (céu).

O que seria o terceiro céu? Muitos intérpretes afirmam que o primeiro céu seria a atmosfera terrestre, o segundo céu seria o espaço sideral, e o terceiro céu seria o lugar do trono de Deus.

Sugiro uma leitura alternativa. Em vez de designações espaciais, designações temporais. Em vez de lugares, tempos.

Portanto, o terceiro céu não seria um céu acima dos dois primeiros céus, mas um tempo à frente desses. Tomo por base da minha interpretação um texto muito conhecido da segunda epístola de Pedro, segundo o qual o primeiro céu teria existido desde a criação até o dilúvio (2 Pe.3:5-6). Mais adiante, Pedro se refere aos céus atuais, que identificamos como o segundo céu: “Mas os céus e a terra de agora, pela mesma palavra, têm sido guardados para o fogo...” (2 Pe.3:7-8). Por fim, ele fala do terceiro céu ao referir-se aos “novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça” (2 Pe.3:13). É digno de nota que Pedro conjuga o verbo “habitar” no presente, como se o que nos aguarda no futuro já fosse real hoje. O futuro está presente entre nós. Portanto, o primeiro céu representa a era passada. O segundo céu, a era presente. E o terceiro céu, a era futura. Logo, concluímos que Paulo fora arrebatado ao futuro. O único mistério que persiste é se foi uma experiência corpórea ou extracorpórea.

Quanto ao “paraíso”, creio tratar-se do mesmo fenômeno. O paraíso não é um lugar, mas um tempo. Não podemos apontá-lo num mapa. Ele é encontrado nas páginas das Escrituras no início da criação, e reaparece no fim, não mais como o lugar bucólico original, mas como uma cidade. Para ser arrebatado ao paraíso, teríamos que viajar no tempo, fosse para o passado, no início de tudo, ou para o futuro, quando na consumação da história.

Foi para este mesmo paraíso que Jesus prometeu levar o ladrão penitente. “Hoje mesmo”, garantiu o Salvador, “estarás comigo no paraíso”. A exemplo do que aconteceu com ele, todos quantos deixamos esta dimensão temporal, somos remetidos imediatamente ao paraíso, isto é, ao tempo em que todas as coisas são cumpridas. [4]

Retornando para o Apocalipse, logo no início do livro, encontramos Jesus Se apresentando a João como “aquele que era, que é e que há de vir”[5], o Alfa e o Ômega, que engloba em Si mesmo o passado, o presente e o futuro.   Nesta passagem, Jesus Se apresenta a João como a primeira e a última letra do alfabeto grego. Ser o Alfa e o Ômega é o mesmo que dizer que o tempo está contido n’Ele. Ele não apenas engloba em Si mesmo todas as coisas, mas também todos os tempos. Ele é o princípio e o fim. Se entrássemos numa máquina do tempo, e retrocedêssemos até o início de tudo, lá O encontraríamos. Se avançássemos até o momento derradeiro, lá igualmente O encontraríamos. Toda a História está contida n’Aquele que é o Pai da Eternidade. Toda a existência está inserida n’Ele. Como disse Paulo em seu famoso discurso aos atenienses: “Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At.17:28). Nada há fora d’Ele. “Pois nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele (...) Pois foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus” (Cl.1:16-17,19). Trata-se da plenitude da criação habitando em Cristo. Céu e terra convergiram e estão contidos n’Ele. Não há existência à parte d’Ele. E não só a plenitude da criação está contida n’Ele, como também “nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl.2:9). Portanto, não há Deus fora de Cristo. A Divindade inteira está n’Ele, em quem tempo, espaço e eternidade coexistem. Ele é o habitat da Divindade e da Criação como um todo. Ele é o point cósmico, onde tudo o que existe converge.

Ao apresentar-Se como Aquele “que era, que é e que há de vir”, Cristo Se identifica como Iavé, o mesmo Deus que aparecera para Moisés na sarça ardente. No dizer do escritor de Hebreus, “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre”(Hb.13:8). Repare num detalhe intrigante: Para Ele, o ontem não passou. Se houvesse passado, o escritor teria dito que Ele era o mesmo ontem, e não que Ele é o mesmo ontem. O verbo “ser” quando aplicado à Sua pessoa é sempre conjugado no presente, mesmo quando se refere ao passado e ao futuro. Ele não será para sempre. Ele é para sempre.

Antes da encarnação, porém, Deus revelou-Se a Moisés como “eu serei o que serei”. Somente em Cristo o futuro se torna presente. Podemos dizer que, em certo sentido, Deus Se atualiza n’Ele. O escritor sagrado afirma que fomos visitados pelos poderes do mundo vindouro (Hb.6:5). Portanto, a ordem foi subvertida. O futuro nos visitou, tal qual uma agulha que volta para reforçar um ponto já dado, depois de estar no fim da costura. Em Cristo, o “eu serei o que serei” se torna no “Eu sou”, repetido em sete poderosas sentenças: Eu sou... o caminho a verdade e a vida, a luz do mundo, o pão da vida, a ressurreição e a vida, o bom pastor, a porta, a Videira Verdadeira. E em Apocalipse, o Alfa e o Ômega e a estrela da manhã.

De acordo com o rabino Nilton Bonder, em seu livro “Sobre Deus e o Sempre”, “qualquer pessoa familiarizada com a língua hebraica sabe que YHWH [6] está associado à noção de tempo, uma vez que contém o radical do verbo existir ou do verbo SER. Como a língua hebraica não declina o verbo “ser” no presente, YHWH parece ser uma mistura dos verbos “ele será, ele foi e ele é” somado ao gerúndio do verbo SER. Já outros preferem a leitura do Tetragrama como uma representação do tempo presente (HWH) sendo precedido pela partícula Y, que lhe dá um sentido futuro. Ou seja: Eu sou aquele que empurra o Presente na direção do Futuro. Nessa leitura, Deus se define como a própria força motriz do tempo (...) Em resumo, o Tetragrama seria um código do tempo.”[7]

Quando Moisés pergunta pelo nome d’Aquele que lhe aparecera no deserto no arbusto ardente, ouve uma inusitada e enigmática resposta: Ehié Asher Ehié, que significa literalmente “Serei o que serei”.[8]

Dá-se a impressão de que a ordem temporal representada pelo sistema causa-efeito é subvertida. Portanto, não é o passado que determina o presente, e sim, o futuro. Sartre parece ter acertado de raspão ao afirmar que  futuro.”

Nas palavras de Bonder, “o fazer, o existir de Deus não pertence ao sistema de causa-consequência, o que Deus faz está para além da causalidade, o que causa já é consequência e a consequência já é causa. Não há separação, ou distinção, entre intenção e resultado. O resultado já é a intenção e a intenção já é o resultado.”[9]

É esta mesma lógica quântica que encontramos em outro trecho enigmático do livro de Apocalipse:

“Aquele que tem ouvidos ouça: Se alguém há de ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém há de ser morto à espada, à espada haverá de ser morto. Aqui estão a perseverança e a fidelidade dos santos.” Apocalipse 13:9-10 [10]

De acordo com R.N.Champlin, em sua obra “O Novo Testamento interpretado versículo por versículo”, “o estilo epigramático da declaração deixou perplexos aos escribas (...) A ausência de um verbo com a primeira cláusula impeliu vários copistas a procurarem melhorar o texto...”  Há, pelo menos, doze variantes deste trecho do livro das Revelações. “Talvez sob a influência de declarações como Mateus 26:52, copistas modificaram, de vários modos, a difícil construção grega”. Por isso, algumas traduções em português, como a Almeida Corrigida e Revisada trazem: “se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá; se alguém matar à espada, necessário é que à espada seja morto”. O objetivo dos tradutores foi o melhor possível: tornar o texto mais compreensível. Considerando esta a melhor tradução, subentende-se que a intenção do escritor era advertir aos leitores a que fossem responsáveis por suas ações, pois as mesmas teriam consequências em suas vidas. Semeou, vai colher. Matou à espada, à espada será morto. Todavia, não é isso que o texto intenta dizer.

Trata-se, antes, do uso de uma expressão idiomática do hebraico: “se alguém é morto à espada, que seja morto à espada.”

Já que não faz muito sentido dentro da lógica de causa-efeito, copistas fizeram acréscimos, de modo que o texto dissesse o que ele, de fato, não pretende dizer. Sem dúvida, faz mais sentido dizer “se alguém deve ser morto à espada, à espada morrerá”. Ou ainda, “se alguém matar à espada, à espada deve morrer.” Mas em vez disso, ele diz: “Se alguém é morto à espada, que seja morto à espada.” Não se trata, portanto, de uma previsão ou advertência, mas de uma antecipação. Mais uma vez, o futuro determina o presente, não o passado.

Há algo lá na frente que nos atrai como um ímã. Se retrocedermos ao princípio de tudo, encontraremos Cristo, o Alfa, exercendo poder impulsionador, empurrando todas as coisas para frente. Se fôssemos remetidos para o futuro, lá encontraríamos Cristo, o Ômega, exercendo Seu poder atrator. É por isso que o fluxo temporal segue a direção passado-futuro. Não se pode nadar contra a correnteza. O ponto Alfa, início de tudo, impele, empurra para frente. Enquanto o ponto Ômega, que é o fim objetivo de tudo, atrai, puxa para frente.

Algo semelhante ocorre em outro texto deveras enigmático extraído do Antigo Testamento, onde Deus declara a Moisés: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem me compadecer.” Geralmente se acredita que Deus estivesse apenas declarando que usaria de misericórdia com quem Ele quisesse. Porém, o fato é que, no hebraico, esse é um dos textos mais misteriosos das Escrituras. Com efeito, sua tradução ao pé da letra diz: “Trarei graça o que houver trago graça e compadecerei o que houver compadecido”. Em outras palavras, farei o que já fora feito. Era como se Deus, propositadamente, misturasse os tempos verbais futuro e passado, convidando Moisés a entrar numa dimensão atemporal, onde não houvesse distinção entre o que se foi, e o que virá a ser.

Continua...




[1] Confissões – Agostinho, Livro XI
[2] Apocalipse 1:19
[3] Apocalipse 1:9
[4] Leia nosso artigo “Kairosfera: para onde vamos ao morrer”: http://www.hermesfernandes.com/2013/08/kairosfera-pra-onde-vamos-ao-morrer.html
[5] Apocalipse 1:8
[6] YHWH – Tetragrama usado pelos judeus para referir-se a Deus e geralmente pronunciado como Iavé.
[7] BONDER, Nilton – Sobre Deus e o Sempre, pág.17
[8] Geralmente e erroneamente traduzido como “Eu sou o que sou”.
[9] Ibid id – pág. 93
[10] ει τις αιχμαλωσιαν συναγει εις αιχμαλωσιαν υπαγει ει τις εν μαχαιρα αποκτενει δει αυτον εν μαχαιρα αποκτανθηναι ωδε εστιν η υπομονη και η πιστις των αγιων/ei tis synagō aichmalōsia hypagō eis aichmalōsia ei tis apokteinō en machaira dei apokteinō en machaira hōde esti hypomonē kai pistis hagios