quarta-feira, junho 29, 2016

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E se Deus nos tirasse pra dançar?



Hermes C. Fernandes

Hoje estive pensando um pouco mais sobre o episódio em que Mical, de sua janela, desprezou e censurou a Davi enquanto este dançava à frente da Arca da Aliança, em seu cortejo de volta a Jerusalém.

Dissemos num artigo anterior que para Mical, o que lhe dava o direito de julgar seu marido daquela maneira era o senso de valor próprio e o senso de justiça própria.

O primeiro, porque Davi havia lhe atribuído um valor maior do que Saul, pai de Mical, pedira como dote.

E o segundo, porque Mical havia livrado a Davi de ser assassinado pelos servos de seu pai, dando-lhe fuga pela janela de seu quarto.

Foi daquela mesma janela que Mical o desprezou. Ela se achou no direito de fazê-lo.

Fiquei imaginando se essa história não poderia servir como analogia de Cristo e a Sua Igreja.

Como Mical, muitos cristãos se acham no direito de desprezar o que Deus está fazendo do lado de fora dos seus arraiais religiosos.

Afinal de contas, Deus lhes atribuiu valor muito maior do que de fato mereciam. O preço pago por sua redenção foi o sangue de Jesus. No caso de Mical, seu dote custou a morte de duzentos filisteus. No caso da Igreja, seu dote custou a morte do Filho de Deus.

O que deveria nos envergonhar, tornou-se no motivo de nossa soberba. Achamo-nos mais importantes do que o resto do mundo.

Da janela de nosso edifício teológico, desprezamos o Deus que dança com o resto da criação. Este Deus não é monopólio de ninguém. Ele é Espírito, e o Espírito é livre para soprar e dançar onde quiser.

Além desse senso de valor próprio, os cristãos também têm nutrido um profundo senso de justiça própria.

Achamos que nossas boas obras foram capazes de nos tornar credores de Deus. Se antes, nós é que tínhamos uma dívida com Ele, agora, Ele é quem nos deve. Concluímos que nossas boas obras fazem com que o preço pago por nós seja devidamente compensado. É como se estivéssemos quites com Deus. Quanta pretensão!

Em lugar de gratidão, vaidade. Em lugar de humildade, presunção.

Até quando os cristãos desprezarão o Seu Deus? Até quando se incomodarão com o que Deus está fazendo para além dos muros eclesiásticos? Até quando censurarão e repudiarão o Deus dançarino?

Tornamo-nos como o irmão mais velho do filho pródigo. Recusamo-nos a participar da festa de arromba promovida pelo Pai por causa do filho que retornou. Só dançamos se a festa for nossa, se o baile for gospel!

O desprezo de Mical a Davi lhe rendeu esterilidade por toda a vida. Até que ponto a igreja cristã também não tem se tornado estéril em nossos dias por desprezar o que Deus está fazendo lá fora?

Só há uma maneira de reverter este quadro de esterilidade espiritual: descer de nossas torres eclesiásticas e aceitar o convite que Cristo nos faz: Quer dançar comigo?

terça-feira, junho 28, 2016

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Espiando pelas frestas de uma janela indiscreta




Por Hermes C. Fernandes

Um dos mais aclamados filmes de Alfred Hitchcock é "Janela Indiscreta". Lançado em 1954, o suspense gira em torno do fotógrafo profissional L.B. Jeffries está confinado em seu apartamento em Greenwich Village, Nova York, por ter quebrado a perna enquanto trabalhava. Como não tem muitas opções de lazer, vasculha a vida dos seus vizinhos com uma lente tele-objetiva, quando vê alguns acontecimentos que o fazem suspeitar que um homem matou sua mulher e escondeu o corpo. Com a ajuda de sua noiva Lisa, Jeff vai tentar provar que está certo.

Outros filmes já usaram a janela como tema e cenário. O último grande sucesso envolvendo o tema foi "Janela Secreta", baseado no bestseller de Stephen King. Estrelado por Johnny Depp, conta a história de um escrito em crise que decide isolar-se em uma cabana, mas passa a ser incomodado por um homem que o acusa de plágio.

De fato, nossa sociedade é fissurada em janelas. Até o sistema operacional de computador mais difundido no mundo é conhecido como "windows" ("janelas", em inglês). Diferentes das portas, que servem de passagem entre um ambiente e outro, as janelas nos oferecem uma vista panorâmica do mundo à nossa volta, preservando porém a nossa privacidade. Entre as frestas das cortinas e persianas, podemos espiar, sem ser notados.

Deve-se ter cuidado com as janelas! Daniel, em seu exílio na Babilônia, abria as janelas do seu quarto para que pudesse orar voltado para Jerusalém. Porém, não podia imaginar que seus acusadores o espreitavam, aproveitando a visão proporcionada por suas janelas, buscando motivos para acusá-lo perante o rei, e assim, destituí-lo do cargo que tanto cobiçavam (Dn.6:10).

Às vezes, também serve para fuga, como fez Paulo dentro de uma cesta, ajudado por irmãos (2 Co.11:33). Também ajuda na circulação de ar. Imagine o que seria da Arca de Noé sem uma janela!

Alguns a usam para sentar em seu parapeito, correndo o risco de cair, como aconteceu com Êutico, enquanto cochilou ouvindo a pregação de Paulo (At.20:9). Minha mãe conta que quando eu tinha 4 anos, sentei-me da janela de nosso apartamento no terceiro andar, e pra me tirar dali, ela teve que se aproximar silenciosamente para não me assustar.

Dentre todas as histórias bíblicas envolvendo janelas, nenhuma chama tanta minha atenção quanto a de Davi e Mical.

Mical era filha de Saul, antecessor e oponente de Davi. Foi usada pelo próprio pai como armadilha para enredar a Davi (1 Sm.18:20-21). O dote exigido por Saul por sua filha era de cem prepúcios de filisteus. Em vez de ser morto pelos filisteus, como esperava Saul, Davi trouxe não apenas cem, mas duzentos prepúcios. Talvez, nenhuma mulher tenha custado tanto a um homem! Os duzentos filisteus não perderam só o prepúcio, mas também a própria vida. Pelo menos, Mical estava apaixonada por Davi.

Numa ocasião em que seu pai intentava tirar a vida de Davi, Mical providenciou sua fuga através da janela do seu quarto (1 Sm.19:12). Tomando uma estátua, deitou-a na cama e a cobriu. Resultado: enganou o próprio pai para salvar a pele de seu amado. Mas em vez de dizer que fizera aquilo por amor, Mical contou ao seu pai que havia sido ameaçada de morte por Davi, piorando ainda mais a situação. Parecia que entre Mical e Davi as contas estavam ajustadas. Ela lhe havia custado tanto, porém, em um momento crucial, salvou sua vida.

O tempo passou, Saul morreu, e Davi ascendeu ao trono de Israel. Uma de suas mais importantes empreitadas foi trazer de volta para Jerusalém a Arca da Aliança. Em uma procissão festiva, Davi vinha à frente do povo, dançando euforicamente. Em vez de juntar-se à multidão naquela santa folia, Mical preferiu assistir da janela de seus aposentos, a mesma que ela usara para livrar a Davi. Se ela apenas assistisse, não haveria qualquer problema. Porém, a liberdade com que Davi dançava e louvava a Deus a incomodou. Pra ela, tudo não passava de exibicionismo.

O que, na opinião de Mical, lhe dava o direito de censurá-lo? Acredito que haja duas respostas:

1 - O senso de valor próprio - Afinal de contas, ela lhe havia custado muito caro, e isso parecia apontar para o alto valor que possuía. Muitos cristãos imaginam que o alto preço pago por Jesus pela nossa salvação revela o quão valiosos somos. E por conta disso, acham que têm o direito de sair julgando todos à sua volta. É como se ninguém mais tivesse valor tão alto. Mas a verdade é que o custo alto pago por Jesus não revela nosso valor, e sim a gravidade de nossos pecados. Quando um Juiz estabelece o valor de uma fiança, não o faz com base no valor do criminoso, mas na gravidade do seu crime. Não possuímos um valor intrínseco que nos coloque acima dos demais. O único valor que temos é o que nos foi atribuído, sem qualquer explicação, exceto o amor de Deus. Portanto, não temos o direito de julgar ninguém.

2 - O senso de justiça própria - Mical poderia imaginar que o fato de haver salvo Davi das mãos de seu pai, conferia-lhe o direito de julgá-lo. Muitas pessoas respaldam suas ações numa espécie de contabilidade, onde cada boa ação lhes dá o direito de cobrar da parte beneficiada. São motivadas sempre por interesses escusos. Quando agem como benfeitores, na verdade, estão agindo como credores.

Será que o fato de um dia haver ajudado a Davi, ou mesmo o fato de seu dote ter custado tão caro, davam-lhe o direito de desprezar e criticar seu marido? A janela era ao mesmo tempo, o cenário e a testemunha do que ela havia feito por Davi. A mesma janela usada para ajudar, agora era usada para criticar e emitir juízo.

Ao fim da festa, "voltando Davi para abençoar a sua casa, Mical, filha de Saul, saiu a encontrar-se com ele, e lhe disse: Quão honrado foi o rei de Israel, descobrindo-se hoje aos olhos das servas de seus servos, como sem pejo se descobre um vadio qualquer" (2 Sm.6:20).

O preço pago por Mical por esta conduta indiscreta e repleta de juízo foi mais caro do que o preço que Davi pagou por seu dote. O episódio se encerra com a seguinte sentença: "E Mical, filha de Saul, não teve filhos, até o dia da sua morte" (v.23).

Tal qual Mical, muitos fazem o bem a espera do momento certo para cobrar. Outros se acham no direito de nos criticar e censurar, por um dia nos ter feito algum bem. Por conta disto, muitos têm se tornado espiritualmente estéreis, infrutíferos.

Se fecharmos a janela indiscreta do preconceito, do julgamento precipitado, Deus nos abrirá as janelas dos céus, e nos derramará Suas bênçãos, tornando-nos frutíferos em toda boa obra.

segunda-feira, junho 27, 2016

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Um Último Tango antes de Paris...




Por Hermes C. Fernandes

O que você faria se soubesse que tem poucas horas de vida?


Tempos atrás, encontrei um recado em meu mural que dizia em letras garrafais: “APROVEITE O MÁXIMO O QUE PUDER, POIS NOSSA PASSAGEM POR AQUI É MUITO RÁPIDA. FELICIDADES!” Certifiquei-me de que o recado fora enviado por um amigo que não via há algum tempo, Pr. Airton Santos. Entrei em seu perfil para entender o porquê daquela mensagem. Verifiquei que ele estava de luto pela morte de um casal de idosos, vítimas do acidente do voo AF 447. Perguntei se conhecia aquele casal, e eis sua resposta: “Eles moravam no condomínio onde trabalho (Barramares). Na semana passada comemoraram Bodas de ouro em uma festa no clube do condomínio, dançaram até às 3h de domingo e às 19h embarcaram no voo 447 da Air France. Estavam indo visitar uma filha que mora na Noruega. Ela tinha 67 e ele 79 anos. Acho que metade da Barra da Tijuca está de luto. Ela me chamava de Reverendo.”

Fiquei imaginando de onde aquele casal de idosos tirara força para dançar até às 3h da manhã, e ainda ter fôlego para viajar no mesmo dia. Será que pressentiam que aquelas seriam suas últimas horas de vida? Desconfio que aquela noite tenha valido mais do que os cinquenta anos em que viveram juntos. Afinal, o mais importante não é a quantidade de anos, mas a qualidade do tempo que passamos neste mundo.

Recentemente recebi a triste notícia de que uma amiga que não vejo há mais de vinte anos estaria internada com câncer em estado terminal. Ela tem a minha idade e uma filhinha de treze anos. Não sei como reagiria se ouvisse do médico a sentença que Jandira ouviu. Poucas semanas atrás ela estava bem, vivendo normalmente, até que sentiu dores estomacais, procurou o médico e descobriu que tinha poucos dias pela frente.

O que se passa na mente de alguém numa hora dessas?  Se fosse conosco, o que faríamos? Alguns aproveitariam o máximo que pudessem, se divertindo. Outros tentariam colocar as contas em dia, para não deixar problema para ninguém. Talvez se aproximassem mais da religião em busca de conforto. Sei lá... cada um reagiria de uma forma. Mesmo que jamais passemos por um drama desta natureza, todavia temos que responder a uma questão deveras pertinente: como temos gasto nossas vidas neste mundo? Afinal, tendo pouco ou muito tempo pela frente, o fato é que todos estamos com os dias contados. Nada há que façamos que possa alterar isso, acrescentando ou diminuindo um único dia à nossa existência (Sl.139).

Paulo, o apóstolo, soube de antemão que sua morte se aproximava. Provavelmente, fora avisado que sua sentença havia sido lavrada, e que o dia de sua execução já estava agendado. Ele poderia ter se deprimido, e morrido antes mesmo de ser decapitado pelas autoridades romanas. Mas em vez disso, ele teve uma reação surpreendente. Veja o que ele diz:

“Quanto a mim, já estou sendo derramado como libação, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.” 2 Timóteo 4:6-8
Imagino que aqui ele fez uma pausa, tomou fôlego, mudou o tom e prosseguiu:

“Procura vir ter comigo depressa. Porque Demas me abandonou, amando o presente século, e foi para Tessalônica, Crescente para a Galácia, Tito para a Dalmácia. Só Lucas está comigo. Toma a Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério.” vv.9-11
Mesmo quando os últimos acordes da música já podem ser ouvidos, ninguém deixa o salão. A dança só para quando a música termina.

A vida é uma dança. E não estamos sozinhos no salão. Paulo cobra de Timóteo que acerte os passos. Parece que o jovem pupilo do apóstolo não conseguia acompanhar seu ritmo.

“Vem depressa! Ainda não morri. A música ainda está tocando...”

Há muitos que, como Timóteo, desaceleram muito antes de chegarem à reta final. Perdem o senso de urgência, talvez por acharem que ainda tenham tempo de sobra para viver. Ainda que Timóteo tivesse uma vida inteira pela frente, o mesmo não se dava com Paulo. Por isso, ele tinha que ajustar-se ao ritmo do apóstolo que estava prestes a partir. Temos a tendência de adiar as coisas, empurrando a vida com a barriga, como se dispuséssemos de todo o tempo deste mundo. Se tão somente fôssemos mais conscientes quanto à nossa finitude, não desperdiçaríamos tantas oportunidades.

No início da carreira, Renato Russo cantou "temos todo o tempo do mundo". Tempos depois, ele encantou o Brasil com o refrão "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã". A maturidade nos faz enxergar a vida com mais consciência de sua fragilidade.

Não adie abraços, confissões, presentes, declarações de amor... Pode ser que não haja tempo suficiente para você ou para a pessoa em questão. 

# Lidando com uma decepção tardia

Paulo também se queixa de quem o abandonara no meio do salão. Demas, alguém em quem tanto confiava, trocou sua companhia pela oferta que o mundo lhe fizera.

Uma decepção como aquela à essa altura da vida, Paulo certamente não esperava. Mas não dava tempo para ficar se lamentando, sob pena de perder os passos, e atropelar o ritmo. Já que Demas deixou o salão, o lugar estava vago, e Paulo não queria dançar sozinho. Vem correndo, Timóteo!

Outros parceiros de ministério também haviam partido, mas não pela mesma razão e motivação de Demas. Portanto, Paulo contabilizava três desfalques em seu ministério. Só lhe restara Lucas, o médico, que talvez, por conta de seu juramento, não quisera deixá-lo, vendo-o não apenas como apóstolo e líder, mas também como paciente. Para Lucas, seria uma covardia desertar naquele momento.

Sempre teremos que lidar com desertores. Amigos que estão sempre prontos a banquetearem conosco, mas não demonstram a mesma disposição para sofrerem ao nosso lado. Permanecem conosco enquanto temos o que oferecer. Mas nos abandonam tão logo percebem que a maré virou. Por isso, temos que valorizar os que permanecem, que na hora da angústia não arredam o pé, mas tornam-se como irmãos (Pv.17:17).

Lembre-se: quem lhe serve por interesse, trocará sua amizade quando encontrar quem lhe ofereça mais. 

# Reciclando relacionamentos

O mais surpreendente vem a seguir:

“Toma a Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério.” v.11b
Ora, Marcos era um antigo desafeto de Paulo, pois foi o pivô da separação entre Paulo e Barnabé (At.15:39). Mas a esta altura, não havia espaço para mágoas no coração do apóstolo. Era hora de acertar os passos com Marcos, e deixar que o perdão transbordasse em seu coração.

Marcos, que assistira o início do seu ministério, agora era convidado especial para assistir à sua partida.

Há velhos amigos que reaparecem quando mais precisamos. Gente que caminhou conosco, mas que por alguma razão nos deixou. Nem sempre por falta de lealdade, mas também por imaturidade, como foi no caso de Marcos.

Ao convidá-lo para retornar ao seu convívio, Paulo demonstra ter superado aquela rixa. Muito antes disso, ele recomenda que os irmãos de Colossos recebam amigavelmente a Marcos (Cl.4:10). Ele poderia ter dado aquela queimada de filme que geralmente se dá àqueles que trocam nossa amizade por de outros. A gente nunca sabe o dia de amanhã. Quem hoje nos abandona, amanhã poderá ser-nos útil. Não é porque nos deixou, que não presta. Há deserções que ocorrem como contingências da vida. Há outras que servem a um propósito divino. Se Paulo não houvesse se separado de Barnabé, não teria encontrado Silas, com quem começou a igreja em Filipos, e mais tarde, não teria encontrado Lucas que foi seu fiel escudeiro até o dia de sua morte.  E como se diz por aí... a vida dá muita volta... Quem hoje se foi, amanhã pode voltar. Que tal deixar a porta aberta?

# Uns vão, outros vêm

E ele prossegue:

“Quanto a Tíquico, enviei-o a Éfeso.” v.12
Uns o deixaram por conta própria, mas Tíquico o deixou porque ele mesmo o enviou. Mesmo ciente de que necessitava da companhia de seus discípulos, Paulo entendia que a necessidade da obra de Deus era maior do que a dele. Ademais, Tíquico levaria aos irmãos de Éfeso informações do apóstolo, dos quais Paulo havia se despedido de maneira dramática (Atos 20:25-38).

“Ora, para que vós também possais saber como estou e o que estou fazendo, Tíquico, irmão amado e fiel ministro no Senhor, vos informará de tudo; o qual vos envio para este mesmo fim, para que saibais do nosso estado, e ele vos conforte o coração.”  Efésios 6:21-22

Muitos sabem como dizer “vinde”, mas não saber dizer “ide”. Querem manter as pessoas presas a si por todo o tempo. São ótimos para acolher, porém, não sabem despedir. 

Há pais que não conseguem liberar seus filhos, mantendo-os presos ao seu redor por meio de chantagem emocional. Como também há ministérios que não crescem porque os líderes mantém obreiros como reféns, inibindo o seu crescimento.

“Desatai-o, e deixai-o ir”, foi o que Jesus disse aos Seus discípulos, impedindo-os que mantivessem a Lázaro cativo depois de tê-lo ressuscitado.

Toda dança é feita de "idas e vindas". Não dá pra dançar sem tirar o pé do chão. Há quem só nos deixará se nós mesmos o enviarmos. Não temos o direito de aprisionar ninguém. O reino de Deus é maior do que nosso quintal ministerial. 

# Recuperando o tempo perdido

Paulo continua:

“Quando vieres traze a capa que deixei em Trôade, na casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos.” v.13
Quem, sabendo que vai morrer em poucos dias, ainda se preocupa em ler?

Talvez fossem textos de sua própria autoria, que Paulo pretendia revisar antes de partir, ou textos de outros. O fato é que Paulo não queria deixar sua mente vazia, pois sabia que mantendo-a ocupada, reciclando seus conhecimentos, se pouparia da depressão, da autocomiseração, e de outros sentimentos igualmente danosos.

Quantos livros deixamos de ler? Quantos filmes deixamos de assistir? Quantos perderam até o gosto de se vestir bem? Enquanto Paulo, com dia marcado para morrer, ainda preocupou-se em resgatar sua capa deixada em Trôade. Pouco antes de morrer, perguntaram a Chico Anysio se ele tinha medo de morrer, pelo que respondeu: - Medo, não. Tenho pena! Parafraseando o grande humorista brasileiro, eu diria que tenho pena de morrer sem ter lido tudo o que há pra ser lido, conhecido todos os lugares que ainda não conheço, experimentado todos os sabores, ouvido todas as músicas das bandas que aprecio.

Ao passar por Trôade, Paulo mal teve tempo para respirar. Ele testifica disso: “Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e uma porta se me abriu no Senhor, não tive descanso no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito. De sorte que, despedindo-me deles, parti para a Macedônia” (2 Co.12-13). Por conta disso, Paulo acabou se esquecendo de alguma coisa lá. Quem sabe haja algo nosso deixado em algum lugar que precisa voltar para nossas mãos? “Capa” pode representar uma responsabilidade, ou até um ministério que nos foi confiado. Haveria alguma 'capa' deixada em algum lugar de nossa vida, esperando ser resgatada? Quando Eliseu pediu que Elias lhe deixasse como herança a porção dobrada do seu espírito, o profeta disse que seu discípulo teria que assistir quando fosse arrebatado aos céus, e apossar-se de sua capa que deixaria cair. Mas enquanto Elias estivesse na terra, a capa seria dele. Enquanto estamos vivos e ativos, espera-se que arquemos com as responsabilidades que nos foram confiadas. Embora preso e no corredor da morte, Paulo mantinha a expectativa de que ainda cumpriria o que faltasse de sua missão. 

Lembre-se de que devemos ser imitadores de Deus como filhos amados. Se a obra começada por Ele deve ser concluída por Ele mesmo, devemos nos esforçar para igualmente terminar o que começamos. A propósito, onde você tem deixado sua capa?

Como diria Lulu Santos, "vamos viver o que há pra viver". A vida urge! Não deixe pelo caminho o que precisa ser terminado. Ainda há tempo... por enquanto.

# Dançarinos desclassificados

Finalmente, ele entra num assunto delicado:

“Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe pague segundo as suas obras.” v.14
Esse tal Alexandre juntou-se a Himeneu, numa atitude de rebelião contra Paulo. O que fez Paulo? Entregou-os a Satanás para que aprendessem a não blasfemar (1 Tm.1:20). Alguém tinha que detê-los. Paulo não estava disposto a deixar este abacaxi para outro descascar. Não bastava que Paulo os perdoasse, posto que a ofensa não era pessoal, mas contra a igreja de Cristo, ameaçada pela atuação desses homens, cujas palavras corroíam como câncer (2 Tm.2:17). Era acerca de gente como eles que Paulo exortava a Tito:

“Pois há muitos insubordinados, faladores vãos, e enganadores (...) É preciso tapar-lhes a boca, porque transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância.” Tito 1:10-11
Ninguém poderia cobrar uma posição mais compassiva de Paulo. O mesmo Jesus que perdoou os que o crucificam, expulsou os cambistas do templo na base do chicote. Devemos perdoar qualquer um que nos faça mal, porém, temos o dever de defender a igreja de Deus. 

É claro que uma medida tomada por Paulo era extremamente impopular. Entregar alguém a Satanás era equivalente a excluir alguém da igreja. Paulo corria o risco de ser mal interpretado, e em vez de morrer como um herói, morrer como um vilão. Mas ele não estava preocupado com sua reputação, mas com o bem-estar da igreja.

Paulo aconselha a Timóteo a guardar-se de Alexandre e cia, para que não se contaminasse com aquele espírito de rebelião. Aquela gente tinha que ficar em quarentena para que não contagiasse os demais. É aquela velha estória da maçã podre num cesto de maçãs boas...

# Pronto para partir

Paulo termina sua última epístola saudando aos seus colaboradores, não em tom melancólico de despedida, nem com espírito amargo, mas com o coração cheio de gratidão e expectativa.

“Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam. Que isto não lhes seja imputado.” v.16
O que afetasse a menina dos olhos de Deus, a saber, a Sua Igreja, Paulo tratava com punho firme. Porém, estava sempre pronto a perdoar qualquer coisa que particularmente o afetasse. Uma mágoa seria suficiente para interromper sua marcha, alterando seu ritmo espiritual. Ele não poderia morrer magoado com aqueles por quem tanto lutara, mesmo não sendo correspondido. Em outra passagem, ele assume um compromisso:

“Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado.” 2 Coríntios 12:15
Portanto, era melhor perdoar do que levar aquele peso extra nos ombros. Enquanto a música da vida está tocando, ainda há tempo, tanto para pedir, quanto para conceder perdão. Mas depois que ela terminar, será muito tarde. O fato é que dificilmente saberemos quando será nosso último tango. Portanto, aproveitemos cada oportunidade. 

Sabendo que o propósito de sua vida houvera sido atingido, Paulo estava pronto a deixar a pista.

“Mas o Senhor me assistiu e me fortaleceu, para que por mim fosse cumprida a pregação, e a ouvissem todos os gentios; e fiquei livre da boca do leão. E o Senhor me livrará de toda má obra, e me levará salvo para o seu reino celestial, a quem seja glória para todo o sempre. Amém.” vv.17-18
O que nos mantém aqui nada mais é do que o propósito de nossa existência. Sem que tenha se cumprido, não há leão faminto que nos devore. Mas, uma vez cumprido, nada há que nos segure por aqui. Deus livrou a Paulo na primeira instância, impedindo que fosse lançado aos leões, mas não o livrou quando julgado em segunda instância, permitindo que fosse decapitado pela espada romana.

Enquanto o propósito de nossa vida não houver sido alcançado... Música, maestro! 

* Publicado originalmente em 8 de junho de 2009 (revisado e atualizado em 13/01/2013).

P.S. Na semana passada, fomos pegos de surpresa pelo falecimento de um dos nossos pastores. O pastor Hermeilson tinha 35 anos, quatro filhos e pastoreava nossa igreja em Queimados, sob a supervisão do pastor Joaquim. Sempre solícito, prontificou-se a ajudar uma senhora membro de sua congregação na colocação das telhas de sua casa. Segundo o laudo médico, ele teria tido um infarto, perdeu o equilíbrio, despencando do telhado e batendo com a cabeça, tendo morte instantânea. Neste fim de semana, uma médica de apenas 34 anos morreu numa tentativa de assalto enquanto dirigia numa das vias expressas do Rio, depois de haver inaugurado um centro de reabilitação infantil. Nunca saberemos quanto tempo ainda temos pela frente. Portanto, vivamos como se fosse último dia, não deixando nada para depois. Quem sabe assim, este será o primeiro dia do resto de nossas vidas.

sexta-feira, junho 24, 2016

59

Para onde vão os animais ao morrer?



Por Hermes C. Fernandes

Para alguns, trata-se de uma questão descabida, sem qualquer pertinência. Mas para quem já teve ou tem um animal doméstico quase membro da família, o assunto é de extrema importância. Creio que se dependesse de muitos dentre nós, os animais compartilhariam conosco o mesmo destino eterno. Porém, se almejamos por respostas, devemos examinar o que dizem as Escrituras.

Não somos melhores do que os bichos!

E não sou eu quem diz isso, mas o sábio Salomão:
“Disse eu no meu coração: Isso é por causa dos filhos dos homens, para que Deus possa prová-los, e eles possam ver que são em si mesmos como os animais. Porque o que acontece aos filhos dos homens, isso mesmo também acontece aos animais; a mesma coisa lhes acontece. Como morre um, assim morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego, e nenhuma vantagem têm os homens sobre os animais…” Eclesiastes 3:18-19
Alguém poderá objetar: Os seres humanos temos espírito, os animais não. Será? Então, Salomão errou ao dizer que não temos qualquer vantagem sobre eles. E veja o que ele diz mais:
“Todos vão para o mesmo lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão. Quem sabe se o espírito dos filhos dos homens vai para cima, e se o espírito dos animais desce pra terra?” (vv.20-21).
Então, os animais também têm espírito, certo? Corretíssimo! Pelo menos é o que acabamos de ler. O amor de Deus não se limita ao ser humano. Deus ama a todas as Suas criaturas, racionais e irracionais. Ele é quem “dá mantimento a toda a criatura, porque o seu amor dura para sempre” (Sl.136:25).

Davi entendia isso perfeitamente, e declara de maneira poética em seu salmo de número 104. Como que em êxtase, o rei salmista declara: “Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas. Há o mar, vasto e espaçoso, onde se movem seres inumeráveis, animais pequenos e grandes (…) Todos esperam de ti que lhe dê o seu sustento em tempo oportuno” (v.24-25,27). Até os leõezinhos “de Deus buscam o seu sustento” (v.21). Era como se Davi mergulhasse no fundo do oceano e se maravilhasse com o que visse ali.

Tive uma sensação de deslumbramento semelhante ao visitar o maior aquário do mundo no SeaWorld em Orlando. É de cair o queixo! Foi deveras emocionante poder tocar nos golfinhos, assistir aos espetáculos com as baleias, adentrar o ambiente artificial reproduzindo o ártico e ver onde descansa o urso polar, assistir ao balé dos pinguins como no filme Happy Feet. Minha mulher e eu fomos literalmente às lágrimas. Disse aos meus filhos que aquele entrosamento entre o homem e os animais era uma amostra grátis do que será na Terra restaurada.

Ou será que seremos a única espécie que desfrutará dos novos céus e da nova terra profetizados pelas Escrituras? O que será das inúmeras espécies animais e vegetais, frutos do gênio divino? Terá Deus criado todas elas apenas como figurantes da trama cujo protagonista é o ser humano? Recuso-me a crer nesta hipótese.

Se Deus não se importasse com os animais, por que os teria poupado no dilúvio?

Seria um desperdício enorme de espaço se somente nós, humanos, habitássemos a Nova Criação. Engana-se quem pensa que nosso destino final será vivermos num céu etéreo, como fantasminhas angelicais tocando suas harpas. Não! Seremos seres humanos completos, dotados de todas as nossas faculdades originais.


A hostilidade que o reino animal nutre contra o homem se deve ao pecado. Deixamos de ser os guardiões do jardim de Deus para sermos sua maior ameaça. Toda a natureza geme na expectativa de ser libertada do cativeiro imposto pela vaidade humana. Quando os filhos de Deus se manifestarem, a natureza será finalmente livre (Rom.8). A Terra não caminha para uma catástrofe final, mas para a libertação. Quando isso ocorrer, a hostilidade terminará, e o homem voltará a integrar-se à criação.

Enquanto não chega o grande dia, devemos zelar pela vida de todos os seres com os quais compartilhamos a Terra. Deus no-los confiou. Tanto os selvagens quanto os domésticos.

Hoje, depois de minha caminhada diária, parei à margem de um lago para fotografar alguns animais (tartarugas, pássaros e patos). Recentemente descobri este novo hobby: fotografar a natureza. Um rapaz americano chamado John me abordou. Ele estava acompanhado de um cão branco a quem chamava carinhosamente de pig (porco). Conversa vai, conversa vem… ele me contou de um acidente automobilístico que sofreu há dois anos, me disse que perdera seus amigos, e que estava perdendo sua casa (por sinal, uma linda casa à beira do lago). A única coisa que lhe restara era seu cão. Mas pra completar seu sofrimento, seu cão, agora com doze anos, estava prestes a morrer. Teria que gastar 8 mil dólares para tentar salvar-lhe a vida numa cirurgia. Por estar financeiramente quebrado, não lhe restou alternativa senão deixá-lo partir. 

Embora não fosse cristão, e de ter-me confidenciado sua ojeriza a religião, John demonstrava um grande amor por seu bicho. O que me remete ao que diz Salomão: “O justo olha pela vida dos seus animais” (Pv.12:10a). Desejei do fundo d’alma que Deus restaurasse a saúde daquele animal. Lembrei-me de Franscisco de Assis que tinha o hábito de orar pelos animais.

Recentemente o SeaWorld foi cenário de uma tragédia envolvendo uma Orca e sua treinadora. Apesar do entrosamento entre eles, a treinadora veio a falecer afogada, depois de ter sido arremessada pelos cabelos num ato aparentemente de fúria do animal.

A AFA (American Family Association), criada pelo reverendo Donald Wildmon defendeu o apedrejamento até a morte da orca. A influente entidade cristã cita passagens da Bíblia para justificar a morte do animal, cuja carne, diz, não deve ser consumida por ninguém. Organizações de defesa de animais de todo mundo reagiram à proposta do apedrejamento. Se depender da AFA, até o proprietário do parque aquático deve ser morto a pedradas, também de acordo com o que manda a Bíblia, argumenta a entidade.

Este é um tipo de fundamentalismo que deve ser rechaçado por cristãos conscientes, que entendem que vivemos sob a égide da Graça e não da Lei.

Uma das mais impressionantes imagens pintadas no livro de Apocalipse está registrada no capítulo 5, do verso 11 ao 14:
“Então olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos seres viventes, e dos anciãos; e o número deles era milhões de milhões e milhares de milhares, proclamando com grande voz: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor. Então ouvi a TODA CRIATURA QUE ESTÁ NO CÉU, E NA TERRA, E DEBAIXO DA TERRA, E NO MAR, e a todas as coisas que neles há, dizerem: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo sempre. E os quatro seres viventes diziam: Amém. E os anciãos prostraram-se e adoraram.” 

Repare a forma como o céu e a terra são apresentados unindo-se para formar um enorme coral em adoração ao Cordeiro. Gradativamente, todas as coisas vão sujeitando-se a Cristo. Não só as invisíveis, mas também as visíveis, não só as pertencentes ao mundo espiritual (anjos, querubins e cia), mas também as do mundo animal.

Aos poucos o caos vai se tornando em harmonia; o barulho se transforma numa fenomenal orquestra! Cada evento vai encontrando o seu lugar na majestosa sinfonia composta pelo Cordeiro. Nada fica de fora de escopo desta restauração! O reino animal, o reino vegetal, e o reino mineral se unem para saudar o Rei dos Reis.

No capítulo anterior, João diz que viu um trono, e Alguém assentado sobre ele, e “ao redor do trono havia um arco-íris” (4:3). Este arco-íris nos remete ao episódio em que Deus fez uma aliança com Noé, e estabeleceu o arco-íris como símbolo dessa aliança. O que poucos observam é que aquela aliança de preservação não se limita ao ser humano, mas abrange toda a criação. Assim afirmou o Senhor: “Agora estabeleço a minha aliança convosco e com a vossa descendência depois de vós, e com TODOS OS SERES VIVENTES que convosco estão; assim as aves, os animais domésticos e os animais selvagens que saíram da arca, como todos os animais da terra (...) Este é o sinal da aliança que ponho entre mim e vós e entre todos os seres viventes que estão convosco, POR GERAÇÕES PERPÉTUAS; O meu arco tenho posto nas nuvens, e ele será por sinal de haver uma aliança entre mim e a terra (...) O arco estará nas nuvens, e eu o verei, para me lembrar da ALIANÇA ETERNA entre Deus e todos os seres viventes de todas as espécies, que estão sobre a terra” (Gn.9:9-10,12-13,16).

Esta aliança jamais vai caducar. Não tem prazo de validade a ser vencido. Por ser eterna, ela não perdeu a validade com o lançamento da Nova Aliança, antes foi confirmada. Oséias, profetizando acerca da Nova Aliança, disse: “Naquele dia farei por eles aliança com os animais do campo, com as aves do céu e com os répteis da terra” (2:18). A Nova Aliança diz respeito à salvação do homem, e, por conseguinte, à restauração da ordem criada. O coral só estará completo quando as vozes angelicais, e as vozes humanas unirem-se às vozes de toda criatura, incluindo os pássaros, os répteis, os mamíferos e os peixes."Tudo o que tem fôlego louve ao Senhor!" (Sl.150:6).

quinta-feira, junho 23, 2016

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Para quem ainda tem esperança de mudar sua igreja



Por Hermes C. Fernandes

Todas as semanas recebo na Reina amigos que me acompanham pelo blog e pelas redes sociais. Alguns acabam ficando, por se identificarem com a mensagem e a proposta da igreja. Outros, apesar de se sentirem atraídos, preferem permanecer em suas respectivas igrejas, mesmo não concordando com o que ali é dito e feito. Não sou daqueles que costumam pescar no aquário alheio. Se a pessoa se apresenta como desigrejada, convido-a a frequentar nossos cultos regularmente. Sei o bem que isso poderá fazer à sua alma. Mas se diz que já congrega e está firme em sua igreja, não faço o menor esforço para trazê-la para a Reina. Todavia, há algo que tenho ouvido com certa frequência e que me deixado um tanto quanto preocupado. Alguns alegam não deixarem suas respectivas igrejas por confiarem que sua permanência ali poderá provocar mudanças. Adoraria poder dizer que tal esperança seja plausível. Porém, minha experiência diz que, na maioria das vezes, não o é. 

Jesus disse que não se pode colocar vinho novo em odres velhos, pois os mesmos não suportariam o frescor e a acidez do vinho recém fabricado. Resultado: os odres se rompem e o vinho entornado, acaba desperdiçado. Logo, ninguém ganha com isso. Não é bom para o vinho, tampouco para os odres.

Há muitos que leem o que escrevo, ouvem o que prego, e tentam inutilmente implantar a visão reinista em suas comunidades. Depois de tanta energia despendida, sobra a frustração.

Inicialmente, Lutero não pretendia deixar o catolicismo romano para fundar uma denominação. Por muito tempo, ele acreditou ser possível reformá-lo. Mas a própria igreja o expeliu como se fosse um tumor maligno. 

Permita-me tomar-me como exemplo. A igreja a que hoje sirvo tinha um perfil bem diferente quando fui alcançado pela compreensão da graça e do reino de Deus. Éramos uma igreja tipicamente neopentecostal. Tentei adequar a minha mensagem ao sistema da igreja e acabei ferindo o coração de pessoas a quem amava. Tempos depois, foi pedido que eu me retirasse. Comecei uma nova denominação. Tudo caminhava muito bem quando meu pai, líder daquela denominação veio a falecer. Inusitadamente, fui convidado pelo corpo de pastores a retornar e liderar a igreja. Resisti o quanto pude. Mas depois de pedir um sinal inequívoco a Deus, rendi-me à Sua vontade e voltei. 

A igreja tinha cerca de 130 congregações e quase dez mil membros. Nos primeiros dois anos, não perdemos ninguém. Minha estratégia foi ensinar o que havia recebido do Senhor em doses homeopáticas, na esperança de que os odres pudessem ser preservados. Mas tão logo comecei a pregar mais abertamente, a sangria começou. Os odres se romperam. Perdemos milhares de membros, dezenas de congregações.

O próprio Jesus vivenciou algo parecido. De um dia para o outro, a multidão que o acompanhava até para o deserto, totalizando cinco mil homens, fora mulheres e crianças, foi reduzida a um punhado de gente. A diferença era que a multidão buscava por milagres, enquanto os poucos que restaram buscavam-no por causa de Sua Palavra. "Para onde iremos se só Tu tens palavras de vida eterna?", perguntou Pedro, um dos remanescentes.

Se as igrejas midiáticas deixassem suas campanhas e estratégias, e se voltassem para o ensino e a pregação da Palavra, quantos ainda as frequentariam?

De alguns anos para cá, a Reina se estabilizou e retomou seu crescimento. Não perdemos mais nenhuma congregação. A igreja antes inchada, agora começava a crescer saudável e gradativamente. O processo foi duro e doloroso, como um processo de desintoxicação que envolveu, inclusive, crises de abstinência. Mas, sinceramente, valeu a pena. Hoje, sirvo a uma igreja sem os ranços do neopentecostalismo, centrada em Cristo, voltada para fora, engajada na transformação social, de bem com a cultura e a ciência, preparada para as demandas atuais e futuras da sociedade.

Se você é líder de uma denominação ou congregação e estiver disposto a pagar o preço que paguei, não hesite. Mas devo lhe avisar: você vai perder muitas noites de sono. Vai chorar lágrimas de sangue. Vai perder amigos. Ser traído. Poderá ver a igreja se esvaziar da noite para o dia. Porém, posso lhe garantir: será gratificante. O que poderia ser mais gratificante do que ver pessoas se tornando cada vez mais parecidas com Jesus? Saber que elas estão ao seu lado por amarem o evangelho puro, sem misticismo, sem legalismo, sem fundamentalismo. 

Não troco a alegria que tenho por nenhuma que tenha tido anteriormente. Hoje, não temos programas de rádio ou TV como outrora. Até o assédio dos políticos diminuiu (graças a Deus!). Não dirijo um carro novo. Não tenho casa própria. Mas tenho a satisfação de ver nosso povo repartindo seu pão com quase 80 famílias do Lixão de Jardim Gramacho, com a distribuição mensal de cestas básicas. Ademais, tenho a consciência tranquila por estar servindo àqueles que Deus confiou aos meus cuidados. 

Caso você não seja o líder de sua denominação ou congregação, vai por mim: não perca seu tempo tentando mudar o que já está feito. Os odres se romperão e você será acusado de ter destruído "a obra de Deus". No seu lugar, eu procuraria congregar numa igreja cuja visão coincidisse com o que arde em seu coração. Um lugar onde você fosse bênção e não um problema.

Se não der para mudar sua igreja, a saída é mudar de igreja. É bem melhor do que ser um rebelde que discorda de tudo o que lá é pregado. Caso não encontre uma igreja em que possa se adequar, sugiro que comece um pequeno grupo informal de estudos bíblicos num ambiente doméstico, onde você poderá compartilhar do que tem recebido.

Se seu coração estiver dividido, peça direção a Deus. Não se precipite, nem protele em submeter-se à vontade de Deus. 

quarta-feira, junho 22, 2016

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Os excluídos e a quebra de patente da graça



Por Hermes C. Fernandes

Os discípulos foram matriculados num curso intensivo que visava desintoxicá-los de todo tipo de preconceito, a começar pelo que nutriam contra os samaritanos, aquela raça mestiça detestada pelos judeus.

As duas primeiras lições já haviam sido ministradas. A primeira, através de uma parábola. A segunda, através da gratidão de um leproso curado. Mas, nenhuma lição foi tão radical quanto a aprendida à beira de um poço.

O texto parece insinuar que Jesus sentiu-se incomodado por sua popularidade ascendente. O comentário que chegara aos ouvidos dos religiosos era de que o sucesso alcançado por Jesus havia desbancado o ministério de seu primo João, e que o número de pessoas batizadas por seus discípulos ultrapassava em largo o de seu predecessor. Os discípulos devem ter ficado bem confusos quando Jesus resolve deixar aquela região e retornar para a Galileia, onde não gozava de tanta credibilidade e fama. Mais confusos ficaram quando lhes anunciou que era necessário passar por Samaria. A primeira experiência havia sido horrível. Os samaritanos negaram-se a hospedá-los. Como entender o que se passavam na cabeça de Jesus? Havia rotas alternativas, mas Ele insistia em passar por lá.

Quando chegaram numa cidade samaritana chamada Sicar, Jesus sentou-se junto a um poço para descansar, enquanto seus discípulos saíram em busca de comida. Era quase meio-dia, quando uma mulher samaritana se aproximou para tirar água. Sem qualquer cerimônia, Jesus se dirige a ela pedindo-lhe água. Percebendo que ele era judeu, ela questionou sua abordagem: “Como sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” Só o fato de ela ser mulher já se constituía num enorme tabu para aquela época. Homens não abordavam mulher estranhas publicamente. Mas nada pesava mais do que o fato de ser samaritana. Jesus, portanto, quebra dois tabus numa tacada só (Jo.4:1-30).

Todos conhecemos a direção que aquela conversa tomou. Jesus lhe oferece água viva. Mas ela não percebe que se tratava de uma figura de linguagem. A primeira coisa que faz é tentar descredenciá-lo. “Não me leve a mal, mas você não tem como tirar água deste poço fundo" (perdoe-me as paráfrases que usarei a partir deste ponto). Em seguida, ela acaba trazendo à baila questões nevrálgicas que alimentavam a hostilidade recíproca entre seus respectivos povos. A primeira delas era o fato de ambos terem um ancestral comum. “Você não está querendo dizer que é maior que o nosso pai Jacó, está? Foi ele que nos deu este poço!” Era como se ela dissesse: “Não me venha com este papo de que judeus têm o que os samaritanos não têm. Jacó não é pai só de vocês. Ele também é nosso pai! E quem você pensa que é para me oferecer algo que nem mesmo ele pôde dar?”

Jesus não entra na pilha dela. Seu propósito não é o de entrar numa queda de braços para ver quem é o dono da razão. Esse tipo de discussão jamais lhe apeteceu, e, sinceramente, não creio que Ele tenha mudado de lá para cá. Em vez disso, Ele avisa que o tipo de água que lhe oferecia era de natureza diferente daquela:“Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede.” Sua dificuldade de abstrair a impede de entender a metáfora. Não sei se em tom irônico, ela responde: “Ok. Então, me dê logo desta água para que eu não precise mais ficar voltando aqui todo dia pra tirar água.” Sem se fazer de rogado, Jesus lhe faz um inusitado pedido: “Vai, chama o teu marido, e vem cá”. Meio sem graça, ela responde: “Agora, o Senhor me pegou. Não tenho marido!” Creio que ela deva ter pensado: “Ufa! Já estava começando a achar que ele era um profeta ou coisa parecida. Mas se ele desconhece meu estado civil, então, é apenas um estranho querendo jogar conversa fora. Ou talvez, esteja me testando para me passar uma cantada.” Para sua surpresa, Jesus respondeu: “Disseste bem: Não tenho marido; porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.”

Engana-se quem enxerga aí uma abordagem moralista, que visasse expor as fraquezas daquela mulher a fim de condená-la. Longe disso, a pretensão do Mestre era revelar a que tipo de sede Ele se propunha saciar. Sede que a levara a experimentar múltiplos relacionamentos, e que, naquele momento a envolvera numa relação adúltera. Não bastasse o fato de ser mulher e samaritana, ainda por cima tinha uma moral suspeita. Duvido que a comunidade local desconhecesse isso. Estar ali sentado em sua companhia era uma exposição e tanto para Jesus.

“Vejo que és profeta”, retrucou. Constrangida, ela tenta mudar o foco e o rumo da conversa. “Nossos pais adoraram neste monte, e vocês, judeus, vivem dizendo que o lugar certo para adorar a Deus é em Jerusalém.” Jesus não permitiu que a conversa descambasse nem para o moralismo estéril, tampouco para uma discussão teológica. “Mulher, acredite no que vou lhe dizer: está chegando a hora, e se quer mesmo saber, já chegou, em que o importante não é o lugar onde se adora a Deus, se no monte ou no templo em Jerusalém. Esta é uma questão que já deveria ter sido superada! O que importa para o Pai é ser adorado em espírito e em verdade.”

Uma das dificuldades que temos com certos segmentos da sociedade é que sempre trazemos à baila assuntos que já perderam sua relevância há tempos. Tornamo-nos um povo retrógrado, com uma agenda anacrônica e uma teologia que cheira à naftalina. Insistimos em responder a perguntas que deixaram de ser feitas há quinhentos anos. Ignoramos descobertas científicas, avanços sociais, contextos históricos, para impor nossa moral e nossos costumes, fechando-nos inteiramente ao diálogo. Nem sempre Deus está se importando com aquilo que nos tira o sono. “Deus é Espírito”, foi a resposta que Jesus deu à samaritana. Portanto, não queira rebaixá-lo a questiúnculas.

Impressionada, ela confessou-lhe: “Eu estou sabendo que quando o Messias vier, vai nos esclarecer sobre muita coisa”. Jesus respirou fundo, olhou à sua volta para conferir se não vinha ninguém, mirou-a nos olhos e disse: “Eu o sou, eu que falo contigo”. Foi a primeira vez que Jesus se declarou o Messias. E justamente a uma mulher samaritana. Os discípulos jamais haviam ouvido isso de seus lábios. Mas Ele não resistiu e acabou segredando àquela mulher a sua verdadeira identidade.

Recentemente, no episódio em que uma transexual encenou a crucificação em plena parada gay, alguém escreveu em meu perfil: Pai, perdoa-lhe, porque ela não sabe o que faz. Por alguma razão, aquilo me soou desconcertantemente presunçoso. Não resisti e escrevi embaixo: Pai, perdoa-nos, pois não sabemos o que dizemos. Talvez, aquela transexual soubesse mais o que estava fazendo do que nós o que temos dito. Não se escandalize ainda. Deus tem dessas coisas. Ele se revela a quem quer, e não precisa de nossa autorização para isso. Não detemos o copyright de Deus. E se quer mesmo saber, Ele já quebrou esta patente faz tempo, desde que Jesus disse que o vento sopra onde quer, e ninguém sabe de onde veio, nem para onde vai. Se quisermos ser co-partícipes do que Deus está fazendo, precisamos descer de nosso pedestal, abdicar de nossa presunção e admitir a sua atuação para muito além de nosso perímetro eclesiástico.

Quando os discípulos chegaram, flagraram-no papeando com a tal mulher. O texto afirma que eles ficaram estupefatos, porém, não se atreveram a questionar. A mulher, então, deixou de lado o seu cântaro e foi correndo à cidade espalhar entre os seus moradores a sua descoberta. Interessante notar que ela não demonstrou estar certa de nada acerca d’Aquele que se revelara o Cristo. O convite que fez aos seus concidadãos foi: “Venham e vejam um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será que ele não é o Cristo?” Resultado: a cidade inteira saiu ao encontro de Jesus.


O que move o mundo não são as respostas, mas as perguntas. Soa presunçoso demais apresentar-nos ao mundo como possuindo todas as respostas. É mais honesto dizer como ela, e admitir que ainda não sabemos de tudo quanto gostaríamos de saber. As pessoas se sentem bem mais à vontade seguindo quem tem as perguntas certas, do que quem afirma ter respostas para todas as questões. 

Há uma passagem onde Jesus ordena que dois de seus discípulos providenciassem um local para sua última ceia. Em vez de lhes dar um endereço certo, Ele s orienta a seguir um jovem que aparecesse nas ruas carregando um cântaro. Na porta por onde ele entrasse, eles deveriam se apresentar e dizer que seu mestre pretendia festejar a páscoa lá. Àquela época, era raríssimo flagrar um homem em atividades domésticas como aquela. Buscar água era atividade restrita às mulheres. Pois Deus usa um jovem que estava quebrando um tabu sexista para guiar os discípulos de Jesus ao lugar que lhes serviria de cenário não apenas para a santa ceia, mas também para a descida do Espírito Santo cerca de cinquenta dias depois. 

Continua em breve.

terça-feira, junho 21, 2016

18

Einstein, a Cruz e as viagens no tempo



Por Hermes C. Fernandes

Devemos supor que o futuro já tenha sido escrito? Não! Muito mais do que isso. O futuro já é real. No universo descrito por Einstein através de sua Teoria da Relatividade, tudo está escrito. Nossas escolhas já estão escritas no tecido da realidade. Isso parece concordar com a declaração do salmista:

Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles. E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grande é a soma deles!” Salmos 139:16-17

O que os antigos se referiam como “livro”, talvez hoje pudesse melhor ser compreendido como um gigantesco computador cósmico.  Neste “computador” tudo está arquivado; passado, presente e futuro são arquivos igualmente acessíveis. Tudo o que aconteceu desde o início da história até o seu fim existe ao mesmo tempo. Esse “computador” é o próprio Universo.  

O livro de Deus a que se refere o salmista reaparece nas páginas do Apocalipse. Arrebatado à sala do trono do Todo-Poderoso, João descreve a cena em que vê “na mão direita do que estava no trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos” (v.1). João deve ter se perguntado que livro era aquele. Por que estava lacrado? Por que era escrito por dentro e por fora? Aquele era o livro da existência.  O registro de toda a história, englobando o papel de cada elemento do Universo. Além dos fatos em si, nele também se encontra a interação entre eles e o propósito divino por trás deles. Ali estava o projeto de Deus, pronto para ser desencadeado. Naquele rolo estava escrito a História do Cosmos, desde o momento singular, até o seu desfecho. Criação, Queda, Redenção, Restauração e Juízo, tudo estava ali. A História de cada partícula, de cada ser vivo, de cada família, de cada nação. É claro que esse livro não deve ser entendido literalmente. Ele representa a vasta soma dos pensamentos de Deus relativos à Sua Obra. Paulo ficou igualmente estupefato diante desta realidade: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que seja recompensado? Porque dele e por ele e para ele são todas as coisas. Glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm.11:33-36).

O fato de o livro estar selado aponta para a inescrutabilidade dos decretos divinos. Estar escrito por dentro e por fora indica que o propósito de Deus abarca a criação como um todo, tanto a visível quanto a invisível, a material e a espiritual, a macro e a micro. Ali a mecânica quântica e a Teoria da Relatividade se encaixam perfeitamente.  Nenhuma dimensão da existência está fora do escopo do projeto de Deus.

João prossegue em seu relato: “Vi também um anjo forte, bradando com grande voz: Quem é digno de abrir o livro, e de lhe romper os selos? E ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para ele. E eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para ele” (vv.2-4). Não havia ninguém capaz de dar o pontapé inicial, o start para que o projeto de Deus fosse deflagrado. Pra que a trama começasse e fosse bem sucedida, alguém teria que romper os selos, os lacres do misterioso livro. Mas teria que ser alguém digno disso. João se desespera enquanto assiste apreensivo. “Todavia um dos anciãos me disse: Não chores! Olha, o Leão da Tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos” (v.5). Alguém que emerge de dentro daquele pergaminho, que apesar de viver para além do tempo e do espaço, emerge de dentro da história, apresentando-se no cenário como o personagem principal da trama, como aquele que venceu para abrir o livro. Esse personagem é apresentado como que se identificando com duas etapas distintas da História, mas que estão intimamente conectadas. Ele é o Leão da Tribo de Judá, e o Descendente prometido por Deus a Davi, para ocupar seu trono. Ele também é a semente da mulher, o Descendente de Abraão, o Messias de Israel, o Cristo de Deus.

Ele existe dentro e fora da História. N’Ele se conecta o cronos e o kairós, o tempo e a eternidade. Ele é o ponto de convergência de todas as dimensões que possam existir. Ele é o diapasão pelo qual as cordas encontram sua fina sintonia.

“Então vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes, e entre os anciãos, em pé, um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados por toda a terra. E veio e tomou o livro da mão direita do que estava assentado no trono” (vv.6-7).

Cristo surge como o centro gravitacional de tudo. Ele está no meio do trono e tudo O orbita. O Cordeiro visto por João se apresenta “como havendo sido morto”. Portanto, trata-se do Cristo Crucificado, aquele de quem Paulo diz: “Pois nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co.2:2). O sacrifício de Cristo foi o detonador da História. A História não começa com a criação de todas as coisas, e sim com o sacrifício do próprio Criador. O Cosmos surge a partir da Cruz.

Os sete chifres do Cordeiro representam Sua Onipotência, enquanto Seus sete olhos representam Sua Onisciência e Onipresença. Portanto, o Cordeiro é o próprio Deus, pois compartilha de todos os atributos incomunicáveis da Divindade.

João prossegue: “Logo que tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos” (v.8). Ora, como poderiam ser as orações dos santos, se tudo isso ocorre antes da abertura do livro, e, portanto, antes da fundação do mundo? Mais uma vez Davi nos responde: “Sem que haja uma palavra na minha língua, ó Senhor, tudo conheces” (Sl.139:4). Sua presciência permite que todas as orações dos santos estejam diante d’Ele, mesmo antes de terem sido feitas. Todos os ingredientes estavam postos diante do Trono. Louvores, orações, e acima de tudo, Alguém digno de abrir o livro, e iniciar o processo histórico, que culminaria com a glória de Deus revelada à Criação.

Imagine um livro em forma de um rolo de pergaminho. Ele não é encadernado como os livros de hoje. Trata-se de uma grande tira de pergaminho, enrolada pelas duas pontas. Quando seus selos são rompidos, ele começa a desenrolar-se por igual. O lado esquerdo pode representar as coisas passadas, e o lado direito, as futuras. A Cruz entra no meio, e faz com que o rolo se abra para os dois lados. Tudo acontece na Cruz, com a morte do Cordeiro. A História começa na Cruz, mas já surge contendo um passado e um futuro. No Kairós, a Cruz é o ponto inicial. Mas no Cronos, a Cruz ocorre na plenitude dos tempos.

Deus cria o mundo a partir da Cruz. Mas o cria já com um passado e um futuro. Ainda que os cientistas tenham razão em dizer que o Universo tem 15 bilhões de anos, aos olhos de Deus, esse universo veio a existência a partir da Cruz, como que instantaneamente.

Ali o rolo se abriu, para esquerda e para direita. Nada existia antes da Cruz, pelo menos, não da perspectiva divina. Há quem defenda a hipótese de que Deus possa ter criado as coisas com aparência de certa idade. Mas tudo não passaria de “aparência”. Portanto, a Terra “aparenta” ter 4,5 bilhões anos, mas seria, de fato, muito mais jovem (aproximadamente 6 mil anos, defendem). Os que advogam tal hipótese, argumentam que Adão fora criado já adulto. Quem quer que o encontrasse, lhe atribuiria certa idade, ainda que ele houvesse sido criado um dia antes. Pode parecer um argumento plausível, pelo menos do ponto de vista teológico. Entretanto, não me parece ser este o modus operandi de Deus.

Por que Jesus não surgiu no mundo já em idade adulta? Por que Ele teve que ser gerado no ventre de uma mulher, e experimentado cada etapa do desenvolvimento humano? Se esse fosse o modus operandi de Deus, haveríamos de esperar que o mesmo se sucedesse com o advento de Jesus. Em vez de acreditar que Deus criou um Universo aparentemente velho, prefiro acreditar que Deus criou um Universo já com uma História pregressa, e um futuro glorioso. Não creio que Deus faria alguma coisa com a intenção de criar uma ilusão de ótica.

Portanto, concluímos que a Cruz é o início de tudo. Nada existia antes dela! Sem que o Cordeiro fosse morte antes da fundação do mundo[1], não haveria nada que cobrisse a nudez do primeiro casal. Nossa culpa foi expiada mesmo antes que houvéssemos pecado.

Como já vimos, o livro em forma de pergaminho visto por João é o universo. Retomando a analogia do computador, o universo é o hardware, enquanto que a Mente de Cristo é o software.  As estrelas equivalem aos neurônios da mente de Cristo. O universo é o corpo cósmico de Cristo. Ao encarnar, o Logos Divino assumiu nossa humanidade, e, ao ascender ao céu, assumiu o cosmos inteiro.

De acordo com a teoria da relatividade de Einstein, o tempo é a quarta dimensão de um espaço tridimensional que é encurvado pela gravidade. O espaço curvo de Einstein lembra o livro da existência em Apocalipse. É também neste mesmo livro que o universo é apresentado “como um livro que se enrola” (Ap.6:14). Mais de setecentos anos antes, Isaías já havia previsto que “os céus se enrolarão como um livro” (Is.34:4).

O que tudo isso tem a ver com viagem no tempo? Os físicos só admitem a possibilidade de viagens no tempo, ainda que hipoteticamente, por causa da teoria da relatividade de Einstein. Segundo esta teoria, o espaço é curvo e, assim, o nosso universo é dobrado várias vezes sobre si mesmo, e que pode ser conectado a vários outros universos paralelos através de “túneis de tempo” produzidos por buracos negros e buracos de minhoca (wormholes).[2] Tal teoria não apenas possibilitaria viagens no tempo, mas também viagens a longas distâncias no espaço. Assim, uma distância que deveria ser percorrida em milhões de anos na velocidade da luz, seria percorrida em segundos por esses atalhos cósmicos.

Imagine um rolo de papel. Se desenrolado, uma formiga precisaria de uma hora caminhando para alcançar de uma a outra extremidade. Porém, se o mantivermos enrolado e com um lápis fizermos um furo que o penetre até o outro lado, esta mesma formiga poderia alcançá-lo em segundos.

Não existe movimento espacial sem movimento temporal. Isto é, no espaço-tempo não é possível a um corpo se mover nas dimensões espaciais sem se deslocar no tempo. Mas mesmo quando não nos movemos espacialmente, estamos nos movendo na dimensão temporal (no tempo). Mesmo sentado em sua cadeira enquanto lê este artigo, você está se movendo no tempo, para o futuro. Este movimento é tão válido na geometria do espaço-tempo quanto os que estamos habituados a ver em nosso dia a dia. Portanto, no espaço-tempo estamos sempre em movimento, e a nossa ideia de estar parado significa apenas que encontramos uma forma de não nos deslocarmos nas direções espaciais, mas apenas no tempo.

A maneira como encadernamos nossos cadernos escolares também nos oferece uma boa analogia para compreendermos a teoria da relatividade. Apesar das folhas serem soltas e as páginas sequenciais, elas são presas por uma espécie de espiral. Este arame espiralado perpassa todas as folhas várias vezes através dos buracos que as pontilham de cima a baixo.

Seguindo a analogia, cada página da história poderia ser revisitada inúmeras vezes por alguém advindo de uma dimensão atemporal. Ninguém menos que o próprio Deus seria este “Alguém”. Que Ele dispõe de tal poder, ninguém ousa duvidar. A questão é se Ele já ofereceu carona a alguém. Tenho razões para crer que sim.

Como já disse em outro artigo, o profeta Elias poderia ter sido uma destas. De acordo com o relato bíblico, um redemoinho o teria arrebatado.  Repare nos detalhes:
“E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel, e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, pegando as suas vestes, rasgou-as em duas partes. Também levantou a capa de Elias, que dele caíra; e, voltando-se, parou à margem do Jordão.” 2 Reis 2:11-13
Não foi o carro de fogo que o tomou, mas um redemoinho. O carro de fogo apenas o separou de Eliseu. O redemoinho poderia ter sido um buraco de minhoca em forma espiralada, uma dobra aberta no tempo. Outro detalhe interessante é que as vestes de Elias ficaram para trás. Isso nos remete a uma das cenas de viagem no tempo mais marcantes do cinema, em que Arnold Schwarzenegger aparece completamente nu, vindo do futuro. De onde os roteiristas de Hollywood teriam tirado a conclusão de que não seria possível transportar um corpo pelo tempo juntamente com sua roupa?

Outro episódio misterioso das Escrituras é o do homem que aparece inusitadamente nas páginas de Marcos completamente nu, usando um lençol para cobrir-se, enquanto Jesus é preso pelos soldados do sinédrio.
“E um certo jovem o seguia, envolto em um lençol sobre o corpo nu. E lançaram-lhe a mão. Mas ele, largando o lençol, fugiu nu.” Marcos 14:51-51 
Quem era? De onde viera? Por que surge e desaparece misteriosamente? Por que estaria nu numa hora daquelas? Seria um viajante do tempo? Possivelmente. Não vejo outra explicação para o fato de estar nu, senão que tenha tido viajado no tempo com a intenção de assistir, ou quem sabe, tentar impedir a prisão de Jesus.

P.S.: Recebi um comentário neste artigo que me achou a atenção, e que abriu ainda mais o leque da questão nele abordada. Ei-lo: "Em Gênesis 1:5 lemos: "...E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro". A expressão é mencionada seis vezes no capítulo 1, sempre se referindo aos dias da criação. O interessante é que pela lógica do cronos, ou cronologia, a expressão deveria ser: "e foi a manhã e a tarde." Mas na lógica do kairós, ou da kairosfera, o início se dá à tarde, pois foi à tarde, mas precisamente às quinze horas que Jesus foi crucificado. E a expressão termina com "a manhã", pois foi pela manhã que Ele ressuscitou, o que, para o nosso tempo cronológico durou três dias. Mas na criação, Deus já antevia a morte e ressurreição de Jesus."

Outros artigos meus sobre o tema aqui e aqui.



[1]  1 Pe.1:19-20 - “...mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o que, na verdade, foi conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto nestes últimos tempos por amor de vós”Ap.13:8b - “...O cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.
[2] A Ponte de Einstein-Rosen é um conceito teórico que vislumbra a hipótese da existência de buracos negros ou buracos de minhoca.