quarta-feira, fevereiro 25, 2015

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A controvérsia da doutrina da Eleição



Por Hermes C. Fernandes


Muito tem sido debatido acerca da doutrina da eleição. De um lado, encontramos os calvinistas, defensores do direito que Deus tem de escolher quem quer que seja, sem ao menos consultar a vontade humana. Do outro, os arminianos, advogando o direito humano de ser consultado, e ter sua vontade respeitada, mesmo pelo seu Criador. Ambos vêm se digladiando há séculos. Afinal de contas, a Bíblia respalda tal doutrina? 

Não é preciso muito conhecimento do texto sagrado para dar-se conta de que tal doutrina é amplamente difundida ali. De Gênesis a Apocalipse. Mesmo o mais ferrenho arminiano terá que admitir. Ou Deus não escolheu a Noé para construir a Arca e salvar o remanescente humano do dilúvio? Ou também não escolheu a Abraão para originar a estirpe que traria Jesus ao Mundo? E igualmente não escolheu a Davi dentre todos os seus irmãos? E por aí vai…

O problema não é a doutrina da eleição em si, mas a maneira como ela tem sido exposta e defendida.

Primeiro, a eleição jamais foi um fim em si mesma, como sugerem alguns calvinistas. Mas tão-somente um meio para alcançar um fim maior. Por exemplo: Deus escolhe a Noé para garantir a perpetuação da raça humana. Portanto, um foi escolhido para o bem de todos. Deus escolhe a Abraão para que por ele e sua descendência todas as famílias da Terra fossem abençoadas. E o que dizer de Paulo, chamado por Deus de "vaso escolhido" para fazer conhecido entre os gentios o mistério do Evangelho? Mais uma vez, um foi escolhido para o bem de todos.

Apesar disso, Israel parece não ter compreendido bem sua posição como povo escolhido para benefício de todos os povos, e arrogou para si o monopólio do sagrado. Creio que justamente nesta vala que a igreja tem caído. Em nossa pobre concepção, ser eleito é sinônimo de ser os únicos com os quais Deus Se importa, os detentores do copyright de tudo quanto é sagrado, os prediletos. Ora, a mesma Bíblia que afirma nossa eleição, também declara que Deus não faz acepção de pessoas.

Costumo usar uma analogia para tentar explicar a maneira como a igreja tem se portado quanto à doutrina da eleição. A humanidade é um navio naufragante como o Titanic. Os calvinistas, preocupados em salvar sua pele, declaram terem sido escolhidos pelo comandante da nau a ocupar os botes salva-vidas. Os arminianos, por seu turno, se amotinam reivindicando o direito de serem salvos à despeito do que diga o comandante. Para eles vale o “salve-se quem puder”, ou melhor, “quem quiser”. Enquanto isso, aqueles que realmente creem na eleição esboçada nas Escrituras, reúnem-se com o comandante para consertar o navio. Nem calvinismo, nem arminianismo. Eu chamaria tal postura como “reinismo”, pois os que a defendem acreditam que o reino de Deus foi introduzido no mundo para garantir a redenção da humanidade, e a restauração de tudo quanto o pecado danificou. Dentro desta perspectiva, o último capítulo na história da redenção será o cumprimento da promessa de que “Deus seja tudo em todos” (1 Co.15:28).

Portanto, não podemos transformar a eleição numa doutrina que nutra nosso orgulho religioso, fazendo-nos acreditar que fomos preferidos, enquanto todos os demais foram preteridos por Deus. Não estou aqui defendendo que no final das contas todos serão igualmente salvos. Não vem ao caso. E sim que devemos voltar nossos esforços para alcançar a todos, ainda que alcancemos apenas a alguns. Como disse Paulo: “Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (1 Co. 9:22).

Qual será nossa surpresa se no final descobrirmos que muitos daqueles que se julgavam “escolhidos” estiverem entre os réprobos, enquanto que outros a quem desprezávamos, reputando-os como irremediavelmente perdidos estiverem entre os redimidos?

O fato de sermos escolhidos não deve fazer com que nos enxerguemos como tais. Devemos manter-nos humildes, e sempre dependentes da misericórdia divina. Postura semelhante era adotada por Paulo, o apóstolo que mais falou da preciosa doutrina da eleição:

“Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Por isso todos quantos já somos perfeitos, sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará.” Filipenses 3:10-15

Não basta sabermos o que somos, mas também como nos sentimos com relação a isso. Não façamos da eleição uma justificativa para sentir-nos superiores aos demais. Mesmo que sejamos “perfeitos”, no sentido de que nossa debilidade é suprida em Cristo, admitamo-nos perfeitamente imperfeitos. Ainda que aos olhos de Deus a obra esteja acabada, percebemo-nos em processo de acabamento. Ele nos santificou, todavia devemos buscar a santificação. Ele nos justificou, todavia devemos encarnar a justiça do Reino de Deus. Ele nos predestinou, contudo devemos perseverar até o fim. Ele nos abençoou, porém devemos buscar ser bênção na vida de todos. Nas palavras de Pedro, devemos procurar fazer cada vez mais firme a nossa vocação e eleição, porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçaremos (2 Pe. 1:10).

Na esperança de não ser mal interpretado, ouso aqui citar Nietzsche: "Grande, no homem, é ser ele uma ponte, não um objetivo: o que pode ser amado no homem é ser ele uma passagem e um declínio. Amo aqueles que não sabem viver a não ser como quem declina, pois são os que passam."

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

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Deus e suas pegadinhas...




Por Hermes C. Fernandes

Sempre haverá quem se aproveite dos momentos de transição ou crise para rebelar-se contra a ordem estabelecida, seja para o bem ou para o mal. Só precisam de uma justificativa plausível para ficar bem com a opinião pública.

Assim foi com Mesa, rei dos moabitas. Por anos ele serviu a Acabe, rei de Israel. Pagou impostos altíssimos, sem sequer reclamar. Eram cem mil cordeiros, e cem mil carneiros com a sua lã. Mas tão logo Acabe morreu, e seu filho Jorão assumiu seu trono, Mesa se revoltou e resolveu romper com Israel. A troca de gestão foi apenas o pretexto perfeito para rebelar-se.

Jorão, ainda inexperiente, pra não abrir um precedente em seu reino, buscou a ajuda do rei de Edom, e de Josafá, rei de Judá.

Josafá era homem temente a Deus, bem diferente de Acabe, pai de Jorão. Porém, aceitou entrar numa guerra que não era sua. Talvez ambos os reis temessem que a rebelião de Mesa provocasse uma espécie de “efeito dominó”. Abria-se um precedente para que outros reinos se rebelassem, e assim, tanto Israel, quanto Judá e Edom corriam o risco de se tornarem um caos político.

Jorão tentara livrar-se do estigma deixado por seus pais, Acabe e Jezabel. Ele não queria ter o mesmo fim que eles. Em vez deles, ele elegeu outro referencial, Jeroboão. O texto sagrado relata que Jorão “aderiu aos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fizera pecar a Israel” (2 Reis 3:3). Em outras palavras, Jorão trocou seis por meia-dúzia.

Sem consultar a Deus, os três reis saíram em direção a Moabe, pelo caminho do deserto de Edom. “Após andarem rodeando durante sete dias, não havia água para o exército, nem para os animais que os seguiam. Então disse o rei de Israel: Ah! O Senhor chamou estes três reis para entregá-los nas mãos dos moabitas” (vv.9-10). Ora, que direito Jorão tinha de reclamar assim? Fora ele quem decidira por qual caminho subir. Não podemos tomar a soberania de Deus como justificativa para nossos fracassos. Interessante notar que quando o homem é bem-sucedido, usurpa todos os créditos para sim. Mas quando experimenta um fracasso, logo busca a quem culpar. E às vezes, petulantemente, culpa o próprio Deus.

Que bom que Josafá estava ali. Ele poderia estar se perguntando por que havia se metido naquela furada. Mas em vez disso, perguntou: “Não há aqui algum profeta do Senhor, para que consultemos ao Senhor por ele?” (v.11). Eis a diferença entre Jorão e Josafá. Enquanto Jorão buscava respaldar-se em Jeroboão, que foi o rei responsável pela divisão entre Israel e Judá, Josafá buscava respaldar-se em Deus, origem de toda autoridade. Jorão bebia de uma fonte turva e amarga. Josafá bebia de uma fonte cristalina. Jorão se alimentava do pão da rebelião. Josafá se alimentava do pão da vida.

Um dos servos de Jorão respondeu: “Aqui está Eliseu, filho de Safate, que deitava água sobre as mãos de Elias. Disse Josafá: Está com ele a palavra do Senhor. Então o rei de Israel, Josafá e o rei de Edom desceram a ter com ele” (vv.11b-12).

O que interessava a Josafá, era saber com quem estava a Palavra do Senhor. Por que Eliseu? Porque Eliseu havia sido fiel a Elias até a sua partida. A Palavra do Senhor é água cristalina, que só pode jorrar de canais fiéis. Quando o servo de Jorão referiu-se a Eliseu como aquele que“deitava água sobre as mãos de Elias”, Josafá não teve dúvida. Era esse que eles precisavam ouvir. Sua referência era bem diferente da referência de Jorão.

Jorão se espelhava em Joroboão, que usurpou o trono de Salomão. Em outras palavras, Jorão bebia da fonte da infidelidade. Quando Eliseu viu aqueles reis se aproximarem, recusou-se recebê-los. Fitando os olhos de Jorão, Eliseu bradou: “Que tenho eu contigo? Vai aos profetas de teu pai e aos profetas de tua mãe. Porém o rei de Israel lhe disse: Não, porque o Senhor chamou estes três reis para entregá-los nas mãos dos moabitas” (v. 13).

Jorão era um legítimo representante de uma dinastia maligna que se levantara em Israel. Vê-lo fazia com que a memória de Eliseu fosse remetida às perversidades cometidas por seus pais, Acabe e Jezabel. Mas quando percebeu que Jorão se fazia acompanhar de Josafá, Eliseu reconsiderou sua posição, e disse: “Tão certo como vive o Senhor dos Exércitos, em cuja presença estou, se eu não respeitasse a presença de Josafá, rei de Judá, não olharia para ti, nem te veria” (v.14). Ufa! Esta passou por pouco! Que sorte a de Jorão, estar acompanhado de um legítimo representante de uma dinastia iniciada na fidelidade.

O encontro entre Jorão e Josafá era como o encontro entre as águas escuras do rio Negro e as águas limpas do Solimões. Eles se encontram, mas não se misturam. Há convergência, mas não há comunhão.

Em respeito à presença de Josafá, Eliseu decidiu ajudá-los. Mas não sem antes fazer uma exigência: “Mas agora trazei-me um harpista. Enquanto o harpista tocava, veio sobre Eliseu a mão do Senhor, e disse: Assim diz o Senhor: Fazei neste vale muitas covas, porque assim diz o Senhor: Não vereis vento, nem vereis chuva, contudo este vale se encherá de água, e bebereis vós, o vosso gado e os vossos animais” (vv.15-17). Imagine milhares de homens cansados, exauridos, sedentos, tendo que cavar buracos no meio do deserto. Simplesmente não fazia qualquer sentido. Talvez, enquanto cavassem, alguns comentassem entre si: Estamos cavando nossas próprias covas. Mas as coisas nem sempre são o que parecem. O que não faz sentido agora, poderá fazer num futuro próximo. Se ordem de Deus é cavar, então, o que é que está esperando? Cave!

Não se preocupe com os comentários maldosos. Apenas obedeça às instruções divinas, mesmo que não façam sentido. Deus prometera, por intermédio de Eliseu, que viria água capaz de saciar todos os soldados, bem como seus animais. Porém, tais águas não viriam pelos meios comuns. Não haveria chuva, nem vento. Deus faria algo diferente que os surpreenderia.

Aprendi desde cedo que nossos pedidos a Deus devem ser sempre bem específicos. Porém hoje, acredito que quando somos muito específicos, corremos o risco de subestimarmos o Seu poder.

Não podemos colocar nossas expectativas nos meios usados por Deus. Em vez de colocá-las nos canais, devemos colocá-las na Fonte. Deixemos que Ele escolha por quais meios vai nos atender. Afinal de contas, Ele é Deus que decreta os fins e estabelece os meios.

O profeta concluiu:
“Ainda isto é pouco aos olhos do Senhor; também entregará ele os moabitas nas vossas mãos”(v.18).
Espera aí! O que é que eles estavam fazendo ali no meio do deserto? Qual era o seu objetivo inicial? Eles não estavam ali à passeio, estavam? Óbvio que não. Seu objetivo era o empreendimento de uma campanha militar. A escassez de água fez com que eles se esquecessem do propósito original de sua jornada.

Quantas vezes deixamos de ser guiados por propósito, pra ser guiados por necessidades? A vida só faz sentido quando mantemos o foco num propósito maior que nossa própria existência. Não vela a pena viver apenas em função da manutenção da própria existência. Jesus disse que a vida vale mais que o alimento.

Não deixe que suas necessidades imediatas ofusquem seus objetivos principais. Muitas pessoas são induzidas a pensar que seu relacionamento com Deus só serve para o suprimento de suas necessidades. O “deus” que elas cultuam está mais para o gênio da lâmpada de Aladim, do que para o Deus revelado nas Escrituras.

É claro que Deus se interessa em suprir nossas necessidades! Se não, Paulo não teria dito: “E o meu Deus suprirá todas as vossas necessidades segundo a sua gloriosa riqueza em Cristo Jesus” (Fp.4:19). Entretanto, isso ainda é pouco aos olhos do Senhor.

O próprio Jesus demonstrou isso, ao declarar: “Portanto, não andeis ansiosos, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? (...) De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas elas. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt. 6:31,32b).

Ele quer nos suprir e saciar, pra que prossigamos na execução dos Seus propósitos neste mundo. Cuidado para não transformar os meios em fins!

Voltemos para o texto que estamos considerando:
“Na manhã seguinte, na hora da oferta dos cereais, vinham as águas pelo caminho de Edom, e a terra se encheu de água” (v.20).
Não me pergunte como, que não saberei lhe responder. Só sei que a promessa de Deus se cumpriu. As águas irromperam e vieram pelo caminho de Edom. Interessante notar um detalhe: as águas vieram justamente da terra daquele rei cujo nome sequer é citado no texto. Os figurões eram Jorão e Josafá. O rei de Edom estava ali só de figurante. Mas foi de lá, de Edom, que as águas jorraram.

Deus gosta de fazer surpresa. Ele faz com que a provisão venha por canais que não esperamos, para aprendemos a depender da fonte, e não de um canal específico. A história não termina aqui. Há uma guerra a ser travada.
“Ouvindo todos os moabitas que os reis tinham subido para pelejar contra eles, convocaram-se todos os que cingiam cinto desde o mais novo até o mais velho, e puseram-se às fronteiras. Levantaram-se os moabitas cedo de manhã e, brilhando o sol sobre as águas, viram diante de si as águas vermelhas como sangue, e disseram: Isto é sangue! Certamente os reis se destruíram, e se mataram um ao outro! Agora, à presa, moabitas!” (vv.21-23).
Você sabia que Deus também faz pegadinhas? Ele sabe o quanto somos enganos por nossas próprias percepções. Lembra das covas que Eliseu mandou que cavassem? A que propósito serviriam? Confundir os inimigos.

Os moabitas foram enganados por seus sentidos. O reflexo da luz solar sobre as covas cheias de água, produziu um efeito que sugeria sangue. A seu juízo, os exércitos ali reunidos tinham brigado entre si, e se auto-destruído. Por isso, guardaram suas espadas, e foram afoitos em busca dos despojos. Quando entraram no arraial... SURPRESA!

Os soldados já estavam prontos para dar-lhes a recepção que mereciam. Nem tudo parece o que é. Somos sempre ludibriados por nossos sentidos e emoções. Por isso, deixe-se conduzir por convicções, não por emoções; por propósitos, não por necessidades.

Por que ficar preocupados com aquilo que dizem sobre nós? Não temos que provar nada a ninguém. Que pensem o que quiserem! Que achem que estamos cavando nossa própria cova. Ou que nos autodestruímos. A verdade sempre prevalecerá! O tempo a revelará.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

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Por que Deus permite o martírio de cristãos?

A legenda da TV árabe diz: "Eles suplicaram àquilo que adoram e morreram por seu paganismo."


Por Hermes C. Fernandes

A covarde execução dos vinte e um cristãos coptas pelo ISIS despertou reações inusitadas por parte de muitos ao redor do mundo. Alguns se solidarizaram, inclusive muçulmanos, outros protestaram clamando por justiça, e alguns questionaram. Por que Deus não intervém? Por que permite o massacre de gente inocente? Haveria algum propósito nisso? 

Anos atrás, em meu comentário sobre o Apocalipse (ainda a ser publicado), escrevi sobre o clamor dos mártires registrado no último livro da Bíblia. Creio que aquela passagem nos traga algum alento sobre a questão.  Admito que é um artigo longo, mas espero que reserve um tempo para lê-lo. 

Ei-lo:

O livro que o Cordeiro recebeu das mãos do Ancião de Dias era escrito por dentro e por fora. Isto significa que o propósito de Deus abarca a criação como um todo, tanto a visível, quanto a invisível; tanto a material, e física, quanto a espiritual. Estar escrito por dentro aponta para a realidade invisível aos olhos humanos, portanto, espiritual; enquanto que, estar escrito por fora aponta para a realidade material e visível.

Os juízos de Deus visam a implementação do Seu eterno propósito para toda a criação, incluindo todas as nações da terra. Agora, porém, a atenção de João se volta deste mundo para o mundo invisível. Ele relata:
"Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que deram.” Apocalipse 6:9

Temos boas razões para acreditarmos que as almas ali vistas eram dos santos que foram martirizados ainda sob a Antiga Aliança. Uma delas é o fato de estarem sob o altar de Deus, e não sobre o altar, como estariam os que fossem martirizados sob a Nova Aliança (Fp.2:17).

Aqueles santos mártires estavam sob a proteção do Altíssimo, mas ainda não haviam sido recompensados. E o que eles estariam fazendo ali? João diz que eles“clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Soberano, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (V.10).

Essas orações imprecatórias fazem parte do propósito de Deus. Davi diz em seu salmo que a sua oração seria sempre contra os feitos dos ímpios (Sl.141:5b). Não se trata aqui de orar contra pessoas, mas contra os seus feitos. Orar também é denunciar o que está errado em nossa sociedade; é clamar por justiça (Leia Is.59:4); é conspirar contra as estruturas injustas.

Em resposta aos seus anseios, “foram dadas a cada um deles compridas vestes brancas, e foi-lhes dito que repousassem ainda por pouco tempo, até que se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos, como também eles foram” (v.11).

Que significado teriam essas vestes brancas? É ponto pacífico que tais vestes simbolizem a Justiça de Cristo. Foi a morte de Cristo que possibilitou que os santos da Antiga Aliança fossem aperfeiçoados, e recebidos na Plenitude da Glória Celeste. Até aquele momento, eles estavam sob o altar de Deus, mas agora, eles eram aperfeiçoados (lit.completados). Eles são aqueles de quem o Escritor Sagrado diz que “experimentaram escárnios e açoites, e até algemas e prisões. Foram apedrejados; foram tem-tados; foram serrados pelo meio; foram mortos ao fio da espada. Andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, aflitos e maltratados ( dos quais o mundo não era digno ), errantes pelos desertos e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, embora tendo recebido bom testemunho pela fé, contudo não alcançaram a promessa. Deus havia provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hb.11:36-40).

Embora o clamor daqueles santos chegasse a Deus, eles somente seriam aperfeiçoados a partir do momento em que, na Cruz, Cristo fizesse provisão completa pelos santos de todas as eras. Podemos então compreender o motivo pelo qual, sem nós, eles não seriam aperfeiçoados. Na Cruz, Cristo atraiu para Si os santos de todas as eras, e com uma só oferta os aperfeiçoou para sempre (Hb.10:14). Por meio de Cristo, tanto nós que vivemos sob a Nova Aliança, quanto os que viveram sob a Antiga, alcançamos a plenitude. Fomos aperfeiçoados; atingimos a maturidade espiritual. No dizer de Paulo, o sacrifício de Cristo nos fez idôneos à parte que nos cabe da herança dos santos na luz (Col.1:12). E mais:“Nele estais aperfeiçoados”, garante o apóstolo (2:10). Agora, os santos de todas as eras formam um só grupo: A universal assembléia, formada pelos espíritos dos justos aperfeiçoados (Hb.10:23).

Podemos ainda compreender isso de outro ângulo: os santos que morreram sob a Antiga Aliança só seriam atendidos e vindicados, quando fossem “completados” em seu número. “Aperfeiçoar” também significa completar. A galeria dos heróis da fé não estaria completa enquanto não fosse completada pelos mártires da Nova Aliança. Assim, podemos entender o aperfeiçoamento dos santos da Antiga Aliança como sendo a obra realizada pelo sacrifício da Cruz, e ao mesmo tempo como sendo a totalidade dos que deveriam experimentar martírio semelhante aos que eles experimentaram.

Uma vez completado o número daqueles que deveriam morrer por causa do testemunho de Cristo naqueles dias ( que precederam a queda de Jerusalém ), a medida dos pecados de Israel teria chegado ao seu limite, e a justa ira de Deus cairia sobre o povo que O rejeitara.

Jesus falou claramente sobre isso:
"Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Edificais os sepulcros dos profetas, adornais os monumentos dos justos e dizeis: Se estivéssemos vivos no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices seus no derramar o sangue dos profetas. Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas. ENCHEI VÓS, POIS, A MEDIDA DE VOSSOS PAIS. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do Inferno? Portanto, eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade. Assim recairá sobre vós todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração. Jerusalém, Jerusalém! Que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e tu não quiseste Agora a vossa casa ficará deserta.” Mateus 23: 29-38.
Caberia àquela geração completar a medida de iniquidades praticadas pelas gerações anteriores. Paulo parece corroborar com tal pensamento ao escrever aos Tessalonicenses:
"Padecestes de vossos próprios concidadãos o mesmo que eles padeceram dos judeus, os quais mataram o Senhor Jesus e os seus próprios profetas, e a nós nos perseguiram. Eles não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens, e nos impedem de falar aos gentios para que estes sejam salvos. Desta forma sempre enchem a medida de seus pecados. A ira de deus caiu sobre eles afinal.”I Tessalonicenses 2:14b-16.
Foram os mártires da igreja primitiva que completaram o número daqueles que deveriam sofrer até que a medida dos judeus fosse completada, e o juízo de Deus os atingisse. Paulo se achava uns dos tais, e por isso não hesitava em declarar que cumpria em sua carne “o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja” (Col.1:24). Não devemos supor que o sofrimento de Paulo, ou de qualquer outro crente primitivo tivesse algum valor expiatório; cumprir o resto das aflições de Cristo era completar o número daqueles que deveriam morrer por causa do testemunho de Deus, para que assim, o clamor dos antigos mártires fosse respondido, e o juízo de Deus executado.

Por isso, Jesus avisou aos Seus discípulos:
"Mas antes de todas estas coisas, lançarão mão de vós, e vos perseguirão entregando-vos às sinagogas e às prisões, e conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Isto vos acontecerá para testemunho (...) Na vossa perseverança ganhareis as vossas almas. Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabereis que é chegada a sua desolação (...) Pois dias de vingança são estes, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas (...) Haverá grande aperto na terra, e ira sobre este povo. Cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos. Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos deles se completem.”Lucas 21: 12-24.
Ao se completar o número daqueles que deveriam ser martirizados por amor de Cristo, o número de testemunhas estaria completo, e o Tribunal de Deus seria armado, para que Jerusalém, agora conhecida como a Grande Prostituta, fosse julgada.

O juízo só viria sobre Jerusalém quando todos os tronos fossem ocupados, e o Tribunal estivesse devidamente armado. Jesus havia prometido aos Seus apóstolos:
"Assim como meu Pai me confiou um reino, eu o confio a vós, para que comais e bebais à minha mesa no meu reino, e vos assenteis sobre tronos para julgar as doze tribos da Israel.” Lucas 22:29-30.
No ano 70 d.C., quando o Juízo de Deus foi executado sobre Israel, todos os apóstolos, inclusive Paulo, já haviam morrido, com exceção de João. Parece-nos possível que tenha sido Paulo aquele que completou o número, para que todos os tronos estivessem ocupados (simbolicamente eram 24 tronos, sendo 12 para os santos da Antiga Aliança e os outros 12 para os da Nova Aliança). O fato de João ter sido o único apóstolo vivo durante a invasão e destruição de Jerusalém já havia sido predito por Jesus (leia João 21:22-23; Mt.16:28 e ainda Mt.10:23).

A Grande Tribulação sofrida pela igreja primitiva forneceu os mártires que deveriam testemunhar diante do Tribunal de Deus contra a Cidade que se prostituiu com os reis da terra. Daniel também profetizou sobre isso. Referindo-se ao Império Romano, que seria o último grande império a levantar-se antes do advento do Reino de Deus, Daniel diz que ele destruiria “os santos do Altíssimo” e que eles seriam “entregues nas suas mãos” por algum tempo. “Mas o tribunal se assentará em juízo, e lhe tirará o seu domínio para o destruir e para o desfazer até o fim. O reino e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo” (Dn.7:25-27).

Através da Igreja, não somente Israel seria julgado, como também o próprio Império Romano, que fora o agente do Juízo de Deus sobre Israel. E assim, cumprir-se-ia o que fora dito por Isaías: “Ai de ti destruidor (...) quando parares de destruir serás destruído”(Is.33:1). Jamais aquele Império poderia imaginar que enquanto perseguia os crentes, e os matava, estava, na verdade, preenchendo cada cadeira do tribunal que o sentenciaria à destruição. Por isso, os cristãos primitivos eram entregues a morte esboçando alegria em suas faces. Eles sabiam que sendo fiéis até a morte, eles receberiam a coroa da vida (Ap.2:10). Cristo lhes havia garantido que os que vencessem, perseverando até o fim, receberiam autoridade sobre as nações, e com vara de ferro as regeria, quebrando-as como são quebrados os vasos de oleiro (Ap.2:26-27). Diante de tais promessas, não poderia ser outra a postura de Paulo diante de sua morte. Ele escreveu a Timóteo:
"Quanto a mim, já estou sendo derramado como libação, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. DESDE AGORA, A COROA DA JUSTIÇA me está guardada, a qual o Senhor, JUSTO JUIZ, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.” II Timóteo 4:6-8.
É claro que Paulo não está se referindo à vinda de Jesus para o estabelecimento do Juízo Final. Ele está falando sobre Sua Vinda em Juízo sobre Israel. Naquele “dia”, Paulo e todos os santos receberiam a Coroa da Justiça para julgar Israel, e todas as nações da Terra.

Esta Coroa da Justiça pertence à Igreja como um todo. Nós, a Igreja de Cristo, estamos assentados nos lugares celestiais em Cristo, e nos foi dado o poder de julgar e de exercer autoridade sobre todas as nações (Ap.20:4; Ef.2:6; Rm.5:17). “O Senhor se agrada do seu povo” exclama o salmista, “ele coroa os humildes com a salvação. Exultem os santos de glória, e cantem de alegria nos seus leitos. Estejam na sua garganta os altos louvores de Deus, e espada de dois gumes nas suas mãos, para tomarem vingança das nações e punirem os povos, para prenderem os seus reis com cadeias, e os seus nobres com grilhões de ferro, para executarem contra eles o juízo escrito. esta é a glória de todos os santos” (Sl.149:4-9). Aleluia!

Após a abertura do sexto selo, em que um grandioso colapso de dimensões cósmicas prenuncia os juízos de Deus sobre a terra rebelde (6:12-17), João recebe uma nova visão: Quatro anjos que estavam nos quatro cantos da terra, retinham os ventos, para que não soprassem naquele momento. Enquanto os ventos são contidos, outro anjo emerge do lado do sol nascente, trazendo consigo o selo do Deus vivo. Este anjo ordena aos outros que não danificassem a terra e o mar até que os servos de Deus fossem selados em suas testas. Segundo o relato do vidente João, os que foram selados contavam 144.000 de todas as tribos de Israel. De cada uma das doze tribos, doze mil eram selados. Essa imensa multidão representa a totalidade dos santos do povo da Antiga Aliança. Neste texto, confirma-se o que profetizou Isaías: “Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo” (Rm.9:27; Is.10:22). E este “Remanescente” é segundo“a eleição da graça” (Rm.11:5). Ninguém é salvo meramente por ser judeu. Somente os que foram eleitos para a salvação serão salvos, a despeito de sua nacionalidade.

“Depois destas coisas” prossegue João, “olhei e vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de TODAS AS NAÇÕES, tribos, povos e línguas, que estavam em pé diante do trono e perante o Cordeiro, trajando compridas vestes brancas, e com palmas nas mãos” (Ap.7:9). Agora o leque se abre, e João consegue vê a totalidade dos santos, tanto os dentre Israel, quanto os dentre os gentios. A estes também são dadas vestes brancas que representam a justificação mediante o sacrifício de Cordeiro de Deus. Perguntado acerca da identidade e da proveniência daquela gente, João preferiu não arriscar qualquer palpite, e disse ao que lhe perguntava: - Senhor, tu o sabes. Pelo que o ancião lhe respondeu:
"Estes são os que vieram da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu templo; e aquele que está assentado sobre o trono estenderá o seu tabernáculo sobre eles. Nunca mais terão fome; nunca mais terão sede. Nem sol nem calor algum cairá sobre eles. Pois o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará e os conduzirá às fontes das águas da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.” Apocalipse 7:14-17
Esta “Grande Tribulação” é a mesma sobre a qual Jesus fala em Seu sermão profético. Ali, Ele diz que haveria então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até aquele momento, nem haverá jamais (Mt.24:21). Eis uma das razões porque não cremos em uma grande tribulação futura. Cremos piamente que a Grande Tribulação se deu nos primórdios da era cristã, e consistiu na implacável perseguição promovida pela Roma Imperial, instigada, inicialmente, pelos judeus incrédulos.

Daniel profetiza acerca desta perseguição, quando diz que o quarto grande império (Roma) “fazia guerra contra os santos, e os vencia, até que veio o Ancião de Dias, e foi dado o juízo aos santos do Altíssimo, e chegou o tempo em que os santos possuíram o reino (...) Proferirá palavras contra o Altíssimo, e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e as leis. Eles serão entregues nas suas mãos por um tempo, e tempos, e metade de um tempo. Mas o tribunal se assentará em juízo, e lhe tirará o seu domínio, para o destruir e para o desfazer até o fim. O reino e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo. O seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão”(Dn.7:21-22,25-27).

Por que Deus permitiu que os santos primitivos fossem vencidos pela perseguição do Império Romano, e dos judeus? Porque desta forma, tanto Jerusalém, que é representada no Apocalipse como a Grande Babilônia, quanto Roma seriam julgadas pelos mesmos santos que nelas e por elas haviam sido martirizados. Os cristãos primitivos sabiam disso perfeitamente. Eles se lembravam das célebres palavras de Cristo: “Na vossa perseverança ganhareis as vossas almas” (Lc.21:19).

Foi o próprio Deus quem permitiu que o Império Romano fizesse guerra aos santos, e os vencesse. Por isso, os cristãos se dispunham a sofrer pelo testemunho de Jesus. Afinal,“se alguém deve ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém deve ser morto à espada, necessário é que à espada seja morto. Nisto repousa a perseverança e a fidelidade dos santos” (Ver Ap.13:7-10).

E o resultado desta perseverança foi o juízo de Deus sobre Jerusalém, a Cidade Infiel.“Caiu, caiu a grande Babilônia (...) A fumaça do seu tormento sobre para todo o sempre (...) Aqui está a perseverança dos santos, daqueles que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus. Então ouvi uma voz do céu, que dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos que DESDE AGORA MORREM NO SENHOR. Sim, diz o Espírito, descansarão dos seus trabalhos, pois as suas obras os acompanharão” (14:8b,11a,12-13). 

Por que razão os que morressem a partir da queda de Jerusalém seriam bem-aventurados? Porque agora, tendo caído a Jerusalém terrestre e o seu soberbo templo, os portões da Nova Jerusalém estavam plenamente abertos, e o caminho do Santo dos Santos inteiramente descoberto (Ver Hebreus 9:8-9). A partir de então, os santos de todas as eras estariam reunidos diante do trono para todo o sempre, reinando com Cristo, e exercendo com Ele o juízo sobre as nações.

É precisamente sobre esta “reunião” que Paulo fala em sua segunda carta aos Tessalonicenses (2:1). Quando Cristo veio em Juízo sobre Jerusalém, os santos na glória foram reunidos, e o que a Igreja na terra “ligou” já havia sido ligado no céu. Tal reunião (grego: episynagoge) só se daria quando o número dos mártires fosse completado, e a medida do pecado daquele povo fosse alcançada. Por isso, os crentes primitivos se regozijavam na perseguição. Para Paulo, tal gozo nada mais era do que a “prova clara do justo juízo de Deus, e como resultado sereis havidos por dignos do reino de Deus, pelo qual também padeceis. Deus é justo: Ele dará em paga tribulação aos que vos atribulam (os judeus), e a vós que sois atribulados, alívio conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo. Ele tomará vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles por castigo padecerão eterna perdição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos, e ser admirado em todos os que creram, naquele dia ( porque o nosso testemunho foi crido entre vós )" (2 Ts.1:5-10).

Paulo não se refere à Segunda Vinda de Cristo. Ele está falando do Juízo de Deus sobre Jerusalém. Eram os judeus que atribulavam os crentes Tessalonicenses (ver At.17 e 1 Ts.2:14-16). O castigo que eles receberam não foi apenas a queda de Jerusalém, mas também o fato de serem rejeitados como povo de Deus, sendo espalhados mais uma vez por todo o mundo (Amós 8:2; 9:8; Lc.21:22).

A Coroa que hoje está sobre a cabeça da Igreja, um dia esteve sobre Israel. Cabia àquela nação ser o instrumento da Justiça de Deus sobre os demais povos da Terra. Mas Israel caiu em contradição. Aquilo que condenava nas demais nações, Israel começou a praticar. Por isso, tornou-se a grande prostituta. Paulo aborda isso em Romanos 2: “tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, pensas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus? (...)Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus (...)Mas tu que tens por sobrenome Judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; e confias que és guia de cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor dos néscios, mestre das crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, e não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós”(Rm.2:3,5,17-24).

Jeremias, antevendo a queda definitiva de Jerusalém, profetizou: “Como jaz solitária a cidade outrora tão populosa! Tornou-se como viúva, a que foi grande entre as nações! A princesa entre as províncias tornou-se escrava(ver Gl.4:25). Amargamente chora de noite, e as suas lágrimas lhe correm pelas faces. Não há ninguém que a console entre todos os seus amantes (...) Jerusalém gravemente pecou, por isso se fez imunda (...) Rejeitou o Senhor o seu altar, e abandonou o seu santuário (...) Mas isso aconteceu por causa dos pecados dos profetas, e das maldades dos seus sacerdotes, que derramaram o sangue dos justos no meio dela (...) Estava chegando o nosso fim, estavam cumpridos os nossos dias, pois era chegado o nosso fim (...) CAIU A COROA DA NOSSA CABEÇA. Ai de nós, pois pecamos” (Lam.1:1-2a,8; 2:7; 4:13,18; 5:16).

Por quê caiu a Coroa da cabeça de Israel? Porque seu povo rejeitou a justiça que vinha do céu (Rm.10:3). Pregavam uma coisa, e viviam outra. Como poderiam as nações viverem à luz de uma nação impenitente? Jerusalém se prostituiu com os reis da terra, e assimilou suas abominações, seus costumes, e seus pecados. Como Jesus havia predito, o Reino foi tirado de Israel, e entregue a um novo povo: a Igreja (Mt.21:43) E cabe a esta nova Nação Santa exercer juízo sobre a terra, e discipular todas as nações.

Agora, afirma a profecia, “os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para sempre. E os vinte e quatro anciãos, que estão assentados em seus trono diante de Deus (simbolizando a totalidade dos santos de todas as eras)prostraram-se sobre seus rostos, e adoraram a Deus, dizendo: Graças te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és, e que eras, porque tomaste o teu grande poder, e reinaste. Iraram-se as nações; então veio a tua ira, e o tempo de serem julgados os mortos, e o tempo de dares recompensa aos profetas, teus servos, e aos santos, e aos que temem o teu nome, a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra. abriu-se no céu o templo de deus, e a arca de sua aliança foi vista no seu santuário...”(11:15b-19a).

Que recompensa os mártires receberam? A mesma que todos os que temem o nome do Senhor recebem! O caminho do Santo dos santos foi inteiramente descoberto a eles, “abriu-se no céu o templo” , e lhes foram dadas coroas e tronos sobre os quais hão de reinar por todas as eras por meio de Cristo Jesus.

João testifica em sua visão:
"Vi também tronos, e aos que se assentaram sobre eles foi-lhes dado o poder de julgar. E vi as almas daqueles que foram degolados por causa do testemunho de Jesus e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta (o imperador romano), nem a sua imagem, e não receberam o sinal na testa nem nas mãos. Reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos (...) Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição (a ressurreição espiritual de que participamos em Cristo) . Sobre estes não tem poder a segunda morte, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele durante mil anos.” Apocalipse 20:4,6.
Quando o Cetro de Cristo foi arremessado contra Israel, os santos de todas as eras foram reunidos, e agora, por meio de Cristo, estão reinando para sempre. Os “mil anos” no texto acima, representam um tempo indefinido e longo, e não deve ser entendido literalmente. Tanto nós, que vivemos no início do Terceiro Milênio, quanto aqueles que viveram antes mesmo do primeiro advento de Cristo, formamos uma única assembléia. Afinal, cumpriu-se a predição de Jesus, de que muitos viriam “do Oriente e do Ocidente” e se sentariam à mesa “com Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus. Mas os filhos do reino (judeus) serão lançados fora”(Mt.8:11-12a). O cumprimento de tal predição parece ecoar na afirmação do escritor de Hebreus de que já temos chegado “`a cidade do Deus vivo, à Jerusalém Celestial, e aos muitos milhares de anjos, à UNIVERSAL ASSEMBLÉIA e igreja dos primogênitos inscritos nos céus (...) aos espíritos dos JUSTOS APERFEIÇOADOS” (Hb.12:22-23). Santos de todas as eras tornaram-se um só espírito com o Senhor, e receberam “o reino e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu” (Dn.7:27). Os santos já podem regozijar-se. Os mártires foram vindicados, os sistemas deste mundo foram julgados, e sentenciados. Sua voz ainda ecoa nas regiões celestiais: “Justo és tu, Senhor, que és e que eras, o Santo, porque julgaste estas coisas; porquanto derramaram o sangue de santos e de profetas, também tu lhes deste sangue a beber; são merecedores disto” (Ap.16:5-6).“Exulta sobre ela, ó céu! E vós, santos e apóstolos e profetas! Deus contra ela vindicou a vossa causa” (18:20).

O Efeito Dominó e os Mártires de hoje

A queda de Jerusalém é o prenúncio do desmoronamento dos sistemas deste mundo. Podemos comparar tal fato ao chamado efeito dominó. Uma vez tendo sido desencadeado, não há como impedir que seja concluído, até que caia a última peça.

Jerusalém é o arquétipo dos reinos do mundo. O mesmo Cetro que a derrubou, e que mais tarde fez desmoronar o Império Romano, está em ação hoje. Foi ele quem reduziu a escombros o Muro de Berlim, e com ele, o Comunismo no Leste Europeu. Foi também ele quem derrubou o apartheid na África do Sul, e ainda por cima, fez de Nelson Mandela, de um negro perseguido, o presidente daquele país.

Cada sistema injusto implantado na Terra produz seus próprios mártires. E é ao clamor destes mártires, e daqueles que sofrem sob o peso destes sistemas, que Deus está atento. Às vezes o Juízo parece tardar, mas certamente, ele não será adiado. Sempre que a medida de pecados de uma nação excede, o Juiz de toda a Terra vem em Juízo contra ela.

Foi o clamor dos hebreus escravos no Egito que deflagrou a série de Juízos divinos sobre a Terra de Faraó (Êx.2:23; 3:9). Deus está atento ao clamor daqueles que sofrem injustiças sociais por parte dos que detém o poder econômico e político (Tg.5:4). “Chegar-me-ei a vós para juízo” promete o Senhor, “e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos” (Ml.3:5).

Um mártir não é necessariamente alguém que foi morto por uma causa. A palavra “mártir” significa “testemunha”. Olhando por este prisma, podemos afirmar que nossas ruas estão cheias de mártires; adultos e crianças cuja condição dá testemunho diante de Deus acerca das injustiças praticadas em nossa sociedade.

Não há julgamento sem que haja testemunhas! Não basta um Juiz, um advogado de acusação e um de defesa, um júri e um réu. Se não houver testemunhas, o tribunal não será armado. A própria sociedade provê os mártires ( testemunhas) que deporão contra ela no tribunal divino. Em um certo sentido, podemos afirmar que cada mendigo é um mártir, uma testemunha contra nossa sociedade no Tribunal de Deus. Cada desempregado, cada prostituta, cada excluído, cada aborto, depõe contra nossa sociedade diante do Juiz de toda a Terra, ainda que inconscientemente.

Muitas vezes, seu testemunho é silencioso. Porém, às vezes, parece gritar aos nossos ouvidos. Nossa sociedade, cínica que é, parece surda aos gritos dessa gente que vive às suas margens. Somente o Filho de Davi para ter misericórdia dos que estão cegos à margem do caminho. A exemplo do que aconteceu a Bartimeu, cabe à igreja de Cristo conduzir os marginalizados e excluídos à presença do Rei dos reis, em vez de tentar calar o seu clamor.

Compete ainda, a cada geração de cristãos prestar testemunho perante Deus, acerca dos pecados cometidos em sua própria geração. Infelizmente, nunca os cristãos foram tão apáticos e omissos como agora. Cada qual está preocupado com os seus próprios problemas, e ocupado demais em seu mundinho particular. As igrejas se transformaram em verdadeiros guetos, e os seus membros, de tão alienados que estão, não conseguem ouvir o clamor do que estão à sua volta.

A igreja deste novo século precisa redescobrir a oração. Não estou falando daquela oração que tem como pretensão mudar a ideia de Deus (!). Não! Falo da oração através da qual nos tornamos cúmplices do Trono, tanto dos seus juízos, quanto de sua misericórdia. Orar é depor contra tudo o que não coaduna com a vontade d'Aquele que Se assenta no trono. Ralph Herring acertou em cheio quando disse que “a oração é uma reunião de cúpula na sala do trono do universo.” Quando oramos, estamos em reunião com o Todo-poderoso, conspirando contra tudo que não se ajusta à sua boa, perfeita e agradável vontade. Por isso mesmo, concordamos a uma só voz com Karl Barth, ao afirmar que “juntar as mãos em oração é o início de um levante contra a desordem do mundo.”

P.S.: Que bom que você leu até aqui. A morte daqueles cristãos coptas proveu as testemunhas que deporão contra a crueldade do Estado Islâmico, e sobretudo, daqueles que estão por trás dele, cujos interesses são assegurados através desta onda de terror que varre o mundo. A medida dos pecados de nossa civilização já está chegando à borda. Cada geração experimenta sua própria "tribulação". Quanto a nós, oremos pelos que nos perseguem, perdoando-os, abençoando-os, conforme Jesus nos ensina. Mas, ao mesmo tempo, denunciemos toda injustiça a que têm sido submetidos nossos irmãos ao redor do mundo. Sejamos, de fato, testemunhas, pois para isso o Espírito nos foi dado. À testemunha não cabe apenas proclamar a verdade, mas também, depor contra a injustiça. 

domingo, fevereiro 15, 2015

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CARNAVAL: O que merece aplausos e vaias



Por Hermes C. Fernandes

"Examinai tudo. Retende o bem." 1 Tessalonicenses 5:21

O que significa "examinar"? De acordo com o dicionário, examinar é ponderar, observar, analisar atentamente, minuciosamente. Considerando a sugestão de Paulo, que tal se examinássemos o Carnaval? Em vez de simplesmente bater o martelo e condenar a maior festa popular do mundo, prefiro desembrulhar o pacote e averiguar item por item. 

Como sou do Rio de Janeiro, apresentarei abaixo as razões que me levariam a aplaudir e a vaiar o carnaval carioca:

Primeiro, o que eu aplaudiria sem o menor constrangimento:

• A criatividade dos carnavalescos e compositores expressada 
 nas fantasias, no show de cores, nos carros alegóricos, e, principalmente, no samba-enredo, muitos dos quais retratam a história, o folclore e a cultura do povo brasileiro, enquanto outros denunciam o descalabro do preconceito, da devastação ambiental e outras mazelas que assolam a sociedade. Também é de se admirar a homenagem feita a alguns ícones populares.

• O empenho e a empolgação contagiosa do povo brasileiro, cantando, dançando e desfilando pela avenida, sempre com um sorriso nos lábios, mesmo com os pés sangrando de tanto sambar.

• A união de pessoas de camadas sociais diferentes. Morro e asfalto se unem em defesa do estandarte da escola de samba.

• O encontro de gerações. É bonito de se ver a honra dada à chamada velha guarda, bem como a integração e participação das crianças. 


O que deveria nos envergonhar, e que, portanto, merece minhas vaias:

• A política de pão e circo descaradamente usada e abusada pela classe política para distrair o foco da população dos assuntos importantes. Enquanto o povo festeja, a roubalheira prossegue. Não foi à toa que os mensaleiros foram absolvidos da acusação de formação de quadrilha na semana do Carnaval. Se fosse em outra época do ano, talvez o mesmo povo teria saído às ruas para protestar.

• A promiscuidade do poder público. Dos 51 vereadores do RJ, somente 5 se recusaram a usufruir de ingressos para o camarote patrocinado pelos contraventores do jogo de bicho, como pode ser constatado aqui.

• A lavagem de dinheiro do crime organizado e da contravenção com a anuência do poder público.

• A imagem da cidade associada ao turismo sexual e explorada à exaustão pelo mundo afora. O principal cartão postal que atrai turistas ao Rio de Janeiro não é o Corcovado, nem o Pão de Açúcar, mas os glúteos de nossas mulatas.

• A atmosfera de permissividade e licenciosidade, responsável pela gravidez precoce de muitas adolescentes, e pela destruição de muitas famílias através do sexo casual irresponsável e pelo uso de álcool e entorpecentes.

• O aumento drástico de acidentes nas estradas e da violência urbana que ceifam a vida de milhares de pessoas.

Cuidemos para não jogar fora a criança juntamente com a água do banho. O que for bom e belo deve ter seu sabor realçado pelo sal, mas o que for reprovável deve ser manifesto pela luz. Devemos, portanto, evitar dois extremos: o legalismo que a tudo condena sem se dar o trabalho de examinar e a licenciosidade que nos faz aceitar tudo, tornando-nos "cúmplices das obras infrutuosas das trevas" (Ef.5:11).

* Em tempo, muito merecida a homenagem que a Imperatriz fez para o galinho de Quintino. Zico foi um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Sinto por quem não teve o privilégio de vê-lo jogar. 

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

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Os 50 tons de uma espiritualidade daltônica e sadomasoquista



Por Hermes C. Fernandes

Hoje chega às salas de exibição de todo o Brasil a versão cinematográfica de “Cinquenta tons de cinza", romance erótico de autoria da inglesa Erika Leonard James publicado em 2011. O primeiro livro da trilogia que é fenômeno entre as mulheres vendeu mais de dez milhões de exemplares nas seis primeiras semanas, apesar de ser um gênero que sempre foi voltado para o público masculino. O livro é um dos maiores bestsellers dos últimos anos. 
O título é um trocadilho com o nome de um dos seus protagonistas, Christian Grey. Interessante que se traduzirmos ambos, nome e sobrenome, encontramos “Cristão Cinza”.
O romance tem como personagem principal uma jovem de 21 anos chamada Anastasia Steele. Após entrevistar Christian Grey para o jornal da faculdade, passa a ter um relacionamento com o magnata. Em meio ao luxo, ele a introduz num mundo de sadomasoquismo, tornando-a sua escrava sexual.
Em vez do colorido comum aos romances literários, eles se envolvem numa relação em que o sexo casual e sádico se revela em tons melancólicos, porém, envolventes.
Tenho a impressão de que o livro tente disseminar fantasias masculinas no coração de mulheres, como se isso fosse próprio de sua natureza. Imagino o mal que literaturas deste tipo podem fazer a médio e longo prazo, criando expectativas sobre-humanas entre parceiros, descolorindo o que por si só é tão belo e sedutor.
Estou longe de ser pudico ou moralista. Porém, acredito que a relação sexual deva ser encarada como algo sagrado, e que nosso parceiro não pode ser coisificado, como se existisse só em função de nosso prazer.
O que apimenta qualquer relação é o amor, o romantismo, e não chicotes, palavrões, brinquedos eróticos e outros fetiches.
Ora, se Paulo toma a relação conjugal como alegoria do relacionamento entre Cristo e Sua Igreja, que tal tomarmos esta obra literária como analogia de nossa condição espiritual? Pergunto: Até que ponto temos vivido uma espiritualidade sadomasoquista? Por que razão temos aceitado como belo o que antes considerávamos repugnante e depreciável? Não estaríamos cultivando uma religiosidade fetichista?
Cinza é a cor do que sobra daquilo que foi devorado pelo fogo. Tomando a simbologia bíblica, cinza representa tristeza, luto, melancolia, e por vezes, arrependimento. São estes os tons de cinza apresentados nas Escrituras.
Davi, por exemplo, no auge de sua crise depressiva, escreveu:

“O meu coração está ferido e seco como a erva, por isso me esqueço de comer o meu pão. Por causa da voz do meu gemido os meus ossos se apegam à minha pele (...) Pois tenho comido cinza como pão, e misturado com lágrimas a minha bebida.” Salmos 102:4-5,9 

Comer cinza é uma expressão usada para denotar uma depressão profunda que o levava a perder o apetite. Quando o indivíduo se via neste estado, ele podia expressá-lo através do uso de cinzas literais, derramando-a sobre a cabeça ou assentando-se sobre elas. Lemos que “Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza.” (Jó 2:8). Seu estado era tão lastimável, que sua própria mulher sugeriu-lhe o suicídio.

A chama apagou. O colorido da vida desbotou. Só sobraram cinzas em seus vários e melancólicos tons.

Outro tom de cinza encontrado nas páginas das Escrituras é o do arrependimento. Para demonstrar que estavam arrependidas,  as pessoas se vestiam de saco e derramavam cinzas sobre suas cabeças.


Jesus diz que se os milagres que Ele fizera em algumas das cidades que percorrera houvessem sido feitos em cidades que tiveram fins trágicos, seus destinos teriam sido bem diferentes, pois seus moradores certamente teriam se arrependido “com saco e com cinza” (Mt.11:21-24). Até Sodoma teria se convertido caso houvesse sido cenário dos milagres feitos em Cafarnaum.  Neste caso, as cinzas, bem como as roupas de saco, eram usadas para exteriorizar seu estado de espírito e seu arrependimento.

Alguns usavam as cinzas, juntamente com o jejum, em protesto diante de Deus e dos homens. Achavam que isso os fazia merecedores de uma atenção especial da parte de Deus, resultando em resposta às suas orações. Para eles, o jejum havia se tornado numa poderosa arma para pressionar a Deus a atendê-los.  Uma espécie de greve de fome.  Deus, porém, parece rejeitar tal demonstração de espiritualidade, afirmando que o jejum que o agradava não era que o homem afligisse a sua alma, e estendesse debaixo de si saco e cinza, e sim, que soltasse as algemas da impiedade, despedaçasse todo jugo, deixando livres os oprimidos, repartindo seu pão com o faminto, recolhendo em casa os pobres abandonados e cobrindo os nus (Is.58:5-7). Em vez de privar-se de um pão inteiro por algumas horas, o que Deus esperava era que se privassem de metade deste mesmo mão para sempre, partilhando-o com o que nada tinha. Em vez de privação, partilha. Em vez de flagelo, compaixão. Em vez de dever, prazer. 

Jesus denunciou aquela prática equivocada de jejum, e disse que tentar agregá-la ao evangelho é o mesmo que pôr remendo novo em panos velhos, ou vinho novo em odres velhos. A espiritualidade proposta pelo Evangelho não tem nada de cinza; em vez disso,  é repleta de cores, tanto quanto a túnica com a qual Jacó presenteou a José, seu filho.  Talvez por isso Paulo tenha se referido à “multiforme sabedoria de Deus” que se manifesta através da igreja. O termo traduzido por “multiforme” significa “multicolorida” (Ef.3:10). Ele chega a dizer que os principados e potestades, assistem boquiabertos à esta manifestação gloriosa numa espécie de voyeurismo angelical.  Pedro também toma emprestada a mesma palavra para referir-se à multiforme graça de Deus revelada nos múltiplos dons conferidos à igreja (1 Pe. 4:10). Quem está equipado da sabedoria e da graça multicoloridas de Deus não precisa recorrer aos fetiches cinzentos oferecidos por uma religiosidade medíocre e utilitária.

Deus não tem qualquer prazer em nos ver afligir nosso corpo ou nossa alma, numa espécie de exercício de espiritualidade masoquista. Acreditar nisso é o mesmo que chamá-lo de sádico.

É lamentável testemunhar o que alguns cristãos fazem com seus corpos, submetendo-se a sessões de tortura e autoflagelação. Nas Filipinas eles chegam a se crucificar. No Brasil, sobem escadarias de joelhos. E não precisa ser católico fervoroso para fazer algo semelhante. Presenciei crentes subindo ao monte de joelhos na zona oeste do Rio. Fui tachado de incrédulo por recusar-me a tal sacrifício de tolo.

Veja o que diz Isaías, no texto usado por Jesus em Sua primeira aparição pública:

“O Espírito do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos pobres; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes. A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê uma coroa em vez de cinza, óleo de alegria em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado. E edificarão os lugares antigamente assolados, e restaurarão os anteriormente destruídos, e renovarão as cidades assoladas, destruídas de geração em geração.” Isaías 61:1-4

É necessário que as cinzas sejam removidas para dar lugar à coroa de glória e ao “óleo de alegria”. Os resquícios de nossa velha vida devem ser varridos, removidos de nossas cabeças, para que estejamos aptos a receber aquilo que é a fonte de nossa força, a alegria do Senhor.  Em vez de fantasias, vestes de louvor. Em vez de alienação, um choque de realidade, somado à certeza de que Deus tem todas as coisas em Seu controle.

Remover as cinzas é romper com o que ficou para trás, a fim de avançarmos para o que se insinua diante de nós. É fazer uma faxina em nossa alma, espanando de uma vez por todas o pó que acumulou-se nos recantos do ser. 

Comparando a alegria proporcionada pelo mundo à alegria vinda de Deus, podemos dizer que a primeira sempre termina em cinzas. Começa bem, termina mal. Mas a segunda toma o caminho inverso. Ela é como a fênix que emerge das cinzas com suas exuberantes asas.

Repare no que disse Jesus sobre isso:

“Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a criança, já não se lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo. Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará.” João 16:20-22

A alegria do mundo é fugaz. Por mais lugar comum que isso possa parecer, trata-se de um fato verificável.  Toda alegria oferecida pelo mundo não passa de entretenimento com prazo de validade pré-estabelecido. Quando expira, só sobram cinzas. Já a alegria proposta pelo evangelho nasce das cinzas e para lá jamais retorna, pois é eterna.

Há que se fazer aqui uma pequena digressão. Como conciliar o que Jesus disse com a orientação dada por Paulo para que nos alegrássemos com os que se alegram, e chorássemos com os que choram (Rm.12:15)? Ora, se Jesus afirmou que enquanto mundo se alegrasse, nós nos entristeceríamos, como, então, poderíamos celebrar sua alegria?

O fato é que a alegria do mundo não é genuína. Entristecemo-nos, não por inveja de sua alegria, mas por perceber o quão falsa e passageira ela é. Entristecemo-nos por saber que sua alegria resultará em culpa, tristeza e vazio.

A genuína alegria independe de circunstâncias, de dias festivos, de fetiches, de fantasias. Ela decorre, sobretudo, da certeza que temos de que Ele está conosco. Sua presença é tão real que ofusca qualquer adversidade.  Seu amor seduz nossa alma, e nos faz atingir patamares inimagináveis de satisfação. Sua graça é-nos mais que suficiente.  Não carecemos de fazer do mundo nosso amante, posto que Ele corresponda a todos os anseios de nossa alma.

Ele não nos usa, como Christian Grey faz à jovem Anastasia.  Ele simplesmente nos ama, e faz questão de que sintamos todo o Seu amor a nos envolver.  Após render-nos aos Seus galanteios, sentimo-nos realizados, e não culpados, usados, machucados, sujos e vazios.  

Caso não tenha se rendido ainda, experimente, aprecie sem moderação, pois Seu amor não tem contraindicação.