terça-feira, novembro 25, 2014

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Eu já apostatei... e você?



Por Hermes C. Fernandes

Paulo já havia sido avisado sobre a perseguição que sofreria em Jerusalém. Teimoso e obstinado, não deu ouvidos a ninguém. Afinal, como ele mesmo dissera, não tinha sua vida por preciosa, desde que cumprisse o propósito de sua existência. Nem mesmo Ágabo, um conceituado profeta, conseguiu dissuadi-lo com sua profecia encenada. O apóstolo estava disposto não só a ser preso por amor a Cristo, mas também a morrer pela causa do evangelho. Chegando a Jerusalém, teve uma baita surpresa. Sua fama o havia precedido. Tanto que Tiago convocou os anciãos para recepciona-lo e ouvir dele um relatório acerca dos frutos do seu ministério entre os gentios. Tal recepção desarmou Paulo. Quando ele poderia imaginar que seria recebido com tantas pompas? Após ouvi-lo atentamente, Tiago e os demais nada quiseram acrescentar. O evangelho pregado por Paulo entre os gentios parecia estar na medida certa, passando pelo “controle de qualidade” dos apóstolos. Porém, havia um pequeno problema... Alguém teria espalhado a notícia de Paulo ensinava os judeus a se apostatarem de Moisés, deixando de cumprir os ritos prescritos na Lei. Só havia uma maneira de desfazer este “mal entendido”, dando uma “cala-boca” em seus difamadores: Paulo teria que se fazer um voto de raspar a cabeça e apresentar-se no templo. Para não criar mais constrangimento aos apóstolos, ele nem sequer se deu o trabalho de argumentar. Juntou-se a outros quatro e passou a navalha na cabeça.

Estou certo de que este episódio foi um dos poucos dos quais Paulo se arrependeu pelo resto de sua vida. O mesmo Paulo que parecia disposto a ser decapitado por amor a Cristo, agora se deixava tosquiar para fazer média com os judeus religiosos de Jerusalém. Resultado: de nada adiantou a presepada. Tão logo os judeus o flagraram no templo, trataram de acusa-lo perante todos e, por pouco, não lhe tiraram a vida. Não fosse os soldados romanos intervirem, Paulo teria sido espancado até a morte (At.21:10-32).

O que mais me chama atenção na passagem resumida acima é o fato de Paulo ter sido acusado de apostatar-se de Moisés. Seria esta uma acusação justa? Estou convencido que sim. Num certo sentido, o Evangelho é uma apostasia. Do grego antigo απόστασις (apóstasis), apostasia significa “estar longe de” e tem o sentido de um afastamento definitivo e deliberado de alguma crença ou doutrina.

Por que Paulo e os demais seguidores de Jesus teriam se apostatado de Moisés?

João, autor do quarto evangelho, oferece-nos uma preciosa pista:

“Pois todos nós recebemos da sua plenitude, e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.” João 1:16-17

No texto acima, percebemos que Moisés e Jesus têm propostas diferentes e antagônicas. Um trouxe a lei, o outro, a graça e a verdade. A Lei serviu de base para a construção de um sistema que se apoia no desempenho humano. Trata-se, portanto, de um sistema baseado em méritos, do tipo, “faça isso e viverás”. Já a graça revelada em Jesus desmantela este sistema.  Alguns defendem que a Lei seja o fundamento da Graça. Portanto, o Reino de Deus seria um sistema do tipo “graça sobre lei”. Outros defendem que o Reino de Deus seja um sistema do tipo “lei sobre graça”, isto é, a graça nos salva do pecado e nos coloca no colo da lei. Portanto, é-se introduzido no reino pela graça, porém, manter-se lá vai depender de nosso desempenho em guardar a lei. Foi neste erro que incorreram os gálatas. Eles começaram no Espírito (100% dependentes da graça) e terminaram na carne (dependentes do desempenho). O que lemos no capítulo introdutório do evangelho de João é que o Reino de Deus é “graça sobre graça”. A graça é o fundamento da própria graça. Em outras palavras, é graça do começo ao fim, não restando lugar algum para o mérito humano. Cristo é o autor e consumador da nossa fé, o Alfa e o Ômega, ou nas célebres palavras de Paulo, “o que começou a boa obra” e vai terminá-la no prazo estabelecido (Fp.1:6). Por isso, ao nos render à graça, apostatamos de Moisés. Não há como reconciliar os dois sistemas, o meritocrático e o karistocrático. São água e óleo. Temperaturas diferentes. Um é quente. O outro, frio. Tentar misturá-los é amornar o evangelho. E foi esta a razão de Cristo rejeitar a igreja de Laodiceia.

Os que estão assentados nas regiões celestiais em Cristo Jesus (Ef.2:6), jamais deveriam desejar ocupar a “cadeira de Moisés”, ocupada pelos escribas e fariseus na época de Jesus (Mt.23:1-4). Por maior que tenha sido a glória da antiga aliança, não pode ser comparada à glória da novíssima e definitiva aliança celebrada na cruz. A glória resplandecente no rosto de Moisés quando este descia do monte Sinai é ofuscada pela glória do amor manifesto na cruz no cume do Gólgota. Paulo diz que a glória da lei era desvanecente.  Por isso, Moisés cobria o rosto enquanto descia do monte. Ele percebeu que a cada passo que dava, o esplendor diminuía. Porém, “não somos como Moisés”, afirma o apóstolo “apóstata”. Diferentemente dele, não cobrimos o rosto, pois somos conduzidos “de glória em glória” até a glória derradeira (2 Co.3:13-18). Podemos comparar a diferença entre a glória da lei e a glória do evangelho à diferença que há entre o brilho da lua e o brilho do sol. Numa noite, a lua aparece crescente, na outra, cheia, e em seguida, minguante. Portanto, sua glória varia de intensidade de acordo com a época. Porém, o sol mantém a mesma glória em todo o tempo. Se a lua teima em continuar no céu durante o dia, seu esplendor é ofuscado pela presença majestosa do sol. Conhecer a graça para depois retroceder à lei, é como provocar um eclipse, onde a lua comete o atrevimento de querer ofuscar o sol. Esta, porém, não tem cacife para isso, pois não possui brilho próprio. Seu esplendor depende diretamente da luz do astro rei. Tal se dá com a lei. Qualquer glória que tenha, depende da graça. Se ela passa a sua frente, o dia escurece. Não é a graça que está sustentada na lei, mas a lei que está sustentada pela graça.

Recentemente, recebi um comentário maldoso em minha timeline no facebook, acusando-me de destruir o que havia sido construído pela geração que me antecedeu. Ora, não confunda a remoção dos andaimes usados na construção do edifício com a demolição do mesmo. A lei serviu-nos de andaime. Tão logo o Verbo armou Sua tenda entre nós, os andaimes tiveram que ser removidos. No edifício do Reino de Deus, a graça serve de fundamento, paredes e teto. Tudo mais não passa de andaime.

- Mas não dá tudo no mesmo? – alguns poderiam imaginar. A resposta é: não! Paulo diz que a Lei, representada pelo monte Sinai, produz escravos, enquanto a graça produz filhos (Gl.4:24-25). Ainda que ambos os sistemas produzam gente fiel até a medula, a motivação por trás desta fidelidade será diferente. A fidelidade de um repousa sobre a expectativa da recompensa, enquanto a fidelidade do outro repousa sobre a gratidão.

O escritor de Hebreus traça uma interessante comparação entre Jesus e Moisés. Ele dá testemunho de que Moisés foi fiel “em toda a casa de Deus”, porém, “como servo”, enquanto Cristo é fiel como Filho “sobre a casa de Deus” (Hb.3:1-6). Por isso, Ele é digno de muito maior honra do que Moisés. A fidelidade do servo é diferente da fidelidade do filho, independendo de circunstâncias, recompensas, resultados, etc.

O problema não é a lei em si, mas o que ela produz em nós. Em outras palavras, o problema somos nós.  Quem quer que queira seguir a Cristo tem que renunciar a pretensão de alcançar a perfeição pela via do cumprimento da lei. É a isso que Jesus chama de renunciar a si mesmo.

A graça nos faz depender inteiramente do Espírito, e não mais de nossa performance. Ademais, ao desbancar nossa arrogância e presunção, a graça nos torna pessoas mais compassivas e tolerantes com os erros alheios. O rigor da lei cede à gentileza da graça.

Tal se deu na “saia justa” que os escribas e fariseus tentaram dar em Jesus no episódio em que Lhe trouxeram uma mulher flagrada na cama com um homem que não era o dela. Descaradamente, aqueles religiosos soberbos disseram:  “Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Ora, Moisés nos ordena na lei que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?” (Jo.8:3-7).

Eram aqueles mesmos religiosos que, segundo Jesus, ocupavam a cadeira de Moisés. O que eles desconheciam era que o mesmo Moisés os acusava diante de Deus (Jo. 5:45-47). Não fomos chamados a ser promotores de justiça na corte celestial, mas a ocuparmos com Cristo a cadeira de advogado de pecadores. E foi este o papel que Jesus desempenhou naquele momento, saindo em defesa de uma adúltera, tratando-a como faz um cavalheiro, não um juiz.

Todos sabem o que diz Moisés, porém, poucos dão ouvidos ao que dizem os lábios de Jesus. A que voz estamos dando eco? Basta verificarmos se nossas mãos ainda carregam pedras; se nossos dedos ainda estão apontados para os pecadores ou se nossas mãos estão estendidas para socorrê-los da justiça dos santarrões de plantão.

Moisés, já tem que pregue em cada esquina, como concluíram os discípulos na primeira assembleia geral da igreja (At. 15:19-21). Nossa missão é pregar o evangelho, a boa nova do Reino de Deus.

Eu apostatei de Moisés, e você? Vai querer fazer média com os santarrões? Vai lá... raspa a cabeça... quem sabe eles te dão um desconto.

domingo, novembro 23, 2014

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Transpirar para não pirar- Para além do discurso




Por Hermes C. Fernandes

Muitos alegam que o Reino de Deus na Terra não passa de uma utopia. Por isso, preferem manter os braços cruzados à espera do céu. Outros acreditam que basta proclamar a chegada do Reino, e pronto! As coisas vão se ajeitando por si mesmas. Ledo engano! A proclamação deve ser seguida de ação.

Adão recebeu de Deus um mundo paradisíaco, porém, tinha que trabalhar para mantê-lo assim. Nós recebemos uma herança assolada, e temos que arregaçar as mangas, trabalhar e transpirar muito, até que esta herança seja restaurada.

Veja o que o próprio Deus diz por intermédio de Isaías:

“Assim diz o Senhor: No tempo favorável te ouvirei, e no dia da salvação te ajudarei, e te guardarei, e te darei por aliança ao povo, para RESTAURARES A TERRA, e lhe dares em herança as HERDADES ASSOLADAS” (Is.49:8).

Esta passagem fala da missão que o Pai confiou a Jesus, dando-Lhe por aliança ao povo, com a finalidade de restaurar a Terra, não de destruí-la como imaginam alguns. As nações Lhe foram entregues por herança (Sl.2:8), porém, uma herança assolada. Ruínas, nada mais que ruínas. Reergue-las vai custar muito trabalho.

A mesma passagem que diz: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar as boas-novas aos pobres”, também diz que estes mesmos para os quais houver sido pregado o Evangelho “reedificarão as ruínas antigas, e restaurarão os lugares há muito devastados; renovarão as cidades arruinadas, devastadas de geração em geração” (Is.61:1a,4).

A proclamação do Evangelho deve provocar esse tipo de mobilização. As pessoas devem ser constantemente desafiadas a deixarem seu comodismo, e se engajarem na luta pela transformação do mundo.

Tal transformação provavelmente demandará várias gerações. Por isso se diz: “Os que de ti procederem edificarão os lugares antigamente assolados, e levantarás os fundamentos de geração em geração”(Is.58:12a).

Um geração lança os fundamentos, a outra edifica sobre ele. Portanto, cabe a uma geração preparar o caminho para as que virão. Se uma geração abre a estrada, a próxima a pavimenta, e que vem em seguida a sinaliza. Ninguém conseguirá dar conta de tudo sozinho. Um planta, outro rega, porém Deus dá o crescimento.

Deve-se sempre criar uma expectativa em cima do que virá depois, como Jesus fez com os Seus discípulos, ao afirmar que eles fariam obras ainda maiores do que as d’Ele (Jo.14:12).

Se a geração dos pais for sonhadora, a geração dos filhos será visionária. É sobre isso que profetiza Joel: “E depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões” (Joel 2:28). Os pais sonham, os filhos vêem. Os pais arquitetam, os filhos edificam.

Imaginar que podemos consertar o mundo em nossa geração é uma utopia. Por isso muitos se desanimam de lutar, e preferem deixar as coisas como estão, conformando-se a elas, em vez de trabalhar por sua transformação.

Alguns acham que a transformação do mundo é trabalho exclusivo de Deus. Esquecem-se de que “somos cooperadores de Deus” (1 Co.3:9).

Outros usam a doutrina da graça como desculpa e justificativa para sua inércia e ociosidade. A graça nos inspira a transpirar. Sem a inspiração da graça, nossa transpiração será em vão. E sem a disposição para transpirar, estaremos recebendo a graça de Deus em vão.

Eis a exortação apostólica:

“E nós, cooperando com ele, também vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão”
(2 Co.6:1).

Quem disse isso tinha moral para cobrar de seus companheiros de jornada. Em outra passagem, Paulo dá testemunho: “...a sua graça para comigo não foi vã. Antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo” (1 Co.15:10).

Receber a graça em vão é ser inspirado por ela, mas não se dispor a transpirar. Há uma herança assolada a ser restaurada. Uma sociedade em frangalhos a ser transformada. Quem se dispõe a colocar a mão na massa?

Não basta tomar a iniciativa; nadar, nadar, e morrer na praia. Mesmo que os resultados que esperamos não venham em nossos dias, eles certamente virão, se tão somente não desfalecermos. É o mesmo apóstolo quem nos garante: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1 Co.15:58). E em outra passagem, ele complementa: “E não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” (Gl.6:9).

Se não formos nós a colhermos, os que vierem depois colherão os resultados de nosso árduo trabalho. E assim, deixaremos para os nossos filhos um mundo melhor do que o que recebemos de nossos pais.


sexta-feira, novembro 21, 2014

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Transpondo os muros do medo e do preconceito




Por Hermes C. Fernandes


Pra que servem os muros, afinal? Para segregar e delimitar propriedade. A Igreja de Cristo deveria estar no ramo de demolição, e não de construção de muros. Em Cristo, tudo o que nos separa deve ser transposto.

Não se pode usar textos isolados das Escrituras para justificar qualquer tipo de segregação. A igreja é lugar de congregar, e não de segregar. Seu ambiente deve possibilitar o intercâmbio, a troca de experiências, a partilha de recursos. Nela as pessoas devem se sentir à vontade para amar e se deixarem amar, independentemente de posição social, etnia ou faixa etária.

Quem promove segregação demonstra não ter entendido a amplitude da obra consumada na Cruz. Veja o que Paulo diz aos Efésios:

“Portanto, lembrai-vos de que vós outrora éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão, feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Ef.2:11-12).

Tal era a nossa condição antes que Cristo vertesse Seu sangue na Cruz. Éramos todos alienados de Deus, e segregados uns dos outros. A Cruz foi a resposta de Deus à alienação humana.

Pausa pra respirar fundo. Agora deixemos que Paulo prossiga em sua explanação:

“Mas AGORA em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegaste perto. Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um, e destruiu a parede de separação, a barreira de inimizade que estava no meio, desfazendo na sua carne” (vv.13-14).

ACABOU! O muro ruiu! Deus unificou os povos, e deu à humanidade um novo nome: IGREJA.
Isso mesmo que acabei de dizer. A Igreja nada mais é do que a nova humanidade, isto é, a humanidade reformada, reconfigurada, renovada.

Todas as distinções caíram por terra. “Assim já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus” (v.19).

Foi a Cruz que rompeu com o muro de inimizade que havia entre os homens. Pena que tantos ministérios trabalhem para reconstruir o que custou tão caro para Deus derrubar.

Seguindo esta mesma linha de raciocínio, Paulo diz em outra passagem:

“Desta forma não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea, pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl.3:28).

Parafraseando o verso, diríamos: Não há mais branco, negro ou índio. Não há mais patrão ou empregado. Não há mais distinção sexista. Ninguém deve ser julgado pela cor de sua pele, por sua posição social, ou por seu gênero sexual. Todos fomos nivelados pela Cruz.

Embora os muros já tenham sido derrubados, eles ainda habitam nosso imaginário, como verdadeiras fortalezas espirituais que precisam ser dinamitadas (2 Co.10:4).

A serpente do paraíso agora se arroga a guardiã dos muros. Ninguém é mais conservador do que o diabo. Ele prefere as coisas do jeito que estão. Por isso, luta pela manutenção do Status Quo.

Lemos em Eclesiastes 10:8:

“Quem fizer uma cova, cairá nela; quem romper um muro, uma cobra o morderá.”

Esta cobra, representação do diabo, é quem mantém as pessoas afastadas do muro. O controle que ela exerce é pela via do medo do desconhecido. E assim, ela consegue manter as pessoas aprisionadas em seu próprio mundinho particular.


Um ótimo filme sobre este tema é A Vila, do diretor indiano M. Night Shyamalan, que retrata os habitantes de um vilarejo encravado numa floresta, que vivem isolados do mundo exterior, pois ninguém pode cruzar a fronteira do bosque que cerca o lugar. Muitos anos antes foi firmado uma espécie de pacto com os estranhos seres que vivem na mata, e nenhum humano pode se aventurar bosque adentro ou coisas terríveis podem acontecer. Quando alguns animais começam a aparecer esfolados e marcas vermelhas amanhecem nas portas das casas de todos, fica evidente que a paz com os habitantes da floresta foi de alguma forma perturbada. O jovem Lucius é o único com coragem para atravessar o bosque em busca de remédios para seu povo, mas é contido pelos anciãos do vilarejo. A impressão inicial é que a história se dá em séculos passados. Mas no final do filme, para a surpresa de todos, descobre-se que a trama se desenrola nos tempos atuais, e que todo aquele mistério nada mais era do que uma mentira inventada pelos fundadores da vila, para manter seus habitantes longe do contacto com o mundo exterior.

Os crentes primitivos tiveram sua fase de “A Vila”. A ordem de Jesus foi clara: Deveriam ficar em Jerusalém até que fossem revestidos do poder do Espírito Santo. A partir daí, deveriam se espalhar pelo mundo, atravessar fronteiras, ir ao encontro de outras culturas, e pregar o Evangelho destemidamente. Mas o que eles fizeram? Ficaram plantados em Jerusalém. Deus teve que permitir uma perseguição implacável contra a igreja, para que os discípulos se deixassem espalhar.

Romper o muro é deixar nossa zona de conforto e sair ao encontro do desconhecido, do imprevisível, sem se importar com as ameaças da serpente.

Em sua despedida dos Efésios, Paulo desabafa: “E agora, compelido pelo Espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer. Somente sei o que o Espírito Santo de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações” (At.20:22-23). Quem aceitaria ir nessas condições? Quem, de bom grado, deixaria um lugar onde se é amado, para aventurar-se num lugar onde se é odiado?

Parafraseando Paulo: - Tudo bem! Eu não tenho minha vida por preciosa! O que me interessa é cumprir com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus (v. 24).

Em outra de suas viagens, desta vez para Roma, Paulo sofreu uma naufrágio, e foi parar numa ilha chamada Malta, juntamente com toda a tripulação do navio.

Enquanto se aquecia ao redor de uma fogueira, uma serpente saltou do fogo e se apegou à sua mão. “Quando os nativos viram a serpente pendurada na mão dele, diziam uns aos outros: Certamente este homem é homicida; pois embora salvo do mar, a Justiça não o deixa viver” (At.28:4).

Se Paulo fosse julgado pelos critérios com que os ministérios de hoje são avaliados, diríamos que ele foi um completo fracasso. Ele nunca constituiu uma mega-igreja. Nunca viajou de primeira-classe. Os habitantes de Malta tinham razão em desconfiar dele. O que não sabiam é que aquela serpente era como que um aviso para que Paulo se mantivesse longe daquela gente. O que Paulo fez? “Mas, sacudindo ele a cobra no fogo, não sofreu mal nenhum. Eles esperavam que Paulo viesse a inchar ou a cair morto de repente, mas tendo esperando muito tempo e vendo que nenhum incômodo lhe sobrevinha, mudando de parecer, diziam que era um deus” (vv.5-6). Resultado: os nativos daquela ilha foram alcançados pelo Evangelho.

Não podemos permitir que a serpente se nos apegue à mão, isto é, comprometa nossa obra no Senhor. Seu veneno já não tem qualquer poder de nocividade contra nós.

Que venham as ameaças. Não temos nossa vida por preciosa! Que venham as mordidas de serpentes, seu veneno será neutralizado. Seu bote já não nos aterroriza.

Cristo destruiu o que tinha o império da morte, a saber, o diabo, e libertou todos os que estavam presos pelo medo da morte (Hb. 2:14).

Maior é o que está em nós! E não estou falando de triunfalismo barato, mas de confiança n’Aquele que nos enviou a transpor os muros, e que garantiu que pegaríamos nas serpentes, e que nenhum mal nos sucederia (Mc.16:15-17).

E quanto a guardiã dos muros? Seu destino está selado. Em breve será esmagada sob os nossos pés (Rm.16:20).

quinta-feira, novembro 20, 2014

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Transbordar - Vencendo os limites da Mediocridade


Por Hermes C. Fernandes

Uma das principais características do cristianismo primitivo era a generosidade. Os cristãos tinham prazer em dispor de seus recursos pelo Reino de Deus e pela sua justiça.

Bastou que o povo fosse exposto à Palavra e a atuação do Espírito Santo, para que brotasse em seus corações a disposição de partilhar seus pertences. Lucas relata que “os que de bom grado receberam a sua palavra foram batizados (...). E perseveraram na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At.2:41a, 42).

Geralmente se acredita que o tal “partir do pão” era uma referência à Ceia. Porém, examinando melhor o contexto da passagem, veremos que o partir do pão nada mais é do que compartilhar os recursos entre si.

A nova natureza infundida pelo Espírito no coração dos crentes, os impulsionava a viver para Deus e para os seus semelhantes, e não mais centrados em si mesmos.

Paulo, apóstolo dos gentios, endossa este princípio em suas epístolas, ao ordenar que partilhássemos “com os santos nas suas necessidades” (Rm.12:13). Como um visionário, Paulo entendia que a Igreja deveria ser uma agência catalisadora e distribuidora de recursos. Através da semeadura, os bens seriam distribuídos, e assim, todos desfrutariam igualmente dos recursos enviados por Deus.

Ao pedir que os crentes de Corinto participassem desta graça, Paulo escreve:

“Mas, não digo isto para que os outros tenham alívio, e vós aperto, mas para igualdade. Neste tempo presente, a vossa abundância supra a falta dos outros, para também a sua abundância supra a vossa falta, e haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais, e o que pouco, não teve falta” (2 Co.8:13-15).

Repare que Paulo usa a analogia da semeadura para estimular os crentes a partilharem uns com os outros. O mesmo conceito é repetido por Pedro: “Servi uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe.4:10). O que Deus dá a uns, é para que seja usado para benefício de todos. Deus não é injusto por dar a uns o que nega a outros. Pelo contrário: Através disso, a justiça de Deus se manifesta, fazendo com que dependamos uns dos outros. Ninguém é auto-suficiente no Reino de Deus. A igualdade ocorre quando a abundância de uns supre a falta de outros, e vice-versa. É isso que comumente chamamos de Reinismo.

Respeitando o princípio da semeadura, Paulo diz que nossa semeadura deveria ser “expressão de generosidade, e não de avareza” (2 C.9:5b). E mais: “O que semeia pouco, pouco também ceifará, e o que semeia com fartura, com fartura também ceifará” (v.6).

Paulo não está propondo que haja competição pra ver quem dá mais. Nem está estimulando a cobiça dos irmãos, para que dêem interessados no resultado. Não! A colheita também deverá ser repartida, de modo que todos sejam beneficiados.

Segundo o Apóstolo, a Deus compete prover a semente, mas a nós compete semeá-la: “Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, e pão para o alimento, também multiplicará a vossa sementeira, e aumentará os frutos da vossa justiça” (2 Co.9:10).

Veja, ainda dependemos de freqüentes intervenções de Deus. Ele ainda multiplica... não mais pães ou peixes, e sim a nossa sementeira. Ele dá a semente. Ele provê oportunidades de trabalho, aptidões profissionais, força física, inspiração e motivação. Mas cabe-nos usar todos estes recursos para o bem comum, e não apenas para satisfação de nossas necessidades e cobiças.

Tiago afirma em sua epístola, que o motivo de muitos pedidos não serem atendidos por Deus é que pedimos mal: “Pedis e não recebeis porque pedis mal, para o gastardes em vossos prazeres” (Tg.4:3). Pedir mal é pedir pensando somente em si. Devemos pedir que Deus multiplique nossa sementeira, para que possamos ser bênção na vida de outros.

Multiplicando nossa sementeira, Ele faz aumentar os frutos da nossa justiça. E desta maneira, Ele espalha recursos, em vez de fazê-los concentrar em algumas mãos somente. Paulo revela que o propósito de Deus é “fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra. Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre”(vv.8-9).

Eis a justiça do Reino de Deus em operação. Sua meta é espalhar recursos, e distribuí-los justamente. Isso é o inverso do sistema que vemos no mundo, onde as riquezas são concentradas em poucas mãos.

A famigerada Teologia da Prosperidade é a filha caçula do Capitalismo selvagem, pois prega a concentração de riquezas como um sinal da bênção de Deus. Segunda sua linha de raciocínio, abençoado é quem, apesar da crise, consegue amealhar o máximo de bens materiais. Deus não nos chamou para sermos abençoados! Deus nos chamou para sermos bênção! Tudo o que Ele nos der, será visando o benefício dos que estiverem à nossa volta.

Sempre me emociono com o testemunho que Paulo dá acerca das igrejas da Macedônia, que “em muita prova de tribulação houve abundância do seu gozo, e a sua profunda pobreza transbordou em riquezas da sua generosidade.” Ele prossegue: “Pois segundo as suas posses (o que eu mesmo testifico), e ainda acima delas, deram voluntariamente. Pedindo-nos com muitos rogos o privilégio de participarem deste serviço, que se fazia para com os santos. E não somente fizeram como nós esperávamos, mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor, e depois a nós, pela vontade de Deus” (2 Co.8:1-5).

Eis o que Deus espera de nós: que transbordemos em generosidade. Que façamos mais do que nos tem sido pedido. Que o espírito legalista com que alguns dão o dízimo seja ofuscado pela generosidade daqueles que vão muito além dos 10%. E que além de disponibilizar nossos recursos materiais, também nos ofereçamos para servir, tanto a Deus, quanto ao nosso semelhante.

Qual o resultado de tal postura? Deixemos que Jesus mesmo nos diga:

“Daí, e dar-se-vos-á. Boa medida, recalcada, sacudida e transbordante, generosamente vos darão. Pois com a mesma medida com que medirdes vos medirão também”
(Lc.6:38).

Medida transbordante é aquela que ultrapassa os limites da borda. É o equivalente ao cálice transbordante do Salmo 23. Tudo o que ultrapassa a borda, atinge o que estiver ao redor. Queremos medida transbordante para que possamos abençoar o maior número possível de pessoas.

Pediram-lhe que desse a capa, aproveite para dar também a túnica. Convidaram-lhe para andar uma milha, acompanhe-o por duas. Este é o espírito do Evangelho. Não sobra lugar para mesquinhez, para avareza. A graça sempre nos leva além.

Jesus disse que os fariseus eram tão meticulosos em seu legalismo que davam o dízimo até do tempero usado na cozinha (coentro e hortelã). Mas Ele também diz que nossa justiça deve exceder à dos fariseus. Isso mesmo! Exceder! Ir além das bordas! Isso é o que Paulo chama de superabundante graça.

A promessa feita por Cristo encontra eco nas palavras de Paulo: “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra... A ministração deste serviço, não só supre as necessidades dos santos, mas também transborda em muitas graças, que se dão a Deus” (2 Co.9:8,12).

Não deixe passar despercebido um detalhe importante: o objetivo final de nossas contribuições não é apenas o suprimento das necessidades de alguém, mas as ações de graça que serão dadas a Deus por nossa vida.

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A demonização da cultura negra



Por Hermes C. Fernandes

Anos atrás, uma de nossas congregações resolveu fazer uma apresentação na Sede da Reina homenageando a cultura negra. Mulheres vestidas a caráter começaram a dançar ao ritmo dos tambores, bem ao estilo africano. Por ser uma festa, tínhamos a presença de irmãos de muitas igrejas. Nem todos demonstravam o correto discernimento do que ocorria ali. Não demorou muito para que se ouvissem murmurinhos e expressões do tipo "tá amarrado". Aquilo me deixou tão incomodado, que ao término da apresentação (que incluiu um grupo de capoeira), tive que chamar a atenção dos que murmuravam. 

Por que insistimos em demonizar a cultura africana? Suas danças, música, folclore e tradições são entendidas como expressões malignas. Nossa contradição, todavia, é exposta ao nos referirmos às tradições religiosas nórdicas, celtas, anglo-saxônicas e greco-romanas como mitologia. Quanto preconceito ainda há em nós!

A única coisa que poupamos da cultura africana é a sua comida, desde que não seja servida por uma baiana de roupa branca e turbante. 

Pensando bem, nunca encontrei uma passagem bíblica em que Jesus ou os apóstolos se referissem aos espíritos malignos com nomes de divindades dos panteões pagãos. Jamais flagrei os apóstolos expulsando um espírito de Júpiter ou Diana. Então, por que identificamos as divindades cultuadas nos terreiros como demônios? Por que não podemos enxergá-las apenas como mitologia, como fazemos com Zeus, Thor e Hermes?

Que há espíritos malignos por trás de qualquer culto idólatra, não me atrevo a duvidar. Inclusive por trás de muita devoção popular católica e da velada idolatria evangélica. Os demônios buscam adoração, e para isso, escondem-se por trás de figuras mitológicas e de crendices de qualquer credo.

Não duvido que haja demônios ocultos em muitas das práticas evangélicas de hoje em dia, principalmente quando envolve os chamados "pontos de contato". 

O culto genuíno é aquele que prescinde de objetos, sejam da devoção afro-brasileira como patuás, banhos mágicos e etc., sejam do espírito judaizante imperante em muitas igrejas como shofar, arcas da aliança, montes e etc. O culto que agrada a Deus se dá em Espírito e em Verdade, e não em superstições e amuletos. 

Proponho que tratemos os elementos de qualquer culto como mera mitologia, sem, contudo, faltar-lhes o devido respeito. Mas que, em contrapartida, mantenhamos puro o culto que prestamos a Deus, sem nos apropriar indevidamente de qualquer um desses elementos, nem para o mal, nem para o bem. 

Viva a cultura negra! Muito de sua mitologia encerra importantes arquétipos que revelam a natureza humana em toda a sua ambiguidade. Não os reconhecemos como deuses, mas também não os chamamos de demônios. Demônios são os que se escondem por trás de todo engano, ódio e preconceito, ainda que para isso se façam passar até por Jesus Cristo.

Aproveitando um comentário deixado em meu perfil no facebook pelo meu amigo Gilmar, "se fizessem um filme intitulado "Xango de Ife", onde um personagem negro, portando um machado de dois gumes, vindo de Aruanda e que controla os raios e os trovões, certamente seriam execrados pelos "cristãos". Mas, se o filme se chama Thor, deus nórdico a quem se sacrificavam homens, mulheres, crianças, cavalos e se penduravam em carvalhos, se põe um louro bonitão para protagonizar, e que como Xango, Zaze, Sumbo ou qualquer que seja o nome africano dado ao rei divinizado de Ife, controla o raio e o trovão, esse e visto sem peso de consciência. Prefiro Xango a Thor! A ele são sacrificados pombos, galinhas de angola, acaraje e caruru, não seres humanos."


terça-feira, novembro 18, 2014

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Um transtorno que provoca transformação




Por Hermes C. Fernandes

TRANSformar Ir além das formas estabelecidas

Além de não conformar-se, isto é, ajustar-se aos padrões vigentes, o Evangelho do Reino provoca transformações profundas, tanto no indivíduo, quanto na sociedade.

No indivíduo, esta transformação começa pela renovação do seu entendimento, conforme lemos em Romanos 12:2. Portanto, parte do subjetivo. Sua cosmovisão é radicalmente afetada. A maneira como se vê, e como enxerga a realidade à sua volta muda drasticamente.

Ele passa a perceber-se como um pecador carente da misericórdia divina. Há uma expansão da sua consciência (Metanóia no grego , ou arrependimento em português). Sua avaliação de si mesmo e do mundo passa a estar em linha com a avaliação feita por Deus. Suas opiniões particulares se rendem à verdade revelada na Palavra.

A introspecção inicial dá lugar a uma nova cosmovisão. Embora parta do subjetivo, não pára aí. Ao sentir-se transformado por Deus, o indivíduo é comissionado e desafiado a trabalhar pela transformação do mundo. Daí o caráter objetivo e abrangente da transformação proposta pelo Evangelho.

A injustiça imperante na sociedade começa a causar-lhe náuseas, porque seu coração agora bate no compasso do coração de Deus. E ele não se contenta a ser um mero espectador da história, mas almeja ser um agente subversivo do Reino de Deus.

O Espírito do Senhor que passa a habitar nele, o impulsiona a trabalhar pela restauração dos lugares há muito devastados pelo crime, pela injustiça social, pela corrupção, pela promiscuidade, e por tudo o que degenera o ser humano (Isaías 61:4).

A transformação desejada é precedida por um TRANSTORNO.

Transtornar é bagunçar o que está arrumado, para então estabelecer um novo padrão. Para dar uma faxina nada casa, é imprescindível que se tire as coisas do lugar.

Os discípulos de Jesus foram acusados de transtornar o mundo (At.17:6). Onde o Evangelho chegava, havia sempre uma desordem inicial, um alvoroço, como o que aconteceu em Éfeso, quando os comerciantes amargaram um enorme prejuízo por conta do culto a deusa Diana ter sido desacreditado.

Como já devem ter percebido, gosto muito de estudar a origem etimológica das palavras.

Algumas traduções trazem o vocábulo “alvoroço” em vez de “transtorno”. A palavra “alvoroço”, tem a mesma origem de “alvorecer”. Quando se tocava o clarim da alvorada no acampamento do exército romano, havia um alvoroço, que logo era seguido pela ordem matinal, com todos os soldados devidamente enfileirados.

A trombeta de Deus tem sido tocada, onde quer que o Evangelho do Reino seja anunciado. O alvoroço causado pela proclamação da verdade é o prenúncio de que a aurora está prestes a raiar.

Esta transformação deve abarcar todos os campos do conhecimento humano, e todos os setores da sociedade. A cultura, a ciência, a legislação, a educação, a família, nada fica imune ao fluir do Rio de Deus. E onde quer que ele passe, tudo revive ( Ez.47:9).

A igreja de Cristo não tem o direito de represar o rio da vida. Não somos lagoas de águas paradas, infestadas de micróbios e larvas de insetos. Somos o canal por onde passam as águas do rio de Deus. Deixemos, portanto, que elas desaguem no mundo, a fim de transformá-lo.

Uma religiosidade intimista, circunscrita ao indivíduo e às suas experiências, não poderá romper com os diques. O rio de água viva prometido por Jesus, flui do nosso interior, e não em nosso interior. O interior do homem é o ambiente de onde as águas transformadoras jorram, mas não é o ambiente onde elas devem desaguar.

Não deixe de acompanhar as próximas reflexões sobre o assunto. Indique também a um amigo.

segunda-feira, novembro 17, 2014

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Evangelho Transgressor



Por Hermes C. Fernandes

Já houve inúmeras tentativas de encaixar a mensagem do Evangelho dentro de um pacote ideológico, ou mesmo de identificá-la como uma filosofia. Mas dado o seu caráter subversivo, o Evangelho é transgressor por natureza. Ele não se submete às regras. Ele é livre, rebelde, e por isso, alvo de tantas contradições.

É perda de tempo tentar sistematizá-lo, dissecá-lo, ou expô-lo como uma receita de bolo. A Boa Nova do Reino sempre nos surpreende, indo além de qualquer definição.

Nesta série de reflexões, vamos buscar compreender o escopo do Evangelho através de sete palavras iniciadas com o prefixo TRANS. Oriundo do latim, o prefixo “trans” significa “ir além”, ultrapassar os limites pré-estabelecidos.

TransmitirIr além de nós mesmos

Uma notícia que se preze tem que correr o mundo. Quanto mais quando se trata da mais relevante notícia.

O Evangelho é, por definição, uma notícia, mas não uma notícia qualquer. Ele é uma ótima notícia. É a partir da transmissão desta notícia que a ordem é subvertida, e o Reino de Deus é estabelecido entre os homens.

Que grande privilégio nos foi concedido! Deus poderia ter confiado aos anjos a nobre missão de transmitir tal notícia. Em vez disso, preferiu correr todos os riscos, comissionando os homens.

Diz-se que quem conta um conto, acrescenta um ponto. Quem já brincou de telefone sem fio sabe muito bem disso. O recado dado pelo professor no pé-do-ouvido do aluno, ao ser retransmitido de aluno em aluno, vai se alterando, de forma que, ao chegar ao último aluno, seu conteúdo estará totalmente comprometido, não parecendo em nada com o que o professor disse ao primeiro portador.

Como garantir que a notícia não se corrompa na medida em que é retransmitida? Como manter seu conteúdo inalterável?

Paulo nos dá a fórmula:
“E o que de mim, através de muitas testemunhas ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (2 Tm. 2:2).
Está patente neste texto que a preocupação de Paulo é manter o conteúdo da mensagem inalterável. Em outra passagem ele diz: “O que eu recebi do Senhor, isso também vos entreguei” (1 Co.11:23a). Portanto, sua parte estava garantida. Restava agora garantir que os que a receberam, retransmitissem-na com total fidelidade.

Quais as precauções que Paulo tomou? Primeiro, o que ele dizia era sempre na frente de muitas testemunhas. Ele seguia radicalmente a instrução dada por Jesus aos Seus discípulos, de que o que houvessem ouvido dentro da casa, anunciassem de cima do telhado. Portanto, o anúncio do Evangelho deve ser feito publicamente, para que seu conteúdo seja protegido. Aquilo que se diz ao pé-do-ouvido, num lugar secreto, separado de todos, pode ser facilmente adulterado quando for retransmitido, sem que ninguém se dê conta. Ma se é dito abertamente, às claras, quem retransmiti-lo terá que fazer com precisão, para não ser confrontado.

Eis uma das diferenças básicas entre o Evangelho e as religiões de mistério que circulavam largamente nos dias da igreja primitiva. Tais religiões eram cheias de segredos, senhas, reuniões secretas em lugares separados, jargões que só eram conhecidos pelos iniciados, cerimônias misteriosas, e etc. O Evangelho vem na contramão disso tudo.

Nele, o mistério é revelado. O que foi sussurrado, deve ser proclamado em alto e bom som.

Segundo, Paulo pede que Timóteo seja seletivo na escolha daqueles que serão responsáveis pela retransmissão da mensagem. Todos podem ouvir. Mas nem todos estão aptos a retransmitir. Somente o que demonstrarem fidelidade à toda prova.

Quase dois mil anos se passaram, e apesar de todas as tentativas de se corromper o Evangelho, ele se mantém intacto. Basta que as pessoas se deem o trabalho de comparar o que está sendo pregado, com o que está registrado nas Escrituras, contando sempre com o discernimento dado pelo Espírito Santo.

As pessoas só compram gato por lebre, porque são intelectualmente preguiçosas. Não querem conferir, como fizeram os crentes bereanos. Pra quem gosta de ser enganado, esse pseudo-evangelho que tem sido apregoado em nossos dias é um prato cheio.

Que tenhamos o mesmo propósito e compromisso dos cristãos primitivos em comunicar fielmente o que receberam do Senhor.
"O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco" (1 Jo.1:3a).
Nada de revelações extras! Nada de acréscimos, numa tentativa de enfeitar o pavão. E se um anjo do céu se meter a besta, trazendo-nos uma revelação suplementar, que seja maldito, conforme diz Paulo aos Gálatas (1:8).

O futuro do mundo depende da transmissão fiel do que temos recebido do Senhor. As próximas gerações nos agradecerão.

Acompanhe nossas reflexões ao longo da semana.