domingo, agosto 28, 2016

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O Evangelho Quântico e o rompimento da lógica linear




Por Hermes C. Fernandes

Uma das mais surpreendentes passagens do Novo Testamento é a que narra o episódio da ressurreição de Lázaro (Jo.11:1-57). Cada vez que retorno a ela, deparo-me com algo que não havia percebido antes.  É como se a cada camada explorada, fôssemos desafiados a ir ainda mais fundo.

É notório que uma das diferenças entre a narrativa de João e a dos evangelhos sinópticos é que o discípulo amado parece subverter a ordem cronológica dos fatos. Um dos exemplos disso é a purificação do templo, situada por João logo no início de seu evangelho, enquanto os demais evangelistas a situam quase ao fim de suas narrativas. Era como se João, por uma inspiração divina, percebesse que a história nem sempre é linear como imaginamos. Nela também se pode aplicar a lógica da mecânica quântica, onde, às vezes, os efeitos precedem as causas, ou ao menos, podem interferir nelas. Já que os evangelhos creditados a Mateus, Marcos e Lucas são chamados de sinópticos, tomo a liberdade de chamar João de “o evangelho quântico”.

Ao contar-nos o episódio envolvendo uma das famílias mais queridas por Jesus, João parece agir como um spoiler, antecedendo fatos que só seriam narrados na sequência do texto. Nenhum escritor em sã consciência faria isso. Seria como estragar a surpresa. Imagine começar um filme de suspense revelando de cara o maior mistério da história que se pretende contar. É como assistir a um filme ao lado de quem já o assistiu e ter que ouvi-lo descrever as cenas que ainda virão. Porém, estou convencido de que João não era um spoiler. O que ele faz é subverter a lógica linear da história, como quem quisesse deixar nas entrelinhas que somos mais influenciados pelo futuro do que propriamente pelo passado.

João começa o capítulo onze de seu evangelho informando que “estava enfermo um homem chamado Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de sua irmã Marta. E Maria, cujo irmão Lázaro se achava enfermo, era a mesma que ungiu o Senhor com bálsamo, e lhe enxugou os pés com os seus cabelos” (Jo.11:1-2). Aquele bálsamo deveria ter sido usado em Lázaro. Mas Maria preferiu guardá-lo para usá-lo em Jesus. Por esta razão, Lázaro cheirava mal com apenas quatro dias de sepultamento. Defendendo-a por aquele inusitado gesto, Jesus diz que ela se antecedeu a ungi-lo, preparando-o para ser sepultado, já que, ao ser removido da cruz, não haveria tempo suficiente para prestar-lhe as devidas honras, devido à proximidade do sábado judaico. No domingo, quando outra Maria amanheceu no sepulcro para embalsamá-lo, teve a grata surpresa de não encontra-lo mais ali.

Dentro de uma cronologia convencional, primeiro se morre, para depois ser embalsamado. A irmã de Lázaro subverteu a ordem linear, ungindo Jesus dias antes que fosse sepultado. Talvez ela nem sequer tivesse ideia do que significava seu gesto. Digamos que ela tenha sido atraída por uma força vinda do futuro. E não é justamente isso que faz a fé? Ou não é a fé a certeza de coisas que se esperam e que, portanto, se insinuam no horizonte do futuro? Portanto, o que deveria influenciar nossas ações não é o passado, tampouco as demandas do presente, e sim “os poderes do mundo vindouro” (Hb.6:5).

Assim que recebeu a notícia de que Lázaro, seu amigo, a quem tanto  amava, estava enfermo, Jesus simplesmente se manteve no mesmo lugar. Era de se esperar que saísse correndo no afã de impedir que seu amigo morresse acometido daquela grave enfermidade. Mas para surpresa dos Seus discípulos, Jesus não moveu uma palha. Obviamente, isso não significava que Jesus não Se importasse. O texto faz questão de frisar que Ele amava, não somente a Lázaro, mas também às suas irmãs.

O fato de nos amar não significa que seremos poupados de certas adversidades. Por conhecer o futuro, Ele sabe exatamente como cada situação em nossa vida contribuirá para que logremos alcançar a glória derradeira.

Alguns até poderiam supor que Jesus estivesse evitando voltar àquela região devido à animosidade dos judeus que estavam dispostos a apedrejá-lo. Depois de dois dias, ao anunciar Sua decisão de finalmente visitar a Lázaro que já estava morto, Tomé, que já mostrava seu caráter incrédulo, comentou maldosamente: “Vamos nós também, para morrermos com ele.” Tomé era o típico homem preso à lógica linear da história. Para ele, o fato de Jesus não haver poupado a Lázaro da morte indicava claramente que também não os pouparia.  

Quem insiste em enxergar a vida deste prisma, está sempre com um pé atrás. Sua lógica é: se aconteceu uma vez, certamente acontecerá de novo. Suas atitudes são respaldadas pela Lei de Murphy e não pela Lei da Fé. Eles primeiro precisam ver para crer. A experiência lhes guia pela jornada da existência. Falta-lhes a disposição de dar o salto da fé. A mesma encontrada em Pedro, cuja experiência não lhe rendeu a pesca desejada, mas que aceitou o desafio de lançar sua rede sobre a Palavra, resultando numa tão grande quantidade de peixes que quase lhe afundou o barco.

A resposta de Jesus a Tomé e cia foi, no mínimo, enigmática:
Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz.
Com efeito, Jesus estava dizendo: Não estou dando um tiro no escuro. Eu sei exatamente o que estou fazendo. Quando se vislumbra o futuro, atenua-se o papel das circunstâncias momentâneas. Por isso Jesus afirmou que Lázaro estava dormindo e que iria despertá-lo. Como Seus discípulos não entenderam, Jesus teve que desenhar: Lázaro morreu! E que bom que vocês não estavam lá quando ele morreu, pois isso os impediria de crer. Agora está explicado. Jesus não se apressou a visitar Lázaro, porque não queria que os discípulos o vissem morrer.

Nossa memória é o que nos liga ao passado. Nossos sentidos nos ligam ao presente. Mas é a fé que nos remete ao futuro. Não dá para viver pelos sentidos e pela fé ao mesmo tempo. Daí Paulo dizer: "Andamos por fé e não por vista" (2 Co.5:7).

Ao chegar a Betânia, Marta saiu-Lhe ao encontro, enquanto Maria permaneceu em casa sentada. Talvez Maria pretendesse extrair outro elogio do mestre, como o que recebera em outra ocasião, quando sua irmã, agitada como sempre, trabalhava, e ela mantinha-se sentada ouvindo atentamente o que Jesus dizia. Aparentemente consternada, Marta se dirige a Jesus, dizendo: "Senhor, se estivesse aqui, meu irmão não teria morrido." Seria esta uma confissão de fé ou uma declaração de desapontamento? Ou seria a mescla das duas coisas?

Ouçamos o que ela diz em seguida: “Mesmo agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Ele te concederá.” Percebe-se que, mesmo depois de quatro dias, Marta não perdeu a esperança. Foi por isso que ela e sua irmã combinaram de não embalsamar a seu irmão. Provavelmente, ninguém sabia disso, nem mesmo os judeus que as visitavam naquele momento de luto profundo. Seria uma vergonha deixar de dar a honra devida a um familiar morto. Era comum que cada família trabalhasse para manter em casa uma quantidade razoável de bálsamo para o caso de um dos membros vir a falecer. Custava o equivalente a um ano de trabalho.

Ninguém pode acusar Marta de não ter esperança. Todavia, sua esperança parecia arremeter-se a um futuro distante, muito além do horizonte existencial. Tratava-se de uma esperança escatológica. Quando Jesus anuncia que seu irmão haveria de ressurgir, Marta responde incisivamente dentro de uma perspectiva escatológica cem por cento acertada: “Eu sei que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia.” Portanto, ninguém jamais poderá acusá-la de heresia. Sua confissão de fé estava correta. Seu credo estava dentro dos limites da ortodoxia. Porém, em ambas as declarações, Marta se revela refém.

Na primeira declaração, ela se mostra refém do futuro do pretérito: "Se o Senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido." Não se trata de estar presa ao passado. No fundo, o passado não aprisiona ninguém. O que nos cativa é o futuro do pretérito, um tempo que só existe em nossa imaginação. Se no presente conjugamos o verbo ser dizendo “eu sou”, no futuro do indicativo dizemos “eu serei”, no passado dizemos “eu fui” ou “eu era”, no futuro do pretérito dizemos “eu seria”. E é assim que ficamos presos no limbo da existência, imaginando como teria sido algo se não houvesse ocorrido isso ou aquilo.

Já que ainda não inventaram a máquina do tempo, nada há que possamos fazer para alterar o que se passou. Em vez de ficar nos lastimando pelo ocorrido, devemos buscar ressignificar eventos passados à luz do presente e do porvir. Nada acontece em vão. Tudo serve a um propósito que, ainda que o desconheçamos hoje, um dia há de nos ser revelado. Como bem disse Jesus a Pedro: O que faço agora, não entendeis, mas compreendereis depois. Quando todas as peças do mosaico estiverem devidamente encaixadas, uma figura emergirá dele, e tudo, finalmente, fará sentido. Ou vivemos por fé com olhos voltados para o futuro, ou vivemos presos ao futuro do pretérito, gastando nossas energias a nos lamentar.

Na segunda declaração, Marta se revela confiante em fatos que estariam para além desta existência. Tal confiança tem o potencial de nos alienar. A fé sadia não apenas nos remete ao futuro, mas patrocina a inserção do futuro no presente. Os peixes que caíram na rede de Pedro foram trazido para o barco e do barco trazidos à praia. Não se pode vislumbrar o futuro e deixá-lo lá mesmo. A vontade de Deus feita no céu, deve ser igualmente feita na terra. O presente deve ser copulado pelo futuro. Somos, por assim dizer, o cupido que promove este encontro fecundo entre o futuro e o presente.

Se nosso presente não estiver grávido do futuro, ele estará grávido do passado e isso equivaleria a um tipo de incesto existencial.

Em vez de elogiar a ortodoxia presente na declaração de Marta, Jesus lhe responde:

Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês isto?

Em Cristo, eventos futuros se fazem presentes. Ele os atualiza, puxando-os em nossa direção como um pescador que gira a manivela de sua vara, trazendo-nos o peixe que mordiscara sua isca.

Marta lhe dá uma resposta teológica: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.” Pelo jeito, ela tinha respostas ensaiadas na ponta da língua, mas talvez não se desse conta das implicações de tais verdades. A gente repete feito papagaio o que outros nos disseram, mas não entende o sentido do que se diz, tampouco do que se crê. 

Não foi daquela vez que Marta conseguiu a proeza de sua irmã ao ser elogiada pelo mestre. Por isso, Marta sai à francesa, vai ao encontro de sua irmã e cochicha em seu ouvido: O Mestre está aí, e te chama.

Jesus continuava estacionado na entrada da aldeia, no lugar onde encontrara Marta, quando Maria se aproximou ofegante por causa da corrida que dera, deixando os judeus que a visitavam assustados. Ao vê-lo, Maria se lançou aos Seus pés, repetindo a mesma ladainha dita por sua irmão: “Senhor, se tu estiveras aqui, meu irmão não teria morrido.”

A declaração era basicamente a mesma, porém, a reação de Jesus foi totalmente diferente. Ele não argumentou com Maria da maneira como fez com sua irmã. A diferença era que o Marta dizia com olhos enxutos, Maria repetia com os olhos encharcados. Marta dizia o que havia decorado. Maria dizia o que partida do seu coração. O tom de Marta era o de acusação. O de Maria era o de desabafo sincero.

Jesus, pois, quando a viu chorar, e chorarem também os judeus que com ela vinham, comoveu-se em espírito, e perturbou-se, e perguntou: Onde o puseste? Responderam-lhe: Senhor, vem e vê. Jesus chorou.

Como ler isso e não se emocionar? Quem jamais poderia supor que lágrimas humanas pudessem perturbar o Criador? Mesmo sabendo o desfecho daquela história, Jesus não estava emocionalmente blindado.

Por muito tempo, os teólogos têm discutido como um Deus conhecedor do futuro poderia se deixar comover pelo sofrimento humano? Algumas teologias conceberam um deus tão, tão poderoso que tornou-se asqueroso, pois revela-se incapaz de se compadecer de nossas misérias.

Como conciliar isso? Como resolver este aparente paradoxo?

O Deus que é, e que, portanto, está para além da existência, mergulhou de cabeça na história, de modo que pudesse perfeitamente se compadecer de nós (Hb.4:15). O grande “Eu sou” não tem passado, nem presente, nem futuro. Ele não existe. Ele simplesmente é. Ele transcende a existência. Porém, em Cristo, Deus Se humaniza, Se historioriza adentrando o tempo e o espaço. De sorte que, agora, Ele tem história, passado, presente e futuro. Se antes, Ele Se apresentava como o “Eu sou” (Êx.3:14), agora Ele Se apresenta como “Aquele que era, que é e que há de vir” (Ap.1:8), “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb.13:8).  

Em Cristo, Deus existe! Ele Se tornou um de nós! Por isso, Ele não apenas tem misericórdia de nós, mas também Se compadece. Ele sente nossas dores e chora nossos dissabores. O Deus Todo-Poderoso agora Se revela vulnerável ao sofrimento humano. Eis Sua fraqueza. Eis Sua loucura infinitamente mais sábia que toda nossa vã sabedoria. O Todo-poderoso também é o Todo-amoroso.

Diante daquela inusitada cena, os judeus deixaram cair suas pedras e comentaram entre si: Vede como o amava. Mas alguns deles disseram: Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também que este não morreste?” Sempre haverá quem não se contente com qualquer que seja a demonstração de amor. Esses preferem o espetáculo sensacionalista. Ainda estão presos no limbo do futuro do pretérito.

Sem dar a mínima para isso, Jesus comoveu-se outra vez, mas agora, de maneira ainda mais profunda. Chegando-se ao sepulcro, pediu que lhe removesse a pedra que o selava.

Num descuido, Marta confessa em alto e bom tom: “Senhor, já cheira mal, porque está morto há quase quatro dias”. Por que digo que aquilo foi uma confissão pública? Porque até àquele instante, ninguém supunha que as irmãs do defunto o haviam privado das honras devidas representadas pelo embalsamento.

Jesus responde a Marta: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?

Ora, se você se der o trabalho de ler o texto inteiro, verificará que em nenhum momento Jesus aparece dizendo isso a Marta. Terá sido uma falha na narração de João? Creio que não. Prefiro acreditar que Jesus tenha dito isso quando ela lhe virou as costas para chamar sua irmã. Marta era do tipo que gostava de ter a última palavra em qualquer questão. Tão logo confessou crer que Jesus era o Cristo, virou-lhe as costas sem dar atenção ao que Ele ainda diria. De fato, Ele disse, mas ela não ouviu. Quantas coisas Ele também não nos tem dito no dia-a-dia, mas não lhe temos dado a atenção merecida?

A gente prefere uma leitura superficial, atrelada ao senso comum, comprometida em manter-nos em nossa zona de conforto. Somos seletivos dando ouvidos ao que nos conforto, mas não ao que nos confronta e desafia.

Com a pedra do sepulcro removida, Jesus levantou os olhos ao céu e disse: “Pai, graças te dou, porque me ouviste.

Mais uma vez Jesus subverte a lógica linear da história. Ele agradece ao Pai por já ter ouvido uma oração que Ele ainda faria. Mesmo estando entre nós, Ele continua enxergando para além do horizonte dos fatos históricos. Para Ele, o futuro já é. Ele é o que chama a existência as coisas que não são como se já fossem (Rm.4:17). Tomando um barco como analogia, podemos dizer que os sentidos nos ancoram na realidade, impedindo que naveguemos, os sentimentos nos fazem tocar a mesma realidade, porém, sem nos prender a ela, mas é a fé que nos provê as velas que nos fazem avançar mar a fora. Não podemos nos privar dos sentimentos, sob pena de nos tornarmos seres apáticos e alienados. Mas também não podemos nos privar da fé, sob pena de sermos vendidos ao desespero ou ao cinismo.

Depois de agradecer ao Pai, Jesus clama em alta voz dirigindo-se ao túmulo: Lázaro, vem para fora! Não foi preciso falar mais de uma vez. Vir para fora é um convite a nos tornarmos igreja (grego = ekklesia = tirados para fora). Não fora da realidade, o que seria alienação. Mas voltada para fora de si mesma, isto é, para o mundo à sua volta. Engajada na história, porém, comprometida com a eternidade.

Apesar de atender ao chamado que ecoou em seu sepulcro, Lázaro saiu com os pés e as mãos enfaixados e seu rosto envolto num lenço. O que o diferenciava de uma múmia egípcia era o fato de não ter sido embalsamado. Mesmo vivo, continuava preso. Caberia aos seus discípulos, dentre os quais estavam Marta e Maria, desatá-lo e deixá-lo ir.

Desafio semelhante é o que enfrentamos em nossos dias. Há muitos que foram regenerados, tendo experimentado o poder da ressurreição, mas que estão atados pelas tradições mofadas que lhes foram legadas. O que esta geração de cristãos precisa não é uma novo avivamento, mas de um desatamento.

Deixem Lázaro em paz! Ele precisa de um banho! Não precisa chantageá-lo para que siga a Jesus. O mesmo que o ressuscitou o atrairá a Si com o poder do Seu amor. O fato é que, no dia seguinte, Marta e Maria resolveram dar um banquete para Jesus, e adivinha quem estava sentado à mesa? Lázaro! Foi nesta ocasião que Maria quebrou o protocolo e derramou em Jesus o bálsamo que deveria ter sido usado em seu irmão. E é aí que a história começa...



sábado, agosto 27, 2016

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Um Deus de pés descalços e calejados



Por Hermes C. Fernandes

Eu tinha entre nove e dez anos quando me atrevi a pedir que meu pai me desse uma mesada. Em vez disso, ele me presenteou com uma caixa de engraxate. A igreja que ele pastoreava estava em obras. Ninguém queria deixar o culto com os pés empoeirados. Aquela foi minha primeira fonte de renda. Antes que julguem meu pai pela iniciativa de me fazer trabalhar tão cedo, devo dizer que nunca o questionei por aquilo. Pelo contrário. Sem querer fazer apologia ao trabalho infantil, orgulho-me por ter começado cedo. Os tempos eram outros. 

Jamais vou me esquecer do orgulho que senti ao comprar meu primeiro par de docksiders com o dinheirinho ganho com o meu suor. Sempre quis ter docksiders, mas meu pai, que havia sido sapateiro na juventude, se recusava a comprá-los por achar que não eram sapatos de verdade. Mas, agora, com o meu dinheiro, podia comprar o que quisesse. 

Se eu me importava ou me sentia humilhado por ser o filho do pastor engraxando sapatos dos fiéis? Que nada! Gostava de deixar os sapatos bem escovados, quase espelhados. Descobri o prazer de trabalhar não apenas pelo dinheiro, mas pela satisfação advinda do serviço em si e pela satisfação constatada no sorriso dos clientes. Devo confessar que cada elogio recebido deixava meu ego mais lustrado que os sapatos que engraxava. 

E o que é isso em comparado com o que o fez o Filho de Deus? Eu apenas engraxava sapatos, contentando-me em ver meu reflexo em seu brilho. Ele se pôs a lavar os pés de Seus discípulos. Aquele sim era um trabalho escravo. Eu usava escova e graxa. Ele usou uma bacia de água e uma toalha. Que reflexo se podia ver em pés limpos? 

Porém, o Jesus que tem sido pregado nos púlpitos atuais está mais para engraxate. Que diferença poderia haver entre uma atividade e outra? Ambos não são serviços que envolvem os pés? Eis a diferença básica entre qualquer ideologia ou religiosidade meramente humanas e a espiritualidade proposta por Jesus: A primeira só faz lustrar nossos sapatos, valorizando aquilo que é aparente, externalidades. A segunda, valoriza o que fica escondido, mas que é a base de sustentação sobre a qual descansa todo o resto. 
Qual a primeira coisa que fazemos quando lavamos nossos pés? Alguém já lavou os pés estando calçado? Por isso, Deus, ao comissionar Moisés a tirar Seu povo do Egito, ordenou que antes tirasse as sandálias de seus pés. Quem diria que este mesmo Deus, um dia lavaria os pés dos homens? 

Onde já se viu... um Deus que não se importa com técnicas, estratégias, marketing, background, Know-How, convenções sociais... Ele lida é com subjetividades. Um Deus real que mergulha em nossas realidades. 

O Deus revelado em Jesus não é nem engraxate, nem sapateiro. Ele não lustra, nem conserta sapatos. Ele cuida dos pés. 

Ele não sacraliza perímetros, geografias, objetos, instituições, tradições; Ele sacraliza consciências, que por sua vez tornam sagrado tudo o que percebe à sua volta. De que adianta pés imundos escondidos em sapatos lustrados? 

Meu pai costumava dizer, como bom sapateiro que era, que é possível reconhecer o nível social de alguém pelos calçados. Alguém duvida? Instintivamente, a primeira coisa para a qual olhamos ao encontrar alguém é para seus pés. Seus calçados dirão mais dela do que seus trejeitos e impostação de voz. Os romanos antigos concordariam com isso. Nos tempos áureos do império, o calçado indicava a classe social dos cidadãos. Os cônsules usavam sapato branco, os senadores sapatos marrons presos por quatro fitas pretas de couro atadas a dois nós, e o calçado tradicional das legiões era a bota de cano curto que mantinha os dedos descobertos. Já entre os egípcios antigos, mais despojados, era comum andar descalço e carregar as sandálias, usando-as apenas quando necessário. 

Alguns calçados são imponentes, com seus saltos agulhas ou exibindo brilho intenso com os de cromo alemão. Outros são despojados como as havainas ou os chinelos franciscanos. Porém, sem eles, somos todos iguais, vulneráveis, calejados, cansados. 

Então, que tal descermos do salto um pouco e caminharmos desprovidos da habitual arrogância que ostentamos? Que tal sermos mais complacentes com o nosso próximo em vez de julgá-lo pelo brilho ou desgaste de seus calçados? Somente pés calçados são capazes de chutar. Ninguém em sã consciência chutaria qualquer coisa, nem mesmo uma bola, com os pés desprotegidos, não é mesmo? Quem anda descalço corre o risco de se machucar, mas não sai por aí machucando os outros. 

Só exibe pés descalços quem não tem motivos de esconder seus calos ou seus esporões. Quem assume plenamente sua condição humana. Pelo menos, não precisa dizer que está com uma pedra no sapato. A gente até pisa em pedrinhas, mas não lhes oferece abrigos em nossos calçados. Eis uma das vantagens de se andar descalço no chão da existência. Certamente haverá calos. Todavia, serão melhor distribuídos pelos pés, em vez de se concentrarem somente onde o sapato aperta. 

Qualquer um que ouse se aproximar do Criador, ouvirá d’Ele a mesma recomendação: Tire as sandálias de teus pés. O lugar sagrado de que Ele fala não é o perímetro ao redor da sarça, mas o perímetro relacional. Um Deus descalço almeja relacionar-se com seres igualmente descalços. E isso não se limita ao nosso relacionamento com Deus. Toda relação é um campo sagrado. Seja entre pais e filhos, maridos e mulheres, irmãos, amigos, e até entre desconhecidos e desafetos. 

O sapato até protege, mas aperta. Traz conforto e desconforto ao mesmo tempo. Ilude-nos com a sensação de estarmos seguros, mas nos priva da sensação de alívio que só sentimos quando os removemos. 

E cá entre nós... O que é um buraco na sola do sapato para pés descalços? Nada. Em compensação, que outra sensação se iguala a de pisar sobre a relva com os pés desnudos? 

Quanto da vida se aproveitaria se nos arriscássemos a aposentar nossos sapatos? Imagine se nos livrássemos das sandálias do preconceito, da prepotência, da ganância e de tudo mais que nos isola do que a vida tem de melhor. 

Talvez assim, o mundo se abrisse à mensagem que nos propusemos propagar. Não é à toa que Paulo, o apóstolo faz coro com o profeta Isaías ao exclamar: “Quão formosos os pés dos que anunciam as boas novas” (Romanos 10:15)! Não são formosos por serem perfeitos, mas por estarem nus, sem a pretensão de impor uma verdade. São formosos porque refletem os pés de cada ser humano, independente de sua condição social, credo ou etnia. Formosos porque pertencem a quem segue pelo mundo afora anunciando que Deus não está de mal com os homens.

Segue abaixo uma das mais lindas canções de Sandy.


quinta-feira, agosto 25, 2016

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Combatendo a raiz do desespero humano





"Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. 
E aventurar-se no sentido mais elevado é precisamente tomar consciência de si próprio." Soren Kierkegaard


Por Hermes C. Fernandes

Eis a genealogia do desespero humano: a morte gera o medo, o medo gera a ansiedade, e a ansiedade gera a depressão. Ao nos convertemos a Cristo, o pavor da morte é neutralizado, e a ansiedade fica órfã. E mesmo em sua orfandade, ela ainda é forte o bastante para gerar a depressão.

Como lidar com a ansiedade? Como livrar-se da inquietação da alma? O mesmo antídoto usado contra o medo da morte deve ser usado para tratar da ansiedade: o Amor.

Quando nos sentimos amados por Deus, sabemos que somos importantes para Ele. Deus Se importa com aqueles a quem ama. Foi para isso que Jesus chamou a atenção dos Seus discípulos: “Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu; não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, e, contudo, o vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? Qual de vós poderá, com as suas preocupações, acrescentar uma única hora ao curso da sua vida? Quanto ao vestuário, por que andais ansiosos? Observai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam. Eu, porém, vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vestirá muito mais a vós, homens de pequena fé? Portanto, não andeis ansiosos, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Pois os gentios procuram todas estas coisas. De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas elas. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não andeis ansiosos pelo dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal”.[1]

A ansiedade faz com que invertamos nossas prioridades. Passamos a atribuir maior valor àquilo que não tem tanto valor. Fazemos do meio, um fim em si mesmo. O alimento passa a ser mais importante do que a vida. A roupa tem mais valor do que o corpo. O sexo se torna mais importante do que o companheirismo. O salário mais importante do que a vocação profissional. E assim por diante.

Cristo nos conclama a observar o mundo à nossa volta, percebendo os cuidados que Ele dispensa à criação. Ele cuida dos pássaros, dos animais selvagens, dos insetos, dos peixes, e até das minúsculas bactérias. Se o homem é a coroa da criação, como Deus não Se importaria com ele?

Cristo nos convida a descansar em Seu Amor providencial. Não há nada a temer. O amanhã pertence a Ele. Pra quê sofrer por antecipação? Enquanto nos preocupamos em demasia com o futuro, deixamos de viver o dia chamado “Hoje”.

Atribui-se a John Lenon a seguinte frase: “A vida é o que se passa, enquanto nos ocupamos com outras coisas”. Quando enxergamos a vida com as lentes do amor, deixamos de priorizar nossas próprias necessidades, para priorizar o Reino de Deus e a sua justiça.

Quando descansamos nos cuidados d'Ele, nosso sono é tranqüilo e reparador. Mesmo quando fugia de seu filho Absalão, que intentava matá-lo, Davi foi capaz de declarar: “Eu me deito e durmo; acordo, porque o Senhor me sustenta”[2]. Em outro Salmo, ele diz: “Em paz me deitarei e dormirei, pois só tu, ó Senhor, me fazes habitar em segurança”.[3] O salmista sabia que “aos seus amados, Ele dá enquanto dormem”.[4]

A vida não é como um aparelho de vídeo-cassete, que basta apertar um botão pra fazer avançar o filme, ou um outro pra rebobinar a fita. A ansiedade faz com que percamos a paciência de esperar a conclusão de um processo. Queremos saber o final da história, enquanto ela ainda está em andamento.

Lembremo-nos de que “aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Cristo Jesus”.[5] Deus não abandonará Sua obra, antes que ela seja concluída. E nada, absolutamente nada, é capaz de fazer com que Ele altere Seu cronograma. Pois “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”.[6]

A melhor coisa a se fazer é confiar e descansar. De outra maneira, estaremos provocando o Senhor, e nos rebelando contra Ele. Cabe aqui a exortação do Espírito Santos, encontrada na epístola aos Hebreus:
“Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo. Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama HOJE, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado. Temo-nos tornado participantes de Cristo, se é que guardamos firme até o fim a confiança que desde o princípio tivemos. Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, com na provocação (...) Procuremos, portanto, entrar naquele descanso, para ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência”.[7]
Não há alternativa! Temos que confiar no amor e no zelo de Deus por Seu povo. Se deixarmos de confiar, estaremos desperdiçando o dia chamado “Hoje”, em favor de um amanhã incerto. Ele é responsável por nossa vida, e por todos os nossos amanhãs.

Nas palavras de Pedro, devemos lançar sobre Ele toda a nossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de nós.[8] E como podemos lançar sobre Ele nossa ansiedade? Vejamos a recomendação de Paulo:
“Não andeis ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e pela súplica, com ações de graças, sejam as vossas petições conhecidas diante de Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus”.[9]
A oração é o mecanismo através do qual nos livramos da ansiedade. Nossa confiança em Deus precisa ser verbalizada. Orando, externamos nossas inquietações. A oração não visa mudar Deus, e sim, mudar a maneira como vemos a vida. Os planos de Deus não são alterados quando oramos. Quem precisa ser transformado somos nós, e não Deus.

Orar é verbalizar. Suplicar é recorrer à misericórdia de Deus. Tudo isso precisa ser acompanhado de ações de graças. Não devemos deixar pra agradecer depois de recebermos a resposta de nossas orações. Se não formos capazes de agradecer, enquanto pedimos, sairemos da oração ainda tomados pela ansiedade. Será que Deus me ouviu? Será que Ele me responderá? São questões inquietantes, e que atentam contra a fé. Não podemos duvidar dos cuidados de Deus. Aquilo que pedimos está nos planos de Deus. Ele decidiu lhe abençoar, me antes de você nascer. Entretanto, para que isso redundasse em ações de graças, Ele decidiu que lhe abençoaria em resposta às suas orações. As ações de graças validam nossas orações. A oração com ações de graças é a válvula pela qual somos livres das pressões e inquietações da vida.

Diante do túmulo de Lázaro, antes mesmo de ordenar que ele voltasse à vida, Jesus orou: “Pai, graças te dou porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves”.[10] Este é o padrão de uma oração que nos livra das inquietações e angústias diante da morte e da vida.

Não basta declarar nosso amor a Deus. Devemos afirmar o quanto nos sentimos amados por Ele, e isso, o fazemos através de ações de graças.

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[1] Mateus 6:25-34[2] Salmo 3:5[3] Salmo 4:8[4] Salmo 127:2b[5] Filipenses 1:6b[6] Eclesiastes 3:1[7] Hebreus 3:12-15, 4:11[8] 1 Pedro 5:7[9] Colossenses 4:6-7[10] João 11:41b-42a

terça-feira, agosto 23, 2016

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A dança como instrumento de sedução e alienação



Por Hermes C. Fernandes

Nos dois textos anteriores defendemos a dança como expressão de louvor e interação social. Demonstramos através de diversas passagens bíblicas que nada há que desabone sua prática. Entretanto, não podemos ignorar o estado pecaminoso em que se encontra a humanidade, corrompendo tudo à sua volta. Somos uma espécie de rei Midas ao inverso [1], tudo o que tocamos se deteriora, perdendo seu valor original.  Nenhuma manifestação cultural está imune à contaminação do pecado, e isso, naturalmente, inclui a dança.

A mesma faca usada para fatiar um pão pode ser usada para cometer um homicídio. Isso não a torna intrinsecamente má. Assim se dá com relação à dança e qualquer outra manifestação cultural. Cabe aqui a argumentação de Paulo de que “todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados” (Tt. 1:15).

Temos exemplos bíblicos de como a dança pode ser mal utilizada em propósitos funestos e destrutivos. Por exemplo, no episódio em que a enteada de Herodes, orientada por sua própria mãe, o seduz com sua dança sensual, a ponto do rei babão dizer: “Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino” (Mc. 6:23). Aliás, esta é uma das raras vezes em que encontramos nas páginas das Escrituras um exemplo de dança performática. Nas demais vezes, a dança é apenas uma manifestação espontânea de alegria de um povo. Isso, de maneira alguma, desabona as danças performáticas como, por exemplo, o ballet clássico ou o street dance. O problema não está na performance em si, mas no propósito por trás dela. 

A filha de Herodias sabia o potencial sedutor de seus movimentos corporais. Provavelmente estava vestindo roupas sumárias, provocando a imaginação do rei. No final das contas, o rei perdeu a cabeça em seus devaneios, enquanto o maior dos profetas perdeu-a literalmente numa bandeja de prata.

Quantos chefes de família têm perdido a cabeça em boates de strip-tease! Quantas meninas estão se perdendo nas mãos desta famigerada indústria de entretenimento! Menores são aliciadas. Mulheres contrabandeadas pelo mundo afora. Tudo para o aprazimento de homens desprovidos de qualquer escrúpulo.

O cristão que aprecia a dança artística deve cuidar para que seu corpo não se torne num instrumento de sedução barata, lembrando sempre que ele é templo do Espírito Santo (1 Co.6:19).  Nosso lema deve ser “não pecar e não fazer ninguém pecar”. Somos carne e, portanto, vulneráveis ao assédio de nossos apetites carnais. Então, para quê cutucar a onça com vara curta?

Quem está envolvido com dança, quer seja na igreja ou como profissional, deve pautar pelo equilíbrio, evitando a vulgarização de algo tão precioso. 

A sensualidade também não é algo ruim em si mesmo. Todos temos uma medida de sensualidade. O que precisa ser evitado é a vulgarização. Não vejo qualquer erro numa mulher seduzir seu marido com uma dança provocativa. Aos olhos de Deus eles são uma só carne. Um relacionamento conjugal desprovido do elemento sedução está fadado ao naufrágio. O próprio intercurso sexual tem seu ritmo e movimento, análogo à dança. Errado seria usar seu poder de sedução para arrancar do outro o que quiser, como fez a enteada de Herodes.

O outro exemplo de dança performática encontrado nas Escrituras é a protagonizada por Sansão no templo de Dagom. O texto diz que os filisteus que o haviam prendido estavam tão eufóricos que exclamaram: “Mandai vir Sansão para nos divertir! Tiraram-no da prisão, e Sansão teve que dançar diante deles. Tendo sido colocado entre as colunas” (Jz. 16:25). Lemos ainda que “o templo estava repleto de homens e mulheres, e estavam ali todos os príncipes dos filisteus; havia cerca de três mil pessoas, homens e mulheres, que do teto olhavam o prisioneiro dançar” (v.27).

Todos se divertiam à custa de Sansão até que este faz um pedido inusitado ao seu Deus. Com as forças devolvidas, Sansão derruba as colunas do templo, matando de uma vez maior número de inimigos do que durante toda a sua trajetória.

Definitivamente aquele não era o lugar de Sansão. Seus cabelos haviam sido raspados, seus olhos vazados, sua honra ultrajada. Suas energias agora eram despendidas no trabalho forçada no moinho de Dagom. Como se não bastasse, o herói dos hebreus se transformara no bobo da corte.

O que estava sendo celebrado ali? A suposta vitória de Dagom, divindade filisteia sobre Iavé, Deus dos hebreus. 

Não é por gostarmos de dançar que devemos frequentar certos lugares, onde o que se celebra é contrário a tudo em que cremos.  Como um cristão poderia participar de um desfile de escola de samba que estivesse promovendo o culto a outras divindades? Ainda que respeitemos a religiosidade alheia, não devemos violar nossa consciência. Nosso culto é direcionado exclusivamente ao Deus revelado em Jesus Cristo. Como um cristão se sentiria dentro de um baile funk onde os valores morais são pisoteados e o sexo é cultuado como se fosse um deus? Se somos habitados pelo Espírito Santo, sentiremos um enorme desconforto por estarmos sendo cúmplices das obras infrutuosas das trevas (Ef.5:11).

O povo de Israel achou que Moisés já estava morto depois de uma ausência de quarenta dias no monte. Pressionando Arão, fizeram um bezerro de ouro e festejaram-no como se fosse o deus que os tirara do Egito. Quando Moisés vinha descendo, encontrou-se com Josué que o esperava no pé da montanha, e disse: "Há gritos de guerra no acampamento!" "Não, respondeu Moisés, não são gritos de vitória, nem gritos de derrota: o que ouço são cantos." Aproximando-se do acampamento, viu o bezerro e as danças. Sua cólera se inflamou, arrojou de suas mãos as tábuas e quebrou-as ao pé da montanha. Em seguida, tomando o bezerro que tinham feito, queimou-o e esmagou-o até reduzi-lo a pó, que lançou na água e a deu de beber aos israelitas” (Êx. 32:17-20).

Suponho que muitos dos que ali dançavam em torno do bezerro não tinham a menor ideia do que estivesse acontecendo. Eram “Maria vai com as outras”. Apenas se deixaram embalar pela música e começaram a dançar alheios aos fatos. Que decepção para Moisés! Depois de tudo o que aquela gente assistira, como a abertura do Mar Vermelho e as pragas no Egito, bastaram alguns acordes para que se esquecessem de tudo e celebrassem perante o deus errado.

A música e a dança têm potencial entorpecente, capaz de fazer com que o cérebro produza efeitos semelhantes aos das drogas. Neste estado de consciência as pessoas podem fazer coisas de que se arrependerão pelo resto de suas vidas.

Preciso salientar que o problema não é a comida, mas a glutonaria. Nem a bebida, mas o alcoolismo. Nem o sono, mas a preguiça. Nem o sexo, mas a promiscuidade. Assim também, o problema não é a dança, mas seu uso desprovido de senso crítico.


* Caso não tenha lido os dois posts anteriores, recomendo que o faça para uma compreensão mais abrangente do tema. 




[1] Midas é um personagem da mitologia grega que transformava em ouro tudo o que tocava.

segunda-feira, agosto 22, 2016

28

O cristão pode dançar em ocasiões festivas?


dança como instrumento de interação social


Por Hermes C. Fernandes

“Mas, a quem assemelharei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.” Mateus 11:16-17

Supondo que a questão da dança como expressão de louvor esteja superada, passemos adiante e reflitamos sobre a dança em seu aspecto social. Haveria alguma base bíblica que respaldasse o boicote dos cristãos à dança? Seria errado que um pai de família dançasse a valsa na celebração dos quinze anos de sua filhinha? Ocasiões como casamentos, aniversários e formaturas não poderiam ser festejadas com danças? O marido que num rompante romântico tirasse a esposa para dançar estaria cometendo algum sacrilégio? Sugiro que deixemos de lado nossos preconceitos e investiguemos o que dizem as Escrituras sobre isso. O sábio Salomão salienta que “tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar (Ecl.3:1-4).

Certamente que ele não estava referindo-se à dança litúrgica, mas a celebração que fosse o contraponto do pranto e do luto.  Se num funeral, pranteava-se, num casamento era comum que os convivas acompanhassem os nubentes na dança.  No Israel dos tempos bíblicos, não havia bodas sem baile. Seria como um casamento sem bolo em nossos dias.  Duvido muito que o próprio Jesus não tenha dançando durante as bodas de Caná da Galileia. Teria sido uma desfeita, pra não dizer uma afronta.


Muitos cristãos preferem não frequentar festas porque se sentem deslocados quando a turma começa a dançar. Uns, simplesmente se levantam, e saem à francesa. Outros se sentem afrontados por acharem que sua presença deveria impor algum respeito.  Ora, se somos orientados a “chorar com os que choram e alegrar-nos com os que se alegram”, logo, deveríamos, no mínimo, sentir-nos contentes de vê-los celebrar.  Jamais deveríamos portar-nos como “estraga-prazeres”.

Lemos em Juízes 21 que a tribo de Benjamim se via ameaçada de extinção e que, por isso, seus homens foram a uma espécie de baile à procura de moças para se casarem.  “Quando as moças estavam dançando, cada homem tomou uma para fazer dela sua mulher. Depois voltaram para a sua herança, reconstruíram as cidades e se estabeleceram nelas” (Juízes 21:23). Aquela tribo foi salva por um baile.

É claro que não estamos aqui fazendo apologia aos bailes onde prevalece a imoralidade. A própria igreja ou as famílias poderiam promover celebrações onde os jovens pudessem se alegrar e bailar de maneira decente, saudável e divertida. Quantos anciãos poderiam aproveitar um baile da terceira idade para fazer amigos e até encontrar alguém com quem pudessem compartilhar o restante de sua vida!

Além de espirituais, também somos seres sociais.

Também não estou defendendo que se façam bailes como estratégia evangelística, mas como celebrações legítimas para o próprio povo de Deus, onde possamos dar boas gargalhadas, brincar entre amigos, cantar, dançar e festejar sem nos preocupar com críticas dos que se consideram super-espirituais.

A ausência de dança representava juízo de Deus sobre o Seu povo

Na Antiga Aliança, a falta de dança era resultado do juízo de Deus sobre o Seu povo.

“Cessou a alegria de nosso coração”, desabafa Jeremias,  “converteu-se em lamentação a nossa dança” (Lm. 5:15). Se o coração de Deus não estava alegre, isso acabava refletindo na vida social do Seu povo. Cria-se que a alegria do Senhor era força do Seu povo. Se Deus estava satisfeito, logo, todos festejavam. 

A propósito, o Deus que se revelou aos patriarcas e profetas é um Deus festeiro. Não foi à toa que Ele estabeleceu quatro festas anuais em Israel, e todas elas regadas a muita dança.  Ora, se a ausência de dança indicava juízo, sua volta marcava a restauração da alegria do povo.

O mesmo profeta prediz:
“Então as moças dançarão de alegria, como também os jovens e os velhos. Transformarei o lamento deles em júbilo; eu lhes darei consolo e alegria em vez de tristeza.” Jeremias 31:13
O salmista também testifica: “Mudaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste de alegria” (Sl. 30:11). Restauração é a palavra-chave. Onde quer que ela ocorra, sobram motivos para festejar.

Foi o que aconteceu no retorno do filho pródigo. Aquele momento precisava ser celebrado. Por isso, o pai mandou anunciar que naquela noite haveria baile na fazenda.  Não era um culto, mas um baile. Porém, aos ouvidos de Deus aquele baile soaria como um autêntico culto de ação de graça. Enquanto todos se divertiam, o filho mais velho que passara o dia no campo trabalhando chegou perto de casa, e “ouviu a música e as danças” (Lc. 15:25). Aquela foi a gota d’água. Ofendido, ele recusou-se a entrar na festa. Foi preciso que o pai saísse ao seu encontro e o convencesse de que aquela era uma ocasião propícia para celebrar. O filho que estava morto havia revivido.

Quantos de nós temos reagido exatamente como o filho mais velho da parábola? Não admitimos que outros celebrem. Questionamos suas motivações. Achamos que a única razão de celebrarmos é o fato de sermos salvos. Ok.  Esta é a mais forte razão, mas não é a única. Por que não festejarmos o nascimento de um filho? Por que não sair pra dançar com a esposa no aniversário de casamento? Por que não tirá-la pra dançar na sala de estar ao som de uma música romântica? Será que o Espírito Santo se sentiria ofendido ao ver um casal abraçado dançando romanticamente? Creio que não. Aborrecido ficaria ao vê-los brigar, discutir, se agredir verbalmente.

Sempre haverá ocasiões especiais para serem celebradas com danças. Lemos que “quando os soldados voltavam para casa, depois de Davi ter matado o filisteu, as mulheres saíram de todas as cidades de Israel ao encontro do rei Saul com cânticos e danças, com tamborins, com músicas alegres e instrumentos de três cordas.” (1 Sm. 18:6). E não eram propriamente louvores a Deus que entoavam.

Há quem pense que só podemos dançar canções que exaltem o nome do Senhor. Porém, há canções que, ainda que não mencionem o nome “Deus”, exaltam valores que nos são caros, tais como família, amizade, amor, etc.

Confesso que não me sentiria confortável dançando com a minha esposa ao som de louvores. A ocasião não é própria para isso. O que não falta é oportunidade de louvar ao meu Deus, e acho que Ele não se sente enciumado quando tiro minha esposa para dançar ao som de uma canção romântica secular. Desde que sua letra não afronte minha fé e meus valores, nada impede que eu a curta ao lado de quem amo.

No próximo post quero abordar o outro lado da moeda, mostrando como a dança tem sido usada como instrumento de sedução e alienação. 

sábado, agosto 20, 2016

15

É legítimo usar a dança como expressão de louvor a Deus?




Por Hermes C. Fernandes

Não é de hoje que a dança é um tabu entre os cristãos de diversas tradições. Há quem a admita apenas como expressão cultural ou de interação social, mas jamais como instrumento de louvor a Deus. E há quem faça o caminho inverso, usando e abusando da dança no ambiente de culto, porém, desprezando-a fora dali.

Pesquisando pela internet encontrei várias advertências quanto ao seu uso pelos cristãos. De acordo com o site Jesus Voltará, a igreja metodista condena a dança, alegando que ela é "prejudicial à vida cristã. O mesmo site afirma que para a igreja congregacional, "a prática da dança por parte dos membros de nossa igreja não condiz com a profissão religiosa, devendo ser tornada objeto de disciplina. A igreja presbiteriana consideraria "a prática de dança por parte dos membros da igreja como pasmosa incoerência", e alerta aos pais que enviarem seus filhos a escolas de dança de estarem cometendo um grave erro na disciplina da família. Para o bispo A. C. Coxe da igreja episcopal, "a dança é lascívia". O mesmo bispo advertiu aos dançadores a não participarem da mesa da comunhão. O bispo Hopkins, também da igreja episcopal, acrescenta: “A dança é responsável pela dissipação de tempo, a condescendência para com a vaidade pessoal e o incitamento prematuro das paixões, e artifício nenhum pode torná-la condizente com o pacto do batismo.” Nem mesmo a igreja católica romana se posicionou favorável à dança. O Concílio Pleno de Baltimore diz:“Consideramos ser nosso dever advertir nosso povo contra os divertimentos que possam facilmente tornar-se para eles ocasião de pecado, contra as modalidades de danças que, como praticadas presentemente, repugnam a todo sentimento de delicadeza e decoro, e se fazem acompanhar dos maiores perigos para a moral.”[1]

Apesar de todos estes posicionamentos contrários à dança, ela nunca esteve tão presente na vida eclesiástica quanto atualmente.  Deixando de lado as opiniões denominacionais, verifiquemos o que dizem as Escrituras acerca desta prática que acompanha a humanidade desde os seus primórdios.

# Dança como expressão de louvor a Deus nas Escrituras

Não faz muito tempo que algumas igrejas resolveram adotar a dança em seus cultos. Porém, no afã de evitar escândalo, principalmente por parte dos mais conservadores, adotou-se a nomenclatura “coreografia” em vez de “dança”.  A princípio, os grupos de coreografia apresentavam perfomances comedidas, com passos e gestos bem sóbrios. 

Com o passar do tempo, alguns grupos aderiram ao mover conhecido como dança profética.  O termo ‘dança’ em conexão com o termo ‘profética’ tornou a prática mais palatável entre os considerados mais espirituais, despindo-a de sua conotação mundana. Segundo os expoentes do movimento, a dança profética teria o objetivo de trazer mensagens à congregação, levando-a a uma adoração mais profunda.  Deste mover, desenvolveu-se a adoração extravagante, em que os participantes expressam seu louvor a Deus com canções e danças improvisadas.

Já entre os pentecostais clássicos surgiu o movimento conhecido como re-te-té, em que as pessoas são tomadas por uma espécie de êxtase, rodopiando ou marchando pelo salão da igreja. Tais manifestações exóticas são consideradas por estes grupos como danças espirituais, embaladas pelo som de pandeiros e corinhos de fogo cujo ritmo e harmonia lembram pontos cantados em terreiros de religiões afro-brasileiras.

Apesar de nossas reservas devido aos abusos cometidos em alguns movimentos, não podemos negar que haja fundamentação bíblica para o uso da dança como expressão de louvor a Deus.

Lemos no relato do Êxodo dos hebreus, que após atravessarem o Mar Vermelho, “Miriã, a profetiza, a irmã de Arão, tomou o tamboril na sua mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças” (Êx. 15:20).

Alguns poderão alegar que Miriã provavelmente estava sob influência cultural egípcia, e que àquela altura o povo de Israel ainda não havia desenvolvido sua própria maneira de cultuar a Deus.  Entretanto, encontramos outro episódio ocorrido vários séculos depois, quando Israel já estava devidamente estabelecido como nação, e o culto a Deus já havia sido normatizado. Trata-se da passagem em que Davi trouxe de volta a Jerusalém a Arca da Aliança. O texto diz que “Davi, vestindo o colete sacerdotal de linho, foi dançando com todas as suas forças perante o Senhor, enquanto ele e todos os israelitas levavam a arca do Senhor ao som de gritos de alegria e de trombetas” (2 Sm. 6:14-15). Censurado por sua própria esposa que o acusou de querer exibir-se perante suas servas, Davi se justificou: foi perante Senhor que dancei; e perante ele ainda hei de dançar” (2 Sm 6:21). Aos que insistem em associar a dança com irreverência, pergunto: Estaria Mical com a razão? Teria Davi cometido algum excesso? 

Não bastassem esses dois casos, encontramos uma orientação clara no livro dos Salmos, que, diga-se de passagem, foi fartamente usado pela igreja primitiva como base do seu culto a Deus:

“Louvai-o com o tamborim e a dança, louvai-o com instrumentos de cordas e com órgãos. Salmos 150:4

A maioria que discorda do uso da dança como elemento de culto alega não haver no Novo Testamento qualquer orientação acerca disso. Porém, sabemos pelo próprio Paulo, que a igreja deveria usar os Salmos em seu culto a Deus. Confira:

“Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração.” Efésios 5:19

Teria Paulo e os demais apóstolos censurado o Salmo 150 que nos orienta a louvar a Deus com danças? Recuso-me a crer nesta possibilidade. Imagine a cena: todos estão declamando este salmo, quando, de repente, alguns começam a dançar. Paulo, então, interrompe a leitura e diz: “Parem com isso agora mesmo! Que irreverência! Vocês podem ler, mas não praticar!” Ora, isso não me parece razoável.

E o que dizer dos Salmos 87 e 149? Também deveriam ser censurados?

“Com danças e cânticos, dirão: "Em Sião estão as nossas origens!” 
Salmos 87:7

“Louvem eles o seu nome com danças; ofereçam-lhe música com tamborim e harpa.” Salmos 149:3

A exigência neotestamentária é que o culto deve ter ordem e decência (1 Co.14:40). Porém isso, de maneira alguma, exclui expressões corporais, desde que não sejam apelativas e sensuais. Ademais, por que numa aliança caracterizada pela liberdade faltaria um elemento como a dança tão apreciada sob a primeira aliança? Seria, no mínimo, um contrassenso acreditar que os que vivem sob a égide da graça seriam privados de um bem tão comum aos que viveram sob o peso da lei.

Que tem havido abuso quanto ao uso da dança no culto, não me atrevo a discordar. Só não vejo razão para jogar fora o bebê junto com a água suja do banho. Basta que eliminemos os exageros para que encontremos um equilíbrio.

Penso que haja lugar tanto para danças ensaiadas (performáticas) como para danças espontâneas e congregacionais.  Tudo dentro de um padrão descente e devidamente ordenado. Sem chocarrices. Sem histeria. Sem êxtases. Apenas corações tomados da alegria do Espírito, desejosos de expressar sua gratidão a Deus. 

Décadas atrás, a igreja debatia se deveria ou não usar instrumentos musicais em seus cultos. Hoje, esta temática parece estar ultrapassada. Tanto órgãos como guitarras elétricas e baterias são facilmente encontrados em igrejas de praticamente todas as denominações. Acredito que o mesmo se dará com o uso de dança nos cultos. 

Os pregadores podem ficar tranquilos que a dança jamais substituirá a pregação da Palavra, nem os louvores congregacionais. Se porventura isso ocorrer, compete ao ministro chamar a atenção de sua congregação para que reencontre o equilíbrio perdido. 

No próximo post abordaremos a dança como expressão cultural e de interação social. É lícito ao cristão praticar ballet, dança de salão, valsa de debutante, etc?



[1] http://www.jesusvoltara.com.br/atuais/dancar_danca.htm