sábado, agosto 01, 2015

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Os Direitos Humanos e a Bíblia - Hermes C. Fernandes





Porque todo cristão deveria ser um ativista pelos direitos humanos. Assista e compartilhe.

sexta-feira, julho 31, 2015

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O controverso Dom de Línguas - Hermes C. Fernandes





Espero que ajude a elucidar esta tão controversa questão.

quinta-feira, julho 30, 2015

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Se nos conhece tão bem, por que Deus prova nossos corações?


Revelando a Química do Coração

No mesmo salmo em que Davi afirma que “de longe” Deus entendia seus pensamentos, ele pede: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos” (Sl.139:2,23). Ora, se Ele nos conhece tão bem, a ponto de saber o que pensamos, mesmo antes que a palavra nos chegue à boca, por que deveria nos provar? Não há nada que façamos que Lhe passe despercebido. Ele esquadrinha nosso andar e o nosso deitar; conhece todos os nossos caminhos. Ele criou o nosso interior, moldando-nos no ventre materno. Os Seus olhos viram nosso corpo ainda informe. Portanto, conhece profundamente nossa composição orgânica e psíquica. Todos os nossos dias foram previamente ordenados por Ele. Quem nos conhece tão bem quanto Ele? Então, por que nos provar?

Uma das razões pelas quais Deus nos prova é revelar-nos o estado do nosso coração. Ao provar-nos, Deus deseja nos conduzir pelas sendas do autoconhecimento. Não é Ele quem precisa nos conhecer, mas nós que necessitamos nos conhecer mais. Tornamo-nos estranhos a nós mesmos. Iludimo-nos, achando que nos conhecemos, porém somos sempre surpreendidos com facetas desconhecidas de nossa personalidade.

Que diagnóstico as Escrituras fazem do coração humano?
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e incorrigível. Quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, e provo a mente, para dar a cada um segundo os seus caminhos, e segundo o fruto das suas ações.” Jeremias 17:9-10
O pior dos enganos é o auto-engano! Nosso coração sempre nos prega peças. Seu grau de corrupção chegou a tal ponto que se tornou incorrigível. Em outras palavras, não tem jeito.

Uma das razões que levou o coração humano a chegar a tal estado é explicado por Salomão:
“Visto que não se executa logo o juízo sobre a má obra, o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto à prática do mal.” Eclesiastes 8:11
Deus não admite impunidade. Sua justiça requer que todo erro seja devidamente tratado. Porém, a aplicação de Sua disciplina sempre visa o bem e a restauração de quem errou. Entretanto, às vezes, tal disciplina parece tardar-se. E a razão desse retardamento proposital está explícita nas Escrituras: “Ele é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pe.3:9). É a Sua misericórdia que suspende temporariamente o juízo, dando-nos tempo para que nos arrependamos (Ap.2:21). Mas o homem, em seu estado pecaminoso, entende isso como uma licença para pecar. Por isso, seu coração fica inteiramente disposto à prática do mal. Ele não percebe que a justiça de Deus tarda, porém não falha (Na.1:3).

Podemos crer em nossa própria avaliação?

Dado o estado lastimável do coração humano, como acreditar em sua capacidade de avaliação? Seríamos aptos a julgar com isenção? De acordo com o sábio Salomão, “o que confia no seu próprio coração é insensato” (Pv. 28:26a). Quando julgamos os outros, geralmente somos severos em nossos critérios de avaliação. Mas quando julgamos a nós mesmos, somos sempre condescendentes. Como bem disse Salomão,“todos os caminhos do homem são inocentes aos seus olhos, mas o Senhor pesa os motivos” (Pv. 16:2). Há, portanto, uma instância que só Deus pode julgar: nossas motivações.

Deus não Se deixa impressionar por nossas atitudes. Ele avalia aquilo que as motivou. É possível fazer a coisa certa, mas pelos motivos errados. Aos olhos dos homens, parecemos santos e irrepreensíveis, porém, aos olhos de Deus estamos deixando a desejar.

Quando olhamos para dentro de nós, deparamo-nos com motivações inconfessáveis. E para tranquilizarmos nossa consciência, sempre buscamos justificativas. Em vez de buscar reconciliar-nos com Deus, buscamos nos reconciliar com o travesseiro.

Nossa avaliação só é válida quando concorda com a avaliação do próprio Deus. Não temos o direito de nos opor aos critérios apresentados na Sua Palavra. Se esta disser que algo é mal, não há o que se discutir. Vale aqui a admoestação de Isaías:
“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade, que põem o amargo por doce, e o doce por amargo.” Isaías 5:20
Entre confiar em meu próprio paladar e confiar no que Deus diz, prefiro confiar cegamente em Sua Palavra. Meus sentidos não são inteiramente confiáveis. Devemos viver por fé, e não por vista. E viver por fé nada mais é do que submeter-se inteiramente à avaliação de Deus.

Achamos que somos profundos conhecedores de nós mesmos. Além de nossa típica condescendência, somos muito superficiais. Temos medo de nos aprofundar. Alguns dos nossos erros são patentes, porém outros nos são ocultos.
“Quem pode entender os próprios erros? Purifica-me dos que me são ocultos.” Salmos 19:12
Para sermos restaurados temos que trilhar o caminho do arrependimento e da confissão. Arrepender-se é concordar com a avaliação de Deus, sem tentar justificar-se. Confessar é expor a ferida para que seja tratada. Mas como podemos nos arrepender e confessar aquilo que nos é oculto? Seria como se automedicar, sem saber de que enfermidade está acometido. Temos que passar por exames médicos, que vão diagnosticar com precisão a doença que precisa ser tratada. Sabendo disso, Davi orava ao Senhor: “Sonda-me, ó Deus...” (Sl. 139:23). Não é Ele que necessita nos sondar pra ver quem realmente somos. Esta sondagem visa nos fazer conhecer as facetas ocultas do nosso ser. Ele nos sonda para nos revelar o que está encoberto, e assim, nos possibilitar o arrependimento.
“Disse eu no meu coração: Isso é por causa dos filhos dos homens, para que Deus possa prová-los, e eles possam ver que são em si mesmos como animais.” Eclesiastes 3:18

“A luz que a tudo manifesta” é acesa nos recônditos mais escuros do ser, possibilitando-nos enxergar toda a poeira acumulada na mobília da nossa alma (Ef.5:13). Ora, ninguém pode fazer uma faxina na casa com as luzes apagadas.


Como Deus sonda o nosso coração?

A análise química de uma substância é feita a partir da reação que ela tem a um determinado elemento. Por exemplo: a água e o álcool têm aparência semelhante… Mas cada um reage de maneira diferente ao fogo.

Deus se utiliza de vários elementos reagentes para nos provar. Nossa reação vai revelar o que há em nosso coração.

Um dos elementos usados por Deus para nos provar é a humilhação. Foi assim com o povo hebreu durante sua marcha de quarenta anos pelo deserto do Sinai. Confira o que disse o Senhor:
“Guarda-te de não te esqueceres do Senhor teu Deus, não cumprindo os seus mandamentos, os seus juízos e os seus estatutos que hoje te ordeno, para não suceder que, depois de teres comido e estares farto, de teres edificado boas casas e habitado nelas, e depois de se multiplicarem as tuas vacas e as tuas ovelhas, e aumentar a prata e o ouro e tudo quanto tens, se ensoberbeça o teu coração e te esqueças do Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão; que te guiou por aquele grande e terrível deserto de serpentes abrasadoras, de escorpiões, de terra árida e sem água onde fez jorrar para ti água da pedra dos rochedos, que no deserto te sustentou com maná, que teus pais não conheceram, a fim de te HUMILHAR e PROVAR, e afinal te fazer bem. Não digas no teu coração: A minha força e o poder do meu braço me proporcionaram esta riqueza.” Deuteronômio 8:14-17
Não se trata de sadismo! O propósito de Deus sempre é de nos fazer bem. “Humilhar” aqui não é pisar, mas ensinar a ser dependente. Tal humilhação visa nos precaver da soberba resultante de um espírito autossuficiente.

Outro elemento usado por Deus é a repreensão.

A razão pela qual Deus nos repreende é o Seu profundo amor por nós. É por se importar com o nosso bem, que Deus nos chama a atenção: “Filho meu, não rejeites a disciplina do Senhor, nem te enojes da sua repreensão, porque o Senhor corrige aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem” (Pv. 3:11-12).

O sábio e o tolo agem de maneiras distintas quando repreendidos:
“O que ama a disciplina ama o conhecimento, mas o que odeia a repreensão é estúpido.” Provérbios 12:1
Há duas maneiras de o tolo reagir à repreensão: ou ele se enoja, sentindo-se ofendido, ou fica indiferente. Às vezes a indiferença é pior do que sentir-se ofendido. O indiferente ouve, mas não escuta. A repreensão fica como água empoçada no asfalto. Mas o sábio reage diferentemente:
“Mais profundamente entra a repreensão no prudente, do que cem açoites no tolo.” Provérbios 17:10
A tabela periódica de Deus está cheia de elementos com os quais Ele testa o coração humano: elogios, críticas, autoridade, prosperidade, adversidades, etc.


Como reagimos, por exemplo, a um elogio? E quando somos severamente criticados? E ainda: quando nos é delegada autoridade? Dizem que o poder é capaz de mudar os homens. Discordo! O poder não muda ninguém. Apenas revela o caráter antes disfarçado de virtudes.

Controle das variáveis

Deus sabe até onde podemos suportar e tem o controle de todas as variáveis. Dependendo das circunstâncias, a substância pode reagir ao elemento de maneira diferente.

Se Jesus não estivesse em jejum por quarenta dias no deserto, a tentação de transformar pedras em pães não faria qualquer sentido. Imagina se Ele houvesse saído de uma churrascaria gaúcha... Seria mais sugestível transformar pedras em sobremesa.

Jesus foi tentado ao extremo. Todos os seus limites foram postos à prova. E não pense que sua boca não se encheu de saliva quando ouviu a sugestão do Maligno. Embora não seja Deus o autor da tentação, Ele tem o controle de todas as variáveis. Deus prova, mas não tenta.

Observe o que Tiago diz sobre isso:
“Bem-aventurado o homem que suporta a provação, porque depois de ter passado na prova, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam. Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele a ninguém tenta. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.” Tiago 1:12-14
O diabo entra de coadjuvante, ou se preferir, assistente de palco, responsável por compor o cenário. O ator principal é aquele que é tentado. Deus é quem permite a tentação, para que sejamos provados, e assim, saibamos o estado de nosso coração. Não façamos do diabo nosso bode expiatório!

Por ter o controle de tudo, Deus jamais permite que sejamos tentados além de nossa capacidade de resistência.
“Não veio sobre vós tentação, senão humana. E fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis resistir, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” 1 Coríntios 10:13
Somos tentados como humanos, não como deuses. Através da tentação, ficamos cientes de nossos pontos fracos. E assim, além de nos arrependermos quando caímos, passamos a redobrar a vigilância nas áreas onde somos mais vulneráveis. Temos que agir como “gatos escaldados”.


Reconhecendo os limites

Ora, se agora sei onde sou mais fraco e vulnerável, devo me precaver, evitando ao máximo me expor a situações melindrosas. Quem reconhece suas limitações, não vai querer correr riscos desnecessários. O penúltimo capítulo de Provérbios nos adverte para isso:
“Duas coisas te peço, ó Senhor; não as negues a mim, antes que eu morra: Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa; não me dês nem a pobreza nem a riqueza, mas dá-me só o pão que é necessário, para que de farto eu não te negue, e diga: Quem é o Senhor? Ou empobrecendo, não venha furtar, e profane o nome de Deus.” Provérbios 30:7-9
Eis um homem que não confiava em seu próprio coração. Agur, autor dessas palavras, sabia que não estava pronto nem para a riqueza, nem para a pobreza. Ele preferia não correr riscos. Não se trata de covardia, mas de prudência.

Confiemos mais no Espírito da Graça e menos na força dos nossos braços e em nossa força de vontade. E que sejamos continuamente motivo de glória para o nosso Pai Celestial.

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Perímetros e Parâmetros da Imaginação





Última preleção da XIV Convergência Reinista ministrada por Hermes C. Fernandes em 27/07/2015.


quarta-feira, julho 29, 2015

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Por um evangelho "sem lenço, nem documento"




Por Hermes C. Fernandes

Desde criança, aprecio viajar. Gosto de respirar outros ares, conhecer culturas distintas da minha, e encontrar gente diferente. Porém, nada mais chato que fazer as malas. Sempre deixo pra última hora. Ter que decidir o que levar e o que deixar não é nada fácil. Anteriormente, carregava muita bagagem. Mas tive algumas experiências amargas de extravio de malas. Já fiquei nove dias usando roupas emprestadas por causa disso. Ademais, fui percebendo aos poucos que a maior parte do que levava, não usava. Agora viajo com o básico. Quanto menos peso, melhor. Quanto menor o tempo de espera pela bagagem na esteira do aeroporto, melhor.

Prefiro usar o mesmo terno várias vezes. Prefiro ter que lavar minhas roupas íntimas toda noite antes de dormir. Prefiro levar camisas leves, que não necessitem ser passadas.

Sei exatamente o que é ter que pagar taxa extra por ter exagerado no peso das malas. Já tive até que me desfazer de algo ali mesmo, antes do check-in no aeroporto, só pra não pagar mais. É horrível! E quando tive que abrir a minha mala e a da minha esposa para redistribuir melhor o peso... Todo mundo olhando curioso, e lá estávamos nós, tirando de uma pra colocar em outra, porque uma delas havia excedido o peso enquanto a outra estava abaixo do permitido.

Pois recentemente, resolvi fazer o mesmo com a minha teologia. Decidi abandonar todos os rótulos. Não dá mais pra carregar tanto peso sobre meus ombros. Prefiro viajar de mãos livres, como a antiga canção de Caetano, "sem lenço, nem documento, nada no bolso ou nas mãos. Eu quero seguir vivendo, amor. Eu vou. Por que não?"

Às vezes os rótulos expressam mais do que aquilo em que acreditamos. Bagagem extra! Outra vezes expressam menos. Paulo, o experiente viajante, sabia muito bem disso, e declarou que se livrara de todos os rótulos ( benjamita, hebreu, fariseu, etc.), considerando-os perda total, ainda que para muitos fossem considerados lucro na certa (Fp.3:4-7). Em vez de estribar-se neles, Paulo preferia confiar unicamente em Deus, seguindo à risca a orientação dada por Jesus a Seus discípulos: “Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias…” (Lc.10:4). Nada como viajar sem bagagem… sei o que é isso!

Deixem-me dar alguns exemplos.

Identifico-me com muitos dos pressupostos calvinistas. Creio piamente na salvação pela graça, independente das obras humanas, na soberania divina, na eleição incondicional, etc. Dependendo de mim, a tulipa calvinista não perde nenhuma de suas pétalas.  Por isso, sentia-me confortável em apresentar-me como calvinista. Porém, aos poucos fui percebendo que o calvinismo carrega consigo o peso extra do conservadorismo fundamentalista. Não preciso deste peso extra. Sem dizer que muitos calvinistas encaram a eleição divina apenas como um privilégio. Continuo a crer na doutrina da eleição, porém, acredito que Deus eleja alguns para o bem de todos, e não visando seu próprio bem-estar. Prefiro também enfatizar mais a Graça Comum à depravação total, embora creia em ambas as assertivas; assim como prefiro carregar as malas de pé, apoiadas nas rodinhas, em vez de carregá-las deitadas, segurando em suas alças.

Em termos eclesiológicos, creio firmemente na igreja única, católica, apostólica, porém, não romana. Mesmo porque, os termos “católica” e “romana” são excludentes. Ou a igreja é universal (católica), ou pertencente a um local (Roma). Abraço, portanto, a catolicidade da igreja, mas deixo de lado a bagagem extra dos dogmas criados em seus concílios, bem como o seu sincretismo.

Falando de escatologia, identifico-me com o pós-milenismo, mas me recuso a carregar a bagagem extra do teonomismo. Não acredito que transformaremos o mundo simplesmente através de governos cristãos ou leis baseadas nas Escrituras. Não me considero teonomista nem antinomista. Creio na lei gravada pelo Espírito no coração dos homens. São esses que farão a revolução. Sim, creio num cristianismo revolucionário e marginal, que transformará o mundo através da mensagem subversiva do Evangelho: o amor, pregado e encarnado pelos discípulos de Cristo.

Como posso identificar-me com o conservadorismo, se o que está aí não vale a pena ser conservado? Também não acredito que devamos nos entrincheirar contra a ciência. Afinal de contas, o Cristo que reina soberanamente na igreja, também reina sobre a ciência. Nenhuma descoberta científica é acidental. O Espírito Santo foi enviado para nos conduzir à toda a verdade. E toda verdade, seja bíblica ou científica, provém da mesma fonte: DEUS! Abaixo o obscurantismo. Já não vivemos na idade média.

Creio na contemporaneidade dos dons espirituais, mas não me identifico como pentecostal nem como carismático. Há excesso de bagagens ali também. Não me sinto à vontade com as bizarrices praticadas em alguns círculos que ostentam estas bandeiras e que, infelizmente são creditadas ao Espírito Santo. Creio que os dons não têm a pretensão de criar estrelas, mas servos. Os dons nos fazem menores, não maiores. Nossa ênfase deve ser o “caminho mais excelente”, o amor (1 Co.12:31). Esta é a verdadeira evidência de que fomos batizados em um só Espírito (Rm.5:5). Muito mais do que falar em línguas angélicas, precisamos mesmo é aprender a falar a língua dos homens, e tornar o Evangelho mais acessível. Urge libertar-nos do evangeliquês usado em nosso gueto religioso.

Apesar de crer que Deus possa curar ainda hoje (e tenho visto inúmeras curas, inclusive em meu lar), não vejo a cura como uma evidência da presença de Deus em nosso meio. Acredito que Deus esteja mais interessado em curar as chagas sociais que adoecem nossa gente, do que apenas as enfermidades físicas e emocionais. Creio na cura como manifestação da misericórdia divina, e não como show sensacionalista praticado em muitos púlpitos atuais.

Creio na prosperidade. Não nesta prosperidade mágica pregada nos círculos neo-pentecostais. Mas na prosperidade que abarca toda a sociedade quando se pratica a justiça preconizada no Evangelho do Reino. Os cristãos não vivem numa bolha de proteção. Se a sociedade prospera, também prosperamos (Jer.29:7). Portanto, devemos trabalhar pelo bem-comum, sem corporativismo eclesiástico.

Os únicos itens que não podem faltar em nossa mala são a fé, a esperança e o amor, e o maior deles é o amor (1 Co.13:13).

Ao passar pela alfândega celestial, teremos que deixar de lado nossas ideologias, tudo em que nos estribamos, e só poderemos nos valer de Sua surpreendente graça.

domingo, julho 26, 2015

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Teríamos algo a aprender com os que creem diferente de nós?




Por Hermes C. Fernandes


No penúltimo dia da XIV Convergência Reinista, tivemos uma inusitada apresentação realizada por nossas igrejas em Nilópolis e Engenheiro Pedreira. Sobre o púlpito, três rapazes vestidos à caráter, representando um sacerdote católico, um muçulmano e um protestante. Num dado momento, o muçulmano prostrou-se sobre o tapete como se estivesse em seu momento de devoção voltado para Meca. Enquanto ele orava, os outros dois mantinham seus braços estendidos sobre ele. Ao se levantar, foi abraço por eles, recebendo deles um exemplar das Escrituras. Imediatamente, postei as fotos, mas não pude legendá-las para explicar o que estava acontecendo. Ao término do culto, quando chequei meu perfil na rede social, deparei-me com críticas severas e acusações de ecumenismo e sincretismo. Em resposta a essas críticas, resolvi publicar esta reflexão. 

No tempo do ministério de Jeremias, havia um povo considerado excêntrico pelos demais habitantes de Judá, que era conhecido como os recabitas e viviam do lado de fora dos muros, isolados do resto do mundo. Não bebiam vinho, não construíam casas, nem cultivavam a terra. Habitavam em tendas, como os antigos patriarcas hebreus. Ninguém os levava realmente a sério. De repente, Deus ordena que Jeremias os convide para ir ao Templo em Jerusalém.
“Palavra que do Senhor veio a Jeremias, nos dias de Jeoiaquim, filho de Josias, rei de Judá: Vai à casa dos recabitas, fala com eles, leva-os à casa do Senhor, a uma das câmaras, e dá-lhes vinho a beber.” Jeremias 35:1-2
O profeta deve ter estranhado as orientações que Deus lhe estava dando. Por que oferecer ao recabitas algo que eles certamente recusariam? Que sentido havia em tentá-los?

Mas Jeremias não titubeou e pôs “diante dos filhos da casa dos recabitas taças cheias de vinho, e copos, e disse-lhes: Bebei vinho. Mas eles disseram: Não beberemos vinho, porque Jonadabe, filho de Recabe, nosso pai, nos deu ordem, dizendo: Nunca jamais bebereis vinho, nem vós nem os vossos filhos. Também não edificareis casa, nem semeareis semente, nem plantareis vinha, nem a possuireis; mas habitareis em tendas todos os vossos dias, para que vivais muitos dias sobre a face da terra, em que vós andais peregrinando” (vv.5-7).

Estas ordens haviam sido dadas por Jonadabe há duzentos anos, isto é, cinco gerações anteriores àquela. Todavia, os descendentes de Jonadabe jamais se desviaram delas.

Que grande líder foi Jonadabe, a ponto de sua influência permanecer por dois séculos após sua partida.

Antes de prosseguirmos em nossa reflexão sobre a postura dos recabitas diante da tentação, vamos descobrir um pouco mais sobre seu patriarca. Jonadabe aparece em II Reis 10:15, em parceria com Jeú, rei de Israel, na ação contra a casa do Acabe – o marido da abominável Jezabel. Deus havia confiado a Jeú a missão de não deixar vivo nenhum descendente daquele malévolo rei. Embora já estivesse morto à época, Acabe deixara nada menos que setenta filhos, que a qualquer momento poderiam reivindicar o trono de Israel, e manter a política devassa de seu pai. Nesse contexto, Jeú, que havia sido ungido rei de Israel por intermédio de Eliseu, se encontra com Jonadabe. Eis o relato:
“Partindo dali, encontrou-se com Jonadabe, filho de Recabe, que lhe vinha ao encontro. Saudou-o Jeú e lhe perguntou: Reto é o teu coração, como o meu coração é com o teu coração? Respondeu Jonadabe: É. Então, se é, dá-me a tua mão. Ele lhe deu a mão, e Jeú o fez subir consigo ao carro. Disse Jeú: Vem comigo e vê o meu zelo pelo Senhor. Então o fez sentar consigo no carro.” II Reis 10:15-16
À luz deste texto, concluímos que Jonadabe era um homem fiel ao Deus de Israel, e leal ao homem escolhido por Deus para reinar sobre o Seu povo. Homens assim sempre deixam um legado para as próximas gerações. Gente fiel gera gente fiel. Por isso, duzentos anos depois de sua morte, seus descendentes ainda lhe eram fiéis. E é para essa fidelidade que Deus queria chamar a atenção do povo de Judá nos dias de Jeremias. A fidelidade dos recabitas lhes serviria como referência.

Aprendemos com Jonadabe que só devemos dar as mãos àqueles com os quais nosso coração for reto. Só há comunhão legítima, quando autenticada por convicções verdadeiras. É claro que Deus jamais requereu deles que vivessem separados dos demais, ou que se abstivessem de vinho ou do cultivo da terra. Pelo contrário. Quando o povo de Judá foi levado em exílio para a Babilônia devido à sua infidelidade, a ordem de Deus foi que eles construíssem casas, plantassem pomares, casassem suas filhas, enfim, que se estabelecessem lá, de onde só sairiam setenta anos depois (Jer.29:4-7).

O tipo de espiritualidade que Deus propõe ao Seu povo não é sinônimo de alienação. Deus almeja ver Seus filhos espalhados pelo mundo, infiltrados em todos os setores da sociedade, fazendo a diferença. Infelizmente, a maioria dos cristãos age com os recabitas. Preferem separar-se, viver em guetos, sem misturar-se com a sociedade à sua volta. Em momento algum Deus endossou o modo de vida dos recabitas. O que Ele quis foi dar uma lição aos demais judeus, demonstrando o tipo de fidelidade que Ele requeria deles. Veja o desabafo do Senhor:
“Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Vai, e dize aos homens de Judá e aos moradores de Jerusalém: Não aceitareis instrução, para ouvirdes as minhas palavras? Diz o Senhor. As palavras de Jonadabe, filho de Recabe, que ordenou a seus filhos que não bebessem vinho, foram guardadas, pois não beberam vinho até este dia, antes ouviram o mandamento de seu pai. A mim, porém, que vos tenho falado a vós, madrugando e falando, não me ouvistes. Também vos enviei todos os meus servos, os profetas, madrugando, e enviando, e dizendo: Convertei-vos, cada um do seu mau caminho (...) Os filhos de Jonadabe, filho de Recabe, guardaram o mandamento de seu pai, que lhes ordenou, mas este povo não me obedeceu”(vv.13-15a, 16).
A questão não era a abstenção de vinho, nem o fato de habitarem em tendas. A questão era a obediência às instruções de seu patriarca.

Presenciei durante minha estada nos Estados Unidos pessoas oriundas das mais diversas culturas, que apesar de estarem longe do seu chão, mantêm-se fiéis aos seus costumes e à sua fé. Vi mulheres que só saem de suas casas usando véus que cobrem parcialmente seus rostos. Muçulmanas, que apesar de todo preconceito que sofrem aqui, são fiéis àquilo que aprenderam de seu profeta Maomé. Vi hindus que jamais retiram seus turbantes em reverência aos seus inúmeros deuses. Deus não exige que vivamos como eles. Mas exige que sejamos tão fiéis a Ele, quanto eles são aos seus deuses e profetas.

Temos muito que aprender com os espíritas, e suas obras de caridade. Se fôssemos tão fiéis ao Evangelho, quanto eles aos ensinos de Kardec, esta exortação não nos caberia como uma luva.

Temos que tirar o chapéu para os crentes que chamamos carinhosamente de legalistas. Falta-nos o seu espírito aguerrido, sua coragem para ir além de suas possibilidades, tudo em nome de sua fé (ainda que equivocada!).

Deus poderia colocar diante de nós, testemunhas de Jeová, Mórmons, Budistas, e até Candomblecistas e Umbandistas, para que aprendêssemos com eles. Assim como Jesus usou um Samaritano como referência de bondade e amor, ainda que sua crença estivesse equivocada.

Não se escandalize com isso! Jesus era mestre em usar exemplos escandalosos. Ele chegou mesmo a elogiar um centurião romano, dizendo que jamais encontrara tamanha fé, nem entre os filhos de Abraão.

Todos sabemos dos pega-pra-capar que Jesus tinha com os fariseus. Ele os chamava carinhosamente de hipócritas. Mas nos esquecemos que Jesus os tomou como referência para os Seus discípulos:
“Pois vos digo que se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” Mateus 5:20
Repare nisso: Deus requer muito mais de nós, do que a fidelidade demonstrada por qualquer religioso ao seu credo. Afinal de contas, a graça nos foi revelada, e isso nos torna indesculpáveis. E não se trata de uma graça barata, mas uma graça que, segundo Paulo, “nos ensina a renunciar a impiedade e as paixões mundanas, para que vivamos neste presente século sóbria, justa e piedosamente”(Tt.2:12).

Testemunhando sobre seus patrícios, Paulo diz: “Pois dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento” (Rm.10:2). Ora, o que esperar, então, de quem afirma ter recebido o entendimento da graça? Pior que ter zelo sem entendimento, é ter entendimento sem zelo.

Se um muçulmano é capaz de dobrar seus joelhos várias vezes ao dia em direção à Meca, cumprindo assim a uma ordenação de seu profeta Maomé, do que seria capaz um cristão que recebeu a graça de Cristo?

Recordo-me com carinho quando minha filha Revelyn estudava num High School em Lake Mary, na Flórida, e se dispôs a ajudar um colega muçulmano recém-chegado do Irã, e que não sabia falar uma única palavra em Inglês. Tanto ela, quanto meu filho Rhuan, tiveram que aprender a se relacionar com pessoas de diversas culturas, sem qualquer ranço de preconceito.

Já testemunhei uma família de judeus, em pleno aeroporto de Nova York, por volta das 5h. da manhã, fazendo suas orações na frente de todos, sem qualquer constrangimento.

O problema é que muitos têm usado a graça como justificativa para uma vida descomprometida e desregrada. Não seria isso que Paulo chama de receber a graça de Deus em vão (2 Co.6:1)?

Seguidores de credos de matizes africanos são capazes de se expor ao escárnio em plena luz do dia para oferecer suas oferendas em logadouros públicos. E quanto a nós, que afirmamos amar a Cristo? Quantas vezes temos nos exposto por Ele? Alguns nem sequer se identificam como cristãos. É de se admirar que as crenças oriundas do continente africano tenham sobrevivido a tantas perseguições e preconceitos, ainda que para isso algumas tenham se valido do sincretismo.

Um crente neo-pentecostal, sem o conhecimento da graça, faz qualquer sacrifício em nome de sua fé. E quanto a nós, o que temos feito em prol da mensagem do reino? É muito fácil criticá-los. Mas se a Bíblia diz que cada um será julgado de acordo com aquilo que houver recebido, o que será de nós? Eles vivem por aquilo que receberam. E com o pouco que têm recebido, têm feito muito mais do que aqueles que afirmam que receberam toda a revelação da Palavra.

Mais uma vez suplico: Não se escandalizem comigo. Não me vejo em condição de julgar, nem tampouco endossar qualquer prática religiosa. Minha questão aqui não tem nada a ver com a prática, mas com a fidelidade.

Posso condenar qualquer ato considerado idólatra, como por exemplo, carregar um andor com uma imagem qualquer. Mas também posso enxergar de outro ângulo e dizer: Uau, quanta disposição em servir! Quanta veneração! Paulo fez isso em Atenas. Ele não condenou seus cidadãos por serem idólatras, mas elogiou-os por serem fervorosos em sua religiosidade, garantindo com isso a sua atenção e simpatia, a fim de introduzir-lhes o evangelho (At.17:22).

Qualquer ato de terrorismo pode ser considerado abominável. Mas é admirável a disposição que alguns fundamentalistas islâmicos têm de morrer por sua fé. Disposição antes encontrada nos primeiros cristãos. A diferença é que estes morriam por sua fé, enquanto aqueles querem levar o maior número possível consigo. Os cristãos primitivos movidos por amor, enquanto aqueles são motivados pelo ódio.

Pode-se dizer que a doutrina das testemunhas de Jeová destoa do que consideramos ortodoxo. Porém, quem de nós se dispõe a bater de casa em casa para anunciar o Evangelho? Que prejuízo um adventista do sétimo dia se dispõe a sofrer por guardar o sábado? E nós, já sofremos algum prejuízo pela causa do Evangelho?

Voltemos para Jonadabe e os recabitas e consideremos a recompensa que tiveram por sua lealdade aos ensinos de seu pai.
“À casa dos recabitas disse Jeremias: Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Obedecestes ao mandamento de Jonadabe, vosso pai, guardastes todas as suas instruções, e fizestes conforme tudo o que vos ordenou. Portanto, assim diz o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel: Nunca faltará homem a Jonadabe, filho de Recabe, que assista perante a minha face todos os dias” (vv.18-19).
Milhares de anos se passaram desde que esta palavra fora dita pelo Senhor. E onde foram parar os recabitas? Será que ainda existem? Teria Deus cumprido Sua promessa àquele povo? A mais recente notícia sobre eles dá conta de que foi descoberta na Arábia, perto de Meca, uma tribo que se diz descendente de Jonadabe. E mais recentemente, foi descoberta perto do Mar Morto, outra tribo beduína que também se identifica como recabitas. E pasmem: Esse povo que afirma ser os remanescentes dos recabitas, ainda se mantém fiel aos preceitos de Jonadabe.

E será que nesses dois mil anos de Cristianismo temos nos mantido fiéis aos preceitos de Cristo?

sexta-feira, julho 24, 2015

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Não existe música profana!


Por Hermes C. Fernandes 
"Entre as graças que devemos à bondade de Deus, uma das maiores é a música. A música é tal qual como a recebemos: numa alma pura, qualquer música suscita sentimentos de pureza." Miguel de Unamo
 “Todas coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os corrompidos e descrentes. Antes a sua mente como a sua consciência estão contaminadas.” Paulo em sua carta a Tito cap. 1, verso 15

Haveria algum idioma que pudesse ser considerado sagrado? Alguns talvez achem que sim. Há até quem pense que a língua falada no céu seja o hebraico, e que esta seria o idioma original dos homens, antes de Babel.

Recentemente, fui indagado acerca da logomarca de nossa igreja (Uma cruz estilizada que lembra uma estrela, com o que parece uma letra “x” no meio dela). Ao explicar que aquela letra “x” era na verdade a primeira letra grega do nome “Cristo” (Christus), houve quem alegasse que o grego e o latim seriam os idiomas prediletos do satanismo.

Ora, já ouvi tanta asneira nesta vida, mas esta superou a muitas delas. Então, teremos que concluir que o Novo Testamento foi todo escrito em língua satânica e que Paulo pregava no idioma dos demônios!

Um argumento como este revela o quão criativo é o gênio humano, tanto para o bem, quanto para o mal.

Haveria em nosso alfabeto alguma letra maligna? Claro que não! Mas é possível usar as letras de nosso alfabeto para escrever qualquer coisa, desde louvores a Deus até insultos, blasfêmias e obscenidades. Porém isso, não torna aquelas letras profanas.

Assim se dá com a música, por exemplo. Quem criou as notas musicais? Não foi o diabo, ou foi? E quanto aos ritmos diversos, teriam sido criados ou inspirados por ele? Recuso-me a crer neste absurdo.

Não há música profana! O que há são músicas profanadas. Usar a música para estimular sentimentos perversos no coração humano é profanar uma das mais sagradas artes.

Harmonia, melodia e ritmo podem ser igualmente usados para o bem ou para o mal. Assim como posso usar uma faca tanto pra fatiar um pão quanto pra ferir alguém. Isso não faz da faca um instrumento satânico, ou faz?

O que é uma canção senão a combinação de harmonia, melodia e ritmo? Nenhum destes elementos pode ser considerado profano em sua origem. O que se pode é profaná-los, dando-lhes um propósito maligno.

Não posso satanizar um frango só porque alguém o oferece numa encruzilhada num ritual religioso. Não vou deixar de degustar um saboroso frango assado por isso.

Posso usar todo o espectro de cores para pintar uma obra que insulte os valores cristãos, como posso usar o mesmo pincel para criar obras que os enalteçam.

Mesmo uma obra considerada “profana” pode ser apreciada de outros ângulos. Em vez de condená-la, podemos buscar entender a intenção de seu autor, e a maneira como ele tenta expressar o que há em sua alma. Há anseios, frustrações, anelos profundos, amarguras, questionamentos, inquietudes, que nem sempre são verbalizados claramente, mas que vazam através de sua produção cultural.

Em vez de ficar ouvindo discos de trás pra frente em busca de mensagens subliminares, deveríamos ouvi-los com o coração tomado de compaixão, buscando compreender o que de fato essas almas humanas tentam comunicar nas entrelinhas de sua arte.

O que foi profanado pode ter sua sacralidade primordial resgatada. Alguns avivalistas e reformadores perceberam isso nos séculos passados. Charles Wesley, o maior compositor cristão de todos os tempos, tomava emprestado melodias usadas nos cabarés da Inglaterra, e as transformava em louvores a Deus. Aliás, muitos dos hinos da Harpa Cristã e do Cantor Cristão tiveram origem “profana”.

Ademais, devemos considerar a graça comum, que como chuva derramada sobre justos e injustos, é capaz de inspirar o mais vil dentre os homens a produzir coisas belas, dignas de apreciação e aplauso.

A vida enxergada do prisma da graça é muito mais leve, solta e vibrante. Sem neuroses, fanatismo infundado, mania de conspiração, e outras bizarrices.

Sinto-me inteiramente à vontade para apreciar as linhas harmoniosas de uma obra arquitetônica de Niemeyer, e ainda louvar a Deus por sua genialidade, mesmo sabendo que ele se professa ateu.

Prefiro embasbacar-me contemplando o interior da Capela Sistina, a ficar buscando na obra de Michelangelo algum indício de que ele pertencesse a uma sociedade secreta qualquer.

Jamais me preocupei em ser flagrado ouvindo uma boa música secular, nem em ter que dar explicação aos que me censurem por isso.

Posso apreciar uma escultura do ponto de vista artístico, sem por isso comprometer a pureza de minha fé, nem endossar a idolatria que se preste a ela.

Não sou menos espiritual por dar umas boas gargalhadas enquanto assisto a uma comédia.

Deixo-me emocionar enquanto assisto a uma apresentação de ballet ou a uma peça teatral, ou mesmo a um concerto de música clássica ou pop, sem qualquer constrangimento ou culpa, por reconhecer que a fonte primeva de toda beleza é Deus.

Afinal de contas, “d’Ele e por Ele e para Ele são todas as coisas. Glória, pois, a Ele eternamente. Amém” (Rm.11:36).