quarta-feira, julho 23, 2014

11

Em boca fechada não entra mosquito!


Por Hermes C. Fernandes

Há momentos em que a melhor coisa é calar-se. Como diz a Escritura, “há tempo de estar calado, e tempo de falar” (Ec.3:7b).  Mesmo quando é tempo de falar, devemos nos lembrar que de toda palavra frívola que dissermos, um dia teremos que prestar contas a Deus (Mt.12:36).

Convido-os a examinar um episódio bíblico acerca de alguém que abriu a boca, quando deveria mantê-la fechada.
“Existiu no tempo de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote chamado Zacarias, da ordem de Abias; sua mulher era das filhas de Arão, e o seu nome era Isabel. Eram ambos justos perante Deus, andando sem repreensão em todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Mas não tinham filhos, porque Isabel era estéril, sendo ambos avançados em idade” (Lucas 1:5-7).
Imagino quantas vezes Zacarias deve ter questionado a Deus por causa da esterilidade de sua mulher. Por que, Senhor? Nós temos procurado ser irrepreensíveis diante de Ti!

Para a aquela sociedade, não havia vergonha maior do que a esterilidade. Filhos representavam a bênção de Deus sobre a vida do casal. Não tê-los era visto como uma maldição. Provavelmente, Zacarias e Isabel devam ter desistido de pedir a Deus tal concessão. Afinal, já estavam velhos, e não fazia sentido continuar rogando que Deus lhes desse um filho. Mesmo assim, Zacarias não deixou de servir a Deus como sacerdote.
“Exercendo ele o sacerdócio diante de Deus, na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso” (vv.8-9).
Naquela época os sacerdotes eram organizados por turno. O culto a Deus não poderia ser interrompido. Vinte e quatro horas por dia os sacerdotes se revezavam no Templo. Mas como havia muitos sacerdotes em cada turno, era costume lançar sorte para ver qual deles entraria no Templo para oferecer o incenso. Naquele dia, a sorte caiu sobre Zacarias.

E se ele não estivesse lá? Se achasse que já era hora de se aposentar devido à sua avançada idade? Ou se simplesmente houvesse faltado seu turno? É possível que não fosse a primeira vez que sorte lhe tenha escolhido. Mas desta vez algo surpreendente o esperava do lado de lá do santuário.
“Chegada a hora de oferecer o incenso, toda a multidão do povo estava fora, orando. Então um anjo do Senhor lhe apareceu, em pé, à direita do altar do incenso. Vendo-o, Zacarias perturbou-se, e o temor apoderou-se dele. Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas. A tua oração foi ouvida. Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João. Terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento” (vv.10-14).
Às vezes, para ouvirmos a voz de Deus, precisamos nos separar da multidão. Freqüentemente, Jesus Se separava da multidão para conversar com o Pai.

A inesperada aparição angelical perturbou a Zacarias. E mais inusitado ainda foi a mensagem que o anjo lhe trouxe: A tua oração foi ouvida!

Quantos anos se passaram
 desde que Zacarias fizera a Deus aquela oração? E quem disse que oração tem prazo de validade? Há orações que fizemos anos atrás, e das quais já até nos esquecemos, mas que ainda serão respondidas.

A esta altura, o velho sacerdote já desistira de ser pai. Porém, Deus não desistira de lhe conceder tal prazer. Zacarias interrompeu o anjo para perguntar: “Como saberei isto? Eu sou velho, e minha mulher é avançada em idade” (v.18). Em outras palavras: - Como posso ter certeza de que isso não é uma pegadinha, ou uma piada de mau gosto? Agora já é tarde. Sua mensagem chegou com muitos anos de atraso. Talvez ele tenha pensado: - Será que me enganei? Entrei no turno errado? Não é possível que esta mensagem seja pra mim! Não! Zacarias não entrou no turno errado! O anjo não errou o endereço da mensagem! Chegara o momento determinado por Deus para que sua oração fosse atendida.

Seu questionamento lhe custou caro:
“Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para falar-te e dar-te estas alegres novas” (v.19).
Era como se o anjo lhe dissesse: - Olha aqui, meu amigo. Assim como você estava escalado para estar aqui e agora, eu fui escalado dentre os milhões de anjos para lhe trazer esta mensagem. Não me faça perder meu tempo!

E o anjo continuou:
“E agora ficarás mudo, e não poderás falar até o dia em que estas coisas aconteçam, porque não creste nas minhas palavras, que a seu tempo se cumprirão” (v.20).
Eu fico imaginando quando Deus escolheu Gabriel para trazer a mensagem a Maria. Ele deve ter se sentido muito honrado. Mas antes que saísse em direção a Nazaré, o anjo recebeu a notícia de que fora escalado para antes levar uma mensagem a um velho sacerdote. – Ok. Lá vamos nós! Deve ter pensado o anjo. Daí, quando chega lá, o sacerdote duvida de sua palavra. – Quem este velho pensa que é? Será que ele sabe com quem está falando? Como ele se atreve a duvidar de minha palavra? Quer saber? Vou te deixar mudo por nove meses! Talvez assim você aprenda a não questionar a palavra de Deus!

E agora? Como explicar ao povo o que estava acontecendo?
“O povo estava esperando a Zacarias, e maravilhava-se de que tanto se demorasse no templo. Saindo ele, não lhes podia falar. Então entenderam que tinha visto uma visão no templo. Falava-lhes por sinais, e ficou mudo” (vv.21-22).
Por que Zacarias se demorara tanto lá? A mensagem do anjo foi rápida e objetiva. O tempo restante ele gastou imaginando que desculpa dar ao povo que esperava lá fora. E ele sequer pôde voltar pra casa depois da aparição angelical!

Provavelmente aquela era sua despedida do ofício sacerdotal, e teria que ficar ali até o fim do seu turno, pra então desfrutar de sua merecida aposentadoria. Só depois de “terminados os dias de seu ministério, voltou para sua casa” (v.23). Afobado como cru, já diziam os antigos. Se ele pôde esperar tantos anos, por que não poderia esperar alguns dias?

Mesmo ansioso pra ver a promessa cumprida (e isso mediante o cumprimento de seu dever marital), Zacarias teve que esperar. Imagine ter que exercer seu ministério sem voz!
“Depois daqueles dias Isabel, sua mulher, concebeu, e por cinco meses se ocultou, dizendo: Assim me fez o Senhor, nos dias em que se dignou retirar o meu opróbrio perante os homens” (vv.24-25).
Repare nisso: Isabel percebeu o que seu marido não pôde ver. Deus não tem prazer de ficar protelando em atender nossos pedidos. Porém, Ele tem Seu próprio cronograma. Seu compromisso maior não é com nossos desejos, mas com Seus propósitos. O propósito de Deus era que o fruto do ventre de Isabel fosse aquele que prepararia o caminho para Seu Filho Jesus.

Para o velho sacerdote que já se preparava para despedir-se da vida, a questão era: Quem me sucederá? Quem dará seqüência ao meu trabalho? Mas para Deus a questão era outra: Quem precederia Seu Filho no Mundo? Quem Lhe abriria o caminho? Ele teria que nascer pouco antes de Jesus, sendo assim Seu contemporâneo.

Para Zacarias e Isabel, seu filho era apenas o cumprimento de um desejo de juventude. Mas para Deus, aquela criança seria o mais importante ser humano que passaria pela Terra.

Para eles, um desejo. Para Deus, um propósito.

Se ele nascesse anos antes,
 talvez morresse antes que o Messias aparecesse. Talvez jamais se encontrassem. Talvez tivesse sua cabeça em um prato muito antes que o filho de Maria fosse depositado numa manjedoura.

Os propósitos divinos são sincronizados!

Por isso, o mesmo anjo que levou a mensagem ao velho sacerdote, mal teve tempo de respirar, e seis meses depois, partiu em direção à Nazaré para anunciar a uma virgem desposada com um carpinteiro o nascimento do Salvador da Humanidade (v.26).

Se Deus respondesse as orações de Isabel em sua juventude, jamais teria havido aquele memorável encontro entre ela e Maria, em que seu nenê se mexera em seu ventre, e ela fora cheia do Espírito Santo (v.41).
“Completou-se para Isabel o tempo de dar à luz, e teve um filho. Os seus vizinhos e parentes ouviram que Deus tinha usado para com ela de grande misericórdia, e alegraram-se com ela. Ao oitavo dia foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de Zacarias, seu pai. Respondeu sua mãe: Não! Ele será chamado João. Disseram-lhe: Ninguém há na tua parentela que tenha este nome. Perguntaram, por acenos, ao pai do menino que nome queria que lhe dessem. Pedindo ele uma tabuinha, escreveu: O seu nome é João. E todos se admiraram. Imediatamente a boca se lhe abriu, a língua se lhe soltou e falava, louvando a Deus” (vv.57-64).
Isabel passou cinco meses escondida, talvez para evitar o embaraço de ter que explicar como uma anciã poderia ter-se engravidado. Deve ter sido difícil para ela, uma vez que seu próprio marido estava mudo. Ela passou os primeiros meses de gravidez sem ter com quem conversar, isolada de tudo e de todos. Tinha que contentar-se com uma comunicação feita por sinais.

Quando ela resolveu voltar ao convívio social, sua barriga já estava grande, pois já estava no sexto mês de gravidez. Talvez tenha sido a visita de Maria que a encorajara a sair de casa, ou a receber visitas. As pessoas começaram a comentar quão grande milagre Deus fizera na vida daquele casal de anciãos.

Finalmente, o menino nasceu. Porém, Zacarias continuou mudo. Ou talvez já até lhe houvesse sido devolvida a fala, mas ele se acostumou com a mudez.

No oitavo dia, quando foram apresentar o menino no templo, houve uma discussão sobre que nome se deveria dar a ele. A maioria achava que o melhor nome seria o do próprio pai, homenageando o velho sacerdote. Todos achavam que ele concordaria com isso.

Zacarias Junior! Aquele que seria uma extensão do seu ministério. Mas Deus tinha outros planos. Enquanto o cenário do ministério de seu pai era o templo, o cenário em que se daria seu ministério seria o deserto. Enquanto seu pai se vestia de linho fino e estola, conforme a tradição sacerdotal, ele se vestiria de pelo de camelo. Enquanto seu pai se alimentava da carne dos sacrifícios feitos no templo, ele se alimentaria de mel e gafanhoto.

Definitivamente, aquele menino não seria a continuidade do seu ministério. Era algo completamente inovador.

Depois de alguma discussão sobre o assunto, resolveram consultar o sacerdote mudo: - E aí, o que você pensa? Não acha que o menino deve levar seu nome? Sem saber como se expressar, Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: - Seu nome é João!

Fora este o nome que ele ouvira dos lábios do anjo. Fora este o nome que sua mulher queria dar ao menino. Quem disse que Deus tem compromisso com a maioria? Quem disse que a voz do povo é a voz de Deus? Quando Zacarias opinou, sua fala voltou.

Agora ele estava em concordância com Deus. Seus questionamentos foram substituídos por louvores. É preferível ficar mudo a questionar os propósitos divinos. É melhor se calar do que querer impor sua própria vontade.

Quantas vezes colocamos tudo a perder com o que dizemos? Achamos que Deus nos deve explicação. Que as coisas devem acontecer à nossa maneira. Ledo engano! Deus é soberano, e sabe exatamente o que está fazendo.

Vale aqui a recomendação de Pedro:

“Se alguém fala, fale segundo as palavras de Deus...” (1 Pe.4:11).

Se não for pra falar em consonância com os oráculos de Deus, é melhor que se cale! “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus!” (Sl.46:10a).

Naquele dia o velho sacerdote descobriu que é melhor contrariar a vontade da maioria, do que se levantar contra a vontade de Deus. Os únicos desejos com os quais Deus está comprometido são com aqueles que Ele mesmo gerou em nossos corações. Ele não está comprometido com nossos caprichos, com nossa vaidade, com nossos projetos particulares.

A oração de Zacarias foi respondida porque refletia o anelo de Deus.

João, o apóstolo amado, escreve em sua primeira epístola:
“Esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que nos ouve em tudo o que lhe pedimos, sabemos que já alcançamos os pedidos que lhe fizemos” (1 Jo.5:14-15).
Por isso, um dos critérios para que tenhamos nossas orações atendidas, é que estamos n’Ele e a Sua Palavra esteja em nós (Jo.15:7). É por meio de Sua Palavra em nós que descobrimos a vontade do Senhor para a nossa vida. E assim, nossos pedidos serão sempre de acordo com Sua vontade. Ele terá operado em nós, tanto o querer, quanto o realizar (Fp.2:13). Teremos aprendido a nos deleitar n’Ele, para que nossos desejos coincidam com os d’Ele, e assim, sejamos plenamente atendidos (Sl.37:4).

Suas respostas vêem sempre no tempo certo. Nem antes, nem depois. Nada é capaz de alterar Seu cronograma.

Ao dar ao menino o nome ordenado por Deus, Zacarias reconheceu que João Batista era muito mais do que uma resposta às suas orações. Era a manifestação do propósito de Deus para o Mundo.

Lembre-se: Acima de nossos desejos, está o propósito de Deus.

Que sua vida seja o ventre através do qual os propósitos divinos se manifestarão.

segunda-feira, julho 21, 2014

5

Oração, ação, cidadania e o sonho de todos nós


Martin Luther King, Jr. orando durante
um protesto pelos direitos civis dos negros


Por Hermes C. Fernandes

EU TENHO UM SONHO... 

Sonho com o dia em que a igreja cristã deixará as quatro paredes e sairá às ruas clamando por justiça e paz. 

Sonho ver a liderança cristã despreocupada com os holofotes, descendo dos seus púlpitos, gastando a sola de seus sapatos juntamente com o seu povo. 

Sonho com uma igreja verdadeiramente profética, que denuncia a injustiça enquanto anuncia a boa nova do reino de Deus. Uma igreja movida por compaixão e não por interesses políticos. 

Sonho com uma igreja cujo discurso seja menos moralista e muito mais ético, engajado nas transformações sociais, que não coe mosquitos, enquanto se engasga com dromedários. 

Um gigante já acordou (BRASIL). Pena que o outro parece está acordado, mas está sonâmbulo (IGREJA).

Desperta, povo de Deus. Não é hora de demonstração de força, e sim de manifestação do amor que foi derramado em nossos corações. 

Saiamos ao encontro do Deus que se esconde no clamor do pobre, do injustiça, do discriminado e do excluído.

Orar é importante? Sem dúvida. É orando que exercemos nossa cidadania celestial. Mas a equação só está completa quando acrescentamos ação à oração. Agindo exercemos nossa cidadania terrena. Lembremo-nos que a vontade de Deus deve ser feita assim na terra como no céu.

Vozes que ecoam no céu devem reverberar nas avenidas da cidade. Joelhos que se dobram ante a soberania de Deus não podem vacilar ante às injustiças dos homens. Mãos que se estendem a Deus em louvor devem ser igualmente estendidas ao próximo em amor. 

sexta-feira, julho 18, 2014

2

Sendo pontes sobre abismos




Por Hermes C. Fernandes

"Grande, no homem, é ser ele uma ponte, não um objetivo: 
o que pode ser amado no homem é ser ele uma passagem e um 
declínio. Amo aqueles que não sabem viver a não ser como 
quem declina, pois são os que passam." Nietzsche 


Há pessoas que recebem de Deus o dom especial de serem pontes. Sem o menor recato, disponibilizam-se para prover conexão entre os homens. Seu habitat natural são os bastidores. Os holofotes não as atraem. Como enceradeiras, contentam-se em trabalhar para fazer o chão brilhar.

Dentre os discípulos de Jesus, provavelmente André era o que apresentava esta característica. Seu nome vem do grego Andros, e significa “homem”. Um judeu com nome grego. Uma ponte entre duas culturas diametralmente diferentes.

André também serviu de ponte entre duas eras representadas pelos ministérios de João Batista e Jesus. Ele foi um dos dois discípulos de João que testemunharam quando este, vendo Jesus passar, disse: “Eis aqui o Cordeiro de Deus”. Não foi preciso nem uma palavra a mais. Imediatamente, André deixou a João para seguir a Jesus.

Tão logo encontrou a Jesus, André dirigiu-se a seu irmão, Simão Pedro, e contou-lhe: “Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo). E levou-o a Jesus” (Jo.1:35-42). Portanto, ele também foi ponte entre Pedro e Jesus.

Ele jamais poderia supor que seu irmão seria o príncipe dentre os apóstolos. Em momento algum André requereu tal posição por ter sido o primeiro a seguir a Jesus. Pelo contrário, contentou-se em ficar conhecido como  "o irmão de Simão Pedro".

Foi ele e seu irmão que ouviram de Jesus a promessa de que seria feitos pescadores de homens. Considerando o significado de seu nome, Jesus estava dizendo que eles pecariam muitos outros “Andros” (Andrés), que por sua vez, também seriam pontes para tantos outros.

Quer estejamos na frente ou atrás das cortinas, todos somos chamados a sermos pontes.

Um dos títulos recebidos pelo papa é de sumo pontífice, que quer dizer, a ponte principal que liga Deus aos homens. À luz das Escrituras, somente Cristo poderia ser chamado assim. Pois “há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Timóteo 2:5). Todavia, quando ingressamos em Seu Corpo, tornamo-nos pontes de acesso para que outros homem afluam à Ponte que nos conecta a Deus. Por isso, Apocalipse 5:10 diz que somos um reino de sacerdotes (pontífices).

André também desempenhou papel importante na ocasião em que Jesus alimentou a multidão com apenas cinco pães e dois peixinhos. Ele foi a ponte entre Jesus e o menino que disponibilizou seu lanche. Enquanto Filipe calculava o custo que teriam para alimentar tanta gente, André tratou de se meter na multidão para garantir ao menos a comida do Mestre (Jo.6:8-9). Nem sempre temos a solução para um problema, porém, podemos ser ponte entre o problema e a solução. Sem a intervenção de André, a multidão teria saído faminta e desfalecido pelo caminho. 

Filipes costumam ser racionais, ponderados. Andrés são mais impulsivos, intuitivos, agindo mais com o coração do que com a mente. Uns são pragmáticos e realistas. Outros, românticos e idealistas.

Quando alguns gregos vieram em busca de Jesus, Filipe ficou sem saber como agir e recorreu a André. Então, ambos os introduziram a Jesus (Jo.12:20-22). É bom que tenhamos Filipes, mas estes precisam ter Andrés que os estimulem a dar os passos necessários. Mais uma vez, André foi ponte

André foi um dos apóstolos que mais trabalharam para que o Evangelho alcançasse lugares longínquos, chegando até a Rússia. Conta-se que André foi crucificado numa cruz em forma de “X”. Durante os dois dias em que agonizou, despojou-se de suas vestes e bens, doando-os aos seus algozes. Mesmo em seus últimos momentos de vida, André não se negou a ser ponte. O que não lhe serviria mais, poderia ser bênção na vida de outros, mesmo que estes fossem seus piores inimigos. 

quinta-feira, julho 17, 2014

6

Quando uma dívida se torna dádiva


Por Hermes C. Fernandes

Ontem, finalmente, paguei uma dívida que não fiz. Dívida deixada por alguém em quem confiava cegamente, amando-o como um filho. Pensei seriamente em contestá-la na justiça, mas, depois de muito meditar, resolvi arcar com ela, mesmo não achando-a justa. Afinal, não foi isso que fez meu Senhor? Não pagou caro por uma dívida que não era d'Ele? Sigamos, pois, os Seus passos, confiando-nos Àquele que julga retamente.

Agora entendo melhor o que Jesus quis dizer: 
"Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas." Mateus 5:39-41 
Nunca esta passagem fez tanto sentido para mim.  Dar a outra face, depois que já foi esbofeteado, não é nada fácil. É amargo. Mas depois que a dor passa, vem o sabor adocicado de ter cumprido o mandamento de Jesus. Quando nos batem na face direita, olhamos na direção do passado. Sentimos a dor da ingratidão por tudo que fizemos de bom àquela pessoa. Porém, quando lhe oferecemos a outra face, insistimos em olhar na direção do futuro. 

Só a graça nos habilita a andar a segunda milha estando com os pés já sangrando... E não é só isso. Oferecemos companhia à quem nos obrigou a andar a primeira. 

Como dar a capa a quem já havia nos tomado a túnica? A túnica tomada representa o cumprimento de nossa obrigação como cristãos. Mas a capa é entregue voluntariamente, mesmo que não seja justo. E quem disse que a graça é justa? A graça subverte a noção que temos de justiça. 

Obrigado, Senhor, por nos ajudar a superar nossos flagrantes limites. 

Cheguei à conclusão que, no fundo, não foi uma dívida que me deixaram, mas uma dádiva. Eu deveria agradecer-lhes. Tudo que nos oferece a oportunidade de revelar o amor de Cristo nada mais é do que dádiva. 

Quando me expuseram injusta e publicamente, não retruquei, mas perdoei. Quando dividiram uma de nossas mais queridas igrejas, relevei. Renovei o contrato de aluguel e permiti que os dissidentes ocupassem o imóvel por vários anos. Quando saíram do imóvel, deixaram mais de dez mil reais em dívida. Como o contrato estava em nome de nossa igreja, não me restou alternativa senão acioná-los ou pagar. Preferi o que nos proporcionaria maior paz. Preferi atender à recomendação de Paulo, que diz:
"Na verdade é já realmente uma falta entre vós, terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes o dano? Mas vós mesmos fazeis a injustiça e fazeis o dano, e isto aos irmãos." 1 Coríntios 6:7-8
É melhor ficar com o prejuízo, mas não trair à consciência. Afinal, "é louvável que, por motivo de sua consciência para com Deus, alguém suporte aflições sofrendo injustamente" (1 Pe.2:19).

Ontem, perguntaram-se se eu estava triste. Respondi: Não! Estou é aliviado! Graças a Deus está pago.
"A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros..." Romanos 13:8 

* Postado originalmente em 30/07/2013

terça-feira, julho 15, 2014

1

Tem que ser muito homem...



Por Hermes C. Fernandes

Tem que ser muito homem para ter a coragem de expor seus sentimentos sem temer ser ridicularizado. Afinal de contas, homem tem que ser corajoso! Há que se ter mais coragem para dizer o que sente do que para dizer o que pensa, para expor uma emoção do que para expressar uma opinião.

Tem que ser muito homem para admitir sua fragilidade e suas limitações.

Tem que ser muito homem para conter seus desejos e paixões e direcioná-las a uma única mulher.

Tem que ser muito homem para reconhecer seus erros e pedir perdão.

Tem que ser muito homem para jamais trair uma amizade, mesmo que o amigo não lhe seja tão leal.

Tem que ser muito homem para manter sua palavra e cumprir o que prometeu, mesmo que lhe custe um grande prejuízo.

Tem que ser muito homem para correr qualquer risco a fim de fazer feliz a quem se ama.

Tem que ser muito homem para não esmorecer diante das lutas e não se render ao desânimo.

Tem que ser muito homem para manter acesa a chama da esperança mesmo em meio à mais devastadora tempestade.

Tem que ser muito homem para levar a vida com leveza e rir de si mesmo sem perder a ternura.

Tem que ser muito homem para se calar reverentemente diante de um espetáculo da natureza como um pôr-do-sol ou o canto de um passarinho.

Tem que ser muito homem para romper com os grilhões da mesmice e surpreender os que o julgavam previsível.

Tem que ser muito homem para ser firme em suas convicções, mas vulnerável em suas emoções.

Homem que é homem chama para si a responsabilidade, sem jamais deixar de ser menino, franzindo a testa ante as injustiças, mas mantendo nos olhos a pureza da ingenuidade.

A todos os meus amigos, feliz dia do homem.

2

Por que sou um sonhador?




Hermes C. Fernandes

Porque a alternativa é aceitar a realidade tal como é, sem qualquer esperança de mudança.

Prefiro ser um sonhador a ser um cínico que se entrega cegamente ao fatalismo.

Sonhadores são cúmplices de Deus na realização de Sua obra restauradora.

Sonhadores são seres subversivos que não se ajustam aos padrões vigentes. São rebeldes com causa! São seres pertencentes a outro mundo... um mundo ainda a ser criado.

São seres de outro tempo. Vieram do futuro para nos avisar que tudo pode ser diferente.

É verdade que os sonhadores usualmente são ingênuos. Mas é essa ingenuidade infantil que subverte a ordem. É das crianças o Reino dos céus!

Sonhos são a matéria prima de que é feito o futuro. Deixar de sonhar é suicidar-se à prestação, é morrer estando vivo, é desistir de viver.

E quando os velhos sonham, os jovens têm visões. Adultos sonhadores produzem jovens visionários.

Prefiro o legado dos sonhadores à herança dos perversos, daqueles que perpetuam o pesadelo.

Quanto ao passado, sou seu aluno, não seu refém.

Sou um sonhador e nada mais. Mas estando em Cristo, sei que sou capaz.

Que eu possa reconhecer outros sonhadores e deixar-me atrair por sua desafiadora companhia. E que juntos nos empenhemos para que o mundo volte a ser o lugar com que Deus um dia sonhou.

Sei que um dia meu corpo será devolvido ao pó, meu espírito voltará para Deus, mas meus sonhos hão de sobreviver  no peito daqueles que se deixarem contagiar.

domingo, julho 13, 2014

0

Ossos do ofício: a múmia que carregamos em nossa jornada




Por Hermes C. Fernandes


A expressão “ossos do ofício” é usada comumente quando nos referimos às dificuldades de uma determinada atividade. Por exemplo: por trás de todo glamour que envolve a medicina, o contato diário que o médico tem com portadores de doenças contagiosas pode ser considerado como ossos do ofício.  

A origem desta expressão é inusitada. Diz-se que antigamente utilizava-se pó de tutano para obter o tom alvo das folhas de ofício. O tutano é uma substância encontrada no interior dos ossos e era conhecido por suas propriedades alvejantes. Como esse processo de branqueamento era lento e trabalhoso, convencionou-se chamar de “ossos do ofício” toda e qualquer atividade que oferecesse alguma dificuldade para o exercício pleno de uma profissão.

Toda e qualquer atividade tem seus "ossos". Porém, alguns desses "ossos" são completamente desnecessários. Pesos extras que carregamos nos ombros e que acabam por retardar nossas caminhada.

Quando Moisés retirou o povo do Egito, lembrou-se de que quatro séculos antes um juramento havia sido feito entre José e seus irmãos: seus ossos não poderiam ficar no Egito depois que o Senhor removesse de lá o Seu povo para introduzi-lo na terra que prometera a Abraão, Isaque e Jacó.

Se já é difícil carregar um caixão desde a capela até o túmulo, imagine ter que carregar um sarcófago egípcio bem mais pesado que um caixão por quarenta dias pelo deserto. Este era o tempo estimado da jornada entre o Egito e a Terra Prometida. O que Moisés jamais poderia supor é que, em vez de quarenta dias, a jornada duraria quarenta anos. Quantos se interessariam de ser voluntários para carregar os ossos de José? Por mais que ele tenha sido o instrumento usado por Deus para prover a subsistência daquele povo em seus primórdios, não duvido que não raras vezes alguém tenha sugerido a Moisés que largasse seus restos mortais no meio do caminho. Mas juramento é juramento. Aquela múmia teve que acompanhá-los até que atravessassem o Jordão e pisassem na terra da promessa.

De maneira semelhante, muitos têm carregado um "peso morto" durante sua peregrinação existencial. A caminhada, além de longa, se torna insuportavelmente pesada. Esses "ossos" podem representar um padrão de comportamento, resquício de nosso velho homem, que deveria ter sido sepultado juntamente com ele no batismo, porém, teima em nos assombrar. Podem ser uma palavra que ouvimos lá trás e que ainda repercute em nosso coração, minando nossas energias e sobrecarregando-nos de expectativas fantasiosas e sobrehumanas. Podem ser um paradigma que precisa ser rompido. Um vício que deveria ter sido abandonado. Um hábito que ainda não foi desarraigado. Um ciclo que se retroalimenta. Mesmo que jamais nos tire da rota, no mínimo retardará nossa caminhada.

Diferentemente de José, Miriam e Arão, ambos irmãos de Moisés que tiveram participação importante na retirada dos hebreus do Egito, morreram a caminho de Canaã, e ali mesmo, onde morreram, foram sepultados. Nenhum deles deu trabalho extra para o seu povo como o fez José. O próprio Moisés, apesar de sua liderança inquestionável, morreu também no caminho, faltando pouquíssimo para adentrarem a terra prometida. Moisés nem sequer deu trabalho para que o sepultassem. Deus mesmo o sepultou e seu túmulo jamais foi encontrado. Nenhum mausoléu foi construído em sua memória. Todavia, o legado que deixou à humanidade jamais se perderá. 

Que ninguém tenha que se ocupar de carregar o que restar de nós. Que em vez de um peso a ser carregado pelas próximas gerações, deixemos uma chama que lhes caberá manter acesa até que adentremos à era prometida. Que sejam depositárias de nossos sonhos e não de nossos ossos. Que perpetuem nossas virtudes, jamais nossos vícios, nossa paixão pelo bem comum e não nossos interesses mais vis.