sexta-feira, março 27, 2015

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Fora da BELEZA não há SALVAÇÃO!



“A beleza salvará o mundo.” Fiodor Dostoievski

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...” Tom Jobim e Vinícius de Moraes


Por Hermes C. Fernandes

“Pela beleza sois salvos, mediante a fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus” (Efésios 2:8). Soou estranho pra você, não? O correto não seria “pela graça sois salvos…”? Pois é, pois é, pois é…  Permita-me explicar: A palavra grega traduzida por “graça” no Novo Testamento é charis, equivalente ao vocábulo hebraico chen, encontrado no Antigo Testamento. O conceito por trás desta palavra é riquíssimo, e geralmente tem sido definido como “favor imerecido”. Apesar de correta, esta definição não dá conta de encerrar todo o seu sentido. Do ponto de vista ético, graça é sinônimo de gratuidade pura. Deus resolveu tratar-nos da maneira como não merecemos, sem exigir absolutamente nada em troca. Em resposta à Sua iniciativa, fazemos da gratidão nossa motivação e base de nosso relacionamento com Ele. Toda a ética cristã jorra daí. Qualquer bem que façamos não tem a pretensão de tornar-nos merecedores da salvação, mas tão-somente de demonstrar nossa gratidão por tão grande salvação. Em outras palavras, nossas boas obras não são a causa de nossa salvação, e sim a sua consequência natural. Evito pecar, não pra ser salvo, mas porque sou salvo. A salvação não é fruto dos esforços humanos. Não é conquista que se deva creditar aos homens. Ela é obra inteiramente de Deus. Ele entra com 100%. Isso não é belo? Percebe a poesia por trás desta preciosa doutrina?

Devo confessar que o que mais me atrai no Cristianismo é a sua poesia. Tudo soa tão belo, tão romântico, tão sedutor.  A etimologia da palavra "beleza" é Bet El za, que em hebraico quer dizer "Casa onde Deus se exibe" .Prescindir da beleza é tornar-se num religioso petrificado, feito mármore fria, desprovida de qualquer sinal de vida. Em vez de estética, nossa espiritualidade é estática, contrariando assim a célebre definição de Gotthold Lessing de que "a graça é a beleza em movimento".  Não se pode engessá-la, cristalizá-la, reduzi-la a um conceito teológico frio. Infelizmente, a teologia ocidental tornou-se tão racional, que perdemos de vista a beleza por trás de seus enunciados doutrinários. O aspecto ético deve fazer-se acompanhar do fator estético, sob pena de perder seu poder atrativo. O que é bom, também é belo. O profético também é poético.

Logo depois de afirmar que somos salvos pela graça, Paulo prossegue em seu raciocínio alegando que a salvação não poderia ser pelas obras, a fim de que não nos gloriássemos nisso. Se a salvação dependesse de nossas obras, logo teríamos razão para nos vangloriar, e isso retroalimentaria nosso orgulho, pai de todos  os pecados. Para que este ciclo fosse interrompido, a salvação teria que ser 0800. Em seguida, Paulo complementa: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10). Neste trecho, a palavra traduzida por “feitura” (que lembra feiura, rs) é poiēma, que significa poema. Portanto, na mesma passagem em que Paulo diz que fomos salvos pela beleza da graça, ele também afirma que nossa vida é um poema composto por Deus. Cada estrofe deste poema já foi escrito muito antes de nascermos. Nossa existência terrena é apenas a declamação deste poema. Quanta beleza nesta afirmação, não acha? Foi com isso em vista que Davi declarou que todos os nossos dias foram escritos no livro de Deus, sem que nenhum deles existisse (Salmos 139).

A vida não é um acidente de percurso. As coisas que nos sucedem não são aleatórias, frutos do acaso. Somos a declamação do poema de Deus.

Definitivamente, somos salvos pela beleza. A fé, que opera em conjunto com o amor, oferece-nos os óculos bifocais pelos quais enxergamos a vida em todo seu esplendor.

O pecado furou nossos olhos. Cegos, tornamo-nos insensíveis à beleza da criação, e, por conseguinte, à beleza do Criador nela expressada. Na ânsia por beleza, auxiliados pela graça comum, os homens criaram as artes, na tentativa de enxergar alguma ordem no caos, e encontrar sentido para a vida.

Em cada traço esboçado numa tela, em cada nota musical de uma canção, em cada cena de uma peça teatral, em cada passo de dança, tentamos convencer-nos de que a vida é bela, e que vale a pena retratá-la em nossa arte.

A visão e a audição são os dois sentidos usados nesta busca por beleza. E quando a encontramos, sentimo-nos atraídos, ávidos por devorá-la. Às vezes cedemos às lágrimas, arrepiamos os pelos dos braços, sentimos o coração acelerar. A beleza nos soa como um irrecusável convite, a cheguemo-nos à sua fonte, e saciemo-nos por completo. A fonte de toda beleza é, coincidentemente, a fonte de todo o bem e de toda a verdade: DEUS, o supremo artista.

Davi, o habilidoso salmista, viu-se seduzido pela suprema beleza, e confessou:
“Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e inquirir no seu templo.” Salmos 27:4
De todos os pedidos possíveis, Davi concentrou-se num único que verdadeiramente importava. Ele poderia ter pedido a derrota de seus inimigos, a prosperidade do seu reino, a estabilidade de sua coroa, mas em vez disso, ele pede para morar na casa do Senhor, lugar onde habita a beleza em sua plenitude. Um lugar de beleza encravado em um mundo repleto de feiura. Um lugar de harmonia num mundo onde impera o caos.

Onde seria esta “casa do Senhor” em que poderíamos embriagar-nos da Sua formosura? Qual o seu endereço? Seria algumas das suntuosas catedrais cujos endereços aparecem nos rodapés dos programas evangélicos que abundam em nossa TV? Absolutamente, não. Mesmo porque, Deus não habita em templos feitos por mãos. Será, então, que o google nos forneceria tal endereço? Tente e depois me diga. Certamente você se desapontará.

Se quisermos uma pista de onde podemos habita a beleza plena, devemos buscá-la nas Escrituras.
“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.”João 1:14
A Palavra Eterna, pela qual Deus fez todas as coisas, desceu de Sua glória e tornou-se carne e osso. A prosa divina fez-se poesia. Deus veio habitar conosco. Elegeu-nos como Seu novo endereço no Universo. Que os anjos atualizem os dados de sua agenda. Ele agora é um de nós, mora conosco, respira nosso ar, bebe nossa água, dorme nosso sono, e chega ao ponto de experimentar o auge da experiência humana: a morte. Pra isso, teve que esvaziar-Se das prerrogativas divinas, abdicar-Se do uso de Seus atributos, a fim de que Sua experiência humana fosse autêntica e não uma fraude. Apesar de vazio, apresentou-Se cheio de graça (beleza) e de verdade.

Cerca de 700 anos antes de Sua encarnação, Isaías anteviu Sua rejeição.
“Pois foi crescendo como renovo perante ele, e como raiz que sai duma terra seca; não tinha formosura nem beleza; e quando olhávamos para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e rejeitado dos homens; homem de dores, e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” Isaías 53:2-5
Mesmo cheio de “beleza e glória”(Is.4:2), fomos incapazes de enxergá-la N’Ele, e justamente por isso, não O desejamos. Nossa fome por beleza permanecia. Ele parecia incapaz de saciá-la. Nossos sentidos nos enganaram, pois o pecado os embotou. Rejeitamos a única esperança que nos restava. Desprezamos a última oferta feita pelos céus. Porém, Deus não desistiu de Sua obra. O poema composto na eternidade teria que ser declamado, nem que isso Lhe custasse a própria vida. E custou. Sua morte trouxe melodia ao Seu poema, tornando-o numa épica canção de amor.

Repare que em Apocalipse 4:11, os vinte quatro anciãos que cercavam o trono dizem “digno és, Senhor nosso Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, pois tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existem e foram criadas”. Já no capítulo seguinte, quando Cristo Se apresenta como Aquele que poderia romper os selos que impediam que o Livro de Deus fosse aberto, lemos que esses mesmos seres “cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos, porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo e nação” (Ap.5:9). Foi a Cruz que introduziu melodia ao poema. E há quem pense que a Cruz foi um improviso, uma espécie de plano B. A Criação é o poema. A Redenção é a canção. E o resultado final da obra é uma sinfonia. Duas peças musicais se fundem e formam o Grand Finalle. Foi isso que João viu e descreveu. Seres que tinham nas mãos as harpas de Deus, “cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são as tuas obras, ó Senhor Deus, todo-poderoso. Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos séculos. Quem não te temerá, ó Senhor, e não glorificará o teu nome? Pois só tu és santo. Todas as nações virão e se prostrarão diante de ti, pois os teus juízos são manifestos” (Ap.15:3-4).

Não há o que temer. A última estrofe da canção já foi composta. Todo joelho se dobrará. Toda consciência se renderá. Toda língua declarará seu amor ao Criador e Redentor de todas as coisas. A insinuante beleza revelada em Cristo prevalecerá. A injustiça, feiura e a mentira, serão vencidos pelo poder do bem, do belo e do verdadeiro. Preparado para o espetáculo?

quarta-feira, março 25, 2015

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"Vai e não peques mais" é a única abordagem possível?



Por Hermes C. Fernandes

Sempre que escrevo sobre a maneira como deveríamos acolher homossexuais em nossas igrejas, sem discriminá-los, recebo comentários favoráveis, mas com a seguinte ressalva: devemos receber o pecador, mas exigindo que abandone o pecado.  Geralmente, tomam por base a abordagem usada por Jesus com a mulher pega em flagrante adultério, que graças à intervenção de Jesus não foi sumariamente executada em pleno pátio do templo.  Depois de afirmar que não a condenava, Jesus recomendou: “Vai-te,  e não peques mais” (Jo.8:11).

Será que isso deveria ser entendido como um padrão para abordarmos qualquer pecador? Se não dissermos “vai-te e não peques mais” nossa abordagem foi incompleta?

Interessante notar que ela estava cercada de religiosos igualmente pecadores. O fato de sermos cristãos não nos isenta de pecado. Sou tão pecador quanto qualquer outro ser humano. E só posso apontar o dedo e condenar o meu semelhante, se não tiver pecado. O único ali que poderia tê-la condenado era Jesus, e Ele não o fez. Ela sequer confessou ser pecadora, ou fez sua profissão de fé, mas ouviu de Jesus: “Nem eu também te condeno.”

Ao largarem suas pedras, aqueles religiosos admitiram que eram pecadores. Por que Jesus não disse a eles o mesmo que disse a ela? Por que devemos dizer ao homossexual ou à prostituta para que não peque mais, e não diríamos o mesmo àqueles que compartilham de nossa fé? Somos tão pecadores quanto os demais.

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós”. E pior: Se insistirmos que não somos pecadores, estaremos chamando Deus de mentiroso e “a sua palavra não está em nós” (1 João 1:8,10). Quando, então, perderemos a mania de olhar de cima para baixo para os que cometem pecados diferentes dos nossos? Quão cínicos somos, não?

Apenas duas vezes Jesus completou Sua abordagem com a recomendação “vai e não peques mais”. A outra vez foi com o paralítico no tanque de Betesda.  A este, Jesus não só recomendou a que não pecasse, como o alertou: “Para que não te suceda alguma coisa pior” (Jo.5:14). Fica subentendido que sua enfermidade decorria de algum estilo de vida pecaminoso, desenvolvido ainda em sua mocidade, uma vez que ele já estava há 38 anos enfermo.  O que será que ele andou aprontando antes disso? Jamais saberemos.

Se, de fato, esta devesse ser a abordagem padrão para todos os casos, alguém, por favor, me explique por que razão Jesus não a usou quando recebeu a oferta daquela prostituta na casa de Simão, o fariseu?

Simão, religioso fervoroso, sentiu-se aviltado por assistir àquela mulher da vida quebrando o protocolo e, sem a menor cerimônia, derramar aquele perfume caro em Jesus. De onde ela teria tirado dinheiro para comprá-lo. Obviamente, de seu ofício. Para o religioso, Jesus deveria censurá-la, ou, no mínimo, adverti-la a deixar aquela vida fácil (que de fácil não tem nada!). Mas para sua surpresa, quem foi repreendido foi ele, não ela. Jesus fez questão de declarar a ela em alto e bom som: “Os teus pecados te são perdoados”, e, em seguida, “a tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lc.7:48-50). 

Talvez Simão tenha pensado com os seus botões: O Senhor não se esqueceu de algo, Jesus? Faltou o “não peques mais”... Como é difícil para um religioso compreender que um gesto de amor é mais eloquente do que uma recomendação, ou mesmo, uma advertência. Segundo Paulo, é o amor de Cristo que nos constrange. Duvido muito que ela tenha prosseguido em seu estilo de vida. E caso tenha prosseguido por algum tempo, também duvido que Jesus tenha desistido de amá-la. 

E quanto à samaritana que já teria tido cinco maridos, e que agora vivia com outro que sequer era seu marido? Jesus prometeu-lhe dar da água da vida, saciando de tal maneira a sua sede existencial que, certamente, ela já não precisaria buscar suprir sua carência em múltiplos relacionamentos. O relato bíblico diz que os discípulos maldaram ao flagrar Jesus conversando a sós com aquela mulher de moral duvidosa. Jesus não deu a mínima para os seus escrúpulos religiosos. Tratou-a como uma dama, e por fim, despediu-se dela sem o famoso “vai-te e não peques mais”. Esse Jesus anda muito esquecido, não? Ele também não exigiu que ela abandonasse o atual para voltar ao marido original, como algumas igrejas fazem hoje em dia. Ele apenas a amou. Sua abordagem não foi moralista, mas existencial. Seu estilo de vida apenas revelava sua sede existencial, sua busca por sentido, sua ânsia por propósito. 

Definitivamente, precisamos rever nosso discurso. Mas antes de tudo, temos que rever nossa postura ante aquele que consideramos mais pecador do que nós. Todos somos igualmente carentes da graça de Deus, e, portanto, não temos o direito de apontar o dedo para ninguém. 

Que tal darmos ouvidos à recomendação apostólica?: “acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para promoverdes a glória de Deus” (Rm.15:7). E quando estes a quem acolhermos se sentirem amados da maneira como são, poderemos dizer: “Meus filhinhos, (...) não pequeis. Se, porém, alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo” (1 Jo.2:1).

Sinceramente, entendo este "filhinhos (...) não pequeis" como um apelo de amor, e não meramente uma exigência moral. A meu ver, só poderia dizer "vai e não peques mais" quem pudesse ser capaz de cumprir tal exigência, no caso, o próprio Filho de Deus. Como eu poderia exigir que alguém fizesse o que nem eu sou capaz de fazer? Como posso exigir que alguém pare de pecar, se eu mesmo não parei? Agindo assim, eu seria como aqueles fariseus que exigiam dos outros que carregassem fardos que eles mesmos não se dispunham a carregar. E se eu  me atrever a dizer que parei de pecar, estarei chamando Deus de mentiroso.  Portanto, só Jesus, o único justo, poderia dizer "vai-te e não peques mais", pois foi o único que jamais pecou. E nem sempre usou desta prerrogativa, isto é, nem sempre lançou mão desta abordagem. 

segunda-feira, março 23, 2015

23

Procura-se igreja saudável e liderança confiável


Por Hermes C. Fernandes

Em meio a tanta confusão nos arraiais evangélicos, muitos preferem servir a Cristo em seus próprios lares, engrossando assim a fileira da igreja que mais cresce no Brasil e no Mundo: a dos desigrejados. Seu desapontamento com a igreja instituída fez com que agissem como Elias, o profeta solitário que cansou-se de nadar contra maré de corrupção que abatera sobre Israel, planejando terminar seus dias confinado numa caverna. O que ele não sabia é que Deus havia preservado sete mil pares de joelhos que não haviam se dobrado a Baal.

Basta visitar alguns dos milhares de blogs que povoam a blogosfera cristã para certificar-se de que ainda há esperança. A blogosfera transformou-se numa enorme congregação virtual. Gente oriunda de todos os setores da igreja cristã tem a liberdade de expor seu descontentamento com o rumo que a igreja tem tomado.

Como pastor, preocupo-me com aqueles que simplesmente desistiram de congregar e se alimentam unicamente do que é postado em nossos blogs. Precisamos muito mais do que isso. Precisamos construir relacionamentos sólidos, submeter-nos a uma liderança madura e respaldada na Palavra, encaminhar nossos filhos a um ambiente saudável, sentir-nos pertencentes a uma família espiritual, e mesmo, contribuir financeiramente com projetos que visem a glória de Deus e o bem-comum.

Daí surgem algumas questões pertinentes:

Poderíamos congregar numa igreja que não fôssemos capazes de recomendar a outros? Sentir-nos-íamos constrangidos e desconfortáveis em trazer nossos amigos e parentes a um culto?

Que tipo de igreja proveria um ambiente seguro e saudável para os nossos filhos? Que igreja poderia ajudar-nos na formação do caráter deles sem intrometer-se em assuntos domésticos e particulares, e sem expor nossa autoridade como pais? Há igrejas onde o pastor se vê no direito de estabelecer regras nos lares de seus congregados. Filhos crescem sem saber se devem honrar a seus pais ou obedecer cegamente a seus líderes espirituais. Imagine um pastor que exija ser chamado de “pai”, ou ser tratado como tal. Ou ainda: o desconforto de um pai cuja autoridade é rivalizada pela autoridade pastoral.

A que tipo de liderança deveríamos nos submeter? Um pastor que não é respaldado por sua própria família (pais, irmãos, filhos, esposa, etc.), estaria apto a mentorear outras famílias? E quando todos percebem que entre ele e a esposa não há amor? Você se submeteria a um pastor cujo casamento não passasse de um embuste? Que tipo de tratamento ele dá aos filhos? A famíla pastoral deve ser referência. Não digo que deva ser perfeita, mas pelo menos saudável.

Seria sábio submeter-nos a uma liderança susceptível a todo tipo de modismo doutrinário? Hoje prega uma coisa, amanhã prega outra totalmente difirente? Seria correto submeter-nos a uma liderança emocionalmente desequilibrada? Como nossos pastores reagem ante a uma crise? Como reagem quando são elogiados? E quando são criticados? Costumam trazer problemas de casa para o púlpito, ou vice-versa? Gostam de apelar ao emocionalismo? Gostam de tornar as pessoas dependentes deles?

Seria sábio submeter-nos a uma liderança antiética? Quem suporta um pastor que só sabe falar mal dos que o antecederam? Você se submeteria a um pastor que sequer sabe ser grato a quem o instituiu? E mais: com quem ele anda? Quem são seus amigos? Quem freqüenta sua casa? Não me refiro a amizade com pessoas não cristãs, e sim a amizade com falsos cristãos, lobos infiltrados no meio do rebanho para causar-lhe dano.

Como acolhem as pessoas que chegam a igreja? Dão o mesmo tratamento independente da posição social? Desprezam os veteranos para dar maior atenção aos novatos? Como são tratados os anciãos? Lembre-se que um dia você será um.

E quanto às contribuições? Seria sábio contribuir numa igreja onde a liderança é pródiga? É correto o pastor fazer compromissos maiores do que os que a igreja possa arcar e depois escapelar os irmãos na hora das ofertas? Como as ofertas são pedidas? Há muita apelação, manipulação e pressão psicológica? E como elas são administradas? A quem o pastor presta contas? Há uma instância acima dele? O que entra na igreja é usado exclusivamente ali ou parte é destinada a trabalhos missionários? Há projetos sociais relevantes? Que resultado esses projetos têm alcançado?

É correto usar o dinheiro da igreja para pagar cachês a cantores e bandas convidadas?

E se o pastor eventualmente cometer um deslize grave, como adultério ou roubo, quem poderá admoestá-lo, ou mesmo puni-lo?

Como a igreja lida com questões políticas? É certo a liderança apontar em quem os membros devem votar? É correto levar candidatos para o púlpito e ceder-lhes a palavra? Há algum trabalho de conscientização para que as pessoas exerçam sua cidadania cabalmente, sem interferência?

Quais os critérios usados pelo pastor para ceder seu púlpito a outro pregador?

Olhe para as pessoas à sua volta, principalmente para as que chegaram antes de você e pergunte-se: Elas são hoje pessoas melhores do que eram anos atrás? As pessoas que congregam ali estão amadurecendo na fé? Lembre-se: elas podem ser você amanhã.

E quanto ao culto? Percebe-se a presença de Deus naquele lugar? Há reverência ou simplesmente oba-oba? As pessoas que freqüentam estão realmente interessadas na Palavra ou só aparecem quando há algum evento ou convidado especial?

Essas são apenas algumas questões que precisam ser consideradas. Se você tiver alguma outra questão igualmente relevante, por favor, poste em seu comentário.

O que não podemos é desistir da igreja de Cristo, seja reunida de maneira formal ou informal. Não basta criticar, urge encontrarmos saída para resgatá-la deste estado calamitoso em que chegou.

Originalmente postado em 27/04/2010

quinta-feira, março 19, 2015

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Tudo o que não presta você vê por aqui...



Por Hermes C. Fernandes

Ambição, inveja, homicídio, promiscuidade, incesto, adultério... onde mais encontramos tais elementos além das novelas globais? A resposta é: na Bíblia!

Eu não confiaria num livro em que seus personagens fossem seres míticos, moralmente perfeitos, anjos travestidos de gente. Em vez disso, as Escrituras nos apresentam seres ambíguos, capazes de oscilar entre o heroísmo e a vilania, entre a pureza e a vileza. Nem Davi e sua família escapam. Digo Davi pelo fato de ele ser o único a receber a alcunha de “homem segundo o coração de Deus”.

Mas não confunda as coisas. Fazer alusão a fatos não é o mesmo que fazer apologia deles. A intenção dos escritores sagrados era expor a condição do coração humano e sua absoluta carência da graça divina.

O problema humano está para além dos ambientes externos. Há quem se mantenha fiel dentro dos palácios da Babilônia, como foi o caso de Daniel e seus amigos, ao passo que há quem se entregue a devaneios libidinosos nos palácios de Jerusalém. Nosso problema está diretamente relacionado aos ambientes do coração. Em cada esquina da alma há uma armadilha. Pouco importa se você está num mosteiro ou numa praia de nudismo, em Cafarnaum ou em Sodoma.

Quem poderia supor, por exemplo, que a família de Davi fosse tão disfuncional e problemática? E olha que ninguém ali assistia às novelas da Globo! rs

Um dos episódios mais dolorosos vividos envolvendo seus filhos está aquele em que seu filho Amnom se apaixona pela própria irmã. O texto sagrado diz que ele angustiou-se até adoecer. Teria sido pela culpa que carregava? Não! Sua depressão tinha outra razão: sua irmã era virgem, “e parecia impossível a Amnom fazer coisa alguma com ela”. Não bastasse ela ser sua irmã, o que em si já se constituía num enorme obstáculo, ela também era virgem. Se não o fosse, tudo seria mais fácil. Em momento algum ele se vê diante de um dilema moral. O sentimento de culpa passou longe.

Sua obsessão por sua irmã era tão grande que afetou sua saúde física. Jonadabe, seu primo e amigo confidente, perguntou-o sobre a razão de estar emagrecendo tão rapidamente. Sua resposta concisa foi: “Amo a Tamar, irmã de Absalão, meu irmão.”

Repare nisso: Ele não disse que amava sua própria irmã, e sim que amava a irmã de seu irmão. Não seria isto um mecanismo de fuga, uma maneira de atenuar sua culpa? Ele não a considerava sua irmã, mesmo porque, eles eram filhos do mesmo pai, mas não da mesma mãe.

Seremos humanos somos experts em driblar a consciência, nem que para isso tenhamos que apelar a um jogo de palavras. Palavras escondem mais que revelam. Pena que insistimos em ler apenas o que está escrito, perdendo o que jaz nas entrelinhas. Prestamos demasiada atenção ao que se é dito, mas não às pausas entre as palavras e à lógica circular que visa distrair o foco.

Sagaz, Jonadabe não poderia deixar o amigo sem uma palavra de incentivo, ainda que fosse para o mal.

– Você vai fazer o seguinte: Finja que está doente e quando seu pai vier lhe visitar, peça que libere sua irmãzinha para cuidar pessoalmente de você e lhe dar comidinha na boca. Aí, quando ela vier, você dá o bote, sacou?

A ideia parecia brilhante. Era tudo uma questão de tê-la ali ao alcance das mãos. Davi caiu direitinho e enviou sua filha Tamar para cuidar de um dos pretensos candidatos à sucessão do trono. Como ele poderia supor que seu filho estivesse tramando para possuir a própria irmã? Esta era uma possibilidade completamente fora de cogitação. Não condizia com a educação que havia dado a seus filhos.

Tamar fez o que lhe fora pedido. Preparou bolos, tentou dar-lhe de comer direto na boca, mas ele se recusou como uma criança mimada. Para que seu intento fosse alcançado, ele teria que estar sozinho com ela. Além da privacidade requerida, não poderia haver testemunhas do que ocorreria ali. Ele, então, ordena que todos os seus criados deixem o seu aposento. A ideia era não deixar rastro. Se não desse certo, tudo morria ali mesmo. Ninguém precisava saber.

O que nos inibe de fazer muitas coisas é a tal “nuvem de testemunhas” sempre a postos (Hb.12). Mas se obtivermos a privacidade necessária, nossos demônios veem à tona.

– Chega mais perto agora. Quero comer de suas mãos – convida Amnom à sua indefesa irmã.

Inocente, ela se aproxima sem imaginar o risco que corria.

– Agora vem cá, deita comigo!

– Você está louco? Não é assim que as coisas funcionam aqui em Israel!

Para a coitada da menina, tudo tinha a ver com o ambiente. Se estivessem na Babilônia, quem sabe... mas não ali em Jerusalém.

Mesmo em sua santa ingenuidade, Tamar ainda tenta chamá-lo à consciência.

– Se fizer comigo o que está desejando, como é que vou lidar com a minha vergonha?

Em outras palavras: - Alguém poderá deduzir que fui eu que o seduzi. Vão achar que facilitei, que me insinuei pra você.

Este tipo de argumento machista a gente vê por aqui... não na Globo ou no Brasil, mas em pleno palácio do grande rei Davi. Mulheres vítimas de estupro, além de carregar a dor de terem sido molestadas, ainda têm que suportar a acusação de terem provocado.

Tamar era mais que um rosto bonito e um corpo bem esculpido. Como ele não se importou com a vergonha que ela teria que carregar, apelou, então, para outro argumento:

– Vão comentar por aí que você está louco! Você não se importa? Sua reputação vai pro lixo junto com qualquer pretensão de um dia ser rei em Israel. Será que vale a pena pagar um preço tão grande por uma noite de volúpia com sua própria irmã?

Nem mesmo este argumento conseguiu dissuadi-lo de forçá-la. Ela, então, resolve lançar mão de um último argumento:

– Se quer mesmo fazer isso, por que não faz da maneira certa? Se você me pedir ao rei, tenho certeza de que ele não me negará a você.

É óbvio que Davi jamais atenderia a um pedido inusitado daqueles. Imagine, entregar a própria filha ao irmão... mas em seu desespero, foi o que ocorreu a Tamar. Ela inverteu a lógica maquiavélica. Não são apenas os fins que justificam os meios. Se é possível alcançar um objetivo nobre por meios errados, também é plausível alcançar um objetivo funesto por meios aparentemente mais decentes.

Obcecado, Amnom nem sequer considerou os argumentos de Tamar. “Sendo mais forte do que ela, forçou-a e se deitou com ela.”

Um estupro incestuoso! Onde? Em Sodoma ou Gomorra? Não! Na Babilônia? Também não. Em Jerusalém, a poucos metros dos aposentos reais.

Jonadabe tinha razão. O plano deu certo. Amnom conseguiu o que queria. Sua irmã não pôde resistir, não ao seu encanto, mas à sua força.

Sempre haverá por perto algum Jonadabe pronto a instigar o que há de pior em nossa natureza. Mas também sempre haverá quem busque suscitar nossa consciência, chamando-nos ao bom senso. Neste caso em particular, foi a própria Tamar. A eloquência das vítimas é sempre menosprezada por seus algozes. É mais fácil ouvir o canto de um galo do que dar ouvidos ao argumento daquele a quem pretendamos usar, explorar e oprimir.

Após consumar o ato, “sentiu Amnom grande aversão por ela, pois maior era a aversão que se sentiu por ela do que o amor que lhe tivera.”

Eis a diferença entre propósito e obsessão! Quando alcançamos um propósito, sentimo-nos realizados. A sensação que temos é de missão cumprida. Porém, quando somos tomados por uma obsessão, a sensação que se segue é de aversão, nojo e culpa.

Quem se guia por propósito sempre leva em conta os desdobramentos, “o dia depois de amanhã”, as consequências imediatas e as que virão a médio e longo prazo. Quem se deixa levar por uma obsessão só está preocupado com o prazer do momento. Ainda que seja uma “boa” obsessão, como por exemplo, o casamento, a formatura, a gravidez, etc. Depois de concluído a graduação, a pessoa se pergunta: O que foi que eu fiz da minha vida? E agora, o que vou fazer? O mesmo se aplica a outras áreas. A gente se põe a construir uma torre sem calcular seus custos e acaba deixando-a pela metade. O entusiasmo inicial cede a um sentimento de desânimo e, às vezes, de aversão. Provamos não ter cacife para custear a manutenção de sonhos alcançados com relativa facilidade. O difícil não é casar, mas manter-se casado. Não é formar-se, mas sentir-se realizado naquilo que faz. Não é conceber um filho, mas educá-lo.

O nojo que Amnom sentiu da própria irmã foi tão grande que ele ordenou que seu criado a pusesse para fora, sem dó nem piedade. Onde foi parar todo aquele amor que sentia por ela? Simplesmente, não era amor, mas obsessão. Entre o amor e o ódio há um enorme abismo, mas entre a paixão e a aversão há apenas uma linha tênue.

Tamar deixa o quarto de seu irmão completamente desolada. A virgindade ainda era um tabu. Perdê-la sem ter se casado significava ter que sair da casa dos pais. Mas espera aí... ninguém sabia. Não houve testemunhas! Se ela se calasse, tudo continuaria como antes.

Em vez disso, ela prefere tomar uma atitude inesperada. Era melhor enfrentar sua nova condição com honestidade do que passar o resto de seus anos sob o manto da hipocrisia.

Naquela época, as filhas dos reis se vestiam com túnicas que as identificam como donzelas. Se mantivesse tudo em segredo, ela poderia continuar a usar a mesma túnica. Quem jamais ousaria conferir?

Tamar, porém, ao ser enxotada do quarto de seu irmão, rasgou sua túnica e lançou cinza sobre sua cabeça para indicar o quão amargurada estava. Quem quer que a visse naquele estado saberia que ela já não era uma donzela.

Foi muito fácil Bartimeu lançar fora sua capa. Difícil foi Tamar rasgar sua túnica. É fácil lançar fora o que nos desonra, o que nos torna seres de segunda classe. Difícil é rasgar o que nos torna pessoas especiais aos olhos dos demais. Jesus disse que deveríamos nos desapegar tanto de túnicas quanto de capas (Mt.5:40). Portanto, temos que estar prontos a abrir mão tanto do que nos desfavorece, quanto do que nos favorece. O que não devemos é viver sob a capa da hipocrisia.

Entre os romanos havia um adágio que dizia que não basta ser mulher de César, tem que parecer mulher de César. Damos muito mais valor à aparência do que ao conteúdo. Por isso, a hipocrisia segue imperando, inclusive nas igrejas. Justamente num ambiente onde deveria prevalecer a transparência, somos bombardeados com mensagens que insistem em nos convencer a exibir uma fachada de falsa espiritualidade. A gente ri, quando no fundo quer chorar. A gente canta, quando no fundo preferia apenas orar. Parece que nos esquecemos da recomendação de Tiago: “Está alguém entre vós aflito? Ore. Está alguém contente? Cante louvores” (Tg.5:13).

A transformação operada pelo Espírito Santo em nós requer que estejamos com o rosto descoberto e não posando de santos imaculados.

O que impede muitos de aderirem a este espírito despojado de falsa espiritualidade é a falta de amor entre os irmãos. As pessoas estão sempre prontas a julgar, quase nunca prontas a acolher. Usam jogo de palavras para transformar vítimas em cúmplices de seus algozes. Em suma, sobra lei, falta graça.

Quando Absalão viu-a naquele estado, concluiu que alguma coisa havia acontecido e indagou:
“Esteve Amnom, teu irmão, contigo? Ora pois, minha irmã, cala-te; é teu irmão. Não se angustie o seu coração por isto. Assim ficou Tamar, desolada, em casa de Absalão, seu irmão.”
Já que não poderia mais morar no palácio, Tamar foi acolhida por seu irmão mais velho. Mas, de que adiantava oferecer-lhe um teto, mas negar-lhe os ombros? E que discurso mais machista foi aquele? Que estória é esta “deixa pra lá”? As coisas não se resolvem sendo varridas para debaixo do tapete. Nem mesmo na cabeça de Absalão a situação estava equacionada. O texto diz que ele preferiu não emitir qualquer opinião, nem sequer procurou Amnom para uma conversa franca. Mas, no fundo, nutria um ódio mortal pelo irmão por haver estuprado a Tamar.

A propósito, alguém viu Davi por aí?

Não perca as cenas dos próximos capítulos desta novela bíblica que se passa em Jerusalém, ou seria na Babilônia?

* Texto baseado em 2 Samuel 13:1-22

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Quem disse que Jesus não combina com chicote?



Hermes C. Fernandes


Havia uma expectativa no ar. Todos comentavam entre si que finalmente chegara o dia em que o Messias tão esperado adentraria triunfantemente em Jerusalém; dirigindo-se ao palácio, deporia Herodes, o rei fajuto, marionete do império romano. Um tal galileu surgira na periferia, fazendo milagres, exorcizando demônios, alimentando multidões. Além de tudo, tinha pedigree. Só poderia ser Ele, o filho de Davi, que libertaria Seu povo do domínio romano, e assumiria o trono do qual era herdeiro.

A cidade estava em polvorosa. Munidos de ramos, todos dirigiram-se ao portão principal para dar boas vindas ao que vinha em nome do Senhor. HOSANA! Os tempos áureos voltaram! Viva o Filho de Davi!

De repente, desponta no horizonte um figura doce, serena, montada num jumentinho. Seus discípulos O precediam e engrossavam os brados de hosana.

Acostumados em assistir às paradas triunfais, em que reis e generais se apresentavam montados em extravagantes corcéis, a imagem d’Aquele galileu montado num jumento era, no mínimo, frustrante. Mesmo sem entender direito o que acontecia, os brados de hosana se intensificavam. Talvez aquilo fosse um recurso cênico, visando identificá-lO com as camadas mais pobres e oprimidas da sociedade. Ninguém sabia que o jumentinho era emprestado.

Ao atravessar o portão da cidade, todos imaginavam que Ele Se dirigiria ao palácio, liderando o povo para uma tomada de poder, mas em vez disso, Ele toma o lado oposto, e Se dirige ao Templo.

Possivelmente muitos pensaram que Ele faria uma breve escala no templo, a fim de legitimar Seu motim, buscando apoio da casta sacerdotal.

Inusitadamente, Sua feição é transformada. O galileu humilde montado num burrinho, agora improvisa um chicote, adentra os pátios do templo, e de lá expulsa os cambistas e mercadores.

Confusão geral! Os brados de hosana foram substituídos por burburinhos. Todos estavam enganados em suas expectativas. Ele não estava interessado em ser unanimidade. Não buscava apoio dos sacerdotes, nem dos dos principais partidos religiosos.

O reino que Ele representava não propunha mudanças que começassem pelo palácio, mas pelo templo. A Casa de Seu Pai estava sendo profanada, transformada num mercadão a céu aberto. Antes de instaurar a ordem do reino, aquela “ordem” teria que ser subvertida. Mesas de pernas pro ar! Gaiolas abertas! Cambistas expulsos!

O mesmo Cristo do jumentinho é o Cristo do chicote. Não confunda Sua humildade com passividade. Ele jamais fez vista grossa às injustiças dos homens.

Depois de limpar o terreno, cegos e coxos Lhes são trazidos, e Ele os cura ali mesmo. De repente, o silêncio é quebrado por brados de hosana, que desta vez vinham dos lábios de crianças.

Os sacerdotes, indignados, perguntam se Ele não se incomoda com aquilo. Jesus responde: Vocês jamais leram? Da boca das crianças é que sai o mais puro louvor.

Repare nisso: Os hosanas bradados à entrada de Jerusalém não mereceram qualquer comentário de Jesus. Entretanto, Ele sai em defesa das crianças que O louvavam com a mesma expressão. Por quê? Porque estes eram legítimos, desprovidos de interesses. Os hosanas de quem O recepcionou à porta da cidade foram interrompidos, tão logo Jesus feriu seus interesses.

Aqueles O louvavam por imaginarem que Jesus planejava um golpe político, e que, em posse do trono, romperia relações com Roma, reduziria a carga tributária, e restabeleceria a monarquia de Davi. Mas Jesus tinha em mente outro tipo de revolução. Somente as crianças estavam prontas para isso. Naquele momento, Jesus Se tornou no super-herói da meninada.

Só Ele teve a coragem de desafiar o status quo. Só Ele ousou enfrentar os que detinham o monopólio religioso.

Enquanto as crianças O louvavam, os adultos, indignados, já pensavam em como detê-lO. Foi esta postura subversiva que Lhe custou a vida. Começava ali a contagem regressiva para que o Cristo subversivo fosse morto, não por defender uma ideologia, mas um ideal, o ideal do Reino de Deus.

Desde então, o grito de “hosana” deveria ter conotação subversiva, e não ser mais um jargão religioso. Que seja o hosana das crianças, dos representantes do futuro, aqueles para os quais é o reino dos céus, e não o hosana dos interesses inconfessáveis, do monopólio, da religiosidade insípida, do jogo político. É triste e revoltante ver tantos cristãos deixando seus cultos dominicais portando ramos nas mãos, sem com isso serem cúmplices de Deus na instauração do Seu reino.

Que a religião instituída desista de tentar domesticar Jesus.

terça-feira, março 17, 2015

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Entre a Babilônia e o Jornal Nacional



Por Hermes C. Fernandes

Para começo de conversa, detesto qualquer tipo de patrulhamento, seja cultural, político ou ideológico. “Foi pra liberdade que Cristo nos libertou”. Ou não foi? Então, não me venha com esta conversa de que devemos boicotar este ou aquele programa de TV. Cada qual deve ser guiado por sua consciência, que por sua vez, deve ser iluminada pelo Espírito Santo e pelo bom senso.

Perdoem-me a franqueza, mas estou cansado da mesma ladainha como a que se ouviu no lançamento de outras novelas como a “Salve Jorge”. Porém agora, com uma agravante. O título da novela é “Babilônia”. Como um cristão poderia dar audiência a um folhetim cujo nome nos remetesse às pragas do Apocalipse? Deixar de assistir a uma novela por se chamar "Babilônia" seria equivalente a deixar de tomar um ônibus porque seu número é 666. 

Para piorar a situação, logo no primeiro capítulo, duas atrizes consagradas se beijam. Talvez se fossem duas mocinhas alguns marmanjos não se incomodassem tanto. Deixariam passar batido. Mas duas anciãs? Que pouca vergonha é essa? Não assisti à tal cena devido ao horário em que cheguei à casa. Mas deu tempo de pegar o finalzinho do primeiro capítulo, quando uma das protagonistas assassina friamente o motorista de seu marido com quem teria se envolvido sexualmente. Ninguém se queixou disso. Tirar a vida do outro para encobrir seu erro já não embrulha estômago de ninguém. Mas duas velhinhas se beijando... isso é nojento! Também não vi comentários sobre as cenas finais da última novela (Império) em que o pai é assassinado pelo próprio filho. Ninguém deu tremelique, nem protestou. 

Quão hipócritas somos! Acostumamo-nos com certas cenas violentas, porém outras ainda mexem com nossos escrúpulos e expõem as entranhas de nossos preconceitos. “Isso é pecado!”, esbravejam alguns. Mas tirar a vida de alguém também não o é?

Quando se trata de dois rapazes, o receio é que isso acabe influenciando os jovens a se envolverem sexualmente com pessoas do mesmo gênero. Há pastores cujo temor é que um de seus filhos descambe para o homossexualismo. Que baita escândalo isso não provocaria em seu ministério! A preocupação maior é com a repercussão do que propriamente com o bem-estar do filho. É claro que não estou generalizando, mas esta a conclusão a que cheguei depois de conversar com alguns. Já ouvi alguns dizerem que prefeririam ter filhos bandidos a ter filhos gays. Mas em se tratando de duas anciãs, o que isso poderia provocar? Já pensou se a moda pega e as irmãzinhas do coral resolvem virar a casaca? rs

Ora, se o que a novela apresenta nos ofende, basta trocar de canal. Só espero que adotemos os mesmos critérios para os enlatados made in USA. A gente abomina a teledramaturgia nacional, mas consome vorazmente tudo o que o cinema e os canais por assinatura oferecem. Ainda não vi ninguém se levantar no meio de um filme e deixar a sala de exibição ofendido com as imagens. No cinema, tudo entra na conta da licença poética. É como se o escurinho do cinema nos cobrisse com um manto que nos permitisse deixar do lado de fora os escrúpulos. Mas a TV, via de regra, está no centro de nossa sala de estar, lugar de passagem de toda a família. Neste ambiente, um discurso moralista cai bem e preserva nossa imagem. Santa hipocrisia, Batman!

Assisto a qualquer filme ou novela com o mesmo olhar: o de alguém que busca entender os conflitos humanos. Para mim, o que importa não é se haverá ou não nudez ou cenas de sexo ou beijos homossexuais, e sim se há uma trama bem construída que exija de mim uma atenção redobrada e o uso de mais de dois neurônios.

É de Paulo a recomendação para que vejamos de tudo, mas retenhamos somente o que for bom. Talvez alguém argumente que não há absolutamente nada de bom num folhetim de TV. Tudo vai depender do nosso olhar. Como me interesso pelo ser humano e suas idiossincrasias, sempre encontrarei algo bom, até em filme de terror.

Parte do problema é que as pessoas não conseguem distinguir entre narrativa e apologia. Um filme ou novela que tem que lançar mão de cenas gratuitas de nudez, violência ou sexo para alavancar a audiência não é capaz de despertar meu interesse. Prezo pelo conteúdo, pela construção, pelo argumento. Se enriquece a trama, tudo bem, não me incomodo. O importante é suscitar o tema, provocar debate, nos fazer pensar. 

Alguns, mais afoitos, chegam a propor o boicote da emissora por seu conteúdo supostamente imoral. Sinceramente, considero que o pior veneno que a tal emissora destila em nossos lares não é através de suas novelas, mas de seus telejornais. Não faz sentido trocar de canal durante a exibição de Babilônia depois de dar crédito a tudo o que assistiu no Jornal Nacional. Prefiro ter meus escrúpulos ofendidos a ter minha inteligência subestimada.

segunda-feira, março 16, 2015

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Aos que me acusam de ser esquerdista, progressista e liberal




Por Hermes C. Fernandes

Pouco me importo quando me acusam de ser esquerdista, progressista ou liberal. Quem já leu meus livros sabe exatamente o que penso acerca das ideologias. Quando me posiciono quanto a uma causa ou questão, o que me baliza não são os pressupostos ideológicos, mas os ideais que se coadunam com a proposta do reino de Deus.

Não compro pacotes fechados. Por isso, não me identifico nem como progressista, nem como conservador. Sou reinista! O reino que represento está acima destas conjecturas bobas e que cheiram a mofo.

Em sua mais curta parábola, Jesus diz que “todo escriba instruído acerca do reino dos céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt.13:52).

Ora, “tirar coisas velhas” indica que há coisas que valem a pena serem conservadas. Se tira coisas novas é porque está sempre aberto a inovar. O que é considerável revolucionário hoje terá que ser conservado para as próximas gerações. É novo para nós, mas será considerado velho para os que vierem depois de nós. Nem por isso, deverá ser descartável.

Há valores que merecem ser conservados, há outros, porém, que precisam ser descartados, ou ao menos, atualizados.

Jesus não fechava com grupo algum. Nenhum rótulo lhe caía bem. Ele não era fariseu, nem saduceu, nem essênio, nem zelote. “Ouvistes o que foi dito? Eu, porém, vos digo...”  O que  os religiosos absolutizavam, Ele simplesmente relativizava. Quem se acha conservador prefere não mexer no que foi dito. Prefere deixar as coisas exatamente como são.  Ou retroceder a uma era que julga ter sido melhor do que a atual.

Fico imaginando de que lado estariam, por exemplo, quando a instituição da escravatura tornou-se insustentável. Lutariam ao lado dos escravos ou dos donos de engenhos? E quando Galileu defendeu o modelo de Copérnico, afirmando que era a terra que girava em torno do sol e não o contrário? Será que se poriam em favor da ciência ou de uma religiosidade cega?

Depois que a polêmica passou, é fácil posicionar-se. Quero ver se entrincheirar em meio ao fogo cruzado.

Como homens como Martin Luther King se posicionariam hoje em questões como o direito dos homossexuais? Que posição Madre Teresa de Calcutá teria com respeito à agenda social de um governo considerado esquerdista? Em que marcha encontraríamos Mandela?

Antes de me posicionar, flagro-me a perguntar: de que lado estaria Jesus?

Se bem conheço a Jesus, não duvido nada que Ele se solidarizasse com certos grupos que consideramos abomináveis. Imagine se Ele dissesse hoje em pleno culto dominical numa dessas catedrais suntuosas que as prostitutas precederiam alguns pastores no reino dos céus.


Os que defendem cegamente a manutenção do Status Quo possivelmente censurariam a Jesus por haver impedido que uma adúltera flagrada no ato fosse sumariamente executada no pátio do templo. Quem se candidataria a arremessar a primeira pedra?

Em vez de defender com unhas e dentes instituições tão caras à sociedade judaica como o sábado, Ele preferia defender a integridade da vida humana. Segundo Ele, o sábado foi feito para o homem e não vice-versa. Em outras palavras, as instituições existem em benefício do ser humano, mas não vale a pena morrer ou matar por elas. 

Estou convencido que Sua agenda estaria bem mais ocupada com questões éticas do que com a moral e os bons costumes. 

Em vez de criar celeumas em cima de "quem vai ou não assistir à próxima novela das 9", Ele traria à baila questões verdadeiramente pertinentes. Ele nos desafiaria a cuspir os camelos que temos atravessados na garganta, deixando de lado os inofensivos mosquitos. 

Religiosos hipócritas não se criariam. Seus interesses escusos seriam expostos. Suas agendas políticas jogadas no lixo. Seu moralismo dissimulado denunciado. O que prevaleceria seria a paz, fruto da justiça, que por sua vez, é fruto do amor.