sexta-feira, abril 29, 2016

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"Saia justa" de Hermes Fernandes em Marco Feliciano viraliza na internet

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Ubuntu, o legado e a demonização da cultura negra




Por Hermes C. Fernandes

“Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra.” 
Bob Marley

Anos atrás, uma de nossas congregações resolveu fazer uma apresentação na Sede da Reina homenageando a cultura negra. Mulheres vestidas a caráter começaram a dançar ao ritmo dos tambores, bem ao estilo africano. Por ser uma festa, tínhamos a presença de irmãos de muitas igrejas. Nem todos demonstravam o correto discernimento do que ocorria ali. Não demorou muito para que se ouvissem murmurinhos e expressões do tipo "tá amarrado!"[1] Aquilo me deixou tão incomodado, que ao término da apresentação (que incluía um grupo de capoeira), vi-me na obrigação de chamar a atenção dos que murmuravam. 

Por que insistimos em demonizar a cultura africana? Suas danças, música, folclore e tradições são entendidos como expressões malignas. Nossa contradição, todavia, é exposta ao nos referirmos às tradições religiosas nórdicas, celtas, anglo-saxônicas e greco-romanas como mitologia. Quanto preconceito ainda há em nós, quer admitamos ou não.

A única coisa que poupamos da cultura africana é a sua comida, desde que não seja servida por uma baiana de roupa branca e turbante. Recentemente, a comunidade candomblecista ganhou a liminar que proíbe evangélicos de venderem acarajé, uma comida típica da Bahia como "bolinho de Jesus". O acarajé foi tombado como patrimônio cultural brasileiro, e é uma manifestação cultural da culinária baiana que tem sua origem na religiosidade candomblecista como o alimento de Iansã. Quando um patrimônio cultural é tombado, seja material ou imaterial, a ideia é expressar sua importância para a construção de uma identidade cultural dos grupos sociais. O acarajé não é apenas uma comida de oferenda a uma entidade cultuada numa religião de matiz africano, mas um meio de garantir a sobrevivência de famílias que cultivam seus saberes culinários de geração em geração. Quando uma baiana arma seu tabuleiro na rua, sua intenção não é a de fazer oferendas a um orixá, mas tão-somente o de sustentar sua família. Sem contar que uma boa parte destas baianas é negra, pobre e arrimo de seus lares. Não é a alteração do nome da iguaria que vai santificá-la para ser consumida por cristãos evangélicos sem que isso lhes pese na consciência. À luz das Escrituras, o que santifica qualquer alimento é a gratidão com que o consumimos.[2] 

Nunca encontrei uma única passagem bíblica em que Jesus ou os apóstolos se referissem aos espíritos malignos com nomes de divindades dos panteões pagãos. Jamais flagrei os apóstolos expulsando um espírito de Júpiter ou Diana. Então, por que identificamos as divindades cultuadas nos terreiros como demônios? Por que não podemos enxergá-las apenas como seres mitológicos, como fazemos com Zeus, Thor e Hermes?

Responda-me com sinceridade: Você iria ao cinema prestigiar um filme intitulado "Xangô de Ife", onde um personagem negro, portando um machado de dois gumes, vindo de Aruanda, controla os raios e os trovões? Certamente que um filme desses seria execrado por muitos cristãos. Mas, se o filme se chama Thor, deus nórdico dos trovões, a quem se sacrificavam homens, mulheres e crianças, pendurando-os em carvalhos, protagonizado por um louro bonitão de olhos azuis, é assistido sem o menor peso de consciência. Enquanto para Xangô são sacrificados pombos e galinhas de angola, para Thor eram sacrificados seres humanos. 

Que haja espíritos malignos que se aproveitam da superstição para se instalar em certas culturas, não me atrevo a duvidar. Inclusive por trás de muita devoção popular católica e da velada idolatria evangélica. Tais espíritos são ávidos por adoração, e para isso, escondem-se por trás de figuras mitológicas e de crendices de qualquer credo. Tenho a forte impressão de haja demônios ocultos em muitas das práticas evangélicas de hoje em dia, principalmente quando envolvem os chamados "pontos de contato". De acordo com a espiritualidade proposta no evangelho, o culto genuíno é aquele que prescinde de objetos, sejam da devoção afro-brasileira como patuás, banhos mágicos e etc., sejam do espírito judaizante imperante em muitas igrejas como shofar, arcas da aliança, montes sagrados e etc. O culto que agrada a Deus se dá em Espírito e em Verdade,[3] e não em superstições e amuletos.

Proponho que tratemos os elementos de qualquer culto em seu aspecto mitológico, sem, contudo, faltar-lhes o devido respeito. Mas que, em contrapartida, mantenhamos puro o culto que prestamos a Deus, sem nos apropriar indevidamente de qualquer um desses elementos, nem para o mal, nem para o bem. O sincretismo atenta contra a pureza do culto prestado. Isso vale para os cultos judaico, nórdico, indígena e, obviamente, africanos. 

Chega a ser um desrespeito a maneira como algumas igrejas se apropriam indevidamente de elementos pertencentes a outros credos. Um desrespeito à nossa própria fé e à fé alheia. Refiro-me a elementos estritamente cultuais, e não os culturais de modo geral. Não precisamos nos privar da boa música, da comida e de costumes inofensivos que já foram absorvidos pela nossa cultura. O que seria da música popular brasileira sem a contribuição da cultura africana? 

Devemos a ela o nosso samba, a bossa nova, o axé, e tantos outros ritmos que embalam nossas festas e enchem nossos corações de alegria. Aliás, a maior parte da música do ocidente tem os dois pés no continente africano: o blues, o rhythm and blues, o jazz, o rock’n roll, o rap, o funk, o soul e o gospel.

Viva a cultura negra! Muito de sua mitologia encerra importantes arquétipos que revelam a natureza humana em toda a sua ambiguidade. Não os reconhecemos como deuses, mas também não os chamamos de demônios. Demônios são os que se escondem por trás de todo engano, ódio e preconceito, ainda que para isso se façam passar até por Jesus Cristo.

Ubuntu

Ubuntu [4] é uma filosofia de origem africana que expressa a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade. Trata-se de um conceito amplo sobre a essência do ser humano e a maneira como deve se comportar em sociedade. Este conceito foi uma importante ferramenta na luta contra o regime Apartheid na África do Sul. Nelson Mandela inspirou-se nele para conduzir a política de reconciliação nacional, que uniu várias etnias em torno de um projeto que visava transformar aquele país num exemplo de superação de conflitos étnicos. De acordo com o manifesto do movimento criado por Mandela em 1944, “o africano quer o universo como um todo orgânico que tende à harmonia e no qual as partes individuais existem somente como aspectos da unidade universal.”[5]

De acordo com o arcebispo anglicano Desmond Tutu, autor de uma teologia ubuntu “a minha humanidade está inextricavelmente ligada à sua humanidade.”[6] Em seu livro "No Future Without Forgiveness" (em português: "Sem perdão não há futuro"), Tutu explica: “Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível para as outras, apoia as outras, não se sente ameaçada quando outras pessoas são capazes e boas, com base em uma autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas.”[7] Tudo isso, porque, “uma pessoa é uma pessoa por intermédio de outras pessoas”[8]. O ser humano solitário é uma contradição. Diferente da lógica cartesiana que tem conduzido o Ocidente por séculos, em vez de “penso, logo existo”, a filosofia africana Ubuntu diz: “Existo porque pertenço.” Ubuntu, portanto, implica compaixão, comunhão e abertura de espírito ao outro, opondo-se ao narcisismo e ao individualismo tão predominante nas sociedades ocidentais.

A educadora sul-africana Dalene Swanson, professora da University of British Columbia, em Vancouver, Canadá, fala o seguinte a respeito do ubuntu:
“Diferentemente da filosofia ocidental derivada do racionalismo iluminista, o ubuntu não coloca o indivíduo no centro de uma concepção do ser humano. Este é todo o sentido do ubuntu e do humanismo africano. A pessoa só é humana por meio de sua pertença a um coletivo humano; a humanidade de uma pessoa é definida por meio de sua humanidade para com os outros: (…) o valor de sua humanidade está diretamente relacionado à forma como ela apoia ativamente a humanidade e a dignidade dos outros; a humanidade de uma pessoa é definida por seu compromisso ético com sua irmã e seu irmão.”[9] 
Há uma história que circula na internet atribuída a filosofa e jornalista Lia Diskin, que teria sido contada durante o Festival Mundial da Paz ocorrido em Florianópolis em 2006, e que exemplifica eloquentemente o sentido da filosofia Ubuntu:
“Um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Como tinha muito tempo ainda até o embarque, ele então propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva. Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí, ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro. As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", imediatamente, todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e os comerem felizes. O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou por que elas tinham ido todas juntas, se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?" Ele ficou pasmo. Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo...” 
Como é difícil para alguém acostumado ao espírito competitivo que rege as culturas consideradas mais avançadas do mundo, pelo menos do ponto de vista econômico, entender este tipo de comportamento baseado na cooperação, em que ninguém precisa perder para que outro ganhe. Segundo o espírito de Ubuntu, as pessoas não devem buscar levar vantagem pessoal em detrimento do bem-estar do grupo. A felicidade de um não pode custar a infelicidade dos demais. Para que uma pessoa seja plenamente feliz será preciso que todas do grupo se sintam igualmente felizes. E não é isso que dizem as Escrituras? O apóstolo João afirma que nossa alegria só será completa num ambiente de comunhão, onde a alegria de um completa a alegria do outro.[10] Ninguém é feliz sozinho. Por isso, Paulo não se incomodou em suplicar: “Completem a minha alegria, tendo o mesmo sentimento, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.”[11] 

Estamos conectados uns com os outros e essa relação estende-se aos que vieram antes de nós e aos que ainda hão de nascer. Fomos convidados por Jesus a tomar assento à mesa do reino de Deus, ao lado de Abraão, Isaque e Jacó e de toda a sua descendência espiritual. Formamos todos uma única família, a família humana, reconciliados com Deus e uns com os outros por meio de Seu Filho Jesus Cristo. Vemos, então, que o legado que recebemos dos povos africanos vai muito além da música, da comida, das crenças, do folclore. Fomos agraciados com conceitos desta envergadura, capazes de demolir estruturas injustas como a do Apartheid.




[1] Bordão típico usado no neopentecostalismo que significa a neutralização de qualquer investida por parte de entidades demoníacas.
[2]Porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada” (1 Timóteo 4:4-5).
[3] João 4:24
[4] Ubuntu é uma noção existente nas línguas zulu e xhosa - línguas bantu do grupo ngúni, faladas pelos povos da África Subsaariana.
[5] Nelson Mandela and the Rainbow of Culture, Anders Hallengren, Nobelprize.org, site oficial do Prêmio Nobel.
[6] All you need is ubuntu (28 de setembro de 2006).
[7] TUTU, Desmond. No future without forgiveness, New York: Image Books, 2000.
[8] TUTU, Desmond, Deus não é cristão, Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2012, pg. 41
[9] Fonte: site “Ensinar História” de Joelza Esther Domingues. http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/ubuntu-o-que-a-africa-tem-a-nos-ensinar/
[10] 1 João 1:3-4 – “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco (...) Estas coisas vos escrevemos, para que a vossa alegria seja completa.”
[11] Filipenses 2:2

quinta-feira, abril 28, 2016

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E quem merece ser estuprada?



Por Hermes C. Fernandes

Em pleno século XXI, uma pesquisa divulgada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revela que a maioria da população brasileira atribui à maneira como as mulheres se vestem a culpa por serem estupradas.

Segundo dados colhidos na pesquisa, se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros. O instituto entrevistou 3.810 pessoas, sendo 66,5% mulheres. Portanto, não se trata de uma opinião predominantemente masculina. Cerca de 65% dos entrevistados concordaram com a afirmação que dizia que a mulher que usa roupas que mostram o corpo merece ser atacada.

A divulgação da pesquisa teve repercussão imediata, principalmente nas redes sociais. À época, páginas foram criadas convocando as mulheres para protestarem. Muitas posaram nuas, cobrindo os seios com placas que diziam "Eu não mereço ser estuprada".

Apesar dos inúmeros protestos, o segmento evangélico se manteve indiferente ao clamor popular com raríssimas exceções. Seu silêncio parece indicar seu apoio à constatação da pesquisa. Alguns  chegam a declarar que se ao menos as mulheres se vestissem como as evangélicas, de maneira modesta e decente, o número de estupros seria drasticamente reduzido. Deparei-me até com a pregação de um pastor bem celebrado entre pentecostais e reformados questionando a salvação de moças que se vestem, em suas próprias palavras, "como prostitutas" (aqui).

Foram declarações como estas foram o estopim de deflagrou a onda de protestos no Canadá  em 2011 que tornou-se conhecida como Marcha das Vadias e se espalhou pelo mundo afora.

Será que as Escrituras têm algo a dizer sobre isso? A culpa do estupro deve recair sobre a mulher?

Há uma passagem que relata o encontro de Deus com o Seu povo através de uma interessante alegoria. Confira:
"E, passando eu junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; e estendi sobre ti a aba do meu manto, e cobri a tua nudez; e dei-te juramento, e entrei em aliança contigo, diz o Senhor DEUS, e tu ficaste sendo minha. Então te lavei com água, e te enxuguei do teu sangue, e te ungi com óleo. E te vesti com roupas bordadas, e te calcei com pele de texugo, e te cingi com linho fino, e te cobri de seda. E te enfeitei com adornos, e te pus braceletes nas mãos e um colar ao redor do teu pescoço. E te pus um pendente na testa, e brincos nas orelhas, e uma coroa de glória na cabeça. E assim foste ornada de ouro e prata, e o teu vestido foi de linho fino, e de seda e de bordados; nutriste-te de flor de farinha, e mel e azeite; e foste formosa em extremo, e foste próspera, até chegares a realeza." Ezequiel 16:8-13
O texto indica que além de estar completamente nua, ela parecia se insinuar, daí a expressão "tempo de amores".  Mas o que Deus faz? Como gentleman que é, Ele se aproxima, estende sobre ela o seu manto, cobre sua nudez, e pede-a em casamento. Deus a trata como uma dama. Restitui sua dignidade. Cobre-a de presentes caros. Para só então, conhecê-la como sua mulher.
Qualquer outro a encontrasse naquele estado se aproveitaria. E se ela demonstrasse estar a fim, não seria tecnicamente um estupro.

Creio ser este o padrão que deveria ser seguido pela sociedade em geral. A mulher deve ser valorizada. Tratada como alguém especial, e não como algo prestes a ser usado e depois descartado.

Não se pode exigir que as mulheres se vistam hoje como antigamente. Os tempos são outros. As mulheres conquistaram sua autonomia. Por isso, além de amadas, devem ser respeitadas. E o respeito que merecem nada tem a ver com o comprimento de suas saias, nem com a cavidade do decote, nem com a transparência de suas roupas, ou com a sua maquiagem.

Devemos ir além da literalidade do texto. "Cobrir a nudez" significa atribuir-lhe dignidade. A pior nudez não é a ausência de roupas ou mesmo o uso de roupas sumárias. A pior nudez é a privação da honra e o não reconhecimento de seu valor.

Portanto, quem deve ser culpado por um estupro, senão o próprio estuprador? Quando tomado por sua obsessão, o estuprador não respeita nem o hábito de uma freira. Aliás, quanto mais roupa cobrir o corpo da mulher, mais perversa será a imaginação do tarado.

Tratemos as mulheres como Cristo as trataria, independente da censura que sociedade lhes impõe. Mesmo beijado ostensivamente por uma mulher considera de vida fácil, Jesus não se aproveitou dela, antes, saiu em sua defesa, contrariando até alguns de seus discípulos.

quarta-feira, abril 27, 2016

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Entre beijos, torturas e cuspidas







Por Hermes C. Fernandes

Imagine a cena: Jesus está sob tortura cruel do estado romano. Com as costas em carne viva, o pouco que restou de sua barba arrancada violentamente pela mão de algum soldado, está banhado com o sangue que jorra sem parar de sua fronte perfurada pela coroa de espinhos. A imagem é grotesca.

Enquanto, aos gritos, recebe os golpes do martelo que o prega numa rústica cruz de madeira, alguns de seus discípulos distraídos comentam a crueldade de Pedro ao desembainhar sua espada e decepar a orelha de um soldado enviado pelo sinédrio para prender seu mestre. Surreal, não? 

Como comparar a violência promovida por um estado repressor com a reação exacerbada de quem sai em defesa de quem ama ou mesmo de um ideal? Obviamente que Jesus não deixou passar em branco. Repreendeu severamente a seu fiel discípulo. "Guarda tua espada, Pedro. Quem com ferro fere, com ferro será ferido".  Tal admoestação ainda ecoa no imaginário popular vinte século depois. 

Todavia, o assunto morreu ali. Não foi alvo de comentários nem dos discípulos, nem dos demais judeus. Não há uma menção sequer nas epístolas. E não foi porque Jesus colocou de volta a orelha decepada, e sim porque o fato isolado foi ofuscado pelo suplício do Filho de Deus. 

Precisamos aprender a enxergar as coisas em perspectiva, para não sermos injustos e precipitados em emitir qualquer juízo.

O cuspe dado deputado Jean Wyllys foi uma reação extremada ao posicionamento injustificável de quem defende o que há de mais vil e desumano: a tortura. Ele não só cuspiu, mas também foi cuspido de volta pelo herdeiro de Bolsonaro, numa clara reação em defesa do pai. Já o caso envolvendo o ator global José de Abreu, até onde me consta, não passou de uma troca de insultos, porém dentro do mesmo contexto de nervos à flor da pele devido ao momento político vivido pelo país.

Nenhuma violência é justificada, nem por parte do estado (a menos que seja para evitar uma violência maior), nem por parte dos que são injustamente submetidos a ela. Apesar disso, podemos, ao menos, buscar compreender a razão. Ânimos acirrados. Egos insuflados. Injustiças perpetradas por quem deveria combatê-las. Insultos gratuitos. Tudo isso nos torna numa panela de pressão prestes a explodir. 

De nada adianta apelar à violência. Posso até compreender quem, por um momento, perdeu a estribeira, mas jamais poderia encorajá-lo a agir de maneira impensada. Somente a paz, sob o patrocínio do amor, interrompe o ciclo do ódio.

Antes de sair por aí cuspindo em quem te xinga, lembre-se de que Jesus também foi cuspido, antes de ser espancado até os limites de suas forças. Porém, não revidou. Pelo contrário, morreu suplicando ao Pai que perdoasse os que não tinham noção do que faziam. 

Apesar disso, devo asseverar que um cuspe sincero ainda é menos ultrajante que um beijo de falsidade. Jesus que o diga. O beijo de Judas certamente lhe doeu bem mais que os cuspes dos soldados romanos.

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P.S. Houve duas ocasiões em que Jesus usou Sua saliva para curar. Numa das vezes, Ele cuspiu no chão, misturou sua saliva ao barro, fez lodo e o aplicou aos olhos de um cego, restaurando-lhe a visão. Da outra vez, ele cuspiu diretamente na língua de um mudo e surdo, aplicou a saliva também em seus ouvidos e restaurou-lhe a habilidade de comunicar. Nos dois casos, o cuspe de Cristo teve o objetivo de resgatar indivíduos de sua alienação, fazendo-os enxergar a realidade, e interagir nela através de uma comunicação de mão-dupla. Não vale a pena gastar saliva para insultar ou revidar insultos. Se for para gastar nossa saliva, façamos para espalhar amor e justiça, para abrir os olhos dos que não percebem o que se está configurando no mundo, e desobstruir os canais de comunicação entre os homens, entupidos pela ganância, pelo ódio e pelo preconceito.

segunda-feira, abril 25, 2016

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O Cristo Patrono de Torturadores e Espertalhões



Por Hermes C. Fernandes

Nasceu no Palácio de Herodes em Jerusalém, centro do poder judaico. Veio para o que era seu, e os seus o receberam, e com muitas pompas! 

Aos doze anos já discutia novas rotas comerciais e estratégias de conquista com os conselheiros reais. Seu primeiro milagre aconteceu num pomposo casamento na realeza. Transformou a água em suco de caju, não por haver faltado bebida na festa, mas apenas para dar uma gorjeta do seu poder. Poderia tê-la transformada em vinho, vodca, ou até Whisky, se quisesse. Mas preferiu não escandalizar a ala mais conservadora e fundamentalista dos religiosos.

Aos 30 anos, foi batizado na piscina da cobertura do palácio, por um dos profetas-gurus badalados da época. Enquanto descia às águas, viu-se uma águia, símbolo de conquista, sobrevoar sua cabeça, e uma voz que bradou de algum lugar: Este é o cara! Vai e arrasa!

Saiu dali e foi para uma região praiana tirar quarenta dias de férias antecipadas. Não precisou ser tentado em nada, pois nunca se negou bem algum. Transformou pedras em pizza, só para se divertir. E ainda fez malabarismo no pináculo do templo, para tirar uma onda com os sacerdotes. No final das férias, subiu num monte bem alto, avistou os reinos deste mundo e disse para si mesmo: Tudo isso me darei!

Quando abordado por algum gentio, do tipo daquele centurião que tinha um servo enfermo, dizia-lhe: Dá um tempo! Não vim para vocês, seus impuros, idólatras e ignorantes. E mais: Nunca vi tanta petulância! Onde já se viu? Pedir por um serviçal! Além de gentio, é burro!

Ao deparar-se com um cobrador de impostos desonesto, que subira numa árvore só para lhe ver, disse-lhe: Como é que é, meu irmão, vamos ou não vamos dividir esta grana? Desce logo, que tô com pressa! E manda preparar a banheira com sais minerais do Mar Morto, porque hoje vou me hospedar na suíte de sua casa.

Ao ser tocado por uma mulher hemorrágica, esbravejou: Tira essa louca daqui! Não sabe que a Lei proíbe qualquer aproximação de uma pessoa em seu estado? Imunda!

Por onde passava, seus discípulos estendiam um cordão de isolamento, para que leprosos, morféticos, cegos, endemoninhados, e todo tipo de gente asquerosa não ousassem se aproximar do rei da cocada preta.

Diferente era o trato que dispensava aos fariseus e religiosos da época. 

Em sua versão da parábola do bom samaritano, quem socorria o moribundo era o sacerdote, que sem hesitar, tentava extorquir-lhe uma gratificação. O samaritano era o assaltante, que negou-se a dividir a grana com o levita. 

- Venham a mim, todos os que querem alguma vantagem da religião. Vocês serão cabeça e não cauda. Comerão o melhor da terra! Unam-se a mim, e lhes farei milionários. Aprendam comigo, que sou malandro e esperto de coração. Espertos são os que riem da desgraça alheia. Espertos são os que gostam de ver o circo pegar fogo. Espertos são os que têm fome e sede de sucesso. Eu saciarei seu ego!

Quando procurado por um jovem rico, disse-lhe, sem o menor pudor: Topa uma sociedade? Vai ter um lugar especial no meu reino, garoto...

E quando entrou em Jerusalém montado naquele exuberante corcel branco 0 km? Foi tremendo! Não teve pra ninguém!

No episódio em que queriam executar uma mulher flagrada em adultério, ele foi o que lançou a primeira pedra. Sua política com os pecadores era de tolerância zero. Chegou até a dizer: Tortura quero, não misericórdia! Pecador bom, é pecador morto! E se alguém quiser se compadecer, leva pra casa!

Ao visitar o templo, não disfarçou o orgulho com o que viu ali. Fez questão de sair de mesa em mesa recolhendo a décima parte do que fora obtido com o lucro das vendas dos animais para o sacrifício e o ágio cobrado no câmbio. Criticava duramente os publicanos, as prostitutas, os homossexuais, mas com os fariseus e religiosos sobravam elogios.  

Uma vez entrou num prostíbulo clandestino munido de chicote. Achavam até que ele curtia uma onda sadomasoquista. Mas ele saiu expulsando prostitutas e cafetões aos gritos: Seus porcos! Ousam transformar minha zona numa casa de mãe Joana!

Cruz? Que cruz? Tá doido? Cruz é pra gente como Jesus, aquele nazareno nascido numa manjedoura. Dizia frequentemente: Eu vim para ter vida, e vida com abundância. Quem quiser vir após mim, passa tudo o que tem pra minha conta, e me siga. Ou tudo ou nada! Ou dá ou desce!

Revolucionário? Que nada! Graças a um conchavo político feito às escuras com o Império Romano, garantiu para si a sucessão de Herodes.

Ao descobrir que um dos seus asseclas o estava traindo, sem dó nem piedade, mandou enforcá-lo. Quem ousou negá-lo teve sua língua decepada. 

Ao morrer, farto de dias, confiou seu legado a um grupo de discípulos seletos, que juraram que sua mensagem jamais seria esquecida, e que ao longo dos séculos, sempre haveria quem a promovesse em sua própria geração. Partiu ordenando que cada um dos seus discípulos lhe beijasse os pés, em sinal de submissão. E que aprendessem a se servir uns dos outros, e se aproveitarem dos poderes constituídos, sem jamais criticá-los ou censurá-los.

Promessa feita, promessa cumprida.

Basta ligar a TV, o rádio, ou mesmo acessar a internet, para se dar conta de quantos dos seus discípulos ainda dão eco à sua voz. Alguns deles se reuniram e formaram bancadas parlamentares com o único intuito de expandir a mensagem de desamor de seu mestre.

domingo, abril 24, 2016

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Há bases bíblicas para o feminismo?





"Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância."
Simone De Beauvoir

Por Hermes C. Fernandes

Se dependesse de alguns, ainda estaríamos vivendo nos moldes da era vitoriana. É muito fácil pagar uma de defensor da família tradicional, paladino da moral e dos bons costumes, e com isso, detonar qualquer movimento social que não caiba nesta moldura. E é assim que se critica as feministas, como se estas fossem as principais responsáveis pela deterioração da família. Já li e ouvi de alguns líderes religiosos que o número crescente de homossexuais se deve ao fato das mulheres terem deixado seus afazeres domésticos e o seu papel de mãe para se dedicarem a uma carreira profissional. Não precisa ser nenhum sociólogo ou psicólogo para perceber a desfaçatez desta alegação. 

Creio, sem medo de errar, que as sementes que fizeram eclodir o movimento feminista estão todas espalhadas ao longo das páginas da Bíblia Sagrada. Nem a forte misoginia das culturas antigas conseguiu cimentar o solo onde estas “sementes de mostarda” foram deliberadamente depositadas. Daí encontrarmos figuras como Sara, a quem Deus ordenou que Abraão desse ouvidos. Rebeca que participou ativamente da conspiração para transferir a bênção de Esaú para Jacó. Raquel que era pastora de ovelhas, atividade então restrita aos homens. Débora, juíza em Israel, numa época em que os juízes governavam no lugar de monarcas. Poderíamos citar inúmeros exemplos (se veio atrás de versos bíblicos, perdeu sem tempo. Vou deixar para outra ocasião). Ademais, ninguém valorizou mais as mulheres do que Jesus, a ponto de aceitá-las como discípulas, o que nem os filósofos gregos com toda a sua genialidade aceitaram.

Mas gostaria de destacar uma mulher com a qual costumamos ser injustos: Vasti. Quando seu marido, rei Assuero, resolveu dar um banquete em seu palácio, Vasti, sua esposa, não deixou por menos, e promoveu também seu próprio banquete. Ao ser convocada para deixar tudo e atender a Assuero que pretendia ostentá-la diante dos convidados devido à sua exuberante beleza, Vasti simplesmente se negou a atender. Aquela era uma mulher à frente de seu tempo, que não queria ser vista como um objeto decorativo, mas um ser humano portador de dignidade intrínseca, que sabia pensar por si, que tinha sentimentos, vontade própria, e como qualquer outra mulher, não merecia ser subestimada. Sentindo-se constrangido diante dos convidados, Assuero, orientado por seus conselheiros, resolveu destituí-la, deixando vago o seu trono.

Foi Ester, uma linda jovem judia que venceu o concurso de beleza que visava substituir a rainha rebelde. Quero crer que todos conheçam esta história, e os que porventura não a conhecerem, sugiro que pesquisem. É uma das mais lindas histórias de empoderamento feminino registradas nas Escrituras Sagradas. Ester era bem mais do que um rostinho lindo, um corpo escultural. Graças a ela, seu povo não sofreu um verdadeiro genocídio. Foi sua atuação junto ao rei que impediu que um homem chamado Hamã lograsse êxito em seu intento de extinguir os judeus que viviam na Pérsia. Como o decreto já havia sido estabelecido, o rei não pôde revogá-lo. Mas deu aos judeus o direito de se defenderem do ataque opressor patrocinado pelo próprio estado. Até hoje os judeus celebram o Purim, festa alusiva àquele episódio de sua história. Naquele dia, eles puderam se defender de um estado opressor, fazendo uso de qualquer recurso que estivesse às mãos, inclusive lanças e espadas. Mas jamais foram chamados de terroristas por isso. 

Se pensarmos bem, a ousadia de Ester se deveu ao caminho deixado aberto por Vasti. Mesmo que discordemos de sua antecessora em sua petulância, que a enxerguemos como uma quase vilã (o que não é verdade!), sem ela, Ester não teria encontrado a mesma facilidade para fazer o que fez. Ester simplesmente rompeu com todos os protocolos, arriscou  a própria pele para salvar o seu povo.

Vejo hoje uma geração de mulheres desfrutando de direitos que foram conquistados lá trás graças ao atrevimento de muitas Vastis. É fácil criticar aquela geração de mulheres que saiu às ruas fazendo fogueira com seus sutiãs. Mas se não fosse por elas, talvez ainda hoje as mulheres não usufruíssem do direito ao voto. A maioria teria que se contentar com os adjetivos de bela, recatada e do lar. 

Em momento algum flagramos Ester desdenhando de Vasti. Deveríamos, portanto, seguir seu exemplo, e valorizar quem lutou em muitos movimentos sociais, não apenas as feministas, para que vivêssemos numa sociedade mais justa e igualitária. Não fossem por esses, quiçá ainda convivêssemos com a vergonha da escravidão. Talvez não tivéssemos o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto do Idoso, a Lei Maria da Penha, etc.

Eu, particularmente, acredito que ainda haja muita coisa para mudar até que tenhamos uma sociedade mais justa e equilibrada. Por isso, prefiro colocar-me ao lado dos que lutam por direitos, e não dos que preferem que tudo permaneça do jeito que sempre foi. A única coisa que pretendo conservar é meu idealismo, sem o qual, corro o risco de ser cortejado pelo cinismo e pela hipocrisia.

Se depender de mim, farei coro com quem peita o sistema, esperançoso de que minhas filhas viverão num mundo mais belo, bom e justo do que viveram suas avós. Se quiserem ser dondocas, que sejam. Pelos terão escolhido isso por conta própria e não por alguém lhes impor tal padrão. 

quinta-feira, abril 21, 2016

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Bela, decidida e livre! A face desconhecida de Maria, a Mãe Subversiva de Jesus



Por Hermes C. Fernandes


Havia um ditado em sua época que dizia que não basta ser mulher de César, tem que parecer mulher de César. Dois mil anos se passaram, e ainda perpetuamos um modelo que impõe à mulher um padrão estético, comportamental e social. Este modelo pode ser claramente visto nos adjetivos apontados pela revista Veja na esposa do homem que almeja ocupar a cadeira mais importante do país. O problema não são as "virtudes" em si, mas a maneira sutil como se busca impor tal padrão, contrastando-o com o perfil da atual e quase deposta presidente da república.
Deixando de lado a "mulher de César", sugiro que busquemos noutra mulher, aquela que nos gerou o Filho de Deus. Quem a imagina como uma mulher bela, recatada e do lar prova não conhecê-la suficientemente.
Repare em sua inspirada oração, e tente imaginá-lo nos lábios de uma dondoca:
"A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; porque atentou na condição humilde de sua serva; desde agora, pois, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas; e santo é o seu nome. E a sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem. Com o seu braço agiu valorosamente; dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos. Auxiliou a Israel seu servo, recordando-se da sua misericórdia; como falou a nossos pais, para com Abraão e a sua descendência, para sempre." Lucas 1:46-55
Embora tivesse "sangue azul" por pertencer à dinastia de Davi, Maria viveu na simplicidade e no anonimato, casada com um operário braçal. O trono antes ocupado por seus ancestrais, agora era ocupado por um rei fantoche, marionete do império romano, cujo nome era Herodes. Seu povo vivia sob a tirania imperial. Maria era virgem, mas não ingênua. Humilde, mas não idiota. Santa, não alienada. Discreta, mas nada recatada.
A imagem que construiu-se de Maria não faz jus à sua postura subversiva expressada neste cântico. A jovem desposada com José era uma adolescente questionadora, com um espírito rebelde e revolucionário. Sua alma anelava por mudanças. Ao receber o anúncio trazido por Gabriel, ela soube que o ente gerado em seu ventre era a resposta aos seus anelos, bem como aos anseios do seu povo.
Como que vislumbrando o futuro, Maria declarou profeticamente que Deus havia deposto os poderosos do trono, e elevado os humildes. Ela fala como alguém que vivia além do seu próprio tempo. Era como se fosse uma visitante proveniente do futuro. Para ela, tais fatos não aconteceriam um dia, mas já teriam acontecido. Deus já teria enchido de bens os famintos, e despedido vazios os ricos. Se isso não é uma revolução social, o que é, então? Os defensores do status quo preferem espiritualizar passagens como esta, para que se encaixem em sua agenda ideológica e política. Porém, a jovem Maria não está falando de coisas estritamente espirituais, mas concretas, abrangendo a realidade sócio-econômica, política e cultural.
O nascimento de Jesus anunciava que a linearidade do tempo havia sido subvertida, de modo que o futuro invadira o presente. Aquele que Se apresenta como o Princípio e o Fim, agora vive em nosso meio. A ordem predominante teria que ser colapsada para dar vazão ao Reino de Deus. A revolução há muito esperada fora deflagrada, e aquele seria, definitivamente, um caminho sem volta. Nunca mais o mundo seria como antes.
Como todo subversivo que ameaça o establishment, Maria amargou o exílio ao lado de seu filho e esposo no Egito, onde viveram na clandestinidade até o momento designado por Deus.
Pelo cântico que compôs, dá para inferir quê valores Maria teria transmitido ao seu Filho.
Com o tempo, o cristianismo deixou sua marginalidade essencial para tornar-se em religião oficial. Maria deixou de ser vista como subversiva, para tornar-se numa espécia de padroeira do status quo. Domesticaram a mãe do Salvador. Desproveram-na de sua rebeldia. Tornaram-na inofensiva. O mesmo fizeram com a igreja cristã, que deu as costas aos pobres, humildes e oprimidos, para aliar-se aos poderosos.
Se quisermos ver as profecias de Maria cumpridas, temos que dar meia-volta, trair nossos laços com os interesses econômicos e políticos, e abraçar nossa vocação subversiva. Se Maria estava certa, e de fato, anteviu o futuro, isso eventualmente acontecerá. E quando ocorrer, o Natal passará a ser celebrado como uma data revolucionária, como é a celebração da revolução francesa ou da inconfidência mineira.