quinta-feira, outubro 23, 2014

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Com o futuro não se brinca! Vote com seriedade



Por Hermes C. Fernandes

Mais uma eleição se avizinha e duas opiniões antagônicas e radicais têm sido adotadas por muitos cristãos. Dois extremos que precisam ser evitados para que a igreja não caia no fosso entre a alienação e o comprometimento.

De um lado estão os que se envolvem no processo, apoiando candidatos indicados pela liderança da igreja. Qualquer que ouse questionar é reputado por rebelde.

Do outro lado estão os que defendem o distanciamento da igreja do processo político eleitoral.

Há que se buscar o ponto de equilíbrio. A igreja, enquanto instituição, deve manter-se isenta, permitindo que seus membros exerçam cabalmente sua cidadania. Porém isso não lhe tira a responsabilidade de orientá-los quanto ao uso consciente do direito de votar.

Não confundamos isenção com alienação, nem engajamento com comprometimento.

Uma igreja pode engajar-se no processo de conscientização, desempenhando o papel de agente politizador. Mas jamais deve comprometer-se com qualquer que seja a ideologia, partido ou candidatura, sob pena do prejuízo de seu papel profético.

Cada membro deve ser estimulado a pensar por si mesmo, e fazer suas próprias escolhas. Portanto, a função da igreja é pedagógica, não ideológica.

A despeito disso, um número cada vez mais expressivo de cristãos tem se engajado em campanhas políticas. Uns até movidos por ideais (ainda que ingenuamente), outros por interesses pessoais.

Aproveitando-se disso, candidatos ávidos pelos votos dos fiéis assediam sistematicamente as igrejas durante a época de eleições.

O que para alguns líderes pode ser traduzido como provisão de Deus em tempo de crise, para outros menos ingênuos, tal assédio revela o caráter oportunista e desonesto de nossa classe política, e por isso, deve ser rechaçado.

Para fazer a ponte entre pastores e políticos surge a figura do pulpiteiro, geralmente alguém pertencente ao meio evangélico ou egresso dele, e que domina o evangeliquês. Num País de 46 milhões de evangélicos, o pulpiteiro pode pesar mais para uma candidatura do que o marketeiro profissional.

Mesmo alguns líderes tidos como referência ética no meio, acabam cedendo ao assédio do pulpiteiro. A lógica é simples: se a maioria se beneficia disso, por que ficar de fora? Que mal haveria em aceitar uma oferta generosa para apoiar publicamente um candidato?

Ademais, parece mais simples (e conveniente) apontar um candidato, do que ensinar o povo a votar com consciência.

Não é debalde que durante esta época muitas igrejas concluem suas obras, adquirem equipamento novo de som, ou aquela tão sonhada propriedade para a construção do novo templo. É também nesta época que muitos líderes eclesiásticos desfilam de carro novo, ou anunciam à igreja que depois de tanto tempo de trabalho ininterruptos, finalmente sairá em férias com a família logo após os festejos de fim de ano.

O que está em jogo, afinal?

Não é apenas a postura ética que escorre pelo ralo da conveniência. Um candidato capaz de oferecer propina (este é o nome correto) em troca de votos, do que será capaz depois de eleito?

E mais: de onde ele consegue tanto dinheiro para bancar esta compra de votos no atacado? Que grupos estariam por trás de sua candidatura? Que interesses têm?

Portanto, líderes que se rendem (ou se vendem) às propostas destes políticos estão cometendo traição. Traem seu povo, sua consciência, seus votos ministeriais, e o pior, seu Deus.

Deveriam ler atentamente a advertência proferida pelos lábios do profeta Isaías:
“Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes. Não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas.” Isaías 1:23
Está na hora de darmos um basta nesta famigerada prática. Púlpito não é palanque, e igreja não é curral eleitoral, mas aprisco das ovelhas de Cristo.

Pastores, preparem-se para prestar contas ao dono da Igreja. Deus não os terá por inocentes. Portanto, “apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente, não por torpe ganância, mas de boa vontade, não como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando se manifestar o sumo Pastor, recebereis a imarcescível coroa de glória” (1 Pe. 5:2-4).

Embora reconheçamos a postura antiética e vexatória de muitos líderes no que tange à política, não podemos nos afastar do processo político, mas nos engajar no afã de produzir entre as ovelhas de Cristo uma consciência política sadia e honrosa.

Cidadania celestial e cidadania terrena não são necessariamente excludentes. Como cristãos comprometidos com o futuro da humanidade, precisamos encarnar os valores e princípios do reino de Deus e expressá-los através de nossa conduta no processo político/eleitoral.

Movido exclusivamente por este interesse, resolvemos assumir a responsabilidade pela produção de uma pequena cartilha para os cristãos. Chamamo-la de Cartilha Reinista pelo Voto Consciente, pois não está vinculado a qualquer denominação, e sim aos ideais do Reino de Deus e a sua justiça.


Click aqui para conhecer a cartilha

terça-feira, outubro 21, 2014

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Amor sem proselitismo e outras intenções



Por Hermes C. Fernandes

Deus não nos enviou ao mundo para convertê-lo, mas para amá-lo. Conversão são outros quinhentos  e não cabe a nenhum de nós. Achar-se capaz de converter o mundo beira à presunção.

O amor deve ser totalmente despretensioso, entregando-se voluntariamente sem esperar resultado algum. De modo que, se não formos correspondidos, isso não nos afetará. Nem mesmo a ingratidão nos fará desistir de amar. O alvo supremo do amor sempre é o bem de quem se ama.  

Qualquer coisa que se faz na expectativa de algum retorno não é amor, mas barganha, e, portanto, contrário ao espírito do evangelho.

Muitas igrejas têm promovido trabalhos sociais dignos de louvor. Todavia, o índice de frustração é muito grande, pois os mesmos não vêm acompanhados de resultados considerados satisfatórios.

A meu ver, precisamos rever nossos paradigmas.

Aproveitar a dor alheia para empurrar nossa visão religiosa não é evangelismo, mas proselitismo, do tipo adotado pelos fariseus; em vez de alívio, agrava o sofrimento, tornando-o insuportável. Jesus os advertiu, dizendo:Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt. 23:15).

Nosso modelo de evangelização ainda está atrelado à visão colonialista europeia. Nossa abordagem está contaminada pela presunção de que temos algo que os outros não têm. Somos os civilizados, e eles, os selvagens. Somos os cristãos, e eles, os pagãos. Temos Cristo, eles não.

Oferecemos ajuda humanitária como uma moeda de troca, exatamente como os espanhóis e portugueses faziam com os índios ao oferecer-lhes bugigangas tais como espelhos e pentes.

É claro que almejamos compartilhar Cristo ao maior número possível de pessoas. Todavia, antes disso, devemos compartilhar nossa própria alma de maneira despretensiosa (1 Ts.2:8).  

Por conta do forte proselitismo de algumas igrejas e instituições cristãs, as pessoas já estão escaldadas. Qualquer aproximação é vista com suspeita. Nossas obras sociais e humanitárias se tornaram a isca que camufla o anzol.

Jesus disse que faria de Pedro e André pescadores de homens. Todavia, o tipo de pesca que eles faziam era com rede e não com vara. Portanto, dispensava o uso de iscas.

Será que a intenção de Jesus ao multiplicar aqueles pães e peixes era meramente proselitista? Então, por que não houve um “apelo evangelístico” após alimentar a multidão?

E quando a igreja em Jerusalém resolveu assumir os cuidados das viúvas da comunidade, elegendo diáconos para dedicar-se a esse “importante negócio”, havia alguma intenção “evangelística”? Ou teriam sido movidos exclusivamente por amor?

Alguns poderão contestar dizendo: Se amamos as pessoas, queremos vê-las salvas. Concordo! Mas não me parece ético se aproveitar de uma necessidade material ou emocional para apresentar o evangelho. Seria mais ou menos como um político cheio de boas intenções oferecendo dentaduras e botijões de gás para quem lhe der o voto.

Repito: precisamos rever nossos paradigmas.

Quero propor aqui uma abordagem diferente.  Em vez de presumir que levaremos Deus a eles, nossa visão será a de buscar Deus neles.

Haveria algum embasamento bíblico para isso?

Jesus disse que no último dia seríamos julgados pelo bem que houvéssemos feito a Ele próprio, isto é, pela comida com que O alimentamos, a roupa com que cobrimos Sua nudez, a visita que Lhe fizemos na cadeia, etc. E quando perguntássemos quando tais coisas teriam ocorrido, Ele responderia: Quando fizeram a um dos meus pequeninos.

Engana-se quem pensa encontrar Cristo na suntuosidade das catedrais. Ele está à nossa espera sob as marquises e pontes dos grandes centros urbanos, nas cadeias superlotadas, nos lixões e bolsões de miséria.

Em outras palavras, aquele gente sofrida tem muito mais a nos oferecer do que nós a ela. Seu sorriso é o sorriso de Cristo. Abraçá-la é sentir o calor dos braços d’Aquele a quem servimos.

Antes de querer convertê-los a Cristo, devemos descer de nosso pedestal religioso e converter-nos a eles. E quando, finalmente, buscarmos Deus neles, eles O encontrarão em nós. 

O tipo de amor que devemos dispensar-lhes é aquele esboçado por Paulo ao declarar: “Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2 Coríntios 12:15).

Não espere resultados! Apenas, ame. Gaste-se. Doe-se. Entregue-se por inteiro. E tudo isso só será possível onde houver a morte do nosso eu com todas as suas pretensões e presunções. Somente aí o fruto virá. Jesus diz que “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (João 12:24). Talvez esta seja a razão pela qual os frutos têm sido escassos. O grão tem caído na terra, mas não tem morrido. Temos amado, mas quando não somos devidamente correspondidos, sentimo-nos frustrados e desistimos de amar.

Para reverter isso, a única saída é a cruz. Nosso “eu” não merece outro tratamento senão a morte. Então, o fruto virá em abundância. Colheitas ocorrerão naturalmente, sem que tenhamos que recorrer a expedientes mirabolantes. Deixemos nossas estratégias marqueteiras. Façamos com a mão direita sem que a esquerda tome conhecimento. Sejamos movidos exclusivamente por amor e não por interesses, ainda que os mais nobres.  O máximo que conseguiremos através de nossas estratégias serão adesões. Entretanto, os frutos não permanecerão. Deixemos por conta d’Ele aquilo que só Ele é capaz de produzir: verdadeiras conversões. Quanto a nós, amemos... não só com palavras, mas de fato. 

Em vez de evangelização ostensiva, proponho que promovamos uma amorização despretensiosa, cheia de compaixão e carinho, sem qualquer outra intenção que não seja o bem daqueles a quem devotamos nosso amor. 

Abaixo, "Índios", uma das mais belas canções de Renato Russo que intui acerca do que trato neste texto. 

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Encontrando Deus na ÚLTIMA FRONTEIRA



Por Hermes C. Fernandes

Já vimos que Deus Se revela através das Escrituras, da Criação, da Igreja, e sobretudo, através de Seu Filho Jesus Cristo. Ele é a revelação definitiva de Deus. Porém, resta-nos uma última fronteira, onde para muitos, Deus Se mantém escondido.

Não se trata dos mistérios do Cosmos, como os buracos negros, quasares, galáxias longínquas, super-novas, etc. Também não se trata do mundo subatômico, quântico. Trata-se, antes, daqueles com quem Cristo Se identifica de maneira peculiar: Os pobres e excluídos da sociedade. É lá que Deus Se mantém velado à espera de quem O busque.

Não basta encontrar Deus nas Escrituras, na Igreja, na Criação, se não nos dispusermos a buscá-lO nos pequeninos. É assim que Ele os chama.

Veja o que Jesus diz sobre isso:
“Quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Todas as nações se reunião diante dele, e ele apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas. Ele porá as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Pois tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu, e me visitastes; preso e fostes ver-me. E perguntarão os justos: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou preso e fomos ver-te? Ao que lhes responderão Rei: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt.25:40).
Ao sairmos ao encontro desses pequeninos, é com Cristo que nos deparamos. Engana-se quem imagina poder encontrá-lO nas catedrais dos grandes centros urbanos. Seria como se os magos esperassem encontrar o Messias recém-nascido no palácio de Herodes. Cristo está sob as marquises dos prédios abandonados; atrás das grades das prisões públicas; nas palafitas construídas às margens das valas negras.

Não vamos simplesmente para lhes dar algo que não tenham. Vamos ao encontro de algo de que necessitamos desesperadamente.

Muitos se dedicam às obras de caridade por um desencargo de consciência. Alguns até para driblar a culpa que lhes tira o sono. Ajudar aos pobres faz com que se sintam confortáveis consigo mesmos, pertencentes a uma classe superior, ricos, qualificados. Quando deveriam, sim, sentir-se envergonhados. A pobreza denuncia nossa arrogância, nossa prepotência, a injustiça imperante no sistema do qual tiramos nossa subsistência.

Deus Se esconde de tal maneira nos pobres, que nem mesmo Seus escolhidos dão conta de reconhecerem-No. Daí a pergunta: Quando, Senhor?

Ficamos embebecidos com o espetáculo da natureza. É relativamente fácil enxergar a majestade divina num pôr-do-sol, num arco-íris, e até no canto de um passarinho. Tudo isso é muito belo, e, de fato, aponta para Deus, manifestando Seus atributos invisíveis.

Encontrá-lO nas Escrituras é uma questão de fé. Nossos olhos são desvendados pela ação do Espírito Santo, que nos faz compreender o testemunho de Deus registrado nas páginas sagradas (Pv.1:23). Porém, buscá-lO e encontrá-lO no pobre, no indefeso, no preso, no enfermo, somente através das lentes do amor. Esta é, por assim dizer, a última fronteira na qual Deus Se mantém escondido.

Como a igreja primitiva lidou com esta verdade indiscreta e perturbadora? Ninguém melhor que Tiago, irmão do Senhor, para nos responder:
“Glorie-se o irmão de condição humilde na sua alta posição. O rico, porém, glorie-se na sua insignificância, porque ele passará como a flor da erva” (Tg.1:9-10).
O Evangelho do Reino é a mais subversiva de todas as mensagens já anunciadas entre os homens. O que os homens chamam de sabedoria, Deus chama de loucura. O que chamamos de fraqueza, Deus chama de força. O que acreditamos ser riqueza, Deus afirma que é miséria.

Seguindo a lógica do Reino, Tiago diz que o irmão de condição humilde deveria gloriar-se em sua alta posição. Não se trata de posição social, mas espiritual, uma vez que Deus o escolheu.

Paulo reverbera o mesmo ensino, quando nos conclama a conferir: “Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que ninguém se glorie perante ele” (1 Co.1:26-29).

Gloriar-se em sua condição humilde é o mesmo que gloriar-se em Deus, em vez de em si mesmo e em seus recursos naturais.

Tiago não faz média com os ricos do seu tempo. Pelo contrário, ele os confronta. “O rico, porém, glorie-se na sua insignificância” (Tg.1:10a). Que golpe na arrogância de quem se acha importante. Que insulto à sua vaidade!

Recentemente, uma pesquisa feita pelo instituto britânico New Economics Foundation revelou que pessoas que trabalham fazendo faxina em hospitais têm mais valor para a sociedade do que os funcionários de alto escalão de um banco. Enquanto o faxineiro gera cerca de R$ 30 de valor para cada R$ 3 que recebe, o bancário com salário anual a partir de R$ 1,5 milhão) é um peso para a sociedade, custando cerca de R$ 21 para cada R$ 3 que ganham. O faxineiro rende dez fez o que ganha. O bancário dá prejuízo de sete vezes o que ganha.

Como uma igreja em nossos dias receberia o executivo de um banco? E como receberia um faxineiro? Seriam tratados de igual maneira?

Infelizmente, nos adequamos ao espírito deste mundo, e abandonamos a mensagem subversiva do reino. Muitas igrejas têm se especializado em alcançar a classe média alta, desprezando completamente as classes mais baixas e necessitadas. Este se tornou o sonho de consumo de praticamente todos os ministérios hoje em dia. Todos querem as classes A e B. Ninguém quer as classes D e E.

As grandes denominações querem ter Sedes nos bairros mais abastados da cidade. Enquanto isso, as favelas são relegadas a segundo plano. Quando surge alguma igreja nelas, geralmente é por iniciativa dos próprios moradores. Alguns pastores até investem em igrejas nestas comunidades carentes, para evitar que seus moradores desçam para o asfalto e frequentem seus templos luxuosos, trazendo incômodo aos seus membros mais distintos.

Este não é um problema recente. Tiago teve que enfrentá-lo nos dias da igreja primitiva.Veja o que ele diz:
“Meus irmãos, como crentes em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, não façais acepção de pessoas. Por exemplo: Se na vossa reunião entrar algum homem com anel de ouro no dedo, e com trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e atentardes para o que tem os trajes de luxo, e lhe disserdes: Assenta-te aqui em lugar de honra, e disserdes ao pobre: Fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do estrado dos meus pés, não fazeis distinção entre vós mesmos, e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus aos que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre” (Tg.2:1-6a).
Parece que Tiago estava falando diretamente com os pastores de nossos dias, alguns dos quais chegam a destacar alguém para o ministério local por causa de suas vultuosas contribuições. Quantos diáconos precoces? Presbíteros despreparados, que mal se converteram, e logo foram içados a uma posição na igreja. Já o pobre, o que não usa roupas de grifes famosas, não só são ignorados, como às vezes são até rechaçados. Há quem até sugira: Procure outra igreja, onde as pessoas sejam do seu nível social. Aqui não é pra você.

É lamentável ter que admitir isso. Mas é a mais pura verdade. As pessoas valem o quanto pe$am.

Desonrar ao pobre é desonrar Àquele que o criou, e o escolheu para ser Seu esconderijo.

É bom que se diga que Deus não tem nada contra os ricos. Deus igualmente os criou. O que ofende a Deus é o fato de muitos se estribarem em suas riquezas materiais. A única maneira do rico agradar a Deus é reconhecer seu estado de miséria espiritual. Ou no dizer de Tiago, sua “insignificância”. Reconhecer que todo o seu dinheiro é incapaz de garantir-lhe uma vida de significado e propósito.

Assim como há ricos que são “pobres de espírito”, há pobres que são arrogantes, e que tentam passar uma imagem de abastança. Como diria o adágio: Comem sardinha, arrotam caviar. O sábio Salomão os denuncia:“Uns se dizem ricos sem ter nada outros se dizem pobres, tendo grandes riquezas” (Pv.13:7). Pobreza de espírito é manter-se na total dependência de Deus. Jamais jactar-se em seus próprios recursos, sejam eles parcos ou abundantes.

Se a Igreja almeja ser canal através do qual Deus Se revele ao mundo, ela terá que admitir sua pobreza. E isso equivale a tomar a contramão da postura adotada pela igreja de Laodicéia.

Leia atentamente o que Cristo diz aos laodicenses:
“Dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta. Mas não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado no fogo, para que te enriqueças; e vestes brancas para que te vistas, e não seja manifesta a vergonha da tua nudez; e colírio, para ungires os teus olhos, a fim de que vejas” (Ap.3:17-18).
De acordo com a doutrina da confissão positiva, tão apregoada em nossos dias, a igreja de Laodiceia estava corretíssima em fazer tais “declarações de fé”. Entretanto, Cristo reprovou sua postura arrogante e auto-suficiente. Se fosse verdade que palavras positivas seriam capazes de atrair prosperidade para quem as proferisse, as Escrituras não diriam: “Em todo trabalho há proveito, mas meras palavras só conduzem à pobreza” (Pv.14:23). Cristo chega a usar de sarcasmo com aquela igreja prepotente. Era como se Ele dissesse: Já que vocês são tão ricos, prósperos, auto-suficientes, vou lhes dar um conselho: Usem seus recursos para adquirir o que vocês ainda não têm: A verdadeira riqueza.

Paulo usa sarcasmo semelhante ao escrever para outra igreja que achava não ter falta de coisa alguma: Corinto.
“Pois quem tem faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? Já estais fartos! Já estais ricos! Sem nós reinais! E oxalá reinásseis para que também nós reinemos convosco! Pois tenho para mim que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte. Somos feitos espetáculos ao mundo, aos anjos e aos homens. Nós somos loucos por amor de Cristo, e vós sábios em Cristo! Nós fracos, mas vós dois fortes! Vós sois ilustres, nós desprezíveis (...) Até ao presente temos chegado a ser como o lixo deste mundo, e como a escória de todos” (1 Co.4:7-10,13b).
Qual o auto-intitulado apóstolo de nossos dias que pode apresentar-nos as mesmas credenciais? Se lermos os versos que omiti (11-12), veremos o quanto Paulo sofreu pela causa do Reino.

Precisamos descer de nossos pedestais ministeriais e admitir nossa profunda pobreza. E quando a admitimos, já não nos ofendemos quando Deus usa o mais humildes dentre os homens para nos abençoar com um prato de comida, ou qualquer outra provisão. Pergunte a Elias como ele se sentiu quando percebeu que o canal escolhido por Deus para alimentá-lo era uma viúva pobre de Sarepta.

Jesus disse que devemos aprender d’Ele que é manso e humilde de coração. Manso para repartir seu próprio pão, humilde para receber sem sentir-se constrangido. A palavra traduzida por “manso” tem a conotação de “desapegado”. Manso é aquele que já não faz questão de coisa alguma. Aquele que vê sua túnica sendo repartida entre os soldados romanos, e não a reclama para si. Já o ser humilde significa está sempre pronto a receber, mesmo quando o canal usado por Deus é de condição mais humilde que a nossa.

O chamado de Deus para a igreja deste tempo é um chamado à pobreza. Não estou falando de um voto de pobreza semelhante ao feito por monges franciscanos. Mas de uma pobreza em que admitimos que nossa suficiência vem do Senhor. Aí poderemos nos apresentar como Paulo: “Pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Co.6:10).

O que constrangerá o mundo quanto ao amor de Deus não serão testemunhos de pessoas que se enriqueceram depois que abraçaram a fé em Jesus, e sim de pessoas que abriram mão de tudo por amor ao seu semelhante.

Postado pela primeira vez em 

Dezembro 15, 2009

segunda-feira, outubro 20, 2014

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A última impressão é a que fica

passaporte carimbado

Por Hermes C. Fernandes

Meu passaporte está cheio de carimbos dos países por onde passei. A primeira vez em que foi carimbado foi em 1991. Se passaram mais de 20 anos desde que pisei pela primeira em solo americano. Aquela impressão desbotou-se com o tempo. Ainda dá para vê-la, porém, sobrepostos a ela, há muitas outras mais recentes. Sem contar que de lá pra cá, já troquei meu passaporte duas vezes.

Todos nos preocupamos com a primeira impressão que deixamos, pois cremos ser ela a que fica. Porém, aprendemos com a Escritura, que no Reino de Deus esta verdade é subvertida. A última impressão é a que fica.

Permita-me tomar um exemplo das páginas sagradas:

Pedro e João haviam sido presos pelas autoridades judaicas. Acusação: subversão da ordem por haver curado um coxo à porta do templo. Após ouvi-los expor a razão que os levara a realizar aquele milagre, as autoridades ficaram maravilhadas com sua ousadia. Confira o texto:
“Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, se maravilharam, e tinham conhecimento de que eles haviam estado com Jesus.” Atos 4:13

De que Pedro estamos falando aqui? Daquele mesmo que negou Jesus por três vezes pouco mais de cinqüenta dias antes deste milagre. O mesmo pescador que acompanhou o Mestre por pelo menos três anos, mas ainda assim foi capaz de emprestar seus lábios a Satanás para dissuadi-lO da cruz. Ainda em um dos seus últimos encontros com Jesus, Pedro demonstrou-se incomodado com o destino que teria João, que parecia muito mais confortável que o seu próprio destino. Rústico, de temperamento sanguíneo, emocionalmente instável, covarde, de repente… transforma-se num poderoso orador, capaz de realizar milagres no nome de seu Mestre. Como explicar isso? Como explicar que Pedro e João, que antes pareciam rivais, agora subirem juntos ao templo para orar? Como explicar sua excepcional desenvoltura no uso das palavras, em se tratando de homens incultos? A conclusão das autoridades não podia ser outra: “Eles haviam estado com Jesus.”

A última vez que estiveram pessoalmente com Jesus foi onze dias antes deste ocorrido, quando o Senhor foi assunto ao céu. Que impressão Jesus teria deixado neles, então? Teria sido aquela a última impressão? Acredito que não!

Já tentou usar um carimbo sem antes molhá-lo na carimbeira? Pode até ficar o relevo no papel, mas aos poucos sua superfície voltará ao normal. Mas quando molhamos o carimbo, além do relevo, fica também a marca da tinta.

Pois foi justamente isso que aconteceu quando os discípulos receberam o carimbo do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Aquela foi a última impressão! Ou melhor, a impressão definitiva. Não me surpreende o fato de que Paulo use a expressão “selo do Espírito” para aludir à tal experiência. “Selo” é o equivalente a “carimbo”.

Quem quer que receba tal impressão do Espírito, há de ser reconhecido, mesmo pelos descrentes, como quem tem estado com Jesus.

Só podemos expressar aquilo que antes foi impresso em nossos corações. Sem impressão, não há autêntica expressão.

Jesus, por exemplo, é chamado de “a expressão exata” de Deus (Hb.1:3). E o que Lhe dava a habilidade de expressar com exatidão o ser divino? Ele mesmo responde: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará, porque Deus, o Pai, o marcou com o seu SELO” (Jo. 6:27). Era, portanto, a presença do Espírito Santo em Cristo que Lhe capacitava, não apenas a fazer os milagres que realizava, mas a expressar a vontade de Deus tanto em palavras, quanto em obras.

Jesus disse que “da abundância do coração fala a boca” (Lc.6:45). Só podemos expressar com legitimidade aquilo que está impresso em nossos corações. Se não, tudo não passará de performance barata. O carimbo é a Palavra de Deus, mas a tinta é o Espírito Santo. É a atuação conjunta entre a Palavra e o Espírito que imprimirá em nossa vida as marcas de Cristo, como disse Paulo aos Gálatas (Gl.6:17). Por isso, o mesmo apóstolo que diz “a palavra de Cristo habite em vós abundantemente” (Cl.3:16), também nos ordena a que sejamos cheios do Espírito (Ef.5:18). Não basta ter o relevo de Cristo. Temos que exibir também as Suas cores. Gosto muito daquela passagem que diz que Deus destinou a igreja para que manifestasse Sua multiforme sabedoria (Ef.3:10). No texto original lemos “multicolorida” em vez de “multiforme”. É o Espírito Santo, que uma vez derramado em nossos corações, irradia através de nossas vidas todos os espectros do amor (Rm.5:5).

O alemão Gutemberg tem sido considerado o pai da imprensa. Foi ele quem criou o processo que consistia em cunhar as letras em matrizes de cobre, com um punção de aço com letras gravadas em relevo, gerando uma espécie de molde de letras, que eram finalmente montadas em uma base de chumbo, tintadas e prensadas. Foi com esse processo que Gutemberg produziu a primeira Bíblia, impressa em latim, com uma tiragem de cerca de 300 exemplares. Sua invenção começou a Revolução da Imprensa e é amplamente considerado o evento mais importante do período moderno. Teve um papel fundamental no desenvolvimento da Renascença, Reforma e na Revolução Científica e lançou as bases materiais para a moderna economia baseada no conhecimento e a disseminação da aprendizagem em massa.

Muito antes de Gutemberg, Paulo afirmou que nós, como cristãos, somos “a carta de Cristo”, “escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração” (2 Co.3:3). A Palavra é a prensa, enquanto o Espírito é a tinta que faz de cada um de nós cartas vivas cujo remetente é Deus e os destinatários são todos os homens. A igreja é, por assim dizer, a gráfica de Deus.

Aquilo que em nós é impresso deve circular livremente entre os homens. Nossa vida deve ser lida por todos. Deve expressar o que foi impresso em nossos corações. Revelar ao mundo Aquele com quem temos estado.

Depois de interrogados pelas autoridades, Pedro e João foram expressamente proibidos de ensinar ou mesmo divulgar o nome de Jesus. Porém, sua resposta foi incisiva: “Julgai vós se é justo, diante de Deus, obedecer antes a vós do que a Deus? Pois não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido” (At.4:19-20). Não há como represar o fluxo das águas do Espírito. Sua voz sobrepõe-se a qualquer censura humana. Como disse Paulo: “Cri, por isso falei” (2 Co.4:13).

E à medida que falamos, somos usados para promover a primeira impressão de Cristo na vida das pessoas com quem convivemos. Por isso, sofremos a censura por parte dos inimigos da fé. Paulo conta como sofreu tal censura por parte dos judeus de sua época, os quais, segundo ele, não agradavam a Deus, e eram “contrários a todos os homens”, impedindo-lhe “de falar aos gentios para que sejam salvos” (1 Ts.2:15-16). Apesar de todas as ameaças, Paulo não se intimidou, desde que ouviu da boca do próprio Jesus, que numa revelação lhe disse: “Não temas, mas fala, e não te cales. Pois eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, porque tenho muito povo nesta cidade” (At.18:9-10). Nossa missão, portanto, é causar uma primeira impressão, deixando para o Espírito de Deus a incumbência de promover a impressão definitiva. Esta primeira impressão é causada tanto por nossa fala, quanto por nossa postura. Há casos em que a pessoa é ganha sem qualquer palavra (1 Pe.3:1). O que não podemos é desperdiçar a oportunidade da primeira impressão. E isso fazemos quando de alguma maneira, expressamos as profundas impressões deixadas por Cristo em nossa alma.

sexta-feira, outubro 17, 2014

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O Evangelho Quântico e o rompimento da lógica linear




Por Hermes C. Fernandes

Uma das mais surpreendentes passagens do Novo Testamento é a que narra o episódio da ressurreição de Lázaro (Jo.11:1-57). Cada vez que retorno a ela, deparo-me com algo que não havia percebido antes.  É como se a cada camada explorada, fôssemos desafiados a ir ainda mais fundo.

É notório que uma das diferenças entre a narrativa de João e a dos evangelhos sinópticos é que o discípulo amado parece subverter a ordem cronológica dos fatos. Um dos exemplos disso é a purificação do templo, situada por João logo no início de seu evangelho, enquanto os demais evangelistas a situam quase ao fim de suas narrativas. Era como se João, por uma inspiração divina, percebesse que a história nem sempre é linear como imaginamos. Nela também se pode aplicar a lógica da mecânica quântica, onde, às vezes, os efeitos precedem as causas, ou ao menos, podem interferir nelas. Já que os evangelhos creditados a Mateus, Marcos e Lucas são chamados de sinópticos, tomo a liberdade de chamar João de “o evangelho quântico”.

Ao contar-nos o episódio envolvendo uma das famílias mais queridas por Jesus, João parece agir como um spoiler, antecedendo fatos que só seriam narrados na sequência do texto. Nenhum escritor em sã consciência faria isso. Seria como estragar a surpresa. Imagine começar um filme de suspense revelando de cara o maior mistério da história que se pretende contar. É como assistir a um filme ao lado de quem já o assistiu e ter que ouvi-lo descrever as cenas que ainda virão. Porém, estou convencido de que João não era um spoiler. O que ele faz é subverter a lógica linear da história, como quem quisesse deixar nas entrelinhas que somos mais influenciados pelo futuro do que propriamente pelo passado.

João começa o capítulo onze de seu evangelho informando que “estava enfermo um homem chamado Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de sua irmã Marta. E Maria, cujo irmão Lázaro se achava enfermo, era a mesma que ungiu o Senhor com bálsamo, e lhe enxugou os pés com os seus cabelos” (Jo.11:1-2). Aquele bálsamo deveria ter sido usado em Lázaro. Mas Maria preferiu guardá-lo para usá-lo em Jesus. Por esta razão, Lázaro cheirava mal com apenas quatro dias de sepultamento. Defendendo-a por aquele inusitado gesto, Jesus diz que ela se antecedeu a ungi-lo, preparando-o para ser sepultado, já que, ao ser removido da cruz, não haveria tempo suficiente para prestar-lhe as devidas honras, devido à proximidade do sábado judaico. No domingo, quando outra Maria amanheceu no sepulcro para embalsamá-lo, teve a grata surpresa de não encontra-lo mais ali.

Dentro de uma cronologia convencional, primeiro se morre, para depois ser embalsamado. A irmã de Lázaro subverteu a ordem linear, ungindo Jesus dias antes que fosse sepultado. Talvez ela nem sequer tivesse ideia do que significava seu gesto. Digamos que ela tenha sido atraída por uma força vinda do futuro. E não é justamente isso que faz a fé? Ou não é a fé a certeza de coisas que se esperam e que, portanto, se insinuam no horizonte do futuro? Portanto, o que deveria influenciar nossas ações não é o passado, tampouco as demandas do presente, e sim “os poderes do mundo vindouro” (Hb.6:5).

Assim que recebeu a notícia de que Lázaro, seu amigo, a quem tanto  amava, estava enfermo, Jesus simplesmente se manteve no mesmo lugar. Era de se esperar que saísse correndo no afã de impedir que seu amigo morresse acometido daquela grave enfermidade. Mas para surpresa dos Seus discípulos, Jesus não moveu uma palha. Obviamente, isso não significava que Jesus não Se importasse. O texto faz questão de frisar que Ele amava, não somente a Lázaro, mas também às suas irmãs.

O fato de nos amar não significa que seremos poupados de certas adversidades. Por conhecer o futuro, Ele sabe exatamente como cada situação em nossa vida contribuirá para que logremos alcançar a glória derradeira.

Alguns até poderiam supor que Jesus estivesse evitando voltar àquela região devido à animosidade dos judeus que estavam dispostos a apedrejá-lo. Depois de dois dias, ao anunciar Sua decisão de finalmente visitar a Lázaro que já estava morto, Tomé, que já mostrava seu caráter incrédulo, comentou maldosamente: “Vamos nós também, para morrermos com ele.” Tomé era o típico homem preso à lógica linear da história. Para ele, o fato de Jesus não haver poupado a Lázaro da morte indicava claramente que também não os pouparia.  

Quem insiste em enxergar a vida deste prisma, está sempre com um pé atrás. Sua lógica é: se aconteceu uma vez, certamente acontecerá de novo. Suas atitudes são respaldadas pela Lei de Murphy e não pela Lei da Fé. Eles primeiro precisam ver para crer. A experiência lhes guia pela jornada da existência. Falta-lhes a disposição de dar o salto da fé. A mesma encontrada em Pedro, cuja experiência não lhe rendeu a pesca desejada, mas que aceitou o desafio de lançar sua rede sobre a Palavra, resultando numa tão grande quantidade de peixes que quase lhe afundou o barco.

A resposta de Jesus a Tomé e cia foi, no mínimo, enigmática:
Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz.
Com efeito, Jesus estava dizendo: Não estou dando um tiro no escuro. Eu sei exatamente o que estou fazendo. Quando se vislumbra o futuro, atenua-se o papel das circunstâncias momentâneas. Por isso Jesus afirmou que Lázaro estava dormindo e que iria despertá-lo. Como Seus discípulos não entenderam, Jesus teve que desenhar: Lázaro morreu! E que bom que vocês não estavam lá quando ele morreu, pois isso os impediria de crer. Agora está explicado. Jesus não se apressou a visitar Lázaro, porque não queria que os discípulos o vissem morrer.

Nossa memória é o que nos liga ao passado. Nossos sentidos nos ligam ao presente. Mas é a fé que nos remete ao futuro. Não dá para viver pelos sentidos e pela fé ao mesmo tempo. Daí Paulo dizer: "Andamos por fé e não por vista" (2 Co.5:7).

Ao chegar a Betânia, Marta saiu-Lhe ao encontro, enquanto Maria permaneceu em casa sentada. Talvez Maria pretendesse extrair outro elogio do mestre, como o que recebera em outra ocasião, quando sua irmã, agitada como sempre, trabalhava, e ela mantinha-se sentada ouvindo atentamente o que Jesus dizia. Aparentemente consternada, Marta se dirige a Jesus, dizendo: "Senhor, se estivesse aqui, meu irmão não teria morrido." Seria esta uma confissão de fé ou uma declaração de desapontamento? Ou seria a mescla das duas coisas?

Ouçamos o que ela diz em seguida: “Mesmo agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Ele te concederá.” Percebe-se que, mesmo depois de quatro dias, Marta não perdeu a esperança. Foi por isso que ela e sua irmã combinaram de não embalsamar a seu irmão. Provavelmente, ninguém sabia disso, nem mesmo os judeus que as visitavam naquele momento de luto profundo. Seria uma vergonha deixar de dar a honra devida a um familiar morto. Era comum que cada família trabalhasse para manter em casa uma quantidade razoável de bálsamo para o caso de um dos membros vir a falecer. Custava o equivalente a um ano de trabalho.

Ninguém pode acusar Marta de não ter esperança. Todavia, sua esperança parecia arremeter-se a um futuro distante, muito além do horizonte existencial. Tratava-se de uma esperança escatológica. Quando Jesus anuncia que seu irmão haveria de ressurgir, Marta responde incisivamente dentro de uma perspectiva escatológica cem por cento acertada: “Eu sei que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia.” Portanto, ninguém jamais poderá acusá-la de heresia. Sua confissão de fé estava correta. Seu credo estava dentro dos limites da ortodoxia. Porém, em ambas as declarações, Marta se revela refém.

Na primeira declaração, ela se mostra refém do futuro do pretérito: "Se o Senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido." Não se trata de estar presa ao passado. No fundo, o passado não aprisiona ninguém. O que nos cativa é o futuro do pretérito, um tempo que só existe em nossa imaginação. Se no presente conjugamos o verbo ser dizendo “eu sou”, no futuro do indicativo dizemos “eu serei”, no passado dizemos “eu fui” ou “eu era”, no futuro do pretérito dizemos “eu seria”. E é assim que ficamos presos no limbo da existência, imaginando como teria sido algo se não houvesse ocorrido isso ou aquilo.

Já que ainda não inventaram a máquina do tempo, nada há que possamos fazer para alterar o que se passou. Em vez de ficar nos lastimando pelo ocorrido, devemos buscar ressignificar eventos passados à luz do presente e do porvir. Nada acontece em vão. Tudo serve a um propósito que, ainda que o desconheçamos hoje, um dia há de nos ser revelado. Como bem disse Jesus a Pedro: O que faço agora, não entendeis, mas compreendereis depois. Quando todas as peças do mosaico estiverem devidamente encaixadas, uma figura emergirá dele, e tudo, finalmente, fará sentido. Ou vivemos por fé com olhos voltados para o futuro, ou vivemos presos ao futuro do pretérito, gastando nossas energias a nos lamentar.

Na segunda declaração, Marta se revela confiante em fatos que estariam para além desta existência. Tal confiança tem o potencial de nos alienar. A fé sadia não apenas nos remete ao futuro, mas patrocina a inserção do futuro no presente. Os peixes que caíram na rede de Pedro foram trazido para o barco e do barco trazidos à praia. Não se pode vislumbrar o futuro e deixá-lo lá mesmo. A vontade de Deus feita no céu, deve ser igualmente feita na terra. O presente deve ser copulado pelo futuro. Somos, por assim dizer, o cupido que promove este encontro fecundo entre o futuro e o presente.

Se nosso presente não estiver grávido do futuro, ele estará grávido do passado e isso equivaleria a um tipo de incesto existencial.

Em vez de elogiar a ortodoxia presente na declaração de Marta, Jesus lhe responde:

Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês isto?

Em Cristo, eventos futuros se fazem presentes. Ele os atualiza, puxando-os em nossa direção como um pescador que gira a manivela de sua vara, trazendo-nos o peixe que mordiscara sua isca.

Marta lhe dá uma resposta teológica: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.” Pelo jeito, ela tinha respostas ensaiadas na ponta da língua, mas talvez não se desse conta das implicações de tais verdades. A gente repete feito papagaio o que outros nos disseram, mas não entende o sentido do que se diz, tampouco do que se crê. 

Não foi daquela vez que Marta conseguiu a proeza de sua irmã ao ser elogiada pelo mestre. Por isso, Marta sai à francesa, vai ao encontro de sua irmã e cochicha em seu ouvido: O Mestre está aí, e te chama.

Jesus continuava estacionado na entrada da aldeia, no lugar onde encontrara Marta, quando Maria se aproximou ofegante por causa da corrida que dera, deixando os judeus que a visitavam assustados. Ao vê-lo, Maria se lançou aos Seus pés, repetindo a mesma ladainha dita por sua irmão: “Senhor, se tu estiveras aqui, meu irmão não teria morrido.”

A declaração era basicamente a mesma, porém, a reação de Jesus foi totalmente diferente. Ele não argumentou com Maria da maneira como fez com sua irmã. A diferença era que o Marta dizia com olhos enxutos, Maria repetia com os olhos encharcados. Marta dizia o que havia decorado. Maria dizia o que partida do seu coração. O tom de Marta era o de acusação. O de Maria era o de desabafo sincero.

Jesus, pois, quando a viu chorar, e chorarem também os judeus que com ela vinham, comoveu-se em espírito, e perturbou-se, e perguntou: Onde o puseste? Responderam-lhe: Senhor, vem e vê. Jesus chorou.

Como ler isso e não se emocionar? Quem jamais poderia supor que lágrimas humanas pudessem perturbar o Criador? Mesmo sabendo o desfecho daquela história, Jesus não estava emocionalmente blindado.

Por muito tempo, os teólogos têm discutido como um Deus conhecedor do futuro poderia se deixar comover pelo sofrimento humano? Algumas teologias conceberam um deus tão, tão poderoso que tornou-se asqueroso, pois revela-se incapaz de se compadecer de nossas misérias.

Como conciliar isso? Como resolver este aparente paradoxo?

O Deus que é, e que, portanto, está para além da existência, mergulhou de cabeça na história, de modo que pudesse perfeitamente se compadecer de nós (Hb.4:15). O grande “Eu sou” não tem passado, nem presente, nem futuro. Ele não existe. Ele simplesmente é. Ele transcende a existência. Porém, em Cristo, Deus Se humaniza, Se historioriza adentrando o tempo e o espaço. De sorte que, agora, Ele tem história, passado, presente e futuro. Se antes, Ele Se apresentava como o “Eu sou” (Êx.3:14), agora Ele Se apresenta como “Aquele que era, que é e que há de vir” (Ap.1:8), “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb.13:8).  

Em Cristo, Deus existe! Ele Se tornou um de nós! Por isso, Ele não apenas tem misericórdia de nós, mas também Se compadece. Ele sente nossas dores e chora nossos dissabores. O Deus Todo-Poderoso agora Se revela vulnerável ao sofrimento humano. Eis Sua fraqueza. Eis Sua loucura infinitamente mais sábia que toda nossa vã sabedoria. O Todo-poderoso também é o Todo-amoroso.

Diante daquela inusitada cena, os judeus deixaram cair suas pedras e comentaram entre si: Vede como o amava. Mas alguns deles disseram: Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também que este não morreste?” Sempre haverá quem não se contente com qualquer que seja a demonstração de amor. Esses preferem o espetáculo sensacionalista. Ainda estão presos no limbo do futuro do pretérito.

Sem dar a mínima para isso, Jesus comoveu-se outra vez, mas agora, de maneira ainda mais profunda. Chegando-se ao sepulcro, pediu que lhe removesse a pedra que o selava.

Num descuido, Marta confessa em alto e bom tom: “Senhor, já cheira mal, porque está morto há quase quatro dias”. Por que digo que aquilo foi uma confissão pública? Porque até àquele instante, ninguém supunha que as irmãs do defunto o haviam privado das honras devidas representadas pelo embalsamento.

Jesus responde a Marta: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?

Ora, se você se der o trabalho de ler o texto inteiro, verificará que em nenhum momento Jesus aparece dizendo isso a Marta. Terá sido uma falha na narração de João? Creio que não. Prefiro acreditar que Jesus tenha dito isso quando ela lhe virou as costas para chamar sua irmã. Marta era do tipo que gostava de ter a última palavra em qualquer questão. Tão logo confessou crer que Jesus era o Cristo, virou-lhe as costas sem dar atenção ao que Ele ainda diria. De fato, Ele disse, mas ela não ouviu. Quantas coisas Ele também não nos tem dito no dia-a-dia, mas não lhe temos dado a atenção merecida?

A gente prefere uma leitura superficial, atrelada ao senso comum, comprometida em manter-nos em nossa zona de conforto. Somos seletivos dando ouvidos ao que nos conforto, mas não ao que nos confronta e desafia.

Com a pedra do sepulcro removida, Jesus levantou os olhos ao céu e disse: “Pai, graças te dou, porque me ouviste.

Mais uma vez Jesus subverte a lógica linear da história. Ele agradece ao Pai por já ter ouvido uma oração que Ele ainda faria. Mesmo estando entre nós, Ele continua enxergando para além do horizonte dos fatos históricos. Para Ele, o futuro já é. Ele é o que chama a existência as coisas que não são como se já fossem (Rm.4:17). Tomando um barco como analogia, podemos dizer que os sentidos nos ancoram na realidade, impedindo que naveguemos, os sentimentos nos fazem tocar a mesma realidade, porém, sem nos prender a ela, mas é a fé que nos provê as velas que nos fazem avançar mar a fora. Não podemos nos privar dos sentimentos, sob pena de nos tornarmos seres apáticos e alienados. Mas também não podemos nos privar da fé, sob pena de sermos vendidos ao desespero ou ao cinismo.

Depois de agradecer ao Pai, Jesus clama em alta voz dirigindo-se ao túmulo: Lázaro, vem para fora! Não foi preciso falar mais de uma vez. Vir para fora é um convite a nos tornarmos igreja (grego = ekklesia = tirados para fora). Não fora da realidade, o que seria alienação. Mas voltada para fora de si mesma, isto é, para o mundo à sua volta. Engajada na história, porém, comprometida com a eternidade.

Apesar de atender ao chamado que ecoou em seu sepulcro, Lázaro saiu com os pés e as mãos enfaixados e seu rosto envolto num lenço. O que o diferenciava de uma múmia egípcia era o fato de não ter sido embalsamado. Mesmo vivo, continuava preso. Caberia aos seus discípulos, dentre os quais estavam Marta e Maria, desatá-lo e deixá-lo ir.

Desafio semelhante é o que enfrentamos em nossos dias. Há muitos que foram regenerados, tendo experimentado o poder da ressurreição, mas que estão atados pelas tradições mofadas que lhes foram legadas. O que esta geração de cristãos precisa não é uma novo avivamento, mas de um desatamento.

Deixem Lázaro em paz! Ele precisa de um banho! Não precisa chantageá-lo para que siga a Jesus. O mesmo que o ressuscitou o atrairá a Si com o poder do Seu amor. O fato é que, no dia seguinte, Marta e Maria resolveram dar um banquete para Jesus, e adivinha quem estava sentado à mesa? Lázaro! Foi nesta ocasião que Maria quebrou o protocolo e derramou em Jesus o bálsamo que deveria ter sido usado em seu irmão. E é aí que a história começa...



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Cientistas alteram acontecimentos do passado


Um grupo de físicos conseguiu o que parecia impossível: a mudança desde o presente de um evento que ocorreu no passado.

O feito foi conseguido explorando uma estranha capacidade das partículas subatômicas que até agora não passava de simples teoria, foi agora provado em laboratório na Universidade de Viena.

À já longa lista de propriedades extraordinárias das partículas subatômicas será adicionada agora a capacidade de influenciar o passado. Ou, dito de outra forma, para mudar os eventos já ocorridos.

O conceito chave que permite que este comportamento novo e surpreendente é um velho conhecido da física: o entrelaçamento quântico , um fenômeno ainda não totalmente compreendido e é uma espécie de “união íntima” entre duas partículas subatômicas, não importando a distância a que se encontram uma da outra.

Quando duas partículas estão “entrelaçadas”, quaisquer modificações que realizamos numa delas será imediatamente reflectidas no outro, mesmo que a 2ª partícula se encontre do outro lado da galáxia.

Agora, pela primeira vez um grupo de investigadores conseguiu entrelaçar partículas depois de as terem medido, isto é, a posteriori e num momento em que alguma delas podia já não existir na realidade.

Parece confuso, é verdade. Mesmo os autores do teste referem-se a ele como “radical” no documento publicado esta semana na revista Nature Physics. “Que estas partículas estejam ou não entrelaçadas, diz o artigo, cujo primeiro autor é Xiaosong MA, o Instituto de Óptica Quântica da Universidade de Viena, é algo que foi decidido depois de efetuarem a sua medição.”

Em essência, os pesquisadores conseguiram demonstrar que as ações tomadas no futuro podem influenciar os acontecimentos ocorridos no passado. Desde que, evidentemente, limitar a experiência no campo da física quântica.

No estranho mundo das partículas subatômicas, as coisas acontecem de maneira muito diferente do que ocorre no mundo “real” e macroscópico, que podemos ver e tocar todos os dias ao nosso redor. Na verdade, quando o entrelaçamento quântico foi previsto pela primeira vez, Albert Einstein expressou a sua aversão à ideia chamando-o de “ação fantasmagórica à distância”.

Então, durante as últimas décadas, o entrelaçamento foi testado centenas de vezes no laboratório, mas apenas agora físicos não tinham sido capazes de descobrir como estabelecer este tipo de “comunicação instantânea” entre duas partículas que não estão em contacto físico. Agora, a equipa da Universidade de Viena levou o entrelaçamento um passo em frente, e conseguiu o que ninguém tinha sido capaz de fazer.

Para realizar esta experiência, os físicos começaram a partir de dois pares de partículas de luz, ou seja, dois “pacotes” de dois fotões cada. Cada uma das duas partículas de cada par de fotões foram entrelaçados entre si.

Mais tarde, um fotão de cada par foi enviado a uma pessoa hipotética chamado Victor. E das duas partículas (uma por casal) deixadas para trás, foi dado a uma Bob e outra a Alice. (Bob e Alice são nomes utilizados para ilustrar as experiências de física quântica).

Victor, ao possuir um fotão de cada par entrelaçado, tem total controlo sobre as partículas de Bob e Alice. Mas o que aconteceria se Victor decidi-se entrelaçar as duas partículas que ele tem.

Ao fazê-lo, também os fotões de Alice e Bob (já entrelaçados com cada um dos dois fotões na posse de Victor) iriam entrelaçar-se entre eles também. A boa notícia é que Victor pode decidir realizar esta ação a qualquer momento que desejar, mesmo depois de Bob e Alice terem medido, modificado ou até mesmo destruído os seus próprios fotões.

“O que é realmente fantástico, diz Anton Zellinger, também da Universidade de Viena e co-autor do experimento, é que a decisão de entrelaçar os dois fotões podem ser tomadas num momento muito mais tarde. Mesmo no caso de um dos outros fotões ter deixado de existirem.

A possibilidade de realizar esta experiência tinha sido prevista em 2000, mas ninguém conseguiu fazê-lo. “A forma como entrelaçamos as partículas – explica Zeilinger, é enviá-las para um cristal, cuja metade é um espelho. Glass, portanto, reflete metade dos fotões e passa para a outra metade. Se você enviar dois fotões, um à esquerda e um à direita, cada um deles irá esquecer-se de onde procede. Isto é, perdem as  suas identidades e ambos ficaram entrelaçados.

Zeilinger diz que a técnica pode um dia ser usada para a comunicação ultra-rápida entre dois computadores quânticos, capazes de usar o entrelaçamento para armazenar informações. Claro, uma máquina com estas características ainda não existe, apesar de experiências como estas representarem um grande passo em direção a esse objectivo e realidade.

“A ideia, diz Zeilinger, é criar dois pares de partículas, e enviar uma a um computador e outra para o outro. Assim, caso se entrelacem essas partículas (tal como na experiência), os dois computadores podiam usá-las usar para trocar informações, independentemente da distância.”