sexta-feira, agosto 22, 2014

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O que vale a pena quando a alma não é pequena?





















Por Hermes C. Fernandes

“Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão eu morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Acaso estou eu no lugar de Deus que te impediu o fruto de teu ventre?” Gênesis 30:1-2

Que sentimento poderia ser mais repugnante que a inveja? Alguns a chamam de “pecado inconfessável”. É mais fácil admitir a culpa por um adultério, do que assumir que é invejoso. Raquel teve inveja de sua irmã Lia. E por quê? Porque Lia custara a Jacó sete anos de trabalho, enquanto ela custara o dobro. Entretanto, Lia dera filhos a Jacó, enquanto Raquel era estéril. A inveja de Raquel provinha da conclusão de que ela não valera o quanto seu marido pagara por seu dote.

Cansada e desesperada, ela apelou ao seu marido, como se ele fosse o culpado. Jacó reagiu fortemente, sugerindo que ela reclamasse diretamente com Deus. O desespero foi tamanho, que Raquel foi capaz de oferecer sua criada a Jacó, para que lhe gerasse um filho, que ela pudesse, ao menos, embalá-lo em seu colo.

Apesar de seu pedido ser fruto de um sentimento reprovável (inveja), Deus resolveu atendê-la:
“Então Deus se lembrou de Raquel, ouviu-a, abriu a sua madre e ela concebeu, e deu à luz um filho, e disse: Tirou-me Deus a minha afronta. E chamou-lhe José, dizendo: Acrescente-me o Senhor outro filho.” Gênesis 30:22-24
Às vezes, Deus permite que sejamos bem sucedidos, mesmo que nossos esforços tenham uma motivação errada. A despeito de nossas motivações, Deus tem Seus propósitos!

O Apóstolo Paulo admitiu que “alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa mente” (Fp.1:15). Sua conclusão foi: “Mas que importa? Contanto que Cristo, de qualquer modo, seja anunciado” (v.18). Apesar de muitos pregarem o Evangelho por motivos escusos, podemos perceber um saldo positivo, pelo menos, em salvação de almas. Esse “saldo positivo” não significa que Deus esteja endossando tais ministérios, e sim que Ele esteja mantendo de pé a promessa de que Sua Palavra não voltaria vazia, apesar dos instrumentos serem falhos.

Raquel custou a Jacó catorze anos de trabalho gratuito para seu sogro Labão. Embora se sentisse amada, Raquel não estava satisfeita. Ela queria embalar em seus braços um filho gerado em seu próprio ventre. Não bastava ter filhos postiços, gerados no ventre de suas criadas. Ela queria um filho legítimo, fruto do amor entre ela e seu marido. Quando finalmente ela se engravidou, nomenou seu primeiro filho de José, pois queria que o Senhor lhe acrescentasse outro filho. Em outras palavras, “José” significa “quero mais”, ou “mais um”. Ela só não imaginava o preço que teria que pagar pelo filho extra que ela pedia a Deus.

É próprio do ser humano querer sempre mais. Temos fome do infinito. Não nos contentamos em pisar no solo lunar; agora queremos caminhar em Marte. Foi esta fome insaciável que nos fez atravessar os oceanos, e colonizar até as mais inóspitas regiões do planeta. E se alguém acha que determinada realização vai conferir-lhe sensação de plenitude, está redondamente equivocado. Sempre vamos desejar mais. Seja qual for a motivação que nos norteie.

Segundo as Escrituras, “partiram de Betel e, havendo ainda pequena distância para chegar a Efrata, Raquel deu à luz um filho, cujo nascimento lhe foi a ela penoso. Tendo ela trabalho em seu parto, disse-lhe a parteira: Não temas, pois também este filho terás. Ao sair-lhe a alma (porque morreu), chamou-lhe Benoni. Mas seu pai lhe chamou Benjamim” (Gn.35:16-18).

Raquel não era marinheira de primeira viagem. Ela já havia tido a experiência antes. Mas agora algo estava diferente. Havia no ar a sensação de despedida. Já quase fora de si, Raquel ouve dos lábios da parteira que seu filho já estava às portas. Suas últimas palavras antes de render sua alma foi “Benoni”. Foi assim que Raquel chamou seu caçula. Jacó poderia ter atendido ao último pedido de Raquel, permitindo que seu filho se chamasse Benoni. Mas o patriarca sabia o peso que tinha um nome, e o estigma que ela carregaria pelo resto de sua vida. Benoni significa “filho da minha tristeza”. Imagine ser responsabilizado pela morte da mãe pelo resto de sua vida. Pior do que ser chamado de “trapaceiro” (Jacó), seria ser chamado de “tristeza de sua mãe”. Por isso, mesmo amando desesperadamente a Raquel, Jacó preferiu ignorar o seu último lamento, pondo em seu caçula o nome de Benjamim, que quer dizer “Filho da Felicidade”, ou ainda, “Filho da minha força”.

Nosso Deus é o Senhor das circunstâncias. Não há nada que nos aconteça sem a Sua permissão. E tudo quanto Ele nos permite viver é impregnado de propósito. No entanto, Ele nos concede o privilégio de nomenar nossas experiências. Nomenar não é apenas dar nome, mas avaliar, atribuir significado a algo. Lembre-se de que Deus criou todos os animais, mas coube ao homem dar nome aos bichos. Os hebreus sabiam a responsabilidade que era nomenar um filho, pois ele carregaria consigo uma marca indelével.

Hoje em dia, as pessoas dão nome a seus filhos inspirados nos astros da TV. Mas naquela época, os nomes tinham que expressar o significado atribuído a uma experiência. Às vezes, os pais esperavam anos até encontrar um nome que correspondesse ao caráter do filho.

Ao nomenar seu último filho de Benoni, Raquel estava expressando a tristeza que lhe tomava o coração, por saber que jamais amamentaria aquele filho tão desejado. Porém, Jacó se recusou a imprimir na criança uma marca tão repulsiva. Se ele se chamasse Benoni, ele carregaria a culpa pela morte de sua mãe por toda sua vida. Ora, se cremos que, de fato, todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus, conforme lemos em Romanos 8:28, então temos que fazer uma leitura positiva de nossas experiências, mesmo as mais tristes.

Paulo, que era descendente de Benjamim, compreendeu tal fato. Muitos desconhecem que ele passou mais da metade de seu ministério atrás das grades. Em vez de ficar se lamentando por isso, ele preferiu dar um significado positivo a isso.
“E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior avanço do evangelho. De maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais. Muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas cadeias, ousam falar a palavra mais confiadamente, sem temor.” Filipenses1:12-14
Para Paulo, suas cadeias eram “Benjamim”, e não “Benoni”.

Quanto custa gerar um “Benjamim”?

Eis o paradoxo da graça! Embora tudo quanto o Senhor faz em nossa vida seja pura gratuidade, há um preço que temos que pagar para que os Seus propósitos se cumpram em nós. A Graça não exclui a renúncia. Pelo contrário: “A graça... nos ensina a renunciar” (Tt.2:11-12). Uma graça que nos poupa da renúncia não é a graça oferecida por Jesus.

Gerar e dar à luz Benjamim custou a Raquel sua própria vida. Este é o preço por querer mais... O preço por desejar fazer a vida valer a pena. Só vale a pena viver por aquilo pelo que dispomos morrer.

O que Deus pede que renunciemos? Carros? Casas? Dinheiro? Não! Nossa própria vida! Eis o preço! E é a graça que nos capacita a pagar tão alto preço. Temos que viver e morrer por algo maior do que nós mesmos. Algo que vá além de nossa existência terrena. Algo que continue aqui quando partirmos.

Era esse o sentimento que norteava a vida do apóstolo dos gentios:
“Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” Atos 20:24
Esse posicionamento perante a vida nos leva a dar um novo significado a tudo, até mesmo à morte. Por isso, Paulo diz aos Filipenses: “A minha ardente expectativa e esperança é de em nada ser confundido, mas ter muita coragem para que agora e sempre, Cristo seja engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Pois para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp.1:20-21).

A morte já não nos soa com um “bicho-papão”. E sabe por quê? Porque já morremos! Já fomos crucificados com Cristo, e agora, já não somos nós, mas Cristo que vive através de nós. Esta é a morte pela qual temos que passar para fazer a vida valer à pena. É o total desapego da própria vida, dispondo-se a abrir mão dela por um bem infinitamente maior. Portanto, pra nós, morrer é lucro! O que nos importa é o legado que deixaremos neste mundo, concebido e gestado a partir do momento em que abrimos mão de nossa vida.

Paulo, o mais importante dos descendentes de Benjamim, adquiriu tal consciência, e a expressa com maestria em sua epístola aos Filipenses:
“Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus (...) o que para mim era lucro, considerei-o perda por causa de Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo.” Filipenses 3:5a,7-8
Jesus disse que “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só. Mas se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, mas quem odeia a sua vida neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna” (Jo.12:24-25).

Negar-se a morrer é abraçar a solidão. É a morte do nosso ego que nos torna frutíferos.

Outra coisa que me chama a atenção nesse episódio é que Raquel entra em trabalho de parto a caminho de Efrata (Belém). E é ali, em plena jornada, que Raquel deixa esta vida para entrar na Eternidade. É ali, a caminho de Belém, que Raquel dá à luz Benjamim, filho da felicidade. Somos o povo do caminho. E precisamos aprender que a felicidade não é encontrada no destino, mas na jornada. Então, apreciemos a paisagem! Como aconteceu a Moisés, estamos fadados a peregrinar até chegarmos à borda da terra prometida, e então, sermos recolhidos por Deus. Nada é mais honroso do que gestar um sonho que será desfrutado pelos que vierem depois de nós. Somos hebreus! Um hebreu, por definição, é um caminhante, um peregrino. Mas não caminhamos sem rumo. Não estamos perambulando pelas sendas da vida. Temos um alvo! Temos um destino! É este destino supremo que nos move pra frente.

Há alvos que são alcançados com relativa facilidade. Porém, quando estabelecemos alvos humanamente inalcançáveis, temos que estar prontos para a possibilidade de só o alcançarmos no limiar desta vida. É possível que tenhamos um vislumbre, mas não desfrutemos plenamente.

Algumas de nossas conquistas são como dar à luz José. Fica sempre a impressão de que falta algo. Alvos mais nobres são como Benjamim, e podem ser paridos quando ainda estamos a caminho. Se algo vale à pena, então, temos que estar dispostos a morrer por isso, sem nos preocupar caso não desfrutemos de nossas próprias realizações.

O texto diz: “Assim morreu Raquel, e foi sepultada no caminho de Efrata (isto é, Belém)” (Gn.35:19).

Raquel só teve tempo de contemplar de relance o filho tão desejado. É no caminho que as grandes realizações são alcançadas inusitadamente.

Jamais devemos supor que já alcançamos o supremo propósito de nossa vida. Quando isso houver acontecido, o Senhor nos chamará.

Tal consciência é encontrada em Paulo:
“Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito, mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não julgo que o haja alcançado. Mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que para trás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo...” Filipenses 3:12-14a
Ele não escreveu isso no início de sua jornada espiritual, mas já chegando ao fim dela. E ele diz que todos os que são “perfeitos” devem ter esta mesma consciência. Pode soar paradoxal, mas aos olhos de Deus somos perfeitos enquanto reconhecemos nossa imperfeição. Somos fortes, quando reconhecemos nossa fraqueza. Somos completos, quando reconhecemos nossa incompletude.

Em vez de buscarmos desenfreadamente por satisfação pessoal, estabeleçamos alvos que vão além de nós, sonhos que nos sobrevivam, que se tornem um legado para as próximas gerações.

Só uma alma pequena pensa só em si mesmo. Parafraseando o poeta, a vida só vale à pena, quando a alma não é pequena. Quando ela é capaz de entregar-se inteiramente por ideais que estejam acima de suas pretensões pessoais; quando se dispõe a qualquer sacrifício em prol de um bem infinitamente maior.

Com isso em mente, até episódios tristes de nossa vida, serão reavaliados e interpretados como “filhos da felicidade”.

* Publicado originalmente em 5/9/2009

quinta-feira, agosto 21, 2014

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Que tal ser seu próprio pastor?

Por Hermes C. Fernandes

Israel viveu um período caracterizado pela desordem social que precedeu o estabelecimento da monarquia. Vejamos algumas das características e fatos marcantes desse período anárquico.1
“Havia um homem da região montanhosa de Efraim cujo nome era Mica, o qual disse a sua mãe: Os mil e cem siclos de prata que te foram tirados, por cuja causa deitavas maldições e de que também me falaste, eis que esse dinheiro está comigo; eu o tomei. Então, lhe disse a mãe: Bendito do Senhor seja meu filho! Assim, restituiu os mil e cem siclos de prata a sua mãe, que disse: De minha mão dedico este dinheiro ao Senhor para meu filho, para fazer uma imagem de escultura e uma de fundição, de sorte que, agora, eu to devolvo...” (Juizes 17:1-3).
Repare na atitude incoerente da mãe de Mica. Ela consagrara ao Senhor o dinheiro que lhe fora restituído pelo seu filho, entregando-o para que fizesse uma imagem de escultura, um ídolo. Como se poderia conciliar o culto ao Senhor à idolatria? Ou nas célebres palavras de Paulo: “E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?” (2 Co.6:16a). Tal confusão nada mais é que um dos efeitos colaterais advindos da ausência de liderança espiritual. Sem ela, o povo tende a se corromper.

Mica, vendo que o uso de todo aquele dinheiro para a confecção de ídolos seria um desperdício, “restituiu o dinheiro a sua mãe, que tomou duzentos siclos de prata e os deu ao ourives, o qual fez deles uma imagem de escultura e uma de fundição; e a imagem esteve em casa de Mica. E, assim, este homem, Mica, veio a ter uma casa de deuses; fez uma estola sacerdotal e ídolos do lar e consagrou a um de seus filhos, para que lhe fosse por sacerdote” (Jz.17:4-6).

Nosso amigo Mica resolveu entrar na dança. Aproveitou-se da idéia da mãe, e resolveu abrir sua própria “igreja”. Agora ele era seu próprio líder espiritual. Não teria mais que freqüentar o tabernáculo em Siló para oferecer sacrifícios a Deus, nem ter que prestar contas a ninguém. Finalmente, livre! Além de um templo improvisado, Mica consagrou seu personal priest, isto é, um sacerdote particular e que lhe fosse sujeito, seu próprio filho. Porém, de onde veio a autoridade para consagrar um sacerdote? Quem lhe outorgou tal autoridade?

Infelizmente, constatamos que o mesmo fenômeno tem-se popularizado em nossos dias. Homens sem qualquer escrúpulos impõem as mãos sobre sua própria cabeça, e se auto-consagram. E assim, surgem novos apóstolos, bispos, pastores, sem o respaldo de quem quer que seja. Eu chamaria isso de Síndrome de Napoleão, pois o mesmo não aceitou receber a coroa das mãos do Bispo, como geralmente requeria o protocolo, mas preferiu coroar-se a si mesmo.

À luz das Escrituras, só pode exercer autoridade, quem estiver sob autoridade. Nem mesmo Jesus escapou a regra. Por duas vezes o Pai bradou do céu: “Este é meu Filho”. Em uma das vezes, Ele disse: “...em quem me comprazo” (Mt.3:17). E na outra vez: “...a Ele ouvi!” (Mt.17:5). A menos que a mesma voz se faça ecoar dos céus, ninguém está autorizado a exercer autoridade, se ela não for respaldada por outra autoridade. Sem isso, o reino de Deus se tornaria numa anarquia.

O verso 6 nos revela a razão de tantas bizarrices:

“Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos.”

Sem liderança, sem autoridade, cada um faz o que dá na telha.


Em Busca de Legitimação

Pelo jeito, o ministério de Mica não decolou logo de início. Não havia credibilidade no sacerdócio de seu filho. Afinal de contas, ele sequer era da tribo de Levi.

A temporada de caça a um sacerdote de verdade estava aberta. A arapuca estava armada. Era uma questão de tempo...

O texto prossegue:
“Havia um moço de Belém de Judá, da tribo de Judá, que era levita e se demorava ali. Esse homem partiu da cidade de Belém de Judá para ficar onde melhor lhe parecesse. Seguindo, pois, o seu caminho, chegou à região montanhosa de Efraim, até à casa de Mica...” (Juizes 17:7-8).
Lá estava a presa perfeita! Qualquer um que se atreva a seguir seu próprio caminho será presa fácil nas mãos de quem tem sua agenda particular. Aquele levita tinha pedigree, e estava disposto a ficar onde melhor lhe parecesse. Só lhe faltava alguém que lhe fizesse uma boa oferta.
“...Perguntou-lhe Mica: Donde vens? Ele lhe respondeu: Sou levita de Belém de Judá e vou ficar onde melhor me parecer. Então, lhe disse Mica: Fica comigo e sê-me por pai e sacerdote; e cada ano te darei dez siclos de prata, o vestuário e o sustento. O levita entrou e consentiu em ficar com aquele homem; e o moço lhe foi como um de seus filhos. Consagrou Mica ao moço levita, que lhe passou a ser sacerdote; e ficou em casa de Mica. Então, disse Mica: Sei, agora, que o Senhor me fará bem, porquanto tenho um levita por sacerdote” (Juizes 17:9-13).
O jovem levita se entregou quando disse: “Vou ficar onde melhor me parecer”. Mica, sem perda de tempo, lhe fez a proposta: “Fica comigo!” O salário? Dez siclos de prata! Alguém ainda recorda quanto Mica recebeu de sua mãe? Mil e cem siclos de prata. Duzentos foram gastos na confecção dos ídolos. Ainda lhe restaram novecentos siclos de prata. Ele bem que poderia ter oferecido um salário mais digno ao levita. O que seriam dez siclos de prata por ano? Aquele jovem levita estava em liquidação! Era pegar ou largar.

A ausência de liderança pode resultar na ausência de senso de valores. Liderança é referência. E sem referência, a escala de valores se inverte.

Juízes 18 começa dizendo: “Naqueles dias, não havia rei em Israel”. Eis onde residia o problema! Naqueles dias não havia referência, ordem, autoridade, e isso provia a oportunidade pra todo tipo de exploração, desordem e descaso.

Enquanto Mica “assinava a carteira” do jovem levita, outra cena começava a se desdobrar do outro lado do reino anárquico de Israel.: “A tribo dos danitas buscava para si herança para habitar; porquanto até àquele dia entre as tribos de Israel lhe não havia caído em herança bastante sorte...” (Juizes 18:1).

Se não há liderança, aonde recorrer em casos de injustiça? Os filhos da tribo de Dã não estavam satisfeitos com a sua porção na distribuição da terra entre as tribos de Israel. Desde que Israel entrou na Terra Prometida, Deus havia levantado juízes aos quais Seu povo pudesse recorrer. Esses juízes serviram como líderes do seu povo durante alguns séculos, e tiveram papel importante em momentos de crise. Sansão havia sido o último deles até então. Sua morte abriu um hiato, que só seria preenchido com a chegada do último dos juízes, Samuel, que ungiria mais tarde o primeiro rei de Israel. Entre Sansão e Samuel, Israel viveu um tempo de completa anarquia. Além de não ter ninguém para liderá-los contra seus inimigos externos, as tribos de Israel começaram a guerrear entre si. E a mais importante questão que deflagrava a guerra civil em Israel era a distribuição de terras. Algumas tribos se sentiram injustiçadas, e queriam anexar novos territórios à sua herança. Entre essas tribos, estava a de Dã. Por que a tribo de onde viera o último Juiz de Israel, Sansão, o grande herói na resistência contra os filisteus, se daria por satisfeita com uma herança tão ínfima?

Nesse contexto, “enviaram os filhos de Dã da sua tribo cinco homens dos seus confins, homens valorosos, de Zorá e de Estaol, a espiar e rastejar a terra; e lhes disseram: Ide, rastejai a terra. E vieram à montanha de Efraim, até à casa de Mica, e passaram ali a noite...” (Juizes 18:2). Interessante notar a ordem dada àqueles valentes de Dã: “Ide, rastejai a terra”. Rastejar lembra a maneira como as serpentes se locomovem. Na bênção proferida por Jacó aos seus filhos antes de sua morte, encontramos: “Dã julgará o seu povo, como uma das tribos de Israel. Dã será serpente junto ao caminho, uma víbora junto à vereda” (Gn.49:16-17a). Isso nos remete à maldição de Deus proferida à serpente no Éden: “Sobre o teu ventre andarás...” (Gn.3:14). A conexão fica mais clara, quando o patriarca Jacó exclama: “A tua salvação espero, ó Senhor!” (Gn.49:18).

À semelhança dos filhos de Dã, Satanás é, por definição, aquele que se sente injustiçado por Deus. Para quem não basta ser “portador de luz”, tem que ser a própria fonte da luz. Assim como Dã cobiçou o lugar de outra tribo de Israel, Satanás é quem é capaz de cobiçar até a mais importante posição do Universo: o trono de Deus.

Deus disse a Josué que onde os filhos de Israel pusessem seus pés, o Senhor já lhes havia dado por herança. Por isso, os filhos de Dã rastejavam. Eles não poderiam colocar os pés naquilo que não lhes fora destinado.

Semelhantemente, o diabo rasteja. Ele não tem herança na Terra! A Terra e toda a sua plenitude pertencem ao Senhor, e nos foram entregues por herança.

Quando os espias de Dã chegaram à casa de Mica,“conheceram a voz do jovem, do levita; e chegaram-se para lá e lhe disseram: Quem te trouxe aqui, que fazes aqui e que é o que tens aqui? E ele lhes disse: Assim e assim me tem feito Mica; pois me tem assalariado, e eu lhe sirvo de sacerdote” (Juizes 18:3-4). Só faltava esta! Um levita dando sopa naquele território...

Embora estivesse no lugar errado, e na hora errada, ele tinha uma vantagem: era sacerdote. Independente da tribo a que pertencesse, qualquer filho de Israel respeitaria um levita sacerdote. Aproveitando sua presença inusitada, os danitas lhe pediram: “Ora, consulta a Deus a Deus, para que saibamos se prosperará o caminho que seguimos. Disse-lhes o sacerdote: Ide em paz. O caminho que seguis está perante o Senhor...” (Juizes 18:5-6).

O que se poderia esperar de um sacerdote vendido? Ele tinha que dançar conforme a música. Vendo o que os danitas pretendiam, o jovem sacerdote não pensou duas vezes. Para salvar sua pele, abençoou a empreitada dos danitas.

Muitos não buscam liderança, nem orientação, mas apenas a legitimação de seus atos. Não querem que alguém lhes diga o que fazer, mas apenas abençoe seus próprios empreendimentos. Agora, com o fôlego renovado depois da bênção proferida pelo sacerdote marionete, “foram-se aqueles cinco homens, e chegaram a Laís, e viram que o povo que havia nela estava seguro, conforme o costume dos sidônios, em paz e confiado. Não havia naquela terra falta de coisa alguma: era um povo rico e estando longe dos sidônios, não tinha relações com ninguém” (Juizes 18:7).

O preço do Isolamento

Os cidadãos de Laís formavam uma sociedade bem organizada, próspera, pacífica, porém, isolada. Adotavam o modelo e os costumes de Sidom, porém, não tinham qualquer compromisso com aquele povo. Eram apenas uma imitação da cultura sidônia. Viviam como os sidônios, mas não se relacionavam com eles. Eram, portanto, as vítimas perfeitas.

Mas faltava algo para que os danitas avançassem nas terras de Laís. Não bastava a palavra do sacerdote, eles queriam tê-lo do seu lado.
“Entrando eles, pois, na casa de Mica e tomando a imagem de escultura, a estola sacerdotal, os ídolos do lar e a imagem de fundição, disse-lhes o sacerdote: Que estais fazendo? Eles lhe disseram: Cala-te! Não digas uma palavra. Vem conosco, e sê-nos por pai e sacerdote. O que te é melhor? Ser sacerdote da casa de um só homem ou de uma tribo e de uma geração em Israel? Então o coração do sacerdote se alegrou. Tomou a estola sacerdotal, os ídolos do lar, a imagem de escultura e foi com o povo” (Juizes 18:18-20).
Déjá-vu! A sensação que temos ao ler este trecho é de que já vimos este filme antes. Alguém já havia feito oferta semelhante àquele jovem sacerdote: “Sê-nos por pai e sacerdote”. Até aí, nada de novo. Era a mesma oferta que Mica lhe havia feito. Porém, algo novo foi introduzido: “O que te é melhor?...” Ora, entre ser sacerdote de uma casa, e ser sacerdote de uma tribo e de uma geração, estava claro o que parecia melhor para aquele inexperiente levita. Sem pestanejar, o sacerdote tomou os ídolos de seu patrão, a estola que havia recebido dele, e partiu com os danitas. Ele não apenas virou a casaca, traiu seu chefe, como também saqueou sua casa. Mica ficou sem eira nem beira, sem sacerdote e sem seus ídolos.

Quem se vende uma vez, sempre estará disponível para a venda. Ou como disse alguém, quem serve a Deus por dinheiro, servirá ao diabo por um salário melhor. A oferta feita pelos danitas era irrecusável. Além de sustento, ele teria mais prestígio.

Pena que esta história não tem um final feliz. Pelo menos, não para os moradores de Laís.
“Então levaram o que Mica havia feito, e o sacerdote que tivera, e chegaram a Laís, a um povo pacífico e confiado. Feriram-nos ao fio da espada, e queimaram a cidade a fogo...” (Juizes 18:27).
E por que os cidadãos daquela cidade rica tiveram um fim tão triste?
“...Ninguém houve que os livrasse porque estavam longe de Sidom, e não tinham relação com ninguém” (Juizes 18:28a).
Não adiantava para eles, viver como sidônios, estando longe de Sidom. Aprendemos com isso que quanto mais isolados somos, mais vulneráveis nos tornamos. Se quisermos estar preparados para eventuais investidas do inimigo, não podemos abrir mão de dois elementos essenciais: liderança e comunhão.

1 - Anarquismo é uma palavra que deriva da raiz grega αναρχία — an (não, sem) e archê (governo). 

terça-feira, agosto 19, 2014

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Ajuste sua mira! Acerte o alvo de sua existência


Por Hermes C. Fernandes

“Um só alvo, uma só chance, uma visão além do alcance”. Este foi o lema adotado pela REINA, igreja que pastoreio, anos atrás. Proponho que o examinemos, ponto a ponto.

Ora, se há um só alvo, qual seria? Quando falamos de alvo, falamos de objetivo, propósito. Qual seria, afinal, o propósito de nossa existência como igreja, ou mesmo como seres humanos?

Uns responderiam: ganhar almas; outros diriam: adorar a Deus; e ainda outros: tornarmo-nos parecidos com Cristo. Todas as respostas estão corretas, porém não abrangem o principal. Ganhar almas é o nosso alvo evangelístico. Mas por que devemos ganhar almas?  Adorar a Deus é o nosso alvo cúltico. Porém, qual a razão pela qual devemos adorá-lO? Tornarmo-nos parecidos com Cristo é o alvo do nosso discipulado. Mas qual a finalidade disso? Haveria um alvo que englobasse todas estas respostas?

Imagine um alvo formado de vários círculos. Há um círculo menor no centro de todos os outros. Quem atingir a este círculo estará atingindo a todos os demais. Partindo do maior círculo para o menor, todos sobrepõe-se uns aos outros. Portanto, o menor que está no centro sobrepõe-se aos demais. A flecha que o perfurar estará perfurando a todos. Mas se atingirmos os maiores, negligenciaremos os demais que estiverem sobrepostos a eles.

Qual, portanto,será o alvo dos alvos, aquele que engloba em si mesmo todos os demais? Para onde devemos direcionar nossa mira?

          Deixemos que a própria Palavra nos indique:
“Olhando fimemente para Jesus, autor e consumador da nossa fé” (Hb.12:2a).
Olhar firmemente nada mais é do que mirar, fixar pontaria. Ele é o alvo-mor de nossa existência. É para Ele que todas as coisas devem convergir, pois não é o alvo apenas da igreja, mas de todas as coisas que estão no céu na terra (Ef.1:10).

Ele encerra em Si mesmo toda a realidade. Nem o céu dos céus O podem conter (2 Crônicas 6:18), porém todas as coisas estão contidas n’Ele. No dizer de Paulo, “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At.17:28). Ele é o ponto de encontro entre o Criador e a criação. N’Ele habita, ao mesmo tempo, a plenitude da criação e a plenitude da divindade (Cl.1:19; 2:9). Por isso Ele pode reconciliar “consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus” (Cl.1:20).

N’Ele todas as coisas existentes são re-significadas. Mirando n’Ele, miramos o Mundo para o qual Ele foi enviado. Nosso alvo é Ele, mas Seu alvo é o Mundo. Nosso amor ao mundo deve derivar-se de nosso amor a Ele. Amamos o Mundo n’Ele, e não à parte d’Ele.

Se mirarmos no mundo, atingiremos os círculos periféricos do alvo, e não o seu centro. O nome disso é pecado. Por isso se diz que se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele (1 Jo.2:15).

Permita-me uma analogia.

O sexo é bom. Foi Deus quem o criou. Porém, deve ser cultivado dentre de um relacionamento perene, o qual chamamos de casamento. Fora dele, o sexo se torna pecaminoso e danoso à alma. Assim também, o mundo, enquanto criação de Deus é bom (1 Tm.4:4). Foi Deus quem o criou, e amou a tal ponto de dar Seu Unigênito para redimi-lo. Porém, nosso amor a ele deve ser fruto de nosso amor a Cristo. Amar ao mundo à parte de Cristo é o mesmo que praticar o sexo fora do contexto conjugal. O nome disso é infidelidade.

Quando nos casamos com a pessoa amada, o sexo é como um bônus. Quem não se sentiria ofendido se soubesse que seu cônjuge casou-se interessado somente em sexo?

Ao buscarmos o Reino de Deus em primeiro lugar, fazendo de Cristo, o padrão da justiça divina, nosso alvo, todas as demais coisas nos são acrescentadas. O que não podemos é inverter a ordem e fazer de tais coisas nosso alvo. Quando nos dispomos a perder tudo por Cristo é que ganhamos todas as coisas.
“E, na verdade, tenho também por perda TODAS AS COISAS, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem sofri a perda de TODAS ESTAS COISAS, e as considero refugo, para que possa ganhar a Cristo”(Fp.3:8).
Portanto, não sobra nada. É perda total! Porém, perda momentânea que resulta em ganho eterno.
“Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele TODAS AS COISAS?” (Rm. 8:32).
Quando focamos nossa vida n’Ele, perdemos tudo, para ganharmos tudo. Ele Se torna nosso único bem. “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti”(Salmos 73:25).

Fomos conquistados por Cristo para conquistarmos a Cristo (Fp.3:12). Não se trata de conquista no sentido de posse, mas no sentido de nos assemelharmos a Ele.  Fomos enxertados n’Ele e agora Sua Palavra tem que ser implantada em nós (Jo.15:7). Ele está em nós e devemos ser achados n’Ele (Fp.3:9). Ele nos adquiriu, agora temos que ganhá-lO (Fp.3:8). Em termos de salvação, sou monergista. Creio numa salvação que parte d’Ele, sem qualquer colocaboração nossa. Porém, em matéria de comunhão, sou sinergista. Fomos escolhidos para ser Sua esposa. Isto foi obra inteiramente d’Ele. Porém, quando adentramos os Seus aposentos, somos seduzidos por Seu amor, e não violados. Há, portanto, uma cumplicidade. E quem poderia resistir ao Seu galanteio? Ele Se torna nosso único tesouro, pelo qual nos dispomos a abrir mão de tudo.

O mundo já não nos enche os olhos. Já não é objeto de nosso desejo, porém, torna-se objeto de nosso amor à medida que nos tornamos canais de Seu amor. Amamos a criação por ela remeter-nos ao Criador, mas jamais a honraremos e serviremos no lugar d’Ele (Rm.1:25).

Porém, como honraremos e serviremos ao Criador, se não nos dispusermos a honrar e servir à Sua obra? Creio que a resposta a esta aparente contradição está no expressão “n’Ele”. O problema não é honrar e servir à criatura, e sim, honrá-la e servi-la ‘no lugar’ do Criador. Assim como o problema não é o dinheiro e sim o amor ao dinheiro. Não é o sexo, mas sim a promiscuidade. Não é a comida, e sim a glutonaria. Não é o vinho, e sim o alcoolismo. Não é o sono, mas a preguiça.

Tudo quanto fizermos, deve ter como alvo a Cristo.

Mesmo quando estendemos as mãos aos necessitados, o fazemos por identificarmos neles o próprio Cristo, de quem um dia ouviremos: “Tive fome, e me destes de comer…” (Mt. 25:35). É por amarmos a Cristo, que amamos tudo e todos quanto Ele ama, da mesma forma como repudiamos tudo quanto Ele repudia. Por isso Ele diz: “Buscai o bem, e não o mal, para que vivais (…) Aborrecei o mal, e amai o bem” (Amós 5:14-15). E mais: “Vós, que amais o Senhor, detestai o mal” (Sl.97:10). Assim, amamos o pobre, mas detestamos a injustiça que causou sua miséria. Amamos o pecador, mas detestamos o pecado que o destrói. Devemos, portanto, nutrir os mesmos sentimentos que houve em Cristo”(Fp.2:1). Tudo o que foi alvo de Seu amor, deve ser igualmente alvo do nosso.

E não basta ter o mesmo sentimento. Devemos adotar a mesma postura, o mesmo procedimento:
“Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1 Jo.2:6).
“Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós. E devemos dar a nossa vida pelos irmãos” (1 Jo.3:16).
“E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor. Quem  está em amor está em Deus, e Deus nele. Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo (…) E dele temos este mandamento, que quem ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 Jo.4:16-17,21).
Não buscamos a Deus em templos feitos por mãos humanas. Quem assim faz, erra o alvo, pois “Deus não habita em templos” (At.7:48). Em vez disso, buscamos a Deus no outro, no excluído, no marginalizado, pois com os tais que Ele Se identifica. Ele não está nas catedrais, mas sob as marquises. Ele não é encontrado sob as abóbadas das mesquitas, mas sob a abóbada celeste, entre aqueles que dormem a relento. Se quisermos encontrá-lO, saiamos ao Seu encontro lá fora, no Mundo. “Saiamos, pois, a ele, fora do arraial” (Hb.13:13a).

O sacrifício que Lhe agrada não se resume em louvor. Mãos erguidas a Ele em adoração, devem ser estendidas ao próximo em doação, caso contrário, seu louvor não passará de bajulação. Deus já está farto de tais sacrifícios! Ele mesmo diz: “De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios, diz o Senhor? (…) Cessai de fazer o mal, e aprendei a fazer o bem!” (Is.1:11,16b-17a).

Sacrifícios só Lhe são aprazíveis quando oferecidos “”por meio de Cristo” e resultem na prática do bem, na partilha com os outros.
Portanto, ofereçamos sempre por meio dele a Deus sacrifício de louvor, que é o fruto dos lábios que confessam o seu nome. Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com outros, pois com tais sacrifícios Deus se agrada” (Hb.13:15-16).
Pecado é errar o alvo. É viver em função de seu próprio aprazimento. Em suma, pecado é viver para si. Constrangidos por Seu amor, somos desafiados a desviarmos o foco de nós mesmos para Cristo, e assim, passar a nos importar com o que Ele Se importa. “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu” (2 Co.5:15).

domingo, agosto 17, 2014

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Bipolaridade espiritual



Amo analisar como cristãos compreendem o mundo a seu redor. Claramente se pode diagnosticar a visão de mundo de um cristão ou de qualquer pessoa por máximas que saem de seus lábios. Há alguns dias ouvi de uma pessoa evangélica: "A oração é para o mundo espiritual e o dinheiro é para o mundo material". Minha consciência se afligiu imediatamente, senti uma dor no estômago e não consegui parar de pensar nesta afirmação. Estava diante de alguém que sofria de bipolaridade espiritual.

Qual é o problema desta frase? Fiquei pensando no tipo de cristianismo que este sujeito anda recebendo. Fiquei pensando nos pastores que o ensinam e o doutrinam. Fiquei pensando nas músicas que ele ouve, ou nos livros que lê, se lê. Ou ainda o pior, como ele lê a Bíblia? Enfim, em que Cristo este cristão crê?

Não questiono sua salvação. Mas, fico pensando quão perversa é a forma como alguns ditos seguidores de Jesus vivem e pensam.

Todo problema reside na visão de vida. Há pessoas que entregaram a vida nas mãos do dinheiro, empurraram a vida do Governo de Deus para uma outra coisa. Restringiram o governo de Deus a uma realidade virtual, criaram uma esfera metafísica, translúcida e imaginária, onde Deus atua, e excluíram Deus da própria santidade da vida.

Como se não houvesse espiritualidade na própria vida, a vida como um todo; como se comer, vestir, trabalhar, comercializar, amar, estudar, fossem dimensões autônomas, seres animados, demiurgos, energias cósmicas ou espíritos elementares. Deram tanta autonomia às coisas criadas que a oração não alcança o dinheiro, a deusa fortuna, torna-se senhora, ídolo. Deus não tem competência para lidar com a vida. Não tem competência para lidar com realidade da dimensão humana, ao contrário, está restrito à liturgia eclesiástica, aos coros, ao universo gospel, aos púlpitos. Por isso, para eles, fora da Igreja quem governa é o cão, é Mamom, são os encostos, a corrupção política e a imoralidade.

Ora, este não é o Cristo que creio, não é o Senhor a quem foi dado todo poder nos céus e na terra. Se é Senhor, governa, tem a chave da morte e do inferno, pois é Senhor da Vida. Senhor de toda vida. Não há nada que não esteja sob sua jurisdição, sob égide de seu poder. Tudo se dobra diante dEle, potestades, principados, tudo se curva.

O problema é que a vida foi achatada, segregada, colocada em um gueto, como se espiritualidade fosse uma coisa manca, sem criatividade, sem vitalidade. Um fóssil enterrado à sete palmos de dogmas, cânticos e orações cheirando a mofo. Ora bolas! Que fé é esta? Quem pregou este evangelho? Com certeza não é esta a boa-nova que saiu dos lábios do Messias judeu, não foram estas as palavras que saíram de Sião e espalharam-se por toda terra.

Jesus criou uma escola da vida, do carisma, da criatividade, de homens que coloriram o mundo com a vitalidade, que proclamavam liberdade na terra, como no Ano do Jubileu, onde prisões eram abertas e cartas de alforria eram distribuídas.

Até quando veremos cristãos restringindo todo potencial criativo de Deus ao gueto de uma espiritualidade quase esotérica, mística e hermética. Até quando se pode tolerar um mundo animado por Gaia, regido por avatares, energias cósmicas?

Ora, o mesmo Deus que criou, criou com palavras, com decretos, para por meio de sua ordem sustentasse toda existência em torno do que Ele é. Toda existência deve reverenciá-lo e reconhecê-lo como Senhor de toda Vida.

"Fez a lua para marcar o tempo; o sol conhece a hora do seu ocaso. Dispões as trevas, e vem a noite, na qual vagueiam os animais da selva. Os leõezinhos rugem pela presa e buscam de Deus o sustento; em vindo o sol, eles se recolhem e se acomodam nos seus covis.Sai o homem para o seu trabalho e para o seu encargo até à tarde. Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas" (Salmo 104:19-24).

Por: Igor Miguel - Ultimato (Via Emeurgência)

sexta-feira, agosto 15, 2014

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Frankenstein, o deus que criamos com os retalhos de nossa teologia!


Por Hermes C. Fernandes

Não basta adquirir a verdadeira sabedoria comparada ao ouro e a prata como material com o qual construiremos nosso edifício existencial. Há que se tomar todos os cuidados para que este mesmo material não seja desviado de seu propósito original, e tenha outra utilidade.

Foi o que aconteceu com o povo hebreu recém-saído do Egito.

Enquanto Moisés estava no monte, recebendo do Senhor as instruções que deveriam guiar o Seu povo até a conquista da Terra Prometida, os filhos de Israel resolveram amotinar-se e dar àquele ouro um novo destino.

Imagine: o que poderia ter acontecido a um homem idoso, que já demorava quarenta dias no topo de um alto monte no deserto?

 “Vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu. Êxodo 32:1

Qual deveria ser a resposta de Arão? No mínimo, deveria ter repreendido o seu povo, chamando-o à consciência. Mas em vez disso, o irmão mais velho de Moisés preferiu trair sua confiança e dar ao povo o que lhe era pedido.

Semelhantemente, há muitos em nossos dias que parecem discípulos de Arão. Inescrupulosamente, dão ao povo o que lhes pede. Não têm compromisso com a verdade. Em vez de se importarem com o que é certo, pautam suas decisões naquilo que dá certo. Para os tais, o que vale não é o que diz a Palavra de Deus, e sim, o ditado popular: a voz do povo é a voz de Deus!

Já que o povo deseja um ídolo para adorar, vamos providenciá-lo. Sem titubear, “Arão lhes disse: Arrancai os pendentes de ouro, que estão nas orelhas de vossas mulheres, e de vossos filhos, e de vossas filhas, e trazei-mos. Então todo o povo arrancou os pendentes de ouro, que estavam nas suas orelhas, e os trouxeram a Arão. E ele os tomou das suas mãos, e trabalhou o ouro com um buril, e fez dele um bezerro de fundição. Então disseram: Este é teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito. E Arão, vendo isto, edificou um altar diante dele; e apregoou Arão, e disse: Amanhã será festa ao SENHOR. E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se a comer e a beber; depois levantou-se para farrear” (Êxodo 32:2-6).

O ouro que deveria ser destinado à fabricação dos utensílios do tabernáculo do Senhor, agora era usado na confecção de um ídolo para afrontar Àquele que os havia tirado do Egito com braço forte, com sinais e prodígios jamais vistos na história da humanidade. Isso os tornavam indesculpáveis aos olhos de Deus! Nenhuma justificativa plausível! Sem o menor recato, eles promoveram uma noite de orgia, comendo, bebendo e farreando diante do ídolo confeccionado com o ouro que o Senhor lhes provera.

Então disse o SENHOR a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem corrompido, E depressa se tem desviado do caminho que eu lhe tinha ordenado; eles fizeram para si um bezerro de fundição, e perante ele se inclinaram, e ofereceram-lhe sacrifícios, e disseram: Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito. Disse mais o SENHOR a Moisés: Tenho visto a este povo, e eis que é povo de dura cerviz.” 
Êxodo 32:7-9

Que decepção! Deus não merecia tamanha traição! Embora nosso estômago pareça embrulhar diante deste relato, temos que admitir que a igreja tem incorrido no mesmo erro durante séculos. Veja o que temos feito com tudo aquilo que o Senhor nosso Deus tem investido em nossa vida...

O que era destinado ao louvor de Sua glória, agora tem sido usado na confecção de novos ídolos, não feitos de ouro ou prata propriamente, ou de qualquer outro material, mas feitos a partir de concepções distorcidas da verdade, de ideologias sacramentadas, de modelos e burocracia eclesiásticos, de orgulho denominacional, de líderes carismáticos, de credos e confissões que passam a ter relevância semelhante à das Escrituras, de liturgias ultrapassadas, de estratégias evangelísticas, etc.

Ninguém escapa! Todos somos igualmente culpados do mesmo pecado. Temos dado ao povo o que o povo quer. Nem sequer nos preocupamos com a decepção que provocamos no coração do nosso Deus. Ele ao menos é consultado.

 Já que Cristo demora tanto a vir, achamos que a igreja agora é nossa, e que, portanto, fazemos dela o que bem entendermos. Só nos esquecemos da advertência feita pelo apóstolo:

Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória.” 
1 Pedro 5:1-4

O dia da prestação de contas está chegando! Dele ninguém escapará! Ninguém poderá dar carteirada no Senhor, alegando ser ‘apóstolo’, ‘bispo’, ‘reverendo’, ou qualquer outra coisa.

Temos recebido do Senhor um voto de confiança que nem mesmo os anjos receberam, embora acredite serem bem mais competentes do que nós. Não temos o direito de decepcioná-lo, como temos feito ao longo de nossa história. 

Isaías profetiza que “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito” (Isaías 53:11). Mas o que será se em vez disso, houvermos recebido a graça em vão, como admoesta Paulo (2 Co.6:1)?

Em vez de satisfação, decepção. Qual tem sido a avaliação que Deus tem feito do nosso trabalho? Temos sido Moisés ou Arão? Que destino temos dado ao ouro que recebemos? Que temos feito com a graça? Estaríamos transformando-a em justificativa para nossa libertinagem como fizeram os gálatas?  

O apartheid, regime de segregação racial que predominou na África do Sul por mais de 40 anos, foi criado a partir de uma concepção errada da doutrina da eleição.[1] Foram protestantes que diziam crer nas doutrinas da graça e que abraçavam confissões de fé históricas que criaram aquele monstro. Quantos monstros semelhantes não têm sido criados a partir do mesmo ouro que recebemos do Senhor? Quantos regimes autoritários já não apoiamos com base em Romanos 13, por exemplo? Quanto preconceito não temos fomentado ao longo da História? De onde vem a famigerada "Teologia da Prosperidade"? 

Nossa teologia e, consequentemente, nossa práxis, lembram o monstro criado no laboratório de Frankenstein. O "deus" que criamos reflete exatamente o que somos, uma colcha de retalhos onde verdades e preconceitos são costurados entre si. Esse deus caricato não é o Deus revelado em Jesus, mas um ídolo, projeção de nossas mentes enfermas pelo pecado. 

Até que ponto não temos usado a graça descaradamente para justificar nossas perversões e idiossincrasias?

Urge darmos meia volta, abandonando nossos ídolos, por mais caros que nos sejam, e voltando-nos para Aquele que nos confiou tão grandiosa graça. E que Ele, o Sumo Pastor, ao manifestar-Se em glória, dê-se por satisfeito ao encontrar-nos pavimentando a estrada do futuro com o ouro que houvermos recebido.




[1] O apartheid foi um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul, no qual os direitos da grande maioria dos habitantes foram
cerceados pelo governo formado pela minoria branca.

* Sugiro que sejam lidos os dois posts anteriores a este para uma compreensão mais abrangente do que colocamos aqui.

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Qual o prazo de validade daquilo que você está construindo na vida?




Por Hermes C. Fernandes

Obviamente, é mais conveniente construir com palha, pois a mesma é encontrada com abundância na natureza. Trata-se daquilo que um dia era verde, tinha raízes, frescor,e agora está seco, porém com  relativa resistência.

Os antigos egípcios faziam seus tijolos a partir da mistura de barro com palha. Quando Moisés anunciou a Faraó a firmeza de seu propósito em tirar seu povo do Egito para adorar a Deus no deserto, este ordenou que os oficiais egípcios privassem os hebreus da palha com que fabricavam os tijolos.

“Portanto deu ordem Faraó, naquele mesmo dia, aos exatores do povo, e aos seus oficiais, dizendo: Daqui em diante não torneis a dar palha ao povo, para fazer tijolos, como fizestes antes: vão eles mesmos, e colham palha para si. E lhes imporeis a conta dos tijolos que fizeram antes; nada diminuireis dela, porque eles estão ociosos; por isso clamam, dizendo: Vamos, sacrifiquemos ao nosso Deus.” Êxodo 5:6-8

Agora, eles teriam que providenciar sua própria palha, sem deixar que a produção diminuísse. Para Faraó, aquelas ideias abolicionistas eram fruto de mentes ociosas. Por isso, para evitar um levante, era necessário mantê-los mais ocupados. Portanto, procurar por palha servia como distração. Algo como "pão e circo", lema usado pelos romanos para manter o povo ocupado demais para pensar. 

Todos os sistemas erigidos pelo gênio humano são feitos de palha. Podem até durar uma ou mais gerações, mas eventualmente serão reduzidos a nada. Ainda é possível encontrar muitas construções creditadas aos antigos egípcios, porém o império que as patrocinou só existe nos livros de História. Não restou pedra sobre pedra. Ainda que cada império tenha deixado algum legado para a posteridade, o sistema em si entrou em colapso. Seu prazo de validade expirou.

Poderíamos dizer que cada sistema experimenta seu próprio “apocalipse”. Foi assim com Jerusalém e seu sistema cúltico no ano 70 d.C. Foi assim com Roma, com o império Bizantino, com as potências náuticas do século XV, com os impérios pré-colombianos das Américas, com a França de Napoleão, com a Alemanha nazista de Hitler, com o fascismo de Mussolini, com o comunismo no Leste Europeu, com a Rússia, e certamente será assim com a hegemonia americana e a civilização ocidental. Todos estão fadados a desaparecer. 

Se quisermos construir nossas vidas a partir desse mesmo material, não precisamos sequer nos esforçar tanto. Basta que nos conformemos aos valores vigentes neste mundo.

Porém, se almejamos algo a mais, um legado para a posteridade, que sobreviva à nossa partida e beneficie às gerações vindouras, temos que escolher outro material para a edificação de nosso edifício existencial.

O salmista afirma que Deus, ao tirar Seu povo do Egito, fê-los sair “com prata e ouro e entre as suas tribos não houve um só enfermo” (Salmos 105:37). O coração dos egípcios compadeceu-se deles, indenizando-os com ouro e prata por todo tempo em que os tinha servido de graça (Êx.12:35-36).

Apesar dos egípcios terem sido os canais pelos quais os hebreus foram abençoados com tamanha fartura de metais preciosos, a fonte única e inesgotável é o Senhor. Foi Ele mesmo quem disse: “Minha é a prata, meu é o ouro, disse o Senhor dos Exércitos” (Ageu 2:8).

Tanto o ouro, quanto a prata são símbolos da verdadeira sabedoria e da prudência, respectivamente. O sábio Salomão declara: “Quão melhor é adquirir a sabedoria do que o ouro! e quão mais excelente é adquirir a prudência do que a prata!” (Provérbios 16:16).

Ouro e prata não são encontrados com a mesma facilidade que a palha. Entretanto, qualquer coisa confeccionada com tais metais, está destinada a durar para sempre. A menos que seja derretida numa temperatura altíssima. Já a palha queima rapidamente, bastando uma faísca.

Como já vimos, cada um desses materiais tem seu próprio fornecedor. Se quisermos palha, o mundo prontamente nos atenderá (pode ser que às vezes nos faça como fez Faraó aos hebreus, dificultando um pouco nossa busca). Mas se quisermos ouro e prata, teremos que buscá-los em Deus, fonte de toda sabedoria.

Tiago nos traça um paralelo entre a sabedoria adquirida em Deus e a oferecida pelo mundo.

“Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa. Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.” Tiago 3:13-17

A prova dos nove para que nos certifiquemos de que a sabedoria esboçada por alguém tem boa proveniência é o trato dispensado aos outros. O sábio segundo o mundo costuma ser arrogante, pedante, cheio de prepotência. Mal sabe que sua pseudo-sabedoria não passa de palha, ou nas palavras de Paulo, não passa de loucura. 

A palha é seca, sem viscosidade, semelhante a um coração cheio de inveja e partidarismo. Tal sabedoria tem tripla proveniência: o mundo, a carne e o diabo. Ela é terrena pois está comprometida com os valores mantenedores do sistema. É o óleo que lubrifica as suas engrenagens. É animal pois se baseia em nossos mais primitivos instintos, tendo como objetivo principal a nossa sobrevivência. É diabólica porque é atiçada pelo adversário de nossa alma, a saber, o próprio Satanás, o impostor dos impostores.

Já a sabedoria que vem do alto é preciosa, pura, gentil, cheia de bons modos, cavalheira, equilibrada, discreta, carinhosa, desprovida de falsidade, despreocupada em fazer média ou em desbancar o outro. Ela é o material com que o Reino de Deus é edificado entre os homens. 

Cada um de nós é responsável pela construção de seu próprio edifício existencial no lote que recebemos na Santa Cidade chamada vida. Se por ventura não nos acharmos competentes o suficiente para tal empreitada, atendamos à sugestão de Tiago:

“E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.” 
Tiago 1:5

Continua...

quinta-feira, agosto 14, 2014

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Não faça Deus perder tempo com você!



Por Hermes C. Fernandes

É insensatez usar a soberania divina como álibi para isentar-se da responsabilidade. Se a salvação deve ser creditada tão somente ao Senhor (monergismo), suas implicações e desdobramentos requerem de nós boa dose de cumplicidade (sinergismo). Se não fosse assim, que outra interpretação poderíamos atribuir ao seguinte texto?:

“E nós, cooperando também com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão.” 2 Coríntios 6:1

“Cooperação” requer, no mínimo, cumplicidade, interação. Era como se Paulo dissesse: Não ousem desperdiçar o que Deus fez por vocês! Ou ainda: Não sejam perda de tempo pra Deus! Vejam lá que destino darão àquilo que Deus lhes confiou!

Não se preocupem com a questão da glória, pois a mesma segue sendo exclusiva do Senhor. Mesmo o fato de cooperarmos de alguma maneira constitui-se numa obra da graça em nós. Com isso em mente, Paulo diz: “Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo” (1 Cor.15:10). A bem da verdade, sozinho, Paulo fez mais do que os doze apóstolos juntos. Porém, ele creditava tal façanha à graça nele operante. 

Uma graça que nos conduz ao ócio, não pode ser a graça de Deus! A mesma graça que nos inspira, também nos faz transpirar.

Noutra passagem, o mesmo apóstolo declara:

“Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um.” 1 Coríntios 3:10-13


Sua responsabilidade era lançar o fundamento. Porém, era de competência exclusiva deles erigir sobre tal alicerce. Cada qual responderia por seu próprio edifício dentro do perímetro da cidade de Deus.

A responsabilidade começa no fato de ninguém poder lançar outro fundamento além do que já está posto. Não queiram reinventar a roda! Nem venham com conversa fiada de novas revelações. Nosso ‘lote’ na cidade celestial já veio com planta e alicerce. Foi Ele quem delimitou a área de construção e até número e o tamanho dos cômodos de nosso edifício espiritual. Porém, o prédio não se levantará sozinho. Temos que pôr a mão na massa.

Nosso trabalho começa pela escolha do material que será usado. Pode-se construir com material de primeira, como o ouro que encabeça a lista fornecida por Paulo. Mas também pode-se construir com material de péssima categoria, como a palha. A diferença entre eles é a durabilidade e a disponibilidade. É muito mais fácil encontrar palha do que ouro. Em contrapartida, o ouro resiste ao tempo, a palha não. Quem está pensando apenas em abrigar-se da chuva esperada no próximo verão, talvez se contente com uma choupana. Mas pra quem está pensando em algo que perdure por várias gerações, o ouro é a melhor pedida.

Escolhido o material, deve-se escolher quem será seu fornecedor.

Continua amanhã...