sexta-feira, abril 17, 2015

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Cristo e o labirinto da condição existencial humana




Por Hermes C. Fernandes

Havia um labirinto na antiga Grécia, na ilha de Creta, criado com o intuito de abrigar umas das mais temidas feras do mundo antigo chamada Minotauro: uma criatura com corpo de homem, cabeça de touro e dentes de leão, usados para devorar todos que se aproximam.

A figura do labirinto serve-nos como analogia da condição existencial humana. A proposta religiosa nos oferece uma rota para nos tirar deste emaranhado e nos reencaminhar na direção da fonte onde encontraríamos a resposta para as nossas mais inquietantes indagações. Porém, é ao homem que devemos creditar tal façanha, não a Deus. Toda religião seria iniciativa meramente humana, diferindo da proposta do evangelho que seria uma iniciativa estritamente divina.

Veja o que Deus diz sobre nossas vãs tentativas de nos reaproximar d’Ele em nossos próprios termos:

“O caminho da paz eles não o conhecem, nem há justiça nos seus passos; fizeram para si veredas tortas; todo aquele que anda por elas não tem conhecimento da paz. Pelo que a justiça está longe de nós, e a retidão não nos alcança; esperamos pela luz, e eis que só há trevas; pelo resplendor, mas andamos em escuridão. Apalpamos as paredes como cegos; sim, como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como no crepúsculo, e entre os vivos somos como mortos.” Isaías 59:8-10

Veredas tortas, escuridão que nos força a andar apalpando as paredes, reforçam a imagem do labirinto que proponho aqui como análoga à religião. Devido à nossa total incompetência em escapar dele, Deus teve que intervir.

A Lei entregue por Deus a Moisés serviu-nos como um mapa dentro desse labirinto, porém, não nos livrou da presença do mal. A cada curva corríamos o risco de nos depararmos com a besta, metade homem, metade fera. Mas por estarmos na escuridão, apenas ouvíamos o seu rugido, como que de um leão buscando a quem pudesse tragar.

A segunda medida tomada por Deus foi enviar-nos profetas cuja luz serviu-nos como lanterna, possibilitando-nos enxergar o que estava logo à nossa frente (2 Pe. 1:19). Foi a partir daí que descobrimos que as paredes desse labirinto eram feitas de espelho, de sorte que o monstro que vimos nada mais era do que nosso próprio reflexo. Estávamos todos encurralados, não importando que direção tomássemos. A cada curva, o monstro reaparecia. Fugir dele era fugir de nós mesmos. Metade humanos, metade monstros. Tal era nossa condição. Sabíamos o bem que tínhamos de fazer, mas a fera em nós era indomável. Talvez a Lei até pudesse nos conduzir ao destino glorioso que se propunha. O problema não estava nela, mas em nós, nas pulsões que habitam nosso ser bipartido. “Miserável homem que sou!”, exclamaria Paulo, “quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm.7:24). 

Não foi Teseu, o filho de Egeu quem liquidou o monstro, como na mitologia grega. Foi Jesus, o Filho do Deus vivo quem entrou nesse labirinto e derrotou a besta-fera. Por isso, o mesmo Paulo responde imediatamente à sua pergunta: Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor” (v.25).

Através de Sua cruz, Jesus não apenas liquidou o minotauro que nos assombrava, como também nos abriu um novo e vivo caminho pelo qual temos amplo acesso ao Pai. As paredes do labirinto vieram ao chão. É disso que Paulo fala em sua carta aos Efésios:

“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto; porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.Efésios 2:13-18

Chega de curvas oblíquas e de caminhos interditados! Chega de ouvir o eco dos rugidos da besta! Estamos agora percorrendo um caminho reto. A complexidade do labirinto cedeu lugar à simplicidade do Caminho. Sequer precisamos de um mapa para transitá-lo. Basta seguir sempre reto, sem desviar-se nem para a esquerda, nem para a direita. Sua simplicidade é tão evidente que o profeta diz que “até mesmo os loucos, não errarão” (Is.35:8). Imagine soltar um louco num labirinto! Solte-o no caminho, ele certamente encontrará seu destino.

Tal verdade é desconcertante para os que se arrogam o papel de especialistas da religião. Aqueles que se apresentam como portadores do mapa. Que dizem possuir a única arma capaz de liquidar o minotauro.

Apesar do alto custo envolvido na demolição do labirinto, a obstinação humana é tamanha que logo se pôs a reconstruí-lo. São os reconstrutores do labirinto religioso os responsáveis por esta nova Babel que vivemos em nossos dias. Diferente da primeira que se erguia verticalmente, a nova Babel é caracterizada por sua complexidade. Não foi em vão que Paulo declarou temer que “assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia”, tenhamos nosso entendimento corrompido, apartando-nos “da simplicidade e da pureza que há em Cristo” (2 Co.11:3).

Nada mais simples do que um caminho reto, sem curvas, esquinas e interdições. Nada mais complexo do que um labirinto insinuoso como uma serpente enroscada em torno de si. O que pode, à primeira mão, parecer um atalho ingênuo, na verdade é uma armadilha.

Nenhuma parede sequer deve ser poupada. Nada há que se aproveitar do que só serviu para promover alienação e escravidão. Seria como transformar Auschwitz num Jardim de Infância. Que pai se sentiria confortável ao deixar seus filhos estudarem nos mesmos edifícios usados pelos nazistas para torturar e matar os judeus durante a Segunda Guerra Mundial?

Por isso, Jesus foi categórico ao profetizar a demolição completa do templo de Jerusalém. “Não ficará pedra sobre pedra!” O rasgar do véu do templo no momento em que rendeu Seu espírito ao Pai foi o prenúncio do que aconteceria cerca de quarenta anos depois sob a espada romana.

Aquele templo havia se tornado num monumento à religiosidade farisaica e hipócrita que se instalara entre os judeus contemporâneos de Cristo. Sua santidade original houvera sido profanada. E a partir do momento em que o sacrifício de Jesus fora aceito pelo Pai, todo e qualquer sacrifício, bem como todo e qualquer culto que se oferecesse ali seriam nulos. Portanto, o templo se tornara obsoleto.

Uma nova aliança passara a vigorar, em que já não haveria geografias sagradas, nem lugar para a burocracia sacerdotal, mas tão somente o culto racional, aquele oferecido ao Pai “em Espírito e em Verdade”, conforme Jesus.

A Antiga Aliança oferecia um caminho em meio ao labirinto. Mas a Nova Aliança oferece o Caminho sem qualquer labirinto. Com o labirinto implodido, que utilidade teria o velho caminho proposto pelo pacto anterior?

Nossa comunhão com Deus foi reatada. O Minotauro foi liquidado.  Nosso velho homem foi crucificado juntamente com Cristo. Os sacrifícios exigidos pela Lei foram totalmente inutilizados e ofuscados ante o sacrifício vicário de Jesus. Portanto, insistir neles é um insulto ao Espírito da Graça.

Por isso, tenhamos ousadia para entrarmos no santíssimo lugar, pelo sangue de Jesus, pelo caminho que ele nos inaugurou, caminho novo e vivo, através do véu, isto é, da sua carne” (Hb.10:19).


quarta-feira, abril 15, 2015

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Por que causa temos sido perseguidos?



Por Hermes C. Fernandes

Desde sua origem, a fé cristã tem sofrido perseguições implacáveis. Primeiro, por parte dos judeus, conforme o próprio Jesus havia previsto. Depois, por parte dos romanos. Porém, cada uma das perseguições tinha sua própria razão. Os judeus perseguiram a igreja porque não aceitavam uma fé que não fosse centralizada no templo em Jerusalém. Não era bom para os negócios. Jerusalém havia se tornado num centro de peregrinação. Judeus de todo o mundo vinham várias vezes ao ano para festejar as festas ordenadas pela lei mosaica. E isso rendia um exorbitante lucro. Quando os apóstolos começaram a anunciar que um novo templo estava sendo erigido, não de pedras mortas, mas de pedras vivas, e que os ritos judaicos haviam perdido sua validade, a perseguição se tornou inevitável. A igreja representava uma ameaça ao controle da casta sacerdotal. Além disso, os cristãos afirmavam que seu Mestre era ninguém menos que o Messias prometido, que por sua vez era o próprio Deus encarnado. Isso era inadmissível. Razão pela qual os discípulos foram expulsos das sinagogas e tiveram seus bens confiscados.

A segunda perseguição se deu por motivos políticos. A máxima “Jesus Cristo é o Senhor” era considerada extremamente subversiva, uma vez que desafiava a supremacia de César, o imperador romano. Qualquer um que alegasse lealdade a outro rei que não fosse César era um traidor e deveria pagar caro por sua rebelião. Portanto, as duas primeiras perseguições tiveram motivos econômicos, políticos e religiosos.

E quanto às perseguições que a igreja tem sofrido em nossos dias?

Sei do risco de ser mal interpretado com o que vou expor aqui, mas não me vejo em condição de me acovardar ante a constatação que tenho feito. 

Há dois principais motivos pelos quais a igreja cristã tem sido perseguida em nossos dias, e, sinceramente, não os considero legítimos.

O primeiro deles é a postura nada ética de muitos dos seus líderes. Ser preso por evasão de divisas, com milhares de dólares escondidos em bíblias, não me parece um motivo louvável. Isso nada tem a ver com sofrer por amor a Cristo. Muitos líderes vivem nababescamente à custa da ignorância do seu povo. Obviamente que as autoridades estão atentas a isso. Mais cedo ou mais tarde, acabam sendo investigados e acusados de charlatanismo e coisas mais.

O segundo deles é bem mais delicado. Desde que o império americano descobriu que a mensagem cristã, em sua versão fundamentalista, poderia ser usada para espalhar sua supremacia cultural pelo mundo, milhares de missionários foram enviados. Houve uma reação muito forte por parte de países que se negaram a render-se, por perceberem a verdadeira intenção dessa investida. A mensagem do evangelho foi diluída numa visão conservadora do mundo, enquanto que qualquer outra ideologia considerada progressista passou a ser tachada de demoníaca. Quando missionários americanos começaram a ser rechaçados em países onde predominava uma visão mais progressista, espalhou-se pelo mundo a notícia de que aquele país perseguia os cristãos. Talvez, se o evangelho fosse apregoado sem aquela bagagem cultural e ideológica, não haveria tanta resistência. 

O fato é que os missionários passaram a ser visto como embaixadores do american way of life (estilo de vida americano), e por isso mesmo, tornaram-se personas non gratas por onde passavam. Combatê-los era combater o imperialismo que eles representavam. 

Imagine se os apóstolos houvessem se associado ao império romano para divulgar o domínio de César pelo mundo afora. É claro que seriam combatidos! 

Em países socialistas como a antiga União Soviética, somente a igreja ortodoxa estava autorizada a dar prosseguimento em suas atividades religiosas. E isso, pelo fato de não ter qualquer vínculo com os Estados Unidos. Já em Cuba, dada a proximidade com a América, o cristianismo teria sido totalmente banido (segundo algumas fontes; não há consenso sobre isso). Somente recentemente teria sido permitido que igrejas voltassem a trabalhar na Ilha de Fidel. Na China, dá-se o mesmo. Contudo, há uma igreja vigorosa em franco crescimento, ainda que na clandestinidade. 

Urge que a igreja cristã se livre deste ranço a fim de que sua mensagem seja recebida em países completamente avessos ao domínio norte-americano. A igreja brasileira tem um enorme desafio pela frente. Em qualquer lugar, o povo brasileiro é bem-vindo. Graças ao nosso jeito despojado, ao nosso futebol e à nossa música. 

Isso não significa que as perseguições não ocorrerão, eventualmente. Mas, certamente serão atenuadas. Se tivermos que sofrer, sofreremos pelos motivos certos. 

Devo admitir que, no último século, nenhum país investiu tanto em missões quanto os Estados Unidos. Porém, os motivos nem sempre foram os melhores. Aqui mesmo no Brasil, quando os militares tomaram o poder, o país recebeu uma onda de pregadores americanos. Tudo para tentar coibir ideias ditas ‘comunistas’. O mundo estava dividido entre duas grandes potências bélicas. Por isso, era mister que se propagasse que o comunismo era o diabo em pessoa. Obviamente, nem o comunismo soviético deve ser visto como o grande vilão da história, nem o capitalismo americano deve ser visto como o salvador do mundo. Ambos tentaram dominar o mundo. O império soviético ruiu. Mas o americano segue vigoroso, invadindo países, se apropriando de suas riquezas sob o pretexto de levar os valores da democracia.

A bem da verdade, a perseguição sofrida por cristãos nesses países acaba servindo aos interesses do império americano, pois reforça e justifica suas pretensões expansionistas.

Se quisermos poupar nossos irmãos do sofrimento terrível que lhes tem sido impingido em países muçulmanos e em ditaduras ao redor do globo, devemos romper com qualquer associação que se faça entre o evangelho e o american way. E para isso, nosso discurso precisa passar por um processo de desideologização e desamericanização. O mundo carece de um evangelho puro, que conserve o que é bom, mas também desafie a sociedade humana a rever seus valores e progredir. Um evangelho que se adeque às culturas locais, sem, contudo, perder a sua essência. Que acolha a contribuição que cada cultura tem a fazer no estabelecimento do reino de Deus.

E se tivermos que sofrer, não fugiremos, a exemplo dos milhões de cristãos ao redor do mundo que bravamente têm resistido a regimes totalitários. Como eles, sofreremos pela causa da justiça e não por interesses alheios às demandas do verdadeiro evangelho. 

terça-feira, abril 14, 2015

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Cientista afirma que a consciência sobrevive à morte





Um livro intitulado “Biocentrism: How Life and Consciousness Are the Keys to Understanding the Nature of the Universe“ (Biocentrismo: Como a Vida e a Consciência São as Chaves para a Compreensão da Natureza do Universo – [tradução livre do título – n3m3]) mexeu com a Internet, porque ele contém a noção de que a vida não acaba quando o corpo morre, e pode durar para sempre.  O autor dessa publicação, o cientista Dr. Robert Lanza, que foi votado pelo NY Times como sendo o 3º cientista mais importante ainda vivo, não tem dúvida de que isso seja possível.

Além do tempo e do espaço

Lanza é um especialista em medicina regenerativa e diretor científico da Companhia de Tecnologia Avançada da Célula.  Ele é conhecido também por sua extensa pesquisa com células tronco, e por vários experimentos de sucesso na clonagem de espécies de animais em extinção.
Mas há pouco tempo, o cientistas se envolveu com a física, a mecânica quântica e a astrofísica.  Esta mistura explosiva deu o nascimento à nova teoria do biocentrismo, a qual o professor tem pregado desde então.  O biocentrismo ensina que a vida e a consciência são fundamentais para o Universo.  É a consciência que cria o universo material e não o contrário.
Lanza aponta para a própria estrutura do Universo, e que as leis, forças e constantes do Universo parecem ser afinadas com a vida, implicando no fato da consciência existir antes da matéria.  Ele também alega que o espaço e tempo não são objetos ou coisas, mas sim ferramentas de nossa compreensão animal.  Lanza diz que carregamos o espaço e o tempo conosco “como tartarugas com cascos“, o que significa que quando o casco é deixado de lado (tempo e espaço), ainda existiremos.
A teoria implica que a morte da consciência simplesmente não existe.  Ela somente existe como pensamento, porque as pessoas se identificam com seus corpos.  Elas acreditam que o corpo irá perecer, mais cedo ou mais tarde, achando que assim sua consciência irá desaparecer também.  Se o corpo gera a consciência, então a consciência morre quando o corpo morre.  Mas se o corpo recebe a consciência da mesma forma que um receptor de TV a cabo recebe sinais, então o curso da consciência não acaba na hora da morte do veículo físico.  Na verdade, a consciência existe fora da limitação do tempo e do espaço.  Ela é capaz de estar em qualquer lugar: no corpo humano e fora dele.  Em outras palavras, ela não tem local, no mesmo sentido que objetos quânticos não possuem local.
Lanza também acredita que universos múltiplos possam existir simultaneamente.  Num universo, o corpo pode estar morto.  E no outro ele continua a existir, absorvendo a consciência que migrou para esse universo.  

Mundos múltiplos

A teoria de Lanza, que infunde esperança mas é extremamente controversa, possui muitos defensores, não somente meros mortais que querem viver para sempre, mas também alguns cientistas bem conhecidos.  Estes são físicos e astrofísicos que tendem a concordar com a existência de mundos paralelos e que sugerem a possibilidade de universos múltiplos.  O multiverso é um, assim chamado, conceito científico, o qual eles defendem.  Eles acreditam que não exista nenhuma lei física que proíba a existência de mundos paralelos.
H.G. Well, o escritor de ficção científica, proclamou isto em 1895, na sua obra “The Door in the Wall” (A Porta na Parede).  E após 62 anos, esta ideia foi desenvolvida pelo Dr. Hugh Everett, em sua tese de graduação na Universidade Princeton.  Ela basicamente apresenta que, em qualquer dado momento, o Universo se divide em inúmeras ocorrência similares.  E no momento seguinte, estes universos ‘recém-nascidos’ se dividem de forma similar.  Em alguns destes mundos você pode estar presente: lendo este artigo em um universo, ou assistindo TV em outro.
Os fatores que disparam estes mundos que se multiplicam são as nossas ações, explicou Everett.  Se fizermos algumas escolhas, instantaneamente um universo se divide em dois, com diferentes versões de resultados.
Na década de 1980, Andrei Linde, um cientista do Instituto de física de Lebedev, desenvolveu a teoria dos universos múltiplos.  Ele agora leciona na Universidade Stanford.  Linde explicou: “O espaço consiste em muitas esferas que se inflam, as quais geram esferas similares, e essas, por sua vez, produzem esferas em números ainda maiores, e assim por diante até o infinito.  No Universo elas são espaçadas umas das outras. Elas não estão cientes da existência das outras.  Mas elas representam partes do mesmo universo físico.
O fato do nosso Universo não estar só é apoiado pelos dados recebidos do telescópio espacial Planck.  Usando estes dados, os cientistas criaram o mais preciso mapa do fundo de microondas, a assim chamada ‘radiação de fundo da relíquia cósmica’, que permanece deste o início do Universo.  Eles também descobriram que o Universo possui muitos recessos escuros, representados por alguns buracos e extensas brechas.
A física teórica Laura Mersini-Houghton, da Universidade da Carolina do Norte, com seus colegas, argumentam: “As anomalias do fundo de microondas existem devido ao fato de que o nosso Universo é influenciado por outros universos que existem nas proximidades.  E os buracos e brechas são um resultado direto dos ataques dos universos vizinhos sobre nós.

Alma

Assim, há uma abundância de lugares, ou outros universos, aonde nossa alma poderia migrar após a morte, de acordo com a teoria do neo-biocentrismo.  Mas a alma existe?  Há uma teoria científica da consciência que poderia acomodar tal alegação?  De acordo com o Dr. Stuart Hameroff, uma experiência de ‘quase-morte’ acontece quando a informação quântica que habita o sistema nervoso deixa o corpo e dissipa no Universo.  Ao contrário das explicações materialistas sobre a consciência, o Dr. Hameroff oferece uma explicação alternativa da consciência, que pode talvez ser atraente, tanto para a mente científica racional, quanto para as intuições pessoais.
De acordo com Stuart e Sir Roger Penrose, este último um físico britânico, a consciência reside em microtúbulos de células cerebrais, os quais são locais primários de processamento quântico.  Na morte, esta informação é liberada pelo seu corpo, o que significa que a nossa consciência vai com ela.  Eles argumentam que a nossa experiência de consciência seja o resultado de efeitos quânticos da gravidade nestes microtúbulos; uma teoria que eles batizaram de ‘redução objetiva orquestrada’ (sigla em inglês: Orch-OR).
A consciência, ou pelo menos a proto-consciência, é teorizada por eles como sendo uma propriedade fundamental do Universo, presente até mesmo no primeiro momento do Universo durante o Big Bang.  “Em tal plano, a experiência proto-consciente é uma propriedade básica da realidade física, acessível a um processo quântico associado à atividade cerebral.
Nossas almas, na verdade, são construídas do mesmo tecido do Universo – e podem ter existido desde o começo do tempo.  Nossos cérebros são somente receptores e amplificadores para a proto-consciência, a qual é intrínseca ao tecido espaço-tempo.  Assim, há realmente uma parte de nossa consciência que não é material e que sobreviverá a morte de nosso corpo físico?
O Dr. Hameroff declarou no documentário ‘Através do Buraco de Minhoca’, do Science Channel: “Digamos que o coração pare de bater, o corpo pare de fluir, os microtúbulos percam seu estado quântico.  A informação quântica dentro dos microtúbulos não é destruída, ela não pode ser destruída, ela somente se distribui e dissipa pelo Universo.”  Robert Lança adicionaria aqui que, não somente ela existe no Universo, mas que talvez também exista em outro universo.
Se o paciente for ressuscitado, reanimado, esta informação quântica pode voltar para dentro dos microtúbulos e o paciente dizer, “eu tive uma experiência de quase morte“.
Hameroff ainda diz: “Se o paciente não for reanimado e morrer, é possível que esta informação quântica possa existir fora do corpo, talvez indefinidamente como uma alma.


Fonte: Otimundo

segunda-feira, abril 13, 2015

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Os bastidores do mundo são o palco da eternidade



Por Hermes C. Fernandes


Um anjo se aproxima do trono de Deus para anunciar que alguns dos Seus súditos requeriam uma audiência imediata com Ele.

- Devo avisar ao Senhor que não se trata de gente comum, mas de verdadeiros heróis da fé. E pelo jeito, não estão nada contentes.

- O que poderia causar tal descontentamento?

- É melhor perguntar diretamente a eles.


- Mande-os entrar.

Em vez de um grupo, entrou apenas uma pessoa. Ninguém menos que Josué, o sucessor de Moisés, responsável por introduzir o povo de Israel na Terra Prometida.

- Onde estão os demais? - pergunta o Senhor.

- Pedi que ficassem lá fora um pouco e me permitissem falar em particular com o Senhor.

- Então, o que você pretende me dizer deve ser muito sério, não?

- É meio embaraçoso, Senhor.

- Diga logo. Desembucha.

- É que meu nome não consta da lista da galeira da fé em Hebreus 11.

- Como assim? Lembro-me perfeitamente de que o escritor inspirado pelo meu Espírito cita a queda dos muros de Jericó.

- É verdade. Mas em momento algum sou mencionado. E olha que o nome de meu antecessor aparece várias vezes, bem como o nome de outras figuras proeminentes como Noé, Abraão, Isaque e Jacó. 

- Não acho que você deveria se incomodar com isso. Afinal de contas, não foi bem você quem derrubou aquela muralha.

- Sim, mas fui eu que comandei o povo durante os setes dias em que rodearam Jericó. Fui eu quem teve aguentar os escárnios dos inimigos e a murmuração do meu povo.

- Sinceramente, não imaginei que você faria tanta questão disso.

- E o pior é que logo em seguida, o escritor cita Raabe, uma prostituta, que no mesmo episódio em que Jericó caiu, acolheu os espias que eu enviei. Chega a ser ultrajante. Meu nome suprimido, enquanto o dela foi exaltado. Como uma prostituta poderia receber maior honra do que um general? Eu acho que o escritor estava era de pinimba comigo. Aliás, se não se importar, gostaria que o Senhor me dissesse quem escreveu a tal epístola. Preciso checar com ele quais as suas razões e o que é que ele teria contra mim. 

- Você crê que todos os livros das Escrituras foram inspirados pelo meu Espírito?

- Claro que sim. 

- Então, não deveria estar questionando. O mesmo Espírito que impediu que este escritor citasse seu nome, também o impediu de assinar a própria carta. Não percebe que há uma mensagem aí? O que importa não é se o seu nome aparece ou deixa de aparecer, mas o fato de sua vida cumprir ao propósito para o qual veio à existência. No meu reino, quanto mais a pessoa faz questão de ser honrada, menos ela o será. Sinta-se honrado pelo simples fato de ter sua proeza citada ali. E não se incomode de uma meretriz receber a honra que lhe foi negada.  

Dirigindo-se ao anjo, disse:

- Que entrem os outros.

Entre eles, estava Davi, homem segundo o coração de Deus, além de Samuel, Gideão, Sansão, Baraque e Jefté.

- E vocês, o que querem?

- Senhor, temos uma reclamação a fazer.

- Vocês também? E o que é agora?

- Um escritor anônimo cometeu a gafe de citar nossos nomes em sua lista de heróis da fé, mas se esqueceu de citar nossas proezas - disse Davi.

- Não nos pareceu justo que outros heróis houvessem recebido um tratamento diferenciado. O tal escritor relatou o que fizeram Noé, Abraão, Moisés e outros, mas quando chegou a nossa vez, apenas se deu o trabalho de mencionar nossos nomes. Sentimo-nos desprestigiados - argumentou Samuel.

- Então, tudo que fizeram foi em busca de reconhecimento? Não bastou para vocês terem servido ao meu propósito?

- Sim. Tudo o que fizemos foi para Lhe agradar, Senhor. Mas pensávamos que receberíamos o mesmo reconhecimento que outros receberam. É uma questão de justiça. Se não deveríamos receber os créditos por nossas obras, então, ninguém mais deveria receber - reivindicou Sansão.

- Quer dizer que vocês acham que devo alguma satisfação a vocês? Ora, ora... o que faço ou deixo de fazer é única e exclusivamente pela minha graça. Nem vocês, nem eles mereceriam coisa alguma. Vocês foram meros instrumentos para a execução dos meus propósitos. Portanto, tratem de se contentar por terem sido usados para o bem de muitos. Alguns dos que tenho usado ao longo da história terão seus nomes lembrados, porém, não suas obras. Outros terão suas obras publicadas, porém, seus nomes serão mantidos em sigilo. Outros ainda terão tanto seus nomes, quanto suas obras reconhecidos. Enquanto outros serão relegados ao mais completo esquecimento. Somente a eternidade se encarregará de tornar conhecidos tantos os nomes quanto suas respectivas obras. Jamais se esqueçam de que os bastidores do mundo são o palco da eternidade, e a única plateia que realmente importa é a que ocupa o trono. Ou vocês ainda não entenderam o que significa "fazer com a direita sem que a esquerda saiba"? É no encontro da mão direita com a esquerda que surge o aplauso. Não é isso que buscam, é? 

- Mas, se o Senhor não se importar, gostaríamos que, ao menos, nos revelasse quem escreveu aquela epístola.

- Ora, ora... Já que insistem, o autor da epístola aos Hebreus é o Espírito Santo. Por isso, Ele não faz questão de aparecer. Como já havia avisado aos meus discípulos, Ele jamais falaria de Si mesmo, e sim d'Aquele que O enviou. Quanto às mãos usadas para segurar a caneta, não importa. Além de não assinar a autoria da carta, ele também não citou nenhuma de suas obras para que não servissem de pista de sua identidade. 

* Conversa fictícia baseada em Hebreus 11:30-32

domingo, abril 12, 2015

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"Eu me amo e não consigo viver sem mim!"




"Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo despreza a sua vida, 
guardá-la-á para a vida eterna". 

João 12:25


Por Hermes C. Fernandes

Segundo o diagnóstico dos reformadores do século XVI, o problema central do ser humano era a justiça própria. Foi a partir dessa conclusão, que eles estabeleceram a “Justificação pela fé” como a bandeira principal do cristianismo protestante.

Se fosse possível ao homem salvar-se mediante boas obras, isso retroalimentaria seu orgulho, cativando-o para sempre em um ciclo do pecado. Somente a graça seria capaz de romper com este ciclo, pois a mesma seria um golpe desferido por Deus no orgulho humano, salvando-o de si mesmo.

Embora concorde com as doutrinas defendidas pelo protestantismo histórico, acredito que houve um erro de diagnóstico. O problema humano não repousa sobre a justiça própria. Na verdade, a justiça própria equivale a um remédio errado que foi ministrado em cima de um sintoma.

Sabemos, pelas Escrituras, que o problema humano se chama “pecado”. Ainda que o conceito seja exclusivo das religiões originárias em Abraão (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), todas as outras religiões concordam que alguma coisa esteja errada com o ser humano. E todas elas, exceto o cristianismo bíblico, acreditam que o remédio para isso é a justiça própria. Para superar sua alienação espiritual, o homem teria que praticar boas obras, que expressassem seu senso de justiça e retidão.

De acordo com as Escrituras, nossas boas obras são como trapos de imundícia (Is.64:4). Era assim que se chamava o pano usado pelas mulheres para conter o fluxo menstrual. Em outras palavras, nossas boas obras são uma tentativa inútil de conter nossa hemorragia espiritual. E por melhores que sejam, estão sempre manchadas pelo nosso pecado. Por isso, a salvação não poderia ser pelas obras, pois elas estariam manchadas pelo nosso orgulho e vaidade.

Quando os reformadores se aperceberam disso, resolveram combater a justiça própria, mostrando aos homens que a única maneira de serem salvos é confiar na justiça divina, demonstrada na Cruz, onde Cristo recebeu nossos pecados e suas conseqüências, e nos imputou Sua justiça e santidade. Aos olhos de Deus, tornamo-nos justos, a despeito de nossas obras, quando reconhecemos nossa bancarrota, e nos fiamos na justiça de Seu Filho Jesus. É pela fé, e tão somente por ela, que Sua justiça é computada em nossa conta.

Até aí, tudo bem. Não há o que rebater. Basta ler Romanos, Gálatas, e toda a Bíblia, para dar-se conta de que a justificação pela fé é uma doutrina imprescindível e inegociável.

A Justificação pela Fé estanca a hemorragia provocada pelo pecado, mas não nos cura de nossa anemia.

É importante combater a justiça própria, pois ela nada mais é do que um placebo, um “me-engana-que-eu-gosto”. É importante estancar a hemorragia, em vez de tentar contê-la com boas obras. Mas acima de tudo, é importante restaurar a saúde espiritual do ser humano. E pra isso, tem-se que combater o pecado. E o que seria o “pecado”? Ora, o termo “pecado” significa “errar o alvo”. Mas acerca de quê alvo estamos falando? Qual o alvo original estabelecido por Deus à criatura humana?

Essa resposta pode ser encontrada nos dois principais mandamentos de Deus. Eles se constituem no alvo de nossa existência.
“...Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas” (Mt.22:37-40).
Eis o alvo! Fomos feitos para o amor. E o alvo deste amor é Deus, e, por conseguinte, nossos semelhantes. Porém, ao cair, o homem desvirtuou o alvo, e introduziu um novo alvo: seu próprio eu.

Quem disse que Deus ordenou que o homem amasse a si mesmo? O amor próprio é a essência do pecado. É o próprio pecado. Deus jamais nos ordenaria que pecássemos. Ao dizer que deveríamos amar a nosso próximo como a nós mesmos, ele não está endossando o amor próprio, mas condenando-o. Com efeito, Ele disse: O amor que vocês nutrem por si mesmos, devem dedicar aos outros em vez de a si. O “amor próprio” aqui entra apenas como um referencial, e não como algo louvável e que deva ser estimulado.

As religiões aparam os ramos, e eles continuam a frutificar. O golpe desferido pelos reformadores atingiu o tronco da árvore, e não a sua raiz. Urge desferirmos um golpe na raiz da árvore, o amor próprio.

Todos os pecados têm no amor próprio seu ponto de partida.

Por exemplo: a mentira. Geralmente, a mentira visa a autopromoção ou a autopreservação. O indivíduo mente para promover-se, exagerando em seus dotes, enfatizando suas proezas. Ou mente para proteger-se. Portanto, a mentira é filha do amor próprio. E o adultério? Quem se entrega a uma relação adúltera busca por autossatisfação, sem importar com a dor que causará ao seu cônjuge e filhos, e à própria pessoa com quem está se relacionando. Autopromoção, autopreservação e autossatisfação são os principais alvos estabelecidos pelo amor próprio.

Há ainda a filha caçula do amor próprio, a autoestima, um nome mais sofisticado para o velho orgulho. E há ainda o sobrinho do amor próprio, a autoajuda, tão em voga em nossos dias. Em vez de buscar ajuda do alto, o homem pós-moderno prefere acreditar em seu próprio potencial para resolver todos os seus problemas.

O antídoto para a justiça própria é a graça. Através dela a justiça humana é desbancada, e em seu lugar é entronizada a justiça de Deus. E qual seria o antídoto para a o amor próprio? O antídoto para o amor próprio é a cruz.

Os reformadores protestantes enfatizaram a morte de Jesus em nosso lugar, mas se esqueceram de dar igual ênfase à nossa co-crucificação. Dizer que Jesus morreu por nós é a mais pura verdade, mas não expressa toda a verdade. Ele morreu por nós, mas nós também fomos crucificados com Ele. O apóstolo Paulo conjuga com maestria essas duas verdades:
“Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu” (2 Coríntios 5:14-15).
O amor revelado na Cruz deve constranger-nos a ponto de não mais vivermos para nós. A Cruz é um golpe fatal no amor próprio.

Paulo compreendeu isso perfeitamente: “Estou crucificado com Cristo, e já não vivo, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl.2:20).

Onde foi parar a autoestima de Jesus? Como Ele pôde entregar-Se de tal maneira por gente que sequer merecia?

Jesus estabeleceu um novo referencial de amor. Antes da Cruz, a referência mais eloquente que o homem tinha era o amor próprio. Mas agora, Jesus o desbancou, entregando-Se por nós sem reservas. E é este o tipo de amor que devemos dispensar aos nossos semelhantes.

Pela Cruz, somos salvos não apenas da condenação do inferno, ou da ira divina, mas somos salvos de nós mesmos.

Pelas pisaduras de Cristo, fomos curados de nossa hemorragia e de nossa anemia espiritual. Agora somos instados a amar a Deus sobre todas as coisas e aos nossos semelhantes da maneira como Ele nos amou, e não como a nós mesmos.

Tudo isso sugere que o que a igreja cristã necessita não é de mais uma reforma, nos moldes do século XVI, mas de uma revolução de amor, onde o amor próprio seja deposto, e em seu lugar seja entronizado o Novo Mandamento de Jesus.

sábado, abril 11, 2015

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O mais subversivo dos mandamentos




Por Hermes C. Fernandes


Jesus introduz uma perspectiva revolucionária capaz de sacudir os alicerces sobre os quais nossa sociedade foi erigida. Ele substitui o antigo mandamento do amor por um novo e subversivo mandamento, onde a referência já não é o amor próprio, mas o amor de Cristo.

O amor próprio nos serviu como uma vela acesa durante uma noite longa e escura. Mas com o raiar do dia, já não faz sentido manter a vela acesa. É sobre isso que João fala em sua primeira epístola:
“Amados, não vos escrevo novo, mas um mandamento antigo, que desde o princípio tivestes. Este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Contudo vos escrevo novo mandamento, que é verdadeiro nele e em vós, porque as trevas vão passando, e já brilha a verdadeira luz” (1 Jo.2:7-8).
O que João diz aqui pode parecer contraditório. Afinal de contas, trata-se de um ‘novo’ ou um ‘antigo’ mandamento? Veja, o mandamento é o mesmo: amar ao próximo. Entretanto, o referencial é que mudou. Em vez de amá-lo como a si mesmo, deve-se amá-lo como Jesus nos amou.

A chegada do novo dia faz desnecessária outra referência de amor que não seja aquela demonstrada na Cruz. Qualquer outra referência é ofuscada pela a maior e mais contundente prova de amor de que se tem notícia. E é este amor que nos constrange para que deixemos de viver para nós mesmos, e vivamos em função d’Ele e do bem-estar dos nossos semelhantes. Paulo diz que “o amor de Cristo nos constrange (...) E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si” (2 Co.5:14a,15a). Diferente da luz proporcionada pela vela, que alumia apenas em um pequeno raio, a luz solar é capaz de dissipar todas as trevas, tornando noite em dia.

Quando arrebatados do império das trevas para o reino do Filho do Amor de Deus, somos batizados, imersos em Seu amor. No dizer de Paulo, “o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm.5:5). É um caminho sem volta. O sol que acaba de nascer, jamais se porá novamente. Deixamos de viver para nós mesmos, para viver em função do objeto amado, nesse caso, Deus e nossos semelhantes. O amor próprio deve ser dissipado. O vento do Espírito deve apagá-lo, para que em seu lugar possa arder o genuíno amor de Deus.

Ora, se deixamos de nos amar, por que razão deveríamos cuidar de nossa saúde, aparência, finanças e tudo o que diz respeito ao nosso bem-estar particular? Será que deveríamos nos tornar pessoas relaxadas? Isso glorificaria a Deus? Não! Absolutamente. Só que agora, nossas motivações são outras.

Deixar de amar a si mesmo para amar a Deus e a seus semelhantes não significa deixar de viver, ou mesmo preferir morrer. O que nos motiva agora é a busca pela glória de Deus e pelo bem comum. Vejamos o exemplo de Paulo, registrado em sua carta aos Filipenses:
“A minha ardente expectativa e esperança é de em nada ser confundido, mas ter muita coragem para que agora e sempre, Cristo seja engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Pois para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp.1:20-21).
Repare nisso: a única coisa de que Paulo fazia a mais absoluta questão era que Cristo fosse engrandecido através dele, não importava se pela sua vida ou pela sua morte. Paulo não temia a morte. Ela tinha consciência de que a deixar este mundo era lucro. Ora, se morrer é lucro, por que não devemos todos desejar a morte? Porque não buscamos por lucro. Viver em função daquilo que nos é vantajoso é guiar-se pelo amor próprio, e não pelo amor à Deus e aos nossos semelhantes. Paulo prossegue em seu raciocínio:
“Mas, se o viver na carne trouxer fruto para a minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; mas julgo mais necessário, POR AMOR DE VÓS, permanecer na carne. E, tendo esta confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós para o vosso progresso e gozo na fé” (Fp.1:22-25).
À luz desta perspectiva, podemos concluir que todo bem que procuramos para nós mesmos, deve ser motivado pelo bem que isso vá causar aos nossos semelhantes. Por exemplo: sou pai de três lindos filhos. Eu poderia pensar: se não devo amar a minha própria vida, então, por que não posso fumar? Que mal haveria nisso? Isso apressaria minha passagem para o mundo porvir. Porém, pensando assim, eu estaria me suicidando à prestações, e dando um péssimo exemplos aos meus filhos a quem devo amar incondicionalmente. Portanto, é por amor a eles que devo me cuidar. Eles precisam de mim por muito tempo nesta vida. Se pretendo ficar muito tempo neste mundo, para poder servir aos meus semelhantes, devo me cuidar, praticar exercícios, alimentar-me bem, abandonar qualquer vício prejudicial à saúde, etc.

E quanto à busca por estabilidade financeira? Haveria alguma justificativa plausível à parte do amor próprio? Óbvio que sim! É Paulo quem de novo nos oferece uma razão em linha com o novo mandamento.
“Aquele que furtava, não furte mais, antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o necessitado” (Ef.4:28).
Eis a razão porque devemos trabalhar e buscar estabilidade financeira: ter o que repartir com quem precisa. Não é pecado ser rico. Pecado é fazer da riqueza um fim em si mesmo. Lembre-se que “o amor do dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Tm.6:10a). As coisas estão aí para serem usadas, e não amadas. As pessoas que devem ser amadas! Usemos as coisas para beneficiar as pessoas, e não usemos as pessoas para adquirir as coisas. Vale aqui a advertência paulina:
“Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as cosias para delas gozarmos; que façam o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir, que acumulem para si mesmos um bom fundamento para o futuro” (1 Tm.6:17-19a).
Se quisermos garantir um futuro promissor para nós e para o resto da humanidade, temos que mudar nosso paradigma, apagar a vela do amor próprio, e receber com gratidão o raiar do Sol da Justiça e do Amor trazendo o novo dia. Embora o novo dia já tenha raiado, estamos aguardando o momento em que ele atingirá o seu apogeu, o que costumo chamar de meio-dia profético, quando já não haverá mais sombras.

Urge despertarmos do nosso sono indolente e aprendermos a praticar o novo mandamento do amor. Não basta dizer que ama, tem que expressar esse amor em gestos e atitudes. Temos que aprender a repartir nosso pão, a viver em função do nosso semelhante, e não em função de nosso aprazimento pessoal.

Trata-se da prática do jejum prescrito em Isaías 58. Quando repartirmos nosso pão com o faminto, recolhermos em casa os sem-teto, vestirmos o nu, e deixarmos de nos esconder do nosso próximo, cumprir-se-á a promessa: “Então romperá a tua luz como a alva (...) se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita, então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia” (Is.58:8a,10).

O novo dia começou na Cruz, com a maior demonstração de amor de todas as Eras. A Igreja Primitiva vivenciou, durante o tempo de tribulação, a madrugada do novo dia, quando Jesus lhes parecia como a Estrela da Manhã. Somos convidados a vivenciar a alvorada desse Dia chamado Hoje, e aguardar pelo momento em que o Sol se posicionará no centro do Céu, dissipando as sombras, e trazendo avaliação e juízo a todas as obras. Quando isso se der, não apenas nossas obras serão julgadas, mas também as motivações que as produziram.

quinta-feira, abril 09, 2015

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Se for para ser... Que seja!



Se for para ser pedra...
Que seja pedra preciosa no colar de quem se ama
e não pedra arremessada contra pecadores e desafetos.

Se for para ser corda...
Que seja corda lançada em resgate de quem pede socorro
e não em volta do pescoço de quem se atreva a nos contrariar.

Se for para ser luz...
Que ilumine o caminho em vez de cegar.

Se for para ser água...
Que sacie a sede em vez de afogar.

Se for para ser pão...
Que seja da última fornada, pronto para ser repartido,
e não pão dormido ou mofado, impróprio para o consumo.

Se for para ser flor...
Que seja um botão de rosa num buquê, que ainda se abrirá,
e não um cravo numa coroa funerária.

Se for para ser perfume...
Que seja colônia dos apaixonados e
não spray de bom-ar para disfarçar o mal odor.

Se for para ser dentes...
Que sejam exibidos num sorriso sincero em vez de morder e devorar.

Se for para ser sorriso...
Que seja sorriso de quem ama e não de quem trama.

Se for para ser abraço...
Que seja abraço de quem acolhe e não de quem apunhá-la.

Se for para ser lágrima...
Que seja de gratidão e não de mágoa.

Se for para ser dedo...
Que aponte o caminho em vez de apontar os erros.

Se for para ser pé...
Que pise firme em vez de pisotear quem nos atravesse o caminho.

Se for para ser mão...
Que acalante em vez de espancar.

Se for para ser boca...
Que sussurre verdades em vez de gritar mentiras.

Se for para ser lábios...
Que sejam lábios que beijem, não que cuspam e destilem veneno.

Se for para ser coração...
Que ame em demasia sem jamais guardar rancores contra ninguém.

Se for para ser qualquer coisa...
Que seja sempre pelo bem, pelo belo e pelo verdadeiro.

Se for para ser ponto...
Que seja de exclamação, de interrogação ou
mesmo reticências, mas jamais ponto final.


Autor: Hermes C. Fernandes em 05/04/2013