terça-feira, outubro 21, 2014

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Encontrando Deus na ÚLTIMA FRONTEIRA



Por Hermes C. Fernandes

Já vimos que Deus Se revela através das Escrituras, da Criação, da Igreja, e sobretudo, através de Seu Filho Jesus Cristo. Ele é a revelação definitiva de Deus. Porém, resta-nos uma última fronteira, onde para muitos, Deus Se mantém escondido.

Não se trata dos mistérios do Cosmos, como os buracos negros, quasares, galáxias longínquas, super-novas, etc. Também não se trata do mundo subatômico, quântico. Trata-se, antes, daqueles com quem Cristo Se identifica de maneira peculiar: Os pobres e excluídos da sociedade. É lá que Deus Se mantém velado à espera de quem O busque.

Não basta encontrar Deus nas Escrituras, na Igreja, na Criação, se não nos dispusermos a buscá-lO nos pequeninos. É assim que Ele os chama.

Veja o que Jesus diz sobre isso:
“Quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Todas as nações se reunião diante dele, e ele apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas. Ele porá as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Pois tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu, e me visitastes; preso e fostes ver-me. E perguntarão os justos: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou preso e fomos ver-te? Ao que lhes responderão Rei: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt.25:40).
Ao sairmos ao encontro desses pequeninos, é com Cristo que nos deparamos. Engana-se quem imagina poder encontrá-lO nas catedrais dos grandes centros urbanos. Seria como se os magos esperassem encontrar o Messias recém-nascido no palácio de Herodes. Cristo está sob as marquises dos prédios abandonados; atrás das grades das prisões públicas; nas palafitas construídas às margens das valas negras.

Não vamos simplesmente para lhes dar algo que não tenham. Vamos ao encontro de algo de que necessitamos desesperadamente.

Muitos se dedicam às obras de caridade por um desencargo de consciência. Alguns até para driblar a culpa que lhes tira o sono. Ajudar aos pobres faz com que se sintam confortáveis consigo mesmos, pertencentes a uma classe superior, ricos, qualificados. Quando deveriam, sim, sentir-se envergonhados. A pobreza denuncia nossa arrogância, nossa prepotência, a injustiça imperante no sistema do qual tiramos nossa subsistência.

Deus Se esconde de tal maneira nos pobres, que nem mesmo Seus escolhidos dão conta de reconhecerem-No. Daí a pergunta: Quando, Senhor?

Ficamos embebecidos com o espetáculo da natureza. É relativamente fácil enxergar a majestade divina num pôr-do-sol, num arco-íris, e até no canto de um passarinho. Tudo isso é muito belo, e, de fato, aponta para Deus, manifestando Seus atributos invisíveis.

Encontrá-lO nas Escrituras é uma questão de fé. Nossos olhos são desvendados pela ação do Espírito Santo, que nos faz compreender o testemunho de Deus registrado nas páginas sagradas (Pv.1:23). Porém, buscá-lO e encontrá-lO no pobre, no indefeso, no preso, no enfermo, somente através das lentes do amor. Esta é, por assim dizer, a última fronteira na qual Deus Se mantém escondido.

Como a igreja primitiva lidou com esta verdade indiscreta e perturbadora? Ninguém melhor que Tiago, irmão do Senhor, para nos responder:
“Glorie-se o irmão de condição humilde na sua alta posição. O rico, porém, glorie-se na sua insignificância, porque ele passará como a flor da erva” (Tg.1:9-10).
O Evangelho do Reino é a mais subversiva de todas as mensagens já anunciadas entre os homens. O que os homens chamam de sabedoria, Deus chama de loucura. O que chamamos de fraqueza, Deus chama de força. O que acreditamos ser riqueza, Deus afirma que é miséria.

Seguindo a lógica do Reino, Tiago diz que o irmão de condição humilde deveria gloriar-se em sua alta posição. Não se trata de posição social, mas espiritual, uma vez que Deus o escolheu.

Paulo reverbera o mesmo ensino, quando nos conclama a conferir: “Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que ninguém se glorie perante ele” (1 Co.1:26-29).

Gloriar-se em sua condição humilde é o mesmo que gloriar-se em Deus, em vez de em si mesmo e em seus recursos naturais.

Tiago não faz média com os ricos do seu tempo. Pelo contrário, ele os confronta. “O rico, porém, glorie-se na sua insignificância” (Tg.1:10a). Que golpe na arrogância de quem se acha importante. Que insulto à sua vaidade!

Recentemente, uma pesquisa feita pelo instituto britânico New Economics Foundation revelou que pessoas que trabalham fazendo faxina em hospitais têm mais valor para a sociedade do que os funcionários de alto escalão de um banco. Enquanto o faxineiro gera cerca de R$ 30 de valor para cada R$ 3 que recebe, o bancário com salário anual a partir de R$ 1,5 milhão) é um peso para a sociedade, custando cerca de R$ 21 para cada R$ 3 que ganham. O faxineiro rende dez fez o que ganha. O bancário dá prejuízo de sete vezes o que ganha.

Como uma igreja em nossos dias receberia o executivo de um banco? E como receberia um faxineiro? Seriam tratados de igual maneira?

Infelizmente, nos adequamos ao espírito deste mundo, e abandonamos a mensagem subversiva do reino. Muitas igrejas têm se especializado em alcançar a classe média alta, desprezando completamente as classes mais baixas e necessitadas. Este se tornou o sonho de consumo de praticamente todos os ministérios hoje em dia. Todos querem as classes A e B. Ninguém quer as classes D e E.

As grandes denominações querem ter Sedes nos bairros mais abastados da cidade. Enquanto isso, as favelas são relegadas a segundo plano. Quando surge alguma igreja nelas, geralmente é por iniciativa dos próprios moradores. Alguns pastores até investem em igrejas nestas comunidades carentes, para evitar que seus moradores desçam para o asfalto e frequentem seus templos luxuosos, trazendo incômodo aos seus membros mais distintos.

Este não é um problema recente. Tiago teve que enfrentá-lo nos dias da igreja primitiva.Veja o que ele diz:
“Meus irmãos, como crentes em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, não façais acepção de pessoas. Por exemplo: Se na vossa reunião entrar algum homem com anel de ouro no dedo, e com trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e atentardes para o que tem os trajes de luxo, e lhe disserdes: Assenta-te aqui em lugar de honra, e disserdes ao pobre: Fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do estrado dos meus pés, não fazeis distinção entre vós mesmos, e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus aos que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre” (Tg.2:1-6a).
Parece que Tiago estava falando diretamente com os pastores de nossos dias, alguns dos quais chegam a destacar alguém para o ministério local por causa de suas vultuosas contribuições. Quantos diáconos precoces? Presbíteros despreparados, que mal se converteram, e logo foram içados a uma posição na igreja. Já o pobre, o que não usa roupas de grifes famosas, não só são ignorados, como às vezes são até rechaçados. Há quem até sugira: Procure outra igreja, onde as pessoas sejam do seu nível social. Aqui não é pra você.

É lamentável ter que admitir isso. Mas é a mais pura verdade. As pessoas valem o quanto pe$am.

Desonrar ao pobre é desonrar Àquele que o criou, e o escolheu para ser Seu esconderijo.

É bom que se diga que Deus não tem nada contra os ricos. Deus igualmente os criou. O que ofende a Deus é o fato de muitos se estribarem em suas riquezas materiais. A única maneira do rico agradar a Deus é reconhecer seu estado de miséria espiritual. Ou no dizer de Tiago, sua “insignificância”. Reconhecer que todo o seu dinheiro é incapaz de garantir-lhe uma vida de significado e propósito.

Assim como há ricos que são “pobres de espírito”, há pobres que são arrogantes, e que tentam passar uma imagem de abastança. Como diria o adágio: Comem sardinha, arrotam caviar. O sábio Salomão os denuncia:“Uns se dizem ricos sem ter nada outros se dizem pobres, tendo grandes riquezas” (Pv.13:7). Pobreza de espírito é manter-se na total dependência de Deus. Jamais jactar-se em seus próprios recursos, sejam eles parcos ou abundantes.

Se a Igreja almeja ser canal através do qual Deus Se revele ao mundo, ela terá que admitir sua pobreza. E isso equivale a tomar a contramão da postura adotada pela igreja de Laodicéia.

Leia atentamente o que Cristo diz aos laodicenses:
“Dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta. Mas não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado no fogo, para que te enriqueças; e vestes brancas para que te vistas, e não seja manifesta a vergonha da tua nudez; e colírio, para ungires os teus olhos, a fim de que vejas” (Ap.3:17-18).
De acordo com a doutrina da confissão positiva, tão apregoada em nossos dias, a igreja de Laodiceia estava corretíssima em fazer tais “declarações de fé”. Entretanto, Cristo reprovou sua postura arrogante e auto-suficiente. Se fosse verdade que palavras positivas seriam capazes de atrair prosperidade para quem as proferisse, as Escrituras não diriam: “Em todo trabalho há proveito, mas meras palavras só conduzem à pobreza” (Pv.14:23). Cristo chega a usar de sarcasmo com aquela igreja prepotente. Era como se Ele dissesse: Já que vocês são tão ricos, prósperos, auto-suficientes, vou lhes dar um conselho: Usem seus recursos para adquirir o que vocês ainda não têm: A verdadeira riqueza.

Paulo usa sarcasmo semelhante ao escrever para outra igreja que achava não ter falta de coisa alguma: Corinto.
“Pois quem tem faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? Já estais fartos! Já estais ricos! Sem nós reinais! E oxalá reinásseis para que também nós reinemos convosco! Pois tenho para mim que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte. Somos feitos espetáculos ao mundo, aos anjos e aos homens. Nós somos loucos por amor de Cristo, e vós sábios em Cristo! Nós fracos, mas vós dois fortes! Vós sois ilustres, nós desprezíveis (...) Até ao presente temos chegado a ser como o lixo deste mundo, e como a escória de todos” (1 Co.4:7-10,13b).
Qual o auto-intitulado apóstolo de nossos dias que pode apresentar-nos as mesmas credenciais? Se lermos os versos que omiti (11-12), veremos o quanto Paulo sofreu pela causa do Reino.

Precisamos descer de nossos pedestais ministeriais e admitir nossa profunda pobreza. E quando a admitimos, já não nos ofendemos quando Deus usa o mais humildes dentre os homens para nos abençoar com um prato de comida, ou qualquer outra provisão. Pergunte a Elias como ele se sentiu quando percebeu que o canal escolhido por Deus para alimentá-lo era uma viúva pobre de Sarepta.

Jesus disse que devemos aprender d’Ele que é manso e humilde de coração. Manso para repartir seu próprio pão, humilde para receber sem sentir-se constrangido. A palavra traduzida por “manso” tem a conotação de “desapegado”. Manso é aquele que já não faz questão de coisa alguma. Aquele que vê sua túnica sendo repartida entre os soldados romanos, e não a reclama para si. Já o ser humilde significa está sempre pronto a receber, mesmo quando o canal usado por Deus é de condição mais humilde que a nossa.

O chamado de Deus para a igreja deste tempo é um chamado à pobreza. Não estou falando de um voto de pobreza semelhante ao feito por monges franciscanos. Mas de uma pobreza em que admitimos que nossa suficiência vem do Senhor. Aí poderemos nos apresentar como Paulo: “Pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Co.6:10).

O que constrangerá o mundo quanto ao amor de Deus não serão testemunhos de pessoas que se enriqueceram depois que abraçaram a fé em Jesus, e sim de pessoas que abriram mão de tudo por amor ao seu semelhante.

Postado pela primeira vez em 

Dezembro 15, 2009

segunda-feira, outubro 20, 2014

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A última impressão é a que fica

passaporte carimbado

Por Hermes C. Fernandes

Meu passaporte está cheio de carimbos dos países por onde passei. A primeira vez em que foi carimbado foi em 1991. Se passaram mais de 20 anos desde que pisei pela primeira em solo americano. Aquela impressão desbotou-se com o tempo. Ainda dá para vê-la, porém, sobrepostos a ela, há muitas outras mais recentes. Sem contar que de lá pra cá, já troquei meu passaporte duas vezes.

Todos nos preocupamos com a primeira impressão que deixamos, pois cremos ser ela a que fica. Porém, aprendemos com a Escritura, que no Reino de Deus esta verdade é subvertida. A última impressão é a que fica.

Permita-me tomar um exemplo das páginas sagradas:

Pedro e João haviam sido presos pelas autoridades judaicas. Acusação: subversão da ordem por haver curado um coxo à porta do templo. Após ouvi-los expor a razão que os levara a realizar aquele milagre, as autoridades ficaram maravilhadas com sua ousadia. Confira o texto:
“Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, se maravilharam, e tinham conhecimento de que eles haviam estado com Jesus.” Atos 4:13

De que Pedro estamos falando aqui? Daquele mesmo que negou Jesus por três vezes pouco mais de cinqüenta dias antes deste milagre. O mesmo pescador que acompanhou o Mestre por pelo menos três anos, mas ainda assim foi capaz de emprestar seus lábios a Satanás para dissuadi-lO da cruz. Ainda em um dos seus últimos encontros com Jesus, Pedro demonstrou-se incomodado com o destino que teria João, que parecia muito mais confortável que o seu próprio destino. Rústico, de temperamento sanguíneo, emocionalmente instável, covarde, de repente… transforma-se num poderoso orador, capaz de realizar milagres no nome de seu Mestre. Como explicar isso? Como explicar que Pedro e João, que antes pareciam rivais, agora subirem juntos ao templo para orar? Como explicar sua excepcional desenvoltura no uso das palavras, em se tratando de homens incultos? A conclusão das autoridades não podia ser outra: “Eles haviam estado com Jesus.”

A última vez que estiveram pessoalmente com Jesus foi onze dias antes deste ocorrido, quando o Senhor foi assunto ao céu. Que impressão Jesus teria deixado neles, então? Teria sido aquela a última impressão? Acredito que não!

Já tentou usar um carimbo sem antes molhá-lo na carimbeira? Pode até ficar o relevo no papel, mas aos poucos sua superfície voltará ao normal. Mas quando molhamos o carimbo, além do relevo, fica também a marca da tinta.

Pois foi justamente isso que aconteceu quando os discípulos receberam o carimbo do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Aquela foi a última impressão! Ou melhor, a impressão definitiva. Não me surpreende o fato de que Paulo use a expressão “selo do Espírito” para aludir à tal experiência. “Selo” é o equivalente a “carimbo”.

Quem quer que receba tal impressão do Espírito, há de ser reconhecido, mesmo pelos descrentes, como quem tem estado com Jesus.

Só podemos expressar aquilo que antes foi impresso em nossos corações. Sem impressão, não há autêntica expressão.

Jesus, por exemplo, é chamado de “a expressão exata” de Deus (Hb.1:3). E o que Lhe dava a habilidade de expressar com exatidão o ser divino? Ele mesmo responde: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará, porque Deus, o Pai, o marcou com o seu SELO” (Jo. 6:27). Era, portanto, a presença do Espírito Santo em Cristo que Lhe capacitava, não apenas a fazer os milagres que realizava, mas a expressar a vontade de Deus tanto em palavras, quanto em obras.

Jesus disse que “da abundância do coração fala a boca” (Lc.6:45). Só podemos expressar com legitimidade aquilo que está impresso em nossos corações. Se não, tudo não passará de performance barata. O carimbo é a Palavra de Deus, mas a tinta é o Espírito Santo. É a atuação conjunta entre a Palavra e o Espírito que imprimirá em nossa vida as marcas de Cristo, como disse Paulo aos Gálatas (Gl.6:17). Por isso, o mesmo apóstolo que diz “a palavra de Cristo habite em vós abundantemente” (Cl.3:16), também nos ordena a que sejamos cheios do Espírito (Ef.5:18). Não basta ter o relevo de Cristo. Temos que exibir também as Suas cores. Gosto muito daquela passagem que diz que Deus destinou a igreja para que manifestasse Sua multiforme sabedoria (Ef.3:10). No texto original lemos “multicolorida” em vez de “multiforme”. É o Espírito Santo, que uma vez derramado em nossos corações, irradia através de nossas vidas todos os espectros do amor (Rm.5:5).

O alemão Gutemberg tem sido considerado o pai da imprensa. Foi ele quem criou o processo que consistia em cunhar as letras em matrizes de cobre, com um punção de aço com letras gravadas em relevo, gerando uma espécie de molde de letras, que eram finalmente montadas em uma base de chumbo, tintadas e prensadas. Foi com esse processo que Gutemberg produziu a primeira Bíblia, impressa em latim, com uma tiragem de cerca de 300 exemplares. Sua invenção começou a Revolução da Imprensa e é amplamente considerado o evento mais importante do período moderno. Teve um papel fundamental no desenvolvimento da Renascença, Reforma e na Revolução Científica e lançou as bases materiais para a moderna economia baseada no conhecimento e a disseminação da aprendizagem em massa.

Muito antes de Gutemberg, Paulo afirmou que nós, como cristãos, somos “a carta de Cristo”, “escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração” (2 Co.3:3). A Palavra é a prensa, enquanto o Espírito é a tinta que faz de cada um de nós cartas vivas cujo remetente é Deus e os destinatários são todos os homens. A igreja é, por assim dizer, a gráfica de Deus.

Aquilo que em nós é impresso deve circular livremente entre os homens. Nossa vida deve ser lida por todos. Deve expressar o que foi impresso em nossos corações. Revelar ao mundo Aquele com quem temos estado.

Depois de interrogados pelas autoridades, Pedro e João foram expressamente proibidos de ensinar ou mesmo divulgar o nome de Jesus. Porém, sua resposta foi incisiva: “Julgai vós se é justo, diante de Deus, obedecer antes a vós do que a Deus? Pois não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido” (At.4:19-20). Não há como represar o fluxo das águas do Espírito. Sua voz sobrepõe-se a qualquer censura humana. Como disse Paulo: “Cri, por isso falei” (2 Co.4:13).

E à medida que falamos, somos usados para promover a primeira impressão de Cristo na vida das pessoas com quem convivemos. Por isso, sofremos a censura por parte dos inimigos da fé. Paulo conta como sofreu tal censura por parte dos judeus de sua época, os quais, segundo ele, não agradavam a Deus, e eram “contrários a todos os homens”, impedindo-lhe “de falar aos gentios para que sejam salvos” (1 Ts.2:15-16). Apesar de todas as ameaças, Paulo não se intimidou, desde que ouviu da boca do próprio Jesus, que numa revelação lhe disse: “Não temas, mas fala, e não te cales. Pois eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, porque tenho muito povo nesta cidade” (At.18:9-10). Nossa missão, portanto, é causar uma primeira impressão, deixando para o Espírito de Deus a incumbência de promover a impressão definitiva. Esta primeira impressão é causada tanto por nossa fala, quanto por nossa postura. Há casos em que a pessoa é ganha sem qualquer palavra (1 Pe.3:1). O que não podemos é desperdiçar a oportunidade da primeira impressão. E isso fazemos quando de alguma maneira, expressamos as profundas impressões deixadas por Cristo em nossa alma.

sexta-feira, outubro 17, 2014

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O Evangelho Quântico e o rompimento da lógica linear




Por Hermes C. Fernandes

Uma das mais surpreendentes passagens do Novo Testamento é a que narra o episódio da ressurreição de Lázaro (Jo.11:1-57). Cada vez que retorno a ela, deparo-me com algo que não havia percebido antes.  É como se a cada camada explorada, fôssemos desafiados a ir ainda mais fundo.

É notório que uma das diferenças entre a narrativa de João e a dos evangelhos sinópticos é que o discípulo amado parece subverter a ordem cronológica dos fatos. Um dos exemplos disso é a purificação do templo, situada por João logo no início de seu evangelho, enquanto os demais evangelistas a situam quase ao fim de suas narrativas. Era como se João, por uma inspiração divina, percebesse que a história nem sempre é linear como imaginamos. Nela também se pode aplicar a lógica da mecânica quântica, onde, às vezes, os efeitos precedem as causas, ou ao menos, podem interferir nelas. Já que os evangelhos creditados a Mateus, Marcos e Lucas são chamados de sinópticos, tomo a liberdade de chamar João de “o evangelho quântico”.

Ao contar-nos o episódio envolvendo uma das famílias mais queridas por Jesus, João parece agir como um spoiler, antecedendo fatos que só seriam narrados na sequência do texto. Nenhum escritor em sã consciência faria isso. Seria como estragar a surpresa. Imagine começar um filme de suspense revelando de cara o maior mistério da história que se pretende contar. É como assistir a um filme ao lado de quem já o assistiu e ter que ouvi-lo descrever as cenas que ainda virão. Porém, estou convencido de que João não era um spoiler. O que ele faz é subverter a lógica linear da história, como quem quisesse deixar nas entrelinhas que somos mais influenciados pelo futuro do que propriamente pelo passado.

João começa o capítulo onze de seu evangelho informando que “estava enfermo um homem chamado Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de sua irmã Marta. E Maria, cujo irmão Lázaro se achava enfermo, era a mesma que ungiu o Senhor com bálsamo, e lhe enxugou os pés com os seus cabelos” (Jo.11:1-2). Aquele bálsamo deveria ter sido usado em Lázaro. Mas Maria preferiu guardá-lo para usá-lo em Jesus. Por esta razão, Lázaro cheirava mal com apenas quatro dias de sepultamento. Defendendo-a por aquele inusitado gesto, Jesus diz que ela se antecedeu a ungi-lo, preparando-o para ser sepultado, já que, ao ser removido da cruz, não haveria tempo suficiente para prestar-lhe as devidas honras, devido à proximidade do sábado judaico. No domingo, quando outra Maria amanheceu no sepulcro para embalsamá-lo, teve a grata surpresa de não encontra-lo mais ali.

Dentro de uma cronologia convencional, primeiro se morre, para depois ser embalsamado. A irmã de Lázaro subverteu a ordem linear, ungindo Jesus dias antes que fosse sepultado. Talvez ela nem sequer tivesse ideia do que significava seu gesto. Digamos que ela tenha sido atraída por uma força vinda do futuro. E não é justamente isso que faz a fé? Ou não é a fé a certeza de coisas que se esperam e que, portanto, se insinuam no horizonte do futuro? Portanto, o que deveria influenciar nossas ações não é o passado, tampouco as demandas do presente, e sim “os poderes do mundo vindouro” (Hb.6:5).

Assim que recebeu a notícia de que Lázaro, seu amigo, a quem tanto  amava, estava enfermo, Jesus simplesmente se manteve no mesmo lugar. Era de se esperar que saísse correndo no afã de impedir que seu amigo morresse acometido daquela grave enfermidade. Mas para surpresa dos Seus discípulos, Jesus não moveu uma palha. Obviamente, isso não significava que Jesus não Se importasse. O texto faz questão de frisar que Ele amava, não somente a Lázaro, mas também às suas irmãs.

O fato de nos amar não significa que seremos poupados de certas adversidades. Por conhecer o futuro, Ele sabe exatamente como cada situação em nossa vida contribuirá para que logremos alcançar a glória derradeira.

Alguns até poderiam supor que Jesus estivesse evitando voltar àquela região devido à animosidade dos judeus que estavam dispostos a apedrejá-lo. Depois de dois dias, ao anunciar Sua decisão de finalmente visitar a Lázaro que já estava morto, Tomé, que já mostrava seu caráter incrédulo, comentou maldosamente: “Vamos nós também, para morrermos com ele.” Tomé era o típico homem preso à lógica linear da história. Para ele, o fato de Jesus não haver poupado a Lázaro da morte indicava claramente que também não os pouparia.  

Quem insiste em enxergar a vida deste prisma, está sempre com um pé atrás. Sua lógica é: se aconteceu uma vez, certamente acontecerá de novo. Suas atitudes são respaldadas pela Lei de Murphy e não pela Lei da Fé. Eles primeiro precisam ver para crer. A experiência lhes guia pela jornada da existência. Falta-lhes a disposição de dar o salto da fé. A mesma encontrada em Pedro, cuja experiência não lhe rendeu a pesca desejada, mas que aceitou o desafio de lançar sua rede sobre a Palavra, resultando numa tão grande quantidade de peixes que quase lhe afundou o barco.

A resposta de Jesus a Tomé e cia foi, no mínimo, enigmática:
Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz.
Com efeito, Jesus estava dizendo: Não estou dando um tiro no escuro. Eu sei exatamente o que estou fazendo. Quando se vislumbra o futuro, atenua-se o papel das circunstâncias momentâneas. Por isso Jesus afirmou que Lázaro estava dormindo e que iria despertá-lo. Como Seus discípulos não entenderam, Jesus teve que desenhar: Lázaro morreu! E que bom que vocês não estavam lá quando ele morreu, pois isso os impediria de crer. Agora está explicado. Jesus não se apressou a visitar Lázaro, porque não queria que os discípulos o vissem morrer.

Nossa memória é o que nos liga ao passado. Nossos sentidos nos ligam ao presente. Mas é a fé que nos remete ao futuro. Não dá para viver pelos sentidos e pela fé ao mesmo tempo. Daí Paulo dizer: "Andamos por fé e não por vista" (2 Co.5:7).

Ao chegar a Betânia, Marta saiu-Lhe ao encontro, enquanto Maria permaneceu em casa sentada. Talvez Maria pretendesse extrair outro elogio do mestre, como o que recebera em outra ocasião, quando sua irmã, agitada como sempre, trabalhava, e ela mantinha-se sentada ouvindo atentamente o que Jesus dizia. Aparentemente consternada, Marta se dirige a Jesus, dizendo: "Senhor, se estivesse aqui, meu irmão não teria morrido." Seria esta uma confissão de fé ou uma declaração de desapontamento? Ou seria a mescla das duas coisas?

Ouçamos o que ela diz em seguida: “Mesmo agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Ele te concederá.” Percebe-se que, mesmo depois de quatro dias, Marta não perdeu a esperança. Foi por isso que ela e sua irmã combinaram de não embalsamar a seu irmão. Provavelmente, ninguém sabia disso, nem mesmo os judeus que as visitavam naquele momento de luto profundo. Seria uma vergonha deixar de dar a honra devida a um familiar morto. Era comum que cada família trabalhasse para manter em casa uma quantidade razoável de bálsamo para o caso de um dos membros vir a falecer. Custava o equivalente a um ano de trabalho.

Ninguém pode acusar Marta de não ter esperança. Todavia, sua esperança parecia arremeter-se a um futuro distante, muito além do horizonte existencial. Tratava-se de uma esperança escatológica. Quando Jesus anuncia que seu irmão haveria de ressurgir, Marta responde incisivamente dentro de uma perspectiva escatológica cem por cento acertada: “Eu sei que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia.” Portanto, ninguém jamais poderá acusá-la de heresia. Sua confissão de fé estava correta. Seu credo estava dentro dos limites da ortodoxia. Porém, em ambas as declarações, Marta se revela refém.

Na primeira declaração, ela se mostra refém do futuro do pretérito: "Se o Senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido." Não se trata de estar presa ao passado. No fundo, o passado não aprisiona ninguém. O que nos cativa é o futuro do pretérito, um tempo que só existe em nossa imaginação. Se no presente conjugamos o verbo ser dizendo “eu sou”, no futuro do indicativo dizemos “eu serei”, no passado dizemos “eu fui” ou “eu era”, no futuro do pretérito dizemos “eu seria”. E é assim que ficamos presos no limbo da existência, imaginando como teria sido algo se não houvesse ocorrido isso ou aquilo.

Já que ainda não inventaram a máquina do tempo, nada há que possamos fazer para alterar o que se passou. Em vez de ficar nos lastimando pelo ocorrido, devemos buscar ressignificar eventos passados à luz do presente e do porvir. Nada acontece em vão. Tudo serve a um propósito que, ainda que o desconheçamos hoje, um dia há de nos ser revelado. Como bem disse Jesus a Pedro: O que faço agora, não entendeis, mas compreendereis depois. Quando todas as peças do mosaico estiverem devidamente encaixadas, uma figura emergirá dele, e tudo, finalmente, fará sentido. Ou vivemos por fé com olhos voltados para o futuro, ou vivemos presos ao futuro do pretérito, gastando nossas energias a nos lamentar.

Na segunda declaração, Marta se revela confiante em fatos que estariam para além desta existência. Tal confiança tem o potencial de nos alienar. A fé sadia não apenas nos remete ao futuro, mas patrocina a inserção do futuro no presente. Os peixes que caíram na rede de Pedro foram trazido para o barco e do barco trazidos à praia. Não se pode vislumbrar o futuro e deixá-lo lá mesmo. A vontade de Deus feita no céu, deve ser igualmente feita na terra. O presente deve ser copulado pelo futuro. Somos, por assim dizer, o cupido que promove este encontro fecundo entre o futuro e o presente.

Se nosso presente não estiver grávido do futuro, ele estará grávido do passado e isso equivaleria a um tipo de incesto existencial.

Em vez de elogiar a ortodoxia presente na declaração de Marta, Jesus lhe responde:

Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês isto?

Em Cristo, eventos futuros se fazem presentes. Ele os atualiza, puxando-os em nossa direção como um pescador que gira a manivela de sua vara, trazendo-nos o peixe que mordiscara sua isca.

Marta lhe dá uma resposta teológica: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.” Pelo jeito, ela tinha respostas ensaiadas na ponta da língua, mas talvez não se desse conta das implicações de tais verdades. A gente repete feito papagaio o que outros nos disseram, mas não entende o sentido do que se diz, tampouco do que se crê. 

Não foi daquela vez que Marta conseguiu a proeza de sua irmã ao ser elogiada pelo mestre. Por isso, Marta sai à francesa, vai ao encontro de sua irmã e cochicha em seu ouvido: O Mestre está aí, e te chama.

Jesus continuava estacionado na entrada da aldeia, no lugar onde encontrara Marta, quando Maria se aproximou ofegante por causa da corrida que dera, deixando os judeus que a visitavam assustados. Ao vê-lo, Maria se lançou aos Seus pés, repetindo a mesma ladainha dita por sua irmão: “Senhor, se tu estiveras aqui, meu irmão não teria morrido.”

A declaração era basicamente a mesma, porém, a reação de Jesus foi totalmente diferente. Ele não argumentou com Maria da maneira como fez com sua irmã. A diferença era que o Marta dizia com olhos enxutos, Maria repetia com os olhos encharcados. Marta dizia o que havia decorado. Maria dizia o que partida do seu coração. O tom de Marta era o de acusação. O de Maria era o de desabafo sincero.

Jesus, pois, quando a viu chorar, e chorarem também os judeus que com ela vinham, comoveu-se em espírito, e perturbou-se, e perguntou: Onde o puseste? Responderam-lhe: Senhor, vem e vê. Jesus chorou.

Como ler isso e não se emocionar? Quem jamais poderia supor que lágrimas humanas pudessem perturbar o Criador? Mesmo sabendo o desfecho daquela história, Jesus não estava emocionalmente blindado.

Por muito tempo, os teólogos têm discutido como um Deus conhecedor do futuro poderia se deixar comover pelo sofrimento humano? Algumas teologias conceberam um deus tão, tão poderoso que tornou-se asqueroso, pois revela-se incapaz de se compadecer de nossas misérias.

Como conciliar isso? Como resolver este aparente paradoxo?

O Deus que é, e que, portanto, está para além da existência, mergulhou de cabeça na história, de modo que pudesse perfeitamente se compadecer de nós (Hb.4:15). O grande “Eu sou” não tem passado, nem presente, nem futuro. Ele não existe. Ele simplesmente é. Ele transcende a existência. Porém, em Cristo, Deus Se humaniza, Se historioriza adentrando o tempo e o espaço. De sorte que, agora, Ele tem história, passado, presente e futuro. Se antes, Ele Se apresentava como o “Eu sou” (Êx.3:14), agora Ele Se apresenta como “Aquele que era, que é e que há de vir” (Ap.1:8), “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb.13:8).  

Em Cristo, Deus existe! Ele Se tornou um de nós! Por isso, Ele não apenas tem misericórdia de nós, mas também Se compadece. Ele sente nossas dores e chora nossos dissabores. O Deus Todo-Poderoso agora Se revela vulnerável ao sofrimento humano. Eis Sua fraqueza. Eis Sua loucura infinitamente mais sábia que toda nossa vã sabedoria. O Todo-poderoso também é o Todo-amoroso.

Diante daquela inusitada cena, os judeus deixaram cair suas pedras e comentaram entre si: Vede como o amava. Mas alguns deles disseram: Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também que este não morreste?” Sempre haverá quem não se contente com qualquer que seja a demonstração de amor. Esses preferem o espetáculo sensacionalista. Ainda estão presos no limbo do futuro do pretérito.

Sem dar a mínima para isso, Jesus comoveu-se outra vez, mas agora, de maneira ainda mais profunda. Chegando-se ao sepulcro, pediu que lhe removesse a pedra que o selava.

Num descuido, Marta confessa em alto e bom tom: “Senhor, já cheira mal, porque está morto há quase quatro dias”. Por que digo que aquilo foi uma confissão pública? Porque até àquele instante, ninguém supunha que as irmãs do defunto o haviam privado das honras devidas representadas pelo embalsamento.

Jesus responde a Marta: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?

Ora, se você se der o trabalho de ler o texto inteiro, verificará que em nenhum momento Jesus aparece dizendo isso a Marta. Terá sido uma falha na narração de João? Creio que não. Prefiro acreditar que Jesus tenha dito isso quando ela lhe virou as costas para chamar sua irmã. Marta era do tipo que gostava de ter a última palavra em qualquer questão. Tão logo confessou crer que Jesus era o Cristo, virou-lhe as costas sem dar atenção ao que Ele ainda diria. De fato, Ele disse, mas ela não ouviu. Quantas coisas Ele também não nos tem dito no dia-a-dia, mas não lhe temos dado a atenção merecida?

A gente prefere uma leitura superficial, atrelada ao senso comum, comprometida em manter-nos em nossa zona de conforto. Somos seletivos dando ouvidos ao que nos conforto, mas não ao que nos confronta e desafia.

Com a pedra do sepulcro removida, Jesus levantou os olhos ao céu e disse: “Pai, graças te dou, porque me ouviste.

Mais uma vez Jesus subverte a lógica linear da história. Ele agradece ao Pai por já ter ouvido uma oração que Ele ainda faria. Mesmo estando entre nós, Ele continua enxergando para além do horizonte dos fatos históricos. Para Ele, o futuro já é. Ele é o que chama a existência as coisas que não são como se já fossem (Rm.4:17). Tomando um barco como analogia, podemos dizer que os sentidos nos ancoram na realidade, impedindo que naveguemos, os sentimentos nos fazem tocar a mesma realidade, porém, sem nos prender a ela, mas é a fé que nos provê as velas que nos fazem avançar mar a fora. Não podemos nos privar dos sentimentos, sob pena de nos tornarmos seres apáticos e alienados. Mas também não podemos nos privar da fé, sob pena de sermos vendidos ao desespero ou ao cinismo.

Depois de agradecer ao Pai, Jesus clama em alta voz dirigindo-se ao túmulo: Lázaro, vem para fora! Não foi preciso falar mais de uma vez. Vir para fora é um convite a nos tornarmos igreja (grego = ekklesia = tirados para fora). Não fora da realidade, o que seria alienação. Mas voltada para fora de si mesma, isto é, para o mundo à sua volta. Engajada na história, porém, comprometida com a eternidade.

Apesar de atender ao chamado que ecoou em seu sepulcro, Lázaro saiu com os pés e as mãos enfaixados e seu rosto envolto num lenço. O que o diferenciava de uma múmia egípcia era o fato de não ter sido embalsamado. Mesmo vivo, continuava preso. Caberia aos seus discípulos, dentre os quais estavam Marta e Maria, desatá-lo e deixá-lo ir.

Desafio semelhante é o que enfrentamos em nossos dias. Há muitos que foram regenerados, tendo experimentado o poder da ressurreição, mas que estão atados pelas tradições mofadas que lhes foram legadas. O que esta geração de cristãos precisa não é uma novo avivamento, mas de um desatamento.

Deixem Lázaro em paz! Ele precisa de um banho! Não precisa chantageá-lo para que siga a Jesus. O mesmo que o ressuscitou o atrairá a Si com o poder do Seu amor. O fato é que, no dia seguinte, Marta e Maria resolveram dar um banquete para Jesus, e adivinha quem estava sentado à mesa? Lázaro! Foi nesta ocasião que Maria quebrou o protocolo e derramou em Jesus o bálsamo que deveria ter sido usado em seu irmão. E é aí que a história começa...



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Cientistas alteram acontecimentos do passado


Um grupo de físicos conseguiu o que parecia impossível: a mudança desde o presente de um evento que ocorreu no passado.

O feito foi conseguido explorando uma estranha capacidade das partículas subatômicas que até agora não passava de simples teoria, foi agora provado em laboratório na Universidade de Viena.

À já longa lista de propriedades extraordinárias das partículas subatômicas será adicionada agora a capacidade de influenciar o passado. Ou, dito de outra forma, para mudar os eventos já ocorridos.

O conceito chave que permite que este comportamento novo e surpreendente é um velho conhecido da física: o entrelaçamento quântico , um fenômeno ainda não totalmente compreendido e é uma espécie de “união íntima” entre duas partículas subatômicas, não importando a distância a que se encontram uma da outra.

Quando duas partículas estão “entrelaçadas”, quaisquer modificações que realizamos numa delas será imediatamente reflectidas no outro, mesmo que a 2ª partícula se encontre do outro lado da galáxia.

Agora, pela primeira vez um grupo de investigadores conseguiu entrelaçar partículas depois de as terem medido, isto é, a posteriori e num momento em que alguma delas podia já não existir na realidade.

Parece confuso, é verdade. Mesmo os autores do teste referem-se a ele como “radical” no documento publicado esta semana na revista Nature Physics. “Que estas partículas estejam ou não entrelaçadas, diz o artigo, cujo primeiro autor é Xiaosong MA, o Instituto de Óptica Quântica da Universidade de Viena, é algo que foi decidido depois de efetuarem a sua medição.”

Em essência, os pesquisadores conseguiram demonstrar que as ações tomadas no futuro podem influenciar os acontecimentos ocorridos no passado. Desde que, evidentemente, limitar a experiência no campo da física quântica.

No estranho mundo das partículas subatômicas, as coisas acontecem de maneira muito diferente do que ocorre no mundo “real” e macroscópico, que podemos ver e tocar todos os dias ao nosso redor. Na verdade, quando o entrelaçamento quântico foi previsto pela primeira vez, Albert Einstein expressou a sua aversão à ideia chamando-o de “ação fantasmagórica à distância”.

Então, durante as últimas décadas, o entrelaçamento foi testado centenas de vezes no laboratório, mas apenas agora físicos não tinham sido capazes de descobrir como estabelecer este tipo de “comunicação instantânea” entre duas partículas que não estão em contacto físico. Agora, a equipa da Universidade de Viena levou o entrelaçamento um passo em frente, e conseguiu o que ninguém tinha sido capaz de fazer.

Para realizar esta experiência, os físicos começaram a partir de dois pares de partículas de luz, ou seja, dois “pacotes” de dois fotões cada. Cada uma das duas partículas de cada par de fotões foram entrelaçados entre si.

Mais tarde, um fotão de cada par foi enviado a uma pessoa hipotética chamado Victor. E das duas partículas (uma por casal) deixadas para trás, foi dado a uma Bob e outra a Alice. (Bob e Alice são nomes utilizados para ilustrar as experiências de física quântica).

Victor, ao possuir um fotão de cada par entrelaçado, tem total controlo sobre as partículas de Bob e Alice. Mas o que aconteceria se Victor decidi-se entrelaçar as duas partículas que ele tem.

Ao fazê-lo, também os fotões de Alice e Bob (já entrelaçados com cada um dos dois fotões na posse de Victor) iriam entrelaçar-se entre eles também. A boa notícia é que Victor pode decidir realizar esta ação a qualquer momento que desejar, mesmo depois de Bob e Alice terem medido, modificado ou até mesmo destruído os seus próprios fotões.

“O que é realmente fantástico, diz Anton Zellinger, também da Universidade de Viena e co-autor do experimento, é que a decisão de entrelaçar os dois fotões podem ser tomadas num momento muito mais tarde. Mesmo no caso de um dos outros fotões ter deixado de existirem.

A possibilidade de realizar esta experiência tinha sido prevista em 2000, mas ninguém conseguiu fazê-lo. “A forma como entrelaçamos as partículas – explica Zeilinger, é enviá-las para um cristal, cuja metade é um espelho. Glass, portanto, reflete metade dos fotões e passa para a outra metade. Se você enviar dois fotões, um à esquerda e um à direita, cada um deles irá esquecer-se de onde procede. Isto é, perdem as  suas identidades e ambos ficaram entrelaçados.

Zeilinger diz que a técnica pode um dia ser usada para a comunicação ultra-rápida entre dois computadores quânticos, capazes de usar o entrelaçamento para armazenar informações. Claro, uma máquina com estas características ainda não existe, apesar de experiências como estas representarem um grande passo em direção a esse objectivo e realidade.

“A ideia, diz Zeilinger, é criar dois pares de partículas, e enviar uma a um computador e outra para o outro. Assim, caso se entrelacem essas partículas (tal como na experiência), os dois computadores podiam usá-las usar para trocar informações, independentemente da distância.”


quinta-feira, outubro 16, 2014

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O Cristo Patrono dos Espertalhões



Por Hermes C. Fernandes


Nasceu no Palácio de Herodes em Jerusalém, centro do poder judaico. Veio para o que era seu, e os seus o receberam, e com muitas pompas! 

Aos doze anos já discutia novas rotas comerciais e estratégias de conquista com os conselheiros reais. Seu primeiro milagre aconteceu num pomposo casamento na realeza. Transformou a água em suco de caju, não por haver faltado bebida na festa, mas apenas para dar uma gorjeta do seu poder. Poderia tê-la transformada em vinho, vodca, ou até whisky, se quisesse. Mas preferiu não escandalizar a ala mais conservadora e fundamentalista dos religiosos.

Aos 30 anos, foi batizado na piscina da cobertura do palácio, por um dos profetas badalados da época. Enquanto descia às águas, viu-se uma águia, símbolo de conquista, sobrevoar sua cabeça, e uma voz que bradou de algum lugar: Este é o cara! Vai e arrasa!

Saiu dali e foi para uma região praiana tirar quarenta dias de férias antecipadas. Não precisou ser tentado em nada, pois nunca se negou bem algum. Transformou pedras em pizza, só pra se divertir. E ainda fez malabarismo no pináculo do templo, pra tirar uma onda com os sacerdotes. No final das férias, subiu num monte bem alto, avistou os reinos deste mundo e disse pra si mesmo: Tudo isso me darei!

Quando abordado por algum gentio, do tipo daquele centurião que tinha um servo enfermo, dizia-lhe: Dá um tempo! Não vim pra vocês, seus impuros, idólatras e ignorantes. E mais: Nunca vi tanta petulância! Onde já se viu? Pedir por um serviçal! Além de gentio, é burro!

Ao deparar-se com um cobrador de impostos desonesto, que subira numa árvore só pra lhe ver, disse-lhe: Como é que é, meu irmão, vamos ou não vamos dividir esta grana? Desce logo, que tô com pressa! E manda preparar a banheira com sais minerais do Mar Morto, porque hoje vou me hospedar na suíte de sua casa.

Ao ser tocado por uma mulher hemorrágica, esbravejou: Tira essa louca daqui! Não sabe que a Lei proíbe qualquer aproximação de uma pessoa em seu estado? Imunda!

Por onde passava, seus discípulos estendiam um cordão de isolamento, para que leprosos, morféticos, cegos, endemoninhados, e todo tipo de gente asquerosa não ousassem se aproximar do rei da cocada preta.

Diferente era o trato que dispensava aos fariseus e religiosos da época. 

Em sua versão da parábola do bom samaritano, quem socorria o moribundo era o sacerdote, que sem hesitar, tentava extorquir-lhe uma gratificação. O samaritano era o assaltante, que negou-se a dividir a grana com o levita. 

- Venham a mim, todos os que querem alguma vantagem da religião. Vocês serão cabeça e não cauda. Comerão o melhor da terra! Unam-se a mim, e eu lhes farei milionários. Aprendam comigo, que sou malandro e esperto de coração. Espertos são os que riem da desgraça alheia. Espertos são os que gostam de ver o circo pegar fogo. Espertos são os que têm fome e sede de sucesso. Eu saciarei seu ego!

Quando procurado por um jovem rico, disse-lhe, sem o menor pudor: Quer sociedade? Vamos rachar esta grana? Vai ter um lugar especial no meu reino, garoto...

E quando entrou em Jerusalém montado naquele exuberante corcel branco 0 km? Foi tremendo! Não teve pra ninguém!

No episódio em que queriam executar uma mulher flagrada em adultério, ele foi o que lançou a primeira pedra. Sua política com os pecadores era de tolerância zero. 

Ao visitar o templo, ficou super orgulhoso com o que viu ali. Ainda saiu de mesa em mesa recolhendo a décima parte do que fora obtido com o lucro das vendas dos animais para o sacrifício e o ágio cobrado no câmbio. Criticava duramente os publicanos e as prostitutas, mas com os fariseus e religiosos sobravam elogios. 

Uma vez entrou num prostíbulo munido de chicote. Achavam até que ele curtia uma onda sadomasoquista. Mas ele saiu expulsando prostitutas e cafetões aos gritos: Seus porcos! Ousam transformar minha zona numa casa de mãe Joana!

Cruz? Que cruz? Tá doido? Cruz é pra gente como Jesus, aquele nazareno nascido numa manjedoura. Eu vim pra ter vida, e vida com abundância. Quem quiser vir após mim, passa tudo o que tem pra minha conta, e me siga. Ou tudo ou nada! Ou dá ou desce!

Revolucionário? Que nada! Graças a um conchavo político feito às escuras com o Império Romano, garantiu para si a sucessão de Herodes, e viveu muitos e muitos anos.

Ao descobrir que um dos seus asseclas o estava traindo, sem dó nem piedade, mandou enforcá-lo. Quem o negou teve sua língua decepada. 

Ao morrer, farto de dias, confiou seu legado a um grupo de discípulos seletos, que juraram que sua mensagem jamais seria esquecida, e que ao longo dos séculos, sempre haveria quem a promovesse em sua própria geração. Partiu ordenando que cada um dos seus discípulos lhe beijasse os pés, em sinal de submissão. E que aprendessem a se servir uns dos outros, e ainda se servir dos poderes constituídos, sem jamais criticá-los ou censurá-los.

Promessa feita, promessa cumprida.

Basta ligar a TV, o rádio, ou mesmo acessar a internet, para se dar conta de quantos dos seus discípulos ainda dão eco à sua voz.

quarta-feira, outubro 15, 2014

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O universo é uma projeção holográfica do futuro?


Andrew Strominger, pesquisador da teoria das cordas na Universidade de Harvard, teve uma estranha ideia há algum tempo. Até hoje, ele defende a tese de que nosso universo é uma ilusão – uma imagem projetada no passado por meio de um holograma localizado no limite do universo, em um futuro infinito.
A medida que essa imagem é projetada para trás no tempo, ela se atenua, ganhando um aspecto indefinido e podendo até sumir.
Essa ideia tem sido cada vez mais aceita pela comunidade científica mundial, sobretudo no aspecto matemático de algumas teorias baseadas na física quântica, como a teoria das cordas.
Embora o próprio Strominger admita que isso é um trabalho de pura especulação, a ideia – caso esteja correta –  explicaria como o espaço e o tempo surgiram do “nada”, além de ajudar na unificação das duas principais teorias físicas, a relatividade de Einstein e mecânica quântica, que juntas podem explicar todas as coisas do universo.
Diferentemente da teoria do Big Bang, onde toda a matéria surge de um único ponto cuja origem é incerta, a teoria do holograma apresenta um lento e contínuo processo de criação, conforme cada vez mais detalhes do holograma surjam para nós.
Pensando assim, todas as coisas, até mesmo os seres vivos, seriam projeções vindas de um futuro distante.
Mas calma, toda essa loucura tem um fundamento matemático.


Tudo isso começou quando Stephen Hawking e Jacob Bekenstein, em meados da década de 1970, notaram que o conteúdo da informação da singularidade de um buraco negro (entropia) é proporcional à sua superfície (conhecida como horizonte de eventos). Isso pode ter sido uma das maiores descobertas da história da cosmologia, e não é difícil entender o por quê.
A descoberta foi denominada “princípio holográfico”. Buracos negros de fato funcionam como hologramas. A informação tridimensional de um buraco negro é codificada em sua superfície bidimensional.
    Strominger então calculou a entropia de um buraco negro através de equações utilizadas para descrever o comportamento de partículas na Teoria Quântica de Campos, e posteriormente percebeu que existia uma equivalência matemática entre dois tipos de universos: um no qual as partículas obedecem à teoria quântica de campos, mas não possui gravidade; e outro no qual há cordas e gravidade, além de um espaço-tempo negativamente curvado, como acredita-se que existe dentro dos buracos negros.
    Embora isso não diga muita coisa para a maioria das pessoas, isso trouxe um grande impacto na física teórica. Strominger explica que, quando os cálculos estão difíceis de serem resolvidos, eles criam uma outra situação, denominada “universo espelho”, onde sua matemática é mais simples, e ali terminam seus cálculos antes de voltarem para o “universo real”.
    E os cálculos do físico têm se mostrado incrivelmente precisos entre esses dois universos.
    No entanto, sabemos que o espaço-tempo de nosso universo não é como de um buraco negro. Ele está se expandindo devido à força da energia escura que age em oposição à gravidade. Esse universo é diferente dos dois apresentados anteriormente, e os cálculos de Strominger simplesmente não se aplicavam a esse caso.
    Mas durante os esforços do físico para reverter a situação, ele descobriu algumas evidências matemáticas que apoiam a tese de que há informações contidas em uma superfície, holograficamente projetada para trás no tempo.
    Contudo, provar que nosso universo é uma mera projeção holográfica vinda do futuro é algo praticamente impossível, além da matemática. E você leitor, acredita nessa ideia?

    Fonte: Mistérios do Mundo

    terça-feira, outubro 14, 2014

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    Reino, ideologias e utopia Anarquista


     “Anarquia, este sonho de justiça e de amor entre os homens…”
    Errico Malatesta, ativista italiano



    Que ideologia estaria mais próxima da proposta do evangelho do reino? Alguns diriam que socialismo/comunismo devido à ênfase cristã na distribuição dos bens. Outros diriam que o liberalismo/capitalismo por sua ênfase na livre iniciativa. Outros ainda diriam que o anarquismo, tendo em vista que os poderes deste mundo estariam mesmo fadados a desaparecer. Cada qual tem versículos bíblicos chaves previamente separados como munição para atacar os que pensam de maneira diferente.

    Lendo a parábola do bom samaritano, encontramos ali a representação de cada uma dessas ideologias.[1]

    Jesus estava sendo arguido por um doutor da lei (o mais próximo do que hoje chamamos de advogado). Em vez de respondê-lo diretamente, Jesus lhe faz duas outras perguntas: O que está escrito na Lei e como a lês? A primeira tem caráter objetivo, a segunda, subjetivo.  O que diz a Lei revela quem Deus é, mas a maneira como a lemos revela quem somos.

    É aí que mora o problema quando o assunto é ideologia. Quem tem predileção pelo socialismo, vai ler a Bíblia a partir de sua ótica esquerdista. E o mesmo se dará por quem tem predileção por qualquer outra ideologia. A bem da verdade, a Bíblia oferece recursos para reforçar qualquer discurso ideológico. Difícil é fazer uma leitura isenta, sem as lentes ideológicas.

    Perguntando-lhe sobre o que dizia a Lei, este o respondeu: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

    A resposta está... EEEXATA!!!

    Faça isso e viva! Respondeu Jesus.

    Mas espera aí... só isso? Não pode ser! Eu sou um advogado, não posso contentar-me com uma resposta tão simplista.  Hum... Já sei! Tenho uma nova questão: Quem é o meu próximo?

    Com esta pergunta, ele se revelou. Suas entranhas foram expostas.

    Alguns se sentem mais próximos dos poderosos. Outros, dos miseráveis. Outros, dos religiosos. E ainda outros, dos pecadores.

    Em vez de respondê-lo diretamente, Jesus resolve contar mais uma de suas fascinantes estórias: Um homem que descia de Jerusalém para Jericó foi abordado por assaltantes, que depois de espancá-lo, deixaram-no meio morto.

    Podemos atribuir a esses assaltantes o lema “o que é teu é meu”. Eles não respeitavam a propriedade privada. Achavam-se no direito de subtraí-la a seu bel-prazer. Mesmo que fossem como Robin Hood, roubando dos ricos para distribuir entre os pobres, ainda assim seriam ladrões.  Facilmente identificamos sua postura com a ideologia socialista. 

    Os dois principais mandamentos abrangem a todos os demais. Uns dizem respeito ao amor que devemos a Deus, como por exemplo, não adorar outras divindades além d’Ele, não pronunciar Seu santo nome em vão, etc. Os demais dizem respeito ao amor que devemos ao nosso próximo. Entre esses encontramos dois que defendem claramente o direito à propriedade privada: não cobiçarás o que for do seu próximo (cônjuge, bens, etc.), e não furtarás. Não se trata apenas de deveres, mas da garantia de direitos. 

    Qualquer regime que atribua ao Estado o direito de ingerência na vida privada de seus cidadãos está extrapolando suas funções. A justiça social não pode ter como ponto de partida a violação da propriedade privada. Não é tirando arbitrariamente dos ricos e dando aos pobres que vamos resolver o problema. Há vários mecanismos usados pelo Estado para subtrair seus cidadãos, principalmente através da cobrança de impostos pesados.

    Jesus, então, introduz o terceiro personagem de sua trama: o sacerdote. Todos esperavam que este socorresse o moribundo. Em vez disso, ele nem sequer se aproxima. Provavelmente, ele estava indo para Jerusalém para prestar seu serviço no templo. Segundo a Lei, se tocasse em um cadáver, o sacerdote ficaria impuro, e, portanto, impossibilitado de cumprir seu turno.  Seu lema era “O que é meu é meu”. Em outras palavras, era como se dissesse: tenho que preservar o que tenho, sem me importar com o que se passa com o outro. Perceba aqui a similaridade desta postura com a ideologia capitalista, em que cada homem é uma ilha. O individualismo é enfatizado. A performance não pode ser comprometida com distrações. A ordem é produzir. Cumprir seu turno. Preservar seu status a qualquer custo. Neste mesmo espírito, as sociedades capitalistas promovem a segregação social. Os ricos blindam seus automóveis. Vivem nababescamente em seus condomínios luxuosos. Isolam-se da realidade. Enviam seus filhos para estudarem no exterior, longe das ameaças das ruas. Para estes, cumprir a agenda é mais importante que socorrer uma vítima da injustiça. Lucrar é o seu afã.

    O capitalismo acaba por promover uma espécie de sistema de castas. Todos almejam chegar ao topo da pirâmide. O sonho do oprimido é um dia tornar-se no opressor, e assim, ir à forra por tudo o que sofreu.  Quem um dia foi cauda, finalmente será cabeça.  Ascensão social é a palavra mágica que mantém a máquina girando.  E a religião está aí para lubrificar suas engrenagens com seu discurso triunfalista e a justificação do lucro. A Teologia da Prosperidade é a versão pós-moderna deste discurso. Ela não só justifica, mas canoniza o lucro. Se no comunismo, o Estado usurpa o lugar de Deus, no capitalismo quem o usurpa é o capital, a quem Jesus chama de Mamom.

    Decepção geral! A audiência de Jesus deve ter reagido mais ou menos como a torcida quando seu time perde um pênalti. Logo quem... o sacerdote.

    Sai de cena o sacerdote e entra o levita.

    Agora vai! Um homem pertencente a uma tribo totalmente dedicada ao Senhor...  Não vai pensar duas vezes. Aquele homem pode considerar-se socorrido.

    Inusitadamente, o levita adota a mesma postura do sacerdote (que, diga-se de passagem, pertencia à mesma tribo). Todas as ideologias e regimes possuem a mesma origem: humana. O que se pode esperar delas? O lema do levita era “O que é teu é teu”. Em outras palavras: não me envolva em questões alheias. O sistema é bruto! É cada um por si e... Deus por todos!? Tem certeza disso?

    Esta postura se assemelha com a proposta anarquista, defendida por alguns intelectuais idealistas. Será que a sociedade humana atingiu tal grau de evolução e sofisticação que possa dispensar qualquer tipo de governo? É de se considerar um tanto quanto romântica e atraente esta visão. Mas cada vez que nos deparamos com as injustiças, sejam individuais ou coletivas, percebemos que ainda não podemos viver numa sociedade sem leis, sem regras sociais, sem punição para os criminosos, sem infraestrutura, sem educação, etc. E para que tudo isso seja possível, ainda é mister a representação política. A anarquia é uma utopia que, a meu ver, só será plenamente alcançada quando Cristo houver destruído toda estrutura de poder.[2] O processo de demolição já começou e passa pela conscientização de que somos dependentes uns dos outros. Quanto mais o reino de Deus avançar, menos a sociedade humana necessitará do Estado. Até que chegue o dia em que finalmente teremos aprendido a nos articular em função do bem comum sem a necessidade de mediação e da tutela de qualquer governo. Tão logo o prédio se erga, os andaimes são dispensados. Porém, enquanto estamos em fase de acabamento, eles são necessários, caso contrário, corremos o risco de nos isolarmos uns dos outros, como andares de um edifício cujas escadas que os ligam estão obstruídas. Neste caso, os andaimes oferecem acesso externo. Quando a obra terminar, as escadas estarão liberadas. Circularemos por entre todas as esferas sociais sem recorrer a aparatos externos.  Enquanto isso não acontece, não se pode dispensar o papel do Estado.

    Não dá para cada um viver por si e para si mesmo, ignorando a necessidade dos demais. O levita da parábola é uma pipa avoada. Passa levitando pelos demais, sem importar-se, sem perceber sua ligação com o todo. Apatia é o seu sobrenome.[3]

    Portanto, nosso problema não é com a anarquia, mas com a apatia. Não é a ausência de governo, mas de paixão. O amor faz com que o outro exerça poder gravitacional sobre nós. Somos atraídos a ele e levados a considerar sua condição, buscando fazer alguma coisa que atenue a sua dor.

    De repente, Jesus introduz em sua estória uma figura depreciada pelos judeus: Um samaritano.

    O que se pode esperar daquele mestiço, lembrança de que um dia estivemos sob o domínio assírio? Ele não tem o nosso pedigree. Ele é um gaiato em nossa nau. Um ser asqueroso, com um sotaque ridículo, sem qualquer etiqueta. Se o sacerdote passou batido, e o levita passou voado, o mínimo que o samaritano vai fazer é cuspir no pobre coitado e passar por cima.

    Para escândalo de sua atenta audiência, o samaritano interrompe sua viagem de negócio, se aproxima do moribundo, presta-lhe os primeiros socorros, coloca-o em sua cavalgadura, hospeda-o com recursos próprios, e ainda custeia o seu tratamento. Seu lema era “o que é meu é teu”. Nada do que fez foi por imposição do Estado, nem visando obter algum lucro ou vantagem, mas por livre e espontânea vontade. O texto diz que ele foi movido por compaixão. A solidariedade era a sua bandeira. Não importava a nacionalidade daquele a quem socorria. Ele nem mesmo esperava receber qualquer recompensa.

    As ideologias nos distanciam. Os ideais do reino nos aproximam. Não precisamos demonizar, tampouco canonizar ideologia alguma. Todas têm suas incongruências e idiossincrasias. Os ideais preconizados por cada uma delas só será alcançado mediante a práxis do evangelho do reino. 

    Usamos o neologismo reinismo para identificar tal práxis. Mesmo sem identificar-se como uma ideologia, o reinismo ofereceria, por assim dizer, a grande síntese ideológica tão almejada pela sociedade humana, em que a liberdade almejada por liberais/capitalistas é preservada, sem que para isso seja sacrificada a justiça social tão cara aos comunistas/socialistas; em que a auto-governança defendida por anarquistas seja possível, não como alternativa à hierarquia governamental, mas como base para toda e qualquer governança.

    O ideal anarquista [4], como dissemos há pouco,  só será possível quando finalmente Cristo houver desfeito toda estrutura de poder, quando a humanidade houver alcançado tal maturidade mediante Cristo, que não precisará submeter-se a nenhuma autoridade, senão a de Deus. Como bem afirmou Paulo: “Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder” (1 Co. 15:24). Até lá, compete-nos submeter-nos a toda autoridade que preze pelo bem comum (Rom.13), que estimule a prática do bem enquanto coíba a propagação do mal através da aplicação da justiça.



    [1] Limito-me às ideologias principais, sem ignorar o vasto espectro ideológico existente em nossos dias.
    [2] 1 Coríntios 15:24 – “Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder.”
    [3] Considerada por alguns como alternativa ao comunismo e ao capitalismo, o Distributismo é uma filosofia econômica que defende que a posse dos meios de produção deve estar o mais amplamente distribuída possível entre a população, em vez de estar centralizada no Estado (como defende o comunismo/socialismo) ou concentrada em uma minoria de indivíduos (capitalismo liberal). Nesse sistema, a maior parte das pessoas deveria conseguir sobreviver sem ter que contar com o uso da propriedade alheia. Valoriza-se a propriedade privada ao passo que valoriza o acesso a tais propriedades. Entre os que defendiam tal ideologia estavam o celebrado Chesterton e Hilaire Belloc.
    [4] Dois célebres anarquistas cristãos foram o francês  Jacques Ellul e o russo Leon Tolstói



    * Este texto foi extraído do livro "Ao oriente do Éden", de nossa autoria. Saiba como adquiri-lo, clicando na aba "livros" em nosso blog.