sábado, julho 04, 2015

13

Os gays, negros, deficientes e a maldição dos deuses



Por Hermes C. Fernandes

Em algumas sociedades antigas como a Grécia, crianças que nasciam portadoras de deficiências físicas eram sacrificadas. Havia uma razão prática para isso e uma justificativa religiosa. De acordo com a sua crença, Deus ou os deuses só teriam criado pessoas perfeitas, e, portanto, somente as tais mereciam viver.  

Acreditava-se que tais crianças eram aberrações, seres amaldiçoados.  Matá-las era prestar um serviço aos deuses. Pelo menos, era assim que eles apaziguavam sua consciência. Mas a razão verdadeira e nem sempre confessada era que deixá-las viver traria prejuízo à sociedade, já que não seriam produtivas, nem poderiam lutar numa guerra e ainda atrapalhar numa eventual fuga.  Assim, tais seres indefesos eram vistos como um peso extra do qual deveriam se livrar o quanto antes. Poupá-las colocaria em risco a sobrevivência da nação. Portanto, em nome do bem comum, da manutenção da ordem, eliminem-nas.

Durante séculos convivemos com a vergonha da escravidão. Certas etnias se achavam no direito de escravizar a outras, usando suas crenças como justificativas. Brancos afirmavam-se superiores aos negros e até questionavam se os mesmos tinham alma ou se eram apenas seres irracionais, semelhantes aos animais. Versos bíblicos foram pinçados para justificar o uso de mão-de-obra escrava. Deixá-los livres colocaria em risco a ordem social. Por isso, os abolicionistas eram acusados de progressistas, de subversivos, de inimigos da ordem que conspiravam contra o bem-estar e a prosperidade da nação.

Genocídios foram perpetrados e justificados por uma crença equivocada. Episódios bíblicos como o de Jericó e das cidades cananitas conquistadas por Israel eram evocados.  Sociedades inteiras como as pré-colombianas foram dizimadas.

Quem seriam hoje as vítimas de nossos preconceitos? As mulheres? Os gays? Os negros? Que passagens bíblicas estaríamos usando para justificá-los? De que lado estaríamos se vivêssemos durante o tempo em que a escravidão era tida como um direito divino? Como nos posicionaríamos quanto à matança de crianças deficientes?

Deus não criou deficientes! Bradavam alguns.

Os negros são uma aberração! Não têm alma! Merecem ser escravizados.

Em nome deste mesmo fundamentalismo muitos bradam: Deus criou macho e fêmea! Não criou homossexuais, nem transexuais ou coisa parecida! Portanto, que direitos eles teriam?

Um pastor americano declarou em uma pregação que os homossexuais não têm direito sequer de existir. Segundo alguns, sua existência coloca em risco o modelo de família que tanto prezamos, assim como a existência de crianças deficientes colocava em risco a segurança da sociedade grega antiga, e a liberdade dos escravos implodiria a ordem social vigente à época.

De fato, Deus não criou gays, como também não criou negros, nem deficientes, nem hermafroditas. Ele criou seres humanos, sujeitos a várias condições, circunstâncias, limitações. Nada mais complexo do que aquele a quem a Bíblia chama de “imagem e semelhança de Deus”.

Assisti a uma matéria jornalística sobre uma criança transexual e sua luta para poder usar o banheiro feminino de sua escola. Seu irmão gêmeo é um menino como outro qualquer. Ele, porém, desde que se entende por gente, percebe-se como pertencente a um gênero distinto de sua anatomia. Veste-se como menina. Fala, sente, pensa e age como tal. O que dizer a esta criança? Estaria possuída de demônio? Um exorcismo resolveria seu problema? Seria simples assim? Ou  seria a educação recebida em casa? Então, por que seu irmão gêmeo não apresentou a mesma tendência?

Senti-me tocado pela história desta criança. Imaginei como deve ser difícil para os pais ter que enfrentar uma sociedade hipócrita, que diz crer nos preceitos bíblicos, mas usam-nos para justificar um dos maiores pecados cometidos por membros de nossa raça: o preconceito.

Minha alma chorou. Este pequeno ser humano poderá ser condenado ao limbo da existência.

Nem a sociedade, muito menos as igrejas, estão preparadas para lidar com isso. Alguns países islâmicos fundamentalistas dão ao problema a mesma solução que os gregos davam às crianças deficientes: homossexuais e transexuais são condenados à morte.

Vale aqui distinguir entre uma coisa e outra. O homossexual geralmente não tem problema com sua anatomia. Ele busca reconciliar sua homoafetividade com o seu sexo biológico. Já o transexual vive uma crise, pois se sente uma mulher num corpo masculino ou vice-versa.  Muitos optam por submeter-se a uma cirurgia de troca de sexo.

Como reagiríamos se um transexual operado se convertesse ao evangelho? Aceitaríamos sua nova condição ou pressionaríamos a que revertesse sua operação? E como reimplantar um órgão masculino que fora removido?

Muitas outras questões surgem daí e demandam respostas honestas e francas. Entretanto, a primeira medida que precisa ser tomada é nos conscientizarmos que tais pessoas são seres humanos criados por Deus e que vivem numa crise interminável, tanto para lidar com suas pulsões quanto para lidar com os preconceitos da sociedade. Devemos acolhê-los ou discriminá-los? Seria ético impormos alguma condição para que fossem recebidos? Que condição impomos para recebermos outros tipos de pecadores? Como acolhemos um empresário desonesto que explora seus empregados sem dar-lhes os direitos trabalhistas e ainda sonega impostos emitindo notas frias? Somos condescendentes com eles? Por que somos tão radicais em se tratando de sexualidade, mas tão maleáveis em outras questões? De que temos medo, afinal? Será que homossexualidade é contagiosa? A sexualidade dos nossos filhos correria algum risco caso a igreja acolhesse tais indivíduos? Haveria dentre nós alguns mal resolvidos nesta questão?

A verdade é que já há homossexuais em nossas igrejas, todavia, mantêm-se velados, temerosos de serem descobertos, expostos e excluídos. Tenho a impressão de que prezamos mais a hipocrisia do que a sinceridade e transparência.

Tudo o que acontece sob a capa da clandestinidade só faz fomentar todo tipo de promiscuidade.  Há gente molestando e sendo molestada nas igrejas. Mas desde que isso não venha a público, tudo bem. O importante é evitar o escândalo, pensariam alguns.

Tomamos a contramão do que Paulo apresenta como sendo o ideal para o ambiente de culto. Segundo o apóstolo dos gentios, onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade. Num ambiente desprovido de preconceito, cada pessoa tem liberdade de ser exatamente o que é, apresentando-se a Deus “com o rosto descoberto” a fim de ser transformado segundo a imagem de Cristo. A transformação operada pelo Espírito tem como ponto de partida o que somos e não o que fingimos ser. Porém, um ambiente impregnado de legalismo e moralismo, as pessoas preferem lançar mão de máscaras religiosas, mantendo em sigilo seus conflitos interiores. O problema se agrava quando a igreja pressiona o indivíduo homossexual a se casar. O objetivo do matrimônio de fachada é provar que por trás dos trejeitos afeminados há um hétero. Conheço o caso de um “ex-gay” que se casou para provar sua conversão. Um ano depois, sua esposa procurou-nos para confessar que se mantinha intacta. Ele jamais a tocara. Adoraria acreditar que isso fosse uma exceção.

Casos de homossexualidade atingem até famílias pastorais. Há pouco soube de um pastor de renome que enviou seu filho de apenas 15 anos para fora do país, depois que o mesmo confessou ser homossexual. Pior que este foi o caso do filho de Oral Roberts, pregador norte-americano mundialmente conhecido, que depois de admitir sua homossexualidade, suicidou-se com um tiro no coração.

Devo esclarecer que em nenhum momento saio em defesa de qualquer tipo de promiscuidade, seja de natureza homossexual ou heterossexual. Se há seis passagens bíblicas que condenam atos libidinosos entre pessoas do mesmo sexo, há mais de dois mil versículos que denunciam injustiças sociais e condenam o abuso do poder econômico. Parece que a Bíblia está mais preocupada com questões sociais do que com sexualidade. Nem Freud daria conta de explicar esta nossa obsessão por questões desta natureza.


Que tal sermos mais compassivos? Que tal soltarmos nossas pedras em vez de arremessá-las? Antes de nos arrogarmos detentores da cura para a homossexualidade, sugiro que busquemos em Cristo a cura para os nossos próprios preconceitos.  O remédio tem em sua fórmula dois componentes: graça e amor. Graça para perdoar. Amor para acolher. O resto, deixemos por conta do Espírito Santo. 

___________

P.S. Tanto tempo depois da abolição da escravidão no Brasil, os negros ainda são discriminados. Pelo jeito, não basta uma canetada num pedaço de papel para abolir uma das mais cruéis mazelas humanas: o preconceito. O que ocorreu com a jornalista Maju Coutinho, a garota do tempo do Jornal Nacional, é uma triste comprovação disso. E pelo jeito, ainda que os homossexuais consigam garantir todos os seus direitos civis, ainda terão que lidar com o preconceito por muito tempo. É o tipo de nódoa que só é removida com a aplicação contínua do mais poderoso alvejante: o amor. Talvez leve algumas gerações até que nos livremos de vez desta maldição que nos acompanha desde os primórdios da humanidade. 

quinta-feira, julho 02, 2015

6

O que estaria por trás da redução de maioridade penal



Por Hermes C. Fernandes

Hoje o Brasil amanheceu mais justo e seguro. Aqueles que se dignam a nos representar na Câmara de Deputados finalmente aprovaram em primeiro turno a PEC 171 que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Que lindo ver nossos representantes se reunindo por duas madrugadas consecutivas para votar pauta tão importante. É de se admirar. Provavelmente foram movidos pelo patriotismo, marca característica de nossa classe política. 

Devemos reconhecer o esforço hercúleo de Eduardo Cunha para atender aos anseios de 87% da população que clamam por vingança, ops, por justiça. Aliás, esforço precedido pelo louvável empenho da mídia nos últimos meses em noticiar insistentemente crimes envolvendo menores no afã de manipular a opinião pública a favor da redução. Não é que deu certo? Por isso, tanto gente lamentou a reprovação da PEC no dia anterior e celebrou sua aprovação 24 horas depois. 

Cunha tão teria conseguido tal proeza não fosse o apoio da mega bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala), formada por representantes das bancadas evangélica, ruralista e armamentista. Mas quem, de fato, puxou o bonde foi a da Bala. Depois de mais de duas décadas de debates na Câmara, e de ter tido sua tramitação travada por deputados ligados aos direitos humanos, finalmente, os nobres deputados conseguiram derrubar uma cláusula pétrea da Constituição, reduzindo a maioridade penal para 16 anos. 

Deixando de lado a ironia, o que há para comemorar? Será que a redução vai diminuir a criminalidade no país? Ora, está comprovado que os homicídios cometidos por adolescentes representam menos, eu disse menos de 1% do total, ao passo que mais de 36% das vítimas de homicídios no Brasil são adolescentes. Portanto, são mais vítimas do que algozes. Em vez de protegê-los, oferecendo medidas sócio-educativas, preferimos varrê-los para debaixo do tapete, num vergonhoso processo de higienização social. 

Quem já fez trabalhos humanitários ou evangelísticos dentro dos presídios como já fiz, jamais comemoraria uma aprovação esdrúxula como esta. Só Deus sabe o que aguarda estes meninos em sua maioria negros e pobres das periferias. A garotada que for detida será matriculada em verdadeiras universidades do crime que funcionam atrás das grades. Quem entra assassino sai assassino em série. Não há reabilitação, com raríssimas exceções. O número de reincidência é assustadoramente enorme. Quando chega “carne nova” no pedaço, tem que se submeter aos caprichos sexuais dos veteranos. 

Ora, se não reabilita, para quê enviá-los para lá? Estamos dando um tiro no pé. Adiando problemas. Tudo para saciar nossa sede de vingança. Enquanto isso, aqui fora, o tráfico passará a recrutar meninos de menos de dezesseis. Quem sabe, em poucos anos, possamos reduzir para 14, depois para 12, 10, 8. Só Deus sabe aonde isso pode parar. 

O mais triste é saber que por trás disso tudo está quem diz seguir e servir Àquele que disse: "Deixai vir a mim as crianças, porque delas é o reino dos céus." Estes são a vergonha do evangelho! Mas, cá entre nós: o que se poderia esperar da união destas bancadas? A da Bíblia com o seu moralismo hipócrita, a do Boi representando o setor que mais emprega trabalho escravo no país, e da Bala, com sua obstinação em armar a população. A propósito, como Jesus se pronunciaria diante disso? 

No Brasil, cria-se o problema para que se venda a solução. Que interesse haveria por trás da PEC 171 capaz de fazer com que deputados trabalhem por duas madrugadas consecutivas, e como se não bastasse, faz com que alguns mudem seu voto em apenas 24 horas? O que esta redução de maioridade penal vai render? Ou alguém é ingênuo para achar que é por justiça e patriotismo? Para onde vamos alocar os menores que forem detidos? Não há espaço em nosso sistema prisional. Provavelmente teremos que construir mais unidades. Com que verba? Já foram cortados 7 bilhões só da educação. De onde o país vai tirar os recursos para a construção de novos presídios? A resposta revela o que há por trás do interesse em reduzir a maioridade pena. Uma vez criado o problema, a solução será buscar no setor privado. Querem privatizar o sistema carcerário brasileiro. Ninguém dá ponto sem nó. 

Mesmo que eu fosse favorável à redução, não veria nisso qualquer razão para comemorar. Acima de tudo, sou um seguidor de quem ensinou a oferecer a outra face, não o “olho por olho e dente por dente”. 

De qualquer maneira, a PEC 171 ainda tem um caminho a percorrer até que seja plenamente aprovada ou rejeitada. Caberá ao Senado lançar uma pá de cal no assunto. E espero que nossos senadores sejam mais sensíveis do que os deputados regidos pela batuta de Eduardo Cunha.


P.S.: Meu amigo Balnires Júnior postou um comentário em minha timeline onde se vê claramente o link entre a redução da maioridade pena e o fantasma da escravidão que ainda nos assombra: "Abolida a escravidão em 1888, e proclamada a República no ano seguinte, uma das primeiras providências desta foi promulgar novo Código Penal em 1890, o qual reduziu a responsabilidade penal (não confundir com maioridade penal) de catorze para nove anos. Nina Rodrigues, ícone da Medicina Legal, verbalizou a motivação da medida em As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil, de 1894: “No Brasil, por causa das suas raças selvagens e bárbaras, o limite de quatorze anos ainda era pequeno! [...] o menino negro é precoce, afirma ainda Letorneau; muitas vezes excede ao menino branco da mesma idade; mas cedo seus progressos param; o fruto precoce aborta. [...] quanto mais baixa for a idade em que a ação da Justiça, ou melhor do Estado se puder exercer sobre os menores, maiores probabilidades de êxito terá ela.” Parte do texto "Maioridade e Atavismo Social" do Cel. Jorge Da Silva.

quarta-feira, julho 01, 2015

10

Confrontando uma geração de filhos da p#&@



Por Hermes C. Fernandes

Não fazia qualquer sentido. Como Deus poderia ter permitido aquilo? Depois de uma vitória tão grande, um fracasso inexplicável.  Israel havia sucumbido diante do exército de uma cidadezinha inexpressiva chamada Ai. Ao todo, foram 36 baixas e fuga vergonhosa.

Dias antes, Jericó tinha caído ante a fúria Israelita. A cidade fortificada fora conquistada pelo povo nômade que perambulava pelo deserto por quarenta anos. Seus muros ruíram depois de treze voltas ao seu redor. Foi um massacre. Uma vitória para levantar o moral daquele povo e fazê-lo temido por todas as nações que se alojaram na terra que Deus prometera a Abraão. Os únicos moradores poupados foram Raabe, a prostituta, e seus familiares. Josué decidiu honrar a promessa feita pelos espiais enviados a Jericó e acolhidos por aquela mulher de moral duvidosa. Em momento algum, julgaram-na pelo estilo de vida que levava. A única coisa que importava naquele instante era o fato de ter arriscado a própria vida para escondê-los em sua casa.

Chegou a vez de Ai. Israel se sentia um time de futebol vindo de uma campanha impecável de sucessivas vitórias. Agora, tendo que enfrentar um time menor, resolve poupar seu elenco e usar seu time reserva, subestimando seus adversários. Bastavam dois ou três mil soldados para quitarem a fatura. Entraram em campo de salto alto, como se usa dizer no futebol, e saíram descalços e desmoralizados.

Josué protesta. Rasga suas vestes diante do Senhor. Passo o dia inteiro prostrado sem proferir uma única palavra. Até que toma coragem e atrevidamente questiona:

- Por que o Senhor nos trouxe até aqui? Antes houvéssemos ficado do outro lado do Jordão.  O que os outros vão dizer? Como vai ficar a nossa reputação? Sem contar a vergonha sofrida pelo seu nome!
A preocupação do general israelita seguia a seguinte ordem de prioridades: 1) A repercussão negativa do fato; 2) A reputação do seu exército; 3) a glória devida ao nome do seu Deus. Pelo jeito, a glória de Deus era o que menos importava naquele momento.  O problema não era o ‘problema em si’, mas a repercussão negativa que gerava.

De repente, Deus interrompe sua oração e diz:

- Você está lamentando o quê? Vocês pecaram contra mim! Há coisas condenadas que foram trazidas para o arraial do meu povo! Enquanto isso não for eliminado, vocês experimentarão sucessivas derrotas.

Josué se levanta decidido a descobrir onde estava o erro. Quem quer que houvesse sido responsável deveria pagar caro. O mal teria que ser cortado pela raiz.

Imagino o burburinho entre o povo:

- O problema deve ser Raabe! Quem  mandou Josué acolhê-la entre nós!? Como pode uma prostituta ser aceita no meio de um povo santo? Temos que eliminá-la o quanto antes! Apedrejá-la com toda a sua família até a morte.

Em vez de precipitar-se, Josué recebe do Senhor a orientação para fazer uma espécie de triagem por sorteio. Dentre todas as tribos, a escolhida é Judá. Justamente a tribo de onde todos sabiam que sairia Aquele que seria destinado a governar o mundo, o Messias. O erro que impedira a vitória de Israel sobre Ai partira dali.

De todos os clãs de Judá, os zeraítas são os escolhidos. De todas as famílias do zeraítas, a sorte recai sobre a família de Zinri, e desta família Deus aponta Acã.

Ufa! Raabe deve ter respirado aliviada. O problema não era ela e sua família. O problema vinha de dentro do próprio povo de Deus.

Decepcionado, Josué se dirige a Acã e diz:

- Pelo amor de Deus! Onde você estava com a cabeça? O que você aprontou, Acã? Confessa! Não esconda nada!

Exposto, Acã resolve confessar o seu pecado:

- Enquanto Jericó era tomada, vi uma capa babilônica lindíssima, e usei-a para embrulhar todo o ouro e toda a prata que encontrei. Chegando à minha tenda, enterrei-os num buraco.

Profundamente decepcionado, Josué ordena a execução de Acã com toda a sua família. Era necessária uma medida radical para que não se abrisse um precedente justo agora que Israel começava a engatinhar como nação organizada.

Se a preocupação de Josué fosse tão-somente buscar um bode expiatório, a candidata mais provável seria Raabe. Mas, além de ser poupada juntamente com sua família, Raabe ainda foi incluída na genealogia do Messias. Que incrível ironia. Acã, da tribo de Judá, condenado e apedrejado, como se fazia às prostitutas. Raabe, prostituta canaanita, poupada e incluída na estirpe do Messias.

Verdadeiramente, a graça subverte surpreendentemente a ordem das coisas.

Todavia, atrevo-me a afirmar que a igreja parece não ter aprendido a lição. Preferimos poupar Acã e apedrejar Raabe. Afinal, Acã é dos nossos! Raabe é da concorrência.

Os pecados de ordem moral são sempre os primeiros da lista. Sobretudo, os que envolvem sexo. Prostitutas, adúlteros, homossexuais, mães solteiras, são tratados como seres asquerosos, indignos do nosso convívio. Ao passo em que somos condescendentes com os gananciosos, com os que fazem qualquer negócio objetivando algum lucro. Crucificamos a carência, enquanto coroamos a ganância. O discurso moralista nos atrai muito mais do que o ético.

À exemplo dos discípulos, sentimo-nos ultrajados com a abordagem de Jesus com a mulher samaritana no poço de Jacó. Uma mulher que já estava no sexto relacionamento não deveria merecer a atenção do Senhor. Ela tinha que ser empurrada no poço para morrer lá. Porém, Jesus identifica ali uma carência. Os múltiplos relacionamentos eram sintomáticos. Por isso, em vez de apelar ao discurso moralista, Jesus lhe oferece a água da vida que saciaria sua carência para sempre.

O mesmo Jesus, ao deparar-se com Zaqueu, o famigerado cobrador de impostos, expôs seu disfarce e disse: Desce depressa, porque hoje me convém pousar em sua casa. Em outras palavras, Jesus estava dizendo: hoje você terá que repartir seu pão comigo e abrigar-me sob o seu teto. Todo ganancioso tem dificuldade de compartilhar o que tem. Quanto mais tem, mais quer. Jesus desfere um golpe sutil em sua avareza. Constrangido, Zaqueu se dispõe a devolver quadruplicado tudo o que surrupiou de seus próprios patrícios em nome de um governo estrangeiro invasor.

Uma igreja que fosse mais parecida com Jesus acolheria os carentes e exporia os gananciosos. Em vez disso, ela prefere aliar-se aos poderosos, enquanto detona os que considera pervertidos.

Os pecados sexuais se tornaram verdadeiros ‘bois de piranha’ (ou seriam ‘bois de Raabe’? rs). Enquanto nos preocupamos em demasia com eles, a boiada inteira passa incólume do outro lado do rio. Os mesmos que sobem aos palanques para denunciar a ‘ditadura gay’, envolvem-se em escândalos, votam em favor da impunidade, vendem-se por concessões de TV, escondem dinheiro não declarado dentro da Bíblia, etc.

Acã é nosso camarada! Raabe é uma descarada que não merece viver.  Viva o lucro, o jeitinho e a hipocrisia!

Enquanto pouparmos Acã, nossas vitórias serão sucedidas de épicas derrotas. Venceremos nas urnas, mas perderemos na relevância junto à sociedade. Venceremos na arrecadação, mas perderemos em credibilidade. Seremos maioria no Brasil, elegeremos o próximo presidente, mas não faremos qualquer diferença. Derrubaremos muralhas, mas sucumbiremos diante de nossa própria cobiça. 

Pelo jeito, Jesus prefere descender de uma p#&@ a ter Seu nome envolvido em tanta podridão. É melhor ser descendente direto de uma prostituta a ser conivente com uma 'geração adúltera' (eufemismo para "filhos da p#&@), como a que foi severamente denunciada por Jesus. Para Ele, prostituição vai muito além de alugar o corpo; é fazer por dinheiro o que deveria ser feito unicamente por amor. Inclusive, falar em nome de Deus e dos bons costumes. 

segunda-feira, junho 29, 2015

16

Francamente... Que papelão, Jesus!



Por Hermes C. Fernandes

“Diga-me com quem andas e direi quem és.” Se quisermos aplicar esta máxima a Jesus, ficaremos desapontados. O Mestre Galileu costumava andar muito mal acompanhado.

Em uma de Suas andanças, Ele encontrou um publicano chamado Levi, também conhecido como Mateus. Sem a menor cerimônia, Jesus o convida para ser Seu seguidor.

Os publicanos eram considerados uma ‘raça maldita’, traidores da pátria, gente vendida ao império, que se prestava a extorquir seus patrícios para atender aos interesses de Roma. Jesus não o encontrou num ambiente amistoso, mas no lugar onde acontecia a cobrança dos impostos. Mesmo que Mateus não fosse desonesto como Zaqueu, não pegava bem para Jesus ficar de papo com gente de sua laia.

Além de atender de pronto ao convite de Jesus, Mateus revolveu comemorar em grande estilo, promovendo um grande banquete em sua casa. Que tipo de gente aceitaria participar de uma festa na casa de um publicano? Ninguém esperaria encontrar ali um sacerdote, um rabino ou qualquer outra pessoa de reputação ilibada. Os publicanos eram judeus que viviam como romanos. Não muito raro seus banquetes se tornavam orgias parecidas com os bacanais romanos. Definitivamente, aquele não era um ambiente para alguém como Jesus.

No mínimo, era de se esperar que Jesus desse um puxão de orelha em Mateus por querer celebrar sua chamada de maneira tão pagã. Seria como alguém acabar de se converter e ir para um bar celebrar com os amigos e ainda chamar o pastor. 

Não duvido que alguns dos Seus discípulos apostassem que Jesus chegaria lá virando as mesas de perna para o ar (Mas isso Ele deixaria para fazer num outro ambiente, considerado sagrado para os judeus). 

O que esperar de um rabino judeu que transforma água em vinho só para impedir que a festa termine antes da hora?

Chegando à casa do publicano, uma multidão O aguardava. Gargalhadas estridentes eram ouvidas por toda a casa. Música alta. Danças extravagantes. Mulheres despudoradas. Definitivamente, o ambiente não era nada familiar.

Os discípulos se sentem constrangidos. Estão mais preocupados com a reputação do Mestre do que com a receptividade com que foram acolhidos. Eles não dão conta de conciliar o que veem com o salmo primeiro.

Sem parecer preocupado, Jesus toma lugar à mesa. Para o desconforto dos discípulos, Ele parece bem à vontade. Em momento algum lança olhares condenatórios sobre aquelas pessoas.
- O que é que estamos fazendo aqui? Indaga um deles. - Preciso tomar um ar lá fora! Esse ambiente impregnado de pecado está me sufocando.
Lá fora, alguns escribas e fariseus, a nata religiosa da sociedade, se aproxima de alguns discípulos e questionam:
- O que deu em vocês? Como têm coragem de acompanhar seu Mestre num banquete com gente desse tipo?
Jesus resolve dar um pulinho lá fora para checar a razão de terem se ausentado da festa. Ao flagrar os religiosos pressionando Seus discípulos, Jesus já chega respondendo:
- Quem precisa de médico não são os sãos, mas os enfermos. Não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.
Não há qualquer registro que naquela noite Jesus tenha interrompido a festa para pregar um sermão evangelístico. O importante era infiltrar-se ali, conquistar a confiança daquela gente, e, numa ocasião oportuna falar-lhe do reino de Deus. Por enquanto, Sua presença ali já era a mensagem.

O papo poderia ter terminado ali mesmo. Mas os religiosos não se deram por satisfeitos. Eles teriam que dar uma saia justa no Filho de Deus. O xeque-mate viria depois.
- Já que o Senhor está aqui, responda: Por que os discípulos do Seu primo João jejuam tantas vezes, enquanto os Seus só fazem comer e beber?
A estratégia era tentar extrair de Jesus uma crítica ao Seu predecessor e assim, expor Sua suposta contradição.

Imagino Jesus fazendo sinal com a mão para que guardassem Seu lugar à mesa, virando-se para os religiosos e respondendo:
- Como eles poderiam jejuar enquanto estou com eles? Que razão teriam para se lamentar? Por enquanto, só há motivo para festejar. Mas quando eu for tirado por alguns dias, eles terão motivo para jejuar. Querem mesmo saber? Ninguém tira um retalho de roupa nova para costurar numa roupa velha, pois, além de não combinar, o remendo acabará se rompendo. O tecido novo não tem a consistência do velho. E mais: Ninguém coloca vinho novo em odres velhos. O frescor do vinho novo romperá a estrutura dos odres velhos, e o vinho acabará sendo desperdiçado. Não adianta tentar explicar nada disso a vocês. Não vou perder meu tempo com quem não quer o novo, mas se contenta com o vinho velho e ainda tem coragem de dizer que ele é melhor. Com licença.
Deu meia volta e retomou Seu lugar à mesa.

Dias depois, Jesus se vê novamente assediado por religiosos. De saco cheio de suas insinuações, Jesus resolve dar-lhes uma resposta que expusesse sua hipocrisia:
- Sabem com quem esta geração se parece? Com meninos reclamando uns com os outros na praça: - Por que tocamos músicas animadas e ninguém dançou? E quando tocamos músicas tristes, ninguém chorou? Esta é uma geração que não sabe dançar conforme a música. Chora quando deveria se alegrar e se alegra quando deveria lamentar. Quando veio João Batista, que tinha um estilo de vida austero, não comia pão nem bebia vinho, vocês diziam que ele era um excêntrico endemoninhado. Quando chega a minha vez, só porque como e bebo na companhia de gente de reputação duvidosa, vocês me chamam de comilão e beberrão. Não vou ficar me explicando... vou deixar que os meus frutos falem por mim.
No calor da discussão, um fariseu resolve convidar Jesus a visitar sua casa. Talvez sua intenção fosse mostrar a Jesus a diferença entre aquele ambiente permissivo e o ambiente da casa de um homem temente a Deus.

O contraste era nítido. Formalidade. Etiqueta. Reverência. Nada de música alta, gargalhadas, danças. O olhar do fariseu parecia dizer: - Tá vendo aí, Jesus? Este é o tipo de ambiente que o senhor deveria frequentar.

De repente, uma mulher invade o recinto. Pelas roupas, dava para ver que não era uma dama da sociedade, mas uma dama da noite. Talvez uma daquelas que estiveram com Jesus na casa do publicano.

A presença dela incomoda a todos, principalmente o anfitrião.

Quebrando todos os protocolos, a meretriz vem por trás de Jesus, prostra-se aos prantos, e vendo que suas lágrimas regavam os pés de Jesus, desfaz as tranças dos seus cabelos, usando-os para enxugá-los. Como se não bastasse, ela se lança a beijá-los despudoradamente, enquanto os perfumava com o caro unguento que lhe custara um ano inteiro de prostituição.

Simão, o dono da casa, sentiu-se ultrajado.
- Se ele fosse realmente profeta, saberia quem é esta sem-vergonha! E agora... minha casa vai ficar mal falada na vizinhança. Eu já sabia do tipo de público que este rabino atrai. Por que fui convidar justamente ele para vir à minha casa?
Percebendo o mal estar que causara, Jesus se dirige a Simão e diz:
- Está vendo esta mulher? Pois é... entrei em tua casa e você sequer me ofereceu água para lavar os meus pés. Enquanto ela não para de regá-los com suas próprias lágrimas e enxugar com os seus cabelos. Enquanto você foi incapaz de dar-me um beijo de boas vindas, ela não para de me beijar os pés. Você tampouco ungiu minha cabeça como se faz a um convidado, mas ela derramou o mais caro unguento em meus pés. Sabe por quê? Porque ela sabe o quanto foi perdoada. Por isso me ama tanto. Já você, Simão, se sente tão santo, tão separado dos pecadores, que não tem noção de sua própria miséria.
Se houve uma vez em que Jesus tenha se sentado à roda dos escarnecedores, não foi na casa de Mateus, o publicano, mas na casa de Simão, o fariseu.

Aos olhos de Deus, ‘ímpio’ não é quem peca, mas quem não reconhece sua impiedade. O Filho de Deus sente-se muito mais ‘em casa’ entre pecadores que admitem sua condição do que entre santos que se veem no direito de julgar os demais.

Prefiro a companhia de quem ama por sentir-se acolhido e perdoado à companhia de quem julga por ser achar escolhido e privilegiado.



* Os episódios acima narrados se encontram registrados em Lucas 5:27-39 e 7:31-50

sábado, junho 27, 2015

6

Direitos negados, justiça suicida




Por Hermes C. Fernandes 

Perguntaram-me recentemente de que lado eu estava. Esta é uma pergunta que sempre me faço. Ponho-me a refletir sobre aqueles que hoje são celebrados como heróis da nossa civilização, mas que em seu tempo foram tachados de hereges, subversivos, revolucionários, e por isso mesmo, foram duramente combatidos. Pergunto-me de que lado eles se poriam nas questões que hoje nos dividem. Por fim, pergunto-me de que lado Jesus estaria. Alguém conseguiria enxergá-lo cerrando fileira com a casta sacerdotal de Sua época? Se fosse este o caso, duvido que Ele entrasse no templo derrubando as mesas e expulsando os vendilhões. Alguém o imaginaria engrossando o coro de quem pretendia apedrejar aquela mulher? Em vez disso, Ele preferiu defender seu direito. Isso mesmo! Seu direito de viver (Eis a razão por que adotei como lema "viva e deixe viver!"

Jesus invariavelmente se pôs ao lado dos excluídos, dos marginalizados, dos oprimidos, dos explorados. Jamais posou de bom garoto ao lado dos opressores e dos que se locupletavam do sistema. Ele não resistia ao clamor das minorias. Da vez em que foi importunado por uma mulher cananeia (depois pesquise na Bíblia o significado de ser cananeu na visão de um judeu daquela época), disse, à princípio, que não tiraria o pão da boca dos filhos para dá-lo aos cachorrinhos. Quem lê esta passagem cruamente corre o risco de escandalizar-se com Jesus. Mas Sua pretensão não era de compará-la a um animal qualquer. Sabendo de antemão qual seria sua reação, Ele quis dar uma lição em Seus discípulos. É possível que eles, como judeus que eram, até tenham gostado de ouvi-lo fazendo aquela comparação esdrúxula. Eles chegaram a pedir que Jesus a dispensasse logo, porque ela vinha atrás clamando por sua filha enferma. Porém, para a surpresa deles (mas não de Jesus!), ela respondeu: “Sim, Senhor, mas os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa do seu senhor” (Mt.15:28). Compadecendo-se dela, Jesus elogiou sua fé, atendeu ao seu clamor e curou sua filha. 

Que lição encontramos aí? Aquilo que para uns já não tem tanto valor, para outros tem valor inestimável. O que para uns não passa de migalha, para outros é o pão que lhes resta. 

Hoje os Estados Unidos deram um passo enorme que causou comoção e escândalo no mundo inteiro. A Suprema Corte daquele país autorizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todos os cinquenta estados americanos. As reações foram imediatas. Milhões celebraram, enquanto outros milhões lamentaram. Dificilmente encontramos (pelo menos nas redes sociais) quem se mantivesse isento. 

Ironicamente, uma instituição que tem sido tão desgastada ao longo das últimas décadas, tornou-se o sonho de consumo de milhões de casais homossexuais. Os mais conservadores vociferavam: Este é um direito concedido por Deus exclusivamente a casais heterossexuais. Sim, assim como o ministério terreno de Jesus era focado exclusivamente nos judeus. Mas isso não o impediu de sensibilizar-se com aquela cananeia. Com toda a pressão política e religiosa sofrida pela Suprema Corte, ela preferiu ser sensível ao clamor desta minoria e atender à sua reivindicação. 

Como seguidor de Cristo, encontro aí razão para celebrar. Por favor, não me tache de herege, pelo menos, não ainda. Prefiro ver gays num relação monogâmica a vê-los entregues à prostituição e a promiscuidade. Além do mais, ninguém vai conduzir um gay a Cristo negando-lhe os direitos. Infelizmente, alguns celebram quando a dama da justiça usa sua espada para retribuir o mal, mas não celebram quando usa sua balança atribuindo direitos iguais a todos. O problema é que toda vez que um dos pratos da balança pende para um lado, a espada da justiça vem contra ela mesma. 

Mas isso é contra a lei de Deus! Esbravejariam alguns. Não perca seu tempo citando os versos bíblicos que condenam tal prática. Eu os conheço todos. Como também conheço aquelas passagens bíblicas que apoiam a escravidão, por exemplo. Passagens como Levítico 25:44 foram prodigamente usadas por religiosos que tentavam impedir que os escravos fossem livres. Segundo eles, isso faria com que a sociedade entrasse em colapso. Os abolicionistas foram chamados de hereges por renegarem o sagrado direito de se ter escravos. Isso é uma abominação! Sim, casamentos mistos também. Começo a acreditar que chamamos deliberadamente de abominação aquilo que ainda embrulha nosso estômago. Tem mais a ver com nossos escrúpulos do que com o que cremos. Assim como hoje ouvimos aquela velha alegação de que se um pastor se negar a celebrar as bodas de um casal gay será preso, na época da abolição, pregadores bradavam dos púlpitos que se os escravos fossem livres, em breve, haveria casamentos mistos, claramente proibidos pelas Escrituras conforme passagens como Esdras 10:2-3 e Neemias 13:23-27. Os fiéis ficavam horrorizados ao imaginar suas lindas filhas, louras e de olhos azuis, sendo desposadas por negros de mãos calejadas. 

Quer gostemos ou não, o mundo mudou. O que hoje causa ojeriza em alguns, será visto como normal pelos seus netos. Assim como nos horrorizamos ao saber dos maus-tratos que os negros sofriam no passado, nossos netos se horrorizarão ao tomarem conhecimento da homofobia que vigorava em nossos dias. Homens como Martin Luther King viveram à frente do seu tempo. De que lado eles estariam agora? Jesus viveu muito, muito à frente do seu tempo. Por isso, reconheceu que seus contemporâneos não estavam prontos para lidar com questões ligadas à sexualidade. “Nem todos podem receber esta palavra”, disse com relação aos eunucos, homens que não tinham qualquer interesse no sexo oposto (Mt.19:11-12). Ninguém que tenha vivido à frente do seu tempo ficou ileso. Há um preço a se pagar por posicionar-se pela justiça e pelo direito (Acabei de ler uma ameaça escrita nos comentários do meu blog). O que me encoraja é saber que estamos presenciando um momento histórico. Nossos descendentes nos invejarão por havermos sido testemunhas disso. 

Uma parcela considerável da população americana teve seus direitos assegurados. Eu temeria o juízo de Deus se o direito lhes fosse negado. Pois foi Ele mesmo quem advertiu: “Ai dos que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos, e da justiça os oprimidos do meu povo; fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos” (Is.10:1-2). Entende-se por "leis injustas" aquelas que são parciais, que atendem a uns em detrimento de outros. Equidade é tratar a todos de igual modo, sem privilégios, sem prejuízos. Iniquidade é exatamente o oposto disso. Iniquidade não é conceder direitos, mas negá-los. 

Assim como teria celebrado se houvesse assistido a Jesus atendendo ao clamor de uma mulher pertencente a um povo amaldiçoado, concedendo-lhe o que os “filhos” desprezavam, celebro a conquista da população homossexual daquele país e espero celebrar em breve também em nosso país, ainda que isso me custe ser atacado pelos que não sabem chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram. 

Se discorda mim, saiba que o respeito. Graças à democracia em que vivemos, temos o direito de discordar uns dos outros. Portanto, não neguemos este direito aos outros. Como disse Voltaire: Posso não concordar com nada que você diz, mas morreria pelo seu direito de dizê-lo. 

P.S. Enquanto isso, do lado de cá do Equador, no país que foi o último a abolir a escravidão, um deputado evangélico propõe uma bolsa ex-gay. Será que muita gente vai voltar para o armário com este incentivo? Aproveito para sugerir que os mesmos que propuseram um boicote à uma empresa de perfumes, também boicote os Estados Unidos. Em vez de torrarem seu dinheirinho suado em Nova Iorque ou Miami, deixem para gastá-lo em Moscou. Afinal, a Rússia proibiu a parada gay pelos próximos 100 anos. Ou se preferirem, vão para a China onde a homossexualidade é tratada com choques elétricos nos genitais. 

Sei o que é ser vítima de preconceito. Quando criança, tive minha casa apedrejada pelo simples fato de sermos uma família protestante. Acordei com um paralelepípedo rente à minha barriga. Teria me matado se atingisse a cabeça. Casei-me com uma mulher de ascendência negra, e para tal, tive que enfrentar a reprovação de muitos. E por fim, tenho o privilégio de ser pai de uma portadora de necessidades especiais. Sei como é lidar com aqueles olhares indiscretos. Talvez por isso me identifique tanto com o clamor das minorias. E antes que coloquem em xeque minha sexualidade, deixo claro que sou hétero, pai de três filhos héteros, irmão de cinco irmãos héteros. Eu não preciso ser uma árvore para sair em defesa do meio-ambiente. 

Assista abaixo uma mensagem que preguei anos atrás acerca do pecado de Sodoma. Você vai descobrir quem são os verdadeiros sodomitas desta nação.



quinta-feira, junho 25, 2015

2

A vergonhosa falácia da "Ideologia de Gêneros"


Por Hermes C. Fernandes
Sempre que me deparo com um tema que esteja sendo execrado pela bancada evangélica, trato de colocar a barba de molho. Foi assim com a PL 122 e tem sido assim com o Plano Nacional de Educação (PNE), que trata das diretrizes para a educação no País.
Pastores e padres engrossaram o coro que levanta suspeitas acerca do que tem sido chamado por eles de “Ideologia de Gêneros”. Boatos espalhados pelas redes sociais afirmam que alunos gays poderão usar banheiros femininos, enquanto lésbicas poderão frequentar banheiros masculinos. Que pai ou mãe se sentiria confortável com uma notícia dessas?
Deixando de lado as mentiras propagadas pelos que se dizem porta-vozes e defensores dos valores da família, o fato é que o novo PNE tem vinte metas e está calcado na Lei 13.005/2014 com catorze artigos. Nenhuma meta e nenhum artigo se refere à “Ideologia de Gêneros”. Repito, nenhum.
A única vez em que a palavra “sexual” surge no texto é na Meta de número sete, cujo objetivo é o de fomentar a qualidade da educação básica em todas as etapas e modalidades. A Meta 7 apresenta, ao todo, 36 estratégias. A palavra “sexual” só aparece na estratégia 23, conforme transcrita abaixo:
Garantir políticas de combate à violência na escola, inclusive pelo desenvolvimento de ações destinadas à capacitação de educadores para detecção dos sinais de suas causas, como a violência doméstica e sexual, favorecendo a adoção das providências adequadas para promover a construção da cultura de paz e um ambiente escolar dotado de segurança para a comunidade.

Repare que não se lê absolutamente nada sobre uma tal “Ideologia de Gêneros”, tampouco se diz que o Estado, por meio da escola, induziria as crianças a seguir alguma orientação sexual, seja hétero, homossexual, bissexual ou transgênero, como tem sido amplamente divulgado nas redes sociais.
O que é lamentável é que as pessoas entram na pilha dos agitadores sem ao menos buscar se inteirar sobre o assunto. “Querem destruir a família!” vociferam, provocando uma avalanche de revolta infundada.
Segundo eles, a tal “Ideologia de Gênero” seria onda ideológica que se alastraria nacionalmente, por meio dos planos estaduais e municipais de educação com o afã de doutrinar as crianças, convencendo-as de que elas não teriam formação sexual definida, que meninos e meninas poderiam escolher sua identidade de gênero e orientação sexual. Espalharam até que as crianças seriam estimuladas sexualmente através da masturbação, e fazendo-as aceitarem como normais práticas como a pedofilia, o incesto, a zoofilia, a necrofilia, etc.
Segundo os oponentes da PNE, a tal “ideologia de gênero” seria uma imposição totalitária, ditatorial, visando a implementação de uma sociedade marxista, ateia, perversa, iníqua, através de conceitos falaciosos, antinaturais e esdrúxulos que adoeceriam a vida humana, tornando-a numa aberração imoral.
Que vergonha! Por que usar mentiras para convencer a sociedade a não aceitar um plano de educação que visa melhorar a qualidade do ensino no País? O que estaria por trás disso? Que interesses sórdidos isso esconderia?
Será que tem a ver com o fato de que o plano pretenda oferecer educação de tempo integral para pelo menos 25% dos alunos do ensino básico em pelo menos 50% das escolas públicas? Que prejuízo isso poderia representar para as escolas confessionais católicas, que geralmente custam o “olho da cara”?
E quanto a garantir que todas as crianças e adolescentes de 4 a 17 anos com necessidades especiais tenham acesso à educação básica com atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino? Com que interesse isso esbarraria? Quanto custa garantir educação a um portador de necessidades especiais hoje em dia?
E por fim, uma das metas que mais desafiam certos interesses é garantir que 10% do Produto Interno Bruto (PIB) seja usado na educação pública. Adoraria saber quantos deputados das bancadas religiosas foram bancados por grandes conglomerados de colégios particulares. Para estes, melhor seria que o ensino público seguisse sucateado, de péssima qualidade, para que os pais se vissem obrigados a recorrerem ao ensino privado.
As diretrizes do Plano Nacional de Educação, bem como as propostas dos planos estaduais e municipais apontam numa só direção: menos violência, mais tolerância e mais respeito, inclusive à diversidade humana, tanto étnica, quanto sexual.

Da próxima vez que você vir algum alarde por parte desta bancada quanto à aprovação de algum projeto ou plano de governo, fique esperto e procure se inteirar. Chega de comer com as mãos dos outros. 

quarta-feira, junho 24, 2015

0

Pergunta idiota, tolerância zero!



Por Hermes C. Fernandes

O mesmo Jesus que tratava cordialmente àqueles que eram considerados os párias da sociedade, revelava-se diametralmente enérgico no trato dispensado aos religiosos de sua época. Basta uma conferida nos adjetivos nada amistosos que usava em referência a eles. O preferido deles era, sem dúvida, “hipócritas”

Entre as principais facções religiosas da época, duas se destacavam por sua rivalidade: os fariseus e os saduceus. Os fariseus eram a ala conservadora, fundamentalista, enquanto os saduceus eram a ala progressista, liberal. Jesus não se alinhava ideologicamente com nem uma das duas. Se alguém perguntasse de que lado estava, Jesus certamente responderia mais ou menos como respondeu aos discípulos enviados por João Batista para testá-lo: “Aos pobres é pregado o reino de Deus.” 

Mateus relata um episódio em que os saduceus se aproximaram d’Ele para suscitar uma discussão acerca da ressurreição (Mt.22:23-46). Em vez de irem direto ao ponto, preferiam apelar a uma pergunta capciosa. 
“Mestre, Moisés disse: Se morrer alguém, não tendo filhos, casará o seu irmão com a mulher dele, e suscitará descendência a seu irmão. Ora, houve entre nós sete irmãos; e o primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão. Da mesma sorte o segundo, e o terceiro, até ao sétimo; por fim, depois de todos, morreu também a mulher. Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será a mulher, visto que todos a possuíram?” 
Parece que ouço o cochichar de alguns deles: Quero ver se ele vai se sair dessa!  Sem papas na língua, Jesus respondeu: “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu. E, acerca da ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos.” 

Pergunta idiota, tolerância zero! Não basta conhecer as Escrituras e continuar subestimando o poder de Deus. Nem basta considerar o poder de Deus, ignorando o que dizem as Escrituras, tanto em suas linhas, quanto em suas entrelinhas. As Escrituras visam revelar a vontade geral de Deus, mas não podemos supor que Ele seja refém das mesmas. Ele segue agindo com absoluta soberania e autonomia, sem ter que dar satisfação a quem quer que seja. Portanto, não perca seu tempo buscando enredá-lo com seu parco e modesto conhecimento bíblico. 

O problema não são as Escrituras em si, mas nossa compreensão prejudicada por nossos pressupostos e preconceitos. Na resposta dada por Jesus aos saduceus, fica claro que certas instituições que vigoram desde a criação, perderão sua validade quando adentrarmos os portais eternos. Ninguém vai levar certidão de casamento para o céu! Todavia, laços terrenos serão substituídos por laços eternos. 

As multidões ficaram maravilhadas com a resposta de Jesus. Quando os fariseus viram que Jesus calou os saduceus, seus arquirrivais, reuniram-se imediatamente. Posso imaginar o papo entre eles: Viram o que Ele fez com os saduceus? Será que Ele é dos nossos? Se não é, que tal trazê-lo para o nosso lado? 

Ao vê-los reunidos como abutres sobrevoando a carniça, Jesus se aproximou e perguntou-lhes: “Que pensais vós do Cristo? De quem é filho?” Eles responderam unânimes: “De Davi!” 

Bingo! A resposta estava... exata! Pronto. Já podiam ser recrutados como discípulos. Ou será que não? Será que basta ter as respostas certas? Basta ter uma teologia correta? Basta seguir a ortodoxia? Basta repetir feito papagaio o que dizem os compêndios teológicos? Se Jesus houvesse escolhido um lado, teria optado pelo o que tinha a melhor teologia? 

Quando eles esperavam um tapinha nas costas, Jesus se vira e diz: “Como é então que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?” 

Os saduceus devem ter comemorado. Pau que dá em saduceu, também dá em fariseu. A questão levantada por Jesus tinha como objetivo mostrar que as coisas não são tão simples como parecem. Nem tudo é preto no branco. Cada questão tem sua complexidade, apesar de nem sempre atentarmos para isso. A partir daí, ninguém mais se atrevia a fazer qualquer pergunta. Em vez disso, começaram a tramar contra Sua vida. 

A propósito, Jesus jamais se sentiu ofendido por alguém expor suas dúvidas e questionamentos. O problema era quando as perguntas tinham como objetivo expor uma suposta contradição a fim de ridicularizá-lo e minar Sua credibilidade.

Numa das mais calorosas discussões que tivera com os fariseus (Jo. 8:39-49), estes apelaram à sua ancestralidade: “Nosso pai é Abraão!” Sem se intimidar, Jesus respondeu: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me (...) Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.” A chapa esquentou! Ele jamais usou termos tão fortes no trato dispensado a meretrizes e publicanos. Em outra ocasião, Ele os chamou de “geração adúltera”, expressão próxima a “filhos da p*ta”. Mas daí, chamá-los de “filhos do diabo” já era demais. Ou não? 

Os fariseus não deixaram barato. Devolveram na mesma moeda. “Não dizemos bem que és samaritano, e que tens demônios?” Com estas palavras eles vomitaram todo o preconceito que tinham contra aquela raça mestiça que transitava entre eles: os samaritanos. O que haveria de errado em ser samaritano? Absolutamente, nada. Mas o uso que eles fazem do termo denota um preconceito raivoso.  Nos artigos anteriores, exploro mais este tema. Por favor, não deixe de lê-los. 

Jesus respondeu: “Eu não tenho demônio, antes honro a meu Pai, e vós me desonrais.” Repare, apesar de não ser samaritano, Ele não os desmente, mas, apenas afirma não estar endemoninhado. Se dissesse que não era samaritano, poderia parecer que estivesse endossando aquele preconceito idiota.

De onde tiraram a ideia de que Jesus fosse samaritano? Não foi Ele mesmo que destacou a gratidão do samaritano que fora curado de sua lepra, enquanto os outros nove, que eram judeus, nem sequer voltaram? Não foi também Ele que foi flagrado conversando despudoradamente com uma samaritana de moral duvidosa à beira de um poço? Não foi Ele que impediu que dois de Seus discípulos rogassem a Deus para que enviasse fogo do céu para consumir toda uma aldeia samaritana? E por que içou um samaritano ao papel de protagonista de uma de Suas principais parábolas? Agora, chegara a fatura e Ele teria que pagar. Quem mandou demonstrar compaixão por aquela gente detestada por Seus patrícios? Talvez seja por isso que muitos preferem manter distância de certas questões. Temem ser estigmatizados por defender causas consideradas abomináveis tanto para os fariseus conservadores, quanto para os saduceus liberais. Enquanto isso, Jesus vai tomando sobre Si as nossas dores, sem importar-Se com o estigma que terá que carregar. Muito mais importante do que a reputação é a compaixão que demonstramos para com aqueles com os quais não possuímos qualquer identificação. O resto... que se dane! Da próxima vez que me perguntarem de que lado estou, terei o prazer de responder: Estou do lado daqueles de quem Jesus certamente estaria.

Continua em breve.