segunda-feira, agosto 31, 2015

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Você tem certeza que ama ou é amado?



Por Hermes C. Fernandes

“O amor... não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.” 1 Coríntios 13:5-6

Entre toda de descrição que Paulo dá acerca do amor, esta pequena porção capta minha atenção de maneira especial. Aqui são apresentadas seis características que, a meu ver, autenticam o amor.

Primeiro, o amor não se porta de maneira indecente, apelativa, inconveniente. Seu propósito jamais foi ferir os escrúpulos de quem quer que seja. Respeita-se a subjetividade alheia, seus valores morais, suas preferências. Desprovido desta característica, o amor se tornaria um insulto. Não se pode confundir a intimidade promovida pelo amor com invasão de privacidade. A comunhão entre seres não atenta contra a dignidade e individualidade, antes, as preserva.

Nossos interesses devem estar abaixo do interesse de quem se ama. Temos o direito de expor nossos desejos, sem, contudo, impô-los, antes, fazendo-os passar pelo crivo do outro. O outro sempre terá a última palavra. Caso esta não expresse a nossa própria vontade, isto não será motivo de irritação. Afinal, a felicidade do amado sempre tem primazia sobre a satisfação do amante.

Na maioria das vezes, a irritação ocorre quando nutrimos expectativas sobre-humanas de alguém, impossíveis de serem correspondidas. Quem ama se nega a irritar-se por reconhecer suas próprias limitações no outro, ainda que reveladas em áreas distintas.

O desprovido de amor sempre suspeita mal do seu semelhante. Se este demonstrar bom caráter, suspeita-se de sua integridade: “Ele não é tão bom quanto parece! Deve estar escondendo algo”. Se for criativo e inteligente, suspeita-se de sua autenticidade: “Duvido que a ideia tenha sido dele. provavelmente copiou de alguém”. Se for próspero, suspeita-se de sua honestidade: “Deve ter roubado ou trapaceado”. Se for generoso, suspeita-se de sua motivação: “Deve querer algo em troca”. Porém, o verdadeiro amor jamais suspeita mal, nem perde seu tempo procurando chifres em cavalos. Em vez disso, ele aposta na integridade, autenticidade, honestidade e na boa motivação do outro, sem buscar qualquer razão para duvidar.

É insuportável conviver com quem suspeita de tudo e de todos. Quando não acusa diretamente, faz insinuações infundadas, atentando contra a credibilidade do outro. Quem ama, buscará preservar a reputação do seu semelhante.

Semelhantemente, quem ama jamais torce contra o outro, nem comemora a sua derrota, sentindo-se vindicado e deixando escapar um “bem feito!”. E, se porventura, o outro alcançar algum êxito, quem ama não o invejará, tampouco se sentirá traído por Deus ao permitir isso. Caso tenha sido ofendido e perdoou, seu perdão será validado pela alegria que sentirá assistindo à vitória de quem o ofendeu. 

quarta-feira, agosto 26, 2015

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Cristianismo x Islamismo: Como evitar um choque de civilizações?


"Nenhum de vocês crê verdadeiramente até que deseje aos outros o que deseja para si mesmo." Maomé, fundador do Islamismo

Por Hermes C. Fernandes

O mundo ocidental tem assistido horrorizado às barbáries perpetradas pelo mais cruel grupo terrorista dos últimos tempos: o Estado Islâmico. Diferentemente de outras redes terroristas como a Al-Qaeda, o EI tem empregado recursos dramáticos na execução de prisioneiros, filmando e difundindo pelas redes sociais imagens de decapitações em massa, afogamentos e incinerações de prisioneiros confinados em gaiolas, homossexuais empurrados do alto de edifícios, além de destruição de sítios arqueológicos importantes. Tudo isso, somado ao radicalismo religioso de alguns grupos do Islã têm despertado ojeriza por parte das sociedades ocidentais.

Lembro-me de que pouco depois dos atentados às Torres Gêmeas, fui visitar minha irmã Odília que morava em Newark, cidade vizinha à Nova Iorque. Na manhã do ataque terrorista, ela tinha uma entrevista de emprego lá, mas graças à providência divina, perdeu a hora. Ao acordar, assistiu da janela do seu quarto à queda do World Trade Center. Foram dias de muita apreensão por parte da minha família que não conseguia contatá-la. Tão logo tive oportunidade, aproveitei minha ida à Flórida na companhia de um amigo para esticar até Nova Iorque. Na fila para embarcar, enquanto éramos minuciosamente revistados, mesmo depois de termos passado por detectores de metais, notamos que um homem que usava um turbante árabe passou direto. Todos na fila demonstraram preocupação com a cena seguindo-o indiscretamente com os olhos. Naqueles dias, qualquer um que embarcasse num voo comercial usando turbante era considerado um forte candidato a terrorista. Ao chegar na porta da aeronave, aquele homem abriu o paletó e exibiu à tripulação sua insígnia. Era um agente do FBI. Todos suspiraram aliviadamente. Mesmo assim, a tensão persistia. Durante todo o voo, duas comissárias de bordo se alternavam ao microfone, brindando-nos com um verdadeiro stand up comedy no afã de aliviar as tensões. Quando avistamos os arranha-céus da Big Apple pela janela, a tensão aumentou consideravelmente. Ninguém mais conseguia prestar a atenção nas comissárias. Bastou que as rodas do avião tocassem no solo para que os passageiros irrompessem num barulhento e demorado aplauso. Ufa! Havíamos sobrevivido.

Sinceramente, não queria estar na pele de um muçulmano que morasse ou pretendesse visitar os Estados Unidos naqueles dias.

Da última vez que morei com a minha família nos Estados Unidos, entre os anos de 2009 e 2011, meus filhos estudaram numa High School próxima de nossa casa em Lake Mary, na Flórida. Minha filha caçula, Revelyn, contou-me de sua preocupação com um colega Iraniano que era hostilizado pelos colegas. Como se não bastasse sua religião e nacionalidade, ele não sabia falar uma única palavra em inglês. Revelyn perguntou-me se haveria algum problema se ela se propusesse a ajudá-lo. Senti-me orgulhoso por sua iniciativa. Durante aquele período escolar, minha filha foi sua amiga e incentivadora.

Ser muçulmano não significa ser terrorista. Na verdade, ninguém deveria ser julgado por sua opção religiosa, nacionalidade ou etnia.

Enquanto minha filha fez amizade com um muçulmano, meu filho Rhuan fez amizade com uma jovem egípcia (bonita, por sinal), uma cristã copta, de uma família extremamente austera. Lembro-me do constrangimento que ele passou com o pai da menina ao visitá-la. Ele chegou em casa ofegante e visivelmente assustado, dizendo que nunca mais queria passar por aquilo novamente. O pai achou que ele queria pedi-la em namoro e praticamente o escorraçou da casa.

Quando estávamos para voltar para o Brasil, fizemos um Moving Sale, expondo nossos móveis e utensílios domésticos em nossa garagem com o objetivo de vendê-los por preços módicos. Nossa vizinhança era bem diversificada. Tínhamos vizinhos de várias partes do mundo, e muitos deles vieram checar nosso material. Chineses, judeus, mexicanos, porto-riquenhos, guatemaltecos e... egípcios. Isso mesmo. Aquela querida família encostou sua van em frente à nossa garagem e veio nos visitar. Não vieram para se despedir, nem para se desculpar pelo episódio em que meu filho foi escorraçado de sua casa, mas para aproveitar as pechinchas. Pechinchar é uma prática comum neste tipo de venda de garagem. Mas eles extrapolaram. O pai tinha um bloquinho nas mãos, onde anotava tudo, perguntando o preço de cada item. No fim, ele somou os valores e fez uma oferta bem inferior ao total. Tentei argumentar com ele, mas não deu. Acabei vencido pela sua insistência. Ele arrematou boa parte de nossas bugigangas. Até aí, tudo bem. Pelo menos nos livramos de tudo aquilo. O único problema é que eles ficaram de voltar mais tarde para pagar. Já faz quatro anos que retornamos ao Brasil e até agora, nada. Apesar do calote, eram cristãos coptas, da mesma tradição religiosa daqueles cristãos que foram decapitados pelo EI por não negarem sua fé em Jesus.

Jamais julgaria todos os cristãos coptas do mundo por causa da atitude daquela família. Assim como não julgo todas as igrejas brasileiras tomando por base algumas que usam os veículos de comunicação de maneira agressiva e antiética.

Posso assegurar que a maioria dos seguidores de Maomé não aprova o que tem sido feito em nome de sua fé por grupos fundamentalistas radicais. São homens e mulheres de bem, zelosos de suas tradições e valores, que trabalham com afinco para garantir a subsistência de suas famílias.

Assim como há maus cristãos, também há maus muçulmanos. Que direito temos de medir uns pelos outros?

Nem todo muçulmano é terrorista, como nem todo pastor é um explorador da fé, e nem todo padre é pedófilo. Cada um deve ser avaliado de per si. Pelos frutos conhecereis a árvore, alertou-nos Jesus.

E quanto ao EI? Como deveríamos nos posicionar quanto a esta milícia terrorista? Deveríamos pagar com a mesma moeda?

O EI é para o Islã o que as Cruzadas foram para o Cristianismo. Foram necessários séculos para que alcançássemos um grau de civilidade que nos permitisse perceber o quão distante estávamos daquilo que Jesus nos ensinara. E o que dizer da Santa Inquisição? Quantos foram condenados por tribunais eclesiásticos, sendo torturados com requinte de crueldade e queimados vivos por serem considerados hereges! Por que digo isso? Para relembrar que temos telhado de vidro.

O Islamismo é uma religião bem mais nova que o Cristianismo. Eu diria que é a caçula dentre as grandes religiões monoteístas. É inevitável que haja grupos sectários que não entenderam bem a proposta de sua religião. Quando digo “não entenderam bem”, estou afirmando que há muitas maneiras de se entender. Se nem a Bíblia está imune a interpretações equivocadas, que dirá o Alcorão. O problema não é o livro ou a religião em si, mas o estado do coração humano, carregado de ódio e preconceito.

Para que o ciclo do ódio seja quebrado, faz-se necessário apelarmos ao perdão, não à vingança.

Recentemente, foi criada a primeira brigada cristã iraquiana com a tarefa de retomar as cidades e localidades cristãs das mãos dos jihadistas do EI.

Os novos soldados marcharam e saltaram sobre pneus em chamas diante de uma fileira de autoridades curdas e assírias em Fishkabur, no nordeste do Iraque, lembrando cenas de produções cinematográficas americanas.

Após a invasão americana de 2003, muitos cristãos iraquianos deixaram o país, enquanto outros preferiram manter a discrição em um momento em que o país mergulhava na violência. Porém, alguns destes remanescentes decidiram tomar as armas nos últimos meses, formando várias milícias cristãs.

Não demoraria muito para que, imbuídos de um sentimento revanchista, as milícias cristãs se espelhassem em seus próprios inimigos. No dia 28 de maio de 2015, um soldado cristão membro das forças curdas decapitou um militante do EI na Síria. A decapitação do jihadista teria sido um ato de vingança pela morte de centenas de cristãos pelas mãos do EI, incluindo homens, mulheres e crianças. O soldado cristão escolheu matá-lo usando o mesmo método brutal de execução que se tornou uma marca do grupo terrorista, adicionando-se a isso o fato de ter sido obrigado a cavar a própria cova antes de ser executado.

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos, uma ONG exilada, sediada no Reino Unido, destacou que há muita discussão se “as ações do soldado cristão sírio não-identificado foram corretas ou morais sob a ótica do cristianismo”. Ainda segundo o artigo publicado pela ONG, se  “o motivo da decapitação foi uma vingança, o assassinato poderia ser interpretado como um crime de guerra”.[1]

Quem diria...uma ONG tendo que aguçar nossa consciência, lembrando-nos que condutas como esta destoam completamente do que foi ensinado por Jesus.

Em abril de 2012, o polêmico pastor norte-americano Terry Jones queimou exemplares do Alcorão, além de uma representação do profeta Maomé para protestar contra a prisão do pastor Youcef Nadarkhani no Irã. O Pentágono veio a público pedir que o pastor reconsiderasse os atos, alegando que seu inconsequente protesto poderia prejudicar soldados americanos no Afeganistão. Em 2010, ele já havia ameaçado fazer o mesmo, mas foi dissuadido pelas autoridades. Como previsto, o insano protesto provocou uma onda de violência no Afeganistão e no Oriente Médio.

Em 11 de setembro de 2013, Terry Jones foi detido na Flórida antes de queimar 2.998 exemplares do Alcorão como protesto pela passagem do décimo segundo ano de aniversário dos atentados que derrubaram as Torres Gêmeas, matando número equivalente de pessoas.

Por favor, alguém avise a este pastor que se sua intenção é a de chamar a atenção para si, ele conseguiu. Mas como efeito colateral, ele só fez aumentar a animosidade entre o mundo islâmico e o "grande Satã" (maneira como alguns islâmicos radicais se referem aos EUA).

Definitivamente, não precisamos de novas cruzadas. Aliás, jamais precisamos delas. Em vez disso, carecemos de homens e mulheres dispostos a levar a sério os ensinamentos de Jesus, permitindo que seu amor extrapole as fronteiras religiosas.

Jamais nos esqueçamos de que, na qualidade de seguidores de Cristo, “as armas de nossas milícias não são carnais, mas poderosas em Deus para destruição de fortalezas” (2 Co. 10:4). Portanto, em vez de balas, bombas, espadas, nosso arsenal é composto de amor, perdão, acolhimento e oração. As fortalezas contra as quais marchamos são as do preconceito, do ódio, do desamor e de tudo aquilo que atenta contra a dignidade humana.

Em meio a tanto ódio, sempre nos surpreendemos com lampejos de amor.

No primeiro dia de fevereiro de 2011, o mundo foi impactado por uma foto postada no twitter em que cristãos coptas do Egito faziam um cordão de isolamento para proteger os muçulmanos em sua hora de oração em plena Praça Tahrir no coração da cidade do Cairo. Milhares de egípcios saíram às ruas para protestar contra o governo, sendo duramente recebidos por forças policiais. Chegada a hora em que os muçulmanos tradicionalmente se ajoelham em direção a Meca para orar, os cristãos presentes ao protesto formaram uma corrente humana para protegê-los dos cassetetes da polícia.

São exemplos como este que nos fazem voltar a ter esperança no convívio pacífico entre os homens.

Estes cristãos coptas decidiram viver o mandamento de Jesus às últimas consequências. Cada golpe que levavam nas costas para proteger os membros de uma religião considerada rival fazia-os lembrar das palavras de Jesus: “Amai-vos uns aos outros...”

Pouco mais de dois anos depois, em agosto de 2013, muçulmanos se uniram aos cristãos para protegerem suas igrejas de serem destruídas. Naqueles turbulentos dias, dezenas de igrejas e escolas, além de casas e lojas pertencentes a cristãos foram atacados no Egito por um grupo chamado Irmandade Muçulmana. Em um dos ataques, membros deste grupo jogaram coquetéis molotovs num centro comunitário cristão que ajuda crianças de rua, sejam elas cristãs ou muçulmanas. Apesar de ninguém ter ficado ferido, este ataque causou consternação entre muçulmanos e cristãos. Depois deste ataque, uma multidão formada por pessoas de ambas as religiões dirigiu-se a uma igreja para impedir que fosse depredada. Esta atitude desencadeou uma onda do bem em que cristãos e muçulmanos se uniram para apagar incêndios em igrejas ou conter ataques em outras cidades. Vigílias eram feitas ao redor de templos cristãos para impedir que fossem depredados.

Não precisamos concordar em tudo para que somemos esforços pelo bem comum. Mas, por mais constrangimento que possa causar em alguns, o fato é que muçulmanos e cristãos têm mais em comum do que a maioria esteja disposta a admitir.

O Deus a quem veneram é identificado como o mesmo que revelou-se a Abraão. "Allah" é simplesmente a palavra árabe para "Deus" (que também não é nome próprio). Basta pegar uma Bíblia ou Torá escritas em árabe, para constatar isso. É interessante reparar que o som da palavra hebraica "El" (de onde provém "El Shaday" e outros nomes compostos usados pelos hebreus em referência a Deus), assemelha-se mais ao som da palavra "Allah" do que o vocábulo português "Deus", que por sua vez se origina do vocábulo grego "Théos" usado fartamente nas epístolas paulinas. Isso se deve ao fato de que tanto o árabe, quanto o hebraico e o aramaico serem línguas semitas. Os hebreus comumente se referiam a Deus como "Eloha" ou em sua forma majestática "Elohim". Alguns acreditam que a palavra "Allah" seria uma corruptela de "Eloha."[2]

Apesar de judaísmo, cristianismo e islamismo terem conceitos diferentes acerca de Deus, eles O identificam como o Criador dos céus e da terra, sendo considerados "Fés Abraâmicas". Tanto judeus quanto muçulmanos, por exemplo, rejeitam as crenças cristãs da Trindade e da Encarnação Divina.  

Mesmo que não reconheçam a divindade de Jesus, prezam-no como o Messias[3] e um grande profeta. Seu respeito por Ele é tamanho, que cada vez que pronunciam o Seu nome, repetem a frase “Que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele”. Entre muitas coisas, eles creem em Seu nascimento virginal, nos milagres descritos nos evangelhos, em Sua ascensão ao céu e em Seu retorno no último dia. Eles também creem que não serão os únicos a serem salvos, “mas também os seguidores de outras religiões divinas e monoteístas quando praticam e seguem as suas doutrinas autênticas e puras as quais foram reveladas aos profetas Moisés e Jesus filho de Maria.”[4] e Obviamente que temos inúmeras diferenças que não podem ser desprezadas. Todavia, isso não nos impede de amá-los e respeitá-los em sua própria fé.

Uma das coisas que mais aborrecem a comunidade islâmica é o desrespeito à figura de Maomé, seu profeta. É difícil para um muçulmano compreender a razão pela qual Maomé tem sido execrado pelos cristãos, enquanto eles fazem questão de honrar a figura de Jesus.

Alguns mais radicais demonstram ser capazes de qualquer coisa para vindicar a honra de seu profeta. Não admitem brincadeiras, piadinhas, caricaturas envolvendo aqueles que consideram o mais importante porta-voz de Deus para a humanidade.

Mesmo sendo irrestritamente a favor da liberdade de expressão, penso que deveríamos, ao menos, respeitar a sua devoção e evitar profanar o que lhes é tão caro. Não é porque estamos acostumados a ouvir piadinhas envolvendo a nossa fé que vamos nos achar no direito de fazer o mesmo com a fé alheia.

O que o mundo espera de nós é que sejamos coerentes com aquilo que Jesus nos legou. “Nisso conhecerão que sois meus discípulos”, afirmou, “se vos amardes uns aos outros.”

Somente um choque de amor poderá evitar um choque de civilizações.[5]

Enquanto muitos cristãos preferem manter distância do mundo islâmico, temendo por sua vida, ou por puro preconceito, um número crescente de muçulmanos tem se convertido a Cristo através de sonhos. De acordo com Karel Sanders, missionário cristão na África do Sul, 42% dos recém convertidos entre africanos muçulmanos vieram a Cristo através de sonhos e visões. O fenômeno também tem ocorrido entre outras comunidades muçulmanas, como os Tausugs nas Filipinas, onde muitos fiéis relataram ter visto Jesus em seus sonhos após o Ramadã (mês em que os muçulmanos praticam um ritual de jejum). Há relatos no Iraque, na Turquia, no Turcomenistão e Quirguistão.

O mesmo Jesus que apareceu a Saulo de Tarso no caminho de Damasco, segue se manifestando pelo mundo afora, sem respeitar nossas convenções e conveniências.

Talvez isso seja um recado claro à igreja, de que o mundo islâmico tem grande importância para Cristo. Mas para apresentar-lhes o evangelho, temos antes que aprender a amá-los, compreender suas tradições, despojando-nos de nossos preconceitos e receios.



[1] http://www.ebc.com.br/observatorio-sirio-dos-direitos-humanos
[2] A palavra Alá está na origem de algumas palavras do português  como "oxalá" (w[a] shā-llāh, "queira Deus"), "olá", "olé" (w[a]-llāh, "por Deus") e "hala" (yā-llāh, "oh, Deus").
[3] Alcorão: 5:75
[4] Confira no site: http://www.ibeipr.com.br/perguntas_ver.php?id_pergunta=22
[5] Choque de civilizações é uma teoria proposta pelo cientista político Samuel P. Huntington segundo a qual as identidades culturais e religiosas dos povos serão a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria

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Toda história tem dois lados


Por Hermes C. Fernandes

“Forrest Gump – O contador de histórias” foi um filme estrelado por Tom Hanks que se tornou num fenômeno de bilheteria no ano de 1994. O filme começa com uma pena caindo aos pés de Forrest Gump, sentado numa parada de ônibus. Ao pegá-la e colocá-la dentro de um livro, Forrest começa a contar a história de sua vida a uma mulher sentada ao seu lado. Os ouvintes na parada de ônibus variam.

Quem não gosta de ouvir uma boa história? Uma de suas interlocutoras perde seu ônibus só para continuar a ouvi-lo. E o que mais atrai em suas histórias é o fato de se confundirem com a história recente de seu próprio país. Acontecimentos emblemáticos como a guerra no Vietnã são alguns dos quais Forrest teve participação. Sem contar figuras importantes que cruzaram o seu caminho, dentre as quais John Lennon e os presidentes John Kennedy e Richard Nixon. Porém, em suas histórias, tais personagens entram como coadjuvantes, e, às vezes, meros figurantes. Forrest Gump é o protagonista.

Cada ser humano é protagonista em sua própria história, que por sua vez, contribuiu na composição do grande mosaico que é a História da Humanidade. Mas, ao mesmo tempo, somos coadjuvantes na história daqueles que integram nosso círculo de amigos e familiares. Às vezes, heróis. Outras, vilão. E de quebra, somos figurantes na história de todos que cruzam nosso caminho a cada dia. Como tais, entramos mudos, e saímos calados, limitando-nos a servir de componentes no cenário de outras tantas histórias.

Deus é, por assim dizer, o Senhor das circunstâncias, o Arquiteto das contingências, Aquele que promove encontros e desencontros, que liga os pontos de cada história particular, enriquecendo assim a trama universal. Através de cada história, Deus revela facetas do Seu plano redentor.

Israel sabia de sua vocação para ser luz para as nações. Desde o início, Abraão, o patriarca, foi avisado que sua história se entrelaçaria com a história de todos os povos. Ele e sua descendência seriam bênção para todas as famílias da terra. Ser escolhido não significa ser preferido. Deus escolhe alguns para o bem de todos. Onde há preferidos, também há preteridos. Se fosse questão de predileção, logo, uns sairiam ganhando, outros, perdendo.

Porém, aos poucos, Israel perdeu de vista sua missão. Começou a achar-se o povo predileto de Deus, ou melhor, os únicos com os quais Deus tratava. Passou a referir-se aos demais como “eles”, os gentios, os pagãos. A expressão “propriedade exclusiva” deixou de significar que pertenciam exclusivamente ao Senhor para significar que eram os únicos a gozarem deste status.

Até que Deus levantou profetas para adverti-los e conclamá-los ao arrependimento. Um deles foi Amós, o profeta cowboy, o John Wayne dos profetas menores. Talvez por não ter pedigree profético, Amós se viu com liberdade para dizer o que precisava ser dito, sem temer por sua reputação. Dentre as coisas que disse, talvez a mais corajosa tenha sido esta:

“Não me sois, vós, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? diz o SENHOR: Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e aos filisteus de Caftor, e aos sírios de Quir?” Amós 9:7

Deve ter sido desconcertante descobrir que não era tão importante quanto se imaginava, e ainda ser comparado à gente de um país distante na África. Deus e sua mania de pôr nosso preconceito à prova...

Então, o Êxodo de Israel não foi o único? Tanto os filisteus quanto os sírios (ambos desafetos de Israel) tiveram seu próprio êxodo? Os mesmos poderosos braços que arrancaram Israel do Egito também arrancaram os filisteus de Caftor e os sírios de Quir?

Logo, a conclusão a que chegamos é que a história de Israel não é o único fio através do qual Deus está trançando a teia da trama universal.  As histórias das nações se cruzam, e o mesmo se pode dizer da história de cada ser humano.

Isaías, contemporâneo de Amós, reforçou a ideia:

 “Naquele dia haverá estrada do Egito até a Assíria. Os assírios virão ao Egito, e os egípcios irão à Assíria. Os egípcios adorarão com os assírios ao Senhor. Naquele dia Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra. O Senhor dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança.” Isaías 19:23-25

Por mais de quatrocentos anos, o povo de Israel amargou a escravidão no Egito. E agora vivia sob a ameaça assíria. Seria maravilhoso ouvir do juízo iminente que cairia sobre tais nações que exploravam e oprimiam o “povo escolhido do Senhor”. Mas agora, Isaías, usado pelo Espírito de Deus, leva-os a compreender as coisas de uma inusitada perspectiva. Deus estava prestes a inaugurar uma estrada entre o passado  (Egito) e o presente (Assíria).  Uma estrada de mão-dupla. Os egípcios iriam à Assíria, e os assírios viriam ao Egito. Haveria intercâmbio entre os povos e ambos adorariam ao Senhor, o Deus de Israel. Sim, Ele é o Deus de Israel, mas também é o Deus de todos os povos.  Chegaria o dia em que Israel, que se acostumara a enxergar-se como o filho predileto de Deus, seria o terceiro, vindo logo após os egípcios e assírios. Quem diria... Israel em terceiro.

Geograficamente, Israel ficava no meio do caminho entre o Egito e a Assíria. Talvez até pudesse se aproveitar deste intercâmbio entre as duas potências criando um pedágio. Mas em vez de lucrar com isso, Deus diz que eles estavam estrategicamente localizados para serem bênção para ambos os povos.

Todos querem se locupletar de alguma maneira. Ninguém está interessado em ser bênção. O importante é se dar bem, ser cabeça em vez de cauda, ser primeiro, jamais segundo ou terceiro. Mas a lógica do reino subverte isso. Quem quiser ser o maior, tem que ser o menor, aquele que serve.

Como se não bastasse, o Senhor se refere ao Egito como “meu povo” e a Assíria como “obra das minhas mãos”, porém, não tiraria de Israel o título de “minha herança”.

Não deve ter sido fácil ouvir Deus referindo-se ao Egito nesses termos.  Não, depois de ter amargado quatro séculos de escravidão naquele país. Talvez Israel nem se incomodasse tanto se Deus chamasse “meu povo” alguma nação amiga.

Dizer que Deus é fiel não significa afirmar que Seus planos se limitem a nós e àqueles com os quais mantemos laços amistosos. Pode ser que Ele inclua muitos dos nossos desafetos em Seus planos. Quem poderia argui-lo por isso?  Só questiona a Sua justiça quem, de fato, não compreendeu nada de Sua graça. Se Ele agisse de acordo com os critérios da justiça, ninguém escaparia, nem mesmo nós. Seríamos todos igualmente condenados. Porém, Ele decidiu que agiria tomando por base a Sua graça. Assim como não há méritos nossos envolvendo o que te bom nos aconteça, não há deméritos por trás do que de ruim nos aconteça. Tudo é graça! Ele faz nascer o sol sobre justos e injustos, mas também faz chover sobre ambos.

Deus é fiel... não a mim, ou a quem quer que seja, mas ao Seu propósito. E este, por sua vez, inclui, de uma maneira ou de outra, a cada ser humano que já viveu, vive ou viverá na face da Terra.

Quantas vezes dizemos que perdoamos aos nossos desafetos e até pedimos que Deus os abençoe. Porém, quando os vemos prosperar, questionamos a justiça de Deus. Afinal, se nossa oração foi sincera, deveríamos agradecer a Deus por termos sido atendidos.

Chamar a Assíria (império sediado na Babilônia) de “obra das minhas mãos” parecia um insulto. Aquilo só podia ser obra do diabo! Mas Deus não vê assim. Devemos redobrar nossos cuidados antes de creditar algo a Deus ou ao diabo.

Se Ele é o Senhor das circunstâncias, o arquiteto das contingências, logo, sabe exatamente como conduzir a História a fim de que Seus propósitos sejam alcançados. Como dizia Lutero: Deixe Deus ser Deus! Ele não nos deve explicação alguma. 

terça-feira, agosto 25, 2015

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Nossos teclados estão cheios de sangue!


Por Hermes C. Fernandes


"Não espalharás notícias falsas nem serás cúmplice do ímpio, para seres testemunha injusta. Não seguirás a multidão para fazeres mal..." Êxodo 23:1-2a
Inocente! Esta é a conclusão da Polícia acerca de Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, espancada até a morte no Guarujá em maio do ano passado por uma turba enfurecida, depois de ter sido acusada nas redes sociais de sequestrar crianças para serem oferecidas em sacrifícios em rituais de magia negra. Ainda que fosse culpada, ninguém teria o direito de executá-la sumariamente. 
O crime despertou a opinião pública quanto aos perigos que rondam as redes sociais. Diariamente, calúnias e difamações são divulgadas, incitando pessoas ao ódio injustificável. Surge, então, a pergunta: por que as pessoas são tão suscetíveis a este tipo de apelo? Se ao menos buscassem checar as fontes, quanto erro não seria evitado?
Estou convencido de que haja mais sangue nas mãos de quem digitou mentiras a respeito daquela mulher, do que nas mãos dos que a executaram. E os que ajudaram a divulgar a mentira são igualmente culpados pela morte de uma inocente.
Mesmo que não resulte numa tragédia como esta, o fato é que, campanhas promotoras de ódio destroem vidas, reputações, lares e até... ministérios. 
Uma das razões pelas quais decidi não militar mais no campo apologético foi perceber a imaturidade de alguns que não sabem debater no campo das ideias, sem levantar dúvidas quanto à idoneidade de seus opositores. Por muitos anos, tenho participado de debates na TV e em rádios populares, muitos dos quais calorosos. Assisti in loco a situações inusitadas, em que debatedores demonstraram profundo desrespeito aos colegas de mesa. Eu mesmo fui vítima diversas vezes. Um deles chegou a dizer que era o diabo quem me inspirava. Depois do debate, teve a cara de pau de me convidar para pregar em sua igreja. Sempre mantive meu tom de voz, demonstrando respeito a quem quer que seja, ainda que discordando de suas opiniões. Jamais poderia me esquecer de que são chefes de família, homens respeitados em seus grupos. Posso ser incisivo em meus pontos de vista, como aliás, sempre sou. Porém, isso não me dá o direito de atacar meus oponentes. Afinal, nossa luta não é contra carne, nem o sangue...
Ataques à honra de alguém revela muito acerca de quem os protagoniza. Infelizmente, estes sempre têm uma plateia ávida por sangue, desejosa de ver o circo pegar fogo. Talvez se esqueçam da admoestação bíblica:
"Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos." Provérbios 6:16-19
Estou certo de que ataques pessoais alavancam a audiência, mas desagradam profundamente o coração de Deus. Portanto, não valem a pena. É preferível uma audiência mediana onde ideias sejam expostas sem incitar ninguém ao ódio. 


Não me vejo em condição de julgar as motivações e intenções de outros. Prefiro colocar-me na berlinda, examinando-me todo o tempo e sujeitando-me ao crivo da minha consciência. Quanto aos demais, cada qual dará contas de si mesmo a Deus. 
Antes de atacar a alguém, pense em como seus pais e filhos se sentiriam vendo sua honra lançada na lama por gente invejosa e inescrupulosa. 
Parafraseando Paulo, não destrua, seja por que razão for, o que custou tão caro para ser construído (Rm.14:15). Quem dera se o sangue de Jesus houvesse sido o último sangue inocente derramado! Podemos até escapar da justiça dos homens, mas jamais escaparemos da justiça divina. 


P.S.: O Estadão informou que Fabiane voltava da igreja para sua casa, segurando uma Bíblia contendo algumas fotos de seus filhos, no momento em que foi amarrada, espancada e linchada até a morte. 

segunda-feira, agosto 24, 2015

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Prazer, poder, posse, prestígio e... pressa!






Por Hermes C. Fernandes

Jesus foi o único ser autenticamente humano. Para que fosse devidamente aprovado, teve que passar por um severo teste de qualidade em que enfrentou tudo o que desumaniza o ser.

O escritor sagrado afirma que Ele, "como nós, em tudo foi tentado" (Hb.4:15). Porém, resistiu firmemente, tornando-se "homem aprovado por Deus" (At.2:22). Fora Ele, todos foram reprovados e invariavelmente nos mesmos quesitos.  Somos, por assim dizer, esboços humanos. Cristo é o único devidamente acabado. Como ser humano por excelência, Ele é tudo o que fomos vocacionados a ser. E agora mesmo, o Espírito Santo, o sumo arte-finalista, está reforçando em nós os traços da imagem e semelhança de Deus, enquanto apaga as rasuras feitas pelo pecado. Estamos destinados a ser como Ele é, verdadeira e plenamente humano. 


O episódio conhecido como "A tentação no deserto" nos permite uma leitura arquetípica. Nele, Cristo é provado nas mesmas esferas em que todos os homens o são, a saber, nas áreas do prazer, poder, posse, prestígio e pressa.


Tão logo deixou a cena batismal, Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado. Repare: Ele não foi levado para se consagrar, para jejuar, ou coisa parecida, mas para ser tentado. O jejum de quarenta dias não visava torná-lo mais forte para resistir, e sim mais fraco para que a tentação fosse legítima. Se não tivesse fome, não se sentiria realmente tentado com a sugestão de transformar pedras em pães. 


Enquanto o primeiro homem foi tentado num cenário paradisíaco, tendo acesso a todas as árvores e frutos (exceto o que lhe fora vetado por Deus), o segundo Adão, Jesus, foi tentado num cenário inóspito, privado de qualquer conforto. O primeiro caiu, o segundo, manteve-se de pé. Portanto, não depende do cenário, se num deserto ou num jardim. Não depende se estamos de barriga cheia ou vazia. 


Quem o conduz ao deserto é ninguém menos que o próprio Espírito de Deus, aquele que manifestou-se sobre Ele em forma corpórea de uma pomba.


Na primeira investida do diabo, fora-lhe dito: "Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães." O que haveria de imoral ou mesmo antiético em usar Seu poder para transformar pedras em pães? Absolutamente nada. Seria precipitado acreditar que toda tentação vai de encontro a um princípio moral ou ético. O que concede à sugestão o status de tentação é a sua procedência. Por isso, Jesus responde: "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus." O problema não eram as pedras ou os pães mas a boca de onde procedia tal palavra. Se não vem da boca de Deus, corre sérios riscos de vir da boca do diabo. E se este for o caso, só nos cabe rechaçar, por mais razoável que pareça ser. 


A primeira tentação opera na área sensorial, onde habita nossas necessidades físicas e emocionais. Cada uma delas quando saciada promove prazer. Sentimos prazer no sono, na ingestão de alimento, no sexo. O prazer é um bônus concedido pelo Criador, porém, jamais deveria ser visto como o supremo objetivo da vida. Comemos porque precisamos sobreviver. Dormimos porque temos que recarregar as baterias e assim, estar prontos para trabalhar. Fazemos sexo para expressar nosso carinho e afeição pela pessoa amada (não apenas para a reprodução). O hedonista é aquele que busca o prazer pelo prazer, independente dos efeitos colaterais ou do sofrimento que poderá causar a outros. 


Na busca frenética por satisfação, muitos se dispõem a transformar pedras em pães. Buscam prazer em canais que não foram criados para isso. Um exemplo é a pornografia. Tentar extrair dela um prazer só encontrado na relação a dois é doentio na medida em que coisifica o ser humano. Outros buscam em relações extraconjugais o que deveria ser encontrado em seu próprio casamento. Sexo requer interação, troca de fluídos (tanto corporais, quanto emocionais), cumplicidade, carinho e... compromisso. O que não nos humaniza, nos coisifica. Jesus repudiou a sugestão de Satanás em usar Seu poder para transformar um mineral em fonte de nutrientes como carboidratos, proteínas e vitaminas. Comer faz bem, mas glutonaria não. Dormir é bom, mas preguiça não. Sexo é bênção, mas promiscuidade é maldição. Na área do prazer o que distingue o remédio do veneno é a dosagem. Se fizermos do prazer o objetivo central de nossas vidas ele se tornará vício e nos consumirá como uma droga. Toda palavra que procede da boca do diabo nos instiga à compulsão. A Palavra procedente da boca de Deus nos estimula o equilíbrio. 


Aprovado nesta área, o diabo o levou a outro cenário para ter Seu poder colocado à prova.

"Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo,e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e tomar-te-ão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra."
Se Jesus fosse dado à performance, certamente teria cedido ao apelo do diabo. Mas Ele jamais Se preocupou em provar nada a quem quer que fosse. Jamais deixou-se seduzir pelo poder. O que tornava esta tentação mais desafiadora não era a altura do pináculo mas a promessa de que haveria anjos trabalhando em Seu favor para impedir que Ele se esborrachasse no chão. Esta é a tentação do poder. Sentimo-nos confortáveis de saber que tem gente trabalhando para nós, sob nossas ordens diretas. Por que o cenário escolhido foi o pináculo do templo? Porque de lá Ele teria plateia. Os próprios sacerdotes testemunhariam assombrados Sua demonstração de poder. Sem plateia não há aplauso. Aquilo não era tentação para o deserto, onde ninguém assistiria. Estava em jogo tanto o Seu poder quanto o Seu prestígio. Repare que as duas primeiras tentações começam com a frase "Se tu és o filho de Deus...". Em outras palavras: - Mostra pra todo mundo que você é o cara! 

Tanto o poder como a busca desesperada por prestígio e reconhecimento desumanizam o ser. Almejamos o poder para nos sentir importantes e não para usá-lo em favor do bem comum. A notoriedade deixa de ser consequência natural de quando se busca a excelência naquilo que se faz para tornar-se no alvo dos alvos. Poder e prestígio se unem e conspiram contra nossa humanidade. 


Observe que o diabo usou descaradamente um trecho das Escrituras para compor sua indecorosa proposta.  Ninguém conhece tão bem a Bíblia quanto ele. Sua estratégia é justificada pelo fato de Jesus ter afirmado que só aceitaria palavras cujo procedimento fosse a boca de Deus. Porém, Jesus não deixou barato:  "Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus."


Um conhecimento medíocre das Escrituras pode causar danos tão grandes quanto a ignorância. Antes de abonar qualquer ensino ou doutrina baseados nas Escrituras, confiramos o que "também está escrito". Texto sem contexto é pretexto... Se fôssemos mais atentos, muitas heresias não se criavam...


Nesta resposta, Jesus deixa claro que acatar a sugestão do maligno era o mesmo que tentar a Deus. Não temos o direito de pinçar uma promessa e cobrar de Deus o seu cumprimento. Assim como nós, Deus não tem nada que provar a ninguém. 


Em sua última cartada, o diabo o transportou "a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares."


Alguns acham que Satanás estava blefando. Penso que não. Até aquele momento ele ainda era o príncipe deste mundo. Prometer o que não pode entregar não é uma tentação legítima. Nesta tentação encontramos dois elementos desumanizadores: a posse e a pressa.


Para instigar-lhe a cobiça, o diabo levou-o a um lugar de onde tivesse uma vista panorâmica (360o) de todos os reinos do mundo. Bastava que Jesus caísse prostrado aos seus pés e pronto... o mundo inteiro lhe seria entregue de mão beijada. Tentador, não? 


Quantos vendem a alma ao diabo para ter o que desejam! O problema da posse é que ela geralmente é uma estrada de mão-dupla. Tudo o que possuímos também nos possui. Somos consumidos por aquilo que elegemos como nosso sonho de consumo. Sucumbidos ante ao apelo publicitário, nunca estamos satisfeitos com o que temos. Sempre queremos mais, mais e mais; ainda que para alcançarmos as coisas, tenhamos que usar as pessoas. As coisas, em vez de as pessoas, tornaram-se objetos do nosso amor e devoção. Ceder ao apelo consumista é prostrar-se diante de Satanás. É etiquetar a alma e vende-la por qualquer bagatela, ignorando o altíssimo preço pago por Cristo pela sua redenção. 


Prazer, poder, prestígio, posse e... pressa!


Jesus tinha um cronograma que incluía sofrer perseguições, acusações falsas, traições, e por fim, uma morte vexatória na cruz. Tudo isso para que o mundo com todos os seus reinos fosse resgatado e devolvido a quem de direito (Ap.11:15). Satanás propõe-lhe um atalho. Ora, quem toma atalho é porque tem pressa. Em vez de cruz, genuflexão. Em vez de sacrifício, submissão cega ao príncipe deste mundo. 


Na era da pressa cultua-se a velocidade. Tudo é pra ontem. Ninguém tem paciência de esperar o tempo de maturação. Antes, o apressado comia cru, hoje, o apressado come macarrão instantâneo ou comida congelada levada ao micro-ondas. Em vez de paciência, cultivamos a ansiedade como se fosse virtude. 


Uma vez proferida a resposta que deu um 'chega-pra-lá' no diabo, "eis que chegaram os anjos e o serviam" (Mt.4:11). De onde concluímos que é melhor esperar e ser servido por anjos do que meter os pés pelas mãos e passar o resto da vida tendo do que se arrepender. 


Aprendemos com este episódio que há cinco forças que conspiram contra a nossa humanidade e buscam nos coisificar. Cada uma delas nos revela um inimigo para o qual não podemos dar trégua: 


* A carne (instigando-nos a priorizar o prazer a qualquer custo)

* O diabo (oferecendo-nos poder ou buscando fazer com que o usemos em benefício próprio)
* O mundo (atiçando nossa cobiça, oferecendo-nos posse)
* O ego (em sua ânsia por prestígio, glória, reconhecimento)
* O tempo (incitando-nos à ansiedade)

Como prevalecer sobre eles? Há dois caminhos diante de nós. O primeiro deles é o do legalismo que, com todas as suas proibições e ordenanças só faz colocar o vírus do pecado em quarentena. O segundo é a graça manifestada na cruz, a única capaz de neutralizá-lo e eliminá-lo. Uma vez crucificados com Cristo, deixamos de viver para nós mesmos e passamos a viver exclusivamente em função do propósito para o qual fomos criados e resgatados. Portanto, já não vivemos em função do prazer, do poder, do prestígio, da posse ou da pressa, mas em função do propósito. É um "p" que vale por todos os outros "p's".



Somente depois de experimentarmos o poder da cruz, estaremos habilitados a combater o desejo de poder com serviço, a ânsia por posse com partilha, a paixão por prazer com renúncia, a busca por prestígio com humildade e a pressa com perseverança.

Enquanto uns buscam bens para desfrutar, outros, poder para se beneficiar, outros, experiências para contar e outros, aplausos e reconhecimento para se vangloriar, receberemos do Senhor bens para repartir, poder para servir, experiências para ensinar e ainda por cima, transferiremos toda glória que recebermos para Aquele a quem reconhecemos como nossa única fonte.

Tudo o que nos é oferecido tem prazo de validade. O poder perece quando nossa habilidade é superada, e somos substituídos por alguém mais competente. A posse termina quando o bem adquirido se desgasta e vira lixo. O prazer é momentâneo, termina quando a necessidade é suprida. O prestígio de hoje é o anonimato de amanhã. Quem hoje nos aplaude, amanhã no vaia ou nos esquece. A única coisa que dura para sempre é o amor. Ele é que confere propósito à nossa existência. 

Tudo é vaidade! Tudo é saudade. As pessoas entram em nossa vida como quem já acena se despedindo. As coisas que pareciam tão duráveis desaparecem como miragem. O carro zero de hoje é a lata velha de amanhã. A roupa de grife vira pano de chão. O poder um dia se aposenta. A beleza atraente se esvai e sobra a exaustão e o tédio. Os aplausos se silenciam... Só sobra o amor.

E é este amor que nos constrange, "julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" (2 Co. 5:14-15).

O antídoto contra o veneno do "viver-para-si" (que é o coração de toda tentação e que desumaniza o ser) pode ser encontrado no finalzinho da doxologia de Paulo:
"Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém." Romanos 11:36
Ora, se todas as coisas são d'Ele, logo, não há sentido em fazer da busca da posse o objetivo da existência. Tudo o que há já tem um dono: Jesus. Se todas as coisas subsistem "por Ele", logo todo o poder está concentrado em Suas mãos. Seria bobagem usurpá-lo. Se tudo existe "para Ele", logo é a Sua satisfação que deve ser alcançada, não a nossa. Porém, quando priorizamos o prazer divino, Ele nos faz participantes do mesmo. O que capacitou Jesus a vencer todas as tentações foi a palavra que ouvira da boca do Pai assim que foi batizado: "Este é o meu Filho amado em quem tenho prazer". Nossa busca frenética por satisfação pessoal é substituída pela busca daquilo que agrade a Deus. Diante de tudo isso, concluímos que a glória deva ser exclusiva do Senhor. Diferente da glória deste mundo que murcha com o tempo, a glória celestial é eterna. Daí não haver mais necessidade de sermos consumidos pela pressa. Vivemos para a eternidade. Como dizia Renato Russo, "temos todo o tempo do mundo", ou melhor, "temos toda a eternidade". Pressa pra quê?

domingo, agosto 23, 2015

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Só para os íntimos...


Por Hermes C. Fernandes

“Jardim fechado és tu, minha irmã, esposa minha, manancial fechado, fonte selada.” 
Cânticos 4:12


Nossa vida é dividida em três esferas: a pública, a privada e a íntima.

A esfera pública é aquela à que todos têm acesso. Nela desenvolvemos alguns dos nossos papéis sociais mais importantes, tais como empregado ou empregador, chefe de família/dona de casa, professor ou aluno, cidadão, consumidor, etc. Estamos constantemente sendo avaliados pelos que nos cercam. Por isso, devemos tomar os cuidados necessários para que nosso comportamento não comprometa o nosso testemunho.

Porém, estabelecemos um perímetro e dizemos: Daqui ninguém passa, a menos que seja permitido. Trata-se, portanto, da esfera privada. Nunca época em que nossas vidas ficam expostas nas redes sociais, e somos vigiados 24 horas por dia através de câmeras espalhadas pela cidade, nunca se valorizou tanto a privacidade. Pode-se dizer que ela tem se tornado artigo de luxo. 

Há uma cerca que delimita a fronteira entre as esferas pública e privada de nossa vida. Apesar de nem todos serem bem-vindos, alguns se aproveitam das brechas da cerca para nos espreitar. Trata-se da prática do voyeurismo social. Querem saber como vivemos, como nos relacionamos, o que consumimos, etc.

Nossa vida privada deve ser como um jardim fechado. E será nesta esfera que faremos a triagem através da qual selecionaremos quem deve ter acesso à nossa intimidade.

Se a privacidade é guardada por cercas, a intimidade deve ser guardada por paredes bem espessas, mantida numa espécie de cofre à prova de invasão.

Nossa intimidade equivale a uma fonte selada, inacessível a quem não for convidado a dela desfrutar. Se para entrar na esfera privada precisa-se permissão, para entrar na esfera da intimidade requer-se convite. A intimidade é valor que não se pode violar, tão pouco negociar. 

Ninguém deverá saltar da esfera pública para a intimidade sem passar pela privacidade.

Alguns critérios devem ser respeitados antes que alguém se introduza em nossa intimidade.

Não há intimidade sem liberdade, nem liberdade sem confiança, nem confiança sem comprometimento, nem comprometimento sem amor, nem amor sem conquista. Quando falta confiança, os alicerces da intimidade vêm abaixo. E só há confiança legítima, havendo amor. Pode-se dizer que amor e confiança são os dois querubins que guardam nosso jardim. 

A intimidade é, por assim dizer, a coroação do amor. Intimidade sem amor nos faz sentir usados. Amor sem intimidade nos faz sentir desperdiçados.

Um dos maiores empecilhos à intimidade é a timidez, que consiste num bloqueio que nos torna inacessíveis. A timidez sugere que não queremos nos dar a conhecer. Preferimos o isolamento, a alienação. Ilhamo-nos em nosso mundo particular, contentando-nos com nosso narcisismo. Achamo-nos auto-suficientes. Bastamo-nos. 

Por isso os tímidos encabeçam a lista dos que não herdam o Reino (Ap.21:8), pois são incapazes de abrir-se ao outro. Sua intimidade é preservada ao custo da comunhão.

A timidez é uma represa que precisa ser rompida para que o amor flua com liberdade levando-nos a desaguar no mar da comunhão.

A timidez revela que estamos mais preocupados em nos preservar do que em promover a felicidade do outro.

Portanto, abramo-nos à comunhão, deixando de lado o que nos distancia uns dos outros. Porém, sejamos seletivos para com aqueles que desfrutarão de nossa intimidade. Que conquistem antes nossa confiança e revelem em gestos e palavras a sua lealdade.

sexta-feira, agosto 21, 2015

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A face desconhecida de Jesus




Por Hermes C. Fernandes

“Por aquele tempo ouviu Herodes, o tetrarca, a fama de Jesus, e disse a seus servos: Este é João Batista; ressurgiu dos mortos, e por isso nele operam estes poderes miraculosos” (Mt.14:1).

Depois de haver ordenado que João fosse degolado, Herodes passou a ser assombrado pela culpa. Depois de passado o efeito da bebida, ele se deu conta de que havia sido manipulado. Agora, ouvindo sobre os milagres que Jesus fazia, julgou que João havia voltado dos mortos para assombrá-lo.

Por que razão Herodes confundiu Jesus com João? Será que por serem primos? Não! O fato é que Jesus, ao receber a notícia da morte de seu primo, foi para o deserto, lugar onde João desenvolvera seu ministério, e ali, realizou milagres, e alimentou uma multidão com cinco pães e dois peixinhos.

O cenário em que Jesus fizera tal milagre era o mesmo em que João conclamara seu povo ao arrependimento. Mesmo afastado da sociedade, frequentando lugares inóspitos como o deserto, a mensagem de João ecoou nos palácios e nas avenidas dos grandes centros urbanos da época.

O excêntrico profeta, que se alimentava de mel e gafanhotos, e se vestia como um eremita, tornou-se uma ameaça ao status quo. Principalmente, quando passou a denunciar os erros praticados pelas autoridades. Nem o rei fora poupado, pois tomara por esposa Herodias, a mulher de seu próprio irmão.

Alguém teria que calá-lo a qualquer custo. Porém, Herodes deparava-se com outro problema: a grande popularidade de João. Mandar matá-lo poderia provocar uma reação inusitada na população. Portanto, executar o profeta seria um suicídio político.

A alternativa foi tirá-lo de circulação por algum tempo, até que sua popularidade caísse. E para isso, Herodes ordenou sua prisão. Aparentemente, o problema estava resolvido. Mas havia alguém que ainda não estava satisfeito: Herodias. Para ela, o problema não era apenas político, mas pessoal. Sua honra precisava ser lavada.
“Festejando-se, porém, o dia natalício de Herodes, dançou a filha de Herodias diante de todos e agradou tanto a Herodes, que este prometeu, com juramento, dar-lhe tudo o que pedisse. Então ela, instruída por sua mãe, disse: Dá-me aqui num prato a cabeça de João Batista” (6-8).
Era agora ou nunca!

Herodes caiu como um pato! Encantado pela sensualidade de sua enteada, o rei prometeu lhe dar qualquer coisa. Em outra passagem correlata, diz-se que Herodes ofereceu até metade do seu reino, caso ela quisesse. Havia algo mais valioso do que a metade do seu reino: A cabeça daquele anunciava a chegada do reino de Deus. O próprio Jesus dissera que dentre os nascidos de mulher, ninguém era maior do que João. Mesmo triste em ter que tomar uma decisão que lhe custaria a popularidade, Herodes, o rei fantoche, “mandou degolar a João no cárcere. A cabeça foi trazida num prato e dada à jovem, e ela a levou a sua mãe. Então chegaram os seus discípulos, levaram o corpo e o sepultaram. Depois foram anunciá-lo a Jesus” (10-12).

Qual seria a reação de Jesus? Uma explosão de raiva? Não! Amaldiçoaria Herodes? Nem pensar. Em vez disso, Jesus retirou-se para o lugar onde tivera Seu primeiro encontro com João, depois de adulto. Naquele momento de dor, Jesus preferiu o silêncio e a solidão. Era a hora de revelar Sua outra face. E sabe qual foi a resposta de Jesus a Herodes?

O texto diz que quando o povo soube onde estava Jesus, “seguiu-o a pé desde as cidades.” Jesus poderia ter dito: Deixem-me em paz! Respeitem o meu luto! Em vez disso, quando viu a multidão, “possuído de grande compaixão para com ela, curou os seus enfermos” (v.14). Eis a resposta que Jesus deu a Herodes. No mesmo cenário onde João desenvolvera seu ministério, Jesus agora fazia obras ainda maiores. Herodes até poderia calar a voz de um profeta, mas não poderia impedir a expansão do Reino de Deus. Mas não pára aqui.

Como Rei, Cristo demonstrou possuir um perfil completamente diferente de Herodes e dos demais reis deste mundo. Herodes estava preocupado era com sua popularidade. Jesus se preocupava com o bem-estar dos que O seguiam. São motivações completamente opostas. Herodes era movido pelo amor-próprio. Jesus era movido por compaixão.

Veja o que diz o texto:
“Chegada a tarde, os seus discípulos aproximaram-se dele, dizendo: O lugar é deserto, e a hora é já avançada. Despede a multidão, para que vão pelas aldeias, e comprem comida para si” (15).
Quem ousaria dizer o que Jesus deveria ou não fazer?

Jesus não era marionete nas mãos de ninguém, nem mesmo dos Seus discípulos. O Jesus que tem sido difundido em nossos dias não passa de uma caricatura, uma espécie de Cristo Genérico, que vive em função dos caprichos dos seus seguidores. E muitos crentes acham que podem até “seduzi-lo” com suas danças e performances. Se agradá-lO suficientemente, a ponto de deixá-Lo ‘fora de si’, pode-se pedir o que quiser, que Ele atende imediatamente.

Quanta tolice.

Mas a culpa não é deles. Como a culpa não era da enteada de Herodes. Ela foi apenas massa de manobra nas mãos de sua mãe. A culpa é dos líderes, que se acham detentores do monopólio do reino dos céus. Mais duro juízo virá sobre eles. São guia de cegos! E por causa deles, muitos profetas genuínos têm sido calados em nossos dias.

Anos atrás, tínhamos um programa de rádio no Rio de Janeiro, que estava alcançando uma grande audiência. O dono de umas dessas indústrias religiosas, mandou chamar o dono da emissora em sua catedral em SP para uma reunião. Lá ofereceu-lhe uma maleta com trezentos mil dólares para que fôssemos tirados do ar. O dono da rádio, nosso amigo há muitos anos, perguntou a razão que o levara a fazer tal proposta. Sabe o que ele ouviu do tal líder?

- Neste ramo de negócios só há duas maneiras de se manter. Primeiro é fazendo-se ouvir, e segundo é fazendo calar a concorrência.

Este mesmo líder tinha um programa nesta emissora que era precedido por uma programação espírita afro-brasileira. O dono da rádio ofereceu-lhe aquele horário, dizendo que os espíritas não conseguiriam pagar por causa do aumento no preço. Sabe o que ele fez? Ofereceu pagar pela manutenção da programação espírita, para que seu programa não perdesse aquela audiência. Por vários anos, o programa de macumba foi mantido pelas ofertas e fogueiras santas daquela ‘igreja’.

Tenho pena das filhas de Herodias! Elas dançam conforme a música. Mas não tenho pena de Herodes, nem tampouco de Herodias. Em vez disso, glorio-me na valentia dos profetas cuja cabeça acaba num prato, por não negociarem com a verdade.

Os discípulos de Jesus acharam que poderiam ditar o que Jesus deveria fazer naquele instante. Foi, de fato, um momento decisivo em Seu ministério. Se Jesus cedesse, Ele Se tornaria mais uma marionete nas mãos dos Seus seguidores. Em vez de despedir da multidão, Jesus lhes disse: “Não é preciso que se retirem. Dai-lhes vós de comer” (16).

E há quem se atreva a querer colocar Deus contra a parede!

Se Ele é Deus, Ele é quem dá as ordens.

Ele não é rei de enfeite. Nem fantoche de ninguém.

Quando nos sentamos no banco carona de um carro, vemos a face direita de quem o conduz. Esta é a face da autoridade. Mas se a pessoa que conduz o veículo trocar de lugar com a que está no carona, em vez da face direita, sua face esquerda é que será vista. Nos acostumamos tanto com a face esquerda de Cristo, isto é, com o Cristo que Se entrega, que Se faz servo, que acabamos estranhando, quando O vemos de outro ângulo, em Sua majestade e poder.

De fato, Cristo Se fez servo. Revelou-nos a Sua face de compaixão e amor. Mas isso não nos dá o direito de achar que Ele viva em função de nossos caprichos, e que nossos pedidos lhe soem como uma ordem.

O mesmo Cristo que esvaziou-Se, deixou Sua glória para caminhar por nossas ruas empoeiradas, agora está assentado em Seu trono de glória. O mesmo Cristo que nasceu numa manjedoura, foi também o parteiro das estrelas. As mãos que foram fixadas pelos cravos no madeiro, são as que sustentam as galáxias, e mantém presos os planetas em suas órbitas.

Não podemos nutrir uma visão míope de Cristo. Ele é 100% Homem, mas também é 100% Deus.

Quando os discípulos disseram que só tinham cinco pães e dois peixinhos que um menino oferecera, Jesus disse: “Trazei-mos.”

Não sei o que Herodes fez com o prato contendo a cabeça de João. Mas sei o que Jesus fez com aquele punhado de pães e peixes. Quem vai querer levar uma cabeça humana pra casa? Que serventia teria?

A resposta de Jesus àquele prato infame foram os doze cestos cheios de pães e peixes que sobraram depois que alimentara a multidão. Imagino o que os convidados de Herodes devem ter sentido quando viram aquela cena repugnante. Talvez tenham até vomitado sobre a mesa. Porém, a multidão alimentada por Jesus saiu satisfeita, arrotando peixe e palitando os dentes.

Dois reis. A qual deles servimos?

O rei fantoche ou o Rei dos reis?

Duas igrejas, a que entretém o rei e seus convidados, e a que busca agradar ao rei, alimentando os famintos de justiça. Não quero estar num palácio onde se perde a cabeça. Prefiro estar no deserto, onde multidões são alimentadas.

Aquele menino que oferece seu lanche a Jesus é a antítese da enteada de Herodes. A propósito, Deus não tem enteados. A menina pede... o menino oferece o que tem. Ela quer ser atendida, ele quer servir.

O resultado do desevangelho que tem sido pregado em nossos dias, é o surgimento de uma igreja pirracenta, mimada, que não reconhece a outra face do Seu Rei.