sábado, maio 23, 2015

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A circuncisão do coração e a libertação do narcisismo



Por Hermes C. Fernandes 

Dentre os rituais prescritos na lei mosaica, nenhum era mais radical do que a circuncisão. Trata-se de um procedimento cirúrgico no qual se remove o prepúcio, a pele que recobre a glande do órgão reprodutor masculino, tão invasivo e traumático quanto o corte do cordão umbilical. Diferentemente de outras cerimônias como as que exigiam o sacrifício de animais, a circuncisão deixava uma marca no corpo do indivíduo. 


Na verdade, a circuncisão foi instituída bem antes da lei, servindo de selo da aliança entre Deus e os descendentes de Abraão. Todo filho varão deveria ser circuncidado ao oitavo dia (G.17:10-12). O próprio Jesus precisou ser submetido ao rito.


Atualmente, muitos defendem a circuncisão como uma medida de higiene, útil para impedir o acúmulo de secreção genital no espaço entre a glande e o prepúcio, região comumente foco de infecções. Pesquisas apontam os benefícios práticos da circuncisão como a redução de infecções urinárias, câncer peniano e câncer do colo do útero nas parceiras, doenças sexualmente transmissíveis, dentre as quais o HIV. Apesar do valor atribuído pela medicina moderna à prática, gostaria de propor uma investigação bíblica em busca de seu sentido simbólico/espiritual.

O escritor sagrado diz que os ritos e cerimônias da lei têm “a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas” (Hb.10:1). Paulo complementa dizendo que a realidade para a qual eles apontam se encontra “em Cristo” (Col.2:16-17). Portanto, muito mais do que uma medida higiênica e preventiva, a circuncisão encerra em si um significado mais amplo e profundo.

Bem da verdade, a circuncisão acabou se tornando motivo de muita controvérsia na igreja primitiva. Alguns discípulos judeus achavam que qualquer gentio que se convertesse à fé deveria se submeter ao rito. Somente assim, o novo convertido seria aceito na comunidade dos cristãos, sendo oficialmente incluído entre os descendentes de Abraão.

Paulo foi um dos que mais combateram tal crença. Segundo o apóstolo, o que antes era um sinal da aliança entre Deus e Abraão, agora se tornara numa ferramenta para manter as pessoas reféns de uma religiosidade frívola e vã.

“Tendo cuidado”, advertiu Paulo, “para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e tendes a vossa plenitude nele, que é a cabeça de todo principado e potestade, no qual também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo” (Col.2:8-11).

Portanto, a circuncisão instituída na lei era apenas uma sombra da verdadeira circuncisão à qual somos submetidos em Cristo. N’Ele alcançamos a plenitude; em outras palavras, não nos falta nada. Estamos completos. Sua graça nos basta. Não há acréscimos a fazer. 

Alguns discípulos mais moderados achavam que a circuncisão deveria ser encarada como algo opcional. Quem quisesse, poderia ser circuncidado. Quem não quisesse, poderia manter-se incircunciso. Porém, Paulo, prevendo que isso promoveria a divisão dos cristãos em duas classes distintas, opôs-se radicalmente. “Se vos deixardes circuncidar”, alerta o apóstolo, “Cristo de nada vos aproveitará” (Gl.5:2). E a lógica que ele usava era imbatível: “E de novo protesto a todo o homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei” (v.3). Não dava para transigir. Quem quisesse viver sob a égide da lei, teria que observá-la por completo. Ou tudo, ou nada. Ou se vive pela lei, ou se rende à graça. E ele mesmo sentencia: “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” (v.4).

Para Paulo, aquela era uma questão há muito superada. Transformá-la num cavalo de batalha era total perda de tempo. Por isso, ele se nega a pôr panos quentes. O assunto tinha que se encerrar ali mesmo. “Porque”, afinal, “em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” (v.6). E arremata: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” (Gl.6:15). Nem valor, nem virtude. Portanto, ninguém pode se gabar perante Deus pelo simples fato de ter sido circuncidado conforme prescrito na lei.

Em quase todas as suas epístolas, Paulo teve que retomar a questão, mesmo que a contragosto. A igreja sofria um ininterrupto assédio dos que defendiam a circuncisão como condição sine qua non para a salvação. Aos Filipenses, ele defende que a verdadeira circuncisão “somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”(Fp.3:3). Ao contrário da lei que servira como plataforma de um sistema meritório, a graça derruba qualquer presunção humana, posto que revele nossa falência espiritual, a fraqueza de nossa carne e a nossa inabilidade em cumprir as demandas da justiça divina. Não dá para confiar em Cristo e confiar em nossa carne ao mesmo tempo. Qualquer tentativa de se estabelecer uma meritocracia sucumbe ante a radicalidade da graça.

Aos cristãos de Roma, ele alfineta:
“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.” Romanos 2:28,29 
Circuncisão do coração? De onde Paulo teria tirado este conceito? Seria um conceito totalmente novo? Haveria algum indício no Antigo Testamento de que sob a nova aliança a circuncisão da carne seria substituída pela circuncisão do coração? E o que significaria tal circuncisão?

Jeremias, o mais emotivo dentre os profetas, admoesta:

“Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras. Jeremias 4:4

Esta passagem vetero-testamentária deixa claro que a não circuncisão de nosso coração atrairia o juízo de Deus. Fica igualmente subentendido que nossas más obras nada mais são do que frutos de um coração incircunciso.

Mesmo durante a instituição da lei, muito antes da Era dos grandes profetas, Deus já havia Se comprometido a promover a circuncisão do coração do Seu povo. Portanto, não se trata de obra humana, mas divina. Leia o que diz Moisés sobre isso:

“E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas. Deuteronômio 30:6

Repare nisso: a circuncisão do coração é que nos possibilita a amar a Deus. Jesus disse que toda a lei foi resumida em dois mandamentos: Amar a Deus e amar ao próximo. Sem que o homem tenha seu coração circuncidado, ele jamais será capaz de cumpri-los. O cumprimento de ambos depende totalmente desta operação feita pelo Espírito Santo em nosso interior. E uma vez que sejamos incapazes de amar ao nosso semelhante, certamente lhe negaremos também a justiça.

“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz. Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita subornos; que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa. Deuteronômio 10:16-18

A paz só possível se houver justiça, e esta, por sua vez, só se cumpre onde haja amor. Todavia, há um prepúcio no coração de todo homem que o impede de ver isso. Paulo também se refere a esta cobertura como um véu capaz de endurecer o entendimento humano. Daí a advertência para que não endurecemos a nossa cerviz. Em outras palavras, temos que deixar de ser cabeça dura. Porém, para isso, o véu tem que ser removido. E isso só ocorre quando somos convertidos a Cristo (2 Co.3:13-18). Portanto, a genuína conversão equivale a ter o coração circuncidado.

Permita-me lançar mão de uma compreensão psicanalítica de nossa condição humana que parece ecoar a verdade anunciada nas Escrituras.

De acordo com Freud, todos nascemos narcisistas. Ao nascermos, todo o nosso amor é voltado para nós mesmos. Até a nossa mãe é vista como sendo uma extensão de nosso ser. Isso parece se encaixar perfeitamente com o que a teologia cristã diz acerca de nossa condição humana: todos nascemos em pecado (Sl.51:5). Pecado é, por definição, errar o alvo. Não fomos criados para o amor próprio, mas para amar a Deus e ao nosso semelhante. O amor próprio é, por assim dizer, a essência do pecado. Nascemos em pecado porque nascemos voltados para nós mesmos. Investimos todo o nosso afeto em nosso eu. O outro não passa de um espelho onde vislumbramos nossa imagem. É pelo outro que tomamos consciência de que existimos. O mundo parece nos orbitar. Até que ocorre um trauma de tal ordem que Freud chama de castração. Se o narcisismo é a entronização do “eu”, a castração é a sua deposição. Somos confrontados pela lei imposta pelo superego num processo chamado de Complexo de Édipo, através do qual descobrimos que nem todos os nossos desejos podem ser saciados. O papel do superego é nos munir de consciência moral, ditando-nos o bem a ser buscado, e o mal a ser evitado. É através da castração que a lei é cravada em nossa consciência, gerando uma estrutura psíquica neurótica, fundamentada no desejo e na culpa. Uma eventual falha na castração gerará uma estrutura psíquica psicótica, ou mesmo perversa, em que o sujeito é incapaz de se sentir culpado. Sem que haja culpa, também não haverá arrependimento. É necessário que a lei cumpra seu papel, a fim de que a graça entre em cena, de modo que se cumpra a célebre declaração apostólica: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm.5:20). Como cristão que crê no ministério do Espírito em convencer o homem acerca do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:8), creio firmemente que ninguém está imune à Sua eficiente atuação, nem mesmo o psicótico ou o perverso. Porém, esta atuação passa necessariamente pela admissão de culpa, sem a qual, jamais se alcançará a consciência grata pelo perdão. Sem a lei, não há evangelho possível. A lei condena para que o evangelho absolva.

Engana-se quem pensa que a lei foi legada exclusivamente aos judeus. Paulo afirma que mesmo os gentios “fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Rm.2:14,15). Esta tal lei no coração é o que Freud chama de superego.

É justamente a castração que nos lança para fora de nós mesmos e nos faz buscar no outro o que não encontramos em nós, posto que revele nossa desesperadora condição de incompletude.

Agora temos um ego suprimido pelo superego e uma terceira instância psíquica a que Freud chama de Id, que equivale ao que Paulo chama de “carne”. Digamos que o superego seja aquele anjinho que nos estimular a fazer o que é certo, enquanto que o Id é o diabinho que nos instiga a fazer o que é errado. Caberá ao ego arbitrar entre as demandas do superego e do Id.

Devido à nossa condição pecaminosa, somos bem mais propensos a atender aos apelos do Id do que aos estímulos do superego. Queremos saciar os desejos de nossa carne a qualquer custo, mesmo que isso resulte na infelicidade de outros. Diferente das estrelas ao redor das quais orbitam os mais variados planetas, tornamo-nos buracos negros que sugam tudo ao seu redor.

A castração não foi suficiente para nos tornar seres humanos plenos. Quando muito, devemos a ela nossa introdução à adolescência espiritual. A plenitude de que tanto carecemos se encontra na graça revelada em Cristo. Ela nos liberta da opressão do superego e da contínua pressão do Id.

A circuncisão do coração nos oferece um estágio para além da castração. Tanto o ego, quanto o superego são destituídos e em seu lugar entronizamos respectivamente a Cristo e ao Espírito Santo. "Estou crucificado com Cristo", declara Paulo, "e já não vivo eu, mas Cristo vive em mim" (Gl.2:20). O eixo ao redor do qual gira nossa existência deixa de ser nosso eu para ser Cristo, e a voz da nossa consciência deixa de ser a voz inquisitiva da lei para ser a doce e encorajadora voz do Espírito Santo. Somente o Id segue ocupando o mesmo lugar, posto que a carne jamais se converte. Somente nos livramos das pulsões de nossa natureza pecaminosa quando recebermos novos corpos e Deus for tudo em todos (1 Co.15:28; Fp.3:21).

Mediante a castração, fomos levados à Árvore do Conhecimento do Bem do Mal, mas somente pela circuncisão do coração somos reconduzidos à Árvore da Vida.

A partir daí, em vez de enxergar nossa própria imagem (narcisismo), passamos a enxergar em nós mesmos a imagem de Cristo e a flagrante transformação patrocinada pelo Espírito da Liberdade (2 Co.3:18). Finalmente, com o coração circuncidado, deixamos de viver para nós mesmos. Como declara Paulo, “o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si” (2 Co.5:14-15). Este santo constrangimento não apenas afeta a maneira como enxergamos a nós mesmos, mas também a maneira como enxergamos o outro. Paulo complementa: “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne” (v.16). Em outras palavras, já não buscamos no outro nossa própria satisfação. O outro deixa de ser um mero item de nosso desejo, um sonho de consumo, e passa a ser visto e acolhido como alguém a quem devemos devotar despretensiosamente nosso amor. Pela graça tornamo-nos livres para amar tanto a Deus quanto a nosso próximo; não impulsionados pela culpa neurótica gerada pela lei (superego), mas pelo Espírito de Cristo; não pelo medo de sermos inadequados às expectativas dos outros, mas pelo prazer de encontrar na felicidade alheia a razão de nossa própria felicidade.

Pode-se dizer, então, que o ser concebido no ambiente uterino só alcançará a plenitude de sua humanidade ao ser regenerado, passando pela circuncisão de seu coração.

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Os animais são dotados de consciência?



Por Hermes C. Fernandes

Cada questão respondida nos conduz a uma nova questão. Ora, se os animais são dotados de alma/espírito como defendemos no último post, seriam eles igualmente dotados de consciência? Se a resposta for sim, teremos que repensar muita coisa do ponto de vista ético, principalmente no que diz respeito ao trato dispensado a eles, no uso deles como cobaias, no comércio de pele, na maneira como são mortos nos abatedouros, etc.

De acordo com o grupo Stop Animal Tests (Parem os testes em animais), 115 milhões de cobaias são mortas a cada ano só nos Estados Unidos. Cerca de 80% são ratos e coelhos. Na União Européia foram 12 milhões de animais mortos em laboratório em 2005. Segundo a PETA (People for Ethical Treatment of Animals - Pessoas pela Ética no Tratamento aos Animais), já houve casos de testes de drogas em ratos e chimpanzés que deram errado em pessoas. Foi o caso da talidomida, medicamento para enjoo na gravidez que resultou em 10 mil bebês com defeitos congênitos no mundo inteiro. Ora, se nem sempre funciona, por que insistem? Há alternativas? Sim. Em muitos casos, cobaias poderiam ser trocados por tecidos de animais já mortos e microorganismos. Simulações de computador e estudos com cultura de células seriam mais precisos, baratos e humanitários. Pode-se reduzir o número de animais usados - por exemplo, evitando duplicar os testes e usando apenas as espécies mais adequadas.

Se perguntarmos a um cientista que tortura animais porque ele faz isso, ele prontamente responderá: "por que os animais são como nós". Eles respondem aos mesmos estímulos. Seu organismo tem a mesma reação que o nosso. Pergunte ao mesmo cientista porque é moralmente aceitável fazer isso com um animal e não com um humano e a resposta será: "porque eles são diferentes de nós." Não haveria aqui uma contradição? Afinal, eles são iguais ou diferentes de nós? Obviamente que tais questões só são relevantes se comprovarmos que os animais possuem alguma consciência.

O que é consciência, afinal? A consciência é, entre outras definições, a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente. O que a Bíblia nos diz acerca disso? Teriam eles alguma consciência? Ou seriam movidos unicamente por instinto?

Deus dá testemunho de que o animal é um ser consciente:

“O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende.” Isaías 1:3

Para que o boi reconheça seu dono, ele deve ter algum tipo de consciência. O mesmo se dá com qualquer animal de estimação. Alguns, como por exemplo, os cães, além de consciência, parecem dotados de um sexto sentido, capaz de prever a chegada do seu dono muito antes de atravessar a porta de casa.

Talvez seja por ter a capacidade de reconhecer seu dono que o boi deve ser responsabilizado caso venha tirar a vida de alguém.

“Se um boi ferir um homem ou mulher e lhe causar a morte, o boi será apedrejado, e ninguém comerá da sua carne; o dono do boi será absolvido.” Êxodo 21:28

Vale lembrar que isso fora dito durante a regência da Antiga Aliança. A mesma Lei ordenava o apedrejamento de alguém flagrado em adultério. Não seria razoável executar um animal que não tivesse qualquer noção do que havia feito. Punição requer reconhecimento do erro. Concluímos, então, que este animal é dotado de alguma consciência. Ora, se a Lei era aplicada a um animal considerado de estimação (os bois eram considerados assim), por que a graça não seria igualmente aplicada? Ou será apenas o homem alvo da graça divina?

Os animais sentem dor, como nós. Ficam tristes, alegres, perdem o apetite, se apaixonam, se solidarizam, se apegam ao dono, e alguns até morrem deprimidos quando perdem a parceira. Que mais seria necessário a fim de comprovar serem dotados de consciência? Será necessário que falem? Pois a Bíblia narra um episódio em que Deus permitiu a uma jumenta que falasse e argumentasse com um profeta rebelde que a espancava sem razão.  Confira:

“Então o SENHOR abriu a boca da jumenta, a qual disse a Balaão: Que te fiz eu, que me espancaste estas três vezes? E Balaão disse à jumenta: Por que zombaste de mim; quem dera tivesse eu uma espada na mão, porque agora te mataria. E a jumenta disse a Balaão: Porventura não sou a tua jumenta, em que cavalgaste desde o tempo em que me tornei tua até hoje? Acaso tem sido o meu costume fazer assim contigo? E ele respondeu: Não.” 
Números 22:28-30

Imagine se Deus permitisse a todos os animais maltratados pelo homem o mesmo dom? Tal permissão foi dada àquele animal de carga para que se defendesse. Alguém ainda ousa dizer que eles não têm consciência? Ainda que não falem a nossa língua, eles têm sua maneira de se comunicar, tanto com os de sua própria espécie, quanto conosco. Cientistas tentam decifrar a linguagem altamente sofisticada usada pelos golfinhos. Até abelhas e formigas comunicam intensamente entre si. Graças à esta capacidade, colmeias e formigueiros formam duas das sociedades mais complexas encontradas na natureza. 

Surge, então, uma nova questão: Se tais seres têm alma e consciência, seriam eles alvo da graça divina para a salvação?  O conceito de salvação é muito amplo, e abrange, entre outras coisas, a preservação. Assim como no episódio do dilúvio, Deus preservou as espécies, cremos que Ele as preservará na nova terra.

E qual seria o escopo desta preservação? No caso dos humanos, Deus salva a indivíduos. E no caso dos animais, Ele preservaria indivíduos ou espécies? A resposta a esta pergunta fica no campo da especulação. Não há base bíblica para que afirmemos categoricamente, tampouco que neguemos tal possibilidade. Por isso, não ouso dogmatizar. 

Nosso planeta já passou por várias extinções em massa, algumas de proporções devastadoras, levando ao desaparecimento completo de inúmeras espécies. Tais extinções serviu a um propósito divino, pois eliminou o antigo grupo dominante, abrindo espaço para o surgimento e hegemonia de um novo grupo. Se os dinossauros não houvessem sido extintos, os mamíferos (dentre os quais somos incluídos) não se tornariam dominantes na Terra.

Sinceramente, não creio que a raça humana tenha convivido com eles, e nem que teremos que conviver com os dinossauros na eternidade. Se Deus salvasse a todas as espécies que já passaram pela Terra, precisaríamos de um espaço muito maior que possibilitasse o convívio entre elas. Quem sabe Ele esteja preparando algum lugar neste vasto Universo para elas? Em se tratando do Criador, não há o que duvidar. Poder não lhe falta.

Porém, creio que haja certo número de espécies destinadas a compartilhar do mesmo espaço que o ser humano. São nossas companheiras de jornada. Estas serão preservadas e desfrutarão da nova terra em nossa companhia.

Haveria salvação individual para os animais?

Ainda no campo da especulação, tenho a impressão que sim, que haverá salvação para aqueles que tiveram um laço profundo com seres humanos. Talvez Elias, o profeta, reveja os corvos usados por Deus para alimentá-lo durante a seca em Israel. Talvez Jesus reveja o jumento sobre o qual montou em Sua entrada triunfal em Jerusalém. 

Na parábola contada por Natã a Davi, um homem criou uma cordeira como se fosse sua filha. Ele a criou, e ela cresceu com ele e com seus filhos. Ela comia junto dele, bebia do seu copo e até dormia em seus braços. Era como uma filha para ele” (2 Sm.12:3).

Parece-me justo que um animal criado com tanto amor, seja restituído àquela família na restauração de todas as coisas. Penso que isso oferece um enorme consolo, principalmente às crianças, quando perdem um animalzinho de estimação.  E não encontro razão bíblica para que isso não aconteça. 

Se o Senhor os ama a ponto de dar-lhes o sustento, por que não os traria de volta para a alegria daqueles que igualmente os amava?

Não se trata de "salvação" no mesmo sentido aplicado aos homens, pois estes pecaram e foram destituídos da glória de Deus. Trata-se, porém, de restauração à sua condição original. 

Embora não ouse dogmatizar, celebro com alegria e esperança esta possibilidade.

sexta-feira, maio 22, 2015

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Haverá animais no céu?



Por Hermes C. Fernandes

Será que seremos a única espécie que desfrutará dos novos céus e da nova terra profetizados pelas Escrituras? O que será das inúmeras espécies animais e vegetais, frutos do gênio divino? Terá Deus criado todas elas apenas como figurantes da trama cujo protagonista é o ser humano? Recuso-me a crer nesta hipótese.

Se Deus não se importasse com os animais, por que os teria poupado no dilúvio?

Não somos melhores do que os bichos!

E não sou eu quem diz isso, mas o sábio Salomão:
“Disse eu no meu coração: Isso é por causa dos filhos dos homens, para que Deus possa prová-los, e eles possam ver que são em si mesmos como os animais. Porque o que acontece aos filhos dos homens, isso mesmo também acontece aos animais; a mesma coisa lhes acontece. Como morre um, assim morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego, e nenhuma vantagem têm os homens sobre os animais…” (Ec.3:18-19).
Alguém poderá objetar: Os seres humanos temos espírito, os animais não. Será? Então, Salomão errou ao dizer que não temos qualquer vantagem sobre eles. E veja o que ele diz mais:
“Todos vão para o mesmo lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão. Quem sabe se o espírito dos filhos dos homens vai para cima, e se o espírito dos animais desce pra terra?” (vv.20-21).
Então, os animais também têm espírito, certo? Corretíssimo! Pelo menos é o que acabamos de ler. O amor de Deus não se limita ao ser humano. Deus ama a todas as Suas criaturas, racionais e irracionais. Ele é quem “dá mantimento a toda a criatura, porque o seu amor dura para sempre” (Sl.136:25).

Davi entendia isso perfeitamente, e declara de maneira poética em seu salmo de número 104. Como que em êxtase, o rei salmista declara: “Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas. Há o mar, vasto e espaçoso, onde se movem seres inumeráveis, animais pequenos e grandes (…) Todos esperam de ti que lhe dê o seu sustento em tempo oportuno” (v.24-25,27). Até os leõezinhos “de Deus buscam o seu sustento” (v.21). Era como se Davi mergulhasse no fundo do oceano e se maravilhasse com o que visse ali.

Tive uma sensação de deslumbramento semelhante ao visitar o maior aquário do mundo no SeaWorld em Orlando. É de cair o queixo! Foi deveras emocionante poder tocar nos golfinhos, assistir aos espetáculos com as baleias, adentrar o ambiente artificial reproduzindo o ártico e ver onde descansa o urso polar, assistir ao balé dos pinguins como no filme Happy Feet. Minha mulher e eu fomos literalmente às lágrimas. Disse aos meus filhos que aquele entrosamento entre o homem e os animais era uma amostra grátis do que será na Terra restaurada.

Seria um desperdício enorme de espaço se somente nós, humanos, habitássemos a Nova Criação. Engana-se quem pensa que nosso destino final será vivermos num céu etéreo, como fantasminhas angelicais tocando suas harpas. Não! Seremos seres humanos completos, dotados de todas as nossas faculdades originais.

A hostilidade que o reino animal nutre contra o homem se deve ao pecado. Deixamos de ser os guardiões do jardim de Deus para sermos sua maior ameaça. Toda a natureza geme na expectativa de ser libertada do cativeiro imposto pela vaidade humana. Quando os filhos de Deus se manifestarem, a natureza será finalmente livre (Rom.8). A Terra não caminha para uma catástrofe final, mas para a libertação. Quando isso ocorrer, a hostilidade terminará, e o homem voltará a integrar-se à criação.

Enquanto não chega o grande dia, devemos zelar pela vida de todos os seres com os quais compartilhamos a Terra. Deus no-los confiou. Tanto os selvagens quanto os domésticos.

Hoje, depois de minha caminhada diária, parei à margem de um lago para fotografar alguns animais (tartarugas, pássaros e patos). Recentemente descobri este novo hobby: fotografar a natureza. Um rapaz americano chamado John me abordou. Ele estava acompanhado de um cão branco a quem chamava carinhosamente de pig (porco). Conversa vai, conversa vem… ele me contou de um acidente automobilístico que sofreu há dois anos, me disse que perdera seus amigos, e que estava perdendo sua casa (por sinal, uma linda casa à beira do lago). A única coisa que lhe restara era seu cão. Mas pra completar seu sofrimento, seu cão, agora com doze anos, estava prestes a morrer. Teria que gastar 8 mil dólares para tentar salvar-lhe a vida numa cirurgia. Por estar financeiramente quebrado, não lhe restou alternativa senão deixá-lo partir. 

Embora não fosse cristão, e de ter-me confidenciado sua ojeriza a religião, John demonstrava um grande amor por seu bicho. O que me remete ao que diz Salomão: “O justo olha pela vida dos seus animais” (Pv.12:10a). Desejei do fundo d’alma que Deus restaurasse a saúde daquele animal. Lembrei-me de Franscisco de Assis que tinha o hábito de orar pelos animais.

Recentemente o SeaWorld foi cenário de uma tragédia envolvendo uma Orca e sua treinadora. Apesar do entrosamento entre eles, a treinadora veio a falecer afogada, depois de ter sido arremessada pelos cabelos num ato aparentemente de fúria do animal.

A AFA (American Family Association), criada pelo reverendo Donald Wildmon defendeu o apedrejamento até a morte da orca. A influente entidade cristã cita passagens da Bíblia para justificar a morte do animal, cuja carne, diz, não deve ser consumida por ninguém. Organizações de defesa de animais de todo mundo reagiram à proposta do apedrejamento. Se depender da AFA, até o proprietário do parque aquático deve ser morto a pedradas, também de acordo com o que manda a Bíblia, argumenta a entidade.

Este é um tipo de fundamentalismo que deve ser rechaçado por cristãos conscientes, que entendem que vivemos sob a égide da Graça e não da Lei.

Uma das mais impressionantes imagens pintadas no livro de Apocalipse está registrada no capítulo 5, do verso 11 ao 14:
“Então olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos seres viventes, e dos anciãos; e o número deles era milhões de milhões e milhares de milhares, proclamando com grande voz: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor. Então ouvi a TODA CRIATURA QUE ESTÁ NO CÉU, E NA TERRA, E DEBAIXO DA TERRA, E NO MAR, e a todas as coisas que neles há, dizerem: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo sempre. E os quatro seres viventes diziam: Amém. E os anciãos prostraram-se e adoraram.” 
Repare a forma como o céu e a terra são apresentados unindo-se para formar um enorme coral em adoração ao Cordeiro. Gradativamente, todas as coisas vão sujeitando-se a Cristo. Não só as invisíveis, mas também as visíveis, não só as pertencentes ao mundo espiritual (anjos, querubins e cia), mas também as do mundo animal.

Aos poucos o caos vai se tornando em harmonia; o barulho se transforma numa fenomenal orquestra! Cada evento vai encontrando o seu lugar na majestosa sinfonia composta pelo Cordeiro. Nada fica de fora de escopo desta restauração! O reino animal, o reino vegetal, e o reino mineral se unem para saudar o Rei dos Reis.

No capítulo anterior, João diz que viu um trono, e Alguém assentado sobre ele, e “ao redor do trono havia um arco-íris” (4:3). Este arco-íris nos remete ao episódio em que Deus fez uma aliança com Noé, e estabeleceu o arco-íris como símbolo dessa aliança. O que poucos observam é que aquela aliança de preservação não se limita ao ser humano, mas abrange toda a criação. Assim afirmou o Senhor: “Agora estabeleço a minha aliança convosco e com a vossa descendência depois de vós, e com TODOS OS SERES VIVENTES que convosco estão; assim as aves, os animais domésticos e os animais selvagens que saíram da arca, como todos os animais da terra (...) Este é o sinal da aliança que ponho entre mim e vós e entre todos os seres viventes que estão convosco, POR GERAÇÕES PERPÉTUAS; O meu arco tenho posto nas nuvens, e ele será por sinal de haver uma aliança entre mim e a terra (...) O arco estará nas nuvens, e eu o verei, para me lembrar da ALIANÇA ETERNA entre Deus e todos os seres viventes de todas as espécies, que estão sobre a terra” (Gn.9:9-10,12-13,16).

Esta aliança jamais vai caducar. Não tem prazo de validade a ser vencido. Por ser eterna, ela não perdeu a validade com o lançamento da Nova Aliança, antes foi confirmada. Oséias, profetizando acerca da Nova Aliança, disse: “Naquele dia farei por eles aliança com os animais do campo, com as aves do céu e com os répteis da terra” (2:18). A Nova Aliança diz respeito à salvação do homem, e, por conseguinte, à restauração da ordem criada. O coral só estará completo quando as vozes angelicais, e as vozes humanas unirem-se às vozes de toda criatura, incluindo os pássaros, os répteis, os mamíferos e os peixes."Tudo o que tem fôlego louve ao Senhor!" (Sl.150:6).

quinta-feira, maio 21, 2015

5

Na presença dos deuses: A pregação do Evangelho e a intolerância religiosa


Por Hermes C. Fernandes

Recentemente, a Rede Record ligada à Igreja Universal foi condenada pela justiça a ceder quatro horas de sua grade à exibição do direito de resposta de entidades ligadas à umbanda e ao candomblé devido às ofensas proferidas contra as religiões afro-brasileiras em sua programação. A decisão inédita da justiça trouxe a questão da intolerância religiosa para o centro das atenções.

O juiz responsável pela sentença citou algumas passagens da Constituição Federal, afirmando que o Estado deve garantir a todos “o pleno exercício dos direitos culturais, protegendo as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras” e “em caso de ofensa, é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo”.

O episódio suscitou debates calorosos nas redes sociais. Mesmo para alguns que não nutrem qualquer simpatia pelo trabalho da IURD, seria impossível pregar o evangelho sem confrontar outras expressões religiosas, ainda que isso não signifique sair por aí destruindo imagens, invadindo centros espíritas e agredindo física ou verbalmente quem quer que seja. Para quem pensa assim, o discurso evangélico em si já implicaria numa espécie de confronto. Afinal, se o nosso Deus é o verdadeiro, os demais só poderiam ser falsos. Seria esta a única abordagem possível?

Pode-se anunciar o evangelho sem atacar a religiosidade alheia?

Creio, piamente, que sim.

O problema é que estamos usando como abordagem evangelística a mesma usada por Israel em suas investidas militares. Com isso, mesmo que inconscientemente, reduzimos o nosso Deus a uma divindade tribal que deve ter sua primazia garantida pela destruição de qualquer outra entidade rival. Diferentemente das nações daquela época, vivemos sob a égide de um estado laico, em que o credo professado por cada cidadão deve ser respeitado.

Em vez de nos espelharmos em Jesus, temos tomado o profeta Elias como referência, incorrendo no mesmo erro dos discípulos ao sugerirem que se orasse para que Deus enviasse fogo do céu e consumisse os que se interpunham ao avanço da boa nova. A resposta dada por Jesus deveria ecoar continuamente a cada nova geração de cristãos: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lc.9:55-56).

Se tivéssemos que buscar referências no Antigo Testamento, ninguém seria mais indicado do que Daniel e seus amigos Sadraque, Mesaque e Abede-nego. Apesar de não se dobraram à idolatria vigente na Babilônia, também não atacaram a religiosidade alheia.  Portanto, não se pode ignorar a possibilidade de que convivamos amistosamente sem com isso violar nossa consciência.

Se vivesse em nossos dias, Daniel certamente seria acusado por muitos cristãos de ser ecumênico. Ele não apenas coexistia pacificamente com indivíduos que cultuavam a outros deuses, como foi promovido pelo rei como mestre dos magos (Dn.5:11). Todavia, em momento algum, comeu dos manjares oferecidos a tais ídolos, nem se prostrou ante a eles, mas manteve-se fiel à sua fé e à sua consciência.

Apesar de jamais tentar converter o rei da Babilônia ou a sua corte, Daniel teve o prazer de ouvi-lo declarar: Certamente o vosso Deus é Deus dos deuses, e o Senhor dos reis e revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério” (Daniel 2:47).

A expressão “Deus dos deuses” parece indicar a possibilidade de uma espiritualidade plural e diversificada. Admitir que o Deus a quem Daniel servia estava acima de qualquer outra divindade cultuada naquela sociedade era, sem dúvida, um grande salto. O salmista parece ter expressado o mesmo ideal ao declarar: “Eu te louvarei, de todo o meu coração; na presença dos deuses a ti cantarei louvores” (Salmos 138:1). Ora, se eliminarmos qualquer culto e espiritualidade que divirja da nossa, como poderemos oferecer nossos louvores a Cristo na presença dos deuses?

Para muitos cristãos, o ideal seria viver numa sociedade uniformizada, onde a fé numa única divindade fosse imposta por lei. Imagine o que seria viver numa espécie de Talibã evangélico. Durante séculos foi assim, desde que Constantino anunciou sua conversão ao cristianismo, tornando-o religião oficial do Império Romano. Nações inteiras foram coagidas à conversão. E foi assim que a revolução de amor proposta por Jesus se transformou em religião estatal.

Qualquer abordagem que não se paute no respeito deveria ser descartada. Antes de atacar qualquer expressão religiosa, deveríamos nos lembrar de que alguns dos que deram boas vindas ao recém-nascido Jesus não eram judeus devotos do Deus de Abraão, mas magos, expoentes de uma espiritualidade que poderia ser considerada, no mínimo, exótica. Ademais, depois de sermos duramente perseguidos por séculos, deveríamos ser complacentes com os que sofrem perseguição por causa de sua opção religiosa. De acordo com Jesus, não seríamos reconhecidos como Seus discípulos devido ao nosso radicalismo, mas por amarmos uns aos outros (Jo.13:35).

Todavia, a questão nevrálgica parece perdurar: como anunciar a verdade do evangelho sem confrontar o que consideramos engano, ou, na melhor das hipóteses, superstição?

Primeiro, precisamos mudar alguns paradigmas. Cristo não comissionou Seus discípulos a converter o mundo à sua fé. Tal tarefa é atribuição exclusiva do Espírito Santo (Jo.16:8). Nosso papel como cristãos é tão-somente o de dar testemunho, sendo uma espécie de amostra grátis do que o evangelho é capaz de produzir no ser humano. Um "evangelho" que produza gente intolerante não me parece muito promissor, concorda?

De fato, Jesus ordenou a Seus seguidores que saíssem pelo mundo fazendo discípulos (Mt.28:19).  Ele disse “discípulos”, não “prosélitos”. Há uma linha tênue entre discipular e fazer proselitismo.  Quem discípula tem o objetivo de partilhar o que recebeu de seu mestre. Quem faz proselitismo tem como alvo duplicar a si mesmo, fazendo com que o outro abrace suas ideias, seus valores, seus preconceitos e pressupostos, e até seus trejeitos. O discipulado respeita a alteridade. O proselitismo, não. O discipulado costuma ser discreto, sutil. O proselitismo é, por natureza, panfletário e ostensivo. Repare no que Jesus diz acerca dos seguidores de uma das seitas mais sectárias de Seu tempo:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós. Mateus 23:15

A proposta de Jesus estava na contramão de tudo isso.  Não precisamos percorrer o mundo para nos duplicarmos. Basta que comuniquemos a mensagem do reino de Deus de maneira discreta através de nossa vida, sem imposição, sem querer exercer controle, sem a presunção de sermos donos da verdade. Como disse São Francisco de Assis: “Pregue o evangelho em todo o tempo, e, se necessário, use as palavras.”

Obviamente que almejamos ver as pessoas convertidas a Cristo. Mas isso não se dará mediante o uso de estratégias mirabolantes (para não dizer, mal intencionadas). Paulo chama-nos a atenção para a abordagem “evangelística” usada em Tessalônica:

“Porque eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos para convosco, e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro (...)  Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade quiséramos comunicar-vos, não somente o evangelho de Deus, mas ainda as nossas próprias almas; porquanto nos éreis muito queridos..” 1 Tessalonicenses 1:9; 2:8

Se alguém nos é querido, certamente desejaremos a sua conversão ao evangelho, tendo em vista o bem que a boa nova produziu em nosso ser. Como amar a alguém sem desejar que seja igualmente alcançado por aquilo que tão bem nos fez? Porém, nossa “entrada” (abordagem) deve ser cheia de afeição, não de acusação. Antes do discurso, devemos comunicar nossa própria alma. Antes que ele se converta a Cristo, nós nos convertemos a ele, buscando compreender seus anseios, sua cosmovisão, suas limitações e sua fé.

E, se porventura, a conversão almejada jamais ocorrer, não deixaremos de amá-lo. Lembrando de que amar implica necessariamente respeitar.

Particularmente, creio numa eventual conversão de todas as nações. Pelo menos, é isso que lemos nos Salmos 22:27 e 86:9, e em Apocalipse 15:4. Todavia, não almejo que o cristianismo se torne numa religião imposta pelo estado ou por qualquer outro meio de coerção. Para ser franco, creio que o cristianismo como conhecemos esteja fadado a desaparecer e que a mensagem de Jesus sobreviverá ao seu ocaso. Engana-se quem julga que o cristianismo é a religião iniciada por Jesus. Em vez disso, ele foi criado para promover a coesão de um império em franca decadência. Jesus jamais criou qualquer “ismo”. A igreja, por sua vez, nada mais é do que o embrião de uma nova humanidade, composta de indivíduos que se converteram a Deus, convertendo-se uns aos outros. Neste sentido, a igreja de Cristo é eterna. Mas a religião cristã, não. Dogmas serão desacreditados. Ritos cairão em desuso. Estratégias evangelísticas caducarão. Mas o poder subversivo da mensagem de Jesus nos acompanhará por todas as eras até que os povos convertam “suas espadas em arado, e suas lanças em foices”, de modo que jamais haja nação que se levante contra outra nação (Is.2:4). Os pais se converterão aos filhos, e os filhos aos pais, de sorte que o abismo entre gerações terá sido aterrado para sempre (Lc.1:17).


terça-feira, maio 19, 2015

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A banalização do sagrado e a santificação do profano



Por Hermes C. Fernandes

Qual deveria ser a motivação correta para a busca da santificação? Para muitos, tem sido o medo; medo do inferno, do diabo, de perder a salvação, e por aí vai. Outros julgam acumular méritos diante de Deus. Para estes, a santificação é uma moeda de troca. Se me santifico, posso cobrar de Deus o que quiser.  Isto está mais para santiforçação. Santificar-se sobre tais bases equivale a construir sobre a areia movediça. A qualquer momento, tudo desaba.

A única motivação válida e aceita por Deus é o amor. Não nos santificamos por nós mesmos, visando algum benefício próprio, mas pelos outros.

Em Sua oração sacerdotal, Jesus rogou:

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade.” João 17:17-19

O mais santo dentre os homens, mesmo sendo Deus encarnado, precisou santificar-se. Não por Si mesmo, mas visando o bem dos que Lhe foram confiados pelo Pai. Devemos, portanto, seguir os Seus passos e buscar a santificação que visa o bem comum. Paulo expressa seu desejo de que o Senhor nos aumentasse, e nos fizesse “crescer em amor uns para com os outros, e para com todos”, para que assim, nos tornássemos “irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai” (1 Ts.3:12-13). Nosso amor não deve ser direcionado exclusivamente ao grupo a que pertencemos. Pelo contrário, deve ser inclusivo. Ninguém deve ficar de fora de seu alcance. Somente assim alcançaremos o padrão de santidade esperado.

Se a motivação para a santificação deve ser o amor, o resultado dela deve ser a justiça. Não custa lembrar que justiça é dar a cada um o que lhe é de direito. Quando reconhecemos o lugar do outro, sem cobiçá-lo ou invejá-lo, mas estimulando-o a ocupá-lo plenamente, estamos pavimentando o caminho para a prática da justiça do reino de Deus. Na mesma epístola em que Paulo fala sobre crescer em amor para com todos, ele também diz:

“Vede que ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui sempre o bem, uns para com os outros, e para com todos (...) Abstende-vos de toda espécie de mal. E o próprio Deus de paz vos santifique completamente.”  1 Tessalonicenses 5:15, 23a

Como amar sem se dispor a beneficiar a quem se ama? Como amar sem ser justo? Sem seguir o bem, uns para com os outros e para com todos? Tornamo-nos irrepreensíveis em santidade quando amamos indistintamente. Mas, somos santificados completamente quando promovemos a justiça indistintamente. Amar sem praticar a justiça é como encher o tanque do carro para deixá-lo na garagem. 

Não basta ter disposição para fazer o bem. Há que se ter disponibilidade para tal. Os membros de nosso corpo, antes oferecidos como instrumentos de iniquidade (injustiça), apresentados “à maldade para maldade”, agora devem ser apresentados para “servirem à justiça para santificação” (Rm.6:19). Tiramos nossas ferramentas do almoxarifado da iniquidade para disponibilizá-las no balcão da justiça. 

Servir à justiça é levantar as mãos cansadas, os joelhos vacilantes, e fazer veredas direitas para os pés, “para que o é manco não se desvie, antes seja curado”. E assim, seguimos “a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb.12:12-14). 

Somos facilitadores. Em vez de dificultar o acesso, preferimos facilitar. Somos chamados a ser pacificadores, não agitadores. Buscamos e promovemos a paz. Todavia, a paz só é possível se precedida pela justiça. E a justiça só se estabelece quando precedida pelo amor. De trás para frente: o amor produz a justiça, e justiça produz a paz, e ambos pavimentam o caminho da santificação. 

O mundo é um terreno acidentado, cheio de montanhas e vales, altos e baixos. O plano de Deus é aplainar, endireitar e nivelar este terreno. Quando finalmente a justiça for estabelecida, não haverá mais ricos e pobres, grandes  e pequenos, dominantes e dominados; logo, não haverá luta de classes, nem injustiça social. Como profetizou Isaías: "Todo vale será exaltado, e todo o monte e todo outeiro será abatido, e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará. E a glória do Senhor se manifestará, e toda a humanidade a verá, pois a boca do Senhor o disse" (Is.40:4-5). Era com isso em mente que Jesus disse que sem a paz que é resultado da justiça e a santificação resultante do amor, ninguém verá o Senhor. O terreno precisa ser nivelado para que todos O vejam. Não se trata aqui daquela visão que teremos d'Ele no último dia, mas de discerni-lO no dia-a-dia, de enxergá-lO principalmente no outro, tanto no semelhante quanto no diferente, tanto no próximo quanto no distante. Para isso, temos que aplainar o caminho, remover as pedras, facilitar o acesso. "Passai, passai pelas portas; preparai o caminho ao povo; aplanai, aplanai a estrada, limpai-a das pedras" (Is.62:10). Como diz a  canção de Roberto Carlos cantada pelos Titãs: "Toda pedra do caminho você pode retirar. Numa flor que tem espinhos, você se arranhar. Se o bem e o mal existem, você pode escolher. É preciso saber viver."

Cumprir-se-á, então, o que fora profetizado por Isaías:

“E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão.
Isaías 35:8

O imundo é o que insiste em atribuir profanidade à vida. É aquele cuja consciência não foi devidamente purificada. Afinal, tudo é puro para os que são puros, mas para os corrompidos e incrédulos nada é puro; antes tanto a sua mente como a sua consciência estão contaminadas” (Tt.1:15). O imundo não consegue discernir a santidade intrínseca da vida do outro. Ele a profana, a banaliza. Por isso, não consegue tratá-lo com justiça. A vida do outro nada vale. Portanto, que direito ele teria?

Uma vez mais, Paulo nos admoesta:

“Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus. Recebei-nos em vossos corações; a ninguém fizemos injustiça, a ninguém corrompemos, a ninguém exploramos.”  2 Coríntios 7:1-2

Da mesma maneira como devemos santificar a Cristo como Senhor em nossos corações, também devemos receber qualquer ser humano em nossos corações, garantindo-lhe cadeira cativa. Aos olhos de quem ama, todos são santos. Por isso é inadmissível que se faça injustiça a qualquer ser humano, ou que procuremos corrompê-lo ou explorá-lo visando nosso proveito próprio.

Ninguém deve ser reputado por banal, profano, comum, impuro. Como disse Jesus a Pedro: “Não chame impuro ao que Deus purificou” (At.10:15). Os europeus se acharam no direito de explorar os índios porque não conseguiam enxergar a sacralidade de suas vidas. O mesmo se deu com os negros feitos escravos. E com as mulheres ao longo de séculos. Elas nem sequer eram contadas nos censos. Visando corrigir isso, Pedro orienta aos maridos a tratarem suas respectivas esposas com honra, reconhecendo sua fragilidade, e vendo-as como co-herdeiras do dom da graça e da vida. Como se não bastasse, o apóstolo ameaça aos trogloditas de que suas orações não serão ouvidas, caso se neguem a atribuir à mulher o seu devido valor (1 Pe. 3:7). Leis como a “Maria da Penha” é uma tentativa de se resgatar o valor e a sacralidade da mulher. Documentos como o Estatuto da Criança e do Adolescente visam resgatar a sacralidade original da vida infantil. O trabalho infantil profana a mais bela das idades.

Quem percebe a santidade inerente da vida, recusa-se a usar quem quer que seja visando seus interesses. Usar alguém é coisificá-lo, vendo-o como um objeto que mais tarde poderá ser descartado. Quem assim age, atenta contra a sacralidade da vida, banalizando-a, profanando-a, aviltando-a.

Foi neste contexto que Paulo diz que a vontade de Deus é a nossa santificação, e que, portanto, devemos nos abster da fornicação (1 Ts.4:3). Engana-se quem pensa que fornicação seja sinônimo de sexo entre solteiros. O termo grego é “pornéia” que, em linhas gerais, significa impureza sexual, que pode ser claramente identificada como a coisificação do sexo. Mesmo casados podem estar fornicando quando se usam mutuamente na busca por prazer, sem considerar o sentimento e o prazer do outro.  Paulo arremata: “que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra; não na paixão da concupiscência, como os gentios, que não conhecem a Deus. Ninguém oprima ou engane a seu irmão em negócio algum, porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos. Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação” (vv. 4-7). A questão não é o sexo em si, mas usá-lo com objetivo torpe de oprimir, enganar, lesar, tirar vantagem. Outras ferramentas além do sexo podem ser perfeitamente usadas para o mesmo intento.

Em Efésios 4:23-28, Paulo nos abre mais o leque:

 “E vos renoveis no espírito da vossa mente; e vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade. Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros. Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo. Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade.” Efésios 4:23-28

Definitivamente, a mentira e o furto não combinam com o nosso novo ser, recriado de acordo com a imagem de Deus, em justiça e santidade.  Como poderíamos enganar a alguém sem que profanássemos a santidade das relações humanas? Como poderíamos lesá-lo sem antes lesarmos nossa própria consciência? Antes, preferimos a verdade ao engano, ainda que nos traga prejuízo. Arregaçamos as mangas e trabalhamos com o objetivo de termos o suficiente para repartir com o que nada tem. Dar lugar ao diabo nada mais é cometer o sacrilégio de permitir sua intromissão em nossas relações. 

Que seja o propósito de nosso coração que, “libertados da mão de nossos inimigos”, sirvamos a Deus sem temor, “em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa vida” (Lc.1:75). Que o inimigo de nossas almas jamais encontre espaço para profanar a santidade de nossa existência. Que deixemos de enxergar a vida sob a ótica do diabo (etimologicamente, aquele que divide, que compartimentaliza, que segrega), e passemos a enxergá-la da ótica divina, integrada, inteira, santa e repleta de sentido. 

* Caso não tenha lido os dois posts anteriores, sugiro que não deixe de lê-los para uma melhor compreensão do tema. 

segunda-feira, maio 18, 2015

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Santificação, individuação e autenticidade


Por Hermes C. Fernandes

A indústria religiosa patenteou o processo de padronização comportamental em série, nomeando-o dolosamente de santificação. O instrumento usado na produção de crentes em grande escala atende pelo nome de discipulado. Cada novo discípulo é conclamado a reproduzir-se, formando outros que sejam sua réplica. Assim, o que chamamos de discipulado está mais para clonagem.

Definitivamente, santificação nada tem a ver com a produção de soldadinhos de chumbo. O processo de santificação está estreitamente ligado ao de individuação.

Pedro nos insta a que cheguemos a Cristo, “pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas, para com Deus eleita e preciosa”. Semelhantemente, tornamo-nos “pedras vivas, edificados como casa espiritual”, para sermos “sacerdócio santo”, a fim de oferecermos “sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pe. 2:4-5).

Esta não é a única vez em que encontramos esta analogia nas páginas do Novo Testamento. Portanto, seus leitores provavelmente estavam familiarizados com ela, e compreendiam que o novo templo erigido por Deus era composto de gente e não de tijolos inanimados.  Bastava que Pedro se referisse a cada um de nós como “pedras” ou “tijolos”. Porém, ele, deliberadamente, acrescenta o adjetivo “viva”.  Não somos apenas pedras, mas pedras vivas. Qual a razão de ele ter acrescido o adjetivo?

Tudo o que vive está em constante movimento. Não se trata de algo estático, mas dinâmico, em contínua evolução e maturação. Assim somos nós. Nosso maior exemplo é Cristo, que sendo Deus, esvaziou-Se completamente,  para  submeter-Se ao processo de maturação. O escritor de Hebreus nos afiança que Ele, mesmo sendo Filho, “aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu; e, tendo sido aperfeiçoado, veio a ser o autor de eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb.5:8-9).

Todos igualmente estamos envolvidos neste processo de aperfeiçoamento, que deve durar “até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados ao redor por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor” (Ef.4:13-16).

Como tijolos vivos somos devidamente assentados numa das paredes do santuário de Deus. Portanto, não somos mais tijolos soltos, vulneráveis e suscetíveis a qualquer vento. Todavia, depois de assentados, não deixamos de crescer. Trata-se do processo de individuação, a que Paulo chamou de “chegar à estatura de homem perfeito”, ou, homem completo, maduro. Deixamos de ser meramente pessoas para ser plenamente indivíduos. O termo “indivíduo” quer dizer indivisível, inteiro, íntegro.

Uma das características deste processo de individuação é a autenticidade.

Pedro diz que Cristo, como pedra viva e preciosa para Deus, sofreu a rejeição dos homens. O preço da autenticidade é ser rejeitado pelos padrões vigentes no mundo. Por não nos dobrarmos à padronização, somos tidos por rebeldes, insurgentes, seres exóticos que devem ser empurrados para as margens da sociedade.

Já não somos definidos pelos papéis sociais que desempenhamos, nem pelo status que alcançamos, ou por qualquer outra coisa. O que somos deriva-se do que Ele é.  É de nossa relação com Ele e do lugar que ocupamos em Seu propósito que advém o significado de nossa existência.

Ao ser enviado por Deus para retirar o Seu povo da escravidão do Egito, Moisés perguntou-o: O que direi a eles? Em nome de que Deus me apresentarei?  “Respondeu Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êx. 3:14).

As divindades egípcias eram conhecidas por seus nomes. Mas o Deus de Israel não poderia ser definido pela junção e pronúncia de alguns fonemas produzidos por lábios humanos. Para além de todas as definições, Ele é o que é. Por isso, Deus proibiu que Lhe fizessem imagens. Por mais talentoso que fosse o artista, ele seria incapaz de representar o Deus Criador dos céus e da terra numa escultura.

Este mesmo Deus ordenou que fôssemos santos, porque Ele é santo. Portanto, não devemos nos deixar definir por coisa alguma, senão pela graça que nos foi concedida por este Deus. É esta graça que possibilita ao homem mortal relacionar-se com o Deus Eterno e que deveria pautar nossa relação com o restante da criação. Com isso em vista, Paulo declara:

“Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo.” 1 Coríntios 15:10

O que faço não me define, mas revela quem sou. Ainda que eu faça mais do que todos os que vieram antes de mim, devo creditar o meu desempenho à graça, pois ela que verdadeiramente define quem sou.  O que faço, faço porque sou. Mas não sou o que sou pelo que eu faço. Apenas cumpro o propósito de minha existência.

A santificação coloca cada coisa em seu devido lugar. Os fatores são devidamente ordenados para que não alterem o produto.  A santificação realinha o significado de cada coisa, e nos faz vê-la em perspectiva.

Havia uma discussão entre os religiosos dos tempos de Jesus em torno do que seria mais importante, o ouro ou o templo, a oferta ou o altar. Jesus colocou as coisas na perspectiva correta:

“Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o templo, que santifica o ouro? E aquele que jurar pelo altar isso nada é; mas aquele que jurar pela oferta que está sobre o altar, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar, que santifica a oferta? Portanto, o que jurar pelo altar, jura por ele e por tudo o que sobre ele está; e, o que jurar pelo templo, jura por ele e por aquele que nele habita; e, o que jurar pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que está assentado nele.” Mateus 23:16-22

Em outras palavras, o todo é que santifica as partes e não vice-versa. A oferta é santificada pelo altar onde foi depositada. Fora do altar, ela deixa de ser oferta, isto é, perde o seu significado como tal, e passa a ser apenas dinheiro.

Como indivíduos, nosso significado advém de nossa relação com o todo. Não confunda individuação com individualismo. Nossa relação com o todo é sinérgica e recíproca. Assim como o todo santifica as partes, as partes devem atribuir santidade ao todo e reconhecer a santidade de cada parte individualmente. 

Não se trata de atribuir significado pela função que desempenha, e sim pela relação que se tem.  Ser pai, por exemplo, agrega significado à nossa vida. É muito mais do que, simplesmente, um papel social.

Uma mão deve seu significado à relação que tem com o resto do corpo. Ainda que, eventualmente, ela fique imobilizada, não deixará de ser o que é.

Nossa relação abarca ao mesmo tempo, o todo e as demais partes de per si, independente da função desempenhada. Pois assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente uns dos outros” (Rm. 12:4-5). Repare no detalhe: somos membros do corpo, mas individualmente membros uns dos outros. Não se pode santificar o todo e desprezar as partes.

Não se trata apenas de ter consciência de sua existência e significado, mas também de se ver como parte de uma rede de cuidado mútuo. O que ocorre num extremo da rede, afeta o outro extremo. Estamos todos conectados.  Por isso, “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Co.12:26).

Somente poderemos oferecer e receber cuidado se admitirmos nossa interdependência. De sorte que “o olho não pode dizer à mão: não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: não tenho necessidade de vós” (1 Co.12:21). Todos, invariavelmente, dependemos uns dos outros. E esta interdependência nos faz santificar uns aos outros, honrando-os, isto é, atribuindo-lhes significado especial e intransferível.

Retomando a analogia do santuário: somos pedras vivas posicionadas em seu próprio lugar nas paredes do templo, e, assim, coletivamente, tornamo-nos habitação de Deus. Ninguém é habitação de Deus em seu isolamento. Carecemos da relação com o todo. Nem tudo o que somos em conjunto, somos em particular.

Paulo diz que “todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito” (Ef. 2:21-22).

Muitos alegam terem deixado de congregar por serem eles mesmos o templo de Deus. Estes parecem ignorar a advertência bíblica de que “aquele que vive isolado busca seu próprio desejo; insurge-se contra a verdadeira sabedoria” (Pv.18:1).

A santificação visa nos preparar para a comunhão. Somos indivíduos aprendendo a nos relacionar com outros indivíduos, atribuindo-lhes significado, e respeitando e honrando seu próprio lugar no Todo. A santificação, portanto, é um processo que começa na individuação e culmina na comunhão.

Cada pedra viva é formada (individuação), depois encaixada em seu lugar (significação), e, finalmente, emboçada (comunhão). Todas as pedras juntas, unidas em amor, suportando umas às outras, formam o templo do Deus vivo. Todavia, nossa individualidade é mantida. Somos absorvidos pelo Todo, mas jamais dissolvidosPor trás da camada de massa que cobre a parede ainda há tijolos assentados cuidadosamente uns sobre os outros.

Qualquer proposta de espiritualidade que promova a diluição do ser não deveria nem sequer se levada a sério. Tudo neste mundo parece conspirar para que o indivíduo perca sua identidade e passe a agir de acordo com decisões tomadas por outros. E é assim que certos grupos se perpetuam no poder.

Quando se perde a individualidade, deixando-se diluir, a pessoa é capaz de fazer coisas que jamais faria em sã consciência. É como se seu senso crítico ficasse em suspensão por um tempo. Fazem o que der na telha. Paulo nos adverte a não andarmos “como andam também os outros gentios, na vaidade da sua mente. Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração; os quais, havendo perdido todo o sentimento, se entregaram à dissolução, para com avidez cometerem toda a impureza” (Ef.4:17-19). A palavra chave desta passagem é dissolução, de onde vem o verbo dissolver. Nossos sentimentos são anulados. Nosso juízo é posto de lado. Agimos como que por instinto, mas, na verdade, apenas nos sujeitamos a uma consciência coletiva temporária.

Lemos em Êxodo 23:2 a admoestação que diz: Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda darás testemunho, acompanhando a maioria, para perverteres a justiça.” Jamais permitamos que pensem e decidam por nós, por mais cômodo que isso pareça ser.  Cada qual terá que responder diante de Deus por suas próprias escolhas. 

Esperar dissolução por parte dos que não conhecem a Deus pode parecer natural. O problema toma outra proporção quando os que se dizem porta-vozes da graça de Deus são os promotores da dissolução. Há que se redobrar o cuidado para que não sejamos enganados pela falsa espiritualidade dos tais. Desde os primórdios, a igreja tem tido que lidar com isso. Por isso, Judas denuncia os que se infiltram na igreja, e “convertem em dissolução a graça de nosso Deus” (Jd.1:4).

Nada mais contraditório do que usar a graça como pretexto para manipular as massas, levando indivíduos a abrir mão de sua individualidade, deixando-se dissolver.

Sejamos, portanto, sóbrios e atentos para que ninguém fale em nosso nome, usando-nos inescrupulosamente para atingirem alvos inconfessáveis. Comunhão, sim. Manipulação, jamais. Santificação, sim. Dissolução, jamais. 


* Caso não tenha lido ainda, leia o artigo anterior a este para uma melhor compreensão do tema. Em breve postarei a última parte desta reflexão.