terça-feira, setembro 02, 2014

17

A Igreja "Under The Dome"



Por Hermes C. Fernandes


Under the Dome é uma série americana de ficção científicamistério e terror, desenvolvida por Brian K. Vaughan e baseada no romance homônimo ("Sob a Redoma", no Brasil) de Stephen King, tem a produção de ninguém menos que Steven Spielberg .

Ambientada em um futuro próximo, Under the Dome conta a história dos moradores da pequena cidade de Chester's Mill, que, de repente, se encontram isolados do resto do mundo por uma misteriosa barreira impenetrável que rodeia a cidade. Como a cidade começa a se desfazer através de pânico, um pequeno grupo de pessoas tenta manter a paz e a ordem ao mesmo tempo, tentando descobrir a verdade por trás da barreira e como escapar dela. Considerando a série uma das melhores desde o fim de Lost, não pude evitar enxergar em seu roteiro uma parábola da situação da igreja em nossos dias. Transcrevo abaixo um texto que escrevi anos atrás que retrata esta condição dramática em que vivemos.

Rompendo a redoma da igreja


“Mas os que andavam dispersos iam por toda a parte anunciando a palavra.” Atos 8:4


Um organismo precisa respirar para continuar vivo. A respiração é um movimento de mão dupla. Inspiramos e expiramos. O ar entra por nossas narinas, atravessa nossa traquéia, e enche nossos pulmões, para depois ser devolvido à atmosfera. Tente manter o ar preso em seus pulmões por alguns segundos. Você vai ficando vermelho, seus olhos começam a lacrimejar, até que você não agüenta mais e solta o ar.

Não é simplesmente do ar que necessitamos, mas da entrada e saída ininterrupta deste ar. Sem ar pra respirar, morremos. E prendendo o mesmo ar dentro de nós, também morremos.

A igreja de Cristo é um organismo vivo que também necessita respirar. Em Seu discurso de despedida, Jesus garantiu aos Seus discípulos que lhes enviaria o Espírito Santo a fim de fossem capacitados sobrenaturalmente a dar testemunho do Evangelho:

“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra.” Atos 1:8
A palavra traduzida neste texto por ‘poder’ é dinamus, que dá origem a alguns vocábulos em português, como dinamismodinâmica e até dinamite. Dinamus significa poder em movimento. O Espírito Santo não apenas capacitaria os discípulos a testemunhar, como também os levaria a lugares e circunstâncias jamais imaginadas por eles, para que cumprissem a sua missão.

O mesmo Espírito que nos atrai a Cristo e nos transforma, também nos envia ao mundo.

Narrando sua experiência de conversão perante o rei Agripa, Paulo diz que Jesus se lhe apareceu, dizendo: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Agora levanta-te e põe-te em pé. Eu te apareci por isto, para te fazer ministro e testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda. Eu te livrarei deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio, para lhes abrir os olhos, e das trevas os converter à luz...” (At.26:15b-18a). Observe que a comissão de Paulo se deu no exato momento de sua conversão.

O dinamus do Espírito exerce na igreja uma força centrípeta e centrífuga. Ele atrai, transforma e imediatamente envia. Não há intervalo! Todos os que são chamados, são também enviados.

Quando o endemoninhado gadareno se viu livre de sua possessão, quis deixar tudo para seguir a Jesus, mas recebeu d’Ele outra ordem: “Volta para casa e conta quão grandes coisas Deus fez por ti” (Lc.8:39a).

No reino de Deus tudo é muito prático. Porém, quando a igreja se institucionalizou, tratou de burocratizar o que antes era promovido pela dinâmica do Espírito. Quanto tempo de preparo precisou a mulher samaritana para atrair toda uma cidade a Cristo? Foi só o tempo de deixar seu cântaro, ir à cidade e anunciar ao seu povo: “Vinde, vede um homem que me disse tudo o que tenho feito. Poderia ser este o Cristo?” (Jo.4:29). Mesmo sabendo que Jesus era o Cristo, ela preferiu instigar aquele povo à curiosidade. Em vez de apresentar uma contundente resposta, ela instigou-os a questionar. E aqui nos deparamos com uma importante questão: será que para testemunhar do amor de Cristo temos que esperar até que todas as nossas questões sejam respondidas?

Precisamos desburocratizar e dinamizar o processo de evangelização com urgência. Ninguém necessita de um mestrado em teologia para anunciar aos seus amigos e familiares quão grandes coisas fez o Senhor em sua vida.

Não temos o direito de impedir o trânsito pelas portas do reino de Deus. Muitos agem como os fariseus e religiosos contemporâneos de Jesus, que se punham à porta, não entravam e não deixavam ninguém entrar. E quando alguém demonstra desejo de sair testemunhando do amor de Deus, tratam de jogar-lhe um balde de água fria. A estes, diz o Senhor: “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Fechais o reino dos céus aos homens. Vós mesmos não entrais, nem deixais entrar aos que estão entrando” (Mt.23:13).

Temos que manter o trânsito livre, e para isso, o caminho tem que está desobstruído. Veja o que Jesus disse sobre isso:
“Eu sou a porta. Todo aquele que entrar por mim, salvar-se-á. Entrará e sairá, e achará pastagens” João 10:9
Há um detalhe neste verso que tem passado despercebido. O caminho para o Reino é uma via de mão dupla. Quem entra, tem que sair. E o mais surpreendente é que só depois de sair que se acha pastagens. As pastagens não estão do lado de dentro da cidade, mas lá fora, entre os vales e montanhas da realidade social e cultural na qual peregrinamos.

Muitos acham que vão encontrar tais pastagens do lado de dentro da igreja. Por isso, entram, e não querem mais sair. Ficam viciados em igreja. Assim como ar que respiramos tem que ser devolvido à atmosfera, temos que devolver ao mundo as pessoas que entram na igreja. Por favor, não se escandalize ainda. Continue sua leitura, e veja se o que digo não faz sentido.

Qualquer espiritualidade que não nos devolva à realidade é maléfica e alucinógena. Se não concorda comigo, tente concordar com Cristo, que em Sua prece sacerdotal, rogou ao Pai:
“Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.” João 17:15-18
Não se trata de uma questão facultativa. Fomos chamados, santificados e enviados ao mundo. Os pés formosos de que diz a Escritura, são os que estão enlameados pelo chão da vida. Cuidado para não confundir santificação com alienação.

A igreja não pode ser uma redoma para os seus membros. Ela tem que ser um liquidificador. Experimente colocar várias frutas em seu liquidificador. Ao ligá-lo, elas serão processadas e se tornarão numa deliciosa vitamina. A hélice do eletrodoméstico exerce a força centrípeta e centrífuga. Ela atrai as frutas para si, processando-as ao mesmo tempo em que as empurra para fora. É isso que o Espírito Santo almeja fazer na igreja.

O mesmo Cristo que diz ‘vinde’, também diz ‘ide’. E não há intervalo. A gente já vem indo, e já vai vindo. Em vez de despendermos energia e dinheiro numa mirabolante estratégia de evangelismo (ou seria de marketing?), que tal abrir a porteira do aprisco, permitindo que as pessoas transitem normalmente pelo mundo, testemunhando o que Deus fizera em suas vidas? Haveria estratégia melhor e mais eficiente do que esta? Elas não precisam esperar por um "ide" personalizado, vindo direto dos lábios de Cristo para elas. Não!

A bem da verdade, todos que viemos a Ele, já fomos liberados por Ele para ir. Já estamos no Caminho, indo e vindo no constante fluxo e refluxo da vida.

No texto original, Jesus não disse "ide", num tom imperativo, mas disse "indo", numa espécie de gerúndio existencial. O texto diz: "Indo por todo mundo, pregai o evangelho...". Queiramos ou não, já estamos na chuva, e quem está na chuva é pra se molhar.

vinde é personalizado, mas o ide (ou indo) é generalizado.

Alguém poderá perguntar: E quanto aos riscos? Como enviar ao mundo pessoas despreparadas para testemunhar? Não seria melhor segurá-las o máximo de tempo possível, até que se vejam prontas? Concordo. O risco não pode ser ignorado. Porém, vale a pena corrê-lo.

Jesus não ignorou os riscos ao enviar Seus discípulos ao mundo. Confira o que Ele diz:
“Ide. Eu vos envio como cordeiros ao meio de lobos” (Lc.10:3). Neste texto em particular, o ide foi imperativo. O que atenua os riscos é o fato de que o pastor das ovelhas vai à frente do seu rebanho.
“Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as leva para fora. Quando tira para fora todas as ovelhas que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não reconhecem a voz dos estranhos.” João 10:2-5
Será lá fora, no mundão, que as ovelhas de Jesus terão suas maiores experiências com Ele. O mundo será o cenário por onde Ele as conduzirá aos pastos verdejantes, às águas tranqüilas. E mesmo quando passarem pelo vale da sombra da morte, não terão o que temer, pois Seu cajado e Sua vara as protegerão.

O que a igreja deveria fazer é procurar levar as pessoas a uma intimidade tal com o Bom Pastor, que elas jamais confundam Sua voz com a voz do estranho. Em outras palavras, temos que aprender a discernir a voz de Deus no mundo. Seja no ambiente profissional, acadêmico, familiar, ou mesmo nos corredores do poder político, será a Sua voz que guiará a nossa consciência, e, por conseguinte, as nossas atitudes. Portanto, já está na hora de liberarmos as ovelhas do Senhor para que cumpram sua missão de transformação do mundo.

Abramos a porteira, e deixemos o trânsito livre, pra que entrem e saiam, e assim, encontrem pastagem para as suas almas. Não há motivo para insegurança. Quem de fato é do Senhor, jamais abandonará seu redil.

* A série "Under The Dome" é exibida no canal TNT às segundas, 22h.

segunda-feira, setembro 01, 2014

5

Chega de charlatões se fazendo de profetas!




Por Hermes C. Fernandes


“Mostrou-me o Senhor dois cestos de figos, postos diante do templo do Senhor (...) Um cesto tinha figos muito bons, como os figos temporãos, mas o outro, figos muito ruins, que não se podiam comer, de ruins que eram” (Jer. 24:1a,2).

É interessante que quando Deus dá uma visão a Jeremias, Ele pergunta “Que vês, Jeremias?” Foi a mesma pergunta que Deus fez ao profeta ao comissioná-lo (Jer.1:11). A maneira como Deus Se comunicava com Jeremias era peculiar. Aquilo que vemos precisa ser expressado, verbalizado, reportado. Não basta ver, tem que saber contar o que se viu.

Neste episódio, o profeta chorão, como ficou conhecido Jeremias, vê dois cestos de figos. Ele observa que cada cesto apresenta qualidade diferente de figos. Numa havia figos muito bons, e na outra, figos muito ruins. Não havia meio-termo. Os figos ruins sequer podiam ser ingeridos, de tão ruins que eram. Ambos os cestos estavam diante do Templo, indicando que sua qualidade dependia de sua relação com o Eterno.

Quem estava sendo representado pelos dois cestos?

O cesto de figos bons representava aqueles que haviam sido levados em exílio para a Babilônia. Esses foram enviados de Judá para a terra dos caldeus. O próprio Deus assume a responsabilidade por tal acontecimento. Ele quem levantara Nabucodonosor como instrumento de Seu juízo sobre as nações. Nem mesmo Judá seria poupada. E por isso, os filhos de Judá deveriam se render, sem qualquer resistência. Não se trata de fatalismo, mas da vontade expressa de Deus para aquela situação.

Deus assume o compromisso de cuidar pessoalmente daqueles que fossem levados para a terra dos caldeus: “Porei os meus olhos sobre eles, para o seu bem, e os farei voltar a esta terra. Edificá-los-ei, e não os destruirei; plantá-los-ei, e não os arrancarei. Dar-lhes-ei coração para que me conheçam, porque eu sou o Senhor. Ser-me-ão por povo, e eu lhes serei por Deus, pois se converterão a mim de todo o seu coração” (Jer. 24:4-7).

Basta ler o livro de Daniel, pra conferir que Deus cumprira o que prometera. Os exilados foram recebidos como príncipes, como gente de valor, e não como escravos ou cativos. Deus os honrou em terra alheia.

É importante aqui uma breve explicação. Por que Deus permitiu que os filhos de Judá fossem levados de Jerusalém para a Babilônia? Quando Yahweh introduziu Seu povo na Terra prometida, foi feita uma aliança entre Deus, Seu povo e a terra. Eles poderiam plantar por seis anos consecutivos, mas no sétimo ano a terra deveria descansar. Por 490 anos, eles semearam, colheram, mas não observaram o ano sabático em que a terra deveria descansar. Hoje, está comprovado cientificamente que se a terra não descansa, ela fica improdutiva, pois perde os sais minerais.

Chegou a hora da cobrança. Os judeus deviam 70 anos sabáticos à terra. Antes que a terra ficasse estéril, Deus transportou Seu povo para a terra dos caldeus, para que lá passassem 70 anos. Portanto, o exílio do povo significaria o descanso da terra.

Nem todos aceitaram o veredicto divino. Muitos questionaram e se revoltaram contra Deus e a Sua Palavra. E é nesse contexto que Deus levanta Jeremias.

Os que contestaram o veredicto de Deus foram comparados aos figos ruins, tão ruins que não se podia comer (Jer.24:2).

Assim como se lança fora aquilo que não se pode ingerir, “do mesmo modo”, diz o Senhor, “entregarei Zedequias, rei de Judá, os seus príncipes, e o resto de Jerusalém, quer fiquem nesta terra, quer habitem na terra do Egito. Farei que sejam espetáculo horrendo, ofensa para todos os reinos da terra, opróbrio e provérbio, escárnio, e maldição em todos os lugares para onde os lancei. Enviarei entre eles a espada, a fome, e a peste, até que sejam consumidos de sobre a terra que dei a eles e a seus pais” (Jer.24:8-10).

Zedequias, que fora constituído às pressas como rei de Judá, liderou a resistência. “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”, dizia o rei postiço. Havia quem preferisse retornar ao Egito, a ter que se render ao Império Caldeu.

Enquanto os “figos bons” haviam sido “enviados” por Deus, os “figos ruins” seriam “lançados”. O contraste seria claramente visível.

Todo movimento tem um líder e um mentor. Nem sempre aquele que lidera é o mesmo que mentoriza. Geralmente, aquele que está no poder necessita ser legitimado aos olhos do povo. Todo anticristo precisa de um falso profeta. Esta é a dobradinha. O falso profeta é aquele que serve aos poderes constituídos em sua rebelião contra Deus. Em vez de denunciar, prefere bajular. Em vez de contestar, prefere corroborar.

Quem respaldava as decisões de Zedequias era um falso profeta chamado Hananias. Este dizia o que o rei queria ouvir. Provavelmente, vivia às custas do palácio real. Veja o que diz a Escritura:
“No mesmo ano, no princípio do reinado de Zedequias, rei de Judá, no quarto ano, no quinto mês, Hananias, filho de Azur, o profeta de Gibeom, me disse na casa do Senhor, perante os olhos dos sacerdotes e de todo o povo: Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Eu quebrarei o jugo do rei da Babilônia” (Jer. 28:1-2).
Isso era tudo que Zedequias, e os supostos “heróis da resistência” queriam ouvir: O jugo do rei da Babilônia será quebrado. Aleluia! Quem não se rejubilaria com uma notícia dessas!

Uma coisa ninguém pode negar: Hananias era um homem convincente, e que parecia acreditar naquilo que dizia. Senão, ele jamais se atreveria afirmar que o cativeiro babilônico duraria apenas dois anos (Jer.28:3-4). Em apenas dois anos tudo voltaria ao normal. Até os utensílios do Templo seriam devolvidos para que os judeus pudessem cultuar a Deus como antes.

Esta é a marca registrada dos falsos profetas: eles sempre dizem o que as pessoas almejam ouvir. Promessas e mais promessas. E tudo isso, a serviço de quem está no poder. Falsos profetas adoram fixar prazos, marcar datas. Eles sabem que as pessoas ficam impressionadas com isso.

E quanto a Jeremias, qual foi sua reação àquela profetada?
“Disse Jeremias, o profeta: Amém! Assim faça o Senhor! O Senhor confirme as tuas palavras, com que profetizaste, e torne a trazer os utensílios da casa do Senhor, e todos os do exílio de Babilônia a este lugar” (Jer. 28:5-6).
Será que Jeremais estava sendo irônico, ou ele realmente desejava que se cumprisse a profecia de Hananias? Dizer “amém” a uma palavra requer concordância. Será que Jeremias se deixou iludir? Vejamos:
“Entretanto, ouve esta palavra, que eu digo aos teus ouvidos e aos ouvidos de todo o povo: Os profetas que existiram antes de mim e antes de ti, desde a antigüidade, profetizaram guerra, mal e peste contra muitas terras e grandes reinos. O profeta que profetizar paz, quando se cumprir a palavra desse profeta, será conhecido como profeta na verdade enviado pelo Senhor” (Jer. 28:7-9).
Simples assim. Se a profecia se cumpre, o profeta é reconhecido como verdadeiro. Se não se cumpre, deve ser considerado como mais um falso profeta. Anos atrás, uma conceituada pregadora profetizou que Jesus voltaria em 2007. O tempo expirou. A profecia não se cumpriu. Logo, ela acaba de engrossar a infame galeria dos falsos profetas.

Qualquer um que se atreva anunciar uma data para a volta de Jesus não merece qualquer crédito. Pregadores anunciam de seus púlpitos: Somos a última geração! Aqueles que presenciarão o arrebatamento! Será que tais previsões merecem crédito? Serão eles do time de Jeremias, ou de Hananias?

Jeremias 1 x Hananias 0

Na mente de Hananias, era hora de virar o jogo. Sua reputação estava sendo questionada. Sua estratégia para reverter o placar foi, no mínimo, inusitada.
“Então Hananias, o profeta, tomou o canzil do pescoço do profeta Jeremias, e o quebrou. Disse Hananias aos olhos de todo o povo: Assim diz o Senhor: Assim quebrarei o jugo de Nabucodonosor, rei de Babilônia, depois de passados dois anos completos, de sobre o pescoço de todas as nações. E Jeremias, o profeta, foi-se embora” (Jer.24:10-11).
Todo mundo ficou impressionado.

Desde que o Senhor revelara a Jeremias o exílio do Seu povo, Deus o orientou a colocar uma espécie de jugo em volta de seu pescoço. Era uma maneira de dramatizar aquilo que estava prestes a acontecer. Haninas, no afã de virar o jogo, arranca o canzil do pescoço de Jeremias, e sem pedir licença, o quebra à vista de todos. Da mesma maneira, Deus quebraria o jugo de Nabucodonosor. Aaaaaahhhhhh! Que coisa impressionante!

Aos olhos do povo, Hananias se tornou também o bem-feitor de Jeremias, pois tirou-lhe o jugo que lhe pesava o pescoço. Porém, por trás daquele gesto aparentemente solidário, estava a intenção de desmoralizar o porta-voz de Yahweh.

Sabe qual foi a reação imediata de Jeremias? Foi-se embora. Era hora de retirar seu time de campo. Não adiantava bater boca com aquele falso profeta. O povo estava do seu lado. Os que haviam sido convencidos por Jeremias já estavam longe a essa hora. Quem permanecia ali era porque dava maior crédito a Hananias. Era hora de intervalo do jogo. O placar está empatado. Mas o segundo tempo viria, quando Jeremias teria recobrado seu ânimo.

Era hora de reunião com o Técnico.
“Veio a palavra do Senhor a Jeremias, depois que Hananias, o profeta, quebrou o canzil de sobre o pescoço do profeta Jeremias: Vai, e dize a Hananias: Assim diz o Senhor: Canzil de madeira quebraste, mas em vez dele terás canzil de ferro. Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Jugo de ferro pus sobre o pescoço de todas estas nações, para servirem a Nabucodonosor, rei de Babilônia, e servi-lo-ão. Até os animais do campo lhe darei” (Jer. 28:12-14).
Chega de dramatização! É a hora da verdade! Deus não Se deixa impressionar com as artimanhas humanas. Seu propósito sempre prevalece.

O enviado do Senhor fala as Suas Palavras. Mas aquele que vai sem ser enviado terá que arcar com o custo de sua iniciativa rebelde. Quem vai sem ser enviado, acaba sendo lançado. Assim como os figos ruins, que se deixaram ludibriar por suas falsas promessas, e por isso, seriam lançados por Deus, aquele que fora sem ter sido enviado, também seria lançado.
“Então disse Jeremias, o profeta, a Hananias, o profeta: Ouve, Hananias! O Senhor não te enviou, mas fizeste que este povo confiasse em mentiras. Pelo que assim diz o Senhor: Eu te lançarei de sobre a face da terra. Este ano morrerás, porque pregaste rebeldia contra o Senhor. Morreu Hananias, o profeta, no mesmo ano, no sétimo mês” (Jer. 28:15-17).
Provavelmente, as profecias de Hananias devem ter repercutido para além dos muros de Jerusalém, chegando aos ouvidos dos exilados na Babilônia. Muita gente se recusava a desfazer as malas. Estavam ali de passagem. Dois anos passariam rapidamente. Para desfazer as falsas esperanças que foram incutidas em seus corações, Jeremias lhes enviou uma carta:
“São estas as palavras da carta que Jeremias, o profeta enviou de Jerusalém, ao resto dos anciãos do exílio, como também aos sacerdotes, aos profetas e a todo o povo que Nabucodonosor havia transportado de Jerusalém para Babilônia (...) Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os que foram transportados, que eu fiz transportar de Jerusalém para Babilônia: Edificai casas, e habitai nelas; plantai pomares, e comei do seu fruto. Tomai mulheres, e gerai filhos e filhas; tomai mulheres para vossos filhos, e dai as vossas filhas a maridos, para que tenham filhos e filhas. Multiplicai-vos ali, e não vos diminuais. Procurai a paz e a prosperidade da cidade, para onde vos fiz transportar. Orai por ela ao Senhor, porque se ela prosperar vós também prosperareis (...) Pois eu sei os planos que tenho para vós, diz o Senhor, planos de paz, e não de mal, para vos dar uma esperança e um futuro” (Jer.29:1,4-7,11).
Esta carta era o antídoto contra a alienação que as falsas profecias estavam promovendo no meio do povo.

Entre 70 anos e apenas 2 anos há uma diferença gritante. Passar setenta anos num lugar é gastar pelo menos duas gerações ali. É tempo suficiente para fazer planos, pra pensar no futuro, para plantar pomares, construir casas, e viver o suficiente para conhecer os netos e bisnetos.

A mensagem do falso profeta parece de esperança, mas na verdade produz alienação. Ora, se vamos passar apenas dois anos na Babilônia, não há porque fazer planos, nos integrar à sociedade, e nem mesmo trabalhar para que ela prospere. A mensagem de Deus foi clara: Orem pela paz, e trabalhem pela prosperidade da sociedade, pois se ela prosperar, vocês também prosperarão.

Parece que boa parte dos pregadores e profetas de hoje em dia, está escalado no time de Hananias, e não no de Jeremias. Fala-se da volta de Jesus de maneira tal, que não sobra perspectiva pra mais nada neste mundo. Pra quê estudar? Pra quê gastar cinco anos numa faculdade, se o mundo está prestes a acabar? A exemplo da profecia de Hananias, o que parece uma mensagem de esperança, na verdade, é uma mensagem de desesperança.

Não sabemos quanto tempo temos até a volta de Jesus. Mas enquanto Ele não vem, temos que trabalhar pela prosperidade de nossa sociedade. Não podemos nos alienar da realidade que nos circunda.

Estamos aqui porque fomos enviados, e não, lançados. Pertencemos ao cesto dos bons figos. Ao time de Jeremias.

PS.: Não precisamos de quem nos arranque o canzil, mas de quem nos diga a verdade.

quinta-feira, agosto 28, 2014

1

"Este é o meu candidato amado, em quem me comprazo!"




Hermes C. Fernandes

Que lástima! Às vésperas das eleições, a igreja brasileira se vê completamente dividida. Amizades antigas foram rompidas. Alianças vergonhosas foram engendradas. E quem quer que ainda tenha algum brio, sente-se profundamente frustrado com tudo isso.

Afinal, de quem Deus Se tornou “cabo eleitoral”? Será que Ele Se disporia a bradar do céu: "Este é meu candidato amado, em quem me comprazo... votem nele!"?

O fato é que há muita coisa em jogo! Poder, prestígio, promessas de concessão de rádio e TV, cargos, e… grana, muita grana.  Em nome disso tudo, pastores vendem a alma ao diabo. Vale tudo para angariar os votos dos fiéis. Até usar o santo nome do Senhor em vão.

É claro que como cidadão, tenho simpatia por algumas candidaturas. Mas reivindico o direito de ficar calado. Como líder de uma igreja, tenho a obrigação de manter-me discreto durante o processo eleitoral. Meu papel é estimular o povo à reflexão e ao voto consciente, mas sem jamais tentar manipulá-lo para que vote no que considero a melhor candidatura. Não adianta pressionar. Não manifestarei meu voto, senão, na urna. 

O fato de não apoiar uma candidatura não me dá o direito de sair por aí difamando-a, como tenho visto por parte de muitos líderes. Mentiras têm sido espalhadas a partir de púlpitos. Canonizaram Maquiavel! A liderança evangélica brasileira se promiscuiu.

Trocaram a bênção de Deus por um prato de lentilhas podres. Sinto náuseas só em pensar…

Lembro-me das eleições em que a Igreja Universal apoiou Fernando Collor de Mello em troca de concessões de TV. Os pastores levavam cartazes do Lula para seus púlpitos e pediam que o povo estendesse as mãos e orasse aos gritos de “queima, Jesus!” Nos programas de rádio, os pastores perguntavam se as pessoas criam que o bispo Macedo era dirigido pelo Espírito Santo. Quando respondiam que sim, eles retrucavam: Então, se ele diz que devemos votar no Collor, só pode ser por direção do Espírito Santo, certo? Você desobedeceria ao Espírito de Deus? Os anos se passaram, e o tal “espírito santo” parece ter mudado de ideia, e hoje, o que antes era considerado o “diabo barbudo”, tornou-se no melhor presidente que o Brasil já teve (pelo menos, segundo a avalição deles!). Dá pra entender uma coisa dessas?

Pra quê demonizar uma ou outra candidatura? Pra quê incutir na mente fraca de muitos crentes que votar em fulano ou sicrano é o mesmo que trair o Evangelho? Todos eles têm telhado de vidro. 

No fundo, no fundo, a questão do aborto e a do casamento homossexual são apenas bois de piranha, usadas para distrair a atenção das massas enquanto outras iniquidades passam despercebidamente. Não estou diminuindo o valor de tais pautas, mas apenas chamando a atenção dos eleitores para outras questões tão importantes quanto. Como diria Jesus, há coisas que devem ser observadas sem que se despreze tantas outras mais importantes. Ademais, tais pautas nada têm a ver com eleições municipais. 

Como pastor, quero que o rebanho que o Senhor me confiou sinta-se livre para votar em quem quiser.  Dia 5 de Outubro, enquanto milhões de cristãos irão às urnas para votar de acordo com o interesse de seus líderes, nossos irmãos exercerão sua cidadania sem interferência de ninguém. 

Vote em quem você quiser. Não deixe que pensem por você. Sua salvação não corre risco por causa disso. Nem há uma maldição destinada para quem votar neste ou naquele candidato. Enquanto caminha em direção à zona eleitoral para votar, louve a Deus pelo privilégio de viver num país livre e democrático.

Viva a Democracia!



terça-feira, agosto 26, 2014

3

Duas maneiras infalíveis de negar a Cristo





Por Hermes C. Fernandes

“Qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem...” Lucas 9:26a

“Não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus...” Romanos 1:16a

Há duas maneiras de negar a Jesus.

A primeira é envergonhando-se d’Ele, como fez Pedro no pátio do Templo, enquanto se aquecia ao redor de uma fogueira à espera do veredicto que condenaria Jesus (Lc.22). Preocupado em salvar a própria pele, por três vezes Pedro negou conhecer seu Mestre. O canto do galo foi o despertador usado por Deus para chamar a sua atenção. Não foi por falta de aviso. Mas a pressão psicológica a que Pedro estava sendo submetido era tamanha, que ele sequer se lembrou da advertência de Jesus.

Quantas vezes temos nos envergonhado de Jesus? Infelizmente, nem sempre temos um galo por perto para despertar nossa consciência. Porém, há situações que nos servem como despertadores. Circunstâncias adversas, decepções, e até tragédias, chegam em hora oportuna, mas nem sempre conseguem chamar nossa atenção.

O que mais incomodou Pedro não foi o canto do galo, mas o olhar penetrante de Jesus. Foi aquele olhar desapontado que fez com que Pedro chorasse amargamente por toda a noite.

Ah se tivéssemos consciência de que o olhar do Senhor está constantemente sobre nós! Aquele que "não Se envergonha de nos chamar de irmãos", não merece que nos envergonhemos d’Ele (Hb.2:11).

A segunda maneira de negá-Lo é envergonhando-O diante dos homens.

Paulo denuncia aqueles que “professam conhecer a Deus, mas negam-no pelas suas obras, sendo abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra” (Tt.1:16).

É difícil dizer o que é pior, envergonhar-se d’Ele ou envergonhar a Ele.

Não adianta confessá-Lo perante os homens, e negá-Lo com nossas obras. Talvez fosse melhor que não O confessássemos, do que nos declararmos cristãos e vivermos como ímpios.

Judas não negou que O conhecia. Entretanto, usou tal conhecimento para entregá-lo aos seus inimigos. Judas não O negou com suas palavras, mas O negou com suas obras.

Todos, em algum momento, somos tentados a negar Jesus. Quer seja por vergonha de nos identificarmos como Seus seguidores, quer seja por atitudes que denigrem a nossa fé.

Como evitar que neguemos a Cristo?

Só há uma maneira de evitar: negando a nós mesmos.

Jesus disse: “…Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (Mc.8:34).

Se não negarmos a nós mesmos, eventualmente negaremos Aquele que nos resgatou (2 Pe.2:1). Negar a si mesmo é dizer não à sua própria vontade, é abrir mão de direitos, é não pleitear a própria causa. Quem nega a si mesmo já não faz questão de coisa alguma. Parafraseando Paulo, estamos crucificados com Cristo. Desistimos de nossa própria vida, para que Cristo viva Sua vida através de nós. Nos envergonhamos de nossa justiça própria, para nos gloriar na Justiça que vem do alto.

Negar a si mesmo é renunciar a tudo em nome da única coisa de que não podemos abrir mão: Cristo. O que antes reputávamos como lucro, agora consideramos perda. De tudo de que devemos abrir mão, o mais difícil é a justiça própria.

Podemos desistir de um projeto pessoal em nome de algo mais nobre. Podemos renunciar títulos, conforto material, fama, mas dificilmente nos dispomos a renunciar nossa justiça própria.

Queremos sempre ter a razão em tudo. Basta que sejamos injustiçados, e logo recorremos a esse senso de justiça própria. Somos eternas vítimas. Vítimas do sistema, vítimas de perseguição, vítimas dos falsos amigos, etc.

Se não renunciarmos nossa justiça, não desfrutaremos da justiça de Cristo. Se não nos negarmos a nós mesmos, negaremos a Cristo.

Se pleitearmos nossas causas, estaremos dispensando a atuação de nosso advogado, Jesus.
Paulo entendeu isso perfeitamente, e por isso, escreveu:
“Mas o que para mim era lucro, considerei-o perda por causa de Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo, e seja achado nele, não tendo justiça própria...” Filipenses 3:7-9a
Em vez de nos preocuparmos com nossa reputação, nos preocupamos com nosso testemunho. Em vez de nos preocuparmos com a aquisição e manutenção de bens materiais, nos preocupamos em repartir o que temos com os que nada têm.

Simplesmente, morremos. Sim, morremos para nossas pretensões. Já não há causas a defender, senão a causa do Reino de Deus e da Sua justiça.

domingo, agosto 24, 2014

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Deus está morto... de vergonha!



Por Hermes C. Fernandes


Ontem levei meus filhos para assistir ao filme "Deus não está morto". Propositadamente, preferi sentar-me longe deles, algumas filheiras atrás, deixando-os à vontade para apreciar a película e depois emitir sua opinião. A sala que comportava 163 pessoas estava praticamente lotada, sendo perceptível, pela reação do público, que a maioria ali era cristã. Devo admitir que certamente teria deixado o cinema sentindo-me bem constrangido diante de uma plateia não cristã. 

O filme conta a história de um rapaz cristão que se nega a escrever uma frase que seu professor de filosofia ordenou que todos escrevessem numa folha de papel e a entregasse assinada. Diante de sua recusa em escrever "Deus está morto", seu professor o desafia a apresentar uma defesa consistente acerca da existência de Deus. Abandonado pela namorada que o acusou de estar comentendo um suicídio acadêmico, o rapaz topa o desafio por sentir-se chamado por Deus para defendê-lo naquela universidade.

Os argumentos que ele usa são, de fato, bem fraquinhos e facilmente rebatidos. Mas audiência desconhece isso, e vibra a cada assalto. Fica evidente que o objetivo do estudante é provar que o professor estava errado, desbancando-o diante da turma. 

Ora, para início de conversa, Deus não está contratando advogados. Em vez disso, Ele prefere recrutar testemunhas para que deponham acerca do Seu amor e não que defendam Sua existência. Por mais convincentes que pareçam nossos argumentos, sempre haverá um contrargumento a eles; somente o amor é capaz de calar até a mais elequente argumentação. Ademais, nada é mais contraproducente do que ficar procurando frestas na lógica de um oponente, a fim de sobrepujá-lo. A única arma capaz de perfurar sua armadura é o amor. 

Por que Deus não Se mostra? Por que não rasga o céu e diz: Ei! Estou aqui! Estão me vendo? Parem de duvidar de minha existência!

Se Deus estivesse interessado em provar Sua existência, Ele simplesmente aparecia para o mundo inteiro em rede nacional e em horário nobre. Em vez disso, Ele preferiu provar o Seu amor expondo-se vergonhosamente numa rude cruz.

Tudo parece indicar que Ele não seja muito afeito a espetáculos. Sua desconcertante discrição é uma prova de Seu amor por seres tão ávidos de atenção como nós. 

Entrar numa discussão sobre a existência de um Ser superior que teria criado todas as coisas é uma enorme perda de tempo, pois estaríamos nos submentendo ao modus operandi do mundo, onde o que vale é ter razão. O evangelho se põe na contramão de tudo isso. Para Deus, o que vale é ter amor. A razão pode esperar.

Outra coisa que me embrulhou o estômago no filme foi o uso e abuso dos estereótipos. Este foi o primeiro comentário que meus filhos fizeram depois de assisti-lo. Para quem já morou nos Estados Unidos como nós, e principalmente para eles que estudaram lá, nada causa maior repugnância naquela sociedade do que o preconceito. Será que todo muçulmano espancaria sua filha e a poria para fora de casa por haver se convertido ao cristianismo? Será que todo ateu é intragável como aquele professor, e ainda por cima, trata sua namorada ou cônjuge como se fosse empregada? E o que dizer do 'chinezinho', filhinho de papai? E o missionário africano cujo sonho era conhecer um parque temático? E o americano barbudo, típico "red neck" (caipira), com uma bandana da bandeira americana na cabeça, tentando provar que sua mulher, apesar de cristã, tinha uma vida digna,vestia-se como uma dama, usava salto alto, enquanto ele fazia fortuna com suas invenções para caçar patos? Qualquer um que conheça bem a cultura americana percebe o tom político/ideológico do filme (republicano!). Não rompemos com os estereótipos que tentam nos impor simplesmente estereotipando a outros.

Usou-se de maneira aberta argumentos filosóficos, científicos, e, de maneira subliminar, passou-se a visão americana de vida (american way), mas em momento algum falou-se de amor. A não ser em frases de efeito do tipo "Jesus te ama!". Houve até uma defesa do livre-arbítrio para tentar salvaguardar a soberania divina do ataque de quem acusa Deus de ser responsável pelo mal no mundo. 

A "queda-de-braço" entre Deus e o professor termina com ele atropelado quando ia a um show gospel à procura de sua ex-namorada. Agora, impotente, estirado no asfalto, ele teria que reconhecer na marra quem era o maioral. Deus já havia feito com que o motor do carro que levaria o missionário africano e seu colega americano ao parque de diversões falhar por diversas vezes, para que naquele momento pudessem conduzir o pobre moribundo a se dobrar ante a soberania de Deus, rendendo-se a Ele antes de partir. 

Eu podia ouvir comentários de irmãos que deixavam escapar um "bem-feito!" diante daquela cena. "Quem mandou brincar com Deus, seu prepotente idiota?" Minha vontade era de me levantar e ir embora do cinema. Chocado com a reação dos crentes, torci para que não houvesse ali nenhum 'incrédulo' para escandilizar-se com tamanha demontração de amor. 

Cheguei à conclusão de que Deus deve estar realmente morto... morto de vergonha. Um filme panfletário, recheado de ideologia, promovendo, entre outras coisas, a famigerada indústria gospel americana e colocando os cristãos entrincheirados contra a ciência. 

O que Deus espera de nós, afinal? Vivemos numa sociedade cada vez mais indiferente às demandas do evangelho. Como reagir? A maioria de nós imagina que o que agradaria a Cristo seria nos levantar em Sua defesa. Ledo engano. Pergunta a Pedro como ele se sentiu ao ser repreendido por Jesus diante de seus colegas e dos soldados que O prendiam, por haver desembainhado sua espada para defendê-Lo. O que ele queria era arrancar a cabeça do soldado e não decepar sua orelha.  Sabe por que Pedro errou a pontaria? Porque seus olhos estavam cheios de remela. É só voltar a fita para flagrá-lo dormindo enquanto Jesus soava sangue. Agora queria bancar uma de herói. Mete a espada na bainha, Pedrão! Quem com ferro fere, com ferro será ferido. O que Jesus espera de nós hoje, era o mesmo que esperava dos discípulos que infelizmente adormeceram enquanto Ele sorvia o cálice que Lhe era destinado. Mas o que foi que eles lhe deram? Apatia! E o que é que temos dado hoje? A mesma apatia. Não nos importamos com os que sofrem ao nosso redor. Não damos a mínima para as vítimas das injustiças, das tragédias, dos vícios. Estamos mais preocupados em provar que temos a razão. O mundo inteiro está errado! Somente nós temos a razão. Somos os detentores da verdade! De fato, há razão de sobra e paixão de menos. Cristo não precisa de quem O defenda. Mas busca quem defenda o oprimido, o excluído, o miserável. E quem sair em defesa destes, será como se saísse em defesa do próprio Deus. O resto não passa de espetáculo circense. 

Todos que me acompanham sabem o quanto gosto de cinema. Eis aí um filme que não recomendaria a ninguém. Encontrei muito mais do espírito do Evangelho em filmes como "Os miseráveis", "Nárnia", e até em "O Senhor dos Anéis". Se gostou do que viu, quem sou eu para discutir seu gosto. Mas espero ter contribuído para sua reflexão acerca dos valores passados nas entrelinhas desta obra. 

P.S.: Coincidentemente, em seu primeiro dia de aula na Universidade Federal Fluminense, meu filho Rhuan se viu desafiado pelo professor de Filosofia, juntamente com os demais alunos, a escrever uma frase semelhante negando a existência de Deus numa folha de papel em branco, assinar e entregá-la. Meu filho pegou sua folha e começou a escrever sua defesa da existência de Deus. Quando já se preparava para entregar, quem se fazia passar por professor de Filosofia anunciou: Isso aqui é um trote! Rhuan me confessou que respirou fundo, amassou o papel e livrou-se dele disfarçadamente. Espero que este filme não estimule nossos jovens a embates desta natureza. Passei por coisas semelhantes quando jovem e posso afiançar que não vale a pena. Quase apanhei de nove colegas por defender minha fé. Tive que me abrigar atrás do balcão de uma farmácia. À época, senti-me orgulhoso por ter "sofrido por amor a Cristo". Hoje vejo que sofri por não querer abrir mão de ter razão. 

sexta-feira, agosto 22, 2014

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Estou farto de tanta sujeira...



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O que vale a pena quando a alma não é pequena?





















Por Hermes C. Fernandes

“Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão eu morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Acaso estou eu no lugar de Deus que te impediu o fruto de teu ventre?” Gênesis 30:1-2

Que sentimento poderia ser mais repugnante que a inveja? Alguns a chamam de “pecado inconfessável”. É mais fácil admitir a culpa por um adultério, do que assumir que é invejoso. Raquel teve inveja de sua irmã Lia. E por quê? Porque Lia custara a Jacó sete anos de trabalho, enquanto ela custara o dobro. Entretanto, Lia dera filhos a Jacó, enquanto Raquel era estéril. A inveja de Raquel provinha da conclusão de que ela não valera o quanto seu marido pagara por seu dote.

Cansada e desesperada, ela apelou ao seu marido, como se ele fosse o culpado. Jacó reagiu fortemente, sugerindo que ela reclamasse diretamente com Deus. O desespero foi tamanho, que Raquel foi capaz de oferecer sua criada a Jacó, para que lhe gerasse um filho, que ela pudesse, ao menos, embalá-lo em seu colo.

Apesar de seu pedido ser fruto de um sentimento reprovável (inveja), Deus resolveu atendê-la:
“Então Deus se lembrou de Raquel, ouviu-a, abriu a sua madre e ela concebeu, e deu à luz um filho, e disse: Tirou-me Deus a minha afronta. E chamou-lhe José, dizendo: Acrescente-me o Senhor outro filho.” Gênesis 30:22-24
Às vezes, Deus permite que sejamos bem sucedidos, mesmo que nossos esforços tenham uma motivação errada. A despeito de nossas motivações, Deus tem Seus propósitos!

O Apóstolo Paulo admitiu que “alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa mente” (Fp.1:15). Sua conclusão foi: “Mas que importa? Contanto que Cristo, de qualquer modo, seja anunciado” (v.18). Apesar de muitos pregarem o Evangelho por motivos escusos, podemos perceber um saldo positivo, pelo menos, em salvação de almas. Esse “saldo positivo” não significa que Deus esteja endossando tais ministérios, e sim que Ele esteja mantendo de pé a promessa de que Sua Palavra não voltaria vazia, apesar dos instrumentos serem falhos.

Raquel custou a Jacó catorze anos de trabalho gratuito para seu sogro Labão. Embora se sentisse amada, Raquel não estava satisfeita. Ela queria embalar em seus braços um filho gerado em seu próprio ventre. Não bastava ter filhos postiços, gerados no ventre de suas criadas. Ela queria um filho legítimo, fruto do amor entre ela e seu marido. Quando finalmente ela se engravidou, nomenou seu primeiro filho de José, pois queria que o Senhor lhe acrescentasse outro filho. Em outras palavras, “José” significa “quero mais”, ou “mais um”. Ela só não imaginava o preço que teria que pagar pelo filho extra que ela pedia a Deus.

É próprio do ser humano querer sempre mais. Temos fome do infinito. Não nos contentamos em pisar no solo lunar; agora queremos caminhar em Marte. Foi esta fome insaciável que nos fez atravessar os oceanos, e colonizar até as mais inóspitas regiões do planeta. E se alguém acha que determinada realização vai conferir-lhe sensação de plenitude, está redondamente equivocado. Sempre vamos desejar mais. Seja qual for a motivação que nos norteie.

Segundo as Escrituras, “partiram de Betel e, havendo ainda pequena distância para chegar a Efrata, Raquel deu à luz um filho, cujo nascimento lhe foi a ela penoso. Tendo ela trabalho em seu parto, disse-lhe a parteira: Não temas, pois também este filho terás. Ao sair-lhe a alma (porque morreu), chamou-lhe Benoni. Mas seu pai lhe chamou Benjamim” (Gn.35:16-18).

Raquel não era marinheira de primeira viagem. Ela já havia tido a experiência antes. Mas agora algo estava diferente. Havia no ar a sensação de despedida. Já quase fora de si, Raquel ouve dos lábios da parteira que seu filho já estava às portas. Suas últimas palavras antes de render sua alma foi “Benoni”. Foi assim que Raquel chamou seu caçula. Jacó poderia ter atendido ao último pedido de Raquel, permitindo que seu filho se chamasse Benoni. Mas o patriarca sabia o peso que tinha um nome, e o estigma que ela carregaria pelo resto de sua vida. Benoni significa “filho da minha tristeza”. Imagine ser responsabilizado pela morte da mãe pelo resto de sua vida. Pior do que ser chamado de “trapaceiro” (Jacó), seria ser chamado de “tristeza de sua mãe”. Por isso, mesmo amando desesperadamente a Raquel, Jacó preferiu ignorar o seu último lamento, pondo em seu caçula o nome de Benjamim, que quer dizer “Filho da Felicidade”, ou ainda, “Filho da minha força”.

Nosso Deus é o Senhor das circunstâncias. Não há nada que nos aconteça sem a Sua permissão. E tudo quanto Ele nos permite viver é impregnado de propósito. No entanto, Ele nos concede o privilégio de nomenar nossas experiências. Nomenar não é apenas dar nome, mas avaliar, atribuir significado a algo. Lembre-se de que Deus criou todos os animais, mas coube ao homem dar nome aos bichos. Os hebreus sabiam a responsabilidade que era nomenar um filho, pois ele carregaria consigo uma marca indelével.

Hoje em dia, as pessoas dão nome a seus filhos inspirados nos astros da TV. Mas naquela época, os nomes tinham que expressar o significado atribuído a uma experiência. Às vezes, os pais esperavam anos até encontrar um nome que correspondesse ao caráter do filho.

Ao nomenar seu último filho de Benoni, Raquel estava expressando a tristeza que lhe tomava o coração, por saber que jamais amamentaria aquele filho tão desejado. Porém, Jacó se recusou a imprimir na criança uma marca tão repulsiva. Se ele se chamasse Benoni, ele carregaria a culpa pela morte de sua mãe por toda sua vida. Ora, se cremos que, de fato, todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus, conforme lemos em Romanos 8:28, então temos que fazer uma leitura positiva de nossas experiências, mesmo as mais tristes.

Paulo, que era descendente de Benjamim, compreendeu tal fato. Muitos desconhecem que ele passou mais da metade de seu ministério atrás das grades. Em vez de ficar se lamentando por isso, ele preferiu dar um significado positivo a isso.
“E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior avanço do evangelho. De maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais. Muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas cadeias, ousam falar a palavra mais confiadamente, sem temor.” Filipenses1:12-14
Para Paulo, suas cadeias eram “Benjamim”, e não “Benoni”.

Quanto custa gerar um “Benjamim”?

Eis o paradoxo da graça! Embora tudo quanto o Senhor faz em nossa vida seja pura gratuidade, há um preço que temos que pagar para que os Seus propósitos se cumpram em nós. A Graça não exclui a renúncia. Pelo contrário: “A graça... nos ensina a renunciar” (Tt.2:11-12). Uma graça que nos poupa da renúncia não é a graça oferecida por Jesus.

Gerar e dar à luz Benjamim custou a Raquel sua própria vida. Este é o preço por querer mais... O preço por desejar fazer a vida valer a pena. Só vale a pena viver por aquilo pelo que dispomos morrer.

O que Deus pede que renunciemos? Carros? Casas? Dinheiro? Não! Nossa própria vida! Eis o preço! E é a graça que nos capacita a pagar tão alto preço. Temos que viver e morrer por algo maior do que nós mesmos. Algo que vá além de nossa existência terrena. Algo que continue aqui quando partirmos.

Era esse o sentimento que norteava a vida do apóstolo dos gentios:
“Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” Atos 20:24
Esse posicionamento perante a vida nos leva a dar um novo significado a tudo, até mesmo à morte. Por isso, Paulo diz aos Filipenses: “A minha ardente expectativa e esperança é de em nada ser confundido, mas ter muita coragem para que agora e sempre, Cristo seja engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Pois para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp.1:20-21).

A morte já não nos soa com um “bicho-papão”. E sabe por quê? Porque já morremos! Já fomos crucificados com Cristo, e agora, já não somos nós, mas Cristo que vive através de nós. Esta é a morte pela qual temos que passar para fazer a vida valer à pena. É o total desapego da própria vida, dispondo-se a abrir mão dela por um bem infinitamente maior. Portanto, pra nós, morrer é lucro! O que nos importa é o legado que deixaremos neste mundo, concebido e gestado a partir do momento em que abrimos mão de nossa vida.

Paulo, o mais importante dos descendentes de Benjamim, adquiriu tal consciência, e a expressa com maestria em sua epístola aos Filipenses:
“Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus (...) o que para mim era lucro, considerei-o perda por causa de Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo.” Filipenses 3:5a,7-8
Jesus disse que “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só. Mas se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, mas quem odeia a sua vida neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna” (Jo.12:24-25).

Negar-se a morrer é abraçar a solidão. É a morte do nosso ego que nos torna frutíferos.

Outra coisa que me chama a atenção nesse episódio é que Raquel entra em trabalho de parto a caminho de Efrata (Belém). E é ali, em plena jornada, que Raquel deixa esta vida para entrar na Eternidade. É ali, a caminho de Belém, que Raquel dá à luz Benjamim, filho da felicidade. Somos o povo do caminho. E precisamos aprender que a felicidade não é encontrada no destino, mas na jornada. Então, apreciemos a paisagem! Como aconteceu a Moisés, estamos fadados a peregrinar até chegarmos à borda da terra prometida, e então, sermos recolhidos por Deus. Nada é mais honroso do que gestar um sonho que será desfrutado pelos que vierem depois de nós. Somos hebreus! Um hebreu, por definição, é um caminhante, um peregrino. Mas não caminhamos sem rumo. Não estamos perambulando pelas sendas da vida. Temos um alvo! Temos um destino! É este destino supremo que nos move pra frente.

Há alvos que são alcançados com relativa facilidade. Porém, quando estabelecemos alvos humanamente inalcançáveis, temos que estar prontos para a possibilidade de só o alcançarmos no limiar desta vida. É possível que tenhamos um vislumbre, mas não desfrutemos plenamente.

Algumas de nossas conquistas são como dar à luz José. Fica sempre a impressão de que falta algo. Alvos mais nobres são como Benjamim, e podem ser paridos quando ainda estamos a caminho. Se algo vale à pena, então, temos que estar dispostos a morrer por isso, sem nos preocupar caso não desfrutemos de nossas próprias realizações.

O texto diz: “Assim morreu Raquel, e foi sepultada no caminho de Efrata (isto é, Belém)” (Gn.35:19).

Raquel só teve tempo de contemplar de relance o filho tão desejado. É no caminho que as grandes realizações são alcançadas inusitadamente.

Jamais devemos supor que já alcançamos o supremo propósito de nossa vida. Quando isso houver acontecido, o Senhor nos chamará.

Tal consciência é encontrada em Paulo:
“Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito, mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não julgo que o haja alcançado. Mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que para trás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo...” Filipenses 3:12-14a
Ele não escreveu isso no início de sua jornada espiritual, mas já chegando ao fim dela. E ele diz que todos os que são “perfeitos” devem ter esta mesma consciência. Pode soar paradoxal, mas aos olhos de Deus somos perfeitos enquanto reconhecemos nossa imperfeição. Somos fortes, quando reconhecemos nossa fraqueza. Somos completos, quando reconhecemos nossa incompletude.

Em vez de buscarmos desenfreadamente por satisfação pessoal, estabeleçamos alvos que vão além de nós, sonhos que nos sobrevivam, que se tornem um legado para as próximas gerações.

Só uma alma pequena pensa só em si mesmo. Parafraseando o poeta, a vida só vale à pena, quando a alma não é pequena. Quando ela é capaz de entregar-se inteiramente por ideais que estejam acima de suas pretensões pessoais; quando se dispõe a qualquer sacrifício em prol de um bem infinitamente maior.

Com isso em mente, até episódios tristes de nossa vida, serão reavaliados e interpretados como “filhos da felicidade”.

* Publicado originalmente em 5/9/2009