terça-feira, julho 29, 2014

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Não sou por Israel, nem pelos palestinos, mas pela justiça e pela paz



Por Hermes C. Fernandes

Recebi um comentário de um dos meus posts acerca da crise na faixa de Gaza. Embora a pessoa tenha se escondido sob o véu do anonimato, gostaria de responder às suas insinuações.

Seus comentários estarão em itálicos, e os responderei a seguir.

Tudo segue de acordo com a normalidade da vida! Os árabes,entre eles os palestinos, odeiam, odiavam e odiarão SEMPRE Israel, ou seja, os judeus!

Caro Anônimo, você acha "normal" ter bombas caindo sobre sua casa? Ver dezenas de crianças inocentes morrendo? É normal que o governo israelense promova este massacre às vésperas das eleições, aumentando assim sua popularidade entre os povo israelense?* É normal o apoio de vários países árabes à esta ofensiva israelense? Quais seriam suas motivações? Seria um eventual aumento do preço do barril de petróleo?

Quanto ao ódio que os palestinos nutrem contra os judeus, haveria alguma razão para isso? Já imaginou se repentinamente os espanhóis resolvessem invadir o Brasil, e constituir aqui um estado espanhol, usando como justificativa o tratado de Tordesilhas? Como os brasileiros se sentiriam ao terem suas terras tomadas?
Quem deseja,acaricia,nutre e fomenta o ódio(ainda que em segredo),dia virá em que o preço será cobrado em sangue! QUEM NÃO BUSCA A PAZ de forma sincera,condenado está a fazer a guerra,não a paz!É o que acontece com os árabes e com os palestinos! Cada criança,cada adolescente judeu ou árabe morto, a culpa é dos árabes, pois juraram no passado DESTRUIR,VARRER Israel do mapa...
Meu caro, ambos os lados têm as mãos manchadas de sangue. Ninguém sai ileso, isento de culpa.
Eis aí os acontecimentos...Estranho é quando estes inferiores amantes da "paz",os idiotas de sempre,os tolos idealistas a serviço,como inocentes úteis,do movimento comunista internacional contrário a Israel e aos Estados Unidos(as duas ÚNICAS e VERDADEIRAS NAÇÔES LIVRES E DEMOCRÁTICAS, pois os outros países estão a serviço da ONU,via futuro governo mundial comunista...
Quais são as medidas que você usa para julgar quem são esses "inferiores amantes da paz"? Acredito que a questão aqui não é de inferioridade, e sim de princípios. Qualquer que ame a paz está de mãos dadas com o Príncipe da Paz. Ainda que receba a alcunha de "idiota", ou "tolo idealista". Você fala de uma suposta conspiração comunista, via ONU, para dominar o mundo. Onde você esteve nestes últimos vintes anos? Não lhe informaram que o Muro de Berlim caiu, e com ele o velho comunismo? A propósito, é graças à ONU que Israel tem hoje um pedaço de chão. E quem disse que os EUA e Israel são as únicas nações democráticas da Terra? Ledo engano. Os Estados Unidos são democráticos quando se trata de assuntos internos, mas quando o assunto é externo, muitas vezes eles têm apoiado ditaduras e ajudado a derrubar governos eleitos pelo povo. Veja o que aconteceu com o Chile e com o próprio Brasil.
Interessa, pois, enfraquecer,via Guerra Assimétrica, Israel e os Estados Unidos da América do Norte!),estarem sempre do lado errado,ou seja,a favor dos palestinos,dos árabes,com seus grupos terroristas ou movimentos esquerdistas! Não surpreende a simpatia da mídia em geral pelos terroristas árabes! Para a mídia comunista, Israel é o vilão, cujo seu povo vive a democracia; já os terroristas árabes (palestinos) são os santinhos, podem fazer atentados e jogar mísseis contra a população israelense! Curiosa essa mídia e certos presidentes espalhados pelo mundo! Falam,falam,e falam em paz,mas não desarmam o braço armado dos terroristas árabes!Ao contrário, querem que o país vítima dos terroristas árabes enfraqueça e se candidate a ser morto qual um animal indefeso! Estranho, muito estranho... Como é bonito falar, falar e falar em paz, mas não movem uma palha sequer de fazerem, de fato, alguma coisa...Não, isso não! Falar é mais fácil, sempre! É é tão bonitinho falar em paz, não é mesmo?,e exigir dos outros que façam alguma coisa! Words,words,words...palavras, palavras, palavras...paz, paz, paz... Israel, lúcida e inteligentemente, aprendeu que não deve esperar ajuda de quem não pode ajudá-los, pois Israel depende de si mesmo para sobreviver e resistir ao desejo de extermínio antiquíssimo por parte dos árabes... Ou Israel luta para sobreviver, ou perecerá,tão certo como o fato de o Sol aparecer no horizonte todas as manhãs... Já os palestinos e árabes em geral, que ensinam seus filhos desde a tenra idade a odiarem Israel e seu povo,terão como destino a morte,COMO JÁ ESTÁ ACONTECENDO, mais uma vez! Pais irresponsáveis! Pais doentes! Pais desnaturados! Pais malditos! Pais desgraçados! A vida para eles é um reflexo dos desejos acalentados em seus corações cheios de rancor, ódio e desejo de morte dos israelenses...
É... parece que o ódio que embala ambos os povos daquela região conseguiu lhe contagiar. Não é necessário ensinar os filhos a odiarem aqueles que destróem suas casas, e matam seus familiares. Só há uma maneira de romper com este ciclo de ódio: submeter-se ao maior de todos os mandamentos, o amor. E nisso, os israelenses têm responsabilidade maior, haja vista que foram seus ancestrais que receberam das mãos de Deus as tábuas da Lei.
Chega desse "politicamente correto", refúgio dos fracos e covardes! Saiam do armário de uma vez! Escolham de cada lado querem defender: Israel que só quer viver em paz, ou os árabes, que não descansarão enquanto não matarem e expulsarem todos os israelenses ou judeus de Israel! Pelas fotos percebo bem de que lado você está, blogueiro! Pensas que todos deixam-se iludir por emoções suscitadas por fotos? Primeiro a racionalidade, depois o luxo das faculdades primitivas! Do contrário seríamos como animais, agindo meramento por impulsos primitivos, como emoções, instintos de agressividade, humores alterados etc! É a última vez que acesso o seu blog! PS.:Você não entende o apreço do mundo por Israel porque você não sabe a diferença entre terrorismo e outros conflitos, sem o recurso do terror como arma política!
Não acho que devemos tomar partido por um dos lados, e sim pela justiça, não importa quem saia beneficiado. O que Israel quer não é simplesmente viver em paz, mas retomar o controle de toda a região, seja por força ou por violência. Quanto a diferença entre terrorismo e "outros conflitos", não é tão fácil de distinguir. Ambos ceifam vidas inocentes. Para que uma guerra seja legítima, deve ser travada em terreno neutro, sem atingir a vida de civis. O terrorismo é abominável! E a guerra, quando travada fora das regras dos organismos internacionais, igualmente o é. Em termos de estragos, qual a diferença entre um homem-bomba e uma bomba lançada de um caça?
Já um esquerdista, um comunista vê com normalidade apoiar grupos terroristas, principalmente se estes atacam os civis de nações tão democráticas como os estados Unidos e Israel! Seu blog é uma tristeza, um desapontamento só! Você vive do quê?
Meu caro, não sou esquerdista. Aliás, acho anacrônico falar de esquerdismo em pleno século XXI. Os grupos terroristas devem ser duramente combatidos e desarticulados, mas com inteligência. Israel se carta de ter o mais avançado organismo de inteligência do mundo. Ora, por que não o usa para destruir o Hamas? Por que atacar alvos civis? Com isso, Israel está apenas dando munição para os seus inimigos. E pior: estão alimentando o ciclo do ódio, e garantindo a próxima geração de terroristas. No mais, obrigado pelas críticas, e desculpe desapontá-lo.

De que eu vivo? Diga primeiro quem você é, depois lhe responderei, ok?

No amor de Cristo, o Príncipe da Paz.

Christus Victor! Semper Invictus!


* Não me refiro aos bombardeios da última semana, mas aos bombardeios ocorridos às vésperas das últimas eleições em Israel. 

sexta-feira, julho 25, 2014

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Não se atreva a sabotar a subversão!



Por Hermes C. Fernandes

Era 13 de Maio de 2006 quando iniciei este blog. Coincidentemente, o dia em que se comemora a abolição da escravidão no Brasil. Portanto, mais de oito anos se passaram desde que começamos a divulgar a subversão reinista. Termos como “desigrejados” foram cunhados pela primeira vez aqui. Até o momento, temos 2234 artigos, cerca de três milhões de visitas, e alguns milhares de amigos nas redes sociais (mais de 10 mil só no twitter e outros 10 mil nos perfis e fanpage do facebook). Sem dúvida, nosso trabalho aqui nos tem rendido muitas alegrias. Muitos membros da Reina são frutos dele. Recebemos muitos convites para ministrarmos em diversas denominações pelo Brasil afora e no Exterior. Publicamos 23 livros, dezenas de DVD’s. E agora mesmo estou trabalhando na gravação de um CD de canções de nossa autoria. Apesar dos resultados que julgamos promissores, há algo que ainda me incomoda: muitos dos que nos acompanham, todavia, não compreenderam o significado que atribuímos à palavra “subversão”. Por mais que nos esforcemos, sempre haverá quem distorça o que buscamos compartilhar. Foi assim com Paulo e suas epístolas, por que seria diferente conosco?

Permita-me tentar desfazer alguns mal entendidos acerca da subversão de que tanto falamos.

1 – Subversão não é aversão à igreja – Em momento algum propus um levante contra a igreja. Porém, alguns embarcaram na subversão à sua própria maneira e a usaram para vomitar todo ódio que nutrem pela igreja. O que propomos é uma mudança do paradigma eclesiológico. Porém, não se pode prescindir do único instrumento estabelecido pelo próprio Deus para que a luz do Evangelho alcance as nações. Não há plano B! Nenhum rio tem culpa dos detritos que foram lançados em suas águas, comprometendo sua pureza original. Desistir da igreja é abortar o embrião da nova humanidade. Quem não ama a igreja, tampouco ama quem a levantou e garantiu que contra ela não prevaleceriam as portas do inferno.

2 – Subversão não é diversão – Reconhecemos o papel que a cultura tem e acolhemos todo tipo de manifestação cultural, porém, não ignoramos os riscos por trás da política do “pão e circo”. Reduzir a proposta do evangelho a entretenimento, seja de que espécie for, é transformá-lo num instrumento de entorpecimento das massas à serviço dos poderosos. O que nossa gente precisa é de menos “tira o pé do chão” e mais pés fincados no chão da realidade, menos mãos levantadas e mais mãos estendidas ao próximo, menos shows e mais demonstração de amor.

3 – Subversão não é inversão – Há quem pense haver algum mérito em ser do contra e nesta onda acabam por insurgir-se contra valores caros ao evangelho. Jamais deveríamos nos esquecer da admoestação divina: Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!”(Isaías 5:20). Isso nada tem a ver com legalismo, mas com coerência.

4 – Subversão não é perversão – Usar o evangelho da graça como justificativa para uma vida desregrada é um absurdo desmedido. “De Deus não se zomba”, adverte o apóstolo. “Tudo que o homem semear, isto também ceifará” (Gl.6:7). A liberdade que a graça nos confere não serve de pretexto para “dar ocasião à carne”, mas de incentivo para que sirvamos uns aos outros em amor (Gl.5:13). Paulo teve que cortar um dobrado com os que usavam o evangelho como desculpa para as suas perversões. Foi a estes que ele direcionou sua célebre pergunta: Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum” (Rm.6:15).

5 – Subversão é conversão – Converter-se é dar uma guinada de 180º. Porém, alguns ficam tão animados com a proposta subversiva do evangelho que acabam dando uma guinada de 360º, o que significa que voltam exatamente à posição anterior. Ou como diz Pedro, “o cão volta ao seu próprio vômito e a porca lavada volta a revolver-se na lama” (2 Pe.2:22). Quando acontece a verdadeira conversão, o eixo de nossa existência deixa de ser nosso “eu” e o propósito de nossa vida deixa de ser o nosso aprazimento para ser a glória de Deus e o bem do próximo. Olhamos para a nossa vida pregressa e sentimos nojo (Ez.36:31). Quem vive vangloriando-se de suas façanhas acaba por demonstrar que o eixo de sua vida ainda não se deslocou. Sem conversão a subversão não passa de uma utopia. Quem se acha o maior jamais se prestará a servir o menor, o que se encontra na ponta da fila nunca cederá seu lugar ao último, o esbofeteado jamais oferecerá a outra face, etc. Portanto, antes de sairmos por aí detonando os outros, olhemos para nós mesmos e verifiquemos se, de fato, nossa vida é uma amostra grátis do que o evangelho real e subversivo é capaz de promover.


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A Química do Amor e a Fotossíntese da Árvore da Vida




Por Hermes C. Fernandes

Somos ramos da Árvore da Vida que é Cristo, plantados à margem do Rio da Vida, o Espírito Santo, e nosso objetivo é duplo: produzir frutos para Deus, e remédio para as nações através de nossas folhas (Ez.47:12). Sempre que me deparava com essa passagem em Ezequiel, me perguntava em que sentido nossas folhas curariam as nações.

Para que servem as folhas de uma árvore, afinal? Para produzir o oxigênio. Isso se dá através de um processo conhecido como fotossíntese.

Para que esse processo ocorra, é necessário a atuação de três agentes: o sol, com a sua luz (foton); o gás carbônico produzido por todos os que respiram, e que é considerado nocivo para nós mesmos; e as folhas, com seu poder de processar esse gás carbônico, devolvendo-o à atmosfera em forma de oxigênio.

Interessante essa analogia... Recebemos de Deus o bem, mas por causa de nossa natureza caída, o bem passa por nós, e transforma em algo nocivo aos nossos semelhantes e a nós mesmos. Recebemos da natureza o oxigênio, que depois de passar por nós, se transforma em gás carbônico. Nossa natureza caída transforma remédio em veneno, vida em morte, amor em ódio, justiça em vingança.

Não precisamos nos esforçar para isso. Está em nossa natureza. Por isso, Paulo dizia: "Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum. Com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem" (Rm.7:18).

Deus, em Sua infinita sabedoria, plantou no meio do Seu Jardim (humanidade) a Árvore da Vida. Aos nos convertermos a Ele, tornamo-nos ramos dessa árvore. E nossa suprema missão é reverter esse quadro danoso, esse círculo vicioso de ódio, rancor e vingança.

Mas não podemos fazê-lo sozinho. Não é na força de nosso braço. Como diz a Escritura, não é por força, nem por violência, pelo Espírito. Lá fora está o Mundo sem Deus, a humanidade caída, produzindo males para si mesma. Nosso papel, como Igreja de Cristo, é romper com o ciclo da maldade, e transformar o mal que recebemos em bem.

Como se dará essa "química"? Como processá-la? Que misteriosa alquimia é esta, capaz de transformar "ferro velho" em ouro?

Sozinhos? Impossível! E é aí que entra o único que pode produzir a síntese perfeita: Deus.

Tal qual o Sol na fotossíntese, é o Pai Celestial que origina todo o processo. Como vimos, a Árvore da Vida é Cristo, do qual somos ramos. As folhas representam a manifestação da natureza divina em nós, capaz de transformar o mal recebido em bem.

A Igreja de Cristo é como um poderoso reator, capaz de processar todo mal que recebe, e devolvê-lo ao mundo em forma de perdão e amor.
"Abençoai aos que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis (...) A ninguém torneis mal por mal (...) Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem." Romanos 12:14,17a,21
"Não pagueis mal por mal, nem injúria por injúria. Pelo contrário, bendizei, porque para isso fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança (...) Tende uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam do vosso bom procedimento em Cristo. Melhor é que padeçais fazendo o bem (se a vontade de Deus assim o quer), do que fazendo o mal." 1 Pedro 3:9,16-17
E é assim que o bom perfume de Cristo é extraído de nós, e exalado no mundo. Em vez de questionarmos a razão de sofrermos, devemos receber a injustiça, e devolvê-la ao mundo em forma de amor. E será assim que o mundo passará por aquilo que chamo de amorização. A Terra se encherá do conhecimento de Deus, e a fragrância de Seu amor reunirá todos os povos ao redor do Trono da Graça.

quinta-feira, julho 24, 2014

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O Deus Jardineiro



Por Rubem Alves


Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras e ignorância da Palavra". A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria."(Clique aqui para você ler um texto sobre jardins)

Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.


O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.

Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.

Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constroem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!

Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.

Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:

"No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta."

Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso." (O retorno eterno, p 65).

Rubens Alves (Título original: Jardim)

quarta-feira, julho 23, 2014

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Em boca fechada não entra mosquito!


Por Hermes C. Fernandes

Há momentos em que a melhor coisa é calar-se. Como diz a Escritura, “há tempo de estar calado, e tempo de falar” (Ec.3:7b).  Mesmo quando é tempo de falar, devemos nos lembrar que de toda palavra frívola que dissermos, um dia teremos que prestar contas a Deus (Mt.12:36).

Convido-os a examinar um episódio bíblico acerca de alguém que abriu a boca, quando deveria mantê-la fechada.
“Existiu no tempo de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote chamado Zacarias, da ordem de Abias; sua mulher era das filhas de Arão, e o seu nome era Isabel. Eram ambos justos perante Deus, andando sem repreensão em todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Mas não tinham filhos, porque Isabel era estéril, sendo ambos avançados em idade” (Lucas 1:5-7).
Imagino quantas vezes Zacarias deve ter questionado a Deus por causa da esterilidade de sua mulher. Por que, Senhor? Nós temos procurado ser irrepreensíveis diante de Ti!

Para a aquela sociedade, não havia vergonha maior do que a esterilidade. Filhos representavam a bênção de Deus sobre a vida do casal. Não tê-los era visto como uma maldição. Provavelmente, Zacarias e Isabel devam ter desistido de pedir a Deus tal concessão. Afinal, já estavam velhos, e não fazia sentido continuar rogando que Deus lhes desse um filho. Mesmo assim, Zacarias não deixou de servir a Deus como sacerdote.
“Exercendo ele o sacerdócio diante de Deus, na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso” (vv.8-9).
Naquela época os sacerdotes eram organizados por turno. O culto a Deus não poderia ser interrompido. Vinte e quatro horas por dia os sacerdotes se revezavam no Templo. Mas como havia muitos sacerdotes em cada turno, era costume lançar sorte para ver qual deles entraria no Templo para oferecer o incenso. Naquele dia, a sorte caiu sobre Zacarias.

E se ele não estivesse lá? Se achasse que já era hora de se aposentar devido à sua avançada idade? Ou se simplesmente houvesse faltado seu turno? É possível que não fosse a primeira vez que sorte lhe tenha escolhido. Mas desta vez algo surpreendente o esperava do lado de lá do santuário.
“Chegada a hora de oferecer o incenso, toda a multidão do povo estava fora, orando. Então um anjo do Senhor lhe apareceu, em pé, à direita do altar do incenso. Vendo-o, Zacarias perturbou-se, e o temor apoderou-se dele. Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas. A tua oração foi ouvida. Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João. Terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento” (vv.10-14).
Às vezes, para ouvirmos a voz de Deus, precisamos nos separar da multidão. Freqüentemente, Jesus Se separava da multidão para conversar com o Pai.

A inesperada aparição angelical perturbou a Zacarias. E mais inusitado ainda foi a mensagem que o anjo lhe trouxe: A tua oração foi ouvida!

Quantos anos se passaram
 desde que Zacarias fizera a Deus aquela oração? E quem disse que oração tem prazo de validade? Há orações que fizemos anos atrás, e das quais já até nos esquecemos, mas que ainda serão respondidas.

A esta altura, o velho sacerdote já desistira de ser pai. Porém, Deus não desistira de lhe conceder tal prazer. Zacarias interrompeu o anjo para perguntar: “Como saberei isto? Eu sou velho, e minha mulher é avançada em idade” (v.18). Em outras palavras: - Como posso ter certeza de que isso não é uma pegadinha, ou uma piada de mau gosto? Agora já é tarde. Sua mensagem chegou com muitos anos de atraso. Talvez ele tenha pensado: - Será que me enganei? Entrei no turno errado? Não é possível que esta mensagem seja pra mim! Não! Zacarias não entrou no turno errado! O anjo não errou o endereço da mensagem! Chegara o momento determinado por Deus para que sua oração fosse atendida.

Seu questionamento lhe custou caro:
“Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para falar-te e dar-te estas alegres novas” (v.19).
Era como se o anjo lhe dissesse: - Olha aqui, meu amigo. Assim como você estava escalado para estar aqui e agora, eu fui escalado dentre os milhões de anjos para lhe trazer esta mensagem. Não me faça perder meu tempo!

E o anjo continuou:
“E agora ficarás mudo, e não poderás falar até o dia em que estas coisas aconteçam, porque não creste nas minhas palavras, que a seu tempo se cumprirão” (v.20).
Eu fico imaginando quando Deus escolheu Gabriel para trazer a mensagem a Maria. Ele deve ter se sentido muito honrado. Mas antes que saísse em direção a Nazaré, o anjo recebeu a notícia de que fora escalado para antes levar uma mensagem a um velho sacerdote. – Ok. Lá vamos nós! Deve ter pensado o anjo. Daí, quando chega lá, o sacerdote duvida de sua palavra. – Quem este velho pensa que é? Será que ele sabe com quem está falando? Como ele se atreve a duvidar de minha palavra? Quer saber? Vou te deixar mudo por nove meses! Talvez assim você aprenda a não questionar a palavra de Deus!

E agora? Como explicar ao povo o que estava acontecendo?
“O povo estava esperando a Zacarias, e maravilhava-se de que tanto se demorasse no templo. Saindo ele, não lhes podia falar. Então entenderam que tinha visto uma visão no templo. Falava-lhes por sinais, e ficou mudo” (vv.21-22).
Por que Zacarias se demorara tanto lá? A mensagem do anjo foi rápida e objetiva. O tempo restante ele gastou imaginando que desculpa dar ao povo que esperava lá fora. E ele sequer pôde voltar pra casa depois da aparição angelical!

Provavelmente aquela era sua despedida do ofício sacerdotal, e teria que ficar ali até o fim do seu turno, pra então desfrutar de sua merecida aposentadoria. Só depois de “terminados os dias de seu ministério, voltou para sua casa” (v.23). Afobado como cru, já diziam os antigos. Se ele pôde esperar tantos anos, por que não poderia esperar alguns dias?

Mesmo ansioso pra ver a promessa cumprida (e isso mediante o cumprimento de seu dever marital), Zacarias teve que esperar. Imagine ter que exercer seu ministério sem voz!
“Depois daqueles dias Isabel, sua mulher, concebeu, e por cinco meses se ocultou, dizendo: Assim me fez o Senhor, nos dias em que se dignou retirar o meu opróbrio perante os homens” (vv.24-25).
Repare nisso: Isabel percebeu o que seu marido não pôde ver. Deus não tem prazer de ficar protelando em atender nossos pedidos. Porém, Ele tem Seu próprio cronograma. Seu compromisso maior não é com nossos desejos, mas com Seus propósitos. O propósito de Deus era que o fruto do ventre de Isabel fosse aquele que prepararia o caminho para Seu Filho Jesus.

Para o velho sacerdote que já se preparava para despedir-se da vida, a questão era: Quem me sucederá? Quem dará seqüência ao meu trabalho? Mas para Deus a questão era outra: Quem precederia Seu Filho no Mundo? Quem Lhe abriria o caminho? Ele teria que nascer pouco antes de Jesus, sendo assim Seu contemporâneo.

Para Zacarias e Isabel, seu filho era apenas o cumprimento de um desejo de juventude. Mas para Deus, aquela criança seria o mais importante ser humano que passaria pela Terra.

Para eles, um desejo. Para Deus, um propósito.

Se ele nascesse anos antes,
 talvez morresse antes que o Messias aparecesse. Talvez jamais se encontrassem. Talvez tivesse sua cabeça em um prato muito antes que o filho de Maria fosse depositado numa manjedoura.

Os propósitos divinos são sincronizados!

Por isso, o mesmo anjo que levou a mensagem ao velho sacerdote, mal teve tempo de respirar, e seis meses depois, partiu em direção à Nazaré para anunciar a uma virgem desposada com um carpinteiro o nascimento do Salvador da Humanidade (v.26).

Se Deus respondesse as orações de Isabel em sua juventude, jamais teria havido aquele memorável encontro entre ela e Maria, em que seu nenê se mexera em seu ventre, e ela fora cheia do Espírito Santo (v.41).
“Completou-se para Isabel o tempo de dar à luz, e teve um filho. Os seus vizinhos e parentes ouviram que Deus tinha usado para com ela de grande misericórdia, e alegraram-se com ela. Ao oitavo dia foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de Zacarias, seu pai. Respondeu sua mãe: Não! Ele será chamado João. Disseram-lhe: Ninguém há na tua parentela que tenha este nome. Perguntaram, por acenos, ao pai do menino que nome queria que lhe dessem. Pedindo ele uma tabuinha, escreveu: O seu nome é João. E todos se admiraram. Imediatamente a boca se lhe abriu, a língua se lhe soltou e falava, louvando a Deus” (vv.57-64).
Isabel passou cinco meses escondida, talvez para evitar o embaraço de ter que explicar como uma anciã poderia ter-se engravidado. Deve ter sido difícil para ela, uma vez que seu próprio marido estava mudo. Ela passou os primeiros meses de gravidez sem ter com quem conversar, isolada de tudo e de todos. Tinha que contentar-se com uma comunicação feita por sinais.

Quando ela resolveu voltar ao convívio social, sua barriga já estava grande, pois já estava no sexto mês de gravidez. Talvez tenha sido a visita de Maria que a encorajara a sair de casa, ou a receber visitas. As pessoas começaram a comentar quão grande milagre Deus fizera na vida daquele casal de anciãos.

Finalmente, o menino nasceu. Porém, Zacarias continuou mudo. Ou talvez já até lhe houvesse sido devolvida a fala, mas ele se acostumou com a mudez.

No oitavo dia, quando foram apresentar o menino no templo, houve uma discussão sobre que nome se deveria dar a ele. A maioria achava que o melhor nome seria o do próprio pai, homenageando o velho sacerdote. Todos achavam que ele concordaria com isso.

Zacarias Junior! Aquele que seria uma extensão do seu ministério. Mas Deus tinha outros planos. Enquanto o cenário do ministério de seu pai era o templo, o cenário em que se daria seu ministério seria o deserto. Enquanto seu pai se vestia de linho fino e estola, conforme a tradição sacerdotal, ele se vestiria de pelo de camelo. Enquanto seu pai se alimentava da carne dos sacrifícios feitos no templo, ele se alimentaria de mel e gafanhoto.

Definitivamente, aquele menino não seria a continuidade do seu ministério. Era algo completamente inovador.

Depois de alguma discussão sobre o assunto, resolveram consultar o sacerdote mudo: - E aí, o que você pensa? Não acha que o menino deve levar seu nome? Sem saber como se expressar, Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: - Seu nome é João!

Fora este o nome que ele ouvira dos lábios do anjo. Fora este o nome que sua mulher queria dar ao menino. Quem disse que Deus tem compromisso com a maioria? Quem disse que a voz do povo é a voz de Deus? Quando Zacarias opinou, sua fala voltou.

Agora ele estava em concordância com Deus. Seus questionamentos foram substituídos por louvores. É preferível ficar mudo a questionar os propósitos divinos. É melhor se calar do que querer impor sua própria vontade.

Quantas vezes colocamos tudo a perder com o que dizemos? Achamos que Deus nos deve explicação. Que as coisas devem acontecer à nossa maneira. Ledo engano! Deus é soberano, e sabe exatamente o que está fazendo.

Vale aqui a recomendação de Pedro:

“Se alguém fala, fale segundo as palavras de Deus...” (1 Pe.4:11).

Se não for pra falar em consonância com os oráculos de Deus, é melhor que se cale! “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus!” (Sl.46:10a).

Naquele dia o velho sacerdote descobriu que é melhor contrariar a vontade da maioria, do que se levantar contra a vontade de Deus. Os únicos desejos com os quais Deus está comprometido são com aqueles que Ele mesmo gerou em nossos corações. Ele não está comprometido com nossos caprichos, com nossa vaidade, com nossos projetos particulares.

A oração de Zacarias foi respondida porque refletia o anelo de Deus.

João, o apóstolo amado, escreve em sua primeira epístola:
“Esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que nos ouve em tudo o que lhe pedimos, sabemos que já alcançamos os pedidos que lhe fizemos” (1 Jo.5:14-15).
Por isso, um dos critérios para que tenhamos nossas orações atendidas, é que estamos n’Ele e a Sua Palavra esteja em nós (Jo.15:7). É por meio de Sua Palavra em nós que descobrimos a vontade do Senhor para a nossa vida. E assim, nossos pedidos serão sempre de acordo com Sua vontade. Ele terá operado em nós, tanto o querer, quanto o realizar (Fp.2:13). Teremos aprendido a nos deleitar n’Ele, para que nossos desejos coincidam com os d’Ele, e assim, sejamos plenamente atendidos (Sl.37:4).

Suas respostas vêem sempre no tempo certo. Nem antes, nem depois. Nada é capaz de alterar Seu cronograma.

Ao dar ao menino o nome ordenado por Deus, Zacarias reconheceu que João Batista era muito mais do que uma resposta às suas orações. Era a manifestação do propósito de Deus para o Mundo.

Lembre-se: Acima de nossos desejos, está o propósito de Deus.

Que sua vida seja o ventre através do qual os propósitos divinos se manifestarão.

segunda-feira, julho 21, 2014

5

Oração, ação, cidadania e o sonho de todos nós


Martin Luther King, Jr. orando durante
um protesto pelos direitos civis dos negros


Por Hermes C. Fernandes

EU TENHO UM SONHO... 

Sonho com o dia em que a igreja cristã deixará as quatro paredes e sairá às ruas clamando por justiça e paz. 

Sonho ver a liderança cristã despreocupada com os holofotes, descendo dos seus púlpitos, gastando a sola de seus sapatos juntamente com o seu povo. 

Sonho com uma igreja verdadeiramente profética, que denuncia a injustiça enquanto anuncia a boa nova do reino de Deus. Uma igreja movida por compaixão e não por interesses políticos. 

Sonho com uma igreja cujo discurso seja menos moralista e muito mais ético, engajado nas transformações sociais, que não coe mosquitos, enquanto se engasga com dromedários. 

Um gigante já acordou (BRASIL). Pena que o outro parece está acordado, mas está sonâmbulo (IGREJA).

Desperta, povo de Deus. Não é hora de demonstração de força, e sim de manifestação do amor que foi derramado em nossos corações. 

Saiamos ao encontro do Deus que se esconde no clamor do pobre, do injustiça, do discriminado e do excluído.

Orar é importante? Sem dúvida. É orando que exercemos nossa cidadania celestial. Mas a equação só está completa quando acrescentamos ação à oração. Agindo exercemos nossa cidadania terrena. Lembremo-nos que a vontade de Deus deve ser feita assim na terra como no céu.

Vozes que ecoam no céu devem reverberar nas avenidas da cidade. Joelhos que se dobram ante a soberania de Deus não podem vacilar ante às injustiças dos homens. Mãos que se estendem a Deus em louvor devem ser igualmente estendidas ao próximo em amor. 

sexta-feira, julho 18, 2014

2

Sendo pontes sobre abismos




Por Hermes C. Fernandes

"Grande, no homem, é ser ele uma ponte, não um objetivo: 
o que pode ser amado no homem é ser ele uma passagem e um 
declínio. Amo aqueles que não sabem viver a não ser como 
quem declina, pois são os que passam." Nietzsche 


Há pessoas que recebem de Deus o dom especial de serem pontes. Sem o menor recato, disponibilizam-se para prover conexão entre os homens. Seu habitat natural são os bastidores. Os holofotes não as atraem. Como enceradeiras, contentam-se em trabalhar para fazer o chão brilhar.

Dentre os discípulos de Jesus, provavelmente André era o que apresentava esta característica. Seu nome vem do grego Andros, e significa “homem”. Um judeu com nome grego. Uma ponte entre duas culturas diametralmente diferentes.

André também serviu de ponte entre duas eras representadas pelos ministérios de João Batista e Jesus. Ele foi um dos dois discípulos de João que testemunharam quando este, vendo Jesus passar, disse: “Eis aqui o Cordeiro de Deus”. Não foi preciso nem uma palavra a mais. Imediatamente, André deixou a João para seguir a Jesus.

Tão logo encontrou a Jesus, André dirigiu-se a seu irmão, Simão Pedro, e contou-lhe: “Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo). E levou-o a Jesus” (Jo.1:35-42). Portanto, ele também foi ponte entre Pedro e Jesus.

Ele jamais poderia supor que seu irmão seria o príncipe dentre os apóstolos. Em momento algum André requereu tal posição por ter sido o primeiro a seguir a Jesus. Pelo contrário, contentou-se em ficar conhecido como  "o irmão de Simão Pedro".

Foi ele e seu irmão que ouviram de Jesus a promessa de que seria feitos pescadores de homens. Considerando o significado de seu nome, Jesus estava dizendo que eles pecariam muitos outros “Andros” (Andrés), que por sua vez, também seriam pontes para tantos outros.

Quer estejamos na frente ou atrás das cortinas, todos somos chamados a sermos pontes.

Um dos títulos recebidos pelo papa é de sumo pontífice, que quer dizer, a ponte principal que liga Deus aos homens. À luz das Escrituras, somente Cristo poderia ser chamado assim. Pois “há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Timóteo 2:5). Todavia, quando ingressamos em Seu Corpo, tornamo-nos pontes de acesso para que outros homem afluam à Ponte que nos conecta a Deus. Por isso, Apocalipse 5:10 diz que somos um reino de sacerdotes (pontífices).

André também desempenhou papel importante na ocasião em que Jesus alimentou a multidão com apenas cinco pães e dois peixinhos. Ele foi a ponte entre Jesus e o menino que disponibilizou seu lanche. Enquanto Filipe calculava o custo que teriam para alimentar tanta gente, André tratou de se meter na multidão para garantir ao menos a comida do Mestre (Jo.6:8-9). Nem sempre temos a solução para um problema, porém, podemos ser ponte entre o problema e a solução. Sem a intervenção de André, a multidão teria saído faminta e desfalecido pelo caminho. 

Filipes costumam ser racionais, ponderados. Andrés são mais impulsivos, intuitivos, agindo mais com o coração do que com a mente. Uns são pragmáticos e realistas. Outros, românticos e idealistas.

Quando alguns gregos vieram em busca de Jesus, Filipe ficou sem saber como agir e recorreu a André. Então, ambos os introduziram a Jesus (Jo.12:20-22). É bom que tenhamos Filipes, mas estes precisam ter Andrés que os estimulem a dar os passos necessários. Mais uma vez, André foi ponte

André foi um dos apóstolos que mais trabalharam para que o Evangelho alcançasse lugares longínquos, chegando até a Rússia. Conta-se que André foi crucificado numa cruz em forma de “X”. Durante os dois dias em que agonizou, despojou-se de suas vestes e bens, doando-os aos seus algozes. Mesmo em seus últimos momentos de vida, André não se negou a ser ponte. O que não lhe serviria mais, poderia ser bênção na vida de outros, mesmo que estes fossem seus piores inimigos.