quinta-feira, janeiro 29, 2015

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O papel da igreja no Carnaval: Entre Blocos e Retiros


Por Hermes C. Fernandes

Uma parábola sobre o papel da igreja durante o Carnaval

Epêneto era o presbítero responsável pela igreja em Roma, desde que Priscila e Áquila tiveram que deixar a cidade em busca de novos campos missionários. Epêneto foi um dos primeiros a se converterem através do trabalho realizado por Paulo nessa cidade.

Aquela igreja era muito ativa, sempre aberta a acolher as pessoas. Quando havia algum cataclismo, fome ou guerra, os cristãos se mobilizavam para socorrer as vítimas. Por causa de seu envolvimento com a dor humana, ganhou a simpatia de todos, inclusive de funcionários do palácio de César.

Num belo dia, ouviu-se o clangor do clarim. Todos se reuniram para ouvir o que o mensageiro do império tinha para anunciar. Em duas semanas, o exército romano estaria chegando de uma campanha militar bem-sucedida. O próprio César o receberia com uma Parada Triunfal, que seria seguida de um feriado prolongado dedicado aos deuses Marte e Saturno, também conhecidos como Apolo e Baco, divindades da guerra e do vinho, respectivamente. Seria uma grande festa, regada a bebidas alcoólicas e todo tipo de luxúria. A população sairia às ruas para assistir ao desfile das tropas romanas, dando-lhes boas-vindas, e assistiriam à execução de milhares de prisioneiros. Ninguém trabalharia naqueles dias.

Epêneto ficou preocupado com a notícia. Qual deveria ser o papel da igreja durante essa festa pagã? Ainda inexperiente como líder, reuniu alguns dos mais antigos membros da igreja para discutir o que fazer.

Um deles, chamado Narciso, pediu a palavra e deu sua sugestão:

- Amados no Senhor, por que não aproveitamos o ensejo para promover um desfile paralelo, onde demonstraremos ao mundo a nossa força, revelando a todos nossa lealdade ao Rei dos reis, Jesus Cristo? Podemos até copiar algumas de suas canções, adaptando-as à nossa fé. Em vez de exibirmos prisioneiros, exibiremos testemunhos daqueles que foram salvos. Vamos montar nosso próprio bloco, quer dizer, nossa própria parada triunfal. Pode ser uma grande oportunidade evangelística.

Epêneto, depois de algum tempo pensativo, respondeu: Caro Narciso, a idéia parece muito boa. Porém, quem ouviria nossa voz durante os momentos de folia? Nosso modesto bloco se perderia no meio de toda aquela devassidão. Ademais, a maioria das pessoas estará embriagada, incapaz de entender nossa mensagem. Também não estamos preocupados em dar uma demonstração de força. Jesus disse que nosso papel no mundo seria semelhante à de uma pitada de fermento, que de maneira discreta, sem chamar a atenção para si, vai levedando aos poucos toda a massa. Por isso, acho que sua idéia não é pertinente. Quem sabe em gerações futuras, haja quem a aproveite?


Levantou-se então Andrônico, que gozava de muito prestígio por ser parente de Paulo, e sugeriu:

- Amados, durante o Desfile Triunfal e as Saturnais, a situação espiritual da cidade ficará insuportável. Divindades pagãs serão invocadas, orgias serão promovidas em lugares públicos à luz do dia. Não convém que estejamos aqui durante essa festa da carne. A melhor coisa a fazer é nos retirarmos, buscarmos um refúgio fora da cidade, e aproveitamos esse tempo para nos congratularmos, sem nos expormos desnecessariamente às tentações da carne.

Todos acenaram com a cabeça, demonstrando terem gostado da idéia. Já que seria mesmo feriado, ninguém precisaria trabalhar. Um retiro parecia a melhor sugestão.

O velho presbítero ficou um tempo em silêncio, meditando. Todos estavam atônitos esperando sua palavra, quando mansamente respondeu:

- Irmãos, não nos esqueçamos de que somos o sal da terra e a luz do mundo. Se no momento de maior trevas nos retirarmos, o que será desta cidade? Por que a entregaríamos ao controle das hostes espirituais das trevas? Definitivamente, nosso lugar é aqui. Não Precisamos de exposição, como sugeriu nosso irmão Narciso, nem de fazer oposição à festa, retirando-nos da cidade, como sugeriu Andrônico. O que precisamos é estar à disposição para acolher aos necessitados, às vítimas da violência, aos desassistidos, aos marginalizados.

A propósito, não temos estado sempre disponíveis para atender as pessoas durante as tragédias que tem abatido o império? E o que seriam tais desfiles, senão tragédias morais e espirituais? Saiamos às ruas, mesmo sem participar da folia, e estendamo-los as mãos, em vez de apontar-lhes o dedo, oferecendo compaixão em vez de acusação, amor em vez de apatia. Que as casas que usamos para nos reunir estejam de portas abertas para receber quem quer que seja, e assim, revelaremos ao mundo Aquele a quem amamos e servimos. Afinal, o reino de Deus se manifesta sem alarde, sem confetes, sem barulho, mas perturbadoramente discreto.

Depois dessas sábias palavras, ninguém mais se atreveu a dar qualquer outra sugestão.


* Esta é apenas uma parábola que elaboramos para emitir nossa humilde opinião acerca do papel da igreja durante o período carnavalesco.

Postado originalmente em 11/02/2010

terça-feira, janeiro 27, 2015

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Embarque comigo na Máquina do Tempo!

Posando de McFly ao lado do DeLorean


Por Hermes C. Fernandes

Devo confessar: Sou um aficionado por filmes de ficção científica, principalmente quando o assunto é viagem no tempo. Comecei a gostar do assunto ainda criança, quando assistia ao clássico seriado “O Túnel do Tempo”. Já adolescente, elegi a trilogia “De volta para o futuro” como a melhor de todos os tempos. Michael J. Fox interpretava Marty McFly,  o típico adolescente norte-americano dos anos 80, enviado de volta ao ano de 1955 em um carro capaz de viajar no tempo (DeLorean), invenção do excêntrico Dr. Brown. Virei criança quando pude entrar numa réplica do DeLorean na Universal Studios aqui em Orlando anos atrás.

Acho que já assisti a todos os filmes do gênero disponíveis na locadora, desde “A Máquina do Tempo”, até “Efeito Borboleta” e "A mulher do viajante do tempo". Sem contar os livros que li de físicos famosos e suas teorias fantásticas sobre viagem no tempo, entre eles o badalado "O Universo numa casca de noz" de Stephen Hawking. Embora saiba separar ficção da realidade, às vezes transfiro questões levantadas na ficção para o mundo real. Gosto de me debruçar sobre elas em busca de respostas. Não me refiro apenas a questões de cunho cientítico, do tipo "o paradoxo do avô": Se eu viajasse no tempo e matasse meu avô, como eu poderia ter nascido? Refiro-me antes a questões existenciais. Eis uma delas:

Se você tivesse a chance de entrar numa máquina do tempo, você preferiria viajar para o passado ou para o futuro? Certamente, muitos responderiam que adorariam viajar para o passado, para os tempos bíblicos, ou para alguma corte européia da Idade Média, ou mesmo para a idade da pedra. Alguns saudosistas talvez preferissem voltar aos anos 50, para reviver os tempos da brilhantina. Outros prefeririam a efervescência dos anos 60 e 70, para assistir in loco aos grandes festivais de rock como Woodstock. E por falar nisso, atribui-se a Janis Joplin, a grande estrela de Rock dos anos 60 que morreu de overdose, a seguinte frase: “Eu trocaria todos os meus amanhãs por um único dia do meu passado.”

Isto que eu chamo de “nostalgia crônica”. Não se trata de saudade. A gente tem saudade de pessoas, lugares, fragrâncias, sabores. Basta reencontrar aquilo de que sentimos falta, e pronto, matamos a saudade. Mas a nostalgia é diferente. Só se poderia eliminá-la se alguém finalmente inventasse a máquina do tempo. Nostalgia seria, por assim dizer, saudade de um tempo que jamais poderá ser revivido.

Há pessoas que resolveram viver refém deste sentimento. Algumas até se vestem com roupas que já saíram de moda há décadas. É o que se chama de moda “retrô” ou "vintage". Outras usam gírias incompreensíveis para os ouvidos atuais. Vivem contando de como no seu tempo as coisas eram melhores do que as de hoje. No fundo, no fundo, elas sentem saudades de si mesmas, de como se sentiam antes, de suas paixões, de como percebiam a realidade. Parece que as cores do mundo foram desbotando com o tempo.

Quanto a mim, decidi não ser refém do passado. Prefiro que ele seja meu professor, não meu tutor.

Parafraseando Joplin, eu diria que daria todos os meus ontens, por um único dia do futuro. Se eu tivesse a chance de entrar numa máquina do tempo, eu certamente viajaria rumo ao futuro. Não nutro uma visão romântica do passado (apesar de gostar tanto de filmes épicos).

Imagine ter que viver num tempo em que era comum um homem casado escolher um menino de doze anos para ser seu escravo sexual… Pois isso era comum nos dias de Cristo, de Paulo e da igreja primitiva. Imagine viver num tempo em que a escravidão era tolerada por uns e defendida por outros. Imagine viver num tempo em que as mulheres sequer eram contadas, por serem consideradas propriedade e não pessoas. Ou viver num tempo em que o crime, hoje marginalizado, fosse praticado pelo Estado.

Sinceramente, faço uma leitura otimista da história. Vejo a mão de Deus guiando o processo histórico e elevando a civilização humana a outros patamares de compreensão da justiça e da ordem social. Não sou contado entre os que enxergam a mão do diabo em tudo e acham que as coisas devem piorar para que Cristo volte e acabe com bagunça instituída no mundo. Enxergo um futuro promissor para nossa raça. Prevejo a expansão do Reino de Deus e a implementação de Sua justiça entre os homens. Sou adepto de uma escatologia de esperança. 

E aqui, faço minhas as palavras do poeta Lulu Santos:

Eu vejo a vida
Melhor no futuro
Eu vejo isso
Por cima de um muro
De hipocrisia
Que insiste
Em nos rodear...

Homenagem a Luther King em Atlanta, Georgia
Eu sei que com isso acabo me entregando… sou mesmo um sonhador. Quer saber… prefiro a companhia dos sonhadores à companhia dos cínicos. Sonhadores são viajantes do tempo… gente que veio do futuro pra nos contar o que viram por lá.

Martin Luther King Jr. foi um desses “embaixadores do futuro”. Ele vislumbrou o futuro que se insinuava no horizonte temporal. Em suas últimas palavras antes de morrer, declarou: “…eu estive lá, no alto da montanha. Isso não importa. Eu gostaria de viver bastante, como todo o mundo, mas não estou preocupado com isso agora. Só quero cumprir a vontade de Deus, e ele me deixou subir a montanha. Eu olhei de cima e vi a terra prometida. Talvez eu não chegue lá, mas quero que saibam hoje que nós, como povo, teremos uma terra prometida. Por isso estou feliz esta noite. Nada me preocupa, não temo ninguém. Vi com meus olhos a glória da chegada do Senhor".

Chamem-me do que quiser, herege, romântico, louco, não me importo. Eu estive lá… Embarquei na máquina do tempo chamada fé e vi o que nos aguarda. O futuro é feito de sonhos, e a matéria-prima dos sonhos é a fé.

No fundo, somos todos viajantes do tempo. Porém não há como retroceder nele, ou mesmo estacionar, congelá-lo, a ordem é avançar. O futuro nos espera. E quem chegou primeiro lá nos garante que "coisas que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, nem chegaram ao coração, são as que Deus já preparou para os que O amam".

segunda-feira, janeiro 26, 2015

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"Fruto ruim pode estragar todo o cesto?" Debate na TV Boas Novas





Assista também aos demais blocos deste debate no canal do Antenados.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

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Como desarmar uma bomba - Qualquer descuido poderá ser fatal




Por Hermes C. Fernandes

Quem não se lembra de MacGyver e sua fantástica habilidade de improviso? Com um clipe de papel, ele era capaz de desarmar uma bomba. Dizem até que em um dos episódios da série, ele transformou uma velha máquina de lavar em helicóptero. Recentemente, alguém postou nas redes sociais uma foto em que o ator Richard Dean Anderson (o MacGyver na série Profissão: Perigo) aparece mais velho, inconsolável, parado numa estrada com o carro enguiçado com o capuz aberto. Que decepção! Logo ele, o gênio do improviso!

Brincadeiras à parte, vez ou outra, todos temos que bancar o MacGyver. Quem nunca precisou desarmar uma bomba? Não me refiro a um artefato explosivo propriamente, mas a uma situação potencialmente explosiva, capaz de fazer ir pelos ares tudo o que amamos ou que nos tenha custado tão caro.

Como impedir que uma bomba relógio seja detonada depois que o cronômetro entrou em contagem regressiva? Que fio cortar? O vermelho ou o azul? Ou quem sabe, o amarelo? Qualquer erro será fatal.

Segundo as Escrituras, havia um homem muito rico cujas terras ficavam no Carmelo. Seu ramo de atividade era pastoril. Possuía milhares de ovelhas, e tinha a seu dispor muitos tosquiadores. Seu nome, Nabal. Apesar de rico e muito bem casado, Nabal era um troglodita. Homem rude, maligno, que desonrava o sobrenome que carregava. Ao contrário dele, sua mulher, Abigail, era um doce, bonita por dentro e por fora. Juntos formavam uma espécie de versão bíblica do clássico “A Bela e a Fera” (apesar de seu caráter ser tão diferente do da Fera).

À época, Davi estava foragido. Sua cabeça estava a prêmio. Saul o procurava por todos os cantos de Israel, no afã de tirar a vida daquele que se constituía numa ameaça ao seu trono.

Mas Davi não estava só. Com ele estavam ao menos seiscentos homens. Imagine o desafio que era ter que alimentar aquela tropa diariamente. Não sei o que era mais difícil, mantê-los escondidos ou alimentá-los.

Chegando à região do Carmelo, Davi envia dez dos seus moços a Nabal para dar-lhe alguma satisfação e pedir que lhes enviasse algum provento. Davi não estipulou nada. Deixou-o à vontade.

Ora, com seiscentos homens, Davi poderia ter invadido qualquer propriedade e tomado dali o que bem entendesse. Mas ele era um gentleman. Recusava-se a causar prejuízo a quem quer que fosse. Ele preferiu apelar à sua generosidade, não ao seu medo.

Confira o recado que Davi envia a Nabal:

“Assim direis àquele próspero: Paz tenhas, e que a tua casa tenha paz, e tudo o que tens tenha paz! Agora, pois, tenho ouvido que tens tosquiadores. Ora, os pastores que tens estiveram conosco; agravo nenhum lhes fizemos, nem coisa alguma lhes faltou todos os dias que estiveram no Carmelo. Pergunta-o aos teus moços, e eles to dirão. Estes moços, pois, achem graça em teus olhos, porque viemos em boa ocasião. Dá, pois, a teus servos e a Davi, teu filho, o que achares à mão.

Que postura deveríamos esperar de Nabal? No mínimo, decência. Mesmo que não atendesse à solicitação de Davi, ele deveria, no mínimo, responder com civilidade. Em vez disso, ele diz:

“Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos servos há hoje, que fogem ao seu senhor. Tomaria eu, pois, o meu pão, e a minha água, e a carne do meu gado que abati para os meus tosquiadores, e o daria a homens que eu não sei donde vêm?


Quanta arrogância e mesquinhez! Imagine agora a reação de Davi ao receber a resposta malcriada de Nabal. O que esperar do homem “segundo o coração de Deus”? No mínimo, ele deveria simplesmente relevar, deixar pra lá. Mas Davi não está só. Ele precisa alimentar aqueles homens. Em contar que sua vida está correndo risco. Saul está na sua cola. Quanta pressão!

Insatisfeito com a resposta de Nabal, Davi ordena que seus homens cinjam a espada e se preparem para dizimar os homens da casa de Nabal. Ninguém seria poupado. Aquilo não ficaria barato. Em poucas horas, mais precisamente até o amanhecer, não sobraria ninguém daquela casa nem pra contar a história.

“Na verdade que em vão tenho guardado tudo quanto este tem no deserto, e nada lhe faltou de tudo quanto tem, e ele me pagou mal por bem. Assim faça Deus aos inimigos de Davi, e outro tanto, se eu deixar até amanhã de tudo o que tem, até mesmo um menino.

A bomba estava armada. O cronômetro foi ativado. A contagem começou. E agora, quem poderia evitar aquela tragédia? Quem seria capaz de desarmar aquela bomba?

Entra em cena um dos moços de Nabal, membro da brigada anti-incêndio, que percebendo a besteira que seu senhor havia feito, corre e anunciar a Abigail:

“Eis que Davi enviou mensageiros desde o deserto a saudar o nosso amo; porém ele os destratou.Todavia, aqueles homens têm-nos sido muito bons, e nunca fomos agravados por eles, e nada nos faltou em todos os dias que convivemos com eles quando estavam no campo. De muro em redor nos serviram, assim de dia como de noite, todos os dias que andamos com eles apascentando as ovelhas. Considera, pois, agora, e vê o que hás de fazer, porque o mal já está de todo determinado contra o nosso amo e contra toda a sua casa, e ele é um homem vil, que não há quem lhe possa falar.

Repare nisso. Aquele servo reconhecia que a presença de Davi e de seus homens ali só trouxe benefício para o seu senhor. Naqueles dias, ninguém ousava invadir aquela propriedade (o que era muito comum à época). A presença deles impunha respeito e provia segurança àquelas terras. Nada mais justo do que prover suprimento àqueles que lhe serviam de muro sem pedir nada em troca por isso. Mas Nabal não pensava assim. Agora estava nas mãos de Abigail impedir que a desgraça se abatesse sobre o seu marido e tudo o que possuía.



O texto bíblico diz que “Abigail se apressou”, tomou todo tipo de suprimento, e na companhia de alguns moços, saiu ao encontro de Davi. Detalhe: sem avisar a Nabal. O risco era enorme. Seu marido não aprovaria aquilo. Sua soberba o impedia de enxergar a bobagem que havia cometido e jamais permitiria que sua esposa se metesse para desfazer o mal-entendido.

Tão logo deixou as cercanias da propriedade, Abigail se depara com Davi, ladeado por quatrocentos guerreiros, vindo na direção contrária. E agora ou nunca. A bomba estava ali, diante dela, e precisava ser desarmada. Se cortasse o fio errado... BOOM! Ia tudo pelos ares, inclusive ela.

A primeira coisa que Abigail faz é apressar-se, descer do jumento, e prostrar-se diante de Davi. Repare que é a segunda vez que lemos no texto que Abigail apressou-se. Era como se ela ouvisse o tic-tac da bomba relógio. Não dava pra fica de lenga-lenga. Se algo tinha que ser feito, deveria ser imediatamente. Antes que fosse tarde demais.

Prostrar-se era um gesto de humilhação e rendição. Com efeito, ela disse: Não vim aqui para bater boca com o senhor. Não me atrevo a argumentar. Nem faço questão de ter razão. Apenas conto com sua compaixão. Meu marido é um homem vil. Ele bem que merece o que o senhor se propôs a fazer. Mas admito que a falha foi minha, pois deveria ter estado lá quando seus servos chegaram. Com certeza, eu o teria impedido de responder daquela maneira. Mas a minha omissão nos custou caro.

Àquela altura, argumentar com Davi equivalia a cortar o fio errado. Defender seu marido, nem pensar. Em vez disso, ela assume a responsabilidade.

Quanta coisa evitaríamos se tão somente admitíssemos a responsabilidade por aquilo que colhemos? Em vez disso, preferimos buscar bodes expiatórios. Repetimos sistematicamente a atitude de Adão que responsabilizou Eva por haver comido o fruto, e fazemos coro à desculpa de Eva ao responsabilizar a serpente. No fundo, queremos que alguém segure a batata quente, nem que este alguém seja o próprio Deus.

Não pecamos apenas quando fazemos o que não deveríamos ter feito. Também pecamos quando deixamos de fazer o que deveríamos ter feito. Omitimo-nos e temos a cara de pau de querer sair ilesos. Quem protagoniza um erro é tão culpado quanto quem deixou acontecer, estando em seu poder evitar.

Agora, Abigail recorre à consciência de Davi.

- Será que vale a pena sujar as mãos com isso? Como você vai conviver com esta culpa?

Repare no que ela mesma diz:
“Perdoa, pois, à tua serva esta transgressão, porque certamente fará o SENHOR casa firme a meu senhor, porque meu senhor guerreia as guerras do SENHOR, e não se tem achado mal em ti por todos os teus dias, e, levantando-se algum homem para te perseguir, e para procurar a tua morte, contudo a vida de meu senhor será atada no feixe dos que vivem com o SENHOR teu Deus; porém a vida de teus inimigos ele arrojará ao longe, como do meio do côncavo de uma funda. E há de ser que, usando o SENHOR com o meu senhor conforme a todo o bem que já tem falado de ti, e te houver estabelecido príncipe sobre Israel, então, meu senhor, não te será por tropeço, nem por pesar no coração, o sangue que sem causa derramaste, nem tampouco por ter se vingado o meu senhor a si mesmo; e quando o SENHOR fizer bem a meu senhor, lembra-te então da tua serva.

Terminando Abigail de dizer tais palavras, ouve um silêncio no ar. Alguns imaginaram que Davi teria um ataque de fúria. Se isso acontecesse, a vida de Abigail talvez não fosse poupada.

E agora... se cortou o fio errado... BOOM!

Então Davi disse a Abigail: Bendito o SENHOR Deus de Israel, que hoje te enviou ao meu encontro (Ufa!) E bendito o teu conselho, e bendita tu, que hoje me impediste de derramar sangue, e de vingar-me pela minha própria mão. Porque, na verdade, vive o SENHOR Deus de Israel, que me impediu de que te fizesse mal, que se tu não te apressaras, e não me vieras ao encontro, não ficaria a Nabal até a luz da manhã nem mesmo um menino.

E se ela não houvesse se apressado? BOOM!

Há coisas que não podem esperar! Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

Se tem um telefonema pra dar, o que está esperando? Se precisa pedir perdão a alguém, por que não pede logo? Se tem que confessar, confesse! Apresse-se! Antes que bomba seja detonada.

Depois de despedida, Abigail, aliviada, retornou à sua casa. Lá chegando, flagrou seu marido bêbado, festejando com os amigos, sem ter a menor ideia do que estava acontecendo. Sabiamente, ela foi para o seu quarto e não lhe contou nada. A mesma Abigail que teve pressa em ir ao encontro de Davi, agora demonstrava a paciência necessária para esperar a hora certa de colocar seu marido a par de tudo o que ocorrera. Se contasse naquela noite, talvez ela armasse uma nova bomba. E esta, quem desarmaria?

Há que se ter discernimento para saber quando apressar-se e quando conter-se e esperar a hora certa.

Sucedeu, pois, que pela manhã, estando Nabal já livre do vinho, sua mulher lhe deu a entender aquelas coisas; e se amorteceu o seu coração, e ficou ele como pedra.

Como se não bastasse a reação inusitada de Nabal, que ficou estatelado ante ao que ouvira de sua mulher, dez dias depois, o próprio Senhor tirou sua vida.


Quando Davi soube o que ocorrera a Nabal, seu coração de regozijou, pelo que disse:
“Bendito seja o SENHOR, que julgou a causa de minha afronta recebida da mão de Nabal, e deteve a seu servo do mal, fazendo o SENHOR tornar o mal de Nabal sobre a sua cabeça.”
Quando agimos por conta própria, privamos Deus da oportunidade de manifestar Sua justiça. Não precisamos pleitear nossas próprias causas. Temos um advogado que jamais perdeu causa alguma. Calemo-nos e cedamos a vez a Ele. Deixemos que Ele aja por nós.

Deus não atingiu Nabal com um raio. Isso é coisa de Zeus, não de Deus. O texto não especifica como, mas deixa claro que Ele apenas permitiu que Nabal fosse vítima de sua própria maldade. Algo parecido com o que Paulo fala em Romanos 1: Deus os entrega às suas paixões e eventuais consequências.

Tão logo soube da morte de Nabal, Davi mandou buscar Abigail para que fosse sua esposa. Pode soar-nos estranho. Mas o fato é que naquela cultura, se a mulher ficasse viúva em filhos, ela ficaria desamparada, pois não tinha direito à herança. Davi preocupou-se com Abigail, e a única forma de retribuir-lhe era tornando-a sua esposa. Ademais, quem não gostaria de ter como esposa alguém com tal sabedoria e sensibilidade? Há pessoas que têm o dom de extrair de nós o que temos de melhor. São estas que deveríamos trazer pra perto, sejam como cônjuges, companheiros, sócios, ou simplesmente irmãos. Pessoas através das quais Deus nos impede de fazer besteiras e que estão sempre prontas a deixarem-se usar por Deus para desarmar bombas.

domingo, janeiro 18, 2015

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PENA DE MORTE: Como me posiciono apesar do que a Bíblia diz



Por Hermes C. Fernandes

Sempre que ocorre um crime hediondo com requintes de crueldade, ouve-se vozes em defesa da aplicação da pena capital. Eu mesmo, ao assistir à reportagem sobre o assassinato a sangue frio de uma criança de apenas cinco anos que suplicava pela vida mãe, deixei escapar dos lábios: Este bandido não merece viver.

Todavia, não é sensato posicionar-se sobre um tema tão complexo na hora da emoção. Como cristãos, devemos buscar abalizar nossas opiniões no espírito do Evangelho.

Engana-se quem pensa que não há pena de morte no Brasil. Ela é prevista exclusivamente para crimes militares cometidos em tempo de guerra. O Brasil é o único país de língua portuguesa que prevê a pena capital em sua constituição. O código pena militar trata dos crimes que são puníveis com a morte (ao todo são 36 crimes), e determina que seja executada por fuzilamento, havendo a possibilidade de que o presidente da República conceda graça ou comute a pena por outra. Somente a partir da constituição de 1988, a pena de morte foi totalmente abolida para todos os crimes não-militares.

Portugal foi praticamente o primeiro país do mundo a abolir a pena de morte. E hoje, a maioria dos países civilizados já a aboliu.

Nos Estados Unidos, onde os estados possuem certa autonomia em sua legislação, alguns ainda mantêm a pena, mesmo depois de terem sido comprovadas falhas no sistema de justiça que levaram à execução pessoas inocentes.

Há vários métodos usados em sua aplicação ao longo da história, alguns dos quais são vigentes até hoje.
Injeção Letal - Aplica-se por via intravenosa, e de forma contínua, barbitúricos de ação rápida em quantidade letal, combinados com produtos químicos paralisante-musculares. 
Fuzilamento - São disparados vários tiros simultaneamente sobre indivíduos condenados à morte. 
Enforcamento – Pressiona-se com uma corda o pescoço, interrompendo o fluxo de oxigênio para o cérebro.  
Câmara de Gás - Método muito usado pelo regime nazista. 
Eletrocussão – Prende-se o indivíduo a uma cadeira onde recebe uma forte descarga elétrica. 
Crucificação – Método predileto dos romanos. Era uma espécie de ritual em que, primeiro o individuo era flagelado, e depois crucificado. 
Fogueira – Muito usado durante o período da Santa Inquisição. 
Decapitação  – Por espada ou guilhotina 
Envenenamento – O indivíduo é obrigado a ingerir poção venenosa 
Lançando às feras – Muitos cristãos foram vítimas deste método cruel no Império Romano.
O que todos estes métodos têm em comum além de provocar a morte? São irreversíveis. Se for comprovada a inocência de um preso, basta soltá-lo. Mas este houver sido executado, não haverá como corrigir a injustiça. Talvez esta seja a argumentação mais razoável sustentada por quem é contra a aplicação da pena de morte.

O que dizem as Escrituras sobre o tema? Há amparo bíblico para a aplicação desta pena? Uma leitura honesta nos levará a algumas conclusões que para alguns podem parecer desconcertantes.
A primeira delas é que foi o próprio Deus quem a instituiu. Confira:
“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Gênesis 2:16-17
A partir da desobediência do primeiro casal, todos já nascemos espiritualmente mortos e destinados a experimentar igualmente a morte física. Portanto, a pena do pecado (a  morte) se aplica à toda humanidade.

A segunda constatação é que a Lei dada por Deus a Moisés no monte Sinai sanciona a pena de morte, que deveria ser aplicada em casos de assassinato premeditado (Êx 21:12-14); sequestro (Êx 21:16; Dt 24:7); adultério (Lv 20:10-21; Dt 22:22); incesto (Lv 20:11-12, 14); bestialidade (Êx 22:19; Lv 20:15-16); desobediência aos pais (Dt 17:12; 21:18-21); ferir ou amaldiçoar os pais (Êx 21:15; Lv 20:9; Pv 20:20; Mt 15:4; Mc 7:10); falsas profecias (Dt 13:1-10); blasfêmia (Lv 24:11-14; 16:23); profanação do sábado (Êx 35:2; Nm 15:32-36); e sacrifícios aos falsos deuses (Êx 22:20).

Os profetas não a invalidaram. Veja, por exemplo, o que diz o Senhor pelos lábios de Ezequiel:
“Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá.” Ezequiel 18:4
Alguém poderia argumentar que todas estas passagens se encontram no Antigo Testamento, mas que agora, sob a égide da Nova Aliança, a pena de morte perdeu a sua legitimidade. Porém, não é isso que constatamos ao ler os evangelhos e as epístolas. Repare, por exemplo, no que diz Paulo, apóstolo da graça:
“Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal.” Romanos 13:3-4
Paulo reconhece que Deus outorgou ao Estado o dever de aplicar duras penas para coibir o avanço do crime e da injustiça. Toda autoridade é ministro de Deus, trazendo consigo a espada para punir os malfeitores. Em momento algum Paulo questiona o direito que Deus confere às autoridades na aplicação da pena capital. Num episódio narrado em Atos, vendo-se sob o risco de ser condenado a tal pena, o apóstolo diz:
“Se, pois, sou malfeitor e tenho cometido alguma coisa digna de morte, não recuso morrer; mas se nada há daquilo de que estes me acusam, ninguém me pode entregar a eles; apelo para César.” Atos 25:11
Diante do que expus a cima, não vejo alternativa senão admitir que a pena de morte seja bíblica, autorizada por Deus tendo como objetivo a manutenção da ordem social. Todavia, recuso-me a posicionar-me favorável a ela. Será que posicionando-me assim, eu estaria me opondo aos princípios da Palavra de Deus? Permita-me explicar minhas razões, antes de condenar-me à fogueira destinada aos hereges.

Assim como Deus autoriza o estado a usar a espada, Cristo ordenou que Seus discípulos o acompanhassem na reta final de Sua jornada na terra munidos de espadas. Porém, quando um deles, afoito, desembainhou sua espada para tentar defender seu mestre daqueles que pretendiam leva-lo preso, Jesus o repreendeu e disse: “Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” (Mt.26:52). Talvez Pedro tenha ficado confuso, pensando: - Como assim? Ele mesmo nos manda trazer espadas e agora me censura por usá-la para defendê-lo?

Ora, violência gera violência. A melhor maneira de se combater o crime, a desordem, a injustiça e suas mazelas não é com o uso da força. Não estou, com isso, dizendo que o estado não tenha tal prerrogativa. Todavia, a igreja deve oferecer uma alternativa ao uso ostensivo da violência. E isso, a meu ver, inclui a aplicação da pena capital. 

Outro caso que nos ajudará a tomar posição acerca do assunto é o da mulher pega em flagrante adultério e prestes a ser sumariamente executada. Aqueles homens munidos de pedras não estavam agindo arbitrariamente. Pelo contrário, estavam devidamente amparados pela Lei. Aquilo era o certo a fazer. O pecado tinha que ser punido publicamente para que outros, ao assistirem àquele espetáculo de horror, pensassem duas vezes antes de incorrerem no mesmo erro.

Jesus Se vê numa saia justa. A quem, afinal, ele deveria defender, a vítima ou seus algozes? Jesus não poderia desautorizá-los, questionando e relativizando a ele. Mas também não poderia assistir àquela execução passivamente. Em vez de posicionar-se contra ou a favor da pena capital, Ele lança um desafio: “Aquele que não tem pecado, atire a primeira pedra” (João 8:7). Todos foram saindo à francesa. Pelo jeito, ela não era a única digna de morte ali.

A pena capital está fundamentada no Princípio da Proporcionalidade. Moisés declarou que “quem ferir o outro, de modo que este morra, também será morto (...) Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Êx 21:12, 24). Trata-se da lei de talião, que visava impedir abusos por parte de requeresse justiça. Quem perdesse um olho, não poderia cobrar dois de quem o furou. Sem dúvida, qualquer jurista vai dizer que esta lei foi um avanço na compreensão que a sociedade alcançou acerca do direito. Todavia, Jesus veio nos mostrar um caminho mais excelente. Leia atentamente o que Ele diz:
“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.” Mateus 5:38-39
Jesus, portanto, lança um novo fundamento sobre o qual deveríamos construir a civilização do reino:  o perdão. Ele reconhece o direito que a sociedade tem de requerer a morte de quem praticou um crime hediondo, porém, nos desafia a ir além do exercício deste direito, perdoando e rompendo assim com o ciclo da violência. Por incrível que pareça, Gandhi, um hindu, percebeu isso melhor do que muitos cristãos. Pregador da não-violência, ele acreditava que se levássemos a lei do “olho por olho” ao pé da letra, todos acabaríamos cegos.

A prova de que a justiça humana falha está no fato de Jesus ter sido condenado à morte inocentemente. O mesmo não aconteceu com os outros dois crucificados ao Seu lado. Um deles reconheceu a inocência de Jesus e a sua própria culpa. Se aquele ladrão que se converteu na cruz tivesse a chance de ter sua pena revogada, ele teria se tornado numa bênção para toda a sociedade. Acho que ele teria sido mais útil no mundo do que no paraíso. Eu só poderia ser a favor da pena de morte se não acreditasse no poder que o evangelho tem de transformar monstros em homens de bem.

sábado, janeiro 17, 2015

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Einstein, a Cruz e as viagens no tempo



Por Hermes C. Fernandes

Devemos supor que o futuro já tenha sido escrito? Não! Muito mais do que isso. O futuro já é real. No universo descrito por Einstein através de sua Teoria da Relatividade, tudo está escrito. Nossas escolhas já estão escritas no tecido da realidade. Isso parece concordar com a declaração do salmista:

Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles. E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grande é a soma deles!” Salmos 139:16-17

O que os antigos se referiam como “livro”, talvez hoje pudesse melhor ser compreendido como um gigantesco computador cósmico.  Neste “computador” tudo está arquivado; passado, presente e futuro são arquivos igualmente acessíveis. Tudo o que aconteceu desde o início da história até o seu fim existe ao mesmo tempo. Esse “computador” é o próprio Universo.  

O livro de Deus a que se refere o salmista reaparece nas páginas do Apocalipse. Arrebatado à sala do trono do Todo-Poderoso, João descreve a cena em que vê “na mão direita do que estava no trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos” (v.1). João deve ter se perguntado que livro era aquele. Por que estava lacrado? Por que era escrito por dentro e por fora? Aquele era o livro da existência.  O registro de toda a história, englobando o papel de cada elemento do Universo. Além dos fatos em si, nele também se encontra a interação entre eles e o propósito divino por trás deles. Ali estava o projeto de Deus, pronto para ser desencadeado. Naquele rolo estava escrito a História do Cosmos, desde o momento singular, até o seu desfecho. Criação, Queda, Redenção, Restauração e Juízo, tudo estava ali. A História de cada partícula, de cada ser vivo, de cada família, de cada nação. É claro que esse livro não deve ser entendido literalmente. Ele representa a vasta soma dos pensamentos de Deus relativos à Sua Obra. Paulo ficou igualmente estupefato diante desta realidade: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que seja recompensado? Porque dele e por ele e para ele são todas as coisas. Glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm.11:33-36).

O fato de o livro estar selado aponta para a inescrutabilidade dos decretos divinos. Estar escrito por dentro e por fora indica que o propósito de Deus abarca a criação como um todo, tanto a visível quanto a invisível, a material e a espiritual, a macro e a micro. Ali a mecânica quântica e a Teoria da Relatividade se encaixam perfeitamente.  Nenhuma dimensão da existência está fora do escopo do projeto de Deus.

João prossegue em seu relato: “Vi também um anjo forte, bradando com grande voz: Quem é digno de abrir o livro, e de lhe romper os selos? E ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para ele. E eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para ele” (vv.2-4). Não havia ninguém capaz de dar o pontapé inicial, o start para que o projeto de Deus fosse deflagrado. Pra que a trama começasse e fosse bem sucedida, alguém teria que romper os selos, os lacres do misterioso livro. Mas teria que ser alguém digno disso. João se desespera enquanto assiste apreensivo. “Todavia um dos anciãos me disse: Não chores! Olha, o Leão da Tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos” (v.5). Alguém que emerge de dentro daquele pergaminho, que apesar de viver para além do tempo e do espaço, emerge de dentro da história, apresentando-se no cenário como o personagem principal da trama, como aquele que venceu para abrir o livro. Esse personagem é apresentado como que se identificando com duas etapas distintas da História, mas que estão intimamente conectadas. Ele é o Leão da Tribo de Judá, e o Descendente prometido por Deus a Davi, para ocupar seu trono. Ele também é a semente da mulher, o Descendente de Abraão, o Messias de Israel, o Cristo de Deus.

Ele existe dentro e fora da História. N’Ele se conecta o cronos e o kairós, o tempo e a eternidade. Ele é o ponto de convergência de todas as dimensões que possam existir. Ele é o diapasão pelo qual as cordas encontram sua fina sintonia.

“Então vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes, e entre os anciãos, em pé, um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados por toda a terra. E veio e tomou o livro da mão direita do que estava assentado no trono” (vv.6-7).

Cristo surge como o centro gravitacional de tudo. Ele está no meio do trono e tudo O orbita. O Cordeiro visto por João se apresenta “como havendo sido morto”. Portanto, trata-se do Cristo Crucificado, aquele de quem Paulo diz: “Pois nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co.2:2). O sacrifício de Cristo foi o detonador da História. A História não começa com a criação de todas as coisas, e sim com o sacrifício do próprio Criador. O Cosmos surge a partir da Cruz.

Os sete chifres do Cordeiro representam Sua Onipotência, enquanto Seus sete olhos representam Sua Onisciência e Onipresença. Portanto, o Cordeiro é o próprio Deus, pois compartilha de todos os atributos incomunicáveis da Divindade.

João prossegue: “Logo que tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos” (v.8). Ora, como poderiam ser as orações dos santos, se tudo isso ocorre antes da abertura do livro, e, portanto, antes da fundação do mundo? Mais uma vez Davi nos responde: “Sem que haja uma palavra na minha língua, ó Senhor, tudo conheces” (Sl.139:4). Sua presciência permite que todas as orações dos santos estejam diante d’Ele, mesmo antes de terem sido feitas. Todos os ingredientes estavam postos diante do Trono. Louvores, orações, e acima de tudo, Alguém digno de abrir o livro, e iniciar o processo histórico, que culminaria com a glória de Deus revelada à Criação.

Imagine um livro em forma de um rolo de pergaminho. Ele não é encadernado como os livros de hoje. Trata-se de uma grande tira de pergaminho, enrolada pelas duas pontas. Quando seus selos são rompidos, ele começa a desenrolar-se por igual. O lado esquerdo pode representar as coisas passadas, e o lado direito, as futuras. A Cruz entra no meio, e faz com que o rolo se abra para os dois lados. Tudo acontece na Cruz, com a morte do Cordeiro. A História começa na Cruz, mas já surge contendo um passado e um futuro. No Kairós, a Cruz é o ponto inicial. Mas no Cronos, a Cruz ocorre na plenitude dos tempos.

Deus cria o mundo a partir da Cruz. Mas o cria já com um passado e um futuro. Ainda que os cientistas tenham razão em dizer que o Universo tem 15 bilhões de anos, aos olhos de Deus, esse universo veio a existência a partir da Cruz, como que instantaneamente.

Ali o rolo se abriu, para esquerda e para direita. Nada existia antes da Cruz, pelo menos, não da perspectiva divina. Há quem defenda a hipótese de que Deus possa ter criado as coisas com aparência de certa idade. Mas tudo não passaria de “aparência”. Portanto, a Terra “aparenta” ter 4,5 bilhões anos, mas seria, de fato, muito mais jovem (aproximadamente 6 mil anos, defendem). Os que advogam tal hipótese, argumentam que Adão fora criado já adulto. Quem quer que o encontrasse, lhe atribuiria certa idade, ainda que ele houvesse sido criado um dia antes. Pode parecer um argumento plausível, pelo menos do ponto de vista teológico. Entretanto, não me parece ser este o modus operandi de Deus.

Por que Jesus não surgiu no mundo já em idade adulta? Por que Ele teve que ser gerado no ventre de uma mulher, e experimentado cada etapa do desenvolvimento humano? Se esse fosse o modus operandi de Deus, haveríamos de esperar que o mesmo se sucedesse com o advento de Jesus. Em vez de acreditar que Deus criou um Universo aparentemente velho, prefiro acreditar que Deus criou um Universo já com uma História pregressa, e um futuro glorioso. Não creio que Deus faria alguma coisa com a intenção de criar uma ilusão de ótica.

Portanto, concluímos que a Cruz é o início de tudo. Nada existia antes dela! Sem que o Cordeiro fosse morte antes da fundação do mundo[1], não haveria nada que cobrisse a nudez do primeiro casal. Nossa culpa foi expiada mesmo antes que houvéssemos pecado.

Como já vimos, o livro em forma de pergaminho visto por João é o universo. Retomando a analogia do computador, o universo é o hardware, enquanto que a Mente de Cristo é o software.  As estrelas equivalem aos neurônios da mente de Cristo. O universo é o corpo cósmico de Cristo. Ao encarnar, o Logos Divino assumiu nossa humanidade, e, ao ascender ao céu, assumiu o cosmos inteiro.

De acordo com a teoria da relatividade de Einstein, o tempo é a quarta dimensão de um espaço tridimensional que é encurvado pela gravidade. O espaço curvo de Einstein lembra o livro da existência em Apocalipse. É também neste mesmo livro que o universo é apresentado “como um livro que se enrola” (Ap.6:14). Mais de setecentos anos antes, Isaías já havia previsto que “os céus se enrolarão como um livro” (Is.34:4).

O que tudo isso tem a ver com viagem no tempo? Os físicos só admitem a possibilidade de viagens no tempo, ainda que hipoteticamente, por causa da teoria da relatividade de Einstein. Segundo esta teoria, o espaço é curvo e, assim, o nosso universo é dobrado várias vezes sobre si mesmo, e que pode ser conectado a vários outros universos paralelos através de “túneis de tempo” produzidos por buracos negros e buracos de minhoca (wormholes).[2] Tal teoria não apenas possibilitaria viagens no tempo, mas também viagens a longas distâncias no espaço. Assim, uma distância que deveria ser percorrida em milhões de anos na velocidade da luz, seria percorrida em segundos por esses atalhos cósmicos.

Imagine um rolo de papel. Se desenrolado, uma formiga precisaria de uma hora caminhando para alcançar de uma a outra extremidade. Porém, se o mantivermos enrolado e com um lápis fizermos um furo que o penetre até o outro lado, esta mesma formiga poderia alcançá-lo em segundos.

Não existe movimento espacial sem movimento temporal. Isto é, no espaço-tempo não é possível a um corpo se mover nas dimensões espaciais sem se deslocar no tempo. Mas mesmo quando não nos movemos espacialmente, estamos nos movendo na dimensão temporal (no tempo). Mesmo sentado em sua cadeira enquanto lê este artigo, você está se movendo no tempo, para o futuro. Este movimento é tão válido na geometria do espaço-tempo quanto os que estamos habituados a ver em nosso dia a dia. Portanto, no espaço-tempo estamos sempre em movimento, e a nossa ideia de estar parado significa apenas que encontramos uma forma de não nos deslocarmos nas direções espaciais, mas apenas no tempo.

A maneira como encadernamos nossos cadernos escolares também nos oferece uma boa analogia para compreendermos a teoria da relatividade. Apesar das folhas serem soltas e as páginas sequenciais, elas são presas por uma espécie de espiral. Este arame espiralado perpassa todas as folhas várias vezes através dos buracos que as pontilham de cima a baixo.

Seguindo a analogia, cada página da história poderia ser revisitada inúmeras vezes por alguém advindo de uma dimensão atemporal. Ninguém menos que o próprio Deus seria este “Alguém”. Que Ele dispõe de tal poder, ninguém ousa duvidar. A questão é se Ele já ofereceu carona a alguém. Tenho razões para crer que sim.

Como já disse em outro artigo, o profeta Elias poderia ter sido uma destas. De acordo com o relato bíblico, um redemoinho o teria arrebatado.  Repare nos detalhes:
“E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel, e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, pegando as suas vestes, rasgou-as em duas partes. Também levantou a capa de Elias, que dele caíra; e, voltando-se, parou à margem do Jordão.” 2 Reis 2:11-13
Não foi o carro de fogo que o tomou, mas um redemoinho. O carro de fogo apenas o separou de Eliseu. O redemoinho poderia ter sido um buraco de minhoca em forma espiralada, uma dobra aberta no tempo. Outro detalhe interessante é que as vestes de Elias ficaram para trás. Isso nos remete a uma das cenas de viagem no tempo mais marcantes do cinema, em que Arnold Schwarzenegger aparece completamente nu, vindo do futuro. De onde os roteiristas de Hollywood teriam tirado a conclusão de que não seria possível transportar um corpo pelo tempo juntamente com sua roupa?

Outro episódio misterioso das Escrituras é o do homem que aparece inusitadamente nas páginas de Marcos completamente nu, usando um lençol para cobrir-se, enquanto Jesus é preso pelos soldados do sinédrio.
“E um certo jovem o seguia, envolto em um lençol sobre o corpo nu. E lançaram-lhe a mão. Mas ele, largando o lençol, fugiu nu.” Marcos 14:51-51 
Quem era? De onde viera? Por que surge e desaparece misteriosamente? Por que estaria nu numa hora daquelas? Seria um viajante do tempo? Possivelmente. Não vejo outra explicação para o fato de estar nu, senão que tenha tido viajado no tempo com a intenção de assistir, ou quem sabe, tentar impedir a prisão de Jesus.

P.S.: Recebi um comentário neste artigo que me achou a atenção, e que abriu ainda mais o leque da questão nele abordada. Ei-lo: "Em Gênesis 1:5 lemos: "...E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro". A expressão é mencionada seis vezes no capítulo 1, sempre se referindo aos dias da criação. O interessante é que pela lógica do cronos, ou cronologia, a expressão deveria ser: "e foi a manhã e a tarde." Mas na lógica do kairós, ou da kairosfera, o início se dá à tarde, pois foi à tarde, mas precisamente às quinze horas que Jesus foi crucificado. E a expressão termina com "a manhã", pois foi pela manhã que Ele ressuscitou, o que, para o nosso tempo cronológico durou três dias. Mas na criação, Deus já antevia a morte e ressurreição de Jesus."

Outros artigos meus sobre o tema aqui e aqui.



[1]  1 Pe.1:19-20 - “...mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o que, na verdade, foi conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto nestes últimos tempos por amor de vós”Ap.13:8b - “...O cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.
[2] A Ponte de Einstein-Rosen é um conceito teórico que vislumbra a hipótese da existência de buracos negros ou buracos de minhoca.

P.S.