Quarta-feira, Novembro 30, 2011

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Marcas do que se foi... Sonhos que vamos ter


Por Hermes C. Fernandes

Somos resultado de tudo o que vivemos até hoje. Pelo menos, é nisso que muitos têm crido. Até a psicologia endossa tal teoria. Freud, o pai da psicanálise acreditava que o passado seria o fator determinante na formação da personalidade. Somos todos produtos de nossos traumas e afetos.

Alguns movimentos religiosos também subscrevem tal teoria. Alguns chegam a atribuir influência determinante às vidas passadas. Segundo esta doutrina, há um carma que nos acompanharia até o final de nossa caminhada existencial. Estaríamos fadados a pagar eventuais dívidas contraídas em vivências anteriores.

Nem mesmo igrejas cristãs escapam desta visão. Algumas até promovem cultos no afã de quebrar eventuais maldições hereditárias, outras promovem cultos de cura interior, com direito a sessões de regressão.

Teria o passado tanto peso assim?

Será que Paulo errou ao declarar que aquele que está em Cristo é nova criatura, e que as coisas velhas se passaram, fazendo-se tudo novo?

Ouso discordar com veemência de todos os que atribuem tal poder ao nosso passado, a ponto de interferir determinantemente em nosso presente.

É claro que o passado exerce alguma influência, porém, não determinante. Há algo que exerce influência muito maior, atraindo-nos para frente.


Projetados para o futuro
Há algo lá na frente que nos atrai como um ímã.

Se retrocedermos ao princípio de tudo, encontraremos Cristo, o Alfa, exercendo poder impulsionador, empurrando todas as coisas para frente. Se fôssemos remetidos para o futuro, lá encontraríamos Cristo, o Ômega, exercendo Seu poder atrator. É por isso que o fluxo temporal segue a direção passado-futuro. Não se pode nadar contra a correnteza. O ponto Alfa, início de tudo, impele, empurra pra frente. Enquanto o ponto Ômega, que é o fim objetivo de tudo, atrai, puxa pra frente.

O escritor de Hebreus nos admoesta a olhar firmemente para Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele que é o mesmo ontem, hoje e eternamente. Ele que engloba em Si mesmo todo o tempo, passado, presente e futuro.

Vivemos em um tempo chamado Hoje, síntese da tensão entre o passado e o futuro. Embora Cristo, como autor da nossa fé, ponto Alfa, início de tudo, nos empurre pra frente, há algo que tenta nos ancorar no passado, o pecado.

O Pecado é a âncora que tenta nos segurar ao passado, impedindo que avancemos rumo às coisas que nos esperam. Por isso, somos instados a deixar todo embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, correndo com perseverança a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para Jesus (Hb.12:1-2).

Há que se romper com o pecado, para que ele perca o poder atrativo sobre nós.

Pecar é nadar contra a correnteza, é rebelar-se contra o futuro, contra o projeto de Deus para nossa vida.

A força que nos atrai para o futuro pode ser chamada de “vocação”. O que é vocação? É aquilo que fomos chamados a ser.

A semente é vocacionada a ser árvore. Nada vai impedir que ela se torne aquilo para o qual foi feita. Desde que lançada no solo, seu poder latente será liberado, e ela cumprirá sua vocação. A árvore é vocacionada a produzir frutos. Ela não precisa se esforçar pra isso. Você nunca flagrou uma árvore se contorcendo para produzir frutos. Essa é a sua vocação primordial. O fruto, por sua vez, é vocacionado a produzir sementes, e assim, o ciclo é retomado.


Marcas do que se foi...
Imagine uma árvore magoada, se negando a produzir frutos porque foi maltratada no passado. Isso é simplesmente inconcebível. Sua vocação a impulsiona para o futuro, a despeito do que ela tenha sofrido no passado. Ainda que ela tenha sido duramente podada, maltratada, ela eventualmente frutificará.

É claro que toda árvore é marcada pelo passado. Basta cortar-lhe o tronco, para verificar seus anéis, que são registros de tudo o que ela sofreu ao longo de sua existência. Através desses anéis é possível saber os períodos de estiagem que enfrentou, as pragas e até a sua idade. Porém, nada disso impede que ela prossiga em sua vocação. São apenas marcas do que se foi... Algo a atrai para cima, para o alto, e ela não tem alternativa, a não ser crescer e produzir. Nem mesmo as raízes profundas que a seguram no solo, podem impedir que ela se eleve, atraída pela luz solar.

Há algo lá na frente que nos atrai: Cristo, nosso alvo atrator.

Nas palavras de Paulo, temos que prosseguir para alcançar aquilo para o que fomos alcançados por Cristo Jesus. Mas para que isso aconteça, há algo que precisa ser feito. Paulo diz: “Uma coisa eu faço...”

E quê coisa é essa? Esquecer das coisas que ficam pra trás.

Deixe o passado no passado. Não queira arrastá-lo para o presente.

Recentemente, tive a oportunidade de atravessar um grande lago de Santa Catarina em um pequeno barco. Eu e o pastor Júlio fomos levados para pescar. A travessia foi difícil porque ventava muito, e as ondas açoitavam nossa pequena embarcação. Pelo menos, navegamos a favor da correnteza. Quando encontramos um lugar mais tranqüilo, seu Arri, dono do barco, lançou a âncora. Uma hora e meia depois, quando constatamos que “o mar não estava pra peixe”, a âncora foi puxada, e prosseguimos nossa viagem de volta à terra firme, mas desta vez, navegamos contra o vento.

Não se pode navegar ancorado. Se o barco for à vela, temos que puxar a âncora, içar as velas, e deixar que o vento impulsione nossa navegação.

Nadar contra o vento é muito despendicioso. Há que se nadar na direção apontada pelo vento. Não há retorno. A vida é um caminho sem volta.

A ordem é avançar, cumprir nossa vocação. Porém, pra isso, é preciso esquecer, desvencilhar-se do que passou, e prosseguir para o alvo, “pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp.3:14).

Repare nisso: a vocação é soberana. Já nascemos com ela, e ela nos acompanhará até o último minuto. Em Romanos 11:29, Paulo diz que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis.

Lutar contra isso é perda de tempo. Não se trata de algo que recebemos ao nos converter. É como aquele item que já vem de fábrica. O conselho de Paulo é que “cada um fique na vocação em que foi chamado” (1 Co.7:20). Ninguém terá sua vocação alterada ao se converter a Cristo.

Mas não basta insistir em nossa vocação, é necessário que andemos de maneira digna da vocação com que fomos chamados (Ef.4:1). Temos que honrar nossa chamada, e buscar corresponder às expectativas de quem nos vocacionou.

E finalmente, temos que procurar “fazer cada vez mais firme” a nossa vocação e eleição, para que nunca tropecemos (2 Pe.1:10).

O que faz muita gente titubear e tropeçar é a falta de certeza daquilo que quer.

A vocação não é fruto de nossas escolhas. É aquilo para o qual Deus nos escolheu. Portanto, trata-se de eleição divina e soberana. E enquanto não a cumprirmos, não nos sentiremos satisfeitos.

A única maneira de nos sentirmos satisfeitos é atuando naquilo para o qual Deus nos chamou.

Não existem vocações sagradas e outras seculares ou profanas. Todas as vocações são divinas. Se Deus lhe chamou para o ministério, Ele mesmo lhe habilitará para exercê-lo. Mas Ele lhe chamou para atuar em outro campo, seja qual for, Ele também lhe capacitará. Porém, para tornar mais firme nossa vocação, devemos buscar nos aprimorar naquilo que fazemos, aplicando-nos, estudando, nos esmerando no afã de alcançarmos a excelência.

Deixe-se atrair para o futuro. Abrace o desafio que lhe está proposto, e siga seu destino, sem se distrair com nada, sem olhar para direita ou para esquerda.

Terça-feira, Novembro 29, 2011

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E se Deus te presentear com a derrota?















Por André Sanches

Hoje vemos muitos dando uma grande ênfase na vitória como sendo um referencial perfeito para indicar as pessoas que servem a Deus de verdade e são abençoadas por Ele. Os vencedores são os abençoados, não os perdedores. Os ricos são os abençoados, não os pobres. A fé vencedora é dos que venceram situações e não dos que perderam. O problema é que o referencial humano sobre a vitória está bem longe do referencial que Deus tem dela. É evidente que o Senhor é um Deus que dá a vitória aos seus filhos, mas a plenitude da Sua ação não se dá apenas em ambientes onde o ser humano enxerga a vitória.

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego estavam diante do tirano rei da Babilônia, Nabucodonosor. Esse rei, loucamente, manda construir uma imagem para que todos a adorassem. Esses três desobedeceram a ordem e foram chamados para uma conversa particular com o rei. A resposta desses jovens ao rei é que nos mostra algo surpreendente sobre a vitória:

“Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das suas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer” (Dn 3:17-18 – NVI).

O que chama a atenção é que esses jovens criam que Deus tinha a escolha de livrá-los ou não. Essa atitude deles não era uma atitude de covardia ou de resignação, mas de fé plena em Deus acontecesse o que acontecesse. Se eles morressem queimados, morreriam em obediência e pleno exercício de sua fé. Humanamente, talvez seriam chamados de derrotados, mas espiritualmente seriam vitoriosos. Eles não viam na vitória a base de sua fé, mas apenas no cumprimento da vontade de Deus, seja ela qual fosse. Eles confiavam na direção do Pai em todas as situações.

Assim, as circunstâncias não tinham o poder de destruir a fé deles. A vitória era bem vinda, mas se fossem derrotados (humanamente falando), mesmo assim morreriam exercendo plenamente a obediência à vontade do Pai e, portanto, seriam vitoriosos diante de Deus.

Agora, a questão é nossa: E se acontecer a nossa derrota? Continuaremos firme na fé em Deus? Estamos dispostos a exercer a fé seja no “sim” seja no “não”?

A vitória verdadeira está em, através da nossa vida, o nome de Deus ser glorificado! E isso pode acontecer na nossa vitória ou na nossa derrota!

Creia em todas as situações!

André Sanches Esboçando Idéias (Via Cristão São e Salvo)

Domingo, Novembro 27, 2011

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A última cartada do Diabo



Por Hermes C. Fernandes

Pode-se falar tudo de mal acerca do Diabo, o arqui-inimigo do povo de Deus. Que ele é astuto, mentiroso, sagaz, perverso, todos já sabemos. Mas há nele uma virtude inegável, e que, por incrível que pareça falta em muitos cristãos. Antes que alguém se escandalize, achando que estou fazendo o papel de advogado do diabo, ou mesmo desista de ler o resto do texto, deixe-me revelar que virtude seria esta. Trata-se da persistência. O inimigo de nossas almas não desiste fácil. E quando ele não obtém êxito com suas ameaças e tentações, ele parte para sua última cartada, a negociação. Já que o prejuízo é inevitável, o diabo busca uma maneira de atenuá-lo ao máximo.  Para tal, ele é capaz de recorrer à via da diplomacia.

Foi esta a estratégia usada por Faraó ao convidar Moisés para o diálogo. O Egito já havia sido alvo de várias pragas enviadas por Deus. Moisés parecia irredutível em sua decisão em tirar seu povo da escravidão. Chegara, portanto, a hora do monarca egípcio usar de toda a sua sagacidade para reduzir as perdas.

Ao todo, foram quatro propostas feitas por Faraó a Moisés, e que coincidem com as propostas que o mundo nos faz. Quando digo “mundo”, refiro-me ao sistema edificado sobre a injustiça, a corrupção e a cobiça, que tem no diabo o seu arquiteto.

Na primeira proposta, Faraó diz ao Moisés: “Ide e oferecei sacrifícios ao vosso Deus nesta terra” (Êx.8:25). Parafraseando-o: Por que deixar o Egito para adorar ao seu Deus? Vocês têm permissão de fazê-lo aqui mesmo.

Poderia parecer benevolência de Faraó, porém, por trás desta proposta havia o receio de que aquele povo, ao deixar o perímetro egípcio, jamais retornasse. Se isso ocorresse, aquela sociedade entraria em colapso, pois dependia da mão de obra escrava. 

De maneira semelhante, o mundo tenta convencer-nos de que podemos servir a Deus sem romper com seus valores, mesmo que sejam antagônicos aos valores do Reino de Deus. Esta proposta se esbarra na advertência feita pelo Espírito Santo:

“Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo, a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. Ora, o mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 João 2:15-17).

E mais:

“Não sabeis que a amizade do mundo é inimizade com Deus? Portanto qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tiago 4:4b).

Diante disso, não há margem que nos permita aceitar tal proposta do inimigo. Se quisermos agradar a Deus, temos que romper com o sistema, negando-nos a ser mais uma de suas engrenagens. 

Ao sermos convertidos, somos transportados do império das trevas para o Reino de Cristo (Cl.1:13). Embora ainda vivamos no mundo, já não somos reféns do sistema. Deixamos a condição de escravos do império das trevas, para tornarmo-nos filhos e cidadãos do Reino de Deus.

Dada a recusa imediata de Moisés à primeira proposta, Faraó apresentou-lhe a segunda:

"Eu vos deixarei ir, para que ofereçais sacrifícios ao Senhor, o vosso Deus, no deserto, apenas se, saindo, não fordes muito longe. Agora orai por mim" (Êx.8:28).

Já que vocês insistem em deixar o Egito, vamos combinar o seguinte: podem ir, mas não vão longe. Seria hoje, o equivalente a dizer: Querem congregar numa igreja? Fiquem a vontade! Mas cuidado pra que vocês não fiquem fanáticos. Vão, mas não tão fundo. Envolvam-se com as coisas do Reino, mas não se comprometam. 

Fica óbvio que a preocupação de Faraó era mantê-los ao alcance de sua vista. Esta tem sido uma constante preocupação do inimigo. Ele tenta parecer amistoso, cordial. Chega a pedir que orem por ele. Tudo para conquistar sua confiança, e mantê-los enredados. 

Não podemos cair em sua artimanha! Se é pra deixar o Egito em direção à Terra Prometida, então temos que ir fundo neste propósito. Nada de barganhas com o Diabo! Deus nos chama ao comprometimento com os valores preconizados pelo Evangelho. Envolver-nos na causa do Reino sem nos comprometermos radicalmente com ela é total perda de tempo. 

Deus deseja levar-nos para muito além do alcance da vista do inimigo. Trata-se, portanto, de um caminho sem volta. Satanás terá que aceitar que ficou no prejuízo. Nunca mais vai recuperar seus escravos.

Insatisfeito com a resposta de Moisés, Faraó partiu pra terceira tentativa. Reunido com Moisés e Arão, pergunta-lhes:

"Ide, servi ao Senhor, o vosso Deus. Quem deverá ir?" (Êx.10:8).

Ele queria certificar-se do tamanho do prejuízo que sofreria.

Confira a resposta de Moisés, e a réplica de Faraó:

"Temos de ir com os nossos jovens e com os nossos velhos, com os nossos filhos e com as nossas filhas, com os nossos rebanhos e com o nosso gado, porque temos que celebrar festa ao Senhor. Disse-lhe Faraó: Seja o Senhor convosco, se eu vos deixar ir com as crianças! Vede como tendes más intenções. Não será assim. Agora, ide vós, os homens, e servi ao Sehor, pois isso é o que pedistes. E os expulsaram da presença de Faraó" (Êx.10:9-11).

Até ali, Faraó havia mantido a compostura. Mas agora Moisés fora longe demais. Se as crianças ficassem no Egito, Faraó garantiria a próxima geração de escravos. Caso os pais não retornassem, os filhos os substituiriam imediatamente. O que ele não podia era ficar sem mão-de-obra escrava. 

Muitos cristãos sinceros têm aceito esta proposta do inimigo, pois acham que não devem forçar os filhos a servirem a Deus. Dizem: - Quando eles forem adultos, escolheram por si mesmos. Ora, se os pais têm o sagrado direito de escolher onde os filhos moram, em que escola estudam, o que comem, vestem, e até o time pelo qual torcem, por que não podem influenciar em sua vida espiritual? 

Deveríamos espelhar-nos na postura de Josué, que ao introduzir os hebreus na Terra Prometida, disse-lhes:

"Escolhei hoje a quem sirvais (...) Eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (Js.24:15).

A maior herança que os pais deixam para o seus filhos é a sua fé.  

Se Satanás acha que aceitaremos negociar com a alma de nossos filhos, ele está redondamente enganado, e merece uma resposta mal criada à altura de sua petulância. 

Não permitamos que eles sejam educados pela babá eletrônica. Ou que sejam criados na rua. Assumamos a responsabilidade de criá-los debaixo do temor do Senhor, e nos princípios de Sua Palavra. Quando crescerem, nos agradecerão.

Faltava agora a última proposta. Mandando chamar novamente a Moisés, Faraó lhe disse:

"Ide, servi ao Senhor. Somente fiquem os vossos rebanhos e o vosso gado; vão também convosco as vossas crianças" (Êx.10:24).

Já que não dá pra ficar com as famílias (velhos, adultos e crianças), Faraó tenta evitar que eles levem também os seus bens. Quem deixar o Egito? Ok. Estão liberados! Querem ir longe? Vão com Deus! Querem levar a família inteira? Então, sumam da minha frente! Mas não se atrevam a levar seus recursos!

Infelizmente, esta tem sido a proposta mais indecorosa e tentadora que o Diabo tem feito aos cristãos de todas as eras. E não poucos têm cedido a ela. Dizem que comprometem suas almas e famílias com o Reino de Deus, porém, mantém seus recursos distante de qualquer compromisso que não seja com seu próprio bem-estar. Como se fosse possível servir a Deus e ao dinheiro. 

Parece que Martinho Lutero tinha razão ao afirmar que a última parte do indivíduo a ser converter é o bolso. 

Ora, a libertação promovida por Deus ao Seu povo devia abranger todas as áreas. Por isso, lemos que Ele os fez sair do Egito com "prata e ouro", e que entre as suas tribos não houve um só enfermo (Sl.105:37). 

Não adianta dizer que servirmos a Deus, enquanto nossos recursos continuam à mercê do sistema deste mundo. O dinheiro que antes gastávamos com vícios, jogatina, promiscuidade, prazeres, agora deve ser empregado naquilo que enaltece a Deus e beneficia nossos semelhantes. 

A resposta dada por Moisés a esta última proposta de Faraó deve ecoar em nossos lábios:

"Também o nosso gado há de ir conosco; nem uma unha ficará!"(Êx.10:26).

Tudo o que somos, e tudo o que temos, há de servir ao Senhor. Nas palavras do Salmista: "Bendize, ó minh'alma ao Senhor, e tudo o que há em mim, bendiz ao Seu santo nome" (Sl.103:1). E isso inclui, naturalmente, nossos recursos materiais. 

Quando ofertamos, dizimamos e repartimos nosso pão com o nosso próximo, estamos saqueando o Egito, consagrando nossos bens à causa do Reino. Estamos colocando nossos haveres em seu devido lugar. Em vez de servirmos ao dinheiro como um senhor, fazemos dele nosso servo. Assim, ele jamais será instrumento através do qual Faraó nos cativará. 

Se o inimigo é perseverante em seus funestos propósitos, sejamos ainda mais perseverantes que ele no propósito de ser a Deus no lugar onde Ele designou, acompanhado das pessoas que Ele escolheu, e em posse daquilo que Ele nos deu.

Sábado, Novembro 26, 2011

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O Dízimo já era...


















Por Hermes C. Fernandes


Muito se tem discutido sobre a legitimidade do dízimo durante o regime da Nova Aliança. Para muitos, com o fim da Lei, encerra-se também a obrigatoriedade do dízimo. Vamos deixar as paixões de lado, e examinar o assunto com o coração aberto.


De fato, o dízimo figura nas Escrituras Sagradas mesmo antes da instituição da Lei. Portanto, o Dízimo já era praticado muito antes de Moisés receber as tábuas no Sinai. O escritor de Hebreus diz que o patriarca Abraão separou o dízimo de tudo, e o entregou a Melquisedeque, sacerdote de Salém. Nesta passagem é dito que o fato de Abraão lhe haver entregue o dízimo demonstrava o quão grande era Melquisedeque (Hb.7:4). Portanto, tributar-lhe o dízimo de tudo era o mesmo que reconhecer sua superioridade. Abraão, o menor, foi abençoado por Melquisedeque, o maior (7:7).


Ainda não havia templo em Jerusalém, nem mesmo havia sido instituído o sacerdócio levítico, mas isso não impediu que o patriarca entregasse seus dízimos. Portanto, cai aqui a idéia de que os dízimos só valiam enquanto houvesse um templo para ser mantido. O Dízimo já era praticado muitos antes de haver templo em Jerusalém.


Somente séculos depois, com a instituição da lei, os filhos de Levi foram autorizados por Deus a“tomar o dízimo do povo, isto é, de seus irmãos” (v.5). Neste caso, “recebem dízimos homens que morrem” (sacerdotes levíticos), mas no caso de Melquisedeque, figura de Cristo, “os recebe aquele de quem se testifica que vive” (v.8). Portanto, onde haja sacerdócio, ali também haverá quem receba dízimos.


Alguém poderá objetar dizendo que não há nenhuma palavra sobre o dízimo no Novo Testamento. Ledo engano! O próprio Jesus o endossou ao censurar a hipocrisia dos religiosos de Seu tempo:


“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas negligenciais o mais importante da lei, a justiça, a misericórdia e a fé. Devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt.23:23).


Mais claro que isso? Impossível. Jesus não os censurou por darem o dízimo, e sim por omitirem aspectos mais importantes da lei. Deveriam ser zelosos tanto na entrega do dízimo, quanto na observação da justiça, da misericórdia e da fé. E repare quão detalhistas eles eram. Davam o dízimo até do tempero da comida!


Pode até parecer legalismo de Sua parte, mas Jesus declarou que se a nossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entraremos no reino dos céus (Mt.5:20).


A graça nos ensina a ir muito além do dízimo!


Por que Paulo e os demais apóstolos não precisaram ensinar sobre o dízimo? Porque para os cristãos primitivos, dar o dízimo era fichinha. Eles aprenderam a ir muito além do dízimo.


Também convém salientar que se os apóstolos fossem contrários ao dízimo, eles teriam combatido-o com a mesma veemência com que combateram a circuncisão (também anterior à Lei).


Os mesmos que hoje combatem o dízimo deveriam reconhecer que se o Evangelho chegou até nós, foi graças à fidelidade daqueles que deram muito mais do que o dízimo, patrocinando empreendimentos missionários ao redor do globo.



Entregar 10% de nossos rendimentos é dar o que já é esperado. Jesus nos ensinou a transpor os limites das expectativas que nos são postas.


Veja o que Ele diz sobre isso:


“Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser demandar contigo e tirar-te a túnica deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas” (Mt.5:39b-41).


Este princípio também se aplica à questão das contribuições na igreja. E podemos ver um exemplo disso na segunda epístola de Paulo aos Coríntios, onde o apóstolo dos gentios dá testemunho da surpreendente atitude dos irmãos das igrejas da Macedônia. Devido à sua pobreza, Paulo quis poupá-los de ter que enviar ofertas para a igreja em Jerusalém. Porém eles imploraram para participarem desse privilégio (2 Co.8:4).


“Sua profunda pobreza transbordou em riquezas de sua generosidade. Pois segundo as suas posses ( o que eu mesmo testifico), e ainda ACIMA DELAS, deram voluntariamente (...) E não somente fizeram como nós esperávamos, mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor, e depois a nós, pela vontade de Deus” (vv.2b-3,5).


Entregar o dízimo é dar de acordo com a nossa posse.


Uma das coisas que me causam admiração no dízimo é que ele nivela a todos dentro da congregação. Ninguém dá mais, nem menos. Tanto o dízimo de um empresário bem-sucedido, quanto o de uma empregada doméstica têm o mesmo valor, a décima parte.


Porém, somos desafiados pelo Senhor a sermos imitadores das igrejas da Macedônia, transpondo a lei do Dízimo, e dando além de nossas posses.


Interessante que Paulo dá testemunho da generosidade dos Macedônios em sua carta aos Coríntios, e ao mesmo tempo diz que se gloriava da prontidão dos Coríntios perante os Macedônios (9:2). Generosidade e prontidão devem andar de mãos dadas.


Se deixarmos a obra de Deus por último, talvez não sobre nada. Temos que aprender a colocar o reino de Deus em primeiro lugar. Nossas contribuições, sejam a título de dízimo ou de oferta, devem ser preparadas de antemão, e que sejam expressão de generosidade, e não de avareza (v.5).


Muita gente dá o dízimo como o desencargo de consciência. Acham que já estão fazendo muito. O dízimo deve ser considerado o piso, e não o teto de nossas contribuições.


A mesma passagem usada pelos pregadores para exortar a igreja a ser fiel nos dízimos, também menciona outro tipo de contribuição que estava sendo sonegado. Repare no que diz a passagem em questão:


“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas” (Ml.3:8).


Nem todo mundo está devidamente familiarizado com a expressão “oferta alçada”. A maioria de nós sequer ouviu falar disso. Oferta alçada é qualquer oferta cujo valor exceda o valor do dízimo.


O que os cristãos macedônios estavam fazendo era cumprir este mandamento. Oferta alçada é aquela que vai além de nossas posses.


O Dízimo é o mínimo que um cristão pode fazer pela manutenção das obras realizadas pela igreja.


Dele dependem aqueles que vivem do Evangelho. Ministros que se dedicam integralmente à igreja, e quem têm filhos para criar, aluguel de casa pra pagar, contas, compras, etc. Alguns são obrigados a cumprir jornada dupla, porque a igreja não atende às suas necessidades. Não nada de mal nisso. O próprio Paulo teve que fazer tendas para garantir sua subsistência por um tempo. O problema é que, ao trabalhar fora, o pastor já não poderá dedicar cem por cento do seu tempo ao rebanho.


O padrão estabelecido pelas Escrituras está claro:


“Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1 Co.9:14).


Veja ainda a recomendação de Paulo a Timóteo:


“Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e no ensino. Porque diz a Escritura: Não atarás a boca do boi quando debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário” (1 Tm.5:17-18).


Se as igrejas abolissem os dízimos, e contassem exclusivamente com as ofertas voluntárias, como se manteriam e fariam planos para o futuro?


A vantagem do dízimo é a sua regularidade. Dá pra se fazer um planejamento, comprar uma propriedade para igreja, contratar novos funcionários, enviar missionários, etc., porque se tem um orçamento fixo.


A diferença básica entre dar o dízimo na Lei, e entregá-lo voluntariamente na Graça está na motivação com que se faz. O que se faz sob a Lei, se faz por mera obrigação religiosa. Mas o que se faz sob a égide da Graça, se faz por gratidão.


Detesto constatar que a maioria daqueles que dão o dízimo, o faz por medo de um suposto espírito maligno identificado como “o devorador”. Definitivamente, não há demônio ou legião com este nome. O que a Bíblia chama de “devorar” são as circunstâncias adversas sobre as quais não temos poder. Mesmo sabendo que o Senhor repreende o devorador, não deve ser esta a nossa motivação.


Seja a título de dízimo ou de oferta voluntária, tudo o que fizermos deve ser feito por amor e gratidão, jamais por coação ou constrangimento.

Quinta-feira, Novembro 24, 2011

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Ator “global” ateu agradece a Jesus pela cura do câncer



O ator da TV Globo, Herson Capri, afirmou que Jesus foi o grande responsável pela sua salvação e pela cura de um câncer. Em entrevista à revista Quem, o ator que é ateu revelou que a 13 anos atrás foi salvo de um câncer no pulmão esquerdo, que segundo ele mata em 90% dos casos e que só é curável quando diagnosticado previamente antes de qualquer sintoma. “Essa foi minha sorte” disse ele.
Herson Capri descobriu o câncer previamente, quando teve de encenar Jesus Cristo em um espetáculo da Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém. Ele diz que na ocasião estava fora de forma e que para melhor se identificar com o papel de Jesus Cristo, tinha resolvido fazer uma lipoaspiração.
“Quando fui fazer os exames preparatórios, detectaram um nódulo no pulmão esquerdo e depois fui operado. Tive muita sorte”
Na ocasião Herson Capri, disse que acreditava ter uma relação no fato de descobrir a doença quando ia fazer Jesus Cristo.
“Esta relação com Jesus Cristo é uma coisa que, sem nenhuma pieguice, mexeu comigo. Já me disseram que é uma babaquice dizer que foi Jesus quem me salvou. Respondi que babaquice era da pessoa. Fui salvo por Jesus, literalmente. Fui fazer Jesus Cristo, quis ficar magro igual a ele e isso acabou salvando minha vida. Como não fazer essa associação imediata?”
O ator da Globo afirmou que desde a infância ele vive uma vida religiosa contraditória. Seu pai era ateu e mesmo assim ele ia para um colégio com estudos religiosos obrigatórios.
O ator reconheceu que depois disso ora, fala de fé e agradece a Jesus sua cura.
Herson Capri não é o único ator da rede globo ateu que pareceu ter sido salvo “milagrosamente”. Chico Anysio, declarado ateu no ano passado depois da morte do filho de Cissa Guimarães, também se salvou.
Chico Anysio ficou 110 dias internado no Hospital, depois que deu entrada com problemas respiratórios, segundo assessoria de imprensa do hospital. Durante esse período, sua mulher Malga Di Paula, pediu por uma corrente de oração através de seu twitter. Milagre ou não, ele se recuperou e Malga Di Paula agradeceu pelas orações.
Fonte: Christian Post

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Hoje é Dia de Ação de Graça


Hoje se comemora o maior feriado americano: O Dia de Ação de Graça (Thanksgiving Day). Considerado mais importante até do que o 4 de Julho (Independence Day) e o Natal, quando o País inteiro pára para agradecer a Deus.

Os primeiros Dias de Ação de Graça eram festivais de gratidão a Deus pelas boas colheitas anuais. Por esta razão, o Dia de Ação de Graça é festejado no outono, após a colheita ter sido recolhida.

O primeiro deles foi celebrado em 1621 em Plymouth, Massachusetts, pelos colonos cristãos, fundadores da vila. Após péssimas colheitas e um inverno rigoroso, os colonos tiveram uma boa colheita de milho no verão de 1621. Por ordem do governador, uma festividade foi marcada no início do outono de 1621 em comemoração ao sucesso da última colheita, em comparação às anteriores. Os homens de Plymouth mataram patos e perus. Outras comidas que fizeram parte do cardápio foram peixes e milho. Cerca de 90 índios atenderam ao convite dos colonos e participaram da festividade. Todos comiam ao ar livre, em grandes mesas.

Porém, por muitos anos, o Dia de Ação de Graça não foi instituído como feriado nacional, sendo observado como tal em apenas certos Estados americanos como Nova York, Massachusetts e Virgínia. Em 1863, o então presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, declarou que a quarta e quinta-feira da terceira semana do mês de novembro seria o dia nacional de Ação de Graça.

Mas em 1939, o presidente Franklin Delano Roosevelt instituiu que esse dia seria celebrado na terceira semana de novembro, com o intuito de ajudar o comércio, aumentando o tempo disponível para propagandas e compras antes do Natal (À época, era considerado inapropriado fazer propagandas de produtos à venda antes do Dia de Ação de Graça). Como a declaração de Roosevelt não era mandatória, 23 Estados adotaram a medida instituída por Roosevelt, e 22 não o fizeram, com o restante tomando ambas a quinta-feira da terceira e da quarta semana de novembro como Dia de Ação de Graça. O Congresso americano, para resolver este impasse, instituiu então que o Dia de Ação de Graça seria comemorado definitivamente na quinta-feira da quarta semana de novembro, e que seria um feriado nacional.

O Dia de Ação de Graça no Brasil

No Brasil, o presidente Gaspar Dutra instituiu o Dia Nacional de Ação de Graça, através da lei 781, de 17 de agosto de 1949, por sugestão do embaixador Joaquim Nabuco, entusiasmado com as comemorações que vira em 1909, na Catedral de São Patrício, quando embaixador em Washington. Em 1966, a lei 5110 estabeleceu que a comemoração de Ação de Graça se daria na quarta quinta-feira de novembro. Esta data é comemorada por muitas famílias de origem americana, igrejas cristãs, universidades confessionais metodistas e cursos de inglês.

Interessante notar que enquanto o Halloween (Conhecido como Festa das Bruxas) está cada vez mais popular no Brasil, o Dia de Ação de Graça não conseguiu emplacar.

Seria interessante se as igrejas cristãs estimulassem seus fiéis a celebrarem, aproveitando a data já estabelecida.

Assim como no Natal, há uma atmosfera diferente envolvendo esse feriado. Os familiares se deslocam de onde estiverem para poderem se reunir. Pais e filhos gastam mais tempo juntos. E o mais importante: relembram a misericórdia de Deus que lhes pôs pão em suas mesas durante todo o ano.

É claro que muitos enxergam esse feriado apenas como mais um estímulo às vendas no comércio, assim como o Natal. Apesar disso, continua valendo a pena relembrar dos cuidados que Deus tem dispensado aos homens.

Inspirado no primeiro Dia de Ação de Graça, em que os colonos convidaram os índios para tomarem parte na festividade, gostaria de sugerir que as igrejas convidassem os diferentes, pessoas de outros credos, principalmente os mais necessitados, para tomarem parte em seu banquete de gratidão.

E que os americanos aproveitassem a ocasião para refletir no quanto sua sociedade tem desperdiçado, e considerassem estender as mãos aos povos mais pobres do mundo, compartilhando-lhes seu pão.

Quarta-feira, Novembro 23, 2011

4

SANTA REBELDIA!


Por Hermes C. Fernandes

“Vede, eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o dia grande e terrível do Senhor. Ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais, para que não venha e fira a terra com maldição”. Malaquias 4:5-6
Com estes versículos, encerra-se o Antigo Testamento. A partir daí, houve cerca de quatrocentos anos de silêncio de Deus. Nenhum profeta apareceu no cenário de Israel. Porém, muitas coisas aconteceram nesse ínterim. Levantaram-se heróis, como os Macabeus, impérios ruíram, e outros se ergueram. Todavia, não houve voz profética. Cessaram-se os oráculos. Desapareceram os videntes. Parecia que Deus havia se ausentado definitivamente da História, e abandonado a humanidade à própria sorte.

O Novo Testamento começa com o relato dos quatro Evangelhos, acerca da vida, mensagem e ministério de Jesus. Mateus parte da genealogia de Jesus, para demonstrar Sua origem terrena. João parte de Sua origem celestial, demonstrando que tudo quanto existe, fora feito por meio d’Ele. Mas Marcos e Lucas têm outro ponto de partida. Era como se eles quisessem estabelecer uma conexão com o Antigo Testamento, partindo de onde esse parara. A diferença entre ambos é que Marcos parte do ministério de João Batista, enquanto Lucas parte do anúncio do seu nascimento.

A meu ver, é Lucas quem demonstra de maneira mais contundente a ligação entre os dois testamentos. Se seu Evangelho fosse o primeiro da lista, todos perceberiam facilmente que ele começa, onde Malaquias parou.

Por isso, Lucas começa narrando o anúncio do nascimento de João, o Batista, em vez de começar pelo anúncio e nascimento de Jesus.

O anjo que aparece a Zacarias para lhe anunciar o nascimento de João, diz:

“E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus. Irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, converter os rebeldes à prudência dos justos, e preparar ao Senhor um povo bem disposto”. Lucas 1:16-17

De fato, João Batista era o Elias prometido por Deus na conclusão do Antigo Testamento. Sua missão era preparar o caminho do Senhor, convertendo o coração dos pais aos filhos, e dos filhos aos pais. E se alguém ousa duvidar disso, ouça o que o próprio Jesus diz acerca de João: “E, se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que havia de vir” (Mt.11:14).


Malaquias não foi o único a profetizar sua chegada. Isaías também a profetizou. E Lucas também apresenta a conexão entre o ministério de João Batista, e o cumprimento da profecia de Isaías. Ele era a “voz do que clama no deserto”, cujo objetivo era o de preparar “o caminho do Senhor”, endireitando “as suas veredas”. E a conseqüência de seu ministério é que “todo vale se encherá, e se abaixará todo monte e outeiro. O que é tortuoso se endireitará, e os caminhos escabrosos se aplanarão. E toda a humanidade verá a salvação de Deus” (Lc.3:4-6).


Deus contempla a humanidade como um terreno acidentado. De um lado, montanhas, do outro lado, vales, e entre eles, abismos. As montanhas representam os pais, as gerações anteriores, com o seu acúmulo de experiência de vida. Os vales representam os filhos, as novas gerações. Para desfazer os abismos entre eles, é necessário que o terreno seja nivelado. Esta era a missão do último profeta da Antiga Aliança.


Quem diria que aquele profeta excêntrico que se alimentava de mel e gafanhoto tinha uma missão tão nobre e importante? Não foi em vão que Jesus o classificou como o maior dentre todos os nascidos de mulher, o último dos profetas (Mt.11:11,13).


Por enquanto, vamos nos ater à sua missão em abrir caminho para que toda a humanidade conhecesse a salvação.


Segundo as Escrituras, o meio que João usaria para preparar o caminho do Senhor seria convertendo pais aos filhos e filhos aos pais. Mas como isso seria feito?


Geralmente, João era duro em seu discurso. Denunciava o abuso de poder das autoridades. Chamava seus contemporâneos de víboras, e de outros apelidos nada carinhosos. Ordenava-lhes a que se convertessem, arrependendo-se de seus pecados. João nunca fez média com ninguém, nem mesmo com o rei Herodes (Mc.6:18). E foi justamente isso que lhe custou a vida (Mc.6:14-29).


Não encontramos em nenhum dos seus discursos registrados no Novo Testamento uma única palavra acerca da relação entre pais e filhos.


Então, como ele poderia convertê-los uns aos outros? Será que João se distraiu com outras coisas, e acabou se esquecendo que seu principal propósito era o de converter gerações?


Primeiro, vamos examinar o significado dessa “conversão”.


No anúncio feito pelo anjo a Zacarias, há uma paráfrase do que fora anunciado originalmente por Malaquias. Em vez de repetir literalmente o que o profeta dissera, o anjo diz que a tarefa de João seria a de converter os pais aos filhos e de “converter os rebeldes à prudência dos justos” ( Lc.1:16-17). Ele não fala de converter os filhos aos pais, e sim, os rebeldes à prudência.


Rebeldia e prudência são coisas bem distintas. Rebeldia está mais associada aos jovens, principalmente aos adolescentes. Já a prudência é característica marcante dos mais experientes. É a experiência de vida que nos torna pessoas mais prudentes.


Todos já tivemos nossa época de contestação. Geralmente, quando adolescentes, somos “rebeldes sem causa”, mas ao chegar à fase adulta, deixamo-nos domesticar pelo sistema, e nos tornamos pessoas conformadas ao mundo. Deveríamos nos tornar “rebeldes com causa”, ou ainda, “rebeldes com uma boa causa”, a causa do reino de Deus e de sua justiça.


Não há nada de errado em ser rebelde, desde que nossa rebeldia seja direcionada contra tudo o que oprime, destrói, desumaniza, e por isso, entristece o coração de Deus.


Quando adicionamos a rebeldia da juventude à prudência da maturidade, temos uma química imbatível, uma espécie de rebeldia prudente, ou prudência rebelde. Assim como os filhos devem converter sua rebeldia à prudência de seus pais, os pais devem converter sua prudência à rebeldia dos filhos. O anjo faz um trocadilho proposital.


O que a nova geração precisa, a geração anterior tem de sobra. O que a geração de nossos pais necessita, nossa geração tem “pra dar e vender”.


A revolução acontecerá quando conseguirmos unir as duas coisas. A prudência dos pais, sem o elemento de rebeldia dos filhos, corre o risco de se tornar cinismo, descrença e comodismo. Assim também, a rebeldia dos filhos, sem a adição da prudência dos pais, se tornará numa rebeldia “sem causa”, ou ainda, “sem efeito”. Pior que rebeldia sem causa, é rebeldia sem efeito, ou, pelo menos, sem o efeito esperado.


Pais e filhos devem ser parceiros na transformação do mundo. A rebeldia da juventude será um revigorante para os mais velhos. A prudência dos mais velhos será um abalizador para os jovens. A prudência é um freio necessário para que se evitem colisões desnecessárias. A rebeldia equivale ao acelerador.


A prudência também pode ser comparada ao volante do carro, enquanto a rebeldia ao seu motor. A prudência é a autoridade. A rebeldia é o poder.


Converter não é deixar de ser o que é, tornando-se outra coisa. Não se está sugerindo que os rebeldes devem deixar de ser rebeldes pra se tornarem prudentes, nem vice-versa. Conversão é “voltar-se na direção de...”. Se a rebeldia dos jovens for direcionada para a prudência dos justos, a revolução será inevitável. 







Este é mais um capítulo de nosso livro sobre o conflito de gerações. Conto com as críticas, perguntas e sugestões de vocês. À medida que me forem enviadas, este capítulo poderá sofrer alterações.

Terça-feira, Novembro 22, 2011

2

O papel da Igreja na construção da Paz na Cidade




Por Hermes C. Fernandes


"Jerusalém gravemente pecou (...) ela não pensou no seu futuro." Lamentações 1:8-9.


Mais uma comunidade pacificada na Cidade Maravilhosa. Diferente do que aconteceu no complexo do Alemão, não houve enfrentamento na ocupação da Rocinha. Nem um tiro foi ouvido. Para os moradores da maior favela da América Latina, alívio. Para os que anelavam por uma invasão cinematográfica que resultasse na aniquilação dos bandidos, decepção. Seria este o caminho? Será que isso resolveria de vez a questão da segurança pública no Estado do Rio de Janeiro? 

À época da ocupação do Alemão, assisti a uma entrevista cedida a uma repórter da TV em que um dos traficantes da região disse que se fossem eliminados, já haveria outros para substituí-los. Portanto, engana-se quem imagina que eliminando os atuais agentes criminosos, o problema terá sido resolvido. 

Precisamos, sim, desativar a fábrica de bandidos que continua funcionando a todo vapor, produzindo "Nem" em série. E isso se dará quando as crianças que crescem nestas comunidades passarem a ser assistidas pelo Estado. Quando estas mesmas crianças tiverem outras referências que não sejam os bandidos, tidos por muitos como verdadeiros Robin Hoods da comunidade. 

É triste saber que muitas destas crianças esfarelam o giz usado na escola para que pareçam droga, enquanto brincam de serem traficantes, portando armas de brinquedo.

Infelizmente, nossos governos agem pensando a curto e médio prazo. Por anos, essas comunidades foram negligenciadas pelas autoridades. A preocupação repentina com a questão de segurança se deve à proximidade das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Estamos mais preocupados com a imagem do Rio lá fora, do que a segurança de seus cidadãos. Queremos garantir o sucesso desses eventos esportivos, mas não estamos preocupados em implementar medidas que repercutam nas próximas gerações. 

Ao procurarmos por soluções imediatistas para os problemas da cidade, não estaríamos incorrendo no mesmo erro de Jerusalém dos tempos de Jeremias?

- Jerusalém cairá! diziam os profetas em uníssono. Porém, ninguém quis dar ouvidos à advertência. Desde que o povo hebreu entrou na Terra Prometida, os anos sabáticos foram negligenciados. De acordo com a ordem divina, podia-se cultivar a terra por seis anos, mas no sétimo, a terra deveria descansar (Lv.25:3-5).

490 anos se passaram, e a terra continuava sendo cultivada ininterruptamente. Interessante que hoje, milhares de anos depois, a ciência comprova que se a terra não descansar a cada seis colheitas, ela perde a produtividade. Chegara a hora da cobrança. A terra já não suportava mais. E se ela deixasse de produzir, a fome destruiria aquela nação.

Jeremias, em suas Lamentações, afirma que o pecado de Jerusalém foi não pensar no seu futuro. Aquela era uma geração inconseqüente e irresponsável. Nossa sociedade tem incorrido no mesmo erro. Somos uma civilização imediatista. Só pensamos nas necessidades imediatas. Enquanto isso, o futuro está sendo sacrificado no altar das conveniências. Nossos rios estão poluídos. Nosso abastecimento de água potável está ameaçado. Milhares de espécies de animais correm o risco de serem extintas ainda este século. Nosso ar está irremediavelmente comprometido pelos gases tóxicos emitidos pelas chaminés das fábricas e por nossos veículos. Nossas crianças estão sendo educadas pela babá eletrônica (TV), ou estão soltas na rua, sendo recrutadas pelo tráfico. Definitivamente, não temos pensado em nosso futuro. 

Se o que se tem pregado em muitos púlpitos for verdade, não temos com que nos preocupar. Afinal, somos a última geração! Infelizmente, é nisso que a maioria dos cristãos crê em nossos dias. Se continuar nesse ritmo, nossa civilização cairá. 

O papel do profeta não é prever, mas prevenir. Não podemos continuar nessa marcha rumo à aniquilação. Algo precisa ser feito. E o primeiro passo é a conscientização acerca do problema e da responsabilidade que temos como sociedade. Um dia a terra vai cobrar! E já está cobrando. A conta é caríssima. Quem vai pagar? As próximas gerações. Em outras palavras, estamos deixando a conta para nossos filhos e netos.

Nossa dívida com a terra já está rolando há muito tempo. São juros sobre juros. O povo de Jerusalém já devia 70 anos sabáticos à sua terra. Em 490 anos, eles jamais atentaram para esse mandamento. Chegara a hora de cumprir a sua parte no trato feito com Deus. Nabudonozor foi o monarca babilônio usado por Deus para remover os judeus de sua terra. Foram exatos 70 anos de exílio, para que a terra recebesse o descanso devido. Setenta anos sem arado, sem semeadura, sem colheita.

Foi Zacarias quem profetizou já no fim do exílio babilônico: “...Toda a terra está tranqüila e descansada. Então disse o anjo do Senhor: Ó Senhor dos Exércitos, até quando não terás compaixão de Jerusalém, e das cidades de Judá, contra as quais estiveste irado estes setenta anos?” (Zc.1:11b-12). O juízo de Deus não se restringe ao aspecto punitivo, mas sempre traz em seu bojo a manifestação da misericórdia de Deus para com a Sua criação.

Quando os judeus chegaram à Babilônia, muitos profetas se levantaram para consolar seus patrícios, afirmando que seu cativeiro duraria pouquíssimo tempo. Porém Deus levantou Jeremias pra garantir àquela gente, que seu cativeiro duraria pelo menos por duas gerações. Não adiantaria murmurar, reclamar, ou promover algum tipo de levante contra aquela situação. Sua terra precisaria de um descanso de 70 anos.

Destoando completamente de seus colegas, Jeremias diz:

“Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os que foram transportados, que eu fiz transportar de Jerusalém para Babilônia: Edificai casas, e habitai nelas; plantai pomares, e comei o seu fruto. Tomai mulheres, e gerai filhos e filhas; tomai mulheres para os vossos filhos, e dai as vossas filhas a maridos, para que tenham filhos e filhas. Multiplicai-vos, e não vos diminuais”. Jeremias 29:4-6

Em outras palavras, era hora de desfazer as malas, e programar-se para o futuro. Nada de alienação, nem falsas esperanças. Ali era seu novo lar. Em vez de lamentar-se a vida inteira, eles deveriam edificar, plantar, comer, construir relacionamentos, criar filhos e etc.

Jeremias prossegue: “Procurai a paz e a prosperidade da cidade, para onde vos fiz transportar. Orai por ela ao Senhor, porque se ela prosperar vós também prosperais”. Jeremias 29:7

Quem disse que nossa prosperidade independe da realidade social na qual estamos inseridos? É claro que Deus é poderoso o suficiente pra nos fazer prosperar a despeito da crise econômica em que nosso país esteja mergulhado. Entretanto, em Sua sabedoria, Deus nos permite passar pelas mesmas situações e adversidades que os demais. Salomão reconhece isso ao declarar: “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao mau, ao puro e ao impuro” (Ecl.9:2). Ninguém está imune às adversidades desta vida. Portanto, em vez de buscar nosso bem-estar particular, devemos buscar incessantemente o bem-estar de todos à nossa volta. Se nosso país prospera, nós também prosperamos. Se ele sofre, nós também sofremos.

Não consigo entender a indiferença de muitos cristãos para com as questões sociais e ambientais. Parecem pessoas de outro mundo. Todos somos igualmente vítimas dos maus tratos sofridos pelo meio-ambiente. Todos somos vítimas das injustiças sociais. Todos somos vítimas da violência urbana.

A alienação constatada no meio cristão é fruto de uma mensagem desequilibrada, que leva as pessoas a acreditarem que esse mundo não tem jeito, e que a única coisa a fazer é esperar pelo dia em que seremos arrebatados ao céu.

Pregadores e teólogos regem o coro que diz: quanto pior, melhor. Para eles, isso aceleraria a volta de Jesus. Para eles, simplesmente não há futuro. Pelo menos, não nesta terra. Por isso, os crentes parecem estar sempre de “malas prontas” pra partir daqui. Eles são constantemente alertados: Vivam hoje, como se fosse o último dia. Até que ponto, esse tipo de postura não faz de nós um povo alienado?

Ora, se somos a última geração, por que deveríamos nos preocupar com questões como a camada de ozônio, a emissão de gases tóxicos, a má distribuição de renda, e outras questões igualmente pertinentes.

Geralmente, os crentes estão mais preocupados com questões de cunho moral, tais como o aborto, o homossexualismo, a liberação das drogas e etc. Não que estas questões não tenham seu grau de importância. Mas o fato é que estamos coando mosquitos, e engolindo camelos o tempo inteiro. Quando Cristo vier, Ele certamente deseja encontrar uma igreja militante, de mangas arregaçadas, trabalhando pela transformação do mundo. Infelizmente, o que vemos hoje, é uma igreja apática, alienada, gnóstica, e descomprometida com a agenda do Reino de Deus.

Se não precisássemos nos preocupar com aquilo que ocorre em nosso mundo, como se isso não nos afetasse, Paulo jamais nos teria admoestado:

“Exorto, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis, e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e sossegada, em toda piedade e honestidade.” 1 Timóteo 2:1-2.

Leis que são votadas na surdina no Congresso Nacional, afetam em cheio o nosso cotidiano. Não podemos mais fingir que está tudo bem, nem dar ouvidos aos profetas da comodidade. O mundo não está acabando! Há futuro para a humanidade.

Veja o que a boca do Senhor diz:

“Pois eu sei os planos que tenho para vós, diz o Senhor, planos de paz, e não de mal, para vos dar uma esperança e um futuro.” Jeremias 29:11.

Ora, se há futuro para nós, temos que agir hoje, como se fosse o primeiro dia do resto de nossas vidas.

Temos que pensar naqueles que nos sucederão. Quando ouço alguns pastores afirmando que o mundo está caminhando para um fim iminente e trágico, tenho vontade de perguntar qual a razão de a maioria deles parecer tão preocupada em construir templos suntuosos. Se não há futuro, não há razão pra construir nada. Cruzemos os braços, e aguardemos o pior. Mas se há futuro, arregacemos as mangas, e mãos à obra! E lembremo-nos de que, não é a Terra que será destruída, e sim, aqueles que a destroem (Ap.11:18).

Segunda-feira, Novembro 21, 2011

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O que vale a pena, quando a alma não é pequena?





















Por Hermes C. Fernandes


“Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão eu morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Acaso estou eu no lugar de Deus que te impediu o fruto de teu ventre?” (Gn. 30:1-2).

Que sentimento é mais repugnante que a inveja? Alguns a chamam de “pecado inconfessável”. É mais fácil admitir a culpa por um adultério, do que assumir que é invejoso.

Raquel teve inveja de sua irmã Lia. E por quê? Porque Lia custara a Jacó sete anos de trabalho, enquanto ela custara o dobro. Entretanto, Lia dera filhos a Jacó, enquanto Raquel era estéril. A inveja de Raquel provinha da conclusão de que ela não valera o quanto seu marido pagara por seu dote.

Cansada e desesperada, ela apelou ao seu marido, como se ele fosse o culpado. Jacó reagiu fortemente, sugerindo que ela reclamasse diretamente com Deus.

O desespero foi tamanho, que Raquel foi capaz de oferecer sua criada a Jacó, para que lhe gerasse um filho, que ela pudesse, ao menos, embalá-lo em seu colo.

Apesar de seu pedido ser fruto de um sentimento reprovável (inveja), Deus resolveu atendê-la:

“Então Deus se lembrou de Raquel, ouviu-a, abriu a sua madre e ela concebeu, e deu à luz um filho, e disse: Tirou-me Deus a minha afronta. E chamou-lhe José, dizendo: Acrescente-me o Senhor outro filho” (Gn.30:22-24).

Às vezes, Deus permite que sejamos bem sucedidos, mesmo que nossos esforços tenham uma motivação errada. A despeito de nossas motivações, Deus tem Seus propósitos!

O Apóstolo Paulo admitiu que “alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa mente” (Fp.1:15). Sua conclusão foi: “Mas que importa? Contanto que Cristo, de qualquer modo, seja anunciado” (v.18). Apesar de muitos pregarem o Evangelho por motivos escusos, podemos perceber um saldo positivo, pelo menos, em salvação de almas. Esse “saldo positivo” não significa que Deus esteja endossando tais ministérios, e sim que Ele esteja mantendo de pé a promessa de que Sua Palavra não voltaria vazia, apesar dos instrumentos serem falhos.

Raquel custou a Jacó catorze anos de trabalho gratuito para seu sogro Labão. Embora se sentisse amada, Raquel não estava satisfeita. Ela queria embalar em seus braços um filho gerado em seu próprio ventre. Não bastava ter filhos postiços, gerados no ventre de suas criadas. Ela queria um filho legítimo, fruto do amor entre ela e seu marido.

Quando finalmente ela se engravidou, nomenou seu primeiro filho de José, pois queria que o Senhor lhe acrescentasse outro filho. Em outras palavras, “José” significa “quero mais”, ou “mais um”. Ela só não imaginava o preço que teria que pagar pelo filho extra que ela pedia a Deus.

É próprio do ser humano querer sempre mais. Temos fome do infinito. Não nos contentamos em pisar no solo lunar; agora queremos caminhar em Marte. Foi esta fome insaciável que nos fez atravessar os oceanos, e colonizar até as mais inóspitas regiões do planeta. E se alguém acha que determinada realização vai conferir-lhe sensação de plenitude, está redondamente equivocado. Sempre vamos desejar mais. Seja qual for a motivação que nos norteie.

Segundo as Escrituras, “partiram de Betel e, havendo ainda pequena distância para chegar a Efrata, Raquel deu à luz um filho, cujo nascimento lhe foi a ela penoso. Tendo ela trabalho em seu parto, disse-lhe a parteira: Não temas, pois também este filho terás. Ao sair-lhe a alma (porque morreu), chamou-lhe Benoni. Mas seu pai lhe chamou Benjamim” (Gn.35:16-18).

Raquel não era marinheira de primeira viagem. Ela já havia tido a experiência antes. Mas agora algo estava diferente. Havia no ar a sensação de despedida. Já quase fora de si, Raquel ouve dos lábios da parteira que seu filho já estava às portas. Suas últimas palavras antes de render sua alma foi “Benoni”. Foi assim que Raquel chamou seu caçula.

Jacó poderia ter atendido ao último pedido de Raquel, permitindo que seu filho se chamasse Benoni. Mas Jacó sabia o peso que tinha um nome, e o estigma que ela carregaria pelo resto de sua vida. Benoni significa “filho da minha tristeza”. Imagine ser responsabilizado pela morte da mãe pelo resto de sua vida. Pior do que ser chamado de “trapaceiro” (Jacó), seria ser chamado de “tristeza de sua mãe”.

Por isso, mesmo amando desesperadamente a Raquel, Jacó preferiu ignorar o seu último lamento, pondo em seu caçula o nome de Benjamim, que quer dizer “Filho da Felicidade”, ou ainda, “Filho da minha força”.

Nosso Deus é o Senhor das circunstâncias. Não há nada que nos aconteça sem a Sua permissão. E tudo quanto Ele nos permite viver é impregnado de propósito. No entanto, Ele nos concede o privilégio de nomenar nossas experiências. Nomenar não é apenas dar nome, mas avaliar, atribuir significado a algo.

Lembre-se que Deus criou todos os animais, mas coube ao homem dar nome aos bichos.

Os hebreus sabiam a responsabilidade que era nomenar um filho, pois ele carregaria consigo uma marca indelével.

Hoje em dia, as pessoas dão nome a seus filhos inspirados nos astros da TV. Mas naquela época, os nomes tinham que expressar o significado atribuído a uma experiência. Às vezes, os pais esperavam anos até encontrar um nome que correspondesse ao caráter do filho.

Ao nomenar seu último filho de Benoni, Raquel estava expressando a tristeza que lhe tomava o coração, por saber que jamais amamentaria aquele filho tão desejado. Porém, Jacó se recusou a imprimir na criança uma marca tão repulsiva. Se ele se chamasse Benoni, ele carregaria a culpa pela morte de sua mãe por toda sua vida.

Ora, se cremos que, de fato, todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus, conforme lemos em Romanos 8:28, então temos que fazer uma leitura positiva de nossas experiências, mesmo as mais tristes.

Paulo, que era descendente de Benjamim, compreendeu tal fato. Muitos desconhecem que ele passou mais da metade de seu ministério atrás das grades. Em vez de ficar se lamentando por isso, ele preferiu dar um significado positivo a isso.

“E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior avanço do evangelho. De maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais. Muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas cadeias, ousam falar a palavra mais confiadamente, sem temor” (Fp.1:12-14).

Para Paulo, suas cadeias eram “Benjamim”, e não “Benoni”.

Quanto custa gerar um “Benjamim”?

Eis o paradoxo da graça! Embora tudo quanto o Senhor faz em nossa vida seja pura gratuidade, há um preço que temos que pagar para que os Seus propósitos se cumpram em nós.

A Graça não exclui a renúncia. Pelo contrário: “A graça... nos ensina a renunciar” (Tt.2:11-12).

Uma graça que nos poupa da renúncia não é a graça oferecida por Jesus.

Gerar e dar à luz Benjamim custou a Raquel sua própria vida.

Este é o preço por querer mais... O preço por desejar fazer a vida valer a pena.

Só vale a pena viver por aquilo pelo que dispomos morrer.

O que Deus pede que renunciemos? Carros? Casas? Dinheiro? Não! Nossa própria vida! Eis o preço! E é a graça que nos capacita a pagar tão alto preço.

Temos que viver e morrer por algo maior do que nós mesmos. Algo que vá além de nossa existência terrena. Algo que continue aqui quando partirmos.

Era esse o sentimento que norteava a vida do apóstolo dos gentios:

“Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At.20:24).

Esse posicionamento perante a vida nos leva a dar um novo significado a tudo, até mesmo à morte. Por isso, Paulo diz aos Filipenses: “A minha ardente expectativa e esperança é de em nada ser confundido, mas ter muita coragem para que agora e sempre, Cristo seja engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Pois para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp.1:20-21).

A morte já não nos soa com um “bicho-papão”. E sabe por quê? Porque já morremos! Já fomos crucificados com Cristo, e agora, já não somos nós, mas Cristo que vive através de nós.

Esta é a morte pela qual temos que passar para fazer a vida valer à pena. É o total desapego da própria vida, dispondo-se a abrir mão dela por um bem infinitamente maior.

Portanto, pra nós, morrer é lucro!

O que nos importa é o legado que deixaremos neste mundo, concebido e gestado a partir do momento em que abrimos mão de nossa vida.

Paulo, o mais importante dos descendentes de Benjamim, adquiriu tal consciência, e a expressa com maestria em sua epístola aos Filipenses:

“Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus (...) o que para mim era lucro, considerei-o perda por causa de Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo” (Fp.3:5a,7-8).

Jesus disse que “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só. Mas se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, mas quem odeia a sua vida neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna” (Jo.12:24-25).

Negar-se a morrer é abraçar a solidão. É a morte do nosso ego que nos torna frutíferos.

Outra coisa que me chama a atenção nesse episódio é que Raquel entra em trabalho de parto a caminho de Efrata (Belém). E é ali, em plena jornada, que Raquel deixa esta vida para entrar na Eternidade. É ali, a caminho de Belém, que Raquel dá à luz Benjamim, filho da felicidade.

Somos o povo do caminho. E precisamos aprender que a felicidade não é encontrada no destino, mas na jornada. Então, apreciemos a paisagem!

Como aconteceu a Moisés, estamos fadados a peregrinar até chegarmos à borda da terra prometida, e então, sermos recolhidos por Deus.

Nada é mais honroso do que gestar um sonho que será desfrutado pelos que vierem depois de nós.

Somos hebreus! Um hebreu, por definição, é um caminhante, um peregrino.

Mas não caminhamos sem rumo. Não estamos perambulando pelas sendas da vida. Temos um alvo! Temos um destino! É este destino supremo que nos move pra frente.

Há alvos que são alcançados com relativa facilidade. Porém, quando estabelecemos alvos humanamente inalcançáveis, temos que estar prontos para a possibilidade de só o alcançarmos no limiar desta vida. É possível que tenhamos um vislumbre, mas não desfrutemos plenamente.

Algumas de nossas conquistas são como dar à luz José. Fica sempre a impressão de que falta algo. Alvos mais nobres são como Benjamim, e podem ser paridos quando ainda estamos a caminho. Se algo vale à pena, então, temos que estar dispostos a morrer por isso, sem nos preocupar caso não desfrutemos de nossas próprias realizações.

O texto diz: “Assim morreu Raquel, e foi sepultada no caminho de Efrata (isto é, Belém)” (Gn.35:19).

Raquel só teve tempo de contemplar de relance o filho tão desejado.

É no caminho que as grandes realizações são alcançadas inusitadamente.

Jamais devemos supor que já alcançamos o supremo propósito de nossa vida. Quando isso houver acontecido, o Senhor nos chamará.

Tal consciência é encontrada em Paulo:

“Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito, mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não julgo que o haja alcançado. Mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que para trás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo...” (Fp. 3:12-14a).

Ele não escreveu isso no início de sua jornada espiritual, mas já chegando ao fim dela. E ele diz que todos os que são “perfeitos” devem ter esta mesma consciência. Pode soar paradoxal, mas aos olhos de Deus somos perfeitos enquanto reconhecemos nossa imperfeição. Somos fortes, quando reconhecemos nossa fraqueza. Somos completos, quando reconhecemos nossa incompletude.

Em vez de buscarmos desenfreadamente por satisfação pessoal, estabeleçamos alvos que vão além de nós, sonhos que nos sobrevivam, que se tornem um legado para as próximas gerações.

Só uma alma pequena pensa só em si mesmo. Parafraseando o poeta, a vida só vale à pena, quando a alma não é pequena. Quando ela é capaz de entregar-se inteiramente por ideais que estejam acima de suas pretensões pessoais; quando se dispõe a qualquer sacrifício em prol de um bem infinitamente maior.

Com isso em mente, até episódios tristes de nossa vida, serão reavaliados e interpretados como “filhos da felicidade”.

* Publicado originalmente em 5/9/2009