
Por Hermes C. Fernandes
Recentemente ganhei um exemplar do filme Distrito 9, que fala da convivência nada pacífica entre humanos e alienígenas, numa espécie de Apartheid cósmico. O filme foi rodado na África do Sul, e me surpreendeu pela sua narrativa incomum e seus efeitos pra lá de especiais, colocando muitos filmes americanos no bolso. O problema é que o filme não estava em DVD, mas em Blu-ray. Por não ter um blu-ray player, fiquei impossibilitado de assisti-lo. Porém, minha curiosidade era tão grande, que acabei alugando um DVD do filme na Blockbuster próxima de minha casa.
A olhos nus, não há qualquer diferença entre um DVD, um CD e um Blu-ray. São mídias muito parecidas. O mesmo tamanho, a mesma textura, o mesmo aspecto exterior. Mas a qualidade é inconfundível. Tudo porque o Blu-ray faz uso de um laser de cor azul-violeta, cujo comprimento de onda lhe permite gravar mais informação num disco do mesmo tamanho usado por tecnologias anteriores, e com altíssima definição e densidade. O DVD usa um laser de cor vermelha.
Sou de uma geração que assistiu ao salto tecnológico dos últimos trinta anos. Lembro perfeitamente da vitrola que havia na sala de nossa casa. Aliás, minha mãe conta que nasci ao som de hinos cristãos tocados na velha vitrola. Lembro do meu deslumbramento quando pela primeira vez vi uma TV colorida numa loja do Ponto Frio em Alcântara, S. Gonçalo, enquanto esperava com minha mãe no ponto de ônibus. Lembro quando trocamos o velho televisor de válvulas por um de transistor. Lembro ainda quando meu pai ganhou seu primeiro vídeo cassete, cujo controle remoto era ligado por um enorme cabo.
Do vinil para o CD foi um salto.
Do VHS para o DVD foi outro grande salto.
Das TVs de válvula para as de transitor, depois para as de plasma e LDC, e agora lançaram a TV LED, cuja espessura é inacreditavelmente fina. Um salto com vara!
Da internet discada para a banda larga, outro salto.
E agora, do DVD para o Blu-ray.
Que bom que teremos um tempo para nos adaptar.
O player já está barateando aqui pelas nossas bandas. Já o encontramos a 99 dólares (cerca de 175 reais). Mas além dele, temos que comprar um cabo especial que custa cerca de 50 dólares. Li que no Brasil já se pode comprar um Blu-ray player por menos de 500 reais.
O fato é que estamos presenciando uma evolução tecnológica sem precedentes. Ninguém fica com um mesmo celular mais que um ano. Tudo evolui. E ninguém quer ficar pra trás, não é mesmo?
Pois vamos aproveitar a analogia que a tecnologia nos oferece para falar de outro tipo de evolução, a espiritual.
Não sou nenhum darwinista, mas devo admitir que haja uma evolução em andamento. Não nos moldes propostos por Darwin, mas naqueles encontrados nas páginas do Livro Sagrado dos cristãos.
O primeiro salto evolucionário se deu quando o homem recebeu o sopro de Deus em suas narinas. Naquele momento, um ser inanimado recebeu vida. O “boneco de barro” se levantou sobre seus próprios pés, fazendo jus à designação científica de Homo Erectus (Gn.2:7). O homem foi formado a partir de matéria pré-existente. A imagem do pó da terra foi escolhida por representar a menor partícula conhecida pelos hebreus. Pode representar moléculas, ou células, ou mesmo DNA. Porém a constituição espiritual do homem advém do sopro da boca de Deus. O que lhe confere o status de imagem e semelhança de Deus não é sua composição química, ou sua constituição biológica, mas o tal sopro recebido da boca do Criador. Por isso, como cristão, não me sinto ameaçado por qualquer teoria que tente explicar a origem física do ser humano. Costumo até dizer que, de fato, o homem tem parentesco com todos os demais seres vivos do planeta, pois têm um ancestral e um destino comuns que a Bíblia chama de “pó da terra”. Leia e confira:
“Disse eu no meu coração: Isso é por causa dos filhos dos homens, para que possa prová-los, e eles possam ver que são em si mesmos como os animais. Porque o que acontece aos filhos dos homens, isso também acontece aos animais; a mesma coisa lhes acontece. Como morre um, assim morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego, e nenhuma vantagem têm os homens sobre os animais. Tudo é vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos são pós, e todos ao pó tornarão” (Ecl. 3:18-20).
Na linguagem da informática, o que nos difere dos animais não é o hardware, mas o software. Em termos morfológicos, até que somos bem parecidos com eles, principalmente com os mamíferos. Repare a maneira como nossos membros e órgãos estão distribuídos no corpo.
O escritor de Eclesiastes nos revela que compartilhamos até o mesmo fôlego. Todos os seres vivos necessitam de oxigênio para viver, mesmo os subaquáticos.
Se assumirmos que o tal “pó da terra” é uma alusão ao DNA, podemos afirmar sem medo de errar que somos todos parentes, pelo menos em se tratando de composição física.
O DNA é o responsável pelas características físicas de todos os seres vivos. Desde um inseto até o maior mamífero, todos são compostos dos mesmos elementos básicos. O que os difere uns dos outros é o código secreto existente em cada célula. Como pode uma bactéria ser formada dos mesmos elementos que compõe o homem? O que os distingue é a forma como esses elementos se arrumam para formar o código, ou melhor, o DNA.
Para facilitar a compreensão, tomemos, por exemplo, algumas letras do nosso alfabeto. Com as letras A, M, O e R, podemos formar a palavra AMOR. Mas se invertermos a ordem das letras, poderemos formar a palavra ROMA. Ora, trata-se de palavras com sentidos completamente diferentes, mas com as mesmas letras. A mesma idéia pode se aplicar ao DNA. Embora todos os seres vivos possuam os mesmos elementos deste código, estes são arrumados em seqüências diferentes.
O DNA é formado pelos nucleotídeos adenina, citosina, timina e guanina, representados por suas iniciais A, C, T e G. Por incrível que pareça, apenas quatro elementos compõem o código da vida!
É interessante que um dos mitos judaicos sobre a formação do primeiro homem diz que Deus tomou quatro porções de terra provindas dos quatro cantos do Mundo. Tudo isso pode indicar que haja uma congruência entre o relato bíblico e os postulados científicos.
Se em vez de genes, assumirmos que o “pó da terra” seja uma alusão ao mundo atômico? Ora, o corpo humano é composto de células, trilhões delas, que surgiram a partir da fusão de duas células, o espermatozóide e o óvulo. E de que são feitas as células? De moléculas. Todos os seres, animados ou inanimados, são feitos de moléculas. A diferença é que nos seres vivos, as moléculas produzem células, enquanto nos inanimados não. Entretanto, todos são feitos de moléculas. E de que são feitas as moléculas? De átomos. Estes são os tijolos da Criação. Tudo o que Deus criou no Universo, desde as estrelas até a mais singela flor, é feito desse “tijolo” chamado átomo.
E por incrível que pareça, só há 92 tipos de átomos em toda a natureza. E como pode haver tamanha variação na obra de Deus? Como exclamou o salmista: “Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras!” (Sl.104:24a). Tudo depende das combinações que houver entre esses 92 tipos de átomos. São como letras de um alfabeto. Em nosso alfabeto existem apenas 26 letras, mas com elas pode-se escrever qualquer coisa: desde as mais aterrorizantes manchetes de jornais, até as boas-novas do Evangelho.
A partir daí, podemos concluir que o parentesco do homem não se limita aos seres vivos, mas também abrange toda a matéria existente no Universo. Olhando por este ângulo, parece razoável que Francisco de Assis se dirigisse ao Sol e à Lua, chamando-os de irmãos.
Apesar disso, o homem foi elevado à condição de coroa da criação (Sl.8:3-6). Deus lhe conferiu o domínio sobre a Terra, instituindo-o como seu representante. Coube-lhe, entre outras coisas, cuidar e desenvolver a Terra, classificar e catalogar os demais seres vivos, dando-lhes nomes, e multiplicar-se. Portanto, a cultura, a ciência e o sexo são anteriores à Queda.
Para que cumprisse seu mandato cultural, o homem necessitaria desenvolver seu potencial latente, aprendendo a lidar com as diversas situações ao longo de sua jornada existencial. Tal conhecimento deveria ser obtido através de sua comunhão com o Criador e de sua experiência com a criação. Em vez de saltos, o homem teria que desenvolver-se passo a passo. Porém surgiu a possibilidade de um atalho. Uma árvore se erguia no centro do jardim.










