Domingo, Fevereiro 28, 2010

7

Sobre o PLC 122/2006, a Igreja, os homossexuais...

Neste post, quero expressar o que penso acerca do PLC122/2006, projeto de lei "que pune a discriminação contra homossexuais". Para os desavisados, há uma enquete no site do Senado com a seguinte pergunta: "Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?". Ora pois! Fora os fascistas, quem responderia "não"? Na última vez que acessei a página, o "sim" vencia com 51,68%. Acabo de ler todo o texto e percebi alguns pontos que gerariam um possível "não": a interferência do Estado num discurso contrário à prática homoafetiva.

"Amamos o homossexual, mas repudiamos o homossexualismo." - essa é a principal frase que ouço da parte dos cristãos; sobretudo, contrários ao PLC 122/2006. É um assunto delicado. Se você ainda não leu o projeto, aconselho que leia todo o texto (com suas alterações propostas) neste site. Assim, você terá uma opinião bem pessoal; quem sabe, mesmo sendo cristão, diga "sim".

Minha opinião acerca de um tema tão discutido é clara. Sou contra a discriminação aos homossexuais. O que não concordo é com o movimento GLBT que diz lutar pela diversidade, apresentando um discurso bastante orgulhoso. É uma pena! Lutar contra a homofobia é um compromisso que deveria ser praticado juntamente com a Igreja. Infelizmente, a Igreja que deveria ser a vanguarda de movimentos pela justiça social é tida como a "chuva no piquenique"...

Dizer que a bíblia é favorável ao homossexualismo é uma heresia. É muito mais sincero reconhecer que a bíblia discorda do homossexualismo e levar a vida - deixando a prática ou não: fica para o livre (?) arbítrio - ao invés de ficar criando heresias, nas igrejas "evangélicas" GLBT. Que diversidade é essa que não permite a discordância à prática homossexual? Dizer que sou contrário ao homossexualismo me faz ser um homofóbico? Dizer que os homossexuais precisam ser respeitados me faz ser um simpatizante? Não e não! É verdade que o papo de "nós amamos os homossexuais, mas repudiamos o homossexualismo" é mera teoria para alguns cristãos. Para alguns, é somente discurso. Ainda há muito desrespeito por parte de grupos (que se dizem) cristãos, mesmo tendo Cristo lutado contra toda forma de discriminação. Ah! Temos tanto a aprender com o Mestre!

Acredito que é preciso valer a proposta de diversidade, contida nas cores do arco-iris, símbolo do movimento GLBT. Caso contrário, ficaremos num discurso cada vez mais monocromático, em que ficará rotulado de "homofóbico" quem discordar do comportamento homossexual (tal como aquele que não enxerga a roupa do rei é taxado de "ignorante"). Por uma verdadeira diversidade e pela luta contra a verdadeira homofobia! Porque Jesus ama os homossexuais e deseja que eles O amem!


7

Megaterremoto: 100 vezes mais forte que o do Haiti

O terremoto de magnitude 8,8 que sacudiu o Chile neste sábado, dia 27, causou a morte de mais de 700 pessoas. A presidente chilena Michelle Bachelet, afirmou que o desastre afetou de alguma maneira cerca de 2 milhões de pessoas.

“As forças da natureza golpearam duramente nossa pátria e mais uma vez põem à prova nossa capacidade de enfrentar adversidades e ficarmos de pé”, declarou a presidente em um pronunciamento transmitido em cadeia de rádio e TV do país.

Segundo Bachelet, que sobrevoou de helicóptero as áreas atingidas neste sábado, o terremoto afetou 80% do país e há pelo menos 1 milhão de casas danificadas.

A energia liberada pelo terremoto deste sábado foi 100 vezes maior à registrada nos tremores do Haiti, no último mês. Atingindo a magnitude de 8,8 graus na escala Richter, o sismo foi o sexto maior já medido pelos cientistas. Se o terremoto do Haiti tivesse sido tão forte quanto, poderia gerar uma tsunami que varreria as ilhas do Caribe e atingiria boa parte da costa leste americana. Miami seria sacudida! A energia liberada pelo terremoto equivale a de 3 mil bombas de Hiroshima. A catástrofe só não foi mais trágica do que a do Haiti por duas razões: o epicentro foi relativamente distante dos centros urbanos, cerca de 90 km de Concepción, segunda maior cidade do país, enquanto o epicentro do terremoto do Haiti foi apenas a 15 km da capital, Porto Príncipe. O outro fator é a engenharia, uma vez que o Chile já tem um histórico de terremotos, e por isso, muitas construções são reforçadas. Os prédios na área de ocorrência do terremoto obedecem a índices severos de segurança, minimizando assim o número de vítimas fatais.

Após o terremoto, cerca de 48 tremores menores foram registrados no Chile, cinco deles de grande magnitude (acima de 6 graus).

O que será que está acontecendo com o mundo, afinal?

Alguns pregadores zelosos (e alguns tantos sensacionalistas) aproveitam tais catástrofes para enfatizar a proximidade do fim do mundo, como se terremotos nunca houvessem acontecido antes, ou pelo menos, com tamanha freqüência. Terremotos, bem como Tsunamis, Furacões, Tornados e outros cataclismos naturais, sempre ocorreram. Não se trata do fim dos tempos. No parecer de Paulo, o apóstolo, a criação geme como se estivesse com dores de parto. Poderíamos dizer que tais terremotos são como contrações de uma natureza prenha, prestes a dar a luz. Uma nova terra está a caminho. Os geólogos sabem disso. Nosso planeta está passando por uma reconfiguração, um reajuste, que abarca todo seu ecossistema. As placas tectônicas estão se ajustando, e isso tem seus efeitos colaterais. À medida que se aproxima a hora do parto, as contrações tendem a ficar mais intensas e freqüentes.

Terremotos também não têm nada a ver com pactos que tenham sido feitos com forças espirituais. Gostaria de saber o que aqueles pregadores que creditaram o terremoto do Haiti a um pacto entre seus ancestrais e o diabo diriam sobre este sismo que abalou o Chile. Seria também devido a algum pacto demoníaco? Acho que seu diagnóstico será outro, e sabe por que? Porque a população chilena é, em sua maioria, branca, de ascendência européia, bem diferente da população haitiana.

Sábado, Fevereiro 27, 2010

0

Forte Terremoto no Chile é sentido em São Paulo

Um terremoto de magnitude 8,8 atingiu neste sábado o centro-sul do Chile e matou pelo menos 47 pessoas*, segundo autoridades locais. Este foi o maior terremoto dos últimos 25 anos no país.

Segundo o United States Geological Service (USGS, por sua sigla em Inglês), o terremoto teve seu epicentro a 35 quilômetros de profundidade, na região de Bio Bio, a cerca de 320 quilômetros ao sul da capital chilena, Santiago, e 91 quilômetros ao norte de Concepción.

Horas depois do primeiro tremor, a região foi atingida por um segundo tremor, de magnitude 6,2. A presidente chilena, Michelle Bachelet, convocou uma reunião de emergência para discutir as medidas após o tremor.

Em razão do tremos, um alerta de tsunami foi emitido para as zonas costeiras do Chile, Equador e Peru, e depois estendido para a Colômbia, Panamá, Costa Rica e Antártida. A agência meteorológica do Japão alertou para possíveis tsunamis na região do Pacífico.

'Interminável'

De acordo com a correspondente da BBC no Cone Sul Valeria Perasso, na região de Araucanía, foram relatados danos a hospitais e redes de infraestrutura básica, como água, gás e electricidade.

Moradores das zonas atingidas pelo terremoto descreveram o tremor como "interminável", e o estado de choque foi sentido nas ruas, em meio a casas destruídas.

Segundo o USGS, os efeitos do tremor foram percebidos no mar de Valparaíso, na costa a oeste de Santiago.

Na capital chilena, relatos dão conta de que os prédios tremeram entre 10 e 30 segundos.

Um professor da universidade de Santiago, Cristian Bonacic, disse que o terremoto foi forte, mas que a cidade parecia ter resistido bem. Comunicações via internet estavam funcionando, mas não os telefones celulares.

Um jornalista que falou à TV chilena da cidade de Temuco, 600 km ao sul da capital, afirmou que muitas pessoas haviam deixado suas residências com medo de desabamentos.

Depois do terremoto, tremores de intensidade variável foram registrados em todo o país, levando as autoridades chilenas a pedir aos moradores que permaneçam em casa.

Graciela Martín, de Mendoza, no lado argentino da fronteira andina, afirmou que "deste lado da fronteira, sentimos um tremor de cerca de um minuto."

Há inclusive depoimentos de pessoas que dizem ter sentido os efeitos no Brasil. A Defesa Civil de São Paulo confirmou os relatos, mas disse que não há danos ou vítimas.

Bachelet

Ao convocar a reunião de emergência, a presidente Michelle Bachelet, que havia planejado com antecedência uma viagem para a região de Bio Bio neste sábado, afirmou que equipamentos seriam enviados de Santiago para as províncias do sul para restabelecer as comunicações interrompidas.

"Foi de fato um grande terremoto, mas as instituições estão funcionando. Em breve poderemos ter informação visual sobre o que aconteceu", disse a presidente chilena.

O maior terremoto a atingir o Chile no século 20 foi um tremor de magnitude 9,5, que atingiu a cidade de Valdívia em 1960, deixando 1.655 mortos.

Para o sismólogo britânico Roger Musson, o terremoto deste sábado foi "gigantesco". "Qualquer movimento acima de oito graus é um grande terremoto", acrescentou.

* As últimas informações dão conta de cerca de 200 mortos até agora.


Tenho muitos amigos naquela região, onde estive pregando em várias igrejas em 2006. Entre os homens de Deus que conheci no Chile, destaco o Bispo Juan Diaz Calderón de Valparaíso, e o Pr. Miguel Fernandez. Estamos orando para que todos estejam bem.

1

O Grande Equilibrista

"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de lançar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. (...) Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim."
(Eclesiastes 3.1-11)

Uma das imagens que guardo da minha infância é a daqueles homens de circo equilibrando pratos em varas. Com total destreza eles enfileiravam vários pratos girando ao mesmo tempo na ponta das varas... O público atento, quando percebia que um prato estava perdendo a força e ameaçava cair no chão, fazia sinal para o equilibrista, mas ele sabia a hora exata de balançar a vara novamente e fazer o prato girar mais um pouco.

Às vezes ele deixava propositalmente um prato girar mais lento e dar a impressão que ia cair, o público ficava aflito, mas no momento exato, antes da queda, o equilibrista surgia novamente, sacudia a vareta para dar impulso e não deixava o prato cair no chão, demonstrando seu total domínio sobre o equilíbrio dos pratos.

Deus é o Grande Equilibrista do Universo! Macrocosmos, microcosmos, galáxias, constelações, tudo o que vemos e até mesmo o que não vemos estão sob a destreza e soberania de Deus em manter tudo em seu lugar. Cada reação química das nossas células, a forma como o seu e o meu coração batem, o jeito que nosso sangue coagula, tudo foi complexamente planejado para que fosse mantido um perfeito equilíbrio.

Da reprodução celular à colisão das galáxias, do alimento encontrado pelos passarinhos ao cheiro suave e das cores cintilantes das flores, a sua vida e a minha vida, tudo foi colocado por Deus girando como pratos nas pontas das varas.

O problema é que você e eu somos pratos que reagem, temos vontade própria, às vezes queremos assumir o controle e o equilíbrio das nossas vidas sem se importar com o que poderá acontecer. Mas o Grande Equilibrista é sábio! Ele diz assim: “não se mexa, deixe eu manter você rodando para não cair!” Mas infelizmente nossa teimosia diz: “não! Eu quero que seja do meu jeito!” e caímos no chão muitas vezes até Ele ajuntar novamente nossos cacos e colar os pedaços... Sim, o Grande Equilibrista também é mestre em colar pacientemente os nossos pedaços. As marcas vão ficando lá para que a gente lembre como é cair.

Se você é um prato que está perdendo a força, quase caindo, não se assuste se o Grande Equilibrista balançar sua base de vez em quando! Às vezes precisamos levar algumas chacoalhadas para retomar o equilíbrio da vida. Ele não faz por maldade, pelo contrário, Ele faz por amor. O Grande Equilibrista não gosta de perder nenhum prato, enquanto Ele estiver no controle sabe que não perderá, mas se o prato não quiser mais rodar Ele irá respeitar sua decisão.

Lembre-se! Somos todos pratos nas mãos do Grande Equilibrista, a melhor escolha que podemos fazer para não cair é deixá-lo controlar a velocidade com que giramos.

O Grande Equilibrista lhe abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!

Sexta-feira, Fevereiro 26, 2010

1

Justos por natureza?

Pesquisa garante que o ser humano traz um senso de justiça embutido em sua natureza

A desigualdade que vemos mundo afora não tem a cumplicidade de nosso cérebro. Um estudo publicado pela revista "Nature" mostra que, dentro de nós, a satisfação é muito maior quando todos têm direito a benefícios. Cientistas do Instituto Californiano de Tecnologia (Caltech) e do Trinity College, de Dublin, reuniram imagens de ressonância magnética que comprovam como o cérebro humano aprecia a igualdade. A descoberta põe em xeque a ideia de que a noção de justiça seria cultural.

O material obtido comprova que o centro de recompensa existente no órgão responde mais fortemente quando vemos uma pessoa pobre receber algum benefício do que quando o mesmo ocorre com um rico. Para surpresa dos estudiosos, a conclusão é a mesma até na análise do cérebro de endinheirados.

- Esta é a figura mais recente em nosso álbum sobre a natureza humana. Temos, agora, muitas ferramentas para estudar as reações do cérebro - comemora Colin Camerer, professor de Economia Comportamental da Caltech e um dos co-autores do artigo.

Resposta além da regra social

Há muito se sabe que nós, humanos, não gostamos da desigualdade, especialmente no que se refere a dinheiro. Diga a duas pessoas com o mesmo emprego que seus salários são diferentes, e vai haver descontentamento. Não se sabia, porém, o quanto esse desgosto é embutido.

- A aversão à desigualdade não é regra social ou fruto de uma convenção - rejeita John O'Doherty, professor de psicologia da Caltech. - Há realmente algo a ser considerado no processamento de recompensas em nosso cérebro.

Áreas cerebrais como o córtex pré-frontal ventromedial e o estriado ventral, que criam respostas positivas no corpo, foram analisadas em 40 voluntários, submetidos a uma série de situações envolvendo transações financeiras.

Antes de começar o processamento de por ressonância magnética, os participantes foram divididos em duplas. Um ganharia o que era chamado de "grande doação financeira" (US$ 50); outro começaria a experiência de bolsos vazios. O modo como os voluntários - ou, mais especificamente, os centros de recompensa de seus cérebros - reagiram aos vários cenários apresentados dependia fortemente de sua riqueza no início do estudo.

- Quem começou pobre tinha uma reação cerebral mais forte a situações em que recebia dinheiro, e quase nenhuma resposta a cenários em que os ganhos eram para outras pessoas - explica Camerer.

Até aqui, nenhuma surpresa. O que chamou atenção foi o outro lado da moeda.

- Os ricos do início da pesquisa reagiam mais fortemente quando outros ganhavam dinheiro do que nas situações em que eles mesmos eram beneficiados - lembra Camerer. - Em outras palavras, seus cérebros achavam melhor ver os outros enriquecendo.

O'Doherty também se encarregou de resumir o estudo: o cérebro não responde apenas ao interesse próprio do organismo. Os centros de recompensa também reagem à premiação de outros indivíduos.

- Reagimos de forma muito diferente às desigualdades vantajosas e às desvantajosas - conclui. - Somos sensíveis a diferenças sutis no contexto social. De certa forma, isso é contrário às visões prevalecentes que temos sobre a natureza humana. Como psicólogo e neurocientista cognitivo que trabalha com recompensa e motivação, vejo o cérebro como um dispositivo feito para maximizar nosso próprio interesse. O fato de que essa estrutura parece tão adaptada em responder aos benefícios obtidos por outros dá uma nova referência.

Camerer, economista, assume no artigo que sua visão foi derrubada. Também acostumado a pensar que as pessoas estão mais interessadas em seu próprio benefício, o pesquisador admite que, "se isso fosse verdade, não teríamos as reações apontadas pelo artigo quando outras pessoas ganham dinheiro".

Leia a matéria inteira aqui.

Fonte: O Globo

Comentário de Hermes Fernandes: Mais uma vez pesquisas científicas esbarram com verdades há muito reveladas nas Escrituras Sagradas. O senso de justiça não é aprendido culturalmente, como defendiam as ciências humanas, mas é um item de fábrica. Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, e é diretamente d'Ele que recebemos tal senso. Paulo discorre sobre isso em sua célebre epístola dirigida aos Romanos: "Quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei. Eles mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os" (Rm.2:14-15). Tal fato se deve inteiramente à Graça comum, e não serve para defender a bondade inata do ser humano. Embora tragamos em nossa natureza traços d'Aquele que nos criou, também trazemos a indelével marca do pecado. Por isso, nosso senso de justiça é incapaz de nos salvar. Ele possibilita o convívio humano em sociedade, mas não possibilita seu convívio com a Deidade. Daí a necessidade de que recebamos a justiça de Cristo, sendo justificados pela fé, mediante à Graça.

Quinta-feira, Fevereiro 25, 2010

5

Pelados, pelados, nus com a mão na Bíblia...



Uma igreja no Estado americano da Virginia (nordeste dos Estados Unidos) está causando polêmica ao receber fiéis nus. Até o pastor celebra o culto como veio ao mundo.

Na capela de Whitetail - uma comunidade nudista fundada em 1984, na cidade de Ivor -, roupas são um item opcional.

"Eu não acredito que Deus se importe com a maneira como você se veste quando você faz suas orações. O negócio é fazer as orações", diz Richard Foley, um dos frequentadores.

Mas entre os que não fazem parte da congregação, a ideia de uma igreja nudista não agrada muito. Várias pessoas ouvidas nas ruas de Ivor se surpreenderam e disseram achar o conceito de uma igreja nudista desrespeitoso.

O pastor Allen Parker discorda: "Jesus estava nu em momentos fundamentais de sua vida. Quando ele nasceu estava nu, quando foi crucificado estava nu e quando ressuscitou, ele deixou suas roupas sobre o túmulo e estava nu. Se Deus nos fez deste jeito, como isso pode ser errado?"

Lucro

A comunidade nudista de Whitetail vai de vento em popa apesar dos tempos de crise. Segundo a administração do resort, mais de dez mil pessoas visitaram o local no último ano e os lucros subiram 12% no período.

Os visitantes dizem que ser nudista é algo libertador. Para eles, em um ambiente como este não há julgamento de classe social e todos ficam livres para ser quem realmente são.

Além disso, o clima seria de igualdade. Um frequentador exemplificou isso dizendo que, na comunidade, não é possível dizer quem está desempregado, quem é alto-executivo e quem é encanador.

"Aqui, todos participam, todos são compreensivos e preocupados com a comunidade e com a família. Temos uma das congregações mais ativas da região. Eu considero isso um presente de Deus e um privilégio", disse o pastor Parker.



Comentário de Hermes Fernandes: De fato, a nudez começou a ser tabu a partir da chamada Era Vitoriana. Há documentos que comprovam que nos primórdios da igreja as pessoas eram batizadas nuas. Também há indícios de que Jesus tenha sido crucificado completamente desnudo. Às vezes chego a me perguntar se na eternidade, quando recebermos nossos corpos incorruptíveis, haverá necessidade de roupas. Até aí... tudo bem. O problema é o testemunho que tal igreja está dando ao mundo através deste comportamento inusitado. Não me atenho à questão moral, nem faço eco ao pseudo-puritanismo, mas me preocupo com a repercussão negativa, que promove um desserviço à causa do reino. O pastor peladão deveria se lembrar da advertência de Jesus: Ai de onde vem os escândalos! Só espero que esta igreja não seja do tipo pentecostal, porque se for, imagine a cena... além do barulho dos aleluias, dos pandeiros, das línguas, haverá um barulho adicional... Acho que este pastor deveria ser sagrado "bispo"... digo isso pelo tamanho de sua "episcopança". Com uma dessas, não precisa nem de púlpito para colocar a Bíblia... rs Só mais uma observação: só tem idosos na congregação? Cadê a juventude? Como seria servir a Deus num ambiente desses com os hormônios à flor da pele?

Terça-feira, Fevereiro 23, 2010

7

Os 15 anos da nossa Princesa Revelyn

Hoje, 23 de Fevereiro de 2010, Revelyn, nossa filha caçula, completa seus quinze aninhos. Como toda menina, seu sonho sempre foi ter uma festa de debutantes. Mas pelo fato de estarmos no campo missionário, não será possível tornar este sonho realidade. Assim como aconteceu com Rayane, nossa primogênita, que também completou 15 anos quando estávamos em missão nos Estados Unidos em 2005.

Mesmo assim, Revelyn não demonstrou qualquer descontentamento. Desde cedo tenho procurado preparar meus filhos para uma vida de renúncia em prol do Reino de Deus. Ainda ontem disse a ela que o preço de uma vida extraordinária é muitas vezes abrir mão do que é ordinário.

Revelyn é uma preciosidade. Sua concepção foi uma surpresa e seu nascimento um milagre. Explico: Rhuan, nosso filho do meio, tinha acabado de nascer (dois meses!) quando Tânia se engravidou novamente. Lembro-me que ao saber o resultado do texto de gravidez, saí dando gargalhadas de alegria e nervosismo. Por essa eu não esperava!

Mas ela foi muito bem-vinda, trazendo muita alegria para nossa casa. Na noite em que ela nasceu, a médica obstetra ficou estupefata, e me confidenciou que ao abrir o ventre de Tânia, encontrou seu útero aberto. Era simplesmente impossível que Revelyn tivesse sido gerada ali. Mas a gravidez foi até o fim, e nossa menina nasceu cheia de saúde. Seu nome seria Evelyn, mas como seus irmãos tinham nomes que começavam com "R", resolvemos acrescentar a letra ao seu nome, adaptando-o para Revelyn.

Nesses 15 anos ela só nos deu alegria. Aluna dedicada, gosta de dançar, atuar, tocar teclado (está aprendendo!), e acompanhar a mãe em tudo o que faz (principalmente quando vai ao salão! rs). Atualmente, participa do Clube de Teatro do High School, já tendo atuado na peça "Alice no País das Maravilhas".

Tanto ela quanto o Rhuan já haviam sido premiados no rol de honra da escola, sendo ambos convidados a tomar o café da manhã com o diretor da escola. Esta semana, Revelyn nos surpreendeu novamente. Ela nos contou que a diretoria da escola foi à sua classe e disse que lá estava a aluna eleita como estudante da semana. O Lake Mary High School tem milhares de alunos. Revelyn jamais podia imaginar que seria ela. Por isso, continuou a fazer o trabalho que a professora pedira, tomando um susto quando o diretor lhe apresentou como a melhor aluna da semana.

Eu, Tânia, Rayane e Rhuan nos sentimos honrados por Deus pela pessoa maravilhosa que abrilhanta nosso lar.

Revelyn, minha filha princesa, eu te amo muito, e sei que você ainda nos brindará com muitas realizações. Continue honrando a seus pais e glorificando a seu Deus, pois Ele há de conduzi-la a lugares jamais imaginados. Ele te predestinou a uma vida extraordinária.


*** Embora não tenhamos a festa tão sonhada, Deus nos presenteou através do Reverendo Wesley Pontes, pastor da Presbiteriana em Ocoee, com ingressos para a Disney World.

Sexta-feira, Fevereiro 19, 2010

6

Caro Candidato às Eleições de 2010

Sinto muito em lhe dizer que não poderei hipotecar o apoio do nosso rebanho à sua candidatura. Por uma questão de princípios, deliberamos deixar que nossos irmãos exerçam sua cidadania sem qualquer interferência, optando pelos candidatos que melhor lhes parecer.

Por favor, não insista. Não adianta oferecer ofertas, novos instrumentos ou aparelhagem para a igreja, material de construção, ou coisa parecida. Os votos do nosso povo são inegociáveis. Não me vejo em condição de subestimar a inteligência do meu povo.

Se quiser o voto de alguém, conquiste-o, fazendo por merecer.
Não venha propor representar nosso seguimento e defender os interesses de nossa igreja. Este argumento não funciona conosco. Defenda os interesses populares, a justiça, o direito, e valores que representem o interesse de toda a sociedade, e não apenas de uma seguimento religioso.

Também não venha apelar para o medo, dizendo que os valores da família precisam ser defendidos, e que, por isso, sua eleição é tão importante. Não cremos que qualquer lei, por mais imoral que seja, ponha em risco nossa liberdade religiosa, ou o bem-estar familiar. Terror não nos convence.

Infelizmente, há muitos líderes cristãos dispostos a negociar e a ceder ao assédio dos candidatos. Mas antes de procurá-los, pense bem se é certo aproveitar-se da ingenuidade do povo, e da falta de princípios dos seus líderes.

Voto não se compra, se conquista.

E mais: se além de candidato, você também for “pastor”, não use seu título para fazer propaganda política. Isso é um desserviço ao Evangelho.

Espero ter deixado bem claro a nossa posição. Não se ofenda. Não se trata de intransigência, mas de princípios. Talvez você não esperasse esbarrar com alguém que ainda defendesse tais princípios. Mas saiba que não somos os únicos. Como nos dias de Elias, Deus tem preservado um remanescente, de pessoas fiéis e comprometidas com a verdade e a justiça.

Em tempo: nossa igreja não está comprometida com nenhuma candidatura. Nosso púlpito não é palanque político. Se quiser visitar nossa igreja, fique à vontade. Mas não espere ser apresentado como candidato. Panfletar... nem pensar! Só se for do lado de fora, sem qualquer endosso de nosso ministério.

Que Deus levante homens em nossos dias, que a despeito do credo que professem, sejam éticos, sérios, e comprometidos com esta e com as próximas gerações.

Quinta-feira, Fevereiro 18, 2010

0

Para minha eterna namorada

4

Hoje completamos 25 anos de namoro

Um culto nada convencional. Depois de ler um livro de autoria do Rev. Caio Fábio, meu pai resolveu convocar todas as congregações de seu ministério para falar sobre aborto. Sinceramente, não imaginei que o assunto despertasse tanto interesse. A igreja ficou superlotada. Algo em torno de mil e quinhentas pessoas. Difícil foi encontrar canções que combinassem com o assunto em questão. Em vez de liderar o vocal, naquele dia preferi alternar entre a guitarra e a bateria. Meu pai, como sempre muito inspirado, pregou usando recursos cênicos, como pequenos caixões que representavam as milhares de crianças vítimas de aborto a cada ano no Brasil.

De repente, enquanto tocava bateria, notei um olhar em minha direção. No meio da multidão, destacava-se uma linda morena, vestida com uma blusa verde água, de olhos graúdos e nariz arrebitado, que assentada ao lado de sua mãe, conseguiu roubar minha atenção. Sua beleza ímpar e natural me deixou atordoado.

Notei que outros rapazes do grupo de louvor também ficaram interessados. Por isso, tão logo terminou o culto, tratei de avançar multidão a dentro e me aproximar antes que chegassem os 'gaviões'.

Lembrei que tinha acabado de receber da gráfico meus cartões de apresentação. Não titubeei. Tirei um do bolso e lhe ofereci dizendo: Meu nome é Hermes, de onde você é?
Meio sem graça, ela respondeu: Sou Tânia e moro em Paciência. No cartão de papel madeira vinha escrito: "Mais triste que um sorriso triste é a tristeza de não poder sorrir". Fiquei imaginando: - Será que consegui impressioná-la? Perguntei-a: Você volta semana que vem? Ela olhou pra sua mãe, sem saber que resposta dar. Só faltei implorar: Volta sim! Quero falar com você.

Saí dali pensando: Onde fica Paciência? Como faço pra chegar lá?

Uma semana depois, estava impaciente. O culto já havia começado a quase meia-hora, e nada da linda morena chegar. De repente, lá vem ela, mais uma vez ao lado de sua mãe.

Não consegui tirar os olhos dela uma única vez. Durante o ofertório, sinalizei com os olhos para que ela viesse à cantina da igreja me encontrar.

Pela primeira vez peguei em sua mão. Pedi seu endereço e prometi que a visitaria ainda aquela semana. Dois dias depois, lá fui eu para um lugar do qual jamais ouvira falar. Ironicamente, ambos morávamos em lugares que tinham nomes de virtudes. Eu morava em Piedade, ela em Paciência. Entre esses bairros há uma distância de quase 50 quilômetros, e para chegar lá tinha que tomar dois trens.

Lá chegando, ela foi ao meu encontro na estação. Meu coração quase saiu pela boca quando a vi. Quis roubar-lhe um beijo, tão logo a vi, mas ela me deteve. No meio do caminho pra sua casa, encontramos sua mãe. Num rompante, irmã Delza me perguntou: - O que está fazendo por aqui, garoto? Procurando manter a compostura, respondi elegantemente: Desculpe-me, mas não sou um garoto. Vim pedir para namorar sua filha. Ela ficou tão nervosa por ver o filho de seu líder ali, que ao chegarmos em casa, ofereceu-me uma vitamina de mamão. Quando perguntou-me se havia gostado da vitamina, respondi que sim, mas que era a primeira vez que tomava com água, em vez de leite.

Quando eu e Tânia os vimos sós no terraço de sua casa, arrisquei novamente uma beijo, e desta vez consegui. Além de um pouco desencontrado, nosso primeiro beijo ainda me rendeu a perda de um ósculo escuro, que pressionado contra a parede, quebrou dentro da minha mochila.

Vinte cinco anos se passaram desde então, e nunca a amei tanto quanto agora. Tânia é minha eterna namorada, companheira idônea, amante, amiga, esposa e mãe.

Se pudesse voltar no tempo só corrigiria uma coisa: Teria caprichado mais naquele primeiro beijo.

Quarta-feira, Fevereiro 17, 2010

2

Arrepender-se é MUDAR O MUNDO

O arco da narrativa de Lucas, que se alça no evangelho que traz o seu nome e se fecha graciosamente no livro de Atos, é sustentado por um bom número de conceitos-chave, motivos centrais que [re]aparecem em momentos estratégicos e amarram dessa forma a sua estrutura. São temas comobatismo, arrependimento, salvação, plano divino e a relação entre a rejeição e a expansão da mensagem da boa nova.

Dentre esses, o menos importante não será a noção de metanoia/arrependimento. A raiz grega para “arrependimento” aparece 25 vezes no trajeto de Lucas-Atos, número que representa mais de 45% de todas as ocorrências da palavra no Novo Testamento. Mais importante do que observar essas cifras, no entanto, será notar que os demais autores do Novo Testamento, quando usam a palavra, não se dão ao trabalho de defini-la ou de fornecer para ela quaisquer verdadeiros pontos de referência. Lucas é o único autor neotestamentário a apresentar chaves numerosas e inequívocas para que seu leitor entenda a natureza do arrependimento, “Frutos dignos de arrependimento”, isto é, atitudes que evidenciem a nossa mudança de mentalidade.conforme anunciado por Jesus e por seu precursor, bem como as implicações da idéia para a comunidade cristã e para a sociedade como um todo.

Para o autor de Lucas e Atos o arrependimento é uma forma muito peculiar e prenhe de consequências de mudança de mentalidade. Sua idéia de arrependimento tem, na realidade, pouca relação com a arapuca cheia de implicações teológicas com que tentamos aprisionar a palavra.

Muito embora no evangelho de Lucas João Batista dê início ao seu serviço público apregoando o “batismo de arrependimento tendo em vista a remissão de pecados” (Lucas 3:3), nesta narrativa arrepender-se não é o mesmo que “abraçar o perdão”, nem é o mesmo que “abandonar uma vida de pecado” (pelo menos não no sentido seletivo que costumamos atribuir a perdão e pecado).

Muito embora João Batista deixe muito claro (Lucas 3:8) que o apego à tradição religiosa não tem poder para poupar quem quer que seja da ira vindoura (“nem comecem a dizer em si mesmos: ‘Nosso pai é Abraão’”), para Lucas arrepender-se também não é mero recurso para se evitar a punição divina.

Tanto “abandonar o pecado” quanto “evitar a punição”, idéias através das quais estamos habituados a interpretar o termo arrependimento, tem uma natureza negativa: enfatizam o que não deve ser feito e aquilo que pode ser evitado. Na narrativa de Lucas-Atos, o arrependimento é sempre coisa a ser lida numa lente positiva: diz respeito, invariavelmente, ao que deve ser, a partir daquele momento e para sempre, colocado em prática.

Para Lucas, a mensagem do arrependimento não anuncia coisa alguma a respeito do que Deus está fazendo; ela anuncia tudo a respeito do que você deve fazer. Para Lucas, as implicações do arrependimento não são teológicas, mas práticas. Para Lucas, arrepender-se é um modo de abraçar a salvação pelo método de salvar os outros.

Isso fica evidente desde o primeiro momento em que a idéia é apresentada pelo autor, no terceiro capítulo do seu evangelho. Às multidões que saíam para ser batizadas por ele, João Batista dava a entender, sem qualquer rodeio, que o seu batismo não representava garantia alguma ou mérito algum (vv. 7-8). “O que vocês devem fazer”, ele esclarece em seguida, “é produzir frutos dignos de arrependimento”. Em outras palavras, o que Deus está exigindo de nós não são ritos ou profissões de fé, mas atitudes que evidenciem a nossa mudança de mentalidade. Porque as árvores que não dão frutos – isto é, os adoradores que não produzem evidência da sua mudança de critérios – estão sendo cortadas e lançadas no fogo (v. 9).

Diante dessa exigência, os ouvintes de João Batista apresentam-lhe a pergunta que será ecoada sem alteração pelos ouvintes de Pedro no Pentecostes: o que devemos fazer?

A resposta oferecida pelo Batista é de importância épica, porque revelará quais são, na opinião divina que ele está representando, as implicações da metanoia. Quais são as atitudes que evidenciam o arrependimento/mudança de mentalidade? Que resposta você daria a quem lhe perguntasse quais são as exigências do arrependimento bíblico?

Para surpresa e embaraço eternos de igrejeiros antigos e contemporâneos, o arauto de Deus não entende o arrependimento como chamado à religião ou à abstinência, mas como convocação à justiça social, à integridade e à distribuição de renda:

“Quem tem duas túnicas”, exige João Batista, “reparta com o que não tem nenhuma. Quem tem comida deve fazer o mesmo”.

Para nossa felicidade, alguns cobradores de impostos aparecem logo em seguida para serem batizados por João – isto é, estão dispostos também eles a abraçar o arrependimento, – e fazem-lhe precisamente a mesma pergunta: e nós, o que devemos fazer?

A resposta de João: “Não cobrem mais do que lhes foi prescrito.”

E, logo depois, alguns soldados: e nós, o que devemos fazer?

João: “Não tentem extorquir o que pertence aos outros fazendo denúncias falsas. Contentem-se com o seu soldo”.

Neste ponto será necessário mais uma vez parar no acostamento e enfatizar o caráter absolutamente revolucionário dessas divinas interferências. Pois o reino de Deus anunciado por João Batista e por Jesus não implica apenas na abolição da idéia de religião como esforço de reconciliação com Deus por parte do homem. Nesta nova intervenção Deus não quer nos salvar das nossas faltas ou do castigo que elas requerem, o que seria fácil demais; seu ambicioso e exigentíssimo plano é salvar-nos da nossa mediocridade. Seu plano é salvar-nos de nós mesmos.

Para os arautos das boas novas nos quatro evangelhos, o homem deve arrepender-se não porque o arrependimento é a resposta adequada ao pecado, mas porque teve início um novo e assombroso período da história. A motivação para se adotar a nova mentalidade é a vertiginosa notícia de que o reinado de Deus foi inaugurado. Arrependei-vos, minha gente, porque é chegado o reino de Deus.

E embora não conheçamos o retrato completo deste novo mundo que Deus está sonhando, anunciando e implantando, os evangelhos vão indicando que ele será caracterizado por inúmeras revoluções por minuto em todas as áreas da atividade humana. Este novo mundo requer uma nova mentalidade, uma nova visão de mundo, e adotar esta nova cabeça é precisamente arrepender-se.

É por isso que em suas respostas João Batista vai esclarecendo que o arrependimento deve necessariamente abranger todo um leque de dimensões éticas, sociais e antropológicas.

Como o cerne do projeto do reino é uma reconciliação radical entre os seres humanos, com a consequente criação de uma nova comunidade, a primeira e mais geral revelação é a de que todos, não apenas os ricos, tem a responsabilidade de repartir. Onde todos tem a mesma ausência de merecimento, todos merecem rigorosamente a mesma coisa – pelo que toda e qualquer desigualdade deve ser voluntariamente corrigida pelos componentes do sistema (“quem tem duas túnicas reparta com o que não tem nenhuma. e quem tem comida deve fazer o mesmo”). Em segundo lugar, como explicam as respostas dadas aos soldados e aos cobradores de impostos, a nova era exigirá, mesmo daqueles colocados nas mais comprometedoras posições da sociedade, uma postura radical de integridade pessoal.

A metanoia representa uma revisão completa do modo como os seres humanos interagem uns com os outros, e isso porque o novo estado de coisas do reino exigirá tudo de todos e algo diferente de cada um. Embora acabe representando desafios diferentes de acordo com a presente posição do indivíduo na sociedade, as marcas do arrependimento dizem sempre respeito à relações interpessoais, e requererão invariavelmente uma postura de altruísmo, inclusão e misericórdia. Como deixam abundantemente claro os três exemplos deste episódio de Lucas, arrepender-se é rever a nossa posição sobre quem é digno de Deus, e portanto sobre quem é merecedor da nossa amizade, da nossa lealdade e da nossa túnica extra.

Esta, e não servir de ilustração da vida futura, é a razão de ser da parábola do rico e o Lazáro (Lucas 16:19-31). Na parábola o homem rico mostrou-se merecedor dos tormentos do inferno porque, diante da oportunidade que jazia literalmente à sua porta, recusou-se a arrepender-se. O rico é punido porque negou-se a abraçar a lógica inclusiva do reino e repartir com o Lázaro uma parcela dos seus recursos. De seu posto de sofrimento e exclusão, o rico pede a Abraão que permita que o mendigo se apresente na terra dos vivos aos seus cinco irmãos, porque “se alguém dentre os mortos for ter com eles, eles hão de se arrepender” – isto é, mudarão o seu modo de interagir com os outros/pobres.

Paralelamente, há outro símbolo potente nas respostas dadas por João Batista aos soldados e aos cobradores de impostos. Os dois grupos representavam categorias que viviam – e muitas vezes por boas razões – às margens da aceitação social. Soldados e cobradores de impostos não mereciam tratamento cordial e não tinham cacife para participar da comunidade de Deus. Ao se dispor a responder as suas perguntas, João acaba revelando o impensável: que o arrependimento (e portanto o acesso ao reino e à salvação) está aberto mesmo aos desprezíveis e desprezados, aqueles que a sociedade decidiu serem inteiramente indignos de inclusão social fora do seu próprio círculo. Arrepender-se, na ótica mais ampla do reino, é tanto mudar de idéia a respeito de quem é aceitável quanto passar a viver fornecendo a todos indicação de que todos são aceitáveis.

É preciso lembrar que o mundo da Antiguidade era, talvez ainda mais do que o nosso, regido pela crença indiscriminada em categorias sociais estanques, barreiras que milagre algum podia alterar ou derrubar. A inclusividade brutal do reino de Deus, como proposto por Jesus e João Batista, representava e representa uma tremenda ameaça a esse estado de coisas.

E, como declarado nos evangelhos, a revolução igualitária do reino começa pessoa a pessoa pela guerrilha do arrependimento, que no vocabulário da boa nova não é remorso e não é contrição, mas uma mudança definitiva e radical no modo de se ver e experimentar o mundo e a relação com o Outro.

Arrepender-se é mudar o mundo. Numa palavra, Jesus prega a aceitação de todos, e essa inclusividade requer uma extrema revisão no nosso modo de pensar pessoas e comunidades. Essa mudança de mentalidade altera cada aspecto da vida, e produz uma completa reorientação de crenças, critérios e atitudes.

Na prática, como explicam os exemplos do evangelho de Lucas, o arrependimento trabalhará sempre para corrigir desigualdades e injustiças sociais, morais, éticas, financeiras e religiosas. Contribuirá para alterar visões de mundo que causavam a exclusão. Servirá de instrumento de ressocialização, possibilitando a criação de um comunidade inclusiva sem qualquer paralelo na história anterior ou posterior da humanidade.

Essa reforma de ponto de vista altera o próprio tecido da realidade, porque muda o que as pessoas se mostrarão dispostas a fazer umas pelas outras. Criará ao mesmo tempo um ambiente novo, onde gente de diversas origens e orientações, que vivia antes alienada, poderá conviver como povo de Deus.

Esta insana reprogramação é o que os arautos da boa nova chamam de arrependimento/metanoia.

Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, bendizei aos que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam.
Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, não lhe negues também a túnica. Dá a todo o que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames.
Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também.
Se amardes aos que vos amam, que mérito há nisso? Pois também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que mérito há nisso? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que mérito há nisso? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para receberem outro tanto.
Amai, porém a vossos inimigos, fazei bem e emprestai, nunca desanimado; e grande será a vossa recompensa, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus.
Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.

Vendo-se as coisas por esta ótica, fica evidente que a parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32) não é contada para constrastar um filho austero e um filho devasso, nem para mostrar a diferença entre um filho volúvel e um pai constante. O conflito central da parábola só é colocado em andamento quando o filho pródigo aparece arrependido no horizonte, porque esta narrativa serve para constrastar duas atitudes possíveis de uma comunidade diante do arrependimento. Por um lado, o pai acolhe o arrependimento como motivo de júbilo e ressocialização; por outro, o filho mais velho vê a inclusão como motivo de ódio e horror.

A lição da parábola está em que na visão de mundo do reino a inclusividade, o perdão e a misericórdia nunca devem ser vistos com rancor ou como falta de critério, mas como ensejo para a mais irrestrita e exuberante celebração. A narrativa explica que é mais fácil um de fora arrepender-se (isto é, sentir-se disposto a incluir e a ser incluído) do que os que se sentem incluídos se mostrarem dispostos a abraçar sem qualquer trâmite os de fora. O verdadeiro desafio do arrependimento, o verdadeiro funil da conversão de mentalidade exigida pelo reino, é sermos capaz de engolir gostosamente essa medida geral e irrestrita de inclusão.

Mas a boa nova não se cala, e insiste imoderadamente que a conversão de mentalidade do reino está ao alcance de todos – até mesmo de patifes como nós, que via de regra não nos consideramos pecadores como os outros. Porém, a história conta que para nós arrepender-se representará aceitar no nosso seletíssimo círculo a inclusão daqueles de que estamos absolutamente convictos não merecem nossa consideração – quanto mais nosso beijo, nosso abraço e um lugar inesperado à mesa.

Paulo Brabo (Via Bacia das Almas)


1

Cinzas... que cinzas?

O Espírito do Senhor Deus veio sobre Cristo, e O ungiu para dar as boas notícias do Reino aos pobres. Enviou-O a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e abertura de prisão aos presos, a proclamar o tempo da Graça, e o dia do Juízo do nosso Deus; a consolar todos os tristes, e ordenar acerca dos tristes deste Mundo que lhes seja dada um coroa em vez de cinza, óleo de alegria em vez de pranto, veste de louvor em vez de espírito angustiado.

E nós seremos chamados de árvores de justiça, jardim do Senhor, para que Ele seja glorificado. Reedificaremos as ruínas antigas, e restauraremos os lugares há muito devastados; renovaremos as cidades arruinadas, devastadas de geração em geração.

Adaptação de Isaías 61:1-4

Portanto, mãos à obra. Temos muito trabalho a fazer. Restaurar o Mundo é a nossa missão!

Segunda-feira, Fevereiro 15, 2010

1

Vaidade: o pecado preferido da humanidade

No filme “O Advogado do Diabo” o ator Keanu Reeves interpreta um advogado com mais de 60 vitórias em juízo, que para mostrar a todos que é o bom, aceita defender causas perdidas e réus culpados. Em certa ocasião ele defende um professor de matemática acusado de pedofilia, e mesmo sabendo que o maldito era culpado, usa todo seu esforço para inocentá-lo. Kevin, o personagem de Keanu Reeves é um cara extremamente vaidoso. A ele não importam valores, nem mesmo o certo e o errado; importa-lhe impor-se como o grande advogado criminal, ganhar muito dinheiro e defender com unhas e dentes cada pleito, mesmo tratando-se de uma causa apócrifa.

Ao assistir o filme, não pude fugir de algumas questões: Não seria Kevin, o advogado vaidoso, um arquétipo da humanidade, representante fiel da nossa egolatria, do culto à personalidade, do nosso endeusamento cotidiano? Quantos Kevins existem por aí, no casamento, por exemplo? Incapazes de reconhecer que a esposa tem razão, acabam por fazer as maiores burrices do mundo, tudo em nome do grande ego! É comum ouvir de alguns esposos: “Se eu tivesse ouvido minha mulher, não estaria nessa situação”. Mas o que os impede de ouvi-las? O orgulho! Um orgulho machista do tamanho de um bonde, e uma vaidade que não cabe no ser humano. Tudo tão simples, e tão complicado!

Nem mesmo o cristão está imune a este mal. Aliás, muito comumente eles são as maiores vítimas de tais sentimentos. É comum, por exemplo, ver o nobre desejo de servir, se converter – com o passo dos anos – em uma neurose eclesiástica onde o indivíduo sente-se na obrigação de produzir sempre e em maior escala, para sentir-se em paz consigo mesmo. Nesse ponto, o serviço cristão deixa de ser uma benção e se transforma em alimento para o ego inchado do crente. O mesmo acontece com pregadores, cantores e ouvintes; do dia pra noite percebe-se que aquele belo sermão não foi motivado pelo desejo de servir à grei, mas pela vaidade do pregador amante dos holofotes.

Para este veneno chamado egolatria existe apenas um antídoto, a mortificação. Somente quem entende que “cada boa dádiva e dom perfeito descende do alto”, pode livrar-se da terrível tentação de sentir-se mais importante do que, de fato, é. É preciso ver nossas virtudes como mortas, e nossas obras naturais como realmente estão. Cabe também a cada cristão dar morte aos seus desejos e vontades, afim de fazer prevalecer somente a vontade do Senhor. Só assim lograremos escapar deste terrível pecado [a vaidade] o qual, segundo a tradição cristã, transformou os anjos em demônios.

Leonardo Gonçalves (Via Púlpito Cristão)

2

Arte, liberdade de expressão e Deus

Um dos meios mais significantes de expressão é a arte. E quando me refiro à arte, pretendo abarcar todo o leque de manifestações artísticas, desde as artes cênicas, passando pelas artes plásticas, pela música, literatura, etc.

Ao dotar o ser humano de sensibilidade artística, o Criador estava imprimindo nele um dos Seus traços mais marcantes. Deus é o Supremo Artista. Toda a Sua criação é uma grande obra de arte.

Em Efésios 2:10, o apóstolo Paulo diz que “somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”. A palavra grega traduzida como “feitura” é poiema, que também poderia ser traduzida por “poema”. Que interessante: somos o poema de Deus. Somos uma expressão artística de Deus.

João Calvino, o grande reformador protestante do século XVI, defendia que a arte é um dom de Deus, e que deveria ser usada para glorificá-Lo. E mesmo quando a arte se rebaixa para tornar-se o instrumento de mero entretenimento para o povo, Calvino afirma que este tipo de prazer não lhe deveria ser negado. Quanto mais o homem se aprofunda nas “artes liberais” e investiga a natureza, mais se aproxima “dos segredos da divina sabedoria”.

Sobre isso, escreveu Bavinck (1854-1921):

“A arte também é um dom de Deus. Como o Senhor não é apenas verdade e santidade, mas também glória, e expande a beleza de Seu nome sobre todas as Suas obras, então é Ele, também, que, pelo Seu Espírito, equipa os artistas com sabedoria e entendimento e conhecimento em todo tipo de trabalhos manuais (Ex 31.3; 35.31). A arte é, portanto, em primeiro lugar, uma evidência da habilidade humana para criar. Essa habilidade é de caráter espiritual, e dá expressão aos seus profundos anseios, aos seus altos ideais, ao seu insaciável anseio pela harmonia. Além disso, a arte em todas as suas obras e formas projeta um mundo ideal diante de nós, no qual as discórdias de nossa existência na terra são substituídas por uma gratificante harmonia. Desta forma a beleza revela o que neste mundo caído tem sido obscurecido à sabedoria, mas está descoberto aos olhos do artista. E por pintar diante de nós um quadro de uma outra e mais elevada realidade, a arte é um conforto para nossa vida, e levanta nossa alma da consternação, e enche nosso coração de esperança e alegria.”

E quando falo de arte, não endosso a pretensa distinção entre arte cristã e arte pagã. Concordo com Hermisten Maia Pereira da Costa, que em seu belo texto intitulado “O Espírito Santo na Vida Intelectual e Artística” afirma: “A dicotomia entre “arte cristã” e a “arte pagã” tem contribuído para que os cristãos muitas vezes se distanciem das expressões artísticas, rotulando-as precipitadamente de pagã, sem o devido critério. Por outro lado, e isto é o mais grave, com o nome de arte cristã tem-se pretendido criar um suposto isolacionismo cultural que, na realidade tem sido, em geral, de baixíssima qualidade e, o pior: supostamente para a glória de Deus. Muitas vezes em nome de uma “arte cristã” estamos patrocinando uma “reserva de mercado”, onde a sensatez e o senso crítico não têm vez, visto que neste caso, o que conta é o sentimento, como que este, por si só estivesse acima de qualquer juízo de valor.”

Michael S. Horton nos adverte com precisão: “Se vamos escrever literatura ‘cristã’ e criar obras de arte e música distintamente ‘cristãs’, deverá ser feito de modo tão plenamente persuasivo intelectualmente e artisticamente que os que não são cristãos ficarão impressionados por sua integridade – mesmo que eles discordem”.

É o próprio Deus quem capacita pessoas a se expressarem através das artes. Lemos em Êxodo, que Deus escolheu dois homens, Bezalel e Aoliabe, enchendo-os de “habilidade, inteligência e conhecimento, em todo artifício, para inventar obras artísticas, para trabalhar em ouro, em prata e em bronze, em lavramento de pedras de engaste, em entalhadura de maneira, para trabalhar em toda obra fina (...) Encheu-os de habilidade, para fazerem toda obra de mestre, até a mais engenhosa, e a do bordador, em estofo azul, em púrpura, em carmesim e em linho fino, e a do tecelão; toda sorte de obra, e a elaborar desenhos”. Uau! Quanta inspiração Deus deve ter dado àqueles homens!

Porém, de nada adiantaria dar-lhes inspiração, se não lhes fosse dada a liberdade necessária para expressá-la.

Durante a Ditadura Militar, muitos artistas brasileiros foram exilados, porque suas obras eram consideradas subversivas. Um desses artistas foi Caetano Veloso, que amargou um período de exílio na Inglaterra. Alguns dos grandes compositores brasileiros tiveram que expressar sua indignação através de músicas com sentido subliminar. Chico Buarque, por exemplo, tinha suas músicas sistematicamente observadas. Uma de suas músicas com duplo sentido foi “Apesar de Você”:

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.

Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.

E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.

Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal,
La, laiá, la laiá, la laiá…….


Naquele período tenebroso da nossa história, todas as publicações, livros, programas de TV e rádio, eram obrigados a passar pelo crivo de um grupo de censores. Os critérios eram subjetivos e iam desde os aspectos ideológicos e políticos, até os relacionados a costume. Os censores indicavam os trechos, e muitos casos, a obra toda que não poderia ser divulgada. Assim, algumas obras ficavam desfiguradas e sem sentido.

Muitos filmes produzidos naquela época nunca chegaram à telas. Políticos e pensadores foram encerrados atrás das grades. Artistas foram expulsos do País. Sem contar aqueles que simplesmente desapareceram, sem deixar vestígios.

Grande parte da nata intelectual e artística do Brasil ficou impedida de se expressar. Todos perdemos com isso.

A igreja cristã, juntamente com seus líderes, deve estimular a arte e a sua livre expressão.
Se houvesse algum tipo de censura religiosa nos tempos bíblicos, provavelmente muitos dos salmos teriam sido editados ou simplesmente descartados. E certamente não teríamos o livro do "Cântico dos cânticos", cujo conteúdo é extremamente erótico, mas nem por isso, deixa de ser espiritual.

Nenhum líder religioso tem o direito de promover qualquer tipo de censura. Em vez disso, deve oferecer aos fiéis instrumentos, para que saibam apreciar e ao mesmo tempo discernir a mensagem que o artista está tentando passar. E aqui vale a admoestação de Paulo, o apóstolo: Apreciar tudo, e reter o que for bom.

Sábado, Fevereiro 13, 2010

0

Doce Sentimento















Mesmo que eu falasse
Qualquer língua humana ou angelical
E isso ressoasse como sinos de uma catedral

Se profetizasse ou todos os mistérios desvendasse
Se minha fé até montes transportasse

Se tudo que tenho fosse repartido com os que nada têm
Ou morresse como um mártir na esperança da vida no além

Sem Amor nada seria
Nada em mim se aproveitaria
Pois é o Amor que a tudo dá valor
Quando o amor entra em cena
Faz tudo valer à pena
Quem poderá ser feliz sem ter amor
em seu coração?

Ele é paciente, não inveja, e não se vangloria
Onde houver tristeza, haverá plena alegria
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera e suportará
Por todas as eras a sua chama sempre arderá
Jamais se extinguirá.

Composição: Hermes C. Fernandes

Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010

3

Nem tudo é o que parece!

Sempre haverá quem se aproveite dos momentos de transição ou crise para rebelar-se contra a ordem estabelecida, seja para o bem ou para o mal. Só precisam de uma justificativa plausível para ficar bem com a opinião pública.

Assim foi com Mesa, rei dos moabitas. Por anos ele serviu a Acabe, rei de Israel. Pagou impostos altíssimos, sem sequer reclamar. Eram cem mil cordeiros, e cem mil carneiros com a sua lã. Mas tão logo Acabe morreu, e seu filho Jorão assumiu seu trono, Mesa se revoltou e resolveu romper com Israel. A troca de gestão foi apenas o pretexto perfeito para rebelar-se.

Jorão, ainda inexperiente, pra não abrir um precedente em seu reino, buscou a ajuda do rei de Edom, e de Josafá, rei de Judá.

Josafá era homem temente a Deus, bem diferente de Acabe, pai de Jorão. Porém, aceitou entrar numa guerra que não era sua. Talvez ambos os reis temessem que a rebelião de Mesa provocasse uma espécie de “efeito dominó”. Abria-se um precedente para que outros reinos se rebelassem, e assim, tanto Israel, quanto Judá e Edom corriam o risco de se tornarem um caos político.

Jorão tentara livrar-se do estigma deixado por seus pais, Acabe e Jezabel. Ele não queria ter o mesmo fim que eles. Em vez deles, ele elegeu outro referencial, Jeroboão. O texto sagrado relata que Jorão “aderiu aos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fizera pecar a Israel” (2 Reis 3:3). Em outras palavras, Jorão trocou seis por meia-dúzia.

Sem consultar a Deus, os três reis saíram em direção a Moabe, pelo caminho do deserto de Edom. “Após andarem rodeando durante sete dias, não havia água para o exército, nem para os animais que os seguiam. Então disse o rei de Israel: Ah! O Senhor chamou estes três reis para entregá-los nas mãos dos moabitas” (vv.9-10). Ora, que direito Jorão tinha de reclamar assim? Fora ele quem decidira por qual caminho subir. Não podemos tomar a soberania de Deus como justificativa para nossos fracassos. Interessante notar que quando o homem é bem-sucedido, usurpa todos os créditos para sim. Mas quando experimenta um fracasso, logo busca a quem culpar. E às vezes, petulantemente, culpa o próprio Deus.

Que bom que Josafá estava ali. Ele poderia estar se perguntando por que havia se metido naquela furada. Mas em vez disso, perguntou: “Não há aqui algum profeta do Senhor, para que consultemos ao Senhor por ele?” (v.11). Eis a diferença entre Jorão e Josafá. Enquanto Jorão buscava respaldar-se em Jeroboão, que foi o rei responsável pela divisão entre Israel e Judá, Josafá buscava respaldar-se em Deus, origem de toda autoridade. Jorão bebia de uma fonte turva e amarga. Josafá bebia de uma fonte cristalina. Jorão se alimentava do pão da rebelião. Josafá se alimentava do pão da vida.

Um dos servos de Jorão respondeu: “Aqui está Eliseu, filho de Safate, que deitava água sobre as mãos de Elias. Disse Josafá: Está com ele a palavra do Senhor. Então o rei de Israel, Josafá e o rei de Edom desceram a ter com ele” (vv.11b-12).

O que interessava a Josafá, era saber com quem estava a Palavra do Senhor. Por que Eliseu? Porque Eliseu havia sido fiel a Elias até a sua partida. A Palavra do Senhor é água cristalina, que só pode jorrar de canais fiéis. Quando o servo de Jorão referiu-se a Eliseu como aquele que“deitava água sobre as mãos de Elias”, Josafá não teve dúvida. Era esse que eles precisavam ouvir. Sua referência era bem diferente da referência de Jorão.

Jorão se espelhava em Joroboão, que usurpou o trono de Salomão. Em outras palavras, Jorão bebia da fonte da infidelidade. Quando Eliseu viu aqueles reis se aproximarem, recusou-se recebê-los. Fitando os olhos de Jorão, Eliseu bradou: “Que tenho eu contigo? Vai aos profetas de teu pai e aos profetas de tua mãe. Porém o rei de Israel lhe disse: Não, porque o Senhor chamou estes três reis para entregá-los nas mãos dos moabitas” (v. 13).

Jorão era um legítimo representante de uma dinastia maligna que se levantara em Israel. Vê-lo fazia com que a memória de Eliseu fosse remetida às perversidades cometidas por seus pais, Acabe e Jezabel. Mas quando percebeu que Jorão se fazia acompanhar de Josafá, Eliseu reconsiderou sua posição, e disse: “Tão certo como vive o Senhor dos Exércitos, em cuja presença estou, se eu não respeitasse a presença de Josafá, rei de Judá, não olharia para ti, nem te veria” (v.14). Ufa! Esta passou por pouco! Que sorte a de Jorão, estar acompanhado de um legítimo representante de uma dinastia iniciada na fidelidade.

O encontro entre Jorão e Josafá era como o encontro entre as águas escuras do rio Negro e as águas limpas do Solimões. Eles se encontram, mas não se misturam. Há convergência, mas não há comunhão.

Em respeito à presença de Josafá, Eliseu decidiu ajudá-los. Mas não sem antes fazer uma exigência: “Mas agora trazei-me um harpista. Enquanto o harpista tocava, veio sobre Eliseu a mão do Senhor, e disse: Assim diz o Senhor: Fazei neste vale muitas covas, porque assim diz o Senhor: Não vereis vento, nem vereis chuva, contudo este vale se encherá de água, e bebereis vós, o vosso gado e os vossos animais” (vv.15-17). Imagine milhares de homens cansados, exauridos, sedentos, tendo que cavar buracos no meio do deserto. Simplesmente não fazia qualquer sentido. Talvez, enquanto cavassem, alguns comentassem entre si: Estamos cavando nossas próprias covas. Mas as coisas nem sempre são o que parecem. O que não faz sentido agora, poderá fazer num futuro próximo. Se ordem de Deus é cavar, então, o que é que está esperando? Cave!

Não se preocupe com os comentários maldosos. Apenas obedeça às instruções divinas, mesmo que não façam sentido. Deus prometera, por intermédio de Eliseu, que viria água capaz de saciar todos os soldados, bem como seus animais. Porém, tais águas não viriam pelos meios comuns. Não haveria chuva, nem vento. Deus faria algo diferente que os surpreenderia.

Aprendi desde cedo que nossos pedidos a Deus devem ser sempre bem específicos. Porém hoje, acredito que quando somos muito específicos, corremos o risco de subestimarmos o Seu poder.

Não podemos colocar nossas expectativas nos meios usados por Deus. Em vez de colocá-las nos canais, devemos colocá-las na Fonte. Deixemos que Ele escolha por quais meios vai nos atender. Afinal de contas, Ele é Deus que decreta os fins e estabelece os meios.

O profeta concluiu:

“Ainda isto é pouco aos olhos do Senhor; também entregará ele os moabitas nas vossas mãos”(v.18).

Epa! Espera aí! O que é que eles estavam fazendo ali no meio do deserto? Qual era o seu objetivo inicial? Eles não estavam ali à passeio, estavam? Óbvio que não. Seu objetivo era o empreendimento de uma campanha militar. A escassez de água fez com que eles se esquecessem do propósito original de sua jornada.

Quantas vezes deixamos de ser guiados por propósito, pra ser guiados por necessidades? A vida só faz sentido quando mantemos o foco num propósito maior que nossa própria existência. Não vela a pena viver apenas em função da manutenção da própria existência. Jesus disse que a vida vale mais que o alimento.

Não deixe que suas necessidades imediatas ofusquem seus objetivos principais. Muitas pessoas são induzidas a pensar que seu relacionamento com Deus só serve para o suprimento de suas necessidades. O “deus” que elas cultuam está mais para o gênio da lâmpada de Alladin, do que para o Deus revelado nas Escrituras.

É claro que Deus se interessa em suprir nossas necessidades! Se não, Paulo não teria dito: “E o meu Deus suprirá todas as vossas necessidades segundo a sua gloriosa riqueza em Cristo Jesus” (Fp.4:19). Entretanto, isso ainda é pouco aos olhos do Senhor.

O próprio Jesus demonstrou isso, ao declarar: “Portanto, não andeis ansiosos, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? (...) De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas elas. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt. 6:31,32b).

Ele quer nos suprir e saciar, pra que prossigamos na execução dos Seus propósitos neste mundo. Cuidado para não transformar os meios em fins!

Voltemos para o texto que estamos considerando:

“Na manhã seguinte, na hora da oferta dos cereais, vinham as águas pelo caminho de Edom, e a terra se encheu de água” (v.20).

Não me pergunte como, que não saberei lhe responder. Só sei que a promessa de Deus se cumpriu. As águas irromperam e vieram pelo caminho de Edom. Interessante notar um detalhe: as águas vieram justamente da terra daquele rei cujo nome sequer é citado no texto. Os figurões eram Jorão e Josafá. O rei de Edom estava ali só de figurante. Mas foi de lá, de Edom, que as águas jorraram.

Deus gosta de fazer surpresa. Ele faz com que a provisão venha por canais que não esperamos, para aprendemos a depender da fonte, e não de um canal específico. A história não termina aqui. Há uma guerra a ser travada.

“Ouvindo todos os moabitas que os reis tinham subido para pelejar contra eles, convocaram-se todos os que cingiam cinto desde o mais novo até o mais velho, e puseram-se às fronteiras. Levantaram-se os moabitas cedo de manhã e, brilhando o sol sobre as águas, viram diante de si as águas vermelhas como sangue, e disseram: Isto é sangue! Certamente os reis se destruíram, e se mataram um ao outro! Agora, à presa, moabitas!” (vv.21-23).

Você sabia que Deus também faz pegadinhas? Ele sabe o quanto somos enganos por nossas próprias percepções. Lembra das covas que Eliseu mandou que cavassem? A que propósito serviriam? Confundir os inimigos.

Os moabitas foram enganados por seus sentidos. O reflexo da luz solar sobre as covas cheias de água, produziu um efeito que sugeria sangue. A seu juízo, os exércitos ali reunidos tinham brigado entre si, e se auto-destruído. Por isso, guardaram suas espadas, e foram afoitos em busca dos despojos. Quando entraram no arraial... SURPRESA!

Os soldados já estavam prontos para dar-lhes a recepção que mereciam. Nem tudo parece o que é. Somos sempre ludibriados por nossos sentidos e emoções. Por isso, deixe-se conduzir por convicções, não por emoções; por propósitos, não por necessidades.

Por que ficar preocupados com aquilo que dizem sobre nós? Não temos que provar nada a ninguém. Que pensem o que quiserem! Que achem que estamos cavando nossa própria cova. Ou que nos autodestruímos. A verdade sempre prevalecerá! O tempo a revelará.

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

2

"Ficamos insensíveis"

Autor de "Cristãos ricos em tempo de fome" e de "O escândalo do comportamento evangélico", Ronald Sider faz suas críticas com amor

Ronald Sider não é um cristão comum. Não por ser PhD em história da Reforma por Yale, uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, ou por ter escrito um livro que é considerado referência cristã no século 20, Cristãos ricos em tempo de fome, que já vendeu mais de 400 mil cópias. É que, aos setenta anos de idade, ele é testemunha de uma mudança de comportamento da Igreja Evangélica, que, no seu entender, fez dela uma instituição mais insensível em relação ao mundo que a cerca. “Ficamos maiores, mais ricos e mais famosos”, sintetiza. Tal conclusão é a base do inquietante trabalho de Sider. Teólogo, professor, palestrante, fundador e presidente do ESA (Evangelicals for Social Action – “Evangélicos por Ação Social”), ele é um ativista da igualdade. E o faz pelo viés do convencimento dos cristãos acerca da justiça social.

Nascido numa área rural de Ontário, no Canadá, Sider é filho de pastor, e hoje vive com a mulher numa casa de um bairro majoritariamente negro na Filadélfia. Membro de uma comunidade menonita, é um homem de sorriso aberto e voz suave, características que, no entanto, não amenizam seu duro discurso contra o materialismo que, na sua ótica, tomou conta de grande parte da Igreja Evangélica contemporânea, como diz em outra obra, O escândalo do comportamento evangélico (Editora Ultimato). Contudo, não é simplesmente um franco atirador e tempera suas críticas com palavras de misericórdia e esperança na Igreja e no futuro.
Ronald Sider esteve no Brasil pela primeira vez no fim de agosto, a fim de participar do encontro nacional da Rede Evangélica Nacional de Ação Social, a Renas, no Rio de Janeiro. Na ocasião, conversou com a reportagem de CRISTIANISMO HOJE:

CH Em seu livro, o senhor defende que a Igreja precisa se arrepender. De quê?

RONALD SIDER – Quando eu era jovem, quase todos os líderes cristãos diziam que a missão da Igreja era o evangelismo, mas eram muito pouco preocupados com ministérios sociais ou com a luta por justiça econômica. Nós negligenciamos isso por muito tempo, e é algo de que precisaríamos nos arrepender. Outro ponto sobre o qual a Igreja precisa pedir perdão é por séculos e séculos de esquecimento em relação a tantos versículos bíblicos que nos mandam olhar pelos pobres. Por muito tempo, esse tem sido um tema esquecido em nossas igrejas. O pastor Rick Warren [dirigente da Igreja de Saddleback e autor do best-seller Uma vida com propósitos] confessou isso há uns sete anos. Nós precisamos nos arrepender por termos negligenciado os mandamentos bíblicos de compromisso com os pobres; parece que simplesmente não lemos uma boa parte da Bíblia.

E em relação ao papel da Igreja na sociedade?

Essa é justamente a terceira área em que, na minha opinião, precisamos, como cristãos, de arrependimento. Nossa ação política sempre foi biblicamente desequilibrada. Nossos representantes falam muito contra o aborto, ou sobre temas como família e sexualidade – que, evidentemente, são preocupações pertinentes –, mas quase nada sobre justiça social, combate à pobreza ou questões ambientais, que também são bíblicas. Ora, se são políticos e cristãos, é preciso que se importem com o que Deus se importa: com os pobres, com a prática da justiça e com o meio ambiente.

Um de seus livros mostra que a vida de um cristão praticamente não difere da de um não-cristão…

Não posso falar do Brasil, mas, nos Estados Unidos, certamente não difere. Existe em mim uma voz bastante otimista que me diz, com alegria, que estamos avançando, aproveitando as oportunidades para fazer diferença. Mas existe uma outra voz, pessimista, que me alerta que não fazemos diferença alguma. Entre os jovens, por exemplo, há uma pequena mudança no comportamento sexual dos crentes, mas não muito grande. Dentro das denominações evangélicas dos EUA, o número de casos de abuso físico e sexual entre membros de uma mesma família praticamente não difere do restante da sociedade. Em termos de racismo, nós, cristãos, somos piores que os outros – e não reconhecemos que o sistema da nossa sociedade, que tendemos a reproduzir, é discriminatório em relação aos latinos e outra minorias.

Por que isso acontece?

Em parte, porque crescemos, tornamo-nos grandes, conquistamos sucesso e fazemos parte dessa cultura do crescimento. Ficamos maiores, mais ricos e mais famosos… Não faz muito tempo, uma das marcas da Igreja era a de ser separada do mundo. Éramos muitas vezes legalistas e até tolos em nosso comportamento, mas éramos separados, diferentes do mundo. Hoje, não nos sentimos mais separados do mundo – ao contrário, fazemos parte dele.

Isso compromete o testemunho cristão?

Completamente. Esse tipo de comportamento mina dramaticamente a nossa credibilidade. Nosso discurso de mudança de vida a partir de um encontro com Cristo perde o sentido para as pessoas comuns.

E até que ponto compromete a salvação?

Bem, Paulo listou uma série de pecados: falou de ganância, adultério, imoralidades, e disse que quem fizesse essas coisas não herdaria o Reino dos céus. Jesus diz, em Mateus 25, que as pessoas que praticam tais atos iriam para o inferno. Então, precisamos estar atentos ao aviso bíblico. Mas, ao mesmo tempo, eu tenho de saber que não serei salvo pela minha boa vida ou meu bom comportamento. Não somos salvos baseados na nossa boa teologia, e sim, pelo que Cristo fez na cruz. Eu não sei o quanto viver de forma errada, sem observar o que o Senhor disse, afeta a nossa salvação. Isso é decisão dele, não nossa. Mas não dá para separar o Jesus Salvador do Jesus Senhor.

Os crentes, em geral, veem o pecado como algo individual. Mas a Bíblia fala, e o senhor tem dito em seus livros, que há um pecado social. Como é esse conceito?

No último meio século, os evangélicos têm dado muita ênfase aos pecados individuais, como adultério e imoralidades sexuais. Nessa época, eram os liberais que falavam do pecado social, como os sistemas econômicos injustos. O que eu disse no meu livro Cristãos em tempo de fome é que a Bíblia fala dos dois tipos de pecado, o individual e o social, mas que os evangélicos tendem a personalizar o pecado. É lógico que, teologicamente, somos valorizados enquanto indivíduos, que precisam tomar uma decisão pessoal e desenvolver um relacionamento individual, íntimo com Deus. Mas a sociologia nos ensina que o ambiente onde vivemos também determina quem somos. Afinal, nossas atitudes também são afetadas pelo que nos cerca. Tanto a sociologia quanto a Bíblia nos mostram a importância de mudarmos o indivíduo e também a sociedade.

O gigantismo das igrejas urbanas de classe média, cujos pastores são cada vez mais parecidos com executivos, é parte desse problema da cultura do crescimento?

Eu, pessoalmente, não sou entusiasta de igrejas enormes, mas não me oponho a elas. Temos grandes ministérios, que precisam ser gerenciados de maneira diferente – mas o problema não é este, especificamente. É uma questão de visão pessoal. Se a igreja está levando pessoas a serem como Cristo, a se tornarem obedientes a ele, preocupadas com o próximo e ativas no serviço social, não há problema se ela é grande ou pequena. Acho que até existe mesmo espaço para um papel de executivo dentro da liderança das congregações. O problema é o momento em que se direciona o ministério com técnicas do mundo executivo, visando a desenvolver estratégias para o crescimento da igreja, e esse processo tira nosso foco de Jesus e do que ele disse.

O senhor escreveu seu livro mais famoso há mais de trinta anos. Algo mudou de lá para cá?

Eu acho que os cristãos evangélicos, na média, são muito mais materialistas hoje do que quando escrevi o livro. Essa é a notícia ruim. A boa é que há um grande crescimento da preocupação evangélica com os pobres. O próprio livro é um exemplo disso – numa eleição dos livros cristãos mais importantes dos últimos 50 anos, minha obra ficou na sétima posição. Isso pode não dizer muito, mas mostra que ao menos há uma preocupação com o tema, um crescimento da ação evangélica nessa área. Basta ver a Visão Mundial, uma entidade cristã que tomava conta de alguns orfanatos no passado e que hoje tem um orçamento de dois bilhões de dólares por ano. No entanto, esses cristãos comprometidos com justiça social ainda são minoria. Hoje, o cristão médio – e volto a lembrar que refiro-me ao crente americano, pois não possuo tanta informação sobre a Igreja no Brasil – é mais rico e mais materialista do que o da geração anterior. Mas os dados mostram que estamos doando bem menos do que há tempos atrás. O crente de hoje doa apenas 40% do que os cristãos de algumas décadas atrás. E esse índice tem caído ano a ano.

Essa percepção é a mesma nos países do Terceiro Mundo?

É diferente, mas aqui já é possível começar a ver uma classe média evangélica. O que eu acho preocupante é que a teologia da prosperidade é tão ruim aqui como nos Estados Unidos.

Algumas estatísticas preveem que até a metade deste século o Brasil será uma nação de maioria evangélica. Isso faz diferença?

Num certo nível, é irrelevante quantas pessoas dizem ser evangélicas. O importante é saber quantas pessoas vivem como Jesus e acreditam nele como Senhor e Salvador. Que diferença faz se metade de um país se confessa evangélica, se a taxa de divórcios nessa comunidade é igual à do resto da sociedade? Por outro lado, ainda que sejamos minoria, se liderarmos o combate à pobreza, se defendermos a criação de Deus, combatermos o racismo e afirmarmos a dignidade de setores marginalizados, aí, sim, estaremos mudando a sociedade e sua cultura. Isso seria verdadeiramente significativo! Mas se tivermos uma maioria evangélica e ela viver como os outros, qual a importância?

O senhor fala abertamente em um diálogo entre evangélicos e católicos. Isso pode funcionar?

Veja o que acontece nos Estados Unidos. Por uns 200 anos, católicos e evangélicos disseram coisas horríveis uns dos outros, mas depois que a Corte Suprema legalizou o aborto, em 1973, os protestantes descobriram que os católicos haviam trabalhado duro contra a aprovação. Então, perceberam que era possível se unir a eles com relação à defesa da vida, porque algumas posições como essa eram comuns aos dois grupos. Ao mesmo tempo, os evangélicos perceberam que os liberais que não acreditavam na ressurreição de Jesus ou na sua divindade, por exemplo, eram protestantes. Ou seja, estavam no mesmo barco, mas eram muito mais distantes. Mesmo não concordando com os católicos acerca do papel do papa, da natureza de Maria ou a ação dos santos – que são pontos importantes de discordância –, descobrimos pontos em comum também muito importantes com eles, até mais do que com os liberais. O resultado é que o diálogo e a cooperação aumentaram, e há muito diálogo acontecendo, mesmo sem querer unificar todos em uma só Igreja.

Mas aqui no Brasil os liberais não têm muita força, ao contrário dos EUA. Essa agenda mútua, por si só, pode aproximar os dois grupos?

Eu penso que o forte secularismo da sociedade contemporânea e a hostilidade que hoje existe ao cristianismo vai poder unir católicos e evangélicos. Isso é um desafio.

O senhor foi um opositor do governo do presidente George W. Bush, que contou com forte apoio protestante. Sente-se parte de uma minoria dentro da Igreja Evangélica americana?

Temos de começar com a história americana. Na fundação do nosso país, existia uma imagem da nação como um “novo Israel”, e que esse novo país era especial para Deus. Havia uma ideia de que os EUA surgiram no plano divino com um propósito especial. Então, há uma conexão muito forte do nacionalismo americano com o evangelicalismo. E o evangélico americano, na média, não tem sido bom em perceber as virtudes e defeitos da América, especialmente em termos de política externa. Os evangélicos em meu país aceitam tudo sem criticar – resultado, em parte, do período anticomunista, em que o ato de criticar era visto como falta de patriotismo. Por isso que, quando Bush foi à guerra, a maioria ficou do seu lado. Hoje, nós somos a nação mais poderosa que o mundo já viu desde o Império Romano. Mas é imoral querer dizer para outros povos “vocês vão fazer isso, queiram ou não”, como temos feito.

Qual sua visão sobre o governo Obama?

O presidente Obama já tem demonstrado que quer trabalhar em cooperação com outros países. O governo tem dito coisas como “vamos conversar com os inimigos e trabalhar com os aliados”. Isso representa uma mudança de rumo muito grande. Agora, se você me perguntar se Obama é um cristão genuíno, eu diria que sim; mas ele é um evangélico? Não. Eu acho que ele tem as dúvidas típicas de quem esteve nas maiores universidades do país, onde eu também estive [risos].

Aos 70 anos de idade, o senhor se considera um cristão inconformado?

Olha, como eu gosto da história da Igreja, que é o meu campo de formação, ela me ensinou que a maior tentação do cristianismo durante todos esses séculos foi o de se conformar com a cultura vigente e deixar de seguir Jesus, vivendo de maneira bíblica. Os exemplos são muitos, desde a Igreja medieval. Nós temos sempre que nos perguntar onde essa cultura satisfaz a Deus e onde precisa ser modificada, à luz da Bíblia. Nós precisamos adotar uma posição de permanente crítica ao establishment. O problema é que os cristãos, ao longo da história, começaram a abraçar a cultura ocidental. Devagar, sem perceber, começamos a fazer parte dela. O problema que vejo hoje nessa cultura é o individualismo. Isso vai de encontro ao que a Bíblia define como comunidade. Quando as pessoas procuram a web, ou redes sociais, na verdade buscam uma comunidade – e a Igreja de Cristo tem a obrigação de adotar uma visão bíblica que valorize o indivíduo, mas também a de ser o lugar onde uma comunidade é oferecida. Ali, o amor dos irmãos e suas necessidades devem ser compartilhados, assim como os bens materiais, e os marginalizados precisam ser acolhidos. Onde existe solidão, a Igreja precisa oferecer uma solução.

No início da entrevista, o senhor falou que sua alma tem dois lados convivendo dentro dela – um otimista e outro pessimista. Qual é o mais forte?

Eu tenho, sim, uma grande esperança. Sei que Jesus está vivo e que Deus está no controle. Sei também que ele continua a sua obra com graça, mesmo nos momentos mais difíceis. E assim, sou esperançoso. Não no curto prazo, pois temos motivos para nos preocupar, mas a longo prazo. Sei aonde a história nos levará e que tudo será transformado e feito novo.

George Guilherme (Via Cristianismo Hoje)