Domingo, Janeiro 31, 2010

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Irada Terra Arretada Ri

Irada terra arretada ri: além de palíndromo, é o que me ocorre. A terra ri. Quando gargalha então, mexe com o planeta. Terremoto... Parece sádico?

Ri das teorias e explicações que dão às suas manifestações. Ri da inocência do homem que a considera amiga, aliada. A terra já não é – ou jamais foi – tão parceira assim da humanidade. Ri quando lhe fazem cócegas com foguetinhos aqui e ali. Quando lhe depilam as matas. Dá gargalhada com a lipoaspiração que faz jorrar seu sangue negro e depois, perde o fôlego de ver o mórbido tom pastel da mistura com o sangue humano brigando por aquele.

Irada a terra ri das contradições humanas e se pergunta:


Por que o ser humano só se mexe quando eu me mexo?

Mexo-me porque estou me acomodando, enquanto eles só se mexem quando são incomodados.

Reclamam das catástrofes, mas ajudam muito mais as instituições financeiras que seus iguais.

Reclamam dos paredões que esmagam crianças, mas ajudam mais em ligações aos paredões do BBB.

Reclamam do caos que provoco, mas vibram e vendem com as imagens que capturam.

Lastimam os escombros do mercado por cima de gente, mas suas leis de mercado oprimem, sufocam e aprisionam muita gente.

Rezam aos deuses e citam o apocalipse, mas não lutam o cada um por si e Deus por todos, e sim o cada deus por si e nenhum por todos.

Por isso tento ficar quietinho por aqui. Não tento agradar a terra nem a natureza. São inagradáveis. Suas investidas são indiscriminadamente severas. Se o sol nasce para todos, as enchentes também inundam todos, as erosões são por sobre todos, os furacões assopram sobre todos... Só abraçar árvore, rolar na lama, catar latinha na praia, pagar o mico-leão-dourado, não vai nos tornar amiguinhos da natureza. Nem a própria moderna eco-religião nos trará a paz com a deusa. Que ri.

Cem Reais. Cem Reais foi toda minha ajuda aos flagelados do Haiti - diz a religião cristã que não se deve proclamar uma boa ação - mas quando a boa ação parece uma gozação, acho que tudo bem. Talvez nem chegue até lá mesmo. É como se fosse um espermatozoidizinho aleijado e cego tentando chegar ao óvulo.

A hipocrisia e a covardia estão em mim como musgo em pedra de jardim. Vivem do sol e da água que reclamo para mim.

A Terra ri.
E nós choramos, por enquanto.


Wilson Tonioli, no Verticontes (Via Pavablog)

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

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Sem palavras...

“Pregue o Evangelho o tempo todo. Se necessário use palavras.”

A frase acima é comumente atribuída a São Francisco de Assis e usada como um pretexto para o seguinte:

“Não é mais necessário pregar, basta viver o Evangelho e as pessoas entenderão quem é Jesus.”

Primeiramente, quero dizer que gosto de São Francisco. Tenho suas obras completas (Escritos e biografias de São Francisco de Assis, Crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano), das quais li 1/3 aproximadamente, e sua vida muito me inspira. Um dos meus hinos favoritos é baseado em um cântico escrito por Francisco.

Em segundo lugar, apesar de ser reconhecidamente bem franciscana em seu espírito, tudo indica que a frase acima não é de São Franciso de Assis. Os mais eminentes estudiosos franciscanos pesquisaram todos os seus escritos e as biografias escritas até 200 anos após sua morte e não encontraram nelas tal frase. O mais próximo que chegaram foi a uma instrução que Francisco deu em sua Regra Não-Bulada dizendo que ninguém deveria pregar a menos que tivesse recebido permissão de seu ministro para fazê-lo. E acrescentou: “No entanto, todos os irmãos podem pregar pelas obras.” (RegNB 17.1 e 3)

Entretanto, uma vez que a frase é atribuída a São Francisco e usada para apoiar a atitude de cristãos pós-modernos de não pregar (visto que pregar é antiquado, ofensivo e politicamente incorreto), por que não olhar para a vida de São Francisco e ver se o modo como ele viveu sustenta essa teoria?

A biografia de São Francisco revela que ele foi um fervoroso missionário, viajou centenas de quilômetros para pregar (isso mesmo!) o Evangelho aos italianos, desejou muito alcançar os sarracenos (muçulmanos) chegando a enfrentar um naufrágio (na primeira tentativa de ir até a Síria) e enfermidade (quando se encontrava à caminho do Marrocos). Francisco era um pregador ao ar livre, falando nas feiras públicas, das escadarias das igrejas e das muretas nos pátios dos castelos. O livro St Francis of Assisi and the Conversion of Muslims por Frank Rega, narra o esforço de Francisco para converter Melek el-Khamil, sultão do Egito, durante a Quinta Cruzada (1219). Francisco esperava convertê-lo “não com armas, mas sim com palavras” diz o monge John Michael Talbot em seu livro Lições de São Francisco. Talbot cita Chesterton: “Francisco seguia esta máxima simples: É preferível criar cristãos a destruir muçulmanos.”

O capítulo 16 de sua Regra Não-Bulada trata dos que quiserem “ir para entre os sarracenos e outros infiéis.” Francisco dá a seguinte instrução: “Os irmãos que partirem [em viagem missionária] poderão proceder de duas maneiras espiritualmente com os infiéis: O primeiro modo consiste em abster-se de rixas e disputas… e confessando serem cristãos. O outro modo é anunciarem a palavra de Deus quando o julgarem agradável ao Senhor.” (RegNB 16.6-8)

Não há dúvidas de que São Franciso pregava, de que ele acreditava na necessidade de conversão das pessoas e de que usava palavras para comunicar o Evangelho. De fato, São Francisco gostava tanto de pregar, que ele passou a pregar até mesmo para os pássaros e animais (sim, com palavras!) de acordo com algumas das lendas a seu respeito, surgidas após sua morte (a mais famosa delas é o Fioretti escrito no século 14).

Assim sendo, creio que o sentido da frase não é que não devemos usar palavras. É que sempre que necessário, devemos usar palavras. E palavras são necessárias quando se trata de explicar a razão de nosso amor, fé e esperança.

É simplesmente impossível conhecer Jesus sem a pregação. Como argumentou o apóstolo Paulo “Como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue.”

Sem a pregação as pessoas podem até ter uma idéia de que servimos a Deus, mas ficam sem saber quem/como Ele é. Seria esse Deus a natureza ao nosso redor? Seria uma energia cósmica? Uma força impessoal?

A frase deveria ser vista mais como uma advertência contra a hipocrisia daqueles que pregam, mas não vivem o que pregam, do que uma instrução para que se pare de pregar e ensinar o Evangelho de maneira clara e verbal.

Para o seguidor de Jesus, pregar e ensinar não são opcionais. São uma ordem. Jesus disse: “Vão e preguem o evangelho a todas as pessoas” e “vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os… ensinando-os a obedecer tudo o eu lhes ordenei.”

Se há algo claro nas Escrituras é que obras não salvam. Isso foi denunciado pelos profetas no VT, demonstrado por Jesus e ensinado pelos apóstolos no NT. Boas obras podem ser praticadas em abundância, mas elas não são suficientes para salvação. Qualquer crente fiel ao espírito das Escrituras sabe que não faz obras para ser salvo, mas faz porque foi salvo, faz porque ama Aquele que nos amou primeiro e nos ensinou o amor pelo próximo.

Boas obras feitas em nome de Jesus demonstram amor. Mas as pessoas só saberão que é o amor de Deus que nos constrange se nos dispusermos a falar isso a elas, respondendo a todos os que nos perguntarem a razão de nossa esperança. Caso contrário, elas podem até pensar que foi Kardec, Buda ou Maomé quem nos inspirou a fazer tais obras.

Ao mesmo tempo, creio que devemos nos questionar o que há de errado quando, ao viver nossas vidas em devoção profunda por Deus e demonstração de amor pelo próximo com a prática de boas obras, ninguém nunca nos pergunta a razão de nossa esperança, fé e amor.

Viva o Evangelho o tempo todo. Quando lhe perguntarem a razão, use palavras.

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Um Deus Atraente e Irresistível

Eros é como um imã que nos arranca do isolamento, nos congregando ao redor da fonte do Amor e da vida: Cristo.

Eros é a energia atrativa, que faz convergir em torno de Cristo todas as coisas, para que, uma vez reunidas n’Ele, possam então cumprir o propósito de suas existências. Céu e terra, divino e humano, coisas espirituais e materiais, invisíveis e visíveis, eternidade e tempo, encontraram sua síntese em Cristo. A realidade n’Ele se integrou. Não há duas realidades, como bem frisou Dietrich Bonhoeffer, o extraordinário teólogo alemão.[1] Há uma realidade que contém dois lados, o visível e o invisível. O pecado gerou uma crise entre esses dois lados da realidade única, estabelecendo um abismo entre Deus e o homem. Mas o que faria um Deus apaixonado? Desistiria da criatura amada? Absolutamente. Em vez disso, Deus tomou a iniciativa, e transpondo esse abismo, fez-Se homem. Cristo é a união de duas naturezas antagônicas pelo pecado. N’Ele, o humano e o divino Se unem novamente. E não apenas se unem, mas se fundem. Ele não é parte Deus, parte homem. Ele é 100% Deus, e 100% Homem. Por meio d’Ele, o invisível se faz visível, o divino se faz humano, a eternidade adentra o tempo, o espírito se materializa. É o Eros divino que produz essa síntese, fruto da convergência entre as duas faces da mesma realidade. N’Ele céu e terra se reconciliam.[2]

“Quando eu for levantado na terra, atrairei todos a mim”, declarou Jesus.[3]

Era necessário que como homem, Ele experimentasse a morte inerente a todo ser humano, e assim, atraísse a Si todas as coisas.

Cerca de setecentos anos antes de Cristo, Isaias profetizou acerca do que Ele teria que passar para que o propósito de Deus, de fazer convergir n’Ele todas as coisas se concretizasse: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias, e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o trabalho da sua alma, e ficará satisfeito”.[4]

Eis o poder do Eros divino em ação. Embora a Cruz tenha sido uma morte horrível, tinha como propósito “o bom prazer do Senhor”. E que propósito é esse? “Fazer convergir em Cristo todas as coisas”.[5]

O que é a Igreja, afinal? O termo grego ekklesia significa “aqueles que foram atraídos para fora”. É isso que somos, enquanto povo de Deus na face da Terra. Aliás, mesmo os que deixaram a Terra, continuam a fazer parte desta ekklesia.[6] Juntos formamos uma única assembléia.
Isaías diz que “todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho”.[7] E Pedro diz: “Antes não éreis povo, mas agora sois povo de Deus”.[8] E Paulo vai ainda mais longe, ao dizer que estávamos sem Cristo, “não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto”.[9]

Convergir e converter são a mesma coisa. Antes que Cristo nos fosse apresentado, levantado naquela Cruz, posicionado verticalmente entre o céu e a terra, estávamos à deriva, como que entregues à própria sorte. Cada qual se desviava pelo seu próprio caminho. Mas aquele gesto supremo de amor seduziu nossa alma. De repente, demos meia-volta, giramos 180o, e fomos atraídos para Ele. A surpresa se dá quando percebemos que não somos os únicos seduzidos por Seu Amor. Gente de todas as direções, de todos os povos, línguas e culturas, está andando na mesma direção.

Por isso, quem se converte, converge, e quem converge, congrega. Todos são atraídos ao mesmo ponto: Cristo, nosso Alfa e nosso Ômega, nossa origem e destino comuns.

Qual deve ter sido a surpresa de João, o vidente de Patmos, ao perceber que não era o único a jubilar pelo Cordeiro que vencera a morte para abrir o livro lacrado, escrito por dentro e por fora, desencadeando assim a execução do propósito de Deus para toda a criação? Ele relata:

“Então olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos seres viventes, e dos anciãos; e o número deles era milhões de milhões e milhares de milhares (...) Então ouvi a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e no mar, e a todas as coisas que neles há, dizerem: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo o sempre”.[10]

Nós, e todos aqueles que foram igualmente atraídos a Ele, formamos a ekklesia de Deus no céu e na terra. Essa guinada de 180o graus é o que chamamos de conversão.

Essa conversão só é possível, por causa do poder atrativo que há n’Aquele que está assentado no Trono. Em Apocalipse, a ekklesia é apresentada como vinte e quatro anciãos, que vivem em torno do Trono. O Trono fica no meio de um círculo. Os vinte e quatro anciãos formam dois grupos de doze, que por sua vez formam uma meia-lua cada. Uma parte está à frente do Trono, a outra meia-lua está atrás do Trono. O grupo que está à frente representa os que estão do lado de cá da eternidade, representando também o povo de Deus da Nova Aliança; o grupo que forma a meia-lua por trás do Trono, representa os que estão do lado de lá da eternidade, representando também o povo da Antiga Aliança. Trata-se, portanto, da Igreja de Cristo de todas as eras, formada por aqueles que foram atraídos pelo poder do Eros divino.

Uma vez atraído a Ele, torna-se impossível escapar do Seu amor. Por isso, Paulo declara veementemente que “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”.[11]

[1] R.MARLÉ, Dietrich Bonhoeffer, Témoin de Jésus-Christ parmi ses Frères.Tournai, 1967, p.210: “Não existem duas realidades, mas uma só realidade de Deus, a qual em Cristo manifestou-se à realidade deste mundo. A realidade de Cristo abrange também a realidade do mundo. O mundo por si só, independentemente da Revelação de Deus em Cristo, não tem realidade nenhuma [...] Não há, portanto, duas esferas, mas um só, a da realização de Cristo, em que se encontram unidas a realidade de Deus e a do mundo”.
[2] Colossenses 1:20
[3] João 12:32
[4] Isaías 53:10-11a
[5] Efésios 1:10
[6] Hebreus 12:22-24
[7] Isaías 53:6a
[8] 1 Pedro 2:10a
[9] Efésios 2:12-13
[10] Apocalipse 5:11.13
[11] Romanos 8:38-39

Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

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A Love Song for Hati - Kirk Franklin / Christian Singers




Iniciativa brilhante de Kirk Franklin e do canal Gospel americano, reunindo muitos cantores da música cristã para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto no Haiti. A canção é lindíssima, e bem ao estilo "We are the World". Vale a pena conferir!

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EROS: Redescobrindo o prazer em Deus

Eros - É geralmente associado à sensualidade. Há quem o defina como algo biológico, físico, sensorial, hormonal, visceral. Nesse sentido, ele seria o tipo de amor responsável pela atração sexual entre os seres humanos. Entretanto, Eros não é necessariamente sensual, ou carnal. Sua idéia fundamental é a de romance e prazer. E devemos admitir que nem todo prazer está relacionado à sensualidade.[1] Sempre que nos afeiçoamos a alguém pelo simples prazer de sua companhia, estamos expressando a dimensão Eros do amor. A companhia do outro é a recompensa de nosso amor. Buscamos prazer, satisfação e alegria no outro. Não há nada de errado ou perverso nisso.

Eros também não tem nada de demoníaco ou pecaminoso. Não se pode confundir Eros com pornografia.

De acordo com a avaliação de Hildo Conte, teólogo, “para a maioria dos cristãos, o Eros sempre esteve mais ligado ao demônio do que a Deus, ao pecado do que a Graça. O verdadeiro Eros foi deturpado e pervertido, reduzido à sexualidade e, sobretudo à pornografia, perdeu seu profundo e religioso significado original”.[2]

Urge recuperarmos o sentido original de Eros.

Filoteo Faros, sacerdote da Igreja ortodoxa oriental, afirma que os primeiros teólogos e pastores da igreja primitiva definiam Eros como “aquela força superior que conduz o homem a Deus, aquele ‘Dom divino’ que o próprio Deus inspira no homem”.[3]

O amor de Deus tem seu aspecto erótico [4]. Nas palavras de John Piper, teólogo protestante, “o Eros de Deus anseia e se delicia na alegria eterna e santa do Seu povo”.[5] A relação proposta por Deus ao ser humano envolve prazer, satisfação, gratificação. Deus satisfaz-Se em nós, e nos dá a oportunidade de nos satisfazer n’Ele. Ou não é isso que lemos no Salmo 37:4: “Deleita-te no Senhor, e ele concederá os desejos do teu coração”?

Nossa alma é seduzida pelo doce amor de um Deus apaixonado.

Somos convidados e desafiados a buscar prazer em Deus, e nos banquetearmos n’Ele. E mais, somos conclamados a Lhe proporcionar prazer! Existir para a Sua glória é o mesmo que existir para o Seu deleite. Foi coberto de razão que o próprio Deus reclamou que as assembléias do Seu povo já não Lhe davam qualquer prazer.[6] Se o amor entre Deus e a humanidade não envolvesse essa dimensão de Eros, não haveria sentido na analogia do casamento, usada para expressar a união entre Cristo e a Igreja.

Deus jamais vai ficar aborrecido ou decepcionado por saber que O buscamos interessados no prazer que encontramos em Sua presença. Decepcionado Ele ficaria, se soubesse que Sua presença nos causa repulsa.

Observe o que Davi, o rei salmista afirma:

“Quão precioso é, ó Deus, o teu constante amor! Por isso os filhos dos homens se
abrigam à sombra das tuas asas (...) Tu lhes dás de beber da corrente das tuas delícias”. [7]

Muitos se escandalizariam, se ouvissem e meditassem no que o mesmo salmista diz em outro cântico: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti, o meu corpo te deseja muito em uma terra seca e cansada, onde não há água [...] Porque o teu amor é melhor do que a vida, os meus lábios te louvarão”. [8]

[1] A bem da verdade, não encontramos a palavra EROS no Novo Testamento, mas o seu equivalente hebraico AHEB é usado no Antigo Testamento.
[2] Conte, Hildo, A vida do Amor, Ed. Vozes, p.188
[3] Faros, Filoteo, A Natureza de Eros, p.39-40
[4] Erótico no sentido de ser derivado de Eros, e não no sentido sensual, geralmente chamado erotismo.
[5] Piper, John, Teologia da Alegria, p.116
[6] Amós 5:21
[7] Salmo 36:7,8b
[8] Salmo 63:1,3

* Extraído do Livro "Amor Radical" de autoria de Hermes C. Fernandes.

Quarta-feira, Janeiro 27, 2010

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Quem disse que BELEZA não é ESSENCIAL?

Enquanto a dimensão Agape do amor focaliza o Bem, a dimensão Eros focaliza a Beleza. O Agape se ocupa com a ética, enquanto que o Eros se ocupa com a estética.

A espiritualidade cristã sempre foi assediada pelo dualismo. Nele, o material é o oposto do espiritual. O corpo é o oposto da alma. O bom é oposto ao belo. A beleza é sempre vista com certa desconfiança, sendo considerada como algo que seduz, levando fatalmente ao pecado. No dualismo, encontramos de um lado o bem, o ético, e do outro lado, o belo, o estético. Este tipo de espiritualidade insiste em que o bem deve ser buscado às custas do belo.

Roberto Carlos expressou essa tendência dualista em uma composição que diz: “tudo o que eu gosto é imoral, é ilegal, engorda”. Esse tipo de postura gera uma ruptura em nosso ser. Passamos a associar a espiritualidade sadia à tudo que é feio, sem graça, esquisito, e enfadonho.

Passamos a enfatizar Agape às custas de Eros. Abraçar a feiúra, a insipidez passou a ser o sacrifício necessário para que conquistemos o bem supremo. Onélio Cardozo, célebre escritor cubano, acertou em cheio, quando afirmou: “O ser humano tem duas grandes fomes: a de pão e a de beleza; a primeira, é saciável, a segunda, infindável”.

Portanto, não faz sentido abrir mão do belo, como se isso fosse algo simplesmente supérfluo. A beleza é uma necessidade essencial do ser humano.

Em alguns círculos evangélicos, andar com roupas velhas, antiquadas, puídas, é visto como um sinal de virtude. Já quem procura andar um pouco mais produzido, dá sinais de que está espiritualmente frio, cedendo à vaidade, ao mundanismo. No catolicismo não é muito diferente. Há ordens em que os monges são obrigados a andar de forma mais modesta possível, como se isso fosse espiritualmente relevante.

Para corrigirmos esse dualismo doentio, há que se promover o casamento dessas duas dimensões do amor. Agape e Eros devem caminhar de mãos dadas. Ética e estética, o bem e o belo, não são excludentes entre si, mas expressam em conjunto, o amor, em suas múltiplas dimensões.

O Eros, aliado ao Agape, manifesta-se como impulso na direção de tudo o que é belo, bom, alegre e verdadeiro.[1] Se o Eros atribui beleza e sentido à vida, o Agape atribui valor. O Eros faz com que o sacrifício exigido pelo Agape, expresse a beleza do amor. Até uma cena horripilante como a crucifixão de Cristo, passa a ser vista como a mais bela expressão do Amor.

Sem as lentes do Eros, teríamos uma visão daltônica da vida. É o Eros que confere cores ao mundo, fazendo com que nos sintamos extasiados diante do espetáculo da vida.

Há um seriado americano muito famoso chamado Monk, que é transmitido no Brasil por um canal de TV por assinatura. Monk é um ex-policial que perdeu a farda, devido à sua condição emocional abalada pelo assassinato de sua esposa. Em vez de desistir da vida, ele preferiu tornar-se uma espécie de consultor para a polícia de São Francisco, na Califórnia. Por causa de sua tenacidade, ele acaba resolvendo a maioria dos casos. Mas o que tornou esse seriado um dos maiores sucessos da TV americana, são as manias de Monk. Ele é um perfeccionista excêntrico, que gosta de ver tudo no seu devido lugar. As coisas precisam estar alinhadas simetricamente. Quando comparece a uma cena do crime, Monk sofre terrivelmente, por não poder tocar em nada, para não contaminar as provas. Ele observa os mínimos detalhes. E esse é o segredo de seu sucesso como investigador. Sem contar sua mania de higiene. Por causa do sucesso do seriado, o canal resolveu entrevistar pessoas famosas, para checar se tinham algum tipo de mania. Para surpresa de muitos, a maioria dos entrevistados, entre atores e personalidades do show business, possuía alguma mania semelhante às de Monk.

Na verdade, todos buscamos sentido nas coisas que nos rodeiam. O ser humano busca arrumar as coisas de maneira tal que elas apresentem beleza, ordem, simetria, harmonia. Seja nas artes plásticas, na música, na política, na carreira profissional, na decoração da casa, na relação homem-mulher, queremos que tudo se encaixe perfeitamente, e consiga exprimir sentido e beleza.

Não nos acostumamos ao caos, à desordem, à assimetria. Por isso, diferentemente dos animais irracionais, interagimos com o ambiente, e o remodelamos ao nosso gosto. Queremos que o mundo seja, ao mesmo tempo, bom ao nosso ser, e belo aos nossos olhos. É o casamento de Agape e Eros que nos faz enxergar a vida com censo crítico.

Seria como se pelo Agape percebêssemos o bem que a ingestão de um alimento vai fazer ao nosso corpo. E pelo Eros, apreciássemos o sabor do prato que ingerimos. Quando abraçamos a ambos, comemos pelo bem que nos proporciona, e pelo prazer que nos confere. Sem Eros, até o bem mais precioso seria destituído de beleza e sentido. O mundo seria tão tenebroso, que se tornaria insuportável.

O Eros nos faz enxergar beleza naquilo que é bom. Foi inspirado nele que o salmista apaixonadamente declarou: “Glória e majestade estão perante a sua face; força e formosura no seu santuário [...] Adorai ao Senhor na beleza da sua santidade”.[2] Quando falamos da santidade divina, estamos nos referindo a uma realidade que deveria nos aterrorizar. O fato é que Ele é santo, enquanto nós somos pecadores. Isaías, quando se viu diante da santidade divina, sentiu-se tão aterrorizado que exclamou: “Ai de mim!” Mas quando Agape e Eros se integram, temos uma visão mais clara da majestade divina, e o que deveria nos aterrorizar, acaba nos atraindo por Sua beleza. Sentimo-nos atraídos, amados, perdoados e acolhidos na beleza da santidade do Rei dos Reis. O próprio Isaías profetizou que nos dias da Nova Aliança, quando Eros e Agape se integrassem novamente, veríamos “o Rei na sua formosura”. [3] Como disse John Owen, o grande puritano do século XVII: “Aqui vemos como Cristo é belo, glorioso, e desejável, porque Ele é quem mostra que Deus é amor”.[4]

A encarnação do Verbo Divino veio libertar-nos do dualismo. O Deus invisível revelou-Se na figura d’Aquele Galileu, e finalmente “vimos a sua glória, a glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade [...] Ninguém nunca viu a Deus, mas o Deus unigênito, que está ao lado do Pai, é quem o revelou”.[5] O cosmos foi tomado pela Beleza Divina. A Bondade Eterna revelou Sua Eterna Beleza. Por meio dela, fomos libertos da feiúra do pecado. Gosto do que diz Marcial: “Não há libertação verdadeira que não liberte da feiúra da fome e da dor injusta”.[6] A verdadeira feiúra não está na aparência de alguém, cuja fisionomia não se enquadre nos padrões atuais, e sim, na dor, na injustiça, na fome e no pecado.

Cada época tem seus padrões de beleza. Durante o Renascentismo, a mulher bela era a gordinha, rechonchuda. Naquela época, a gordura era sinal de fartura. A pele deveria ser alva, pois só os servos ficavam expostos ao sol. Por isso, pele bronzeada sinalava servidão. Os tempos são outros. O que antes era feiúra, hoje é beleza.

A verdadeira beleza não é cosmética, mas cósmica. Os cosméticos são obras das mãos humanas, enquanto o cosmos é obra das mãos de Deus. Pedro diz em sua epístola que a verdadeira beleza não é a produzida por cosméticos, e sim “a beleza interior, no incorruptível traje de um espírito manso e tranqüilo, que é precioso diante de Deus”.[7] Não há nada de errado em fazer uso de cosméticos. Tanto a mulher quanto o homem devem buscar cuidar de sua pele, de seus cabelos, e de sua aparência física, não só com cosméticos, mas também com exercícios físicos. O que se deve evitar é a extravagância e o mau gosto. Particularmente, não vejo vantagens em trocar a beleza natural, pela artificial. Os cosméticos devem tão-somente realçar o que já é natural na pessoa. O que não devemos é simplesmente conformar-nos aos padrões impostos pelo mundo, deixando-nos escravizar por eles.

Ninguém precisa ser magérrimo para ser belo. Nem tampouco exibir um corpo escultural. A verdadeira beleza é interior, e acaba se revelando exteriormente, no sorriso, nas expressões faciais e corporais. Salomão estava certo em dizer que “o coração alegre aformoseia o rosto”.[8]
É, sobretudo, no olhar, que conseguimos enxergar a beleza interior de alguém. Quanta beleza há num olhar meigo, dócil, ingênuo. De fato, os olhos são as janelas da alma.

A beleza genuína não pode ser comprada ou vendida. Tudo o que podemos fazer com relação a ela, é contemplá-la e acolhê-la. Não podemos nos apropriar dela. Ela está fora do alcance de nossa posse. Ela é gratuidade pura. A melhor coisa a fazer é se deixar maravilhar.

Pode-se comprar um CD, e nele ouvir as belas canções. Mas jamais se poderá comprar a inspiração de quem as compôs. Quando colhemos uma flor, atraídos por sua beleza, arrancamos-na da terra onde estava plantada, e a vemos murchar. Esse é o resultado de querer apropriar-se do belo.

Lembro de ter assistido na TV a uma mulher que afirmou ter gastado cerca de cem mil reais para ficar parecida com uma dançarina famosa. Depois de relatar com detalhes às modificações a que submetera seu corpo e seu rosto, aquela mulher ouviu da dançaria em quem se espelhara, que em vez de preocupar-se em parecer-se com ela fisicamente, ela deveria buscar cuidar de sua beleza interior.

É no afã de adquirir um corpo perfeito, ajustado aos padrões internacionais de beleza, que milhares de jovens e adolescentes estão sendo vítimas de anorexia e bulimia. Não vale a pena sacrificar a saúde em prol da estética.

Nossa sociedade consumista está banalizando a beleza em função do lucro. Substituiu-se a beleza natural pela artificial, o cosmos pelos cosméticos. E em nome dessa beleza artificial, as pessoas estão se mutilando. O maior ícone desse tipo de comportamento em nosso tempo é o cantor norte-americano Michael Jackson. Insatisfeito com sua aparência, ele já se submeteu a várias cirurgias plásticas corretivas, que modificaram completamente a anatomia de seu rosto. Até a cor de sua pele foi alterada.

Não serão as indústrias cosmética e têxtil que farão com que o homem e a mulher modernos alcancem a estética perfeita.

Quando integramos as dimensões Agape e Eros do amor, encontramos a harmonia entre o belo e o bom. O que é ético, passa a ser também estético. De acordo com Von Balthasar, teólogo suíço, com “base nos conceitos transcendentais, existe primeiro o conceito de ‘bondade’, depois se chega à ‘beleza’ e por fim se encontra a expressão desta, que é a ‘verdade’”.[9] Através da revelação de Deus exposta no Evangelho, passamos a maravilhar-nos estupefatos diante da beleza de Cristo. O que é bom passa a ser apreciado em sua beleza. Sem esta revelação concedida pelo Espírito Santo, olhamos para Cristo, e não vemos qualquer beleza. Nas palavras de Isaías, em Seu sofrimento vicário, Cristo “não tinha parecer nem formosura; e, olhando nos para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais indigno entre os homens, homem de dores, e experimentado no sofrimento. Como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum”.[10] Sem a revelação da Graça, a Cruz não expressa qualquer bem ou beleza. Ainda hoje, as pessoas ficam horrorizadas diante de uma encenação da crucifixão de Cristo. Não foi em vão que o filme “A paixão de Cristo”, dirigido por Mel Gibson, e que retratou de forma crua o martírio de Jesus, foi taxado pelos críticos como um filme extremamente violento e sensacionalista.

Isso se dá pelo fato de que “o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus”.[11]

No homem sem Deus, o Eros está desvinculado do Agape. E o resultado disso é que ele aprecia o que é mal, e sente-se atraído pelo que é errado. A ele cabe a advertência bíblica: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade, que põem o amargo por doce, e o doce por amargo”.[12]

Mas quando nos convertemos a Deus, por intermédio de Cristo, o Eros e o Agape se integram novamente, e passamos a desejar o que realmente é digno de ser desejado.

Conhecendo a verdade, somos libertos da superficialidade, da escravidão da vaidade, e somos conduzidos à genuína beleza, que reside na bondade do Criador.

Uma vez tendo provado da bondade de Cristo, sentir-nos-emos atraídos a Ele. [13] Passaremos, então, a ocupar nossa mente com “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama”, em que haja “alguma virtude” e “algum louvor”.[14] Ocupar nossa mente com tais coisas não será um exercício hercúleo, torturante, mas sim, algo extremamente prazeroso. Nosso coração estará batendo no compasso do coração de nosso Pai Celestial.


[1] A trindade grega das virtudes estéticas são o bom, o verdadeiro e o belo.
[2] Salmo 96:6,9
[3] Isaías 33:17
[4] Owen, John, A Glória de Cristo, PES, P.20
[5] João 1:14b,18
[6] Maçaneiro, Marcial, Mística e erótica, p.18
[7] 1 Pedro 3:4
[8] Provérbios 15:13
[9] Extraído do livro Os Grandes Teólogos do Século XX, de Battista Mondin, p.549
[10] Isaías 53:2-3
[11] 2 Coríntios 4:4
[12] Isaías 5:20
[13] 1 Pedro 2:3-4
[14] Filipenses 4:8

Extraído do Livro "Amor Radical" , de Hermes C. Fernandes

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

5

Um BASTA aos pregadores FILHOS DA SANGUESSUGA!




"A sanguessuga tem duas filhas, a saber: Dá, Dá. Há três coisas que nunca se fartam, quatro que nunca dizem: Basta. A sepultura, a madre estéril, a terra que não se farta de água, e o fogo, que nunca dizem: Basta”. Provérbios 30:15-16

Que vergonha!

Como Sansão, temos sido expostos publicamente ao vitupério, para que o mundo se divirta às nossas custas. Fomos de um extremo ao outro: de heróis da fé a bobos da corte. Deitamos no colo de Dalila, permitindo que ela passasse sua afiada navalha em nossa honra. Dentro da simbologia bíblica, “cabelos” significam honra. É preferível ter a navalha em nossa própria carne, a tê-la em nossa honra.

Tivemos nossos olhos vasados, e fomos empregados no moinho dos filisteus. De inimigo "número um" do pecado, da injustiça e da corrupção, tornamo-nos na força motriz que mantém seu moinho em movimento. O sistema contra o qual lutávamos nos domesticou. Perdemos a ferocidade. E agora, inofensivos, somos expostos no Templo de Dagon, ridicularizados por aqueles que antes nos temiam e respeitavam.

Temos sido pegos com a mão na botija! Flagrados fazendo o que sempre condenamos com tanta veemência. Dinheiro na cueca, na meia, na Bíblia, na alma. A Besta do Apocalipse nos etiquetou.

Resta-nos o último pedido! Alguém se candidata a fazê-lo? 

Quem se colocará entre os pilares do templo de Dagon? 

Quem diria que um dia teríamos que orar, pedindo: Só mais uma vez, Senhor! Volta a dar-nos a força que  tínhamos. Hoje temos força política, mas não temos força moral, muito menos espiritual.

De acordo com Salomão, a sanguessuga é mãe de gêmeos homônimos. Suas crias são conhecidas com o sugestivo nome de “Dá”. Elas são comparadas à três coisas que nunca se fartam, e quatro que jamais dizem “basta”: a sepultura, a madre estéril, a terra que não se farta de água, e o fogo, que em sua fúria, jamais se sacia.

Dá e Dá são a “igreja”(com “i” minúsculo, mesmo) e as instituições públicas, que numa relação incestuosa, geram cada vez mais sanguessugas, ávidas de poder, fama e dinheiro. Talvez hoje, Salomão as chamasse de "Toma lá" e "Dá cá".

A sepultura é aquela que recebe o cadáver, e o decompõe. Não há excessão: todos os que nela são colocados se corrompem (nos dois sentidos). A sepultura é semelhante às filhas da sanguessuga.

No caso em questão, a sepultura é a igreja evangélica institucionalizada, que tornou-se o ambiente onde cadáveres vivos, verdadeiros zumbis, estão se decompondo em plena luz do dia. A ética é relativizada e flexibilizada de acordo com os mais excusos interesses. Engole-se camelos, enquanto mosquitos são cuidadosamente coados.

A madre estéril é a igreja que já não gera filhos, pois vive de adesões, e não mais de conversões. Dada a sua esterilidade, ela “adota” filhos, que às vésperas das eleições, forjam conversões, para conquistar os votos dos irmãos desavisados.

A terra, por sua vez, tem um incrível poder de absorção. Não importa o volume de água, ela sempre o absorve. Assim, a igreja evangélica vem absorvendo as práticas do mundo, sob o pretexto de contextualizar-se, tornando-se menos intransigente, e mais atraente aos olhos do mundo, principalmente dos poderosos.

O fogo voraz não pode ser detido. Por onde passa, deixa um lastro de destruição e prejuízo. Tal é o apetite das filhas da sanguessuga.

São subproduto da relação incestuosa entre igreja e Estado.

Não bastasse a exploração que tem sido feita nos púlpitos, por profeteiros da hora, servos de Mamom, pastores agora trocam seus púlpitos por palanques, e o templo pelo plenário. E pior, negociam sua unção, por um apetitoso prato de lentilhas.

Os votos dos crentes tornaram-se moeda de troca. A honra da Igreja é vendida por alguns milheiros de tijolos, sacos de cimento, instrumentos musicais, carro, propriedades e cargos públicos para o pastor e seus familiares, etc.

Seria esta a igreja que em Apocalipse causa náuseas em Jesus? Não estaria ela prestes a ser vomitada? Ou seria esta a que Jesus ameaça tomar-lhe o candeeiro?

Se a igreja evangélica perder seu candeeiro, passará a funcionar na clandestinidade espiritual. Seu Alvará celestial terá sido cassado.

Que Deus tenha misericórdia de nós!

Ou que ele nos tire a tempo desta nova Babilônia que começa a configurar-se.

Não foi com isso que sonharam os Reformadores. Não era esta a igreja que Jesus tinha em mente, quando afirmou que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela.

A Igreja dos sonhos de Deus é bem diferente da Sanguessuga e suas filhas. Enquanto estas jamais dizem "basta", a genuína Igreja é a que declara em uníssono com Paulo: "A Tua Graça me basta!"

3

O futuro veio nos visitar!


Eu e meus filhos entramos a madrugada de hoje cantando, relembrando canções antigas que há muito não entoávamos. Foi uma sensação extraordinária. Difícil foi conter as lágrimas.

Depois, resolvi apresentar-lhes algumas canções de minha época de juventude. Imediatamente se identificaram com o teor revolucionário de suas letras, que diferentes dos hinos triunfalistas desta era gospel, apresentavam uma mensagem desafiadora e contestadora, e embalaram os sonhos de uma mocidade engajada na transformação do mundo.

Meu filho Rhuan reclamou que a juventude de hoje não sonha como a de minha época. Ele e Revelyn disseram que apesar de todo avanço tecnológico de nossos dias, prefeririam ter vivido aquela época em que os jovens saíam às ruas, desafiando o Status Quo. Até Rayane, minha filha especial, encheu os olhos de lágrimas, enquanto cantávamos.

Tive o prazer de ver seus olhinhos brilharem enquanto lhes contava sobre Francisco de Assis, aquele jovem monge que desafiou o poder papal, e resgatou, em seus dias, o teor revolucionário do Evangelho. Falei-lhes de seu avô, Cecílio Carvalho Fernandes, de suas passeatas pela Paz Mundial, e de seu desejo de mudar a história. Contei-lhes de jovens que nos anos 70 se reuniam em comunidades alternativas, nutrindo o sonho de construir uma sociedade onde as pessoas não valessem de acordo com suas posses.

Rhuan disse que acha que o cinismo dos jovens de hoje se deve ao fato daqueles terem falhado. Expliquei-lhe, então, que eles até tinham bons sonhos, e algumas vezes, uma boa práxis, porém não tinham um bom alicerce doutrinário. Tinha paixão, mas não tinham convicções fundamentadas nas verdades eternas. Por isso, falharam.

Muitos deles vivem hoje o estilo de vida que denunciaram em sua juventude.

Conversando com meus filhos até uma da madrugada, tive minhas esperanças renovadas. Estou convencido que sua geração vai mudar a história. Espero poder deixar-lhes um legado, minhas experiências, meus sonhos, meus ideais. Que onde eu parar, eles avancem.

Vou dormir agora, com meu coração em paz. Consegui atear-lhes fogo na alma.

O "estrago" está feito! O império das trevas que se cuide!

A revolução já começou! O futuro veio visitar-nos e estabeleceu morada entre nós.

Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

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Maldita paz!

Paz, quem não a quer? Durante a época de fim de ano ela se torna discurso, sendo desejada por cada pessoa para outros, para a cidade e para o mundo.

E de fato temos que desejar e buscar a paz (Jeremias 29:7). É dever de todos contribuir para tornar melhor o ambiente onde estamos inseridos.

Mas infelizmente não é isso que temos visto; o filme se repete: promessas, campanhas, passeatas e essa tal paz parece ficar no mundo da imaginação.

Bem estar, calmaria, tranqüilidade e ausência de perturbação que eram para ser sinônimo de paz, passam a ser de guerra. Pois “de onde vêm as guerras e pelejas entre vós? Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam?” (Tiago 4.1).

Ou seja, a busca pela comodidade e pela satisfação própria se tornaram a raiz de toda guerra.

“Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jeremias 17:5). Veja que essa passagem não esta dizendo que não devemos confiar em outro homem, o problema reside no fato de confiarmos em nós mesmo, esse é o perigo: confiança e amor próprio.

No momento em que o amor próprio se torna uma referência, a carne passa a ser o nosso braço e ficamos dispostos a satisfazer a vontade da mesma.

Com isso, percebe-se que o motivo de não termos paz é justamente por estarmos em paz conosco. A razão de tanta guerra é que tomamos a paz da carne como referência a ser seguida.

A autopaz nos faz pecar em paz!

Essa pseudopaz própria nos cega para a realidade ao redor. O homem perde a sensibilidade, não sente mais nada, o pecado vira rotina dando a impressão que tudo esta bem.

Para se ter paz deve-se primeiro buscar a paz de Deus que é completamente antagônica à paz do homem. No momento em que trocamos a autopaz pela paz do Alto, nosso riso se converte em pranto e nosso gozo em tristeza (Tiago 4:9b). O que antes dava paz, agora perturba, provoca agonia.

A paz do Alto não nos deixa pecar em paz!

Bendita guerra que o Espírito Santo provoca em nosso ser. Graças a ela somos livres dessa maldita paz de pecar em paz.. ELE nos faz sentir nossa miséria e horror ao pecado.

Esse é o caminho: ter paz com Deus, para então ter a verdadeira paz consigo e enfim com o próximo.

A verdadeira paz vem de cima, do Príncipe da Paz, Jesus.

Que essa paz continue nos deixando sem paz ao pecar, mas que não precisemos pecar para sentir esse incômodo.

E “a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (Filipenses 4:7).

Domingo, Janeiro 24, 2010

0

Justin Timberlake & Matt Morris - Hallelujah ( Hope For Haiti )

Sábado, Janeiro 23, 2010

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O colapso da sociedade

O profeta Miquéias fez um diagnóstico da sociedade do seu tempo. Dois mil e setecentos anos se passaram e os problemas identificados naquele tempo parecem ser os mesmos. Os tempos mudaram, mas o coração do homem é o mesmo. Os mesmos problemas que levaram a nação de Judá ao colapso, ainda hoje ameaçam a nossa civilização de uma bancarrota. Que problemas são esses?

1. A exploração dos pobres pelos ricos (Mq 2.1,2) - Os ricos imaginavam a iniquidade no coração em seus leitos e à luz da alva o praticavam, porque o poder estava em suas mãos. Eles cobiçaram campos e os arrebatavam. Cobiçavam casas e as tomavam. Eles faziam violência aos pobres ao criarem leis e sistemas de opressão para assaltar o direito do pobre. Eles faziam as leis, manipulavam as leis, escapavam das leis, porque se colocaram acima das leis. Todo o sistema econômico agia em benefício dos poderosos. Os pobres não tinham vez nem voz. Eles viviam oprimidos, amordaçados, perdendo seus bens, suas famílias e até mesmo sua liberdade.

2. A corrupção dos políticos inescrupulosos (Mq 3.1-3) - A classe política de Judá havia se corrompido a tal ponto de Miquéias chamá-los de canibais. Eles comiam a carne do povo, arrancavam a pele e esmiuçavam os ossos. Eles aborreciam o bem e amavam o mal. Em vez dessa liderança política conhecer e exercer o juízo agia de forma draconiana oprimindo o povo, cobrando impostos abusivos para ostentar seu luxo nababesco. Quando o injusto governa o povo geme. Quando a injustiça prevelece, a nação se desespera.

3. A injustiça clamorosa do poder judiciário (Mq 3.11) - Não apenas a classe política havia naufragado no mar profundo do lucro imoral, mas também, o poder judiciário que deveria fiscalizar com justiça os atos do governo também havia se capitulado à sedução da riqueza ilícita. Miquéias diz que eles davam as sentenças por suborno. Eles não julgavam conforme a justiça nem pelo critério da verdade. Os pobres não tinham chance de defender sua causa, porque os juízes eram subornados e as sentenças eram compradas.

4. A decadência generalizada da família (Mq 7.6) - A decadência da sociedade de Judá procedia do palácio, passava pelo poder judiciário e descia à estrutura familiar. As famílias não eram mais redutos de reserva moral, mas campos de guerra. O conflito havia se instalado dentro da própria família. Os filhos desprezavam os pais, as filhas se levantavam contra as mães, as noras se levantavam contra as sogras, e os inimigos do homem eram os da sua própria casa. A família em vez de ser uma contra cultura numa sociedade decadente, era o espelho dessa sociedade. O mal que estava destruíndo a nação estava instalado no núcleo mais íntimo da nação, a família.

5. A apostasia galopante da religião (Mq 3.11) - A religião judaica devia ser como um facho de luz no meio da escuridão da idolatria pagã. Os judeus tinham a Palavra de Deus. Eles eram o povo da aliança. Eles foram escolhidos por Deus para ser luz para as nações. Mas, em vez do povo de Deus influenciar o mundo, foi o mundo que influenciou o povo de Deus. A religião deles tornou-se contaminada pelo fermento do lucro. Seus sacerdotes ensinavam por interesse, os seus profetas adivinhavam por dinheiro. O amor do dinheiro e a ganância pelo lucro fácil corrompeu-lhes a alma e fê-los cair nas teias insidiosas da apostasia.

Esse não é apenas o diagnóstico de uma sociedade remota, esse é o retrato da sociedade brasileira. Não podemos nos calar. Não podemos nos conformar. É tempo de nos levantarmos e agirmos!


Rev. Hernandes Lopes Dias

Fonte: Sepal

Via: Emeurgencia

Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

1

Uma canção pelo Haiti

3

Não há pressa na Eternidade

O homem moderno tem pressa. Não é à toa que um dos super-heróis mais populares desta geração é o Flash, capaz de correr e fazer outras tarefas numa velocidade extraordinária. Flash é inspirado no deus grego Hermes, incumbido de transmitir aos homens as mensagens de Zeus. Sua principal característica era a velocidade, representada por seus pés alados.

Com o avanço tecnológico, as distâncias foram encurtadas. O que antes parecia tão longe, agora ficou tão perto. Uma viagem que antes demoraria dias, agora é feita em poucas horas. A indústria aeroespacial prevê que em trinta anos produzirá um avião supersônico que alcançará dez vezes a velocidade do som, sendo capaz de dar a volta ao mundo em apenas duas horas. A pressa deixou de ser a inimiga da perfeição, pra ser aliada à eficiência. O mundo tornou-se, de fato, numa aldeia global. Encurtando as distâncias, o homem almeja remir o tempo. As notícias são veiculadas pela TV e pela Internet em tempo real. Satélites estrategicamente posicionados ao redor do globo possibilita a informação instantânea.

A pressa é tamanha em receber informações, que os canais especializados já exibem várias notícias de uma só vez. Enquanto o repórter nos fala de uma tragédia ocorrida na Ásia, no rodapé da TV temos informações sobre a cotação do dólar, a meteorologia, e etc.

Como bem sinalizou Frei Betto, “a arte cinematográfica nos introduziu em um novo conceito de tempo. Não mais o conceito linear, histórico, que perpassa a Bíblia e, também, as obras de Aleijadinho ou Sagarana, de Guimarães Rosa. No filme, predomina a simultaneidade. Suprimem-se as barreiras entre tempo e espaço. O tempo adquire caráter espacial e, o espaço, caráter temporal. No cinema, o olhar da câmara e do espectador passa, com toda a liberdade, do presente para o passado e, deste, para o futuro. Não há continuidade ininterrupta”. Apesar das duras críticas que ele faz acerca desse novo conceito de tempo, Frei Betto conclui que há “algo de positivo nessa simultaneidade, nesse aqui-e-agora que nos impõem como negação do tempo. É a busca da interioridade. Do tempo místico como tempo absoluto. Tempo síntese/supressão de todos os tempos. Eis que irrompe a eternidade - eterna idade. Pura fruição. Onde a vida é terna”.

Tanto a TV, quanto a Internet, e outras mídias modernas, com seu novo conceito de tempo, nos oferece uma pálida metáfora da consciência que obteremos na Eternidade.

O conhecimento nos será acessível, não por informações sucessivas, mas por revelação. A diferença entre informação e revelação é que a primeira é mediada por alguém, enquanto que a segunda nos é diretamente transmitida por Deus. Em Jeremias 31:34, Deus nos garante: “Não ensinará alguém mais a seu próximo, nem alguém a seu irmão dizendo: Conhecei ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior”. Teremos acesso irrestrito à Mente de Cristo (1 Co.2:16). Na verdade, já o temos hoje, entretanto, sofremos constantes interferências de nossa mente natural, o que produz algum tipo de “ruído”, e compromete a qualidade de nossa comunhão. Mas na Eternidade, em posse de um corpo glorificado, estaremos aptos a conhecer “as profundezas de Deus”, que nos serão reveladas pelo Espírito Santo (1 Co.2:10). Será como se substituíssemos a conexão de discagem de nosso computador, pela de banda larga. Estaremos sempre on-line com Deus.

Teremos um conhecimento panorâmico da realidade. Entenderemos onde as partes se encaixam na formação do Todo. E o mais importante: compreenderemos onde cada evento da vida encontra seu lugar na execução do supremo propósito.

Na Eternidade, todos os tesouros do conhecimento e da sabedoria, disponíveis em Cristo, nos serão acessíveis. Encontraremos respostas para as sete questões básicas: Quem, O quê, Por quê, Para quê, Onde, Quando e Como. O sujeito, o objeto, a razão, o propósito, o local, o tempo e o modo nos serão revelados.

Na Eternidade ouviremos a execução completa da Sinfonia da Vida, com todos os seus acordes, incluindo os graves, os agudos, e até mesmo os dissonantes.

Contemplaremos o grande mosaico da existência, e distinguiremos a figura que dele emergirá.
Por enquanto, o que vemos é o avesso daquilo que o Grande Artista está bordando. Mas lá veremos o outro lado, e apreciaremos estupefatos à Sua obra-prima.

A música nos oferece uma analogia interessante para o tipo de percepção de tempo que nossa consciência terá na Eternidade. Agostinho nos brinda com sua compreensão do tempo:

“Vou recitar um hino que aprendi de cor. Antes de principiar, a minha expectação estende-se a todo ele. Porém, logo que o começar, a minha memória dilata-se, colhendo tudo o que passa de expectação para o pretérito. A vida deste meu ato dividi-se em memória, por causa do que já recitei, e em expectação, por causa do que hei de recitar. A minha atenção está presente e por ela passa o que era futuro para se tornar pretérito. Quanto mais o hino se aproxima do fim, tanto mais a memória se alonga e a expectação se abrevia, até que esta fica totalmente consumida, quando a ação, já toda acabada, passar inteiramente para o domínio da memória”.[2]

Na Eternidade faremos uma síntese perfeita do tempo. Viveremos um “agora eterno”, síntese de sucessivos eventos.

A diferença entre a maneira como percebemos o tempo no “tempo”, e como o perceberemos na Eternidade é que, em nossa condição caída, nossa expectação quanto ao futuro vira ansiedade, nossa memória do passado produz saudade, e nossa experiência do presente é temor e angústia. Temos receio de que o que é bom termine. Queremos eternizar os momentos bons, e evitar os momentos desagradáveis. Não será assim na Eternidade. Não estaremos exprimidos entre a ansiedade, a saudade e a angústia. Nossa consciência, livre da corruptibilidade, processará a síntese perfeita. Nossa memória nos permitirá revisitar experiências maravilhosas que houvermos tido. Nossas lembranças serão tão perfeitas, que será como se revivêssemos tais experiências. Cada momento terá o peso de uma eternidade. Cada momento será como um degrau de uma grande escada espiralada. Dos andares superiores, pode-se ver perfeitamente os andares que já percorremos. Não perceberemos o tempo numa forma linear, mas espiralada, como são nossos genes, como são as galáxias.[3] O tempo, como o compreendemos agora, segue um padrão linear. É como uma linha esticada, com pontas nos dois extremos. Se quisermos ver o passado, temos que olhar para trás. O futuro se nos apresenta como algo que está à frente. Já na eternidade, perceberemos o tempo como um carretel de linha. Passado, presente e futuro estarão sempre “presentes” nesse carretel eterno, sobrepondo-se uns aos outros. O tempo se apresentará em forma de espiral, como o fio telefônico ou uma mola.

Não haverá evento algum do qual queiramos nos esquecer. Não haverá porão em nossa alma, para que nele lancemos nossas lembranças dolorosas. Mesmo as experiências ruins que tenhamos tido durante o tempo de nossa peregrinação, serão relembradas de um modo diferente. Isso porque as entenderemos em um contexto mais amplo. Constataremos a veracidade da promessa que diz que todas as coisas cooperam em conjunto para o bem daqueles que amam a Deus, e que foram chamados segundo o Seu propósito (Rm.8:28). Eis a palavra mágica: propósito.

Veremos não apenas os fatos isolados, mas as conexões entre eles. Tudo fará sentido. E isso resultará num tipo de louvor e adoração até então desconhecido. Nosso culto racional será plenamente consciente.

[1] "Algumas vezes me pergunto do porque de ter sido eu quem desenvolveu a teoria da relatividade. A razão, eu acho, é que um adulto normal nunca pára e pensa na questão do tempo e do espaço - essas coisas são pensadas quando criança. No entanto, meu desenvolvimento intelectual foi atrasado, o que me fez pensar sobre isso apenas quando mais velho." - Albert Einstein
[2] Santo Agostinho LIVRO XI, 28 das Confissões.
[3] O DNA tem a forma de espiral, e sua função transmitir informações acerca das características de cada indivíduo. As galáxias também possuem forma espiralada, e segundo recentes teorias, o Universo funciona como uma computador, processando informações.

Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

2

A percepção do tempo na perspectiva da eternidade

“Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino, raciocinava como menino. Mas logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino” (1 Co.13:11).

Em nossa infância, percebemos o tempo de maneira diferente de quando chegamos à idade adulta. A impressão que tínhamos era de que o tempo passava bem devagar. Quanto mais almejávamos a chegada das férias, mais elas pareciam distantes. Contávamos os dias e as horas, até que, depois de uma “eternidade”, elas finalmente chegavam. Qual a criança que nunca quis que o tempo passasse mais rápido pra que chegasse logo a idade adulta, em que ela pudesse sair sozinha, ou comprar o que quisesse? Porém, depois que alcançamos a maturidade, o tempo parece correr. Temos saudades de quando éramos crianças, e gostaríamos de ter a oportunidade de voltar no tempo e aproveitar mais nossa infância.

Quanto mais avançamos no tempo, mais rápido ele parece passar. De uma natal para o outro é um pulo. Se pudéssemos, pelo menos, congelar o tempo! Ou quem sabe, manter nossos filhos sempre crianças, e nosso cônjuge sempre jovem!

Embora pareça que o tempo se acelere com o passar do tempo (desculpe a redundância!), o fato é que nossos anos continuam tendo 365 dias, nossos dias continuam tendo 24 horas, e nossos minutos ainda têm 60 segundos. O tempo continua o seu percurso sem qualquer alteração. É nossa percepção que muda, devido a nossa consciência.

Para exemplificarmos a relatividade da percepção que temos do tempo, imagine os 50 segundos vividos numa montanha russa. Eles parecem uma eternidade. Ou ainda: quanto tempo pareceu durar sua última visita ao dentista? O barulho daquele motorzinho fez com o tempo se prolongasse. Mas quando você está numa atividade prazerosa, que você gostaria que se estendesse um pouco mais, parece que o tempo voa. Contudo, não é o tempo que se altera. Ele permanece o mesmo. O que muda é a percepção que se tem dele.

De acordo com Piaget, nossas idéias sobre o tempo não são inatas, mas resultam de construções lógicas que se originam da experiência e da ação. A construção do conceito de tempo é longa e complexa, atravessando etapas distintas. Quando crianças, começamos a elaborar nosso conceito de tempo a partir do desenvolvimento da linguagem. A criança só constrói a noção de tempo quando é capaz de perceber a duração e a sucessão do tempo (simultaneidade) e o fato de que não é possível parar o tempo (continuidade). Aos poucos ela vai entendendo o significado das palavras “ontem”, “hoje”, “amanhã”, “agora”, “depois”. Até que domine a linguagem, ela poderá cometer erros do tipo: “Amanhã eu fui passear com meu pai”, ou “ontem eu irei...” Com o tempo ela vai se aperfeiçoando, passando a compreender a divisão do tempo em anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos. Tão logo seja alfabetizada, a criança aprende a contar as horas no relógio.

A impaciência da criança com o tempo é patente. Quem nunca se aborreceu com o filho perguntando insistentemente durante o trajeto de uma viagem: “Ainda falta muito pra chegar?”
São perguntas como esta que demonstram que desde cedo nós aprendemos que tempo e espaço estão intimamente relacionados. Inocentemente, intuímos o que a física moderna só tornou em teoria no século passado. De acordo com a teoria da relatividade de Albert Einstein, espaço e tempo estão interligados. Tempo e espaço, de fato, estão interligados indissoluvelmente.

O que liga o tempo ao espaço é o movimento. Por isso, todos os inventos para se medir o tempo se baseiam em algum tipo de movimento como o dos ponteiros ou pêndulo de um relógio, da areia na ampulheta, ou da sombra de um relógio de sol. Algo se movimenta quando ocupa posições diferentes no espaço. Percebemos, então, que não se pode conceber o tempo ou espaço como entidades isoladas, antes formam um conceito integrado de uma entidade que a Física passou a chamar de espaço-tempo quadrimensional (três dimensões para o espaço e uma para o tempo).O tempo, portanto, pode ser concebido como a "distância" que um determinado fato está em relação ao agora.

É dentro do binômio tempo-espaço, que o ser humano tem a oportunidade de se desenvolver, alcançando novos níveis de consciência.

Se não quisermos desperdiçar nossa vida, deixando-a aquém de nossas expectativas, precisamos cuidar do aqui-e-agora. É o que semearmos no aqui-e-agora, que nos fará ir além.

Aproveitar o aqui-e-agora é o que Paulo chama de “remir o tempo” (Ef.5:15-16). A palavra grega para “remir” é o particípio médio presente de exagoradzo, que significa “libertar da escravidão”. Na voz média significa “garantir para si mesmo” ou “salvar de perda”. Portanto, “remir o tempo” quer dizer poupar o tempo, garantir que ele não seja desperdiçado.

Num certo sentido, poderíamos dizer que não é o tempo que passa, e sim, nós que passamos por ele. A Bíblia confirma tal fato: "O homem, nascido da mulher, é de poucos dias e cheio de inquietação. Nasce como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece....Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; tu lhe puseste limites, e ele não poderá passar além deles." (Jó 14:1,2,5). Lemos ainda:"A duração da nossa vida é de setenta anos; e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, a medida deles é canseira e enfado; pois passa rapidamente, e nós voamos" (Salmos 90:10). Quão incômoda é esta verdade: Nós voamos! Não é o tempo que voa, somos nós. Por isso, devemos aproveitar ao máximo o tempo de que dispomos, não deixando escapar nenhuma das oportunidades que nos forem dadas. O grande gênio renascentista Leonardo da Vinci queixou-se de não ter tido tempo suficiente para fazer tudo o que desejava ter feito.

Há ainda duas passagens dos Salmos que chamam nossa atenção acerca disso. No salmo 39:4 lemos: "Faze-me conhecer, ó Senhor, o meu fim, e qual a medida dos meus dias, para que eu saiba quão frágil sou". Já o Salmo 90:12 diz: “Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos coração sábio”. Estar consciente do tempo de que dispomos nessa vida nos faz humildes e sábios. Portanto, o tempo possui um valor pedagógico para o homem.

Continua amanhã...

Quarta-feira, Janeiro 20, 2010

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O que surgirá dos escombros deste terremoto?

Muita coisa tem sido dita nestes últimos dias acerca do cataclismo que abateu o Haiti. A ONU afima ser a maior catástrofe de sua história. Será que se esqueceram da tsunami e de tantos outros terremotos que têm acometido o mundo nos últimos anos? O que torna a tragédia do Haiti mais importante em termos de repercussão é sua proximidade com o resto do Ocidente. A tsunami aconteceu lá do outro lado do mundo. Mas o Haiti parece um aviso de que coisas ruins também acontecem aqui no nosso quintal. Miami está logo ali!

Como cristãos, qual deveria ser nossa reação diante de uma tragédia desta magnitude?

Alguns preferem buscar explicações teológicas. Alguns crêem que tenha sido juízo de Deus, por causa de um pacto feito entre aquela nação e o diabo, quando lutava por sua independência da França no século XVIII. Outros atribuem ao próprio diabo, como se este tivesse poder sobre as forças naturais. Há também a turma do Open Theism, que aproveita a situação para reafirmar e propagar sua crença de que Deus não interfira na história, e nem ao menos conhece o seu desfecho. Tem também os que aproveitam para linkar o acontecimento à proximidade da volta de Jesus, catalogando-o como sinal dos tempos.

Enquanto os teólogos de plantão discutem, cristãos comuns arregaçam as mangas no afã de minimizar o sofrimento das vítimas.

O livro de Atos registra um terremoto ocorrido na cidade de Filipos, onde Paulo e Silas estavam encerrados na prisão. O abalo foi de tal magnitude que rompeu as grades, deixando todos os presos potencialmente livres. O carcereiro, desesperado, quis suicidar-se, mas foi impedido por Paulo, que garantiu-lhe que nenhum dos presos fugiria. Para a surpresa deles, o suicida perguntou-lhes: Que farei para ser salvo?

Ora, Paulo poderia ter entendido que aquele terremoto era juízo de Deus sobre os que o haviam preso injustamente. Ou poderia acreditar que tudo tinha acontecido para que ele fosse livre daqueles grilhões. Porém, Paulo não entendia os acontecimento partindo de seu próprio umbigo. É claro que ele não acreditava em acidentes. Havia um propósito naquilo tudo.

Em vez de aproveitar para fugir, Paulo se volta para aquele homem desesperado, e lhe diz: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo tu e a tua casa.

Que bom seria se a igreja contemporânea deixasse de discutir a razão das tragédias naturais, e aproveitasse o ensejo para levar uma palavra de conforto e salvação às vítimas. E não só palavras, mas também ações.

Não nos compete julgar, nem atribuir culpa a quem quer que seja. Nossa única atribuição é revelar a face amorosa do nosso Deus, que Se importa com a dor de suas criaturas.

Imagine se Paulo tivesse a postura de muitos cristãos de hoje em dia. Ele certamente deixaria que o carcereiro cumprisse seu intento, e ainda chegaria na igreja dando testemunho da vitória. Que vergonha! A mensagem pregada em nossos púlpitos tem produzido gente assim, que em vez de encarar a realidade, prefere fugir dela, com explicações mirabolantes que apaziguem suas consciências, em vez de aguçá-las em favor do seu semelhante.

Deus está dispensando advogados! Mas também não Se importa com Seus detratores.

Voltemos-nos para a realidade, e trabalhemos para transformá-la.

Ironicamente, o mesmo carcereiro que lhe fizera as feridas nas costas, levou-o para sua casa e as tratou. Daquele terremoto nasceu a igreja para a qual Paulo destinou uma de suas mais brilhantes epístolas: Aos Filipenses.

Que dos escombros deste terremoto no Haiti surja uma igreja vibrante, cheia de vida e desejosa de mudar o mundo. Dos escombros de nossas certezas teológicas, possa emergir uma igreja voltada para fora em busca de soluções, em vez de explicações.

Terça-feira, Janeiro 19, 2010

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Que haja um terremoto na consciência dos homens!



Encontrei este vídeo postado pelo PCAmaral, e por incrível que pareça, Arnaldo Jabour conseguiu expressar o que estava em meu coração nos últimos dias após a tragédia do Haiti.
Encontrei mais sabedoria e discernimento em suas palavras, do que na de muitos cristãos. Sem querer incorrer em clichês, devo admitir que neste caso, "as pedras estão clamando".

Domingo, Janeiro 17, 2010

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O silêncio dos conscientes

Diante das tragédias, sobretudo aquelas que nos tocam, oscilamos entre explicar e chorar. Explicar quase sempre é culpar.

Chorar é para quem sente a dor do outro, mesmo que distante, como sendo a sua. Nem todos choram. Só os que não bastam em si mesmos.

Depois do choro, que venha o silêncio. Não o silêncio não dos indiferentes, mas dos que se importam.

É o silêncio de quem está ocupado, fazendo o que podem para colher as lágrimas, alimentar, vestir ou ou levantar os que sofrem.

É o silêncio dos que têm coragem de calar diante do que não devem explicar.

Israel Belo de Azevedo (Título original: Coragem de calar)