Sábado, Dezembro 13, 2008

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O AI-5 e a perseguição religiosa no Brasil

Hoje faz 40 anos do AI-5. O Ato Institucional Número Cinco foi o quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar nos anos seguintes ao Golpe militar de 1964 no Brasil. Redigido pelo Presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, veio em represália à decisão da Câmara que se negara a conceder licença para que o deputado Márcio Moreira Alves fosse processado por um discurso pedindo ao povo brasileiro que boicotasse as festividades do dia 7 de setembro. Mas o decreto também vinha no correr de um rio de ambições, ações e declarações pelas quais a classe política fortaleceu a chamada linha dura do regime instituído pelo Golpe Militar. O Ato Institucional Número Cinco, ou AI-5, foi um instrumento de poder que deu ao regime poderes absolutos e cuja primeira conseqüência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano.

O AI-5 era o endurecimento do regime militar. A tortura tornou-se instrumento de política de Estado e a repressão entrou na sua fase mais violenta. Começava então o estranhamento entre o governo militar e a Igreja Católica, principalmente com o setor progressista, defensor da Teologia da Libertação, uma leitura da inspiração marxista do Evangelho. Aquele foi o único espaço que realmente encarou a ditadura. Até jovens evangélicos abandonados por suas igrejas encontraram apoio nos progressistas católicos. Diante do silêncio da maioria das igrejas evangélicas, para muitos seminaristas e pastores, a Igreja Católica tornou-se um grande guarda-chuva onde podiam se abrigar.

Em Volta Redonda, no sul do Estado do Rio de Janeiro, o pastor batista Geraldo Marcelo foi preso três vezes como agente da subversão, chegando a ficar 43 dias em poder dos militares. Ex-funcionário da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e membro do Conselho Fiscal do Sindicato dos Metalúrgicos, o religioso, hoje com 84 anos, superou os traumas e relembra dos cultos que realizava na cadeia: “Cinco companheiros se converteram e um deles hoje é pastor”, aponta. A mesma sorte não teve Anivaldo – preso em 1970, ele permaneceu 11 meses incomunicável no famigerado Departamento de Operações e Informações - Centro de Operações e Defesa Interna, o DOI-Codi, principal órgão de repressão do regime militar. Sofrendo torturas diárias, pensou em suicídio para não sucumbir à coação para entregar os amigos e irmãos de fé. “Eu pensava em me matar. A pressão era muito grande. Só que eu era forte – precisava de cinco, seis, para me torturar”, conta, ainda visivelmente comovido com as lembranças. “Foi pela ação de Deus que eu não morri. Eu me sentia como Jesus, querendo passar de mim aquele cálice de dor”.

Por sua vez, Anivaldo soube pelos torturadores que foi denunciado por um pastor e um bispo da Igreja Metodista. Mas a certeza só veio quando, anos depois, teve acesso à sua documentação nos arquivos da ditadura. “No meu processo está o bilhete que o pastor José Sucasas Junior e seu irmão, o bispo Isaías Sucasas, mandaram ao coronel Faustine, diretor do Serviço Nacional de Informações e presbiteriano, me entregando. Havia uma aliança implícita entre os setores conservadores da Igreja e os órgãos de repressão”, denuncia. A falta de registros históricos do período da ditadura pela Igreja Evangélica é uma das formas de não revelar seus paradoxos. A mesma denominação que o delatou também tinha setores que o apoiavam e à sua família. “Houve um bispo que tentou me visitar e não conseguiu. Igrejas oraram em atos de fé e coragem”.

Deduragem – Luiz Caetano Grecco Teixeira, também preso após o AI-5, lembra que a “deduragem era fenomenal” entre os crentes e até entre pastores e as próprias ovelhas. Ele conta que, numa reunião de oração de estudantes cristão, uma então líder da Aliança Bíblica Universitária, a ABU – hoje, pregadora conhecida – entregou ativistas aos agentes da repressão que entraram no recinto. Entre eles, estava Mozart Noronha, que na época era crente presbiteriano e hoje é pastor luterano no Rio. O nome da mulher, Grecco não revela. “É um acerto de contas pessoal”, justifica.

Para ele, a partir de 1970 houve um desmonte da consciência política da Igreja Evangélica brasileira, movimento com influência americana: “Veio para cá o chamado grupo da Califórnia, da extrema direita protestante americana, uma organização com muito dinheiro.” A ação do movimento consistia em enviar ao Brasil professores de teologia e recursos para tocar projetos educacionais ligados a igrejas. “Era a direita se fortalecendo dentro da Igreja."

A partir dali, começou a falência da Escola Bíblica dominical e o fortalecimento do modelo eclesial americano”, avalia Gracco.Percival de Souza, que em 1968 era repórter do Jornal da Tarde, em São Paulo, foi duas vezes enquadrado na Lei de Segurança Nacional, acusado de jogar o povo contra os militares através de suas matérias. Denunciado na Justiça Militar, o jornalista diz que não recebeu nenhuma palavra de apoio da igreja a que pertencia: “Só não fui preso pelos desígnios divinos”, comenta. Enquanto o regime prendia pessoas que sequer sabiam porque eram detidas, Percival lembra que movimentos extremistas de esquerda executavam sumariamente companheiros que consideravam ter práticas burguesas. Ele conta um episódio curioso: “Um casal de militantes comunistas foi repreendido simplesmente por cantar Parabéns pra você no aniversário da filha”. Percival também faz questão de contar que Diógenes de Oliveira, que durante o regime pertencia ao movimento revolucionário, em 2001 foi acusado de fazer acordo com a polícia para não incomodar o jogo do bicho, em Porto Alegre (RS), quando era coordenador financeiro da campanha de Olívio Dutra à reeleição para o governo do Estado. “Escapamos da ditadura militar e entramos na ditadura da mediocridade, inclusive na Igreja”, conclui Percival.
Fontes: Wikipéida e Eclésia

3 comentários:

  1. Olá Hermes. Gostei do blog. Um detalhe, eu sei o nome da delatora, hoje famosa "pregadora"...

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  2. Tenho acompanhado as suas publicações no Genizah.
    Através da leitura dos textos de sua autoria fica evidente o compromisso que tem, primeiramente, com a Palavra de Deus, o que é uma raridade nos dias atuais.
    Vale dizer que tenho aprendido bastante com eles (textos).
    Que Deus o recompense sempre!

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  3. é dificil acreditar que "irmãos em Cristo" dedurarm irmãos para ditadura.vergonhoso!
    bela materia!

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